sexta-feira, 22 de março de 2013

Legenda Perusina 56-59.

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Vendo o bem-aventurado Francisco que o Senhor queria multiplicar o número de irmãos, disse-lhes: “”Queridos irmãos e filhinhos meus, vejo que o Senhor quer nos multiplicar; por isso acho coisa boa e religiosa adquirir do bispo ou dos cônegos de São Rufino, ou do abade do mosteiro de São Bento, alguma igreja pequena e pobrezinha onde os frades possam dizer suas Horas, e ter, junto dela, só alguma casa pequena e pobrezinha, construída de barro e ramos, onde os frades possam descansar e cuidar de trabalhos conforme as suas necessidades; porque este lugar não é adequado e esta casa é muito pequena para os frades permanecerem, uma vez que é vontade do Senhor atualiza-los, e principalmente porque não temos aqui uma igreja onde os frades possam dizer suas Horas, e se alguém morresse não seria adequado sepultá-lo aqui nem numa igreja dos clérigos seculares”.

E essas palavras agradaram aos outros irmãos. Então o bem-aventurado Francisco levantou-se e foi ao bispo de Assis, e propôs ao bispo as mesmas palavras que tinha proposta aos frades. O bispo respondeu-lhe: Ïrmão, não tenho nenhuma igreja que possa dar-te”. Ele foi aos cônegos de São Rufino e disse palavras semelhantes; mas eles responderam como o bispo.

Então foi ao mosteiro de São Bento do monte Subásio e disse ao abade as mesmas palavras que tinha dito ao bispo e aos cônegos; e também contou como o bispo e os cônegos tinham respondido. O abade ficou com pena, fez uma reunião sobre o assunto com seus irmãos e, como foi da vontade de Deus, concederam ao bem-aventurado Francisco e aos seus frades a igreja de Santa Maria da Porciúncula, a mais pobre que tinham. Também era a mais pobrezinha do que qualquer outra que havia nos arredores de Assis; o que fazia tempo que o bem-aventurado Francisco desejava. Disse o abade ao bem-aventurado Francisco: “Irmãos, nós atendemos o que pediste; mas queremos que, se vossa congregação se multiplicar, este lugar seja a cabeça de todos vós”. Isso agradou ao bem-aventurado Francisco e a seus irmãos.

O bem-aventurado Francisco ficou muito contente com o lugar concedido aos irmãos e principalmente porque a igreja tinha o nome da Mãe de Cristo, era uma igreja tão pobrezinha, e também pelo apelido que tinha. Pois era chamada de Porciúncula, nome que prefigurava que devia ser a mãe e cabeça dos pobres frades menores. Chamava-se Porciúncula por causa da região onde a igreja tinha sido construída, que desde antigamente era conhecida como Porciúncula. Pois o bem-aventurado Francisco dizia: “O Senhor quis que nenhuma outra igreja fosse concedida aos frades e que primeiros frades não construíssem, então, uma igreja nova nem tivessem outra senão aquela porque isso foi uma certa profecia, que se cumpriu com a vinda dos frades menores”.

E embora fosse pobrezinha e já quase destruída por ter muito tempo, as pessoas de Assis e da região sempre tiveram muita devoção por aquela igreja, e a tem maior ainda até hoje. Por isso, imediatamente depois que os frades foram para lá para ficar, quase todos os dias o Senhor multiplicava seu número e a notícia e a fama disso espalhou-se do por todo vale de Espoleto. Antigamente era chamada de Santa Maria dos Anjos, e a província chama-se Santa Maria da Porciúncula. Por isso, depois que os frades começaram a restaura-la, diziam os homens e mulheres daquela província: “Vamos a Santa Maria dos Anjos”.

E embora o abade e os monges tivessem concedido livremente ao bem-aventurado Francisco e a seus frades aquela igreja sem nenhuma exigência ou pagamento anual, todavia o bem-aventurado Francisco, como um bom e experimentado mestre que quis edificar sua casa sobre a pedra firme, isto é, a sua congregação sobre a grande pobreza, mandava todos os anos ele mesmo um cestinho cheio de peixinhos chamados lascas como sinal da maior humildade e pobreza, para que os frades não tivessem nenhum lugar próprio nem permanecessem am algum outro lugar que não estivesse sob o domínio de alguém, de forma que os frades nunca tivessem de modo algum o poder de vender ou alienar. E quando os frades levavam todos os anos os peixinhos para os monges, eles, por causa da humildade do bem-aventurado Francisco, que fazia aquilo por que queria, davam a ele e a seus irmãos uma vasilha cheia de azeite.

Mas nós que estivemos com o bem-aventurado Francisco damos testemunho de que ele dizia sobre aquela igreja, e confirmando a palavra, que, por causa das muitas prerrogativas que o Senhor aí mostrou e lhe foi revelado nesse lugar, que a Bem-aventurada Virgem ama esta igreja mais do que todas as outras igrejas desde mundo que ela ama. Por isso, teve por ela a maior reverência e devoção durante todo o tempo de sua vida; e para que os frades tivessem sempre uma recordação em seus corações, perto de sua morte quis escrever em seu Testamento que os frades fizessem o mesmo.

Pois, próximo a sua morte, disse ao ministro geral e aos outros frades: “Quero ordenar e deixar em testamento o lugar de Santa Maria da Porciúncula, para que sempre seja tido pelos frades com a maior reverência e devoção. O que também nossos antigos frades fizeram: pois ainda que aquele lugar seja santo, eles mantinham a sua santidade com oração contínua, de dia e de noite, e contínuo silêncio. E se alguma vez falavam depois do termo determinado para o silêncio, tratavam com a maior devoção e honestidade das coisas que diziam respeito ao louvor de Deus e à salvação das almas. E se acontecesse, o que era raro, que alguém começasse a dizer algumas palavras inúteis ou ociosas, era imediatamente corrigido por outro. Portanto, maceravam a carne não só pelo jejum, mas por muitas vigílias, frio, nudez e trabalho de suas mãos. Pois muitas vezes, para não estarem ociosos, iam ajudar as pessoas pobres em seus campos, e elas às vezes lhes davam pão por amor de Deus”.

“Com essas e outras virtudes santificavam a si mesmos e ao lugar, e os outros que vieram depois deles por muito tempo vieram de maneira semelhante, embora não tanto”. “Mais tarde, entretanto, pela vinda de muitos frades e de outros que se reuniam naquele lugar, mais do que tinha sido costume, principalmente porque era bom que todos os frades da religião fossem lá, e o mesmo acontecia com os que queriam entrar na Religião. Também porque os frades são mais frígidos na oração e nas outras boas obras, e mais dissolutas para proferirem palavras ociosas e inúteis e comunicar notícias desde século, aquele lugar não é tido pelos irmãos que ali moram e pelos outros religiosos com tanta reverência e devoção como convém e como eu gostaria”.

“Pois quero que sempre esteja sob o poder do ministro geral e por isso ele tenha maior cuidado e solicitude de providenciar por ele, especialmente para colocar aí uma boa e santa família. Os clérigos sejam escolhidos entre os frades mais santos e mais honestos, e que saibam dizer melhor o ofício em toda a religião, para que não só as outras pessoas mas também os frades os ouçam de boa vontade com grande devoção. Escolham-se frades e leigos santos, homens honestos e discretos, que os sirvam. “Também quero que nenhum frade ou outra pessoa entre naquele lugar a não ser o ministro geral e os frades que ali servem. E eles não conversem com nenhuma pessoa a não ser com os frades que os servem e com o ministro, quando os visitar.

“Quero igualmente que os frades leigos que os servem sejam obrigados a não lhes referir nenhuma palavra ou notícia deste mundo que tiverem ouvido e que não fossem úteis para a alma. E por isso quero especialmente que ninguém entre naquele lugar, para que eles conservem melhor sua pureza e santidade, e que naquele lugar não se profiram palavras vãs e inúteis para a alma, mas se conserve e mantenha todo puro e santo em hinos e louvores do Senhor. E quando algum desses irmãos migrar, onde quer que houver outro frade santo, faça o ministro geral com que ele venha para cá, no lugar do que tiver morrido. Porque, se em algum tempo os frades e os lugares onde moram decaírem da pureza, santidade e honestidade que convém, quero que este lugar seja o espelho e o bom exemplo de toda a religião e como um candelabro diante do trono de deus e diante da bem-aventurada Virgem, pelo qual o Senhor propicie aos defeitos e culpas dos frades e conserve e proteja sempre a religião e sua plantinha”.

Certa ocasião, perto do capítulo que estava para ser realizado, e que naquele tempo se fazia todos os anos em Santa Maria da Porciúncula, considerando o povo de Assis que os frades eram uma graça do Senhor, já multiplicados e multiplicando-se todos os dias, e que, principalmente quando todos se reuniam ali para o capítulo, não tinham senão uma pobrezinha e pequena cabana coberta de palha, com paredes feitas de galhos e barro, como os frades tinham feito no começo, quando foram para lá para ficar, fizeram uma reunião geral e, em poucos dias, com pressa e grande devoção, construíram lá uma casa grande com paredes de pedra e cal, sem o consentimento do bem-aventurado Francisco, que estava fora. Quando o bem-aventurado Francisco voltou de uma província e veio para o capítulo, viu aquela casa construída ali e ficou muito admirado com isso. E pensando que, por causa daquela casa, os frades iam edificar ou fazer edificar grandes casas nos lugares onde moravam ou haveriam de morar, e principalmente porque queria que aquele lugar fosse a forma e o exemplo de todos os lugares dos frades, antes do fim do capítulo, levantou-se um dia e subiu ao telhado da casa mandando que os frades subissem, e, com os frades, começou a jogar no chão as telhas com que estava coberta, querendo destruir a casa.

Quando viram isso, alguns soldados de Assis e outros que ali estavam por ordem da comuna da cidade para proteger o lugar para os seculares e forasteiros que tinham vindo de todas as partes para ver o capítulo dos frades, que o bem-aventurado Francisco e os outros frades queriam destruir a casa, foram logo a eles; e disseram ao bem-aventurado Francisco: “Irmão, esta casa é da comuna de Assis e nós somos seus representantes; por isso te dizemos que não destruas nossa casa”. O bem-aventurado Francisco disse: -- “Então, se a casa é vossa, não quero toca-la”. E desceu logo dela, e os outros frades que estavam com ele também desceram. Por isso, o povo da cidade de Assis resolveu, durante muito tempo, que quem fosse o seu “podestà” teria que cobri-la e restaurar, se fosse necessário. Em outra ocasião, o ministro geral queria fazer aí uma casa pequena para os frades daquele lugar, onde pudessem descansar e dizer suas Horas, principalmente porque naqueles tempos todos os frades da religião e os que vinham à Religião vinham e recorriam àquele lugar, pelo que aqueles frades se cansavam muito quase todos os dias. Também por causa da multidão de frades que se reuniam naquele lugar não tinham um espaço onde pudessem descansar e dizer suas Horas, pois tinham que ceder aos outros os lugares onde se deitavam. Por isso passavam muitas vezes por muitas tribulações, porque, depois de muito trabalho, quase não podiam satisfazer à necessidade do corpo e à utilidade da alma.

Quando essa casa já estava quase construída, eis que voltou ao lugar o bem-aventurado Francisco e, enquanto estava descansando em uma pequena cela, de noite, ouviu de manhã o tumulto dos frades que lá trabalhavam, e começou a ficar admirado do que seria. Perguntou a seu companheiro: “Que barulho é esse? O que estão fazendo aqueles frades?”. O companheiro contou-lhe tudo como era. Ele mandou chamar imediatamente o ministro, dizendo: -- “Irmão, este lugar é forma e exemplo de toda a religião; por isso prefiro que os frades deste lugar suportem as tribulações e necessidades por amor de Deus, para que os frades de toda a religião, que vêm aqui, contem o bom exemplo de pobreza em seus lugares, em vez de falarem de suas satisfações e consolações; e os outros frades da Religião o tomassem como exemplo para edificar em seus lugares, dizendo: No lugar de Santa Maria da Porciúncula, que é o primeiro lugar dos frades, edificam-se tais e tantos edifícios, que bem podemos edificar em nossos lugares, porque não temos um lugar adequado para ficar”.



[57]

Um frade, homem espiritual, de quem o bem-aventurado Francisco era muito familiar, permanecia em certo eremitério. Considerando que, se alguma vez lá fosse o bem-aventurado Francisco, não teria um lugar apto para ficar, mandou fazer num lugar afastado, perto do lugar dos frades, uma pequena cela, onde o bem-aventurado Francisco pudesse rezar quando fosse lá. E acontece que, não muitos dias depois, chegou o bem-aventurado Francisco. Quando foi levado pelo frade para ver a cela, disse-lhe o bem-aventurado Francisco: -- Essa cela me parece muito bonita. Mas, se queres que eu fique nela por alguns dias, mande fazer-lhe um revestimento tanto interno quanto externo de samambaias e galhos de árvores”.

Pois a cela não era murada mas feita de madeira. Mas como as tábuas eram planas, feitas com machado e enxó, o bem-aventurado Francisco achou que era bonita demais. O frade mandou adaptá-la imediatamente, como dissera o bem-aventurado Francisco. Pois quanto mais as celas e casas dos frades fossem pobrezinhas e religiosas, via-as com mais boa vontade e às vezes nelas se hospedava. Como tivesse ficado e rezado nela por alguns dias, eis que um dia, perto da cela, fora do lugar dos frades, um certo irmão, que estava no lugar, foi onde o bem-aventurado Francisco estava.

O bem-aventurado Francisco perguntou-lhe: “De onde vens, irmão?”. Ele disse: -- “Venho de tua cela”. O bem-aventurado Francisco disse-lhe: “Porque disseste que a cela é minha, vai ser outro que vai ficar nela de agora em diante, não eu”. Nós, que estivemos com ele, ouvimo-los muitas vezes dizendo aquela palavra do Evangelho: “As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça”. E dizia: “Quando esteve no cárcere, onde jejuou quarenta dias e quarenta noites, o Senhor não mandou fazer uma cela nem uma casa, ficou embaixo de uma rocha da montanha”. E por isso, a exemplo dele, não quis ter casa nem cela neste século, nem mandou fazer para si. Mais, se alguma vez acontecesse de dizer aos frades: “Ajeitem de tal forma esta cela”, depois não queria ficar nela, por causa daquela palavra do santo Evangelho: “Não vos preocupeis”. Pois perto de sua morte quis que fosse escrito em seu Testamento que todas as celas e casas dos frades não deviam ser construídas a não ser de barro e galhos, para conservar melhor a pobreza e a humildade.



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Por isso, em certa ocasião, quando estava em Sena por causa da doença nos olhos e morasse numa cela, onde depois de sua morte foi edificado um oratório para reverenciá-lo, disse-lhe o senhor Boaventura, que dera a terra aos frades, onde fora edificado o lugar dos frades: “Que te parece deste lugar?”. O bem-aventurado Francisco respondeu-lhe: “Queres que te diga como os lugares dos frades deveriam ser construídos?”. Ele respondeu: -- “Quero, pai”. Disse-lhe: “Quando os frades vão a alguma cidade, onde não têm um lugar, e encontram alguém que lhes queira dar tanta terra que possam edificar um lugar e ter uma morada e o que lhes for necessário, primeiro eles têm que considerar quanta terra lhes basta, sempre levando em conta a santa pobreza que prometemos e o exemplo que devemos dar aos outros em tudo”.

O santo pai dizia isso porque não queria, em ocasião alguma, que os frades, nas casas, igrejas, hortas ou outras coisas que usavam excedessem o modo da pobreza nem possuíssem algum lugar com direito de propriedade, mas sempre morassem nelas como peregrinos e forasteiros. Por isso queria que os frades não fossem colocados em grande número nos diversos lugares, porque lhe parecia difícil observar a pobreza em quantidades grandes. E essa foi a sua vontade desde o começo de sua conversão e até o fim na sua morte, que a santa pobreza fosse absolutamente observada. “Depois deveriam ir ao bispo da cidade e dizer-lhe: Senhor, tal pessoa, por amor de Deus e pela salvação de sua alma quer dar-nos tanta terra para que aí possamos construir um lugar; por isso recorremos a ti primeiro, principalmente porque és o pai e senhor das almas de todo o rebanho a vós confiado , como das nossas e dos outros frades que permanecerem neste lugar. Por isso queremos aí construir com a bênção de Deus e a tua”.

Mas o santo dizia isso porque o fruto das almas que os frades querem fazer no povo é melhor conseguido com a sua paz, com lucro deles e do povo, do que escandalizando os prelados e os clérigos, mesmo que o povo sai ganhando. E dizia: “O Senhor nos chamou para ajudar a sua fé e a dos prelados e clérigos da santa mãe igreja; por isso, quanto pudermos, temos que amá-los sempre, honrá-los e venerá-los. Pois é por isso que se chamam frades menores, porque tanto de nome como de exemplo e por obra devem ser humildes diante das outras pessoas deste século. E porque desde o início de minha conversão, quando me separei do século e do pai carnal, o Senhor pôs sua palavra na boca do bispo de Assis para que me aconselhasse bem no serviço de Cristo e me confortasse. Por isso, e por muitas outras coisas excelentes que considero nos prelados, não só nos bispos mas também nos sacerdotes pobrezinhos, quero amá-los, venerá-los e tê-los como meus senhores”.

“Depois de recebida a bênção do bispo, vão e façam abrir um grande sulco ao redor do terreno que receberam para a construção do lugar, e nele coloquem uma boa sebe como muro, em sinal da santa pobreza e humildade. Depois façam construir casas pequeninas de barro e galhos e algumas pequenas celas, onde os frades possam orar de vez em quando e também trabalhar, para sua maior honestidade e também para se precaver das palavras ociosas. Façam construir também igrejas; pois os frades não devem mandar fazer igrejas grandes com a desculpa de que é para pregar ao povo nem por alguma outra desculpa, porque há maior humildade e melhor exemplo quando os frades vão a outras igrejas para pregar, para observarem a santa pobreza e a sua própria humildade e honestidade”.

“E se alguma vez forem visitados por prelados ou clérigos, religiosos ou seculares, as casas pobrezinhas, as celas e as igrejas existentes no lugar vão ser uma pregação para eles, e ficarão edificados”. E disse: “Pois muitas vezes os frades mandam construir grandes edifícios, rompendo nossa santa pobreza e dando ocasião de murmuração e mau exemplo para o próximo. Depois, com a desculpa de ir para um lugar melhor ou mais são, abandonam aqueles lugares e edifícios. E, por isso, os que aí deram suas esmolas e outros que vêem e ouvem ficam muito escandalizados e perturbados. Por isso é melhor que os frades façam construir lugares e edifícios pequenos e pobrezinhos, observando sua profissão, e dando bom exemplo ao próximo, do que fazerem contra a sua profissão e darem mau exemplo aos outros. Porque, se alguma vez acontecesse que os frades, com a desculpa de um lugar mais honesto, abandonassem os lugares pequenos e pobrezinhos, haveria por isso muito mau exemplo e escândalo”.



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Naqueles dias e na mesma cela em que o bem-aventurado Francisco tinha dito essas palavras ao senhor Boaventura, uma tarde, como quisesse vomitar por causa do mal do estômago, aconteceu-lhe que, tendo feito muita força, vomitasse sangue, e assim ficou vomitando sangue durante toda a noite e até o amanhecer. Quando os companheiros viram que ele estava quase morrendo por causa da fraqueza e da dor da doença, disseram-lhe com muita dor e derramando muitas lágrimas: “Pai, que vamos fazer? Abençoa a nós e aos teus outros irmãos. Além disso, deixa aos teus frades alguma lembrança da tua vontade, para que, se o Senhor quiser chamar-te deste século, os teus frades sempre possam dizer e ter na memória: Nossa pai deixou estas palavras para seus filhos e frades em sua morte”.

Mas ele lhes disse: “Chamai-me Frei Bento de Piratro”. Esse frade era um sacerdote, discreto, santo e antigo na Religião, que de vez em quando celebrava na cela do bem-aventurado Francisco; porque, embora estivesse doente, sempre que podia queria ouvir a missa de boa vontade e devotamente. Quando o frade chegou perto dele, disse-lhe o bem-aventurado Francisco: “Escreve como eu abençôo todos os meus frades, os que estão na Religião e os que virão até o fim do século”.

Pois era costume de Francisco que, sempre, nos capítulos dos frades, com os frades se reuniam, abençoar e absolver, no fim do capítulo, todos os frades presentes e os outros que estavam na Religião, e abençoava também todos os que deveriam vir a esta Religião; e não só nos capítulos mas também muitas outras vezes abençoava todos os frades que estavam na Religião e que haveriam de vir.

E o bem-aventurado Francisco lhe disse: “Como por causa da fraqueza e da dor da doença não consigo falar, manifesto brevemente nestas três palavras, a minha vontade para os meus frades, isto é: que em sinal da lembrança de minha bênção e de meu testamento, sempre amem uns aos outros, sempre amem e observem nossa senhora, a santa pobreza, e que sempre permaneçam fiéis e submissos aos prelados e a todos os clérigos da santa mãe igreja”. Também aconselhava os frades a temerem e se cuidarem do mau exemplo; além disso amaldiçoava a todos que, que por desordenados e maus exemplos, provocassem as pessoas a blasfemar a Religião e a vida dos frades e os frades bons e santos, que por isso se envergonhavam e afligiam.


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