quinta-feira, 14 de março de 2013

Legenda Perusina 50-55.

[50]

Em certa ocasião, no começo, isto é quando o bem-aventurado Francisco começou a ter irmãos, permanecia com eles em Rivotorto. Uma noite, lá pela metade, quando todos estavam descansando em suas enxergas, um dos frades exclamou dizendo: “Estou morrendo, estou morrendo!”. Assustados e atemorizados, todos ao frades acordaram.

Levantando-se, o bem-aventurado Francisco disse: “Levantai-vos, irmãos, e acendei a luz”. Quando se acendeu a luz, o bem-aventurado Francisco disse: -- “Quem foi que disse: “Estou morrendo”. Aquele frade respondeu: “Sou eu”. E o bem-aventurado Francisco lhe disse: -- “O que tens, irmão? Como estás morrendo?”. E ele: “Estou morrendo de fome”. O bem-aventurado Francisco, homem cheio de caridade e discrição, para que aquele frade não ficasse com vergonha de comer sozinho, mandou logo pôr a mesa e todos comeram juntos com ele. Pois ele e outros tinham sido convertidos havia pouco tempo para o Senhor, e afligiam demais os seus corpos.

Depois da refeição, o bem-aventurado Francisco disse aos outros frades: “Irmãos meus, assim vos digo que cada um leve em conta sua natureza; porque, ainda que algum de vós possa sustentar-se com menos comida que outro, não quero que o que necessita de mais comida tente imitá-lo nisso; mas considerando sua natureza, dê a seu corpo o que lhe é necessário. Pois assim como temos que evitar o exagero no comer, que faz mal ao corpo e à alma, , assim temos que evitar a abstinência demasiada, tanto mais que o Senhor quer a misericórdia e não o sacrifício”.

E disse: “Queridos irmãos, isso que eu fiz, isto é que por caridade com nosso irmãos comemos com ele, para que não ficasse com vergonha de comer sozinho, fui obrigado a fazê-lo pela grande necessidade e a caridade. Mas eu vos digo que, nas outras coisas, não quero fazer assim, porque não seria religioso nem honesto. Mas quero e vos ordeno que cada um, segundo nossa pobreza satisfaça ao seu corpo, como for necessário”.

Pois os primeiros frades, e outros que vieram depois deles durante muito tempo, afligiam seus corpos não só com uma excessiva abstinência na comida e bebida, mas também em vigílias, frio e trabalho de suas mãos. Para isso levavam sobre a carne cinturões de ferro e as cotas de malha que podiam ter e fortíssimos cilícios, como também o mais que podiam ter. Por isso o santo pai, achando que os frades podiam ficar doentes por causa disso, e alguns já tinham adoecido em pouco tempo, proibiu em um capítulo que algum frade usasse por baixo, junto da carne, a não ser a túnica.

Nós, porém, que estivemos com ele, damos testemunho de que, embora fosse discreto com os frades desde o tempo em que começou a receber irmãos e também durante todo o tempo de sua vida, procurou entretanto que se guardassem sempre, que em questão de comidas e de coisas, a pobreza e a honestidade requeridas por nossa Religião e que eram usadas pelos frades antigos. Mas ele mesmo, ainda antes de ter irmãos, desde o começo de sua conversão e durante todo o tempo de sua vida, foi austero com o seu corpo, apesar de ter sido um homem frágil em sua juventude e de natureza fraca, e no século não podia viver a não ser delicadamente.

Certa ocasião, achando que os frades já tinham exagerado o modo da pobreza e da honestidade na comida e nas coisas, numa pregação que fez, disse a todos os frades, dirigindo-se pessoalmente a alguns deles: “Será que os frades não acreditam que meu corpo precisa de comidas especiais? Mas como convém que eu seja a forma e o exemplo de todos os frades, quero usar e ficar contente com comidas e coisas pobrezinhas, não delicadas”.



[51]

Quando o bem-aventurado Francisco começou a ter irmãos, ficava tão contente com a conversão deles e porque o Senhor lhe dera boa companhia, e os amava e venerava tanto que não lhes dizia para irem pedir esmola e principalmente porque lhe parecia que ficariam envergonhados de ir. Para poupar-lhes essa vergonha, ia todos os dias sozinho pedir esmolas. Seu corpo ficava muito cansado com isso, principalmente por ter sido homem delicado no século e débil por natureza e por causa da excessiva abstinência e aflição que suportara, e tinha ficado mais fraco desde o dia em que saíra do século. Por isso, considerando que não poderia agüentar tanto trabalho, e que eles tinham sido chamados a essa vocação, mesmo que ficassem com vergonha, e ainda não tinham pleno conhecimento, nem eram tão discretos para dizer-lhe: “Nós queremos ir pedir esmolas”, disse-lhes: “Meus queridos irmãos e filhinhos, não fiqueis com vergonha de ir pedir esmolas, porque o Senhor se fez pobre por nós neste mundo; por isso, a seu exemplo e de sua santíssima mãe, escolhemos o caminho da pobreza verdadeira.

Esta é a nossa herança, que pelo Senhor Jesus Cristo foi adquirida e deixada para nós e para todos que, a seu exemplo, querem viver na santa pobreza”. E lhes disse: “Na verdade vos digo que muitos dos mais nobres e sábios desde século virão a esta congregação e terão como grande honra ir pedir esmolas. Por isso, ide com confiança e ânimo alegre pedir esmolas com a bênção do Senhor Deus. Deveis ir pedir esmolas com mais liberdade e alegria que alguém que oferecesse cem dinheiros por um, pois vós ofereceis a quem pedis esmolas o amor de Deus, dizendo-lhes: Dai-nos esmolas por amor de Deus, pois em comparação com Ele, o céu e a terra não são nada”.

E como ainda eram poucos, não podia mandá-los dois a dois, mas mandou cada um sozinho por aqueles castelos e vilas. E aconteceu que, quando voltaram, cada um mostrava ao bem-aventurado Francisco as esmolas que tinha conseguido, dizendo um ao outro: “Eu consegui esmola maior que tu”. E o bem-aventurado Francisco se alegrou de vê-los tão contentes e felizes. Desde então cada um pedia com mais boa vontade para ir pedir esmolas.



[52]

Nesse mesmo tempo, quando o bem-aventurado Francisco vivia com os seus irmãos que tinha então, tinha uma pureza tão grande que, desde a hora em que o Senhor lhe revelou que ele e seus irmãos deviam viver segundo a forma do santo Evangelho, quis observar isso à letra durante todo o tempo de sua vida. Por isso proibiu ao frade que fazia a cozinha para os irmãos que, se quisesse dar legumes para os irmãos comerem, não os pusesse de véspera na água quente, para o dia seguinte, como se costuma, para que os frades observassem aquela passagem do santo Evangelho: “Não vos preocupeis com o dia de amanhã”. Por isso, o referido frade punha-os para amolecer só depois que os frades tinham rezado matinas. Pela mesma razão, durante muito tempo, muitos frades, em muitos lugares em que moravam por conta própria, e principalmente nas cidades, observaram isso, não querendo adquirir ou receber esmolas a não ser as que lhes fossem suficientes para um dia.



[53]

Certa ocasião, quando o bem-aventurado Francisco estava no mesmo lugar, havia aí um frade, homem espiritual e antigo na religião, que estava muito debilitado e enfermo. Pensando nele, o bem-aventurado Francisco se comoveu de piedade para com ele. 3Entretanto, como naquele tempo os frades doentes e sadios, com alegria e paciência tomavam a pobreza como abundância e em suas doenças não usavam remédios, antes, com muito mais boa vontade, faziam o que era mais contrário ao corpo, o bem-aventurado Francisco disse consigo mesmo: “Se esse irmão comesse uvas maduras bem de manhã, acho que ia fazer bem para ele”. Por isso, levantou-se um dia bem cedo, em segredo, chamou o frade e o levou para uma vinha que ficava perto da mesma igreja. Escolheu uma videira em que havia uvas boas e sadias para comer. E sentando-se com o frade junto da videira, colheu uvas para comer, para que não ficasse envergonhado de comer sozinho. Enquanto eles comiam, o frade louvou o Senhor Deus. E, durante todo o tempo que viveu, recordou-se entre os irmãos muitas vezes, com grande devoção e derramando lágrimas, daquela misericórdia que o santo pai fez por ele.



[54]

Numa ocasião, quando o bem-aventurado Francisco estava no mesmo lugar, ficava em oração numa cela que estava atrás da casa. Estava nela um dia, quando veio o bispo de Assis para visitá-lo. E aconteceu que, quando entrou na casa, bateu na porta para entrar onde estava o bem-aventurado Francisco. E abrindo a porta para si, foi entrando na cela, dentro da qual tinha sido feita uma outra celazinha de esteiras, onde estava o bem-aventurado Francisco. Como sabia que o santo pai lhe demonstrava familiaridade a afeto, foi com liberdade e abriu a esteira da pequena cela, para vê-lo. Mas logo que pôs a cabeça dentro da cela, de repente, querendo ou não, foi jogado à força para fora por vontade do Senhor, porque não era digno de vê-lo, e voltou de costas. Saiu imediatamente da cela, tremendo e assustado, e disse sua culpa diante dos frades, e que naquele dia arrependera-se de ter ido lá.



[55]

Certo frade era um homem espiritual, antigo na Religião e foi familiar do bem-aventurado Francisco. Mas aconteceu que, em certo tempo, sofreu por muitos dias de gravíssimas e muito cruéis sugestões do diabo, de modo que quase foi levado, na ocasião, ao mais profundo desespero, e era tão atormentado todos os dias que ficava com vergonha de se confessar todas as vezes. Por isso, afligia-se demais com abstinência, vigílias, lágrimas e disciplinas. Estando atribulado todos os dias, e por muitos dias, eis que pela graça de Deus veio ao lugar o bem-aventurado Francisco. E como certo dia, não muito longe daquele lugar, o bem-aventurado Francisco estivesse andando com um frade e com ele, que estava tão atribulado, o bem-aventurado Francisco se afastou um pouco do outro frade e se juntou ao que estava sendo assim tentado, e lhe disse: “Querido irmão, quero e te digo que de agora em diante não tenhas mais que confessar a ninguém as tentações e investidas do diabo, e não tenhas medo, porque não fizeram nenhum mal a tua alma. Mas, por minha licença, vais rezar sete Pai-nossos todas as vezes que fores atormentado por essas sugestões”.

O frade ficou muito contente com o que ele lhe disse, que não tinha que confessá-las, principalmente porque, como precisava confessar-se todos os dias, ficava muito confuso; e isso era a causa de sua maior dor. E o frade ficou admirado da santidade do santo pai, de como conheceu suas tentações pelo espírito Santo, pois ele não tinha confessado a mais ninguém se não aos sacerdotes. E também mudava sempre de sacerdote por causa da vergonha, pois se envergonhava de um sacerdote conhecesse toda sua enfermidade e tentação. E imediatamente, desde aquela hora em que o bem-aventurado Francisco falou com ele, ficou livre daquela grande tribulação, por dentro e por fora, quem tinha agüentado durante tanto tempo. E pela graça de Deus , pelos méritos do bem-aventurado Francisco, foi colocado numa grande calma e paz da alma e do corpo.

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