segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Exercícios Espirituais Inacianos: Segunda Etapa.


SEGUNDA etapa

1.FAZER-SE DÍSCIPULO

“Ó Verbo de Deus amado, ensinai-me a ser generoso, a Vos servir como mereceis, a dar sem contar, a combater sem temor das feridas, a trabalhar sem procurar repouso, e a me consumir sem esperar outra recompensa senão a de estar certo de que faço a Vossa Santíssima Vontade”(S. Inácio).

A conversão do coração e o chamado para a missão são duas etapas consecutivas e inseparáveis que revelam a obra de Jesus. Ninguém pode dizer: “Senhor, afasta-te de mim que sou um pecador”, sem logo ouvir: “Vem e segue-me” (Lc 5,11). Por outra parte, ninguém pode trabalhar na obra de Cristo, sem antes ter-se reconhecido como pecador, sem antes ter feito a experiência da misericórdia, da conversão.

Jesus Cristo nos liberta para seguí-lo. Ele nos salva, nos dá a sua vida e, sempre respeitando nossa condição de homens livres, nos convida para nos associar à sua obra: a realização do Reino de Deus (a Vontade do Pai) através deste mundo marcado pela dor, pobreza, injustiça...

Neste empreendimento cada um de nós deve descobrir a sua maneira de melhor corresponder. Neste chamado feito a todos, devemos escutar a parte que nos cabe: que vou fazer de minha vida? a quem vou entregá-la? para que vou contribuir? Nós, na nossa pobreza, fomos convidados para colaborar com Jesus na reconstrução do homem e do Mundo. Que resposta daremos?

Aqui não se trata tanto da grandeza da obra ou da importância daquilo que fazemos, mas do modo como Cristo quer a nossa colaboração: participar de sua vida, sofrimento, serviço, pobreza... Identificar-se com Ele. Desprender-nos de nossa maneira de viver, para revestir-nos da maneira de viver de Cristo.

Aceitar ouvir o chamado de Jesus é aceitar por em questão nosso estilo de vida, nossos valores, nossos projetos...

Hoje você fará sua oração meditando sobre o texto que vem a seguir:

1ª PARTE

1. Imagine-se diante de um líder reconhecido por todos como tal, por sua honestidade, visão, humanismo e qualidades pessoais. Ele propõe uma campanha de nível mundial, com um plano concreto e realista para iniciar uma renovação de toda a sociedade a nível pessoal e estrutural, com base para criar um mundo novo, mais justo e fraterno.

2. Este líder se apresenta diante de você, precedido por sua justa fama, para expor-lhe seu plano e está pedindo voluntários de diversos tipos:

- Simpatizantes - que dêem apoio moral
- Colaboradores - que dediquem parte de seu tempo
- Comprometidos - plenamente dedicados

3. Diante deste chamado, como você responderia?
Como se sentiria se não respondesse positivamente?


2ª PARTE

1. Jesus, o Filho de Deus feito homem, totalmente solidário com os homens, especialmente com os pobres e necessitados, propõe seu plano de salvação e de verdadeira libertação da humanidade com a instauração do Reino de Deus: construir uma nova realidade, na qual todos se reconheçam e se amem como irmãos.
2. Apresenta-se a cada homem e, agora, a você, para chamar-lhe e dizer-lhe: “Minha vontade é construir o Reino de Deus. Convido-lhe para que me siga. Eu estarei com você e você estará comigo em todos os momentos. Passaremos juntos alegrias e tristezas, esperanças e dores”.

3. Os que, além de juízo e razão, tenham coração, oferecer-se-ão sem reserva, seguindo a Jesus, e colocarão suas vidas e toda a sua pessoa a serviço do Reino de Deus, dispostos a lutar contra o próprio egoísmo e contra toda a dificuldade que se apresente, e vencendo seus temores dirão a Ele: “Eterno Senhor de todas as coisas, eu faço a minha oblação com o vosso favor e ajuda, diante da vossa infinita bondade, e diante de vossa Mãe gloriosa e de todos os santos e santas da corte celestial. Eu quero e desejo e é minha determinação deliberada, contanto que seja para vosso maior serviço e louvor, imitar-vos em passar por todas as injúrias e todas as humilhações e toda a pobreza, tanto material como espiritual, se Vossa Santíssima Majestade me quiser escolher e receber em tal vida e estado!”


PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Senhor, dá-me a graça de não ser surdo ao seu chamado: que eu coloque toda minha criatividade, meu ânimo, minhas forças a Teu serviço.

REVISÃO DA ORAÇÃO - Diante de Cristo que te convida a seguí-lo, que te chama pessoalmente a participar de sua missão, o que você respondeu?



AMANHÃ:

REPETIÇÃO - FAZER-SE DISCÍPULO


2

A CONTEMPLAÇÃO


“... como se eu estivesse presente, com todo acatamento e reverência possível”
(Santo Inácio)

A Contemplação nos Exercícios Espirituais é uma forma de oração através da qual deixamos que o Mistério da Vida de Cristo nos penetre e nos vá permeando como por “osmose” (por conaturalidade afetiva) e ao mesmo tempo vamos “conhecendo intimamente” esse Mistério insondável da pessoa de Jesus.

Contemplar não é especular sobre um texto evangélico, nem tirar conclusões, nem sequer examinar sua vida a partir da atuação de Jesus. Trata-se de “fazer-se presente” à cena evangélica, esquecer-se de si e estabelecer uma relação de presença, de intimidade... que faça possível que a Pessoa de Jesus vá se adentrando em você.

Na contemplação o ponto de partida não é uma recordação, senão a tomada de consciência de seu estar presente diante de “Alguém”. Estabelece-se uma relação interpessoal que suscita a atração, a sedução...

A Contemplação é uma ajuda concreta para centrar o afeto e liberar o desejo numa só direção; é um apoio para que você “inteiro” se deixe “afetar” pela cena e permita que Deus lhe interpele desde o “acontecimento salvífico”. Então Deus tem a iniciativa e você se cala.

Contemplam-se “Mistérios de Cristo” e isso contagia e configura interiormente a você, que logo atuará a partir desse mistério de Amor.

A Revelação são fatos e ditos: é necessário olhar, escutar e observar as pessoas da cena. Não se trata de algo estático, mas em movimento, dramático, presente... Não se trata de reproduzir arqueologicamente uma cena; é necessário carregá-la de sentido: é Encontro com Alguém.

Aquele que contempla também não é uma pessoa abstrata. É você, carregado com sua vida, sua história, seu temperamento, seus sonhos, suas capacidades... A Contemplação põe juntas a pessoa (e sua história) e o Mistério para que haja interação e assimilação. A Contemplação lentamente vai transformando a pessoa sem que ela o perceba. Nós nos tornamos aquilo que contemplamos.

A Contemplação não deve ser forçada, mas “deixar-se levar”, interpelar... A Contemplação ajuda a evangelizar os nossos sentidos, reações, sentimentos... Trata-se de “cristificar” o nosso olhar, escutar, falar, agir... A Contemplação abre-nos o caminho para penetrarmos profundamente na vida, obra, missão, opções de Cristo.

A Contemplação de Cristo não é uma simples “maneira de orar”. Significa consentir ser introduzido no “Mistério” que é Jesus Cristo. Significa deixar-se impregnar pelo modo de ser de Cristo: suas palavras, gestos, atitudes... é confrontar-se com Alguém que interpela, chama.

Para “conformar-se” à imagem do Filho é necessário que se “entre” na Contemplação não como turista, mas como amante, não com o coração dividido, mas como pessoa que fez uma escolha de vida pelo Senhor.

Em si mesma, a Contemplação é viva, criadora, dinâmica e continuamente renova nossas opções e atitudes profundas. Não se trata de uma atividade nossa sobre a cena, mas da atividade da cena sobre nós; vai nos modelando. Através da cena contemplada o Pai nos conforma ao Filho, esculpe em nós com o dedo do Espírito aquela imagem única de filhos no Filho que somos chamados a ser.

A Contemplação termina na união com Deus na ação. Ela desemboca na prática. Ela não é neutra, mas comprometida. Como o verdadeiro contemplativo deve “participar da cena evangélica” assim também aquele que participa da realidade e nela se encontra inserido deve experimentar um verdadeiro Encontro com Deus. Quem faz a experiência da contemplação na oração deverá também ser um “contemplativo na ação”, isto é, no engajamento e no serviço. Tal como fazemos na oração, devemos fazer na ação, dando os passos próprios de toda contemplação:

- “OLHAR as pessoas...” e nelas descobrir a Pessoa do Senhor;
- “ESCUTAR o que dizem...”: entre todas as vozes que escutamos, perceber e discernir qual é a do Senhor e o que Ele tem a lhe dizer hoje;
- “OBSERVAR o que fazem...”: participar, fazer-se presente... optando, colaborando de modo evangélico numa tarefa... querendo contrair a história dos homens com os valores do Evangelho.


PARA AJUDAR A REZAR:

O COLÓQUIO - A partir de agora, quando se usa o método de contemplação, o colóquio não é somente para o final da oração, mas também durante ela, particularmente quando você se faz presente nos acontecimentos. Conversação supõe falar e escuta do outro que fala. Assim, imagine Jesus, Maria ou outra pessoa falando com você e vice-versa. Deus se manifesta também através de nossa imaginação.

GRAÇA - Senhor, que o teu “mistério”, no qual me faço presente, transforme a minha vida.

PALAVRA DE DEUS - Jo 1,1-18

REVISÃO DA ORAÇÃO - Como você se saiu na contemplação? Olhou as pessoas? Escutou-as? Observou-as? Que sentimentos teve?


3

O AMOR DE DEUS SE ENCARNA


Ao penetrar no Mistério da Encarnação, gesto extremo do Amor Trinitário, que encerra dentro de si o inteiro plano da redenção da humanidade; peço a graça do conhecimento íntimo de Jesus, Verbo Encarnado; que o possa conhecer por dentro - suas disposições de amor para com os homens - a fim de que mais o ame e melhor o siga.

Pela tua simples Palavra, Trindade Santa, existem mundos celestes e terrestres, espaços, mares, terras, continentes; pela tua simples Palavra existem seres inanimados, animados: vegetais, animais em espécies incontáveis, em cores aos milhares. Pela tua simples e eterna Palavra existe o homem, criado à tua Imagem, destinado a plenificar a obra iniciada. “Crescei e multiplicai-vos” é a tua Palavra, ó Trindade! E, homens da raça branca, negra, amarela nascem, povoam o mundo, trabalham, convivem, comem, dormem, sonham, inventam, criam, vivem, morrem.

Entretanto, ó Trindade Santa, em meio a este esplendor de vida, levanta-se o poderio de morte, nascido do mesmo ser - homem livre - criado à tua “Imagem e Semelhança”. E a liberdade, mal usada, faz vítimas: irmãos matam irmãos, nações se degladiam; ódio, inveja, soberba, orgulho, gula, calúnia, maledicência se tornam um arsenal de guerra no coração daquele que pelo Criador fora pensado para ser foco de luz e explosão de amor. Então, na eterna comunhão trinitária, nasce novo gesto de amor que, do infinito alcança o finito na história, manchada de sombras, morte e pecado, a fim de salvar, restaurar, redimir, santificar o homem decaído.

E no teu seio, ó Trindade Santa, se faz ouvir, pleno de compaixão, a voz do Filho: “Eis que eu venho... fazer vossa vontade, meu Deus” (Sl 39), voz que encontra eco na filha mais bela, mais plena do Espírito que assim fala: “Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua Palavra” (Lc 1,38). E, Maria Virgem, se torna santuário que acolhe a Palavra na realidade da mais pequenina parcela vital que dá origem ao Deus feito Homem. Sim, Trindade Santa, a tua filha crente, pobre, acredita na vinda de Deus misericordioso, do Deus cumpridor da promessa de libertação dos pecados de seu povo, do Deus que é Deus da justiça, no Deus que cumula os pobres de bens.

E o Verbo, que era desde o Princípio, desce das alturas da glória, esconde a própria glória na pequenez de um ser que começa a existir e a se desenvolver na carne humana . “O Verbo se fez carne” (Jo 1,14).

Eu te adoro, Verbo Encarnado, assumindo agora, momento para momento, a substância criada em Maria e por Maria: a água, a matéria orgânica e inorgânica vão constituindo o teu corpo, tua excelsa divindade, ó Verbo Encarnado, toca a matéria e a redime, toca a matéria e santifica-a, toca a matéria e diviniza-a, recapitulando, recriando a obra criadora.

Eu te adoro, Verbo Encarnado, assumindo o ser humano no menino de Belém, na criança e jovem de Nazaré sem privilégios e distinções, no Messias - Jesus da Palestina - totalmente despojado da realeza segundo os homens, mas construindo o Novo Reino.

Eu te adoro, Verbo Encarnado, expressão suprema do amor d’Aquele que É (Ex 3,4) d’Aquele que é Amor (Jo 4,8) união do divino e do humano. Deus se revela no Homem-Deus e se torna Deus-Homem.

Eu te adoro, Verbo Encarnado, entrando na história - Criatura primeira da mente divina, para o qual e no qual Deus fez o universo. Eu te adoro, Verbo Encarnado, que, assumindo a história e a realidade humana, não permites a entrega de sua trajetória ao fatalismo e ao mal.

Eu te adoro, Verbo Encarnado, A e Z da humanidade, ponto de convergência dos dinamismos da história, meta final do homem e do cosmos.

Eu te adoro, Jesus, ponto imã de atração para aqueles que estão na penosa e lenta ascensão para Deus.
PARA AJUDAR A REZAR:

AUTOBIOGRAFIA (SUA IMAGEM PESSOAL) - A partir de hoje, fora do seu horário de oração, você vai começar a escrever a 4ªparte da sua Autobiografia. Ela pretende ser uma ajuda para sua reflexão sobre aspectos importantes de sua vida pessoal e um meio de diálogo com seu orientador espiritual.
Apresentamos a seguir alguns pontos para sua Autobiografia. Para respondê-los, leia tudo várias vezes e vá refletindo sobre cada um desses aspectos de forma muito pessoal, deixando-se guiar no que escrever por aquilo que vai surgindo sem se preocupar nem com o estilo nem com a lógica do que vai anotando. Não responda cada um dos pontos. Eles servem só como orientação. Seja espontâneo!
Procure responder em momentos em que você esteja tranqüilo e possa se concentrar no que está fazendo. Essa 4ª Parte deve estar pronta até o tema 11 (NOVAS REGRAS PARA O DISCERNIMENTO ESPIRITUAL)

1. Conceito de si: Você está satisfeito com sua atual maneira de ser e de agir? O que você gostaria de mudar? Sente-se capaz de alcançar o que deseja? Como acha que os outros o vêem? Que opinião têm eles de você? Você se preocupa muito em cuidar de sua imagem nas coisas que faz? Quais são as principais qualidades que você possui? E quais os defeitos mais graves? Como você vê e sente o seu corpo? Quais as dificuldades neste campo? Que idéias, sentimentos e aspirações você cultiva?
2. Seus ideais e aspirações: Quais as metas que gostaria de atingir nos próximos três anos? Que características pessoais gostaria de ter? Quais os principais obstáculos que você encontra para se realizar? Se você pudesse “mudar o mundo” segundo seus gostos e tendo todos os recursos pessoais para isso, como você o faria e que papel você gostaria de desempenhar? Se você tivesse todas as qualidades intelectuais e sociais, se tivesse uma família ideal, todo o dinheiro necessário e se estivesse num país que oferecesse todas as oportunidades possíveis, quais são as três profissões que você escolheria? Por quê? (Colocá-las em ordem de importância e dar os motivos da escolha.)

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.

PALAVRA DE DEUS - Lc 1,26-38

REVISÃO DA ORAÇÃO - Qual é a interpelação mais forte que sentiu na sua oração?


4

A MÃE DO SENHOR VEM A MIM


Depois de dizer o seu “sim” no encontro solitário com o anjo, Maria ficou literalmente grávida de Deus. Ela foi invadida por uma alegria nova, pacífica. Depois, sentiu a necessidade de comunicar aos outros sua alegria, vinda de Deus.

Maria sai de Nazaré e dirige-se para a região montanhosa de Judá para visitar sua parenta Isabel, esposa de Zacarias, a qual tinha concebido na sua velhice. Maria leva Jesus, “com toda pressa”, como a esperança do mundo, através dos caminhos do nosso mundo, para suscitar a alegria e o louvor.

Por ser uma viagem longa e arriscada, certamente Maria não viajou sozinha, mas com alguma das caravanas de mercadores e devotos que se dirigiam a Jerusalém. Eram necessários três ou quatro dias de viagem.

A fé de Maria a faz disponível, obediente, pronta. Ela põe ao serviço dos outros o que recebeu por pura graça. Quando Deus entra e atua na história das pessoas, move-as para irem, “apressadamente”, ao encontro dos outros, para servi-los nas suas necessidades. Quem tem consigo o Salvador não o pode guardar só para si. Tem de levá-lo aos que estão longe, aos que estão esperando por ele, deixando nossas comodidades, enfrentando todas as dificuldades, superando todos os obstáculos, por mais difícil e longo que seja o caminho até chegar a eles.

Com a saudação de Maria, Isabel sente a criança dar pulos de alegria no seu ventre. É João antecipando sua missão profética de precursor de Jesus: ainda incapaz de falar, dá pulos de alegria pela chegada do Messias.

Na medida em que formos portadores de Cristo, nossa presença e nossas palavras produzirão a alegria nas pessoas que encontrarmos, como no encontro de Maria com Isabel.

Maria é reconhecida por Isabel como aquela sobre quem foram derramadas as bênçãos de Deus, como a agraciada de Deus. É proclamada abençoada entre todas as mulheres, por ser a portadora do Messias. “Bendita és tu entre as mulheres...” O grito de alegria de Isabel expressa a chegada da salvação que entra na nossa história através de Maria.

Maria é bendita entre as mulheres porque foi favorecida por Deus, porque Deus a agraciou com o seu amor. Ela é a Mãe do Senhor! Isabel se confessa indigna de receber “a Mãe do seu Senhor”; mas, ao mesmo tempo, considera-se feliz por ser visitada por ela.

“Feliz és tu, Maria, que acreditaste...” Isabel proclama-a feliz, bem-aventurada, pela sua fé; por Maria ouvir, acolher e praticar “o que te disse o Senhor”, a Palavra de Deus. Maria é modelo de fé porque concebeu Jesus antes na fé do que no ventre.

O encontro entre as duas mães foi um encontro de comunicação e de partilha da experiência de Deus, do Mistério que cada uma delas carregava, na mais profunda alegria, do mais profundo de sua fé. No nosso mundo agitado, o imenso vazio que tantas vezes sentimos, é causado pela falta de comunicação daquilo que é mais profundo e mais essencial em nós. Esse vazio não pode ser preenchido com o consumo de bens materiais.

Quando, movidos por Deus, vamos ao encontro dos outros, nos abrimos mutuamente, comunicamos as moções e ações de Deus em nós, também nós experimentamos uma alegria nova, de uma profundidade que não tem comparação com as alegrias causadas pelas comunicações habituais.

A alegria invade todo este Mistério. Alegria pela chegada da salvação! A presença de Jesus em nossas vidas traz sempre alegria. A falta da verdadeira alegria é um sinal de que não experimentamos a presença do amor de Deus em nossas vidas, da falta de fé e de esperança.

PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.

PALAVRA DE DEUS - Lc 1,39-45

REVISÃO DA ORAÇÃO - Você serve aos outros com generosidade ou facilmente encontra desculpas para não estar disponível?



AMANHÃ:

REPETIÇÃO - O AMOR DE DEUS SE ENCARNA
A MÃE DO SENHOR VEM A MIM

APLICAÇÃO DOS SENTIDOS - É uma outra forma de repetição da oração em que se aplicam os sentidos espirituais da fé, esperança e caridade, relacionando-os com os sentidos físicos aplicados na contemplação. Após a oração preparatória e pedido de graça, voltar sobre as contemplações a serem repetidas procurando:
VER - as diferentes pessoas e fatos contemplados. Algo ou alguém lhe move a um ato de fé?
OUVIR - as diferentes palavras, mensagens. Dizem algo que você pode esperar como realidade em Deus no seu futuro?
SENTIR - nas contemplações que você repete surgem atos de amor de Deus e dos outros? Moções?
TOCAR - percebe-se algo dos mistérios contemplados da vida de Jesus que já são “seus” de algum modo?
Terminar habitualmente com o colóquio e revisão escrita.


5

A JOVEM MARIA


“O Pai disse SIM, e algo maravilhoso aconteceu: o universo começou a existir.
Maria disse SIM, e a esperança se concretizou: chegou o Salvador.
Diga SIM ao Criador e, em algum lugar uma luz se acenderá, uma esperança brotará,
um sorriso desabrochará, uma alegria surgirá.
Um Novo Cristo nascerá no coração de alguém, só porque você disse SIM.
O SIM é princípio de Vida, nascente de Amor e fundamento de esperança”.

Como qualquer jovem, Maria interrogava-se a respeito de seu futuro. Sentia-se poderosamente atraída para Deus e para o serviço dos homens.

Um dia Deus entra na sua vida e pede a sua colaboração no mistério da Encarnação. Maria soube dar seu SIM. Doou-se inteiramente. Não exigiu nada em troca, nem garantias, nem explicações. Disponibilidade total... Confiança total...

Desde que Maria aceitou sua Missão, deixou a comodidade de uma vida pessoal. Abriu-se ao amor universal. Por ser totalmente consagrada a Deus, Maria é toda voltada para os homens.

Maria vivia uma grande união com Deus. Estava sempre atenta à Vontade de Deus manifestada através das circunstâncias, dos acontecimentos e das pessoas.

Maria foi alguém que soube correr o risco da vocação.

MARIA: Uma jovem em idade de opção. Uma moça de Israel, consciente das promessas de Deus a seu povo. A cheia de graça.

VOCÊ: Jovem também, diante da vida e do futuro. Consciente de ser chamado, dentro das necessidades do Povo de Deus em marcha. Com suas aptidões naturais e dons sobrenaturais. Vivendo na amizade, na graça de Deus.

MARIA: O anjo Gabriel foi o embaixador de Deus para anunciar à Virgem: “Ave... fostes escolhida por Deus...”

VOCÊ: Deus o chama de mil maneiras... e sempre lhe traz alegria. Você é escolhido por Deus: “Não fostes vós que me escolhestes, mas eu é que vos escolhi...”

MARIA: Perturbou-se com essas palavras... e pôs-se a pensar no que significaria esta saudação...

VOCÊ: Deus o inquieta quando penetra em sua vida... você precisa discernir as inspirações, os desejos que Ele suscita em você... precisa dialogar com Deus na oração...

MARIA: Não temas, tu és amada pelo Senhor. Serás a Mãe do Messias. Eis a Missão de Maria.

VOCÊ: Não tem porque temer. É amado por Deus. O Pai quer mostrar-lhe um caminho onde quer que você realize sua missão de filho de Deus e irmão dos homens.

MARIA: Como serei Mãe, se sou virgem?

VOCÊ: Como realizará sua vocação concreta se sente ter tantas dificuldades?

MARIA: O Espírito Santo descerá sobre ti. Ele te envolverá com sua força. Nada é impossível a Deus.

VOCÊ: A vocação é obra do Espírito Santo, da força de Deus em você... Tantos já optaram antes de você... por que não poderá você também?
MARIA: Maria deu o seu SIM para sempre... o SIM que nasceu da fé, do amor e da esperança... o SIM humilde de quem se coloca à disposição de Deus e dos homens. Um SIM criador e redentor, para o bem da humanidade.

VOCÊ: Só você pode dizer o seu SIM a Deus... o SIM de cada dia, no passo da fé, da esperança e do amor... um SIM de totalidade, para a vida toda. Quem não dá tudo não dá nada. Com o Absoluto nada se regateia. Toda vez que Deus entra na vida de alguém, assume-a e coloca-a em missão.

MARIA: Sabe que sua prima Isabel está esperando um filho. Logo pensa em ajudá-la. Vai com pressa à casa de Isabel.

VOCÊ: Onde pode estar mais a serviço da Igreja e da humanidade? Em que vocação seria mais útil a seus irmãos?

Foi o SIM de Maria que trouxe a Palavra de Deus até nós. O SIM de Maria nos ajuda a dizer o nosso SIM. Tudo sempre começa com um SIM!


PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.

PALAVRA DE DEUS - Lc 1,46-56

REVISÃO DA ORAÇÃO - Na sua vida, como é a sua relação com Maria, a Mãe de Jesus?


6

NA MANJEDOURA TU ESTÁS


Hoje queremos contemplar o teu Nascimento, Senhor. Tudo foi preparado com muito amor, desde o início, para que este momento pudesse acontecer... Tudo estava sendo organizado para te acolher, Senhor! Tudo o que Ele fez era bonito e bom! Até o homem e a mulher eram bons! “E Deus viu que tudo o que tinha feito era muito bom” (Gn 1,31) e ficou muito contente!

Mais tarde, a liberdade do homem começou a trilhar outros caminhos que não eram os do Criador. A humanidade, afastando-se do projeto do Pai, atingiu toda a criação com a sua rebeldia... As conseqüências foram catastróficas... Os irmãos até se matavam (Gn 4,8) e os homens tiveram medo de si mesmos, dos outros e até de Ti, Senhor! (Gn 3,10). Os efeitos foram terríveis. Houve uma ruptura total contigo, nosso Criador e com todas as criaturas. A morte se apoderou de todos nós! Era noite, Senhor, e fazia excessivo frio!

Vendo nosso desespero, olhaste com mais amor para essa bela obra de tuas mãos. “Façamos redenção!” dissestes, e não brotou outra idéia melhor do que mergulhar na nossa treva e Te fazer um de nós. Bendita aquela noite, Senhor!

“E o Verbo se fez carne!” (Jo 1,14) Para que nenhum de nós se pudesse sentir eternamente afastado de Ti, Te fizeste um de nós.

Maria, tua serva fiel de Nazaré, desde cedo, ficou cheia de graça por Ti. Nela Tu nos escolhestes para acolher o Teu Filho muito amado. Realmente todos estávamos perdidos no meio de um mundo tenebroso. Ela foi a primeira a ver a luz... Foi a primeira a Te ver, amar e acolher.

E Tu vieste ao meio de nós! Assumiste carne humana, como a nossa! E a partir desse momento toda a humanidade ficou iluminada... Teu Nascimento foi a nossa salvação!

Mas, teu Nascimento também nos ensina outras coisas. Nasceste na periferia do poder político para que entendêssemos que não é a força do poder, seja ele qual for, que nos salva. Apareceste na periferia do poder intelectual para que compreendêssemos que, a sabedoria que nos salva, não consiste no muito saber mas no entender e acolher, como pobres e pequenos, a Ti, Jesus. Também ficaste na periferia do poder religioso, para que todos aqueles que se encontram às margens de tudo pudessem Te receber como algo próprio. Teu Nascimento, Senhor, rompeu todos os nossos esquemas... Temos de aprender a Te acolher como Tu és e não como queremos que Tu sejas. Tu és, realmente, um Deus diferente...

Jesus, teu Nascimento Te situou dentro da nossa história, pobre história... Nasceste nos limites do tempo e do espaço, como um de nós. Não tiveste medo de entrar nessa realidade transtornada da história de um povo oprimido e indesejável, membro de uma família empobrecida, cidadão de um país marginalizado.

Na manjedoura Tu estás como um de nós! Vejo-Te com as mãos e os pés enfaixados! Embrulhadinho, totalmente dependente de nós! Realmente Te colocaste nas nossas mãos, confiaste imensamente no acolhimento que podíamos Te dar!

Jesus, ao Te ver tão pequenino e limitado, quero me colocar a tua disposição. Quero que minhas mãos sejam agora tuas mãos. Age por meio de mim, Senhor, e que meus pés possam levar até lá, onde Tu queres chegar. Tua Palavra, Verbo de Deus, forte e poderosa, agora é balbuciada e calada. Que a minha pobre palavra seja, agora Senhor, a Tua Palavra.

Teu Nascimento, Senhor, tão pobre e pequeno, me desconcerta. Lembro-me de tantos nascimentos... Na vida que surge estás Tu, plenitude da Vida! Ensina-me a Te ver na vida que nasce! Que eu não fique cego diante do pobre e do pequeno!... Que eu não fique surdo diante de tanta palavra balbuciada por aqueles que, neste mundo, se parecem contigo, Senhor!

A vida é frágil e pequena e precisa de todos nós para poder desabrochar na sua plenitude. Que a minha vida, Senhor, esteja a serviço da vida! Quero assumir, com alegria, atitudes diferentes. Não quero fazer a minha história a partir do poder, do prestígio e do prazer. Teu Nascimento me compromete com a vida e vida em plenitude (Jo 10,10).

Faz-me nascer de novo, Senhor, para este novo modo de viver!


PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.

PALAVRA DE DEUS - Lc 2,1-21

REVISÃO DA ORAÇÃO - O que é para você Jesus fazer-se pobre com os pobres?


AMANHÃ:

REPETIÇÃO - A JOVEM MARIA
NA MANJEDOURA TU ESTÁS



7

VIMOS SUA ESTRELA


Guiados pela estrela no céu e pela estrela de uma grande esperança no coração, os magos puseram-se a caminho. Na sua busca examinam o céu e escutam o próprio coração. Porque buscam, empreendem o caminho, vêem a estrela. Põem-se a caminho porque têm perguntas e inquietações no coração.

Para chegar ao encontro com Deus é necessário atravessar, como os magos, desertos escaldantes e noites escuras, desinstalar-se, vencer novos obstáculos. Quem quer encontrar a Deus, não pode ficar preso ao passado. Precisa partir sempre de novo, mudando, cada manhã, o modo de pensar, a maneira de esperar e a forma de viver.

Para encontrar Jesus é necessário a busca e o discernimento. Só começa a buscar quem tem os olhos e o coração abertos para as realidades que estão além do que vêem os olhos e do que sente o coração. Sair do nosso pequeno mundo e empreender um caminho novo. Um coração aberto e despojado saberá distinguir a voz de Deus das vozes que nos querem afastar do seu caminho...

Quem é movido por uma grande esperança ou por um grande amor, tem força e entusiasmo para deixar tudo o que tem... e partir, enfrentando obstáculos, correndo riscos. A “estrela” guia nossa busca apontando para o “mais”.

Muitas vezes, a estrela que nos acompanha, que nos guia e dá força para o caminho, desaparece, deixando-nos às escuras. Quando parece que Deus nos abandonou e não caminha mais ao nosso lado, então torna-se necessário perguntar: “Onde está o rei dos judeus, recém-nascido?”

Herodes e os magos... Os que estão contra Jesus e os planos de Deus, e os que estão a favor de Jesus e do plano de Deus... Os que não reconhecem Jesus e os que O buscam e acolhem...

Jesus nos perturba, nos assusta, nos alarma, nos ameaça?... O que há de “Herodes” em nós?... No nosso mundo?...

Depois da busca e das perguntas, a estrela volta a aparecer para conduzir até o fim os que tinham sido chamados... Encontram um bebê numa casa pobre, filho de pais pobres, pobremente vestidos. O recém-nascido dorme segurado contra o peito de uma jovem mãe pobre. Ela nos apresenta e nos entrega Jesus, seu filho. Seu filho é para nós...

Depois que os magos viram o menino, depois que encontraram o que buscavam, os magos não precisam mais da “estrela”. A glória de Deus não está nos astros do céu, mas na fragilidade dessa criancinha.

Creram naquele menino... o adoraram... prostraram-se! Jesus Salvador e Emmanuel, “Deus conosco”. Nosso Deus no meio de nós, como um de nós! A busca de Deus só pode terminar na adoração e na entrega. Buscamos a Deus, não para tirar qualquer vantagem em proveito próprio, mas para reconhecer Deus como Deus. “Em seguida, abriram seus cofres, e ofereceram-lhe ouro, incenso e mirra”. Jesus nos espera para acolher nossos dons, nossa homenagem, nossa adoração.

Todo verdadeiro encontro com o Senhor nos despoja de nós mesmos para nos enriquecer com a sua riqueza. Quem encontrou verdadeiramente a Deus, vê o mundo e as pessoas com outros olhos.

Os sinais que Deus nos dá, nossas “estrelas”, nos levam sempre ao encontro com Jesus.


PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.
PALAVRA DE DEUS - Mt 2,1-12

REVISÃO DA ORAÇÃO - Onde você reconhece a presença de Jesus?


8

A LUZ DAS NAÇÕES


“Os meus olhos viram a vossa Salvação que preparastes diante de todos os povos,
como luz para iluminar as nações, e a para a glória de vosso povo de Israel”.
(Lc 2,30-32)

Com alegria te vejo, Maria, seguir com José levando o Menino ao Templo... Deixa-me seguir contigo, Maria, deixa-me seguir contigo, José, por este resto de caminhada até que cantemos juntos o canto dos peregrinos da Cidade Santa. “Louva, Jerusalém, o Senhor!”.

Neste caminho, sem assombro das gentes, sem noticiário, sem comoção dos grandes e poderosos deste mundo, segue Aquele que “há de reger as nações com cetro de ferro”. Como o Reino de Deus é independente do que sabem ou pensam os poderosos! Nos corações generosos e simples o bem vai-se fazendo, passo a passo, o Reino vai-se realizando como a semente em terra boa.

Nesta minha estrada de todo o dia, na poeira, no peso do dia e do calor, com Jesus, Maria e José, vou seguindo o caminho do Reino do Menino, o Reino de Deus.

Subimos para Jerusalém! José, ao pôr do sol, já à vista da Cidade do Grande Rei, armou sua barraca, na beira do caminho, perto das águas de Siloé. Aquele que o mundo não pode conter, aceita ficar na margem, gozando os cuidados dos pobres, em grande liberdade. Com Jesus a gente cai na conta de que o Reino passa pelo coração que aceita a pura verdade de que o humilhado é meu irmão, e de que eu sou seu devedor. Maria, com o Menino nos braços, alcança-me a graça de ter um imenso respeito pelo marginalizado!

E fomos para o Templo, cantando uns Salmos: “Abri-vos, ó portas eternas, porque vai entrar o rei da glória!” José tinha arranjado um casal de rolinhas. Era a oferta dos pobres.

Simeão soube discernir a Presença... Nada de miraculoso. Mas ele olhou, viu, cantou, profetizou. Sua idade avançada não o encolheu: “Tomou o menino nos braços”, e cantou com esperança: “Agora, Senhor, deixa teu servo partir em paz!”

Simeão, viveste teu longo dia na esperança. Agora vês muito perto “a espada de dor”. Falas dela a Maria. O seu Menino será “pedra de tropeço, sinal de contradição”. Tens experiência: viveste e meditaste sobre o destino dos Profetas. Jerusalém costuma expulsar alguns, apedrejar outros. Mas o Menino Libertador não vai temer “quem pode tirar a vida do corpo”. Ele não tem medo, nem Ele, nem sua Mãe, nem José, de viver no meio dos pobres do mundo, de tomar a condição dos oprimidos. A espada de dor não vai destruir o amor teimoso e invencível, amor até o fim, só vai revelá-lo no coração de Jesus, no coração de Maria, no coração de José, nos corações de tanta gente.

Ana, também te admiro! Com teus 84 anos não paras de amar! Anuncias “a todos os que esperavam a libertação de Israel”, a chegada do Menino! Ajuda-me, Ana, a anunciar também!

Que eu tenha a graça de crer que o Reino se realiza com o seguimento fiel de Jesus pobre e humilde, com as preferências que Ele assumiu, com os empenhos que ele teve, indo nos lugares por onde ele andou!

Meu Senhor e meu Deus, acolhe-me entre a tua gente, nos caminhos que escolheste. Primeiramente, na maior pobreza espiritual. Se Tu, Senhor, quiseres, também na pobreza concreta. Depois, Senhor, que também me concedas, com Cristo, experimentar a realidade do pobre, que não tem vez nem voz, sente a impotência diante dos poderosos deste mundo, sofre negligências, enganos, enfrenta filas, é anônimo e ignorado. Desde que tudo isto seja sem nenhum desagrado de tua parte, Pai cheio de Amor e Ternura!
PARA AJUDAR A REZAR:
GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.

PALAVRA DE DEUS - Lc 2,22-38

REVISÃO DA ORAÇÃO - Como você se sente diante do seu futuro?


AMANHÃ:

REPETIÇÃO - VIMOS SUA ESTRELA
A LUZ DAS NAÇÕES



9

A FUGA PARA O EGITO


Jesus, percebo que mal acabas de armar tua tenda no meio de nós, já és expulso: “Vieste para os que eram teus, mas os teus não te receberam”.

Vejo-te homem como nós, mas despercebido aos olhos de todos.

Vejo que José e Maria são felizes. Têm em seu seio Aquele que vai vencer o pecado, a morte, a dor: o Filho Eterno do Pai, o Senhor da Vida, o Senhor da História.

No palácio do tirano Herodes, fanático pelo poder e dominado pelo orgulho, há inquietação, intranqüilidade... Vejo-o quando se dá conta que fora enganado pelos Magos, decidindo tua morte, Jesus, e a morte para todos os meninos de Belém e seus arredores.

Vejo-te tão criança ainda, tão indefeso e já perseguido, já procurado para seres morto.

Ouço: “José, levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito, porque Herodes vai procurar o menino para matá-lo”. José se levanta. Chama tua querida Mãe, Maria, mulher de fé inabalável, tomando-Te nos braços, repete no gesto, o mesmo “SIM”. Ambos partem confiantes na Vontade do Pai...

Ouço apenas os ruídos dos passos de quem caminha apressadamente. A dura e penosa viagem começa. É preciso avançar, distanciar-se, fugir, pois começa em Belém a matança dos Inocentes. Ouço o choro, os gemidos, as lamentações! Ouço, também, nas Beléns de hoje, as mães que choram seus filhos mortos ou quase mortos em seus braços...

Olho Maria... José... É preciso caminhar, caminhar, ganhar distância para salvar Jesus. Salvar o Salvador do mundo!

A estrada cheia de pedras, é árida e deserta...

Na estrada da mãe Maria, de ontem, como nas estradas das mães Marias de hoje, quase não há sinal de vida. Quem as sustenta?

Ontem como hoje, Tu Jesus, a Fonte da Vida! Tu, a “água viva que jorra para a eternidade”. Tu, que assumes a sede da humanidade sofredora.

Mistério insondável de um Deus que se faz pequeno por amor!

Vejo alguns viajantes cruzarem o teu caminho. Ninguém se interessa por ti, Jesus, nem por teus pais. Passam adiante. Como podem tratar assim seu Salvador?!

Nas estradas do mundo, sem se interessarem uns pelos outros, os homens vão se cruzando. Quanto sofrimento poderia ser suavizado, se os homens, como José, mesmo sem compreender, se dispusessem a correr o risco do caminhar juntos rumo ao Egito do Projeto do Pai!

Porque és perseguido? Que fizeste, Jesus, para os teus quererem te expulsar e te matar, antes mesmo de te conhecerem?

Vieste trazer amor, vida, alegria, bondade e, mesmo encontrando o ódio, a morte, a tristeza, a perseguição e a guerra, lançaste neste mundo conturbado a semente do amor, da justiça, da paz que nos encarregaste de cultivar e fazer crescer.

Lentamente a pequena caravana vai avançando. Os rostos cansados de Maria e José nos revelam a dureza da viagem. De quando em quando, uma parada para refazer as forças.

Caminhar se tornou difícil porque a maioria dos homens te expulsaram de suas vidas. Preferiram fazer sozinhos a sua história... e muitos são os lobos e salteadores, que rondam pela estrada deserta do mundo vazio de Deus.

Jesus, ajuda-nos a arrancar nossas atitudes de Herodes porque queremos ser outras Marias e outros Josés, capazes de enfrentar na fé, a escuridão da noite, o calor do dia, e as asperezas da estrada para salvar vidas, levando-as ao Egito do teu coração.

Que hoje, o meu amor por Ti se traduza em compromisso com todos esses pequeninos e marginalizados da história.


PARA AJUDAR A REZAR:

A CONTEMPLAÇÃO - Quando uma pessoa utiliza o método de contemplação, ocorre, com freqüência, que venham à tona, ao consciente, lembranças da própria vida que correspondem à vida de Jesus. Permitir que isto aconteça pode ter efeitos salutares, tais como a cura de feridas passadas, percepção da presença e graça de Deus nos acontecimentos da vida, compreensão do significado e chamado contido nas experiências existenciais; Jesus se torna Senhor de nossas histórias pessoais, etc.

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.

PALAVRA DE DEUS - Mt 2,13-23

REVISÃO DA ORAÇÃO - De que você foge para permanecer fiel ao seguimento de Jesus?


10

O MENINO CRESCIA


Com Maria, José e a multidão dos sem-nome no caminho de Belém a Nazaré por atalhos, desvios, montanhas, colinas, vales, planícies, roçados, aldeias, ruínas de antigos esplendores passados... adormecidos... Caminhante, migrante com os obrigados a migrar pelos caminhos do mundo em todos os tempos. Tu, o Caminho.

Nazaré! Pode germinar algo de bom em Nazaré? Estas pedras podem se transformar em pão? Minúscula aldeia esquecida nas montanhas calcárias da Galiléia. Algumas casinhas, uma sinagoga, um poço: Nazaré! Nada, ninguém passa despercebido neste vaivém da vida de todos os dias. Encontros no poço profundo... de todos... água para todos, gratuita.

Shema, Ieshua... Escuta, Jesus, o Senhor nosso Deus é Senhor Único!

Com os demais meninos judeus, poucos, chegaste um dia, abrindo caminho, à sinagoga. A história do povo: “Meu pai era um arameu errante, peregrino. Gente pobre, fraca, faminta. Desceu para o Egito. Tornou-se forte. Numeroso. Foi escravizado. Oprimido. O Senhor, nosso Deus, com mão forte e braço estendido, nos libertou da casa do faraó. Conduziu-nos pelo deserto até a terra onde hoje nos encontramos. Por isso, não terás outros deuses diante de mim. Diante deles não te ajoelharás e não lhes prestarás culto. Só a Deus servirás.” Aliança do Senhor. Deus Único. A nuvem te envolveu. Tu passaste os dias refletindo, assimilando... crescendo...

À noite, à luz bruxuleante da candeia, com José e Maria, a oração dos salmos. Tu, obediente a teus pais, escutando a história de tantas Marias, de tantos Josés. O Espírito do Senhor, Deus Único, está contigo. No ritmo dos dias e das noites. Do poço e da sinagoga. Do trabalho e da oração. De Nazaré e de Jerusalém... Vais penetrando os corações, vais descobrindo os caminhos e os descaminhos de teu povo. E vais te tornando forte e corajoso.

Sem perceber os anos foram passando. Tu adolescente-adulto! Contemplo-te em todo o teu vigor. Cheio de mansidão e de fortaleza. Tuas mãos calosas, estendidas, abertas. Trabalho duro, pesado. Teu olhar profundo habituado a acompanhar o nascer do sol anunciando um novo dia de trabalho. Muito trabalho, pouco pão. Teus pés endurecidos pelas longas caminhadas sob o sol causticante, a areia quente, a pedra dura. Rosto suado. Trabalhador sempre à procura de trabalho. Oculto como o grão de trigo na terra...

Festa da Páscoa. Jerusalém. Como em anos anteriores. Maria, José, parentes, vizinhos, conhecidos... em peregrinação. Hinos. Cânticos. Salmos. Paradas. Partilha do pão e do peixe. Cansaço do caminho. Sob a luz das estrelas, teu coração bate forte. Tantas vezes... Jerusalém! Cidade da paz! “Se conhecesses aquele que te pode dar a paz...”

Profissão de fé com outros de tua idade, vindos de tantas regiões. Desconhecidos. Irmãos.

Misterioso silêncio daquela liturgia nacional, universal. Rotina da vida dos homens, judeus adolescentes feitos adultos. Ninguém percebeu o teu segredo. O segredo profundo de tua intimidade com o Pai. O compromisso assumido. O Espírito recebido, acolhido. Sinto a firmeza de tua decisão... Devo ocupar-me com as coisas - a causa de meu Pai! Quanto assombro diante desse adolescente decidido a ser fiel ao Deus da fidelidade! Todos se espantam com sua sabedoria. Nunca se viu coisa igual em Israel, em toda a sua história!

Nazaré! Obediência a Maria, a José. Sinagoga. O grande rolo nas mãos calejadas... Uma voz forte e firme ressoa nessa aldeia das montanhas da Galiléia. Tu empolgas! Seduzes. “Não é este o filho do carpinteiro?”

Causa do Pai... coisas do Pai. Pastorear as ovelhas. Semear. Preparar a terra. Amassar o pão. Varrer a casa. Tirar água do poço. Curar feridas. Consolar. Obedecer. Não ser compreendido. Trabalhar. Buscar. Discernir.
Tua liberdade perturba. Tu és outro. Diferente. Tu atrais para Ti.

Nazaré! Sozinho. Único. Filho muito amado!


PARA AJUDAR A REZAR:

AUTOBIOGRAFIA - Continue com sua Autobiografia. Se não acabou de escrevê-la, amanhã é o último dia.

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.

PALAVRA DE DEUS - Lc 2,41-52

REVISÃO DA ORAÇÃO - Que sinais concretos da sua vida indicam que você está crescendo nesse processo dos Exercícios Espirituais?


AMANHÃ:

REPETIÇÃO - A FUGA PARA O EGITO
O MENINO CRESCIA


11

NOVAS REGRAS PARA AJUDAR O DISCERNIMENTO


Estas novas regras supõem um desejo de servir ao Senhor e seguir sua Vontade em liberdade e com generosidade. Essas regras não se referem a tentações diretas para o pecado, como as que foram dadas na 1ª Etapa. Ao contrário, tratam de considerar como o mal impulsiona uma pessoa cristã generosa para a ansiedade, medo, perturbação, angústia.

No discernimento deve-se sempre perguntar pelo resultado final da moção: consolação ou desolação. No entanto, como pode haver falsa alegria e paz, tem-se de perguntar a que elas conduzem: humildade ou orgulho? centralização em si ou generosidade? São regras para discernir entre o bom e o melhor.

1. Na pessoa em purificação, as causas se conhecem pelos efeitos:
- o bom espírito leva à paz, consolação;
- o mau espírito perturba, causa hesitações, apresenta razões aparentes, coisas boas em si, “em princípio”, mas que não são saudáveis e depois conduzem para a desolação.

2. Se não se percebe a causa aparente da consolação, não podendo atribuí-la a nada nosso, toda consolação vem imediatamente de Deus. Ela vem como dom e é sempre experimentada como algo gratuito. A experiência é sempre a de uma presença, misteriosa mas real. A pessoa se dá conta, na sua própria vida, de uma plenitude, na experiência da presença de um Outro. É próprio do Criador entrar, sair, causar moções, levando a pessoa toda ao seu amor.

3. A consolação com causa só é distinguível pelo fim a que visa, pois sua origem pode ser ambígua, podendo ser de Deus ou uma usurpação do mau espírito:
- o bom espírito leva à maior consolação;
- o mau espírito leva à menor consolação e, por fim, à desolação;

4. O mais típico nesta etapa é que o mau espírito se disfarce. Ele aparece disfarçado de “anjo de luz” , isto é, como dono da verdade, sob a forma de bem. Pode haver falsa consolação. A verdade surge na medida do amor.

5. Examinar, nas deliberações mais importantes, onde há presença do bom espírito e do mau espírito no seu conjunto. Se o princípio, o meio e o fim são todos bons, inclinados inteiramente para o bem, é sinal do bom espírito. O mau espírito costuma cativar por meio de fervores indiscretos, que se apoiam em nossos “ideais exagerados”. O mau espírito não consola; ele usurpa a consolação, conduzindo-a a seus baixos fins. Sua estratégia não é derrubar de imediato. Tem objetivos de longo prazo. Interessa-lhe fazer decrescer, pouco a pouco, o interesse na vida espiritual.

6. Aproveitar as experiências de desolação para aprender a desconfiar a tempo.

7. Nos que progridem de bem para melhor, o bom espírito toca a alma doce, leve e suavemente, como a gota de água que penetra numa esponja. O mau espírito toca-a com dureza, ruído e inquietação, como a gota de água que cai na pedra. Aos que vão de mal a pior, os mesmos espíritos os tocam de maneira inversa. Cada espírito trata as almas semelhantes com doçura, e as dessemelhantes, com aspereza. Quando se leva uma vida espiritual, o bom espírito entra em silêncio, como em sua própria casa de porta aberta. Ao contrário, o mau espírito produz “ruído”. É a sensação de que algo díspar entra na nossa vida. É a experiência de ter um estranho em casa...

8. Após uma consolação, é preciso estar atento à ação do mau espírito: agarra-se à traseira do veículo na subida, pula na boléia para acelerar a descida...

PARA AJUDAR A REZAR:

EXAME DE CONSCIÊNCIA - Lembra-se do Exame de Consciência? O Exame de Consciência feito cada dia, durante alguns minutos, ajuda você a manter-se atento aos Exercícios a que você se comprometeu. Ainda mais importante. Ele dá a você alguns minutos para relembrar como estão as coisas entre você e Deus.

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.

PALAVRA DE DEUS - Jo 1,19-34

REVISÃO DA ORAÇÃO - Como você tem percebido a ação de Deus ou do mau espírito? Quais as moções experimentadas?


12

OS DOIS CAMINHOS


Chegamos a um momento muito importante, no qual você é convidado a compreender a fundo o Mistério de amor e de pecado no qual estamos envolvidos. Mais do que nunca você precisa da graça de Deus, da luz do Espírito Santo para captar a realidade envolvente do pecado e a força transformadora do amor, a fim de decidir-se por um caminho.


O CAMINHO DO TER

Esse caminho, que tem por trás o pai da mentira (Satanás) apresenta-se com um grande atrativo e exerce sobre as pessoas um verdadeiro fascínio, promete vida e felicidade. Mas é tudo engano, falsidade, fumaça nos olhos. Esteja agora bem atento à sua experiência pessoal e à sua observação das pessoas e da realidade que o envolve e verifique se é verdade ou não o modo como somos envolvidos pela proposta do mundo.

Inicialmente todos são atraídos pelo desejo de riquezas, de ter muito dinheiro, muitos bens. Confunde-se riqueza com felicidade, porque a riqueza abre as portas a todos os prazeres da vida: conforto, viagens, sexo, comidas e bebidas finas, espetáculos, mordomias, etc, etc.

Além disso a riqueza confere status. A pessoa é considerada, bajulada e elogiada, sua opinião tem peso, suas decisões têm autoridade.

Segue-se a ambição pelo poder, a ocupar um cargo de comando para que seus interesses sejam defendidos.

E finalmente através desse processo a pessoa chega a um grande orgulho, à auto-suficiência, considerando-se o centro e a norma de tudo, julgando-se incapaz de errar, não aceitando a menor crítica, porque é infalível e senhor da verdade. Chegado a esse ponto a pessoa torna-se incapaz de amar verdadeiramente: manipula, engana, escraviza, elimina as pessoas do seu caminho, porque não se interessa por ninguém, só se interessa por si mesma.

O fascínio dessa proposta contudo se exerce sobre todos: os pobres sonham com ganhar numa loteria, os jovens sonham com uma carreira que os leve, não a ajudar e servir os pobres, mas a se tornarem ricos, famosos, importantes, numa vida boa, e os meios de comunicação fazem a propaganda desse projeto que é assimilado tranqüilamente, sem espírito crítico.


O CAMINHO DO SER

Jesus também promete a vida, a vida verdadeira, mas sua proposta aos olhos dos que seguem o caminho do ter é uma loucura total. Ela não se encontra no “ter e ter sempre mais”, mas no “ser e ser sempre mais”.

Jesus convida à simplicidade de vida, ao desprendimento interior de todos os bens deste mundo, a relativizar o ter e a estar pronta a renúncias. “Todo aquele que não renuncia a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,33). “Felizes os que têm um coração simples, porque deles é o Reino” (Mt 5,3).

Ora, os simples normalmente não são levados em consideração, não contam, não tem privilégios nem defensores. Seria de estranhar que os discípulos do Senhor sejam humilhados, ridicularizados, marginalizados e até mortos pelos que seguem o mundo?
Contudo essas gozações e humilhações do mundo não lhes tira a paz, porque estão radicados no amor do Pai e buscam “não a glória que vem dos homens, mas a glória que vem de Deus”. Humildes diante de Deus e dos homens, os seguidores de Jesus abrem-se para o amor vivendo como filhos de Deus e irmãos dos homens: não se buscam a si, mas servem, ajudam, perdoam, acolhem, e interiormente saboreiam as verdadeiras alegrias de Deus.

Esse foi o caminho de Jesus, esse é o caminho dos seus verdadeiros discípulos. Inácio de Loyola ao perceber os enganos do caminho do ter que seguia com avidez, abandona seu castelo, troca suas roupas finas com um mendigo e logo é desprezado por todos... Inúmeros são os que entram pelo caminho do ser que, contra todas as aparências, leva à verdadeira vida.


PARA AJUDAR A REZAR:

TRÍPLICE COLÓQUIO - Na oração de hoje faça o Tríplice Colóquio: primeiro, com a Virgem Maria, depois, com Jesus e, finalmente, com o Pai, conversando com cada um deles, pedindo-lhes que atendam sua graça.

GRAÇA - Dá-me, Senhor, o dom de ser apto a reconhecer as ciladas do mal nas decisões que procuro tomar e me ajude contra elas. Da mesma forma, dá-me conhecimento da verdadeira vida, para que possa tomar decisões que me ajudem a encontrá-la.

PALAVRA DE DEUS - Mc 6,17-44

REVISÃO DA ORAÇÃO - Sente os apelos dos dois caminhos em você, produzindo tensões e conflitos? Quais são suas principais tensões e conflitos? Quando é que se sente chamado, convocado, estimulado e movido pelo mau espírito ou por Jesus?


AMANHÃ:

REPETIÇÃO - OS DOIS CAMINHOS


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TRÊS TIPOS DE PESSOAS


Hoje você vai rezar para saber até que ponto está disposto a seguir Jesus Cristo. O seguimento de Jesus exige liberdade e desapego diante das coisas. Pode ser que na sua vida algo esteja lhe escravizando, interferindo na sua oferta a Deus. Pode ser medo que lhe retêm, ambição que o impulsiona, orgulho que o leva a prender outros a você...

Toda opção implica uma renúncia e, por isso, toca em algo que nos afeta. Afetados, desencadeiam-se mecanismos de defesa, autojustificação, mascarando aquilo que Deus realmente nos pede. Por isso, nessa oração você vai rezar sobre a infinita capacidade que temos de nos enganar a nós mesmos.

A oração quer ajudá-lo a tomar consciência dos seus condicionamentos e a recuperar a autêntica liberdade de optar.

“Imagine três pessoas diferentes, boas, com consciência bem formada, devotas e de grande fé, que têm uma grande importância de dinheiro. Agrada-lhes a sensação de ter o dinheiro e estar fazendo grandes coisas com ele. No entanto, não se sentem completamente tranqüilas com o dinheiro que possuem. Parece estar contaminando suas vidas. Talvez elas gostariam de ter menos dinheiro, ou algo assim.

Então, analise cada uma das pessoas, na medida em que elas aparecem e vivem essa inquietação que sentem, e reflita para ver se identifica com alguma dessas três pessoas.

A primeira pessoa teve a coragem de identificar o apego ao dinheiro e quer verdadeiramente despojar-se dele e da inquietação. Fala muito sobre o assunto, pelo menos no princípio. Mas, não emprega os meios para mudar a situação. Quer, mas não faz nada! Anos depois quando morre, ainda rica, não fez nada a respeito.

A segunda pessoa continua com sua inquietação. Tenta resolver o problema por si própria. Ela não quer conservar o dinheiro e não entende porque deve desfazer-se dele. Ainda assim, não quer viver com este espírito de inquietação que não a deixa em paz com Deus. Por isso, toma algumas medidas. Sistematicamente, faz doações aos pobres, despossuídos e necessitados, em sua maioria. Montou uma estratégia em que a situação continuasse igual. Põe todos os meios, menos o único que deveria ser colocado. Desta forma, pensa fazer as pazes com Deus. Se damos isso aos pobres, Tu deverias dar-me a paz. Pensa que Deus se deixa manipular e concorde com sua estratégia. No medo de perder o que tem, fica ainda mais apegado ao pouco que lhe resta e cria um Deus na própria medida. Quando vem o momento da morte, já tem feito boas obras, mas não conseguiu a paz interior.

A terceira pessoa se abriu de tal modo à graça que está sempre pronta a tudo questionar. Considerou que poderia conservar o dinheiro ou também doá-lo todo. Fica assim disponível, quer para guardar, quer para deixar o dinheiro... Teve que admitir que não sabia se alguma das duas alternativas fosse resolver, de fato, o problema de sua inquietação. Por que conservá-lo? Por que doá-lo? Isto é o que fez: decidiu que não determinaria definitivamente se haveria de conservar ou doar o dinheiro. Esperaria para ver qual o significado dessa inquietação. Então, quando soubesse, agiria, conforme o Senhor o chamasse a fazer na situação concreta. Não há nenhum obstáculo entre a sua vontade e a Vontade de Deus para ela: fica com o dinheiro e só se decide a respeito depois de descoberta a Vontade de Deus no processo de discernimento. Esta pessoa decide a partir da Vontade de Deus e não a partir do apego ao dinheiro.”

Reflita sobre estas três pessoas, tentando situar-se pessoalmente..

PARA AJUDAR A REZAR:

TRÍPLICE COLÓQUIO - Termine sua oração de hoje com o Tríplice Colóquio, com Maria, Jesus e Deus Pai pedindo graça para mudar-lhe nos apegos a coisas e situações.

GRAÇA - Senhor, peço-lhe o desapego de tudo e de todos, até da minha própria sensualidade e comodidade, para seguir-Te livremente pelos caminhos que Tu quiseres.

PALAVRA DE DEUS - Lc 9,57-62

REVISÃO DA ORAÇÃO - Com qual das pessoas você se identificou e por quê? Quais os sentimentos que lhe invadiram ao pedir a Deus essa graça da disponibilidade, despojamento, liberdade total?


AMANHÃ:

REPETIÇÃO - TRÊS TIPOS DE PESSOAS



14

QUE DEVO FAZER, SENHOR?


Esta pergunta que Paulo fez a Cristo é a mesma que está na mente daquele que pretende, como cristão, buscar o caminho de sua vida.

A vida de um cristão é uma grande peregrinação: caminhamos para a plenitude, para Deus. E qual é o caminho que Deus quer que você tome para chegar até Ele? Como conhecer seu caminho?

A resposta, às vezes, surge com muita claridade. Algumas pessoas sentem e conhecem o que o Senhor quer delas e, sem ter dúvidas, caminham na realização dessa Vontade.

Outras vezes a Vontade de Deus se manifesta através de uma atenta observação e análise das aptidões pessoais, capacidades, riquezas interiores, aspirações profundas, sonhos, inclinações constantes e permanentes, atrações, etc... É o próprio Deus que nos cumula de dons e nos capacita para fazer uma determinada opção.

Trata-se do exercício de nossa liberdade. Isso significa que não podemos ficar passivos à espera da resposta vinda do céu. Ela é construída no dia-a-dia, nas pequenas decisões que tomamos, nos simples projetos que realizamos, etc... Nossa vida é um “treinamento” para as grandes decisões.

Pela graça, todos somos filhos de Deus, filhos muito amados... e Ele tem uma preocupação especialíssima para com cada um. E todo ser humano é chamado a realizar uma missão que lhe é própria, única... Esta não lhe é imposta, mas é confiada à sua liberdade. Privilégio sublime que constitui a grandeza do ser humano.

Para poder realizar esta missão, Deus nos cumula de qualidades necessárias, nos coloca em um ambiente apropriado e nos faz conhecer a sua Vontade sobre nós.

Quando Deus dá a uma pessoa aptidões e capacidades para coisas sublimes, é claro sinal que Ele a chama para algo maior, para projetos grandes, para uma missão importante.

É necessário, portanto, com toda humildade e verdade, descobrir em nós as “pegadas” mais profundas da passagem de Deus por nossas vidas: nossas grandes aptidões, nossa sensibilidade social, nosso espírito apostólico, nossa capacidade de atuação e de organização, nossa facilidade na comunicação, nossa gratuidade, nosso dom de simpatia, nosso espírito de recolhimento e de solidão, nossa especial facilidade para orar e mergulhar no divino.

O grande momento da graça vem quando você se dá conta que Cristo pára frente a você, diante de você somente, põe suas mãos sobre sua cabeça, fixa seus olhos em você e com voz suave lhe chama em particular. Conhecer este chamado especial que Deus lhe dirige em particular, deve ser a grande preocupação de toda a sua vida, sobretudo naqueles momentos mais decisivos.

O mais ardente desejo de toda pessoa é poder dizer em cada momento: estou onde Deus quer, faço sua Vontade. N’Ele confio plenamente.

Você tem vocação para algo muito grande! Para quê? Qual vai ser a finalidade de sua vida? Quais são seus desejos, aspirações, tendências...?

O primeiro princípio que nos pode orientar na nossa opção é este: Deus nos chama para aquele caminho de vida no qual podemos melhor servi-lo e servir os outros.

Notemos bem que não se trata de escolher qualquer caminho bom, mas o melhor para você.
Podemos acentuar estas duas palavrinhas: “para você”.

Não para um ser abstrato, mas para você concretamente, com toda sua bagagem de inteligência, afetividade, simpatia, qualidades e defeitos, influências e inclinações; com todas as possibilidades que a vida lhe oferece; neste momento concreto em que você vive, diante das necessidades do mundo, da Igreja, do país, de sua localidade...

Trata-se de um Eu bem real, de um cristão que considera sua opção à luz de seu Pai Deus, com os olhos e o coração de Cristo. E este Eu quer escolher um caminho, não um caminho qualquer, mesmo que seja simplesmente bom, mas que quer o melhor para ele.


PARA AJUDAR A REZAR:

VIDAS DE SANTOS - Pode ser muito útil a você a leitura das vidas de pessoas de alma grande, particularmente as vidas de Santos. Se você nunca leu a vida de um santo, é sinal de que você não está se tratando tão bem quanto mereceria.

GRAÇA - Senhor, quero ser livre para escolher seja o que for que o Senhor indique como seu chamado específico para mim.

PALAVRA DE DEUS - Lc 4,14-22

REVISÃO DA ORAÇÃO - Você já se sente preparado para uma opção decisiva na sua vida? O que está faltando?


15

A VONTADE DE DEUS


“Procurar a Vontade de Deus não é adivinhar o que Deus quer, mas amar o que Deus ama”.

Como conhecer a Vontade de Deus?

De quê falamos quando nos referimos à Vontade de Deus?

A Vontade de Deus não pode ser um projeto existente fora de nós, ou à margem de nossa vida e de nosso mundo, e à qual haveria que ir acomodando continuamente a vida e a ação, independente do que somos ou do rumo dos acontecimentos. Tal concepção ignora o fato de que nossa própria vida e nossa própria história estão já radicalmente marcadas pela iniciativa de Deus. E a iniciativa de Deus é manifestação de seu Amor.

Portanto, a busca e realização da Vontade de Deus há de levar sempre o selo da confiança, já que não nos encontramos diante de um Deus arbitrário que faz e desfaz sem atenção à realidade pessoal de cada um de nós, mas diante de um Pai-Mãe que nos criou.

Buscar a Vontade de Deus consiste, de algum modo, em buscar-nos a nós mesmos, isto é, o mais profundo e autêntico de nós, fruto da iniciativa criadora e amorosa do Senhor. Trata-se daquele lugar e daquela direção profunda de nossa vida pessoal onde desvelamos a ação do Espírito que atua em nós. Nossos desejos encontram-se com os desejos de Deus.

A Vontade de Deus é pois, sempre “personalizadora”. Assim, quando tratamos de conhecê-la, sempre temos de prestar atenção ao nosso interior, onde atua o mesmo Deus cuja Vontade buscamos, para comprovar se o que “parece” ser a Vontade de Deus é mediação adequada para realizar em nós aquela plenitude que é a obra própria do Espírito.

“Deus, quanto mais quer dar, tanto mais faz desejar” (S. João da Cruz)

A Vontade de Deus sobre nós que devemos buscar e encontrar não é uma realidade já escrita definitivamente numa lei fixa e pré-fabricada antes de nós e sem nós. Ela não é uma coisa já pronta que somente devemos descobrir, como se descobre um tesouro que alguém escondeu em nosso jardim.

Com efeito, a Vontade de Deus é “aberta”, ela se encontra inscrita no dinamismo da vida, no seio de suas relações múltiplas. É um caminho a inventar, não descobrir algo oculto. Por esta razão, a Vontade de Deus vai se realizando cada dia e requer uma busca humilde, confiante e contínua.

Deus não é Alguém que previu tudo, mas Aquele que ama os homens com Amor infinito. Bem longe de manipulá-las, Deus acompanha as pessoas em sua história, respeitando-lhes a liberdade e a responsabilidade própria. Deus não dirige o mundo a seu bel-prazer, uma vez que respeita muito a liberdade do homem.

O Deus Criador do homem não é seu rival, mas Aquele que lhe permite ser plenamente ele mesmo. Ele está bastante presente para deixar que sejamos nós mesmos. A Vontade de Deus é que a pessoa se desenvolva na linha de seu autêntico ser e de sua identidade, através das “situações” que lhe cabe viver. Daí que introduzir-se na busca da Vontade de Deus é algo criativo, pois na gama imensa de situações que a pessoa vive se há de descobrir qual é a opção que corresponde melhor ao que agrada a Deus.

Fazer a Vontade de Deus é encontrar o caminho que você mesmo traça, enquanto segue de perto a pessoa de Jesus, que já está caminhando em sua vida e vai adiante de você, e enquanto você se identifica com Ele o mais que pode, fazendo-lhe iluminar e aquecer por seu Espírito.

A busca da Vontade de Deus é uma tarefa intimamente vinculada ao ser da pessoa que busca e que, por conseguinte, se enraíza no curso de sua própria vida pessoal. Não é um fato que se improvisa e que brota da superfície de si mesmo, senão do Coração da própria existência.


PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Senhor, quero ser livre para escolher seja o que for que o Senhor indique como seu chamado específico para mim.

PALAVRA DE DEUS - Mt 21,28-32

REVISÃO DA ORAÇÃO - Como “escutou” os apelos de Deus? Acolheu com amor gratuito os “toques” de Deus?



16

O BATISMO DE JESUS


“Dai-nos, ó Pai, a graça de ouvir fielmente o vosso Filho amado, para que,
chamados filhos de Deus, nós o sejamos de fato”.

Jesus, és agora como um trigal maduro! Podes lançar-te pelos caminhos, pelas praças, pelas sinagogas, pelo templo e anunciar a novidade: o Todo-Poderoso é Amor! É Misericórdia! É Ternura! É Paixão!

Teu coração urge! Coração urgente capta freqüências sensíveis. Do deserto lhe vem ao ouvido: “Raça de víboras... O machado já está posto à raiz... Quem tiver duas túnicas...” (Lc 3,7). É preciso ir!

Vejo Jesus no último jantar, com Maria, na humilde casa de Nazaré. Seus rostos de leve desenhados pela luz tênue da lamparina, alimentada com azeite de oliva. As marcas da serenidade e alegria não ocultam de todo uma certa tristeza pela hora que se avizinha. A Mãe, que tudo guardava no coração (Lc 2,51) e no silêncio fecundo meditava, há muito pressentia aquele momento.

A Mãe fala mais com o olhar!

Depois de uma pausa, em que só se ouve o silêncio, Jesus desabafa: “Devo ser batizado com um batismo e como estou ansioso até que isto se cumpra” (Lc 12,50).

Ele parte. Toma o rumo do Jordão... Seus passos são rápidos. É tão sagrado o momento... Seu rosto revela um misto de alegria, perplexidade e urgência...

À medida que avança, a vegetação escasseia, dando lugar ao deserto. O suor molha-lhe o rosto e a túnica. Seus lábios se movimentam ao ritmo do “Abba!”

De repente vejo filas animando o deserto. Vindas de todos os quadrantes. Algumas pessoas sozinhas, outras em pequenos grupos. Todos andam, esperançosas, em direção ao Jordão.

E Jesus mistura-se à massa humana. Faz-se um com os pecadores.

Tu vens, Jesus, espantosamente de mansinho. Tu não vens para apagar a chama que bruxuleia e nem esmagar a cana que está rachada (Is 42,3). E tu vens, Jesus! De mansinho... que é para minar o desânimo e erguer definitivamente o mastro da esperança!

João, de cima de uma pedra, na beira do rio, com voz forte, repete: “O machado já está posto à raiz...”

Jesus, buscas um batismo de penitência? Necessitas de remissão dos pecados? Mas Tu és o Filho de Deus, o Santo de Deus!

Estou diante do mistério: “Ele não hesitou em deixar sua condição divina e vir morar no meio de nós” (Fl 2,7)

Quando chega a vez de Jesus, vejo João estremecer. O seu tom de voz o trai. Parece que o profeta é tomado de uma certeza de que este é o Messias, o Enviado. “Você aqui? Eu é que preciso ser batizado por você, e você vem a mim?” (Mt 3,14)

Jesus, Tu te fizeste pecador por causa de nós, a fim de que, por meio de ti, “fôssemos reabilitados” (2Cor 5,21). Na margem do rio, Tu desces, mergulhando fundo na noite escura da fragilidade humana.

E o Pai não resiste e clama: “Este é o meu Filho amado, que em tudo me agrada!” (Mt 3,17)
E te vejo novamente mergulhado no oceano infinito da ternura de Deus! Todo o teu ser é como a maré alta, e invades, acolhes, abraças, “aconchegas” o coração humano com “vagas” de compaixão: “Venham a Mim, vocês que tem sede. Venham e bebam! “(Jo 7,37-38). “Venham a mim vocês que carregam pesados fardos. Eu os aliviarei. Minha carga é suave e meu fardo é leve” (Mt 11,28s).


PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.

PALAVRA DE DEUS - Mt 3,13-17

REVISÃO DA ORAÇÃO - Quais são as implicações do seu Batismo na sua vida?



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A VOCAÇÃO FUNDAMENTAL


A vocação é um mistério pessoal e eclesial, onde entram em jogo a liberdade do Senhor e a liberdade do indivíduo. É algo que acontece no mais íntimo e a partir daí repercute em todas as outras dimensões da pessoa. Há um apelo fundamental que impregna toda a personalidade. É como que o “fio de ouro” da gente, o que há em cada um de mais típico e de melhor que o faz ser ele mesmo.

A vocação fundamental abrange três dimensões do Ser humano e visa criar uma “unidade profunda” integrando todos os aspectos e dimensões do homem.


SER PESSOA - é a mais simples exigência que a vida nos impõe e que os outros querem de nós. Todo ser humano está chamado a ser Sujeito e a realizar a si mesmo como Pessoa. Esse processo de realização é, por sua natureza, criativo, transformador e gestador de humanidade. A personalidade é exatamente o poder de expressão que nós temos através de nossas possibilidades, de nossos sinais, de nossos sistemas de referência, de nossa corporeidade. É a nossa identidade, a nossa marca, a maneira nossa de estarmos presentes no mundo. É a primeira resposta do homem ao chamado de Deus, que o convida a realizar-se como “gente”. Consiste em viver, pessoal e comunitariamente, valores e virtudes humanas. Ser gente com os dois pés no chão, gente que sente, que chora, que sorri, que sofre, que ama, gente que está no meio do povo, sem redomas, sem subterfúgios... que não pretende ser mais do que realmente é.

ALGUNS SINAIS DE QUE EXISTE NA PESSOA UM PROCESSO INICIAL DE CRESCIMENTO NESSA DIMENSÃO: aceitação de si e dos outros; senso de responsabilidade; posicionamento crítico diante da realidade; suficiente integração da afetividade e da sexualidade; bom uso da agressividade; capacidade de interiorizarão...


SER CRISTÃO - É viver o “ser pessoa” à luz da fé e da mensagem de Cristo, estar marcado pelo Cristo. Ser cristão significa também “viver sob a inspiração criadora do Espírito de Cristo”. Este Espírito sempre nos levará a sermos fiéis ao Cristo dos Evangelhos (abertura para Deus e para os homens). Por isso pode-se dizer que ser cristão é viver a união com Cristo. É morrer para que o outro viva. É radicalismo no amor. Consiste sobretudo em dar continuidade à missão do Senhor, assumindo o batismo nos seus traços de chamamento à santidade (comunhão e cooperação com Deus) e em ser membro ativo de comunidade, dando testemunho do Reino (comunhão e cooperação na Igreja e no Mundo).

ALGUNS SINAIS DE QUE EXISTE NA PESSOA UM PROCESSO INICIAL DE CRESCIMENTO NESSA DIMENSÃO: vivência espiritual; amor pessoal à Jesus, à Eucaristia, a Nossa Senhora, à oração; valorização da Palavra, pessoal e comunitariamente; orientação espiritual; testemunho de vida; busca de coerência entre vida e vocação; comportamento adequado ao tipo de vida que quer assumir; responsabilidade nos compromissos do dia-a-dia: estudo, trabalho, atividades; desejo do “mais” em tudo...


SER IGREJA: É pertencer a uma comunidade de fé onde a Palavra, a Eucaristia, o Testemunho, são assumidos, vividos, comunicados (evangelização e compromisso). Ser Igreja significa ter um engajamento efetivo nos “ministérios” como por exemplo: anunciar a Palavra, visitar doentes, catequizar novos membros, organizar a liturgia, coordenar grupos de jovens, participar de pastorais e movimentos... Por isso o empenho, a corresponsabilidade, o compromisso na Igreja e no Mundo. Isso tudo significa assumir efetivamente as exigências do Batismo e da Crisma.


ALGUNS SINAIS DE QUE EXISTE NA PESSOA UM PROCESSO INICIAL DE CRESCIMENTO NESSA DIMENSÃO: engajamento apostólico; estar comprometido com uma atividade pastoral concreta, na comunidade; ser capaz de trabalhar em equipe e ter disponibilidade para servir; amor à Igreja, aos Pastores e tendo uma dedicação especial pelos mais pobres, assumindo os riscos que isso comporta; alegria na doação; capacidade de reflexão e de revisão...

A vocação fundamental é a base para o discernimento das vocações específicas.


PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.

PALAVRA DE DEUS - Mt 5,1-14

REVISÃO DA ORAÇÃO - Quais são os gostos, os interesses e as inclinações do seu coração? Para onde se dirigem com mais freqüência?


AMANHÃ:

REPETIÇÃO - O BATISMO DE JESUS
A VOCAÇÃO FUNDAMENTAL


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APROXIMAR-SE DA PESSOA DE JESUS


“E vós, quem dizeis que Eu sou?”
(Mc 8,27-29)

Aos poucos vamos dando passos importantes na nossa oração. Estamos conhecendo a Pessoa de Jesus e entrando num relacionamento pessoal e íntimo com Ele. Também estamos conhecendo o caminho pelo qual Jesus realiza o Projeto do Pai na história e percorrendo esse caminho, sintonizando-nos com Ele.

A plena revelação de Deus só se deu através de Jesus Cristo: “Este é o meu Filho, o Eleito, ouvi-o sempre” (Lc 9,35). O Pai nos convida a escutar Jesus, como se nos dissesse: “Tudo o que tenho para dizer-vos, vou revelar-vos por meu Filho: Ele é minha Palavra, minha Imagem, meu rosto para vocês”.

Jesus é o “homem dos Caminhos”, que chama para uma Vida Nova. A “pegada” que ele deixa ao passar é sua própria Vida partilhada. Jesus é o homem que se definiu. Ele tem um sonho, um projeto. E surge diante dos homens com força pessoal capaz de arrastar consigo. Ele “passa” e sua presença atrai.

Jesus aproxima-se. Não trata de convencer, de argumentar, de fazer seguidores à base de discursos. Jesus “arrasta” porque oferece um mundo novo, uma proposta nova. Chama na vida e para a vida, e põe a pessoa em movimento, a caminho. Jesus “passa” ao nosso lado e nos desperta para a vida.

Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida para todo homem que vem a este mundo. Ele abre o caminho na história, o caminho para a construção do Projeto do Pai nos corações dos homens, indicando-nos os valores, as atitudes, as preferências e os critérios para essa reconstrução. No fundo, não somos chamados para coisas nem para tarefas. Trata-se de um encontro com a pessoa de Jesus: encontro dinâmico e transformante que nos leva à identificação com Ele, reproduzindo em nós suas atitudes, sentimentos, opções, valores...

É esta experiência que temos pedido: “conhecimento íntimo de Jesus Cristo”. Não se trata de um conhecimento intelectual, especulativo... significa conhecimento do coração, de afeto, de entrega... Mediante este conhecimento, a Pessoa e a Vida de Jesus penetram no mais profundo de nosso ser: nosso coração, nossos critérios, nossa maneira de viver... E nós penetramos no mais íntimo da Pessoa de Jesus: seus valores, motivações...

Tal conhecimento só se dá no seguimento: somente aquele que segue Jesus pode chegar a conhecê-lo profundamente. Jesus Cristo não quer que o imitemos mas quer que o sigamos. Imitação é cópia, repetição, falta de novidade. Seguimento, ao contrário, é avanço, é continuação histórica de uma causa, de uma proposta de vida...

Jesus convoca pessoas que têm espírito de audácia, de energia, de criatividade, de luta, de participação... Neste empreendimento onde há vagas para todos, cada um de nós deve descobrir a sua maneira pessoal de melhor corresponder à proposta de Jesus.

Vemos, com freqüência, muitas pessoas dotadas de grandes capacidades, mas por medo, insegurança, dúvidas... renunciam multiplicar e desenvolver suas qualidades e embarcam na realização de projetos minúsculos. São chamadas para “coisas maiores” e, no entanto, limitam-se a realizar o menor; são impulsionadas para o Mais e contentam-se com o Menos. Enterram suas aspirações mais profundas, seus sonhos mais nobres. Diante do convite para um “novo passo”, voltam para trás; falta-lhes uma injeção de idealismo e de sonhos, de generosidade e serviço. Passam a vida... sem dar sentido à ela.


PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.

PALAVRA DE DEUS - Mc 1,14-45

REVISÃO DA ORAÇÃO - Qual o aspecto da vida de Jesus que mais lhe custa viver? mais lhe questiona? mais lhe assusta?


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A VOCAÇÃO DO LEIGO CRISTÃO


Ser leigo cristão é uma explicitação da “Vocação Fundamental” segundo um estilo de vida, uma maneira de viver, de reproduzir o Cristo. À essa explicitação ou desdobramento da “Vocação Fundamental” chamamos “vocação específica”.

O leigo é um cristão que vive sua vocação batismal. Cabe ao leigo construir o Reino de Cristo no mundo, transformando as estruturas injustas, pela presença dos valores evangélicos no âmbito da família, da escola, do trabalho, da política, etc., e sentir-se co-responsável no serviço da Igreja, através dos ministérios leigos.

NO MUNDO - Pelo testemunho de sua vida, por sua palavra oportuna e sua ação concreta ele tem a responsabilidade de ordenar as realidades do mundo (a família, a educação, as comunicações sociais, a política, etc) para pô-las a serviço da instauração do Reino de Deus.

Em todas as realidades do mundo o leigo deverá buscar e promover o bem comum: na defesa da dignidade do homem e de seus direitos; na proteção dos mais fracos e necessitados (crianças, anciãos, marginalizados, jovens desorientados, desempregados, operários, camponeses...); na construção da paz, da liberdade, da justiça; na criação de estruturas mais justas e fraternas. Deste modo o leigo tornará a Igreja presente e ativa no meio dos homens, no meio do mundo, dando um verdadeiro testemunho do Evangelho na construção do Reino.

NA IGREJA - marcado pela “consagração batismal” e membro do povo de Deus, o leigo é chamado a ser um fermento de santidade, testemunhando as riquezas de seu Batismo e de sua Confirmação. O leigo, consciente de sua realidade de “batizado” vai assumindo trabalhos diversificados, dentro das comunidades eclesiais.

O desempenho de um ministério é uma forma de responder ao chamado de Deus, de viver a vocação apostólica que todos recebem no batismo. Os ministérios leigos são tarefas exercidas em benefício da comunidade como: ministro extraordinário da Palavra, da Eucaristia, catequista, pastoral dos enfermos, animador da comunidade, organizador da liturgia, ser líder nos movimentos de jovens, de adultos...

Desta forma o leigo contribui para construir a Igreja como comunidade de fé, de oração, de caridade fraterna. Faz isto por meio da catequese, da vida sacramental, da ajuda a seus irmãos.

O leigo pode viver sua vocação formando uma família, através do matrimônio. O matrimônio é um compromisso de amor, uma aliança de pessoas à qual se chega por vocação amorosa do Pai que convida os esposos a uma íntima comunidade de vida e de amor, cujo modelo é o amor de Cristo à sua Igreja. A maioria das pessoas segue esta vocação.

A lei do amor conjugal é: comunhão e participação, não dominação de um sobre outro; uma exclusiva, irrevogável e fecunda entrega à pessoa amada, sem perder a própria identidade; uma aliança, amizade profunda, mútua, gratificante, vivificada pelo acolhimento, a doação, a comunhão, a fidelidade, o perdão e a transparência.

A missão dos esposos é buscar a plenitude do próprio ser por uma realização plena numa vida a dois, como expressão do amor mútuo; colaborar com Deus na transmissão da vida e educação integral dos filhos; servir à causa do Reino, pois os esposos são para si mesmos e seus filhos testemunhas da fé e do amor de Cristo, testemunhas da fecundidade da Igreja, enquanto colaboram na formação de homens e de cristãos autênticos.

ALGUNS SINAIS DE UM CHAMADO PARA A VIDA MATRIMONIAL: o desejo de santificar-se no mundo; partilhar a vida com outra pessoa que inspira confiança e com a qual se prevê uma experiência de complementação e de felicidade; a alegria serena e livre em pensar que pode constituir uma família; uma clara inclinação para a paternidade ou a maternidade responsável; amor às crianças e o desejo de ter filhos; a alegria que se espera ter em gerá-los e criá-los; o desejo de ser apóstolo em seu ambiente.

Muitos leigos há que não se sentem chamados nem à vocação matrimonial, nem à vocação consagrada. Querem, simplesmente, ser solteiros e só solteiros. Nesse estado de solteiro dedicam à Igreja todas as energias de sua vida, dispondo-se ao serviço de irmãos carentes e de comunidades abandonadas. É uma verdadeira vocação!


PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.

PALAVRA DE DEUS - Jo 2,1-11

REVISÃO DA ORAÇÃO - Que desejos, tendências, necessidades afetivas e sexuais, experiência de vida e modo de agir podem indicar que o matrimônio seja uma vocação para você? Por quê?


AMANHÃ:

REPETIÇÃO - APROXIMAR-SE DA PESSOA DE JESUS
A VOCAÇÃO DO LEIGO CRISTÃO


20

TRÊS MODOS DE AMAR


“Eu quero e desejo e é minha determinação deliberada, contanto que seja para vosso maior serviço e louvor, imitar-vos em passar por todas as injúrias e todas as humilhações e toda a pobreza, tanto material como espiritual, se Vossa Santíssima Majestade me quiser escolher e receber em tal vida e estado!” (Santo Inácio)

Vai se fazendo necessário avaliar o nível do nosso amor para com o Senhor, nos situando mais plenamente na luz de Deus.

Os três modos de amar são nossa resposta ao amor de Deus por nós. São também três modos de reconhecer que sou criatura e três modos de permitir que Deus modele meus valores.

Esta oração se dirige diretamente ao coração, pois se trata de ser tocado no mais íntimo, de ser irresistivelmente atraído e contagiado pelo estilo de vida de Jesus Cristo.

Os três modos de amar são um processo de esvaziamento de si mesmo para encher o coração da capacidade de amar e de chegar a uma entrega total. Somente a partir do amor é que a nossa vontade poderá se manter no seu propósito. Sem o amor, a pura “força de vontade” cai. É necessário ter um profundo amor a Jesus Cristo para aceitar seu caminho, mesmo que este caminho implique a Cruz. Esta é a lógica do Amor, incompreensível aos olhos dos homens.

1º MODO DE AMAR - Vejo o mundo como ele é. E a mim mesmo, desejando certas coisas. Compreendo, porém, que não sou eu quem determina quais desejos me conduzem a uma vida mais autêntica e a uma completa felicidade. Eu dependo de Deus para isso. Deus, o Senhor e Criador, colocou em mim e para mim, certos valores, de forma que quando eu avalio qualquer coisa ou ato, não posso fazê-lo levando em conta somente minhas próprias normas. Deus estabelece seus valores. Eu dependo de Deus através de minha consciência. Vivo para obedecer a Deus, que se manifesta no meu espírito. Deus colocou no mais profundo do meu ser o anseio de chegar até Ele e eu decidi realizar o desejo de me entregar a Ele, acima de qualquer outro desejo e nada fazer que me afaste d’Ele. É o caminho dos mandamentos.

2º MODO DE AMAR - Brota em mim o desejo de encontrar a Deus e aumentar o meu amor por Ele. Não perco tempo “fugindo do pecado”, mas dedico meu tempo buscando a Deus. Neste estado de ânimo, sinto-me numa perfeita disponibilidade à graça, mesmo em coisas pouco importantes. Houve em mim uma mudança, escolhendo amar a Deus e não apenas lhe obedecer. Vejo como a minha vida seria inútil se, por exemplo, me entregasse totalmente a fazer algo que gosto. Bobo seria eu se dependesse de coisas materiais para a minha felicidade, pois elas não duram. Isto o vejo e sinto desde o fundo do meu ser. Há em mim uma disposição de aceitar qualquer coisa, pois aceito que o mundo e tudo o que ele contém é do Senhor. É o caminho da indiferença.

3º MODO DE AMAR - Jesus Cristo me atrai e me enche com seu amor. Chego a amá-lo até o ponto de querer ver como Ele viu, sentir como Ele sentiu, apreciar o que Ele apreciou, viver, enfim, como Ele viveu. Ele se humilhou de tal modo, que se entregou totalmente, vivendo como os pobres, fazendo com que os mais humildes e rejeitados se sentissem acolhidos ao seu lado, sempre servindo. Ele se manteve firme, mesmo quando as decisões que tomou sob a inspiração do Espírito o conduziram a um grande sofrimento e a uma morte cruel. Vejo que quero seguir seus passos em tudo isso. Conscientemente renuncio a todo desejo de ser famoso, poderoso, rico e tido por sábio. Quero viver como Ele viveu. Eu aceito o que Deus, meu Senhor, quiser de mim. É o caminho do seguimento de Cristo.


PARA AJUDAR A REZAR:

TRÍPLICE COLÓQUIO - Na oração de hoje faça o Tríplice Colóquio: primeiro, com a Virgem Maria, depois, com Jesus e, finalmente, com o Pai, conversando com cada um deles, pedindo-lhes que atendam sua graça.

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.

PALAVRA DE DEUS - Mt 19,16-22

REVISÃO DA ORAÇÃO - Com que forma de amar você se identificou? Por quê?



21

O CHAMADO DE PEDRO


Há muita gente que ouve Jesus. Ele está perto do lago, vê duas barcas com os pescadores que já desceram e estão limpando as redes. Sobe numa daquelas barcas, a de Pedro. Pede que a afaste um pouco da margem e, sentado, pôs-se a ensinar.

Podemos imaginar o sentimento de Pedro que fica envaidecido pelo fato de que foi escolhida sua barca. Pedro está vivendo um momento de euforia.

Acabado o discurso, Pedro pensa em descer à terra e receber os cumprimentos do povo. Mas Jesus, sem mais, diz-lhe que se faça ao largo e lance as redes. Certamente, há uma mudança em Pedro... Da resposta que ele dá pode-se adivinhar que em sua mente surgem dúvidas sobre as palavras do Mestre porque a hora já está adiantada, a pescaria acabou e não há peixes.

Provavelmente Pedro pensa na figura que farão se depois não acontecer nada. É um instante difícil no qual a confiança de Pedro no Mestre pode ficar abalada: talvez lhe conviesse negar-se simplesmente a isso, evitando esta prova que poderia levá-lo ao ridículo diante do povo.

“Trabalhamos a noite toda e não pescamos nada”. Sensação de cansaço... Se ceder a este cansaço estará recuando diante do oferecimento de Jesus. Se, ao contrário, Pedro se decidir superar tanto a fadiga que o oprime como também o ridículo que o ameaça, então teremos um homem que supera a própria desconfiança: “Na tua Palavra lançarei as redes...”. Notemos quanto há de profundo nesta expressão que na Bíblia designa a atitude do homem diante de Deus.

Pedro passa a ser a figura do homem que se compromete também nas coisas pequenas e simples mas que exigem certa decisão. Sai dos cálculos e se atira, confiando na Palavra do Senhor.

Os que calculam muito, os que estão continuamente preocupados consigo mesmos, com as vantagens que possam obter, os que querem verificar tudo para ver se coincide ou não com as próprias seguranças, não são aptos para o seguimento de Jesus.

Na realidade, o seguidor de Jesus revela-se precisamente nestes momentos. É questão de “arriscar”, de dar algum passo além daquilo que é puramente seguro e sólido. “Quem se arrisca, pode errar; quem não se arrisca, já errou”.

No fundo, é o próprio Pedro que pula para fora da barca para lançar-se ao lago. É o amor que suscita no homem este atirar-se. Pedro é tocado por Jesus na sua disponibilidade para aquela capacidade de risco... E a rede lançada na Palavra de Jesus se enche... Chegam outras barcas e também estão para afundar.

Vendo isso, Pedro se lança aos pés de Jesus, dizendo: “Afasta-te de mim, pois sou homem pecador”. Colocado diante da santidade de Deus, Pedro sentiu que muitas coisas de sua vida não funcionavam.

Jesus leva Pedro a provar um ato de confiança; leva Pedro a uma sincera purificação, à humildade, ao reconhecimento da necessidade da misericórdia de Deus... Pedro deu um passo tão decisivo de libertação interior que todos os temores que antes podia ter com relação àquilo que pensa e diz o povo, foram superados.

Jesus forma o seu seguidor através destes saltos de confiança, com a apresentação de seu poder; gradualmente, faz emergir um verdadeiro sentimento penitencial.

O episódio se encerra com uma última reviravolta da realidade. Pedro espera que o Senhor o confirme em seu sentimento de penitência, mas Jesus lhe diz: “Não temas; doravante, a partir deste momento, serás pescador de homens”.

É uma reviravolta da situação. Desde homem confiante fez um homem que soube reconhecer espontaneamente a própria pobreza; agora, deste homem humilhado na sua pobreza, faz um homem cheio de confiança.


PARA AJUDAR A REZAR:

PERSEVERANÇA E ALEGRIA - Algumas vezes pode acontecer de entrarmos num tempo de secura ou mesmo de confusão e desencorajamento. Com ela aprendemos a perseverar em nosso trabalho e sabemos também que o dom da alegria é verdadeiramente um dom, que nós nem o merecemos por nós mesmos nem o recebemos por nosso esforço.

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.

PALAVRA DE DEUS - Lc 5,1-11

REVISÃO DA ORAÇÃO - O que é que está lhe “amarrando”, impedindo-o de lançar-se mais, “arriscar-se”, dar o passo decisivo?


22

A VOCAÇÃO SACERDOTAL


O sacerdote é um cristão assinalado pelo Sacramento da Ordem que o põe a serviço do Povo de Deus. Cabe a ele, como ministro, servo, pastor e mediador, suscitar e dinamizar comunidades vivas de fé, de evangelização, de testemunho e de espírito missionário, em comunhão com os fiéis.

Como pessoa assinalada pelo sacramento do Batismo, o sacerdote se sente e se faz irmão entre irmãos; a eles se doa; amigo de todos. Faz-se presente na vida dos homens, partilhando e vivendo seus anseios, suas alegrias, seus problemas.

Como pessoa assinalada pelo sacramento da Ordem, o sacerdote consagra a vida para continuar entre os fiéis a presença visível de Cristo Cabeça e Pastor. Sinal radical de entrega ao Senhor para servi-lo na pessoa dos irmãos é o dom do celibato.

O sacerdote assume e vive a missão salvífica de Cristo consagrando-se plenamente e com competência, ao ministério:

- da Palavra: O sacerdote é um “especialista” da Revelação pela palavra e pela vida. À luz da Palavra tenta descobrir a vontade de Deus e responder aos “porquês” existenciais dos homens. Ele é um homem de Deus. Só lhe é dado ser profeta na medida em que tenha feito a experiência do Deus Vivo. Só esta experiência o fará portador duma Palavra poderosa para transformar a vida pessoal e social dos homens, de conformidade com o desígnio do Pai.

- dos Sacramentos: sobretudo a Eucaristia que constrói, une os homens como irmãos e sela a aliança com o Pai. Pela mediação do Sacerdote, a oblação de cada pessoa torna-se “oblação” de Cristo.

- da Ação Pastoral: guiando, orientando, valorizando os “ministérios” dos fiéis que ele ama intensamente. Ele “serve a Deus na pessoa dos irmãos”. É o Pastor.

Como pessoa ligada ao Bispo, o sacerdote vive em união com ele e com os demais presbíteros, unindo, construindo e desenvolvendo a comunidade eclesial.

Se o Sacerdote pertence a uma Diocese é um Sacerdote diocesano. Se ele pertence a uma Congregação ou Ordem Religiosa (salesiano, fransciscano, jesuíta...) é um Sacerdote religioso.

Vejamos algumas características do Sacerdote:

- Ter sido escolhido por Deus para continuar a missão redentora. Ligação profunda e amiga com Ele. Presença especial do Senhor na Igreja e no Mundo.
- Convivência fraterna/paterna com os leigos, solidariedade: ajudá-los a conseguir com dignidade o que lhes é devido por direito, acompanhando-os na busca da verdadeira justiça e liberdade.
- Experiência de amor fraterno e amigo das pessoas que sentem toda gratidão por quem se sacrifica em seu favor. A austeridade do celibato se suaviza pela amizade e comunhão com as pessoas...
- A plenitude humano-divina que brota de uma dedicação total aos irmãos e a unção do Espírito que faz participar o sacerdote das alegrias do Ressuscitado.

O jovem que pretende ser sacerdote deveria:

- estar vivendo uma profunda experiência de fé, no seguimento de Jesus Cristo;
- estar inserido e comprometido com uma comunidade cristã;
- ter espírito apostólico e sensibilidade para trabalhar com o povo;
- ter consciência de ter sido escolhido por Deus para um ministério especial;
- ter as disposições para aceitar e viver o celibato.
A consciência do chamado brota de uma experiência interior tanto mais límpida quanto mais autêntica e livre. Só há sinal de vocação autêntica, se for testemunhada pela vida, pelo comportamento.


PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.

PALAVRA DE DEUS - Lc 10,25-37

REVISÃO DA ORAÇÃO - Que desejos, inclinações, capacidades, experiência de vida e modo de agir podem indicar que a vida sacerdotal seja uma vocação para você? Por quê?


AMANHÃ:

REPETIÇÃO - O CHAMADO DE PEDRO
A VOCAÇÃO SACERDOTAL


A ORAÇÃO DE REPETIÇÃO - Quando você fizer repetição, poderá retomar algo das suas orações (textos ou versículos da Palavra de Deus, pensamento, sentimento...) onde você descansa, silenciosamente, no acontecimento ou no fato da vida de Jesus mesmo. Este estar aí quieto, que em sua aparência não parece nada de especial, é uma oração de muito fruto. Volte para aquele momento. Mesmo se você não encontrar aquela quietude outra vez, você está muito próximo de aprender muito sobre Deus e sobre você mesmo.



23

TER OS OLHOS SEMPRE FIXOS NO SENHOR


“Certo dia, um jovem monge foi encontrar um velho monge, cheio de idade e de experiência, dizendo-lhe:
- Mestre, explica-me por que tantos jovens procuram a vida monástica e tão poucos perseveram nela. Por que tantos jovens voltam para atrás?
Respondeu o velho monge:
- Veja bem: é como um cão que via uma lebre. Ele se põe a correr atrás da lebre, latindo forte. Outros cachorros escutam o cão que late, correndo atrás da lebre, e também se põe a correr. São muitos cães, correndo juntos e latindo; mas apenas um viu a lebre e somente este a segue com os olhos. Num certo momento, um após outro, todos os cães que não viram a lebre de verdade começam a cansar e perder o fôlego: não agüentam mais; estavam correndo apenas porque ouviram o latido daquele único cão que viu a lebre. Este fixou os olhos na meta de modo pessoal e chega ao fim de seu objetivo: capturar a lebre.
E arrematou:
- É assim que acontece com os monges: somente aqueles que verdadeiramente fixaram seus olhos na pessoa de Jesus Cristo, nosso Senhor Crucificado, é que conseguem chegar até o fim”.

Quem fixar os olhos em si mesmo, nunca dará o passo, porque nunca sairá de si mesmo. E a vocação é uma saída da própria terra.

Só quem puser os olhos Naquele que chama é capaz de dar o passo. Só quem crer na pessoa de Jesus Cristo será capaz de abandonar tudo para seguí-lo.

A vocação exige “perder a vida”, perder os cálculos, as lógicas, as seguranças, a família, a posição... perder tudo.

“Ganhar a vida” é arriscar-se, é lançar-se confiado em Cristo, é deixar que Ele vá fazendo o caminho em mim, é despojar-se, desnudar-se...

O chamado de Deus desfaz todos os nossos caminhos, porque os d’Ele são outros. Deus sempre nos chama para algo novo, maravilhoso...

O caminho que você segue acaba sempre por lhe conduzir. Descobrir o caminho, é direcionar a existência. Descobrir o caminho, na vida, é saber de onde ele parte e para onde chega. Olhar o futuro com esperança.

Para onde você está indo? Em que direção? Vale a pena viver para fazer o que você está fazendo neste momento?

Numa sociedade cansada, cheia de ansiedade, como pode o jovem anunciar um futuro de esperança?

O mundo de hoje precisa de uma vida nova, de uma juventude pura nas idéias, forte e exigente no viver, sincera e sofredora no amor. Uma juventude com uma palavra nova, diferente para os homens. Uma juventude com o olhar centrado no sonho de Jesus: o Reino.

Revolucionar o mundo é sacudi-lo para que abra os olhos à realidade definitiva: Jesus Cristo.

“Dá-me percorrer contigo, Senhor, tua terra de andanças. Dá-me seguir a Ti somente. Tu passaste deixando tuas “pegadas” no pó da estrada, e sem perguntar “por que” muitos te seguem. Vais sem nada, peregrino, caminhando qual romeiro; e vais chamando seguidores, que te sigam sem nada levar. Quem se atreve a pisar descalço tuas pegadas, sempre em marcha? A cidade não é teu caminho, é dura para as tuas sandálias. Gostas de deixar na terra a marca de tuas pegadas. Senhor dos Caminhos que tiram as pessoas da segurança, dos seus, das suas casas, de seus bens... e os atira a seguir teu passo feito atalho estreito, num convite para onde quer que vás. Quero ser caminhante, de coração pobre e livre, feito tenda aberta em teu chamado. Amém”.


PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.

PALAVRA DE DEUS - Jo 1,35-51

REVISÃO DA ORAÇÃO - Jesus, hoje, passa e continua chamando: estou convencido de que o chamado é para mim? a quê sou chamado?



24

A VOCAÇÃO RELIGIOSA


O Religioso é um cristão consagrado a Deus pelos votos. Vive em comunidade, compromete-se a seguir radicalmente o Senhor, colocando-se a serviço da Igreja e do Mundo com total gratuidade. Cabe a ele testemunhar profeticamente o Deus vivo e o Reino de Deus como valor absoluto e definitivo.

A motivação fundamental para assumir a Vida Religiosa é o seguimento radical do Senhor até a identificação com ele. O Senhor vai se tornando, cada vez mais, o centro unificador e dinamizador da vida. A entrega a Ele por amor se explicita no serviço à Igreja e a todos os homens, sobretudo aos mais empobrecidos. A entrega ao Senhor encontra seu sinal nos votos:

- Pobreza: ser livre para partilhar a vida dos pobres. Despojamento, uso dos bens em função da missão. Deus o único apoio... Supõe muita liberdade interior, muito desapego;

- Obediência: ser livre para assumir a missão do Senhor renunciando à realização de um projeto pessoal. Supõe plena disponibilidade e co-responsabilidade, reconhecendo que o Senhor chega através das mediações dos superiores (Igreja-Congregação-Comunidade);

- Castidade: ser livre para uma vida de amizade e de comunhão pessoal aberta a todos, especialmente com aqueles que vivem a mesma missão. Supõe maturidade psicológica e afetiva.

A identidade da Vida Religiosa articula-se a partir de três eixos fundamentais:

- Experiência de Deus: é a condição necessária para que o Religioso se firme, cada vez mais, na sua entrega ao Senhor e possa viver todas as exigências da Missão e da Vida Comunitária. Na prática, consiste em sentir que Jesus se torna cada vez mais importante. Conhecê-lo, imitá-lo, seguí-lo se torna uma busca e o desejo mais profundo. Por causa dele, os outros são amados. O amor a Jesus se concretiza em serviço aos irmãos na Igreja e no mundo. A Palavra, a Eucaristia, a vida fraterna, o serviço tornam-se fonte inesgotável de experiência e de confirmação. A oração conduz a um compromisso com a vida real e a realidade leva o religioso a ter momentos fortes e constantes de oração.

- Vida Comunitária: é o sinal do amor transformador que o Espírito infunde no coração dos que buscam viver em comum e em comunhão. A comunidade fraterna se constrói a partir de relações interpessoais, nas quais se valorizam a amizade, a maturidade, como base humana indispensável para a convivência, numa dimensão de fé, pois quem chama é o Senhor, num estilo de vida mais simples e acolhedor, com diálogo e participação. A comunidade fraterna vivida em espírito de fé e respeitando as exigências básicas da convivência oferece grandes vantagens: facilita o crescimento humano e vocacional da pessoa, permite a experiência do discernimento comunitário, cria condições para planejar e avaliar as atividades pastorais, ajuda a desenvolver e consolidar a vida de fé, facilita a vivência e partilha da vida de oração, a Palavra, a Eucaristia, o Testemunho.

- Missão: pela disponibilidade, aceita um estilo de vida organizado em vista do Reino e suas exigências, se dispondo para isso e vivendo para isso.

A Vida Religiosa exige:
- ter como centro de sua vida e de suas aspirações o Cristo Vivo;
- suficiente liberdade diante da família, para saber viver longe dela;
- ter um desejo real de uma vida austera, simples e pobre;
- viver em comunidade, estabelecendo e mantendo relações humanas e não conflitivas;
- ter amor pela Igreja concreta e histórica e por seus Pastores;
- estar disposto a servir em qualquer lugar ou missão que lhe for indicada;
- levar uma vida comprometida e solidária;
- afinidade pessoal com o carisma da Congregação e um verdadeiro amor por ela;
- possuir as capacidades humanas suficientes para a missão própria da Congregação;
- certo nível de tolerância diante da frustração e de bom manejo da agressividade.


PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.

PALAVRA DE DEUS - Lc 10,1-12

REVISÃO DA ORAÇÃO - Que desejos, inclinações, capacidades, experiência de vida e modo de agir podem indicar que a Vida Religiosa seja uma vocação para você? Por quê?


AMANHÃ:

REPETIÇÃO - TER OS OLHOS SEMPRE FIXOS NO SENHOR
A VOCAÇÃO RELIGIOSA


25

A CASA DE MEU PAI


Jesus sobe a Jerusalém para celebrar a Páscoa. A cidade estava repleta de peregrinos vindos de todas partes... Tendas levantadas ao longo das muralhas... Soldados romanos que estavam por toda parte, nas ruas e nas praças, vigiando o movimento das multidões do alto da Torre.

No templo, Jesus olha de maneira especial os cordeiros que iam ser sacrificados; encontra os comerciantes que vendiam bois, ovelhas e pombas, vítimas para os sacrifícios; vê os trocadores de moedas, que eram necessários para facilitar a troca do dinheiro romano pelo dinheiro que era permitido usar no Templo.

Com um chicote, expulsa os animais. Jesus derruba o dinheiro dos trocadores pelo chão e vira-lhes as mesas. Manda embora os vendedores de pombas.

“... Não façais da casa de meu Pai uma casa de negociantes”
(Jo 2,16)

A casa do Senhor é lugar de encontro com Ele e com os irmãos. Um encontro que não pode se reduzir a uma presença passiva ou à um monólogo, uma repetição de fórmulas... O encontro com Deus deve ser realizado num verdadeiro e vivo relacionamento, como entre pai e filhos em feliz contato de amor.

“O zelo da tua casa me consome”
(Sl 68,10)

Os discípulos se recordaram dessas palavras de Jesus. O recordar dos discípulos é obra do Espírito. Não é uma recordação rude, material; é uma interpretação do acontecimento, feita à luz do mesmo Espírito...

Jesus efetivamente é devorado de zelo, mas este zelo também o devorará, quer dizer, o levará à morte.

“Que sinal nos apresentas tu, para proceder deste modo?”
(Jo 2,18)

A oposição e a incredulidade... Exigem de Jesus uma legitimação para justificar o seu procedimento com os comerciantes e trocadores de moedas. Eles queriam ver um milagre que o pudesse legitimar... Jesus penetra e conhece o coração do homem... Não era um pedido sincero, esconde uma recusa... Pedem um sinal e parecem dispostos a crer em qualquer sinal que seja; mas na realidade não é assim... Jesus se recusa a satisfazer o pedido: o homem deve aprender a ler os sinais que Deus oferece e não pretender obter outros.

O que legitimava Jesus a proceder assim é a sua filiação divina. Sua autoridade tinha um único fundamento: a Vontade do Pai.

O verdadeiro culto só pode constituir na mais pura e incondicional entrega à Vontade de Deus. O culto não vale pela observância de preceitos, mas exclusivamente pela entrega sem reservas, pelo abandono Àquele que nos chamou para o seu eterno amor.

“Destruí este templo e eu o reerguerei em três dias... Ele falava do templo do seu corpo”
(Jo 2,19)

Cristo é a nova proposta de Deus aos homens. Quem quer adorar a Deus em espírito e verdade deve fazê-lo em Cristo. Mas isso exige a fé... É a fé em Deus e em seu amor e no perdão que torna aceita a oração...

Cristo é o verdadeiro templo, o lugar único da presença salvadora de Deus em nosso meio. Cristo é o novo templo no qual podemos falar a Deus.

Também hoje necessitamos nos purificar das formas de falsa piedade, para fazer ecoar a Palavra de Deus que é libertação, justiça, salvação.

Sem amizade à Cristo ninguém compreende verdadeiramente o seu mistério.


PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.

PALAVRA DE DEUS - Jo 2,13-25

REVISÃO DA ORAÇÃO - Que coisas você sente que precisam ser expulsas da sua vida, que atrapalham o seu encontro com Deus?


26

VOCAÇÃO DO LEIGO CONSAGRADO


O Espírito Santo suscitou em nossos dias este novo modo de vida consagrada, como outra forma de doação de si mesmo, a que se entregam pessoas que permanecem inteiramente na vida como leigos.

Dentro da vocação do leigo há lugar para diversos caminhos espirituais e apostólicos que dizem respeito à cada pessoa. No trilho de uma vocação de leigo “comum” florescem vocações de leigos “consagrados”. Neste âmbito podemos lembrar também a experiência espiritual que recentemente amadureceu na Igreja com o desabrochar de diversas formas de Institutos Seculares. Aos fiéis leigos abre-se a possibilidade de professar os conselhos evangélicos de pobreza, castidade e obediência por meio dos votos ou das promessas, conservando plenamente a própria condição de leigo.

Instituto Secular é um instituto de vida consagrada no qual os leigos, vivendo no mundo, tendem à perfeição da caridade e procuram cooperar para a santificação do mundo, principalmente a partir de dentro.

Pertencer a um Instituto Secular é uma forma de servir ao Reino, onde o mundo é o lugar de adoração do Pai e as próprias ocupações do mundo são os instrumentos de serviço aos irmãos.

Os membros de um Instituto Secular identificam-se com a Igreja. Eles são uma presença no mundo para santificar, consagrar e fazer incidir sobre ele os valores da justiça, amor e paz. Por sua consagração buscam harmonizar os valores autênticos do mundo de hoje com o seguimento de Jesus Cristo vivido a partir da sua inserção no mundo.

Os membros de um Instituto Secular mantém entre si a comunhão e a fraternidade próprias do seu modo de vida e assumem por vínculos sagrados os conselhos evangélicos, fazendo profissão deles de maneira mais íntima e particular, sem emiti-los publicamente:

- pelo voto de pobreza, procuram seguir a Cristo por um despojamento afetivo e efetivo, fazendo-se solidários também com os mais pobres;

- pelo voto de obediência, buscam a total dependência da vontade de Deus, procurada num diálogo sincero com os responsáveis e através dos acontecimentos e situações de vida pessoal, social e eclesial;

- pelo voto de castidade, fazem-se sensíveis e abertos às necessidades e sofrimentos de todos.

Por uma “vida perfeita inteiramente consagrada a santificação”, os membros desses Institutos participam da tarefa de Evangelização da Igreja, no mundo e a partir do mundo, onde a sua presença age como um fermento. Seu testemunho de vida cristã visa organizar as realidades do mundo de acordo com Deus e impregná-lo com a força do Evangelho. A missão específica do leigo consagrado é santificar o mundo, por um:

- espírito crítico (discernimento);
- um agudo senso de responsabilidade e coerência;
- uma boa dose de “utopia” (esperança no Ressuscitado).

Desta maneira os membros dos Institutos Seculares buscam:

- responder de maneira direta ao grande desafio que as atuais mudanças culturais estão lançando à Igreja: dar um passo na direção das formas de vida que o mundo urbano-industrial exige, evitando o secularismo.

- resolver a tensão entre a abertura real aos valores do mundo moderno (autêntica secularização cristã) e a plena e profunda entrega de coração a Deus (espírito de consagração).
Os Institutos Seculares significam uma valiosa contribuição pastoral e ajudam a descobrir novos caminhos para a Igreja.


PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.

PALAVRA DE DEUS - Mc 4,35-41

REVISÃO DA ORAÇÃO - Que desejos, inclinações, capacidades, experiência de vida e modo de agir podem indicar que ser leigo consagrado seja uma vocação para você? Por quê?


AMANHÃ:

REPETIÇÃO - A CASA DE MEU PAI
VOCAÇÃO DO LEIGO CONSAGRADO



27

JESUS PREPARA OS SEUS SEGUIDORES PARA A MISSÃO


É bonito ver como Jesus prepara e acompanha os seus amigos, os Apóstolos, na nova Missão. No acompanhamento dá forma humana à nova experiência que Ele mesmo tem do Pai.

Depois de chamar os Apóstolos, Jesus continua lhes dando uma sólida formação. Dedica à formação dos Doze suas melhores forças e seus ensinamentos mais claros. Em particular lhes revela o sentido último das palavras que disse em público. O fundamental, nesta formação, é o “estar com Ele”: através da convivência, vai cimentando uma sólida amizade com Ele.

Nesta convivência com Jesus os Apóstolos vão se formando, “conhecendo” o mistério de sua vida e conhecendo o mistério do próprio chamado.

Nesta pedagogia da formação é importante assinalar o fato de que Jesus entendeu radicalmente que a Vocação dos Apóstolos era um Dom do Pai: “Pai, rogo pelos que me deste, porque são teus” (Jo 17,9). Procurou que nenhum se perdesse: cuidou-os, amou-os e, finalmente, encomendou-os à força do Espírito Santo.

Vejamos alguns pontos da pedagogia de Jesus na formação dos seus seguidores:

1. Confronta-os com os problemas e necessidades do povo: “Onde vamos comprar pão para o povo comer?” (Jo 6,5)

2. Reflete com eles as questões que o povo levanta: “Vocês acham que esses galileus eram mais pecadores que os outros?” (Lc 13,1-5)

3. Leva em conta a opinião e o sentir dos outros, pois faz levantamento da realidade: “Quem dizem os homens que eu sou?” (Mc 8,27-29)

4. Faz revisão depois da missão: “Não se alegrem porque os maus espíritos lhes obedecem, mas fiquem alegres porque os nomes de vocês estão escritos no céu” (Lc 10,20)

5. Critica-os quando brigam pelo primeiro lugar (Lc 9,46-48) e quando mandam as crianças embora (Mc 10,13-15).

6. Explica por que falharam e ajuda-os a discernir e usar os instrumentos certos na missão: “Essa espécie de demônio não sai a não ser pela oração” (Mc 9,28-29)

7. Procura ter momentos a sós com seus discípulos para poder instruí-los: “Tendo partido dali, atravessaram a Galiléia. Não queria, porém, que ninguém o soubesse. E ensinava os seus discípulos” (Mc 9,30-31)

8. Interpela-os quando são lentos demais: “Nem assim compreendem?” (Mc 8,21; 17,17)

9. Ao povo fala em parábolas, mas aos discípulos ele explica tudo em casa: “E não lhes falava a não ser em parábolas; a sós, porém, explicava tudo a seus discípulos” (Mc 4,34; 7,17)

10. Prepara-os para o conflito: “Se perseguiram a mim, também vão perseguir a vocês” (Jo 16,33; Mt 10,24-25).

11. Defende-os quando são criticados: “Enquanto o noivo está com eles, eles não podem jejuar” (Mc 2,19; 7,5-13).

12. Cuida do descanso deles: “Vamos sozinhos para algum lugar deserto, para que vocês descansem um pouco” (Mc 6,31).

13. Cuida da alimentação deles após uma noite de pescaria: “Logo que pisaram em terra firme viram um peixe na brasa e pão” (Jo 21,9)

14. Desperta neles a vontade de rezar: “Senhor, ensina-nos a rezar como João ensinou a seus discípulos” (Lc 11,1). E ensina como rezar (Lc 11,2-13; Mt 6,5-15).


PARA AJUDAR A REZAR:

AUTOBIOGRAFIA (SUA VOCAÇÃO) - A partir de hoje, fora do seu horário de oração, você vai começar a escrever a 5ªparte da sua Autobiografia. Ela pretende ser uma ajuda para sua reflexão sobre aspectos importantes de sua vida pessoal e um meio de diálogo com seu orientador espiritual.
Apresentamos a seguir alguns pontos para sua Autobiografia. Para respondê-los, leia tudo várias vezes e vá refletindo sobre cada um desses aspectos de forma muito pessoal, deixando-se guiar no que escrever por aquilo que vai surgindo sem se preocupar nem com o estilo nem com a lógica do que vai anotando. Não responda cada um dos pontos. Eles servem só como orientação. Seja espontâneo!
Procure responder em momentos em que você esteja tranqüilo e possa se concentrar no que está fazendo. Essa 5ª Parte deve estar pronta até o tema 35 (O RISCO DA DECISÃO)

1. Quanto tempo faz que brotou em você uma “inquietação” vocacional? Que fatos ou circunstâncias o levaram a pensar num chamado para uma vocação? Que tem feito para ir amadurecendo uma decisão neste campo?
2. Se sua inclinação é para a vocação de leigo, que tipo de leigo você gostaria de ser e que compromisso você assumiria na Igreja e no Mundo?
3. Se é a vocação sacerdotal que o atrai, que tipo de padre gostaria de ser e qual seria a sua missão?
4. Se o seu desejo é para a vida religiosa, que tipo de religioso você gostaria de ser e qual o seu compromisso de consagrado?
5. Se você gostasse de ser leigo consagrado, onde e como você iria viver a sua vocação?
6. Qual é a imagem pessoal que você tem de um religioso, de um sacerdote ou de um leigo consagrado?
7. Você acha que a Congregação ou o Seminário podem satisfazer suas aspirações? Por quê?

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.

PALAVRA DE DEUS - Mt 10,1-20

REVISÃO DA ORAÇÃO - O que está faltando e poderia ajudá-lo a amadurecer sua opção vocacional?


28

MATURIDADE HUMANA E CONSISTÊNCIA VOCACIONAL


Para que um jovem seja considerado “idôneo” para assumir uma vocação, requer-se um grau de maturidade que ofereça uma séria probabilidade de um normal desenvolvimento, no sentido de uma maturidade sempre mais plena. Eis alguns quesitos importantes:

1. Tolerância com a frustração e com a ambigüidade das situações - O imaturo não suporta a frustração e a incerteza da situação. As reações estendem-se da crítica corrosiva e do fechamento diante dos outros até a desorganização da personalidade.

2. Controle da ânsia e da insegurança - O perigo desorganiza emotivamente e provoca reações desproporcionadas e do tipo infantil. Seu controle pode ser fruto de um mecanismo de defesa.

3. Resistência às solicitações - Frente às solicitações, a pessoa madura permanece senhora de si, coerente, unificado, confiante para fazer escolhas e solidez para levar adiante seus projetos.

4. Adaptação à situações novas - Diante de uma inovação, quem é maduro é capaz e livre para adaptar-se, é disponível, não se desorganiza emotivamente. O imaturo sente-se ameaçado, tem reações infantis, custa deixar a dependência do seu anterior modo de vida.

5. Capacidade de autocontrole - A pessoa madura é coerente com os próprios princípios, aceitando e observando as leis por convicção e com liberdade. O imaturo agarra-se às pessoas ou normas para sentir-se seguro, e acaba tornando-se escravo delas.

6. Comportamento flexível e criativo - A pessoa madura adapta-se às exigências do ambiente, promovendo um crescimento em si mesma e nos outros. O imaturo fixa-se rigidamente em posições egocêntricas, despreocupado com as exigências dos outros.

7. Aceitação do passado - As lembranças, felizes ou dolorosas, não provoca sentimentos inúteis na pessoa madura. Ela revê a própria história como história de salvação, rompendo seus laços neurotizantes, curando-se das imagens negativas ou aureoladas de si mesmo, libertando-se das imagens enraizadas nas situações traumáticas de sua história de vida.

8. Memória agradecida - A memória é o arquivo dos registros vividos que nos (des)governam. Toda conversão também é conversão da memória. Uma pessoa ressentida com sua história pessoal e familiar, rancorosa, também será doente na mente, no coração e na consciência. A vocação poderia ser como uma defesa contra a mudança de vida. Só uma memória agradecida pode registrar um chamado de Deus a uma novidade de vida.

9. Capacidade de dar e de receber - Quem é maduro doa-se aos outros, desfruta uma liberdade interior, usufrui do que lhe é oferecido. O imaturo não se abre, não se doa, não acolhe, não aceita os outros. Ela se sente ameaçada pelos outros, embora necessite de tais relações.

10. Aceitação do sentido de culpabilidade - Quem é maduro aceita os insucessos e erros cometidos e os utiliza para empreender um comportamento mais correto e construtivo. No imaturo a culpa o bloqueia, faz com que assuma atitudes improdutivas, desproporcionais, auto-punitivas.

11. Capacidade de esperar - A pessoa madura vive sem pressa, confiante no futuro. O imaturo não suporta esperar, não sabe protelar a satisfação dos próprios impulsos, teme perder a ocasião. É imediatista, intolerante com a rotina, impaciente, agindo sob impressões formadas rapidamente.

12. Poder de sublimação - A pessoa madura identifica a auto-realização com a consecução de valores que ela sente como um bem para si mesma. Ela se engaja e investe na meta que se propõe. Enfrenta as privações exigidas sem frustração. Encontra uma satisfação básica, sem a gratificação dos impulsos. Não nega as exigências da natureza, mas organiza-se por valores transcendentais, que o impele para uma sadia “combatividade”.
13. Conscientização - Quem é maduro é consciente das próprias ações, intenções e sentimentos. Não nega os sentimentos e os fatos desagradáveis, nem projeta sobre outros os próprios defeitos.

14. Elaboração das perdas - Viver as perdas é uma arte. Quem não aprende a perder não cresce. As perdas são conseqüências de escolhas e decisões. É dolorosa a condição de renunciar. Há defesas internas contra as perdas: depressão, ansiedade, medos, indiferença emotiva...

15. Amor sociocêntrico - A auto-aceitação da pessoa madura lhe permite ter relações interpessoais abertas, não competitivas ou agressivas, evitando toda dependência... Se auto-determina, avalia-se objetivamente, é capaz de tomar decisões com a ajuda dos outros, assumindo sua liberdade.

Um bom nível de maturidade humana e vocacional proporciona serenidade, segurança e felicidade contínua e, também, capacidade de relacionar-se com os outros e consigo mesma.


PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.

PALAVRA DE DEUS - Mt 14,22-33

REVISÃO DA ORAÇÃO - Você julga ter uma suficiente maturidade para decidir livremente? Por quê?


AMANHÃ:

REPETIÇÃO - JESUS PREPARA OS SEUS SEGUIDORES PARA A MISSÃO
MATURIDADE HUMANA E CONSISTÊNCIA VOCACIONAL



29

CINCO PÃES E DOIS PEIXES


“...Em verdes pastagens me faz repousar!
Preparais para mim a mesa!...”
(Sl 22)

Jesus se retira numa barca com os seus discípulos. Ele busca o deserto, um lugar solitário, para ficar a sós com o Pai. A sós para orar...

Mas, o silêncio é subitamente quebrado. Alguém aponta na direção da costa para onde a barca se dirige. Uma multidão está se encaminhando para lá, a pé. São doentes em busca de saúde, pequenos agricultores, desempregados, pessoas sozinhas, talvez cheias de medo e angústia. Eles vão em busca de Jesus, o profeta nazareno, que consolava e curava!

“... vendo esta numerosa multidão, moveu-se de compaixão para ela e curou seus doentes”
(Mt 14,14)

Apesar de ver frustrado seu desejo de solidão, Jesus não perde a calma. Ele ia ao lugar deserto conduzido pelo amor; o mesmo amor que o une ao Pai e ao seu povo. Jesus não pensa só em si. Ele ama muito... se comove...

O cair da tarde... Os discípulos estão cansados e contrariados com o povo. Não estavam preparados para isso, permanecem passivos, sem iniciativa. Até querem dar uma ordem a Jesus:

“Este lugar é deserto e a hora é avançada.
Despede esta gente para que vá comprar víveres na aldeia!”
(Mt 14,15)

Os discípulos pensam apenas em si. Que cada um cuidasse dos seus afazeres!

Mas o que o Senhor deseja é a solidariedade... O que o povo mais precisa não é cuidar cada um de si, mas viver em comunhão, numa comunidade de vida, que escute a Palavra, que partilhe a vida e se comprometa com o Reino.

“- Dai-lhes vocês mesmos de comer!
- Mas, nós não temos aqui mais que cinco pães e dois peixes.”
(Mc 14,16-17)

O pouco é muito nas mãos do Senhor! E é isso o que Jesus pede de nós: o pouco que temos. É ele quem multiplica...

O povo se senta sobre a grama, É guiado e alimentado por Jesus...

Jesus continua preparando os discípulos, ao lhes confiar pequenas responsabilidades e serviços.

Jesus ordena que se sentem em grupos e, com autoridade e simplicidade, toma os pães e os peixes, levanta os olhos ao céu, abençoa-os, parte os pães e entrega-os aos discípulos, que os distribuem ao povo.

Jesus é todo gratuidade... fonte de alegria...
“Todos comeram e ficaram saciados, e,
dos pedaços que sobraram, recolheram doze cestos cheios.”
(Mt 14,20)
A multidão se sente satisfeita. Sentiram o sentido da solidariedade e como o Senhor é bom. Sentiram-se gente importante para Jesus, que os acolheu, sarou e alimentou. Os discípulos certamente se sentem orgulhosos do seu Senhor e felizes de colaborar com Ele. Todos ficaram saciados! Só Deus sacia o coração humano! Sem Ele o caminho da vida é árido demais.

Será que todos aprenderam a lição da partilha?


PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.

PALAVRA DE DEUS - Mt 14,13-21

REVISÃO DA ORAÇÃO - Quais são seus “cinco pães e dois peixes”? Ou seja, em que você se sente pobre, necessitado?


30

ELEMENTOS FUNDAMENTAIS
NO DISCERNIMENTO VOCACIONAL


1. O chamado é de Deus! Ele chama e dá graças para a resposta. Por isso é necessário desenvolver em nós uma capacidade de escuta da Vontade do Pai. Colocando-nos em contato com Ele nos tornaremos aptos para captar esse chamado do Senhor, que respeita a nossa liberdade e não pode ser fruto do temor. A Vocação é radicalmente “se Deus quer”.

2. O ser humano é essencialmente “um ser em vocação”. Ser chamado é reconhecer que somos radicalmente Dom Gratuito, pelo qual devemos dar graças. Quem não tem o sentido do dom, jamais terá o sentido da vocação; nunca se sentirá chamado, porque é prisioneiro de si mesmo. Viver, existir, já é vocação, antes de qualquer outra particular vocação, que não será outra coisa senão estar a serviço dessa Vida. Deus, presente no mundo e na história através dos acontecimentos e situações, das pessoas que nos interpelam, se faz também presente na vida de cada um de uma forma personalíssima, única e irrepetível.

3. Não se pode, por exemplo, pensar na vida sacerdotal ou religiosa como um assunto de dignidade pessoal. A vocação não é dignidade pessoal, não é promoção nem social nem humana. O sentido mais profundo da vocação é serviço, compromisso, luta...

4. Todos somos chamados à santidade. Para alcançá-la, a vida religiosa e sacerdotal não é um caminho exclusivo, nem é o único caminho. Trata-se de descobrir o segredo que Deus tem para confiar a cada um. Qual é a missão concreta e pessoal dentro da Igreja que Deus quer para você?

5. A vocação religiosa e sacerdotal tampouco nos separam do mundo e das pessoas. Elas nos lançam no coração do mundo. E a Igreja está projetada para os problemas dos homens, para estabelecer a reconciliação dos homens entre si e com Deus.

6. A Vocação esta orientada definitivamente para a missão. É preciso vivê-la como uma inserção na Igreja, Igreja Comunhão, gestora de comunidades. Não conseguimos nada tendo gente virtuosa e individualmente “perfeita” se é incapaz de propiciar um diálogo de comunhão, de partilha, de solidariedade. Toda vocação deve ser capaz de assumir as grandes perspectivas da Igreja, a serviço do mundo. Não podemos falar em vocação sem assumir as opções da Igreja: a opção pelos pobres, a visão de uma Igreja servidora, as comunidades eclesiais, etc. Este é o caminho que a Igreja nos indicou para conseguir a instauração do Reino. As vocações não são para jovens perfeitos, mas para pessoas que queiram trabalhar pelo Reino.

7. A opção que você vai fazer deve ter em conta o que você é, os seus gostos, as suas aptidões, suas inclinações, atrações... e deve lhe permitir viver feliz, em harmonia consigo mesmo, com os outros e com Deus. As inclinações, para serem tomadas a sério, devem ser constantes e permanentes, marcadas por convicções... e não caprichos passageiros, nem sentimentalismos momentâneos. Analisar as inclinações profundas e superiores de seu ser.

8. Há certas condições humanas que são indispensáveis para o discernimento vocacional, como: constância; equilíbrio afetivo, experiência heterosexual normal; conhecer, aceitar e assumir sua realidade, suas limitações; capacidade de renúncia; responsabilidade para assumir tarefas de serviço ao outro; bom relacionamento e convivência; abertura às realidades do mundo; amor a Jesus Cristo; vivência cristã comunitária; oração; espírito de sacrifício; engajamento apostólico; experiência de Deus; capacidade de escolha, de opção e de decisão; conhecimento realista de si e das diversas vocações; serenidade e paz interior; personalidade bem integrada; receptivo às correções e críticas; senso crítico que permite relativizar as coisas...

PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.

PALAVRA DE DEUS - Mt 16,13-23

REVISÃO DA ORAÇÃO - Você é uma pessoa indecisa? Em que situações esta indecisão se faz mais forte?


AMANHÃ:

REPETIÇÃO - CINCO PÃES E DOIS PEIXES
ELEMENTOS FUNDAMENTAIS NO DISCERNIMENTO VOCACIONAL


31

ELE PROCURAVA VER


“Jesus entrou em Jericó e estava atravessando a cidade. Havia ali um homem rico, chamado Zaqueu, que era chefe dos cobradores de impostos. Ele procurava ver quem era Jesus.”
(Lc 19,1-3)

Zaqueu é um homem que busca. Na sua procura, esquece-se de si próprio. Procura porque está insatisfeito, descontente consigo e com tudo o que o rodeia.

Ele procurava ver quem era Jesus. Tinha ouvido falar d’Ele mas ainda não o conhecia. Agora era a oportunidade. As oportunidades são como as águas de um rio: irreversíveis; se não se aproveitam no momento que acontecem, nunca mais volta. Zaqueu sabia disso.

“... mas não podia por causa da multidão, pois era muito baixo. Então, correu adiante da multidão e subiu numa amoreira para ver Jesus, que devia passar por ali...”.
(Lc 19, 3-4)

Como sempre sucede, uma multidão de obstáculos se opunham entre Zaqueu e Jesus.

Zaqueu fez o que pôde. Superou os obstáculos, e não se importou, nem um pouco em se fazer de ridículo subindo numa árvore. Venceu todo preconceito humano para chegar a Jesus.

“... Quando Jesus chegou naquele lugar, olhou para cima e disse a Zaqueu:
- Zaqueu, desça depressa, porque preciso ficar hoje em tua casa...”
(Lc 19,5)

O mais lindo do relato é ver que, se Zaqueu se interessava por Jesus, Jesus, fazia tempo, já se preocupava por Zaqueu: ele conhece-o pelo nome. O que busca, já muito antes, é procurado pelo Senhor! Como dizia uma velha senhora: “Embora não pensemos n’Ele, Ele continua pensando em nós”.

“... Então, Zaqueu desceu depressa, e o recebeu em sua casa com muita alegria.
Todos os que viram isto começaram a resmungar:
- Este homem vai se hospedar na casa de um pecador!...”
(Lc 19,6-7)

Zaqueu acolheu Jesus na sua casa, e o fez com muita alegria. Como não podia deixar de acontecer, houve “fofocas” a respeito disso. Você já reparou que quando alguém se converte ao Senhor, sempre suscita a ira e a inveja daqueles que vivem sob a orientação de falsos mestres?

“... Depois Zaqueu se levantou, e disse ao Senhor:
- Escute, eu vou dar metade dos meus bens aos pobres. E se tenho roubado alguém, vou devolver quatro vezes mais.
Aí Jesus disse:
- Hoje a salvação entrou nesta casa...”
(Lc 19,8-9)

Zaqueu converteu-se realmente. Ele compreendeu que a fé não é algo só para ser vivido entre quatro paredes, mas que deve ter uma conotação social: “a metade dos meus bens pertence aos outros”.

Zaqueu percebeu que sua riqueza acumulada não podia ser uma expressão verdadeira de fraternidade e justiça.
Zaqueu hoje é você...

... Se existir um certo vazio interior que o faz procurar algo mais profundo e verdadeiro;
... Se você se interessa realmente por saber quem é Jesus sem se importar pelas gozações e comentários que seus gestos de aproximação levantem nos outros, naqueles outros que ouvem falar d’Ele, o vêem, mas nada fazem;
... Se diante dessa procura você, sendo chamado pelo seu nome, interiormente, o aceita e o segue, mesmo sabendo que esse Cristo é radical, incomoda, e que todos os outros começam a resmungar falando mal de você;
... Se você fosse ainda mais adiante, despojando-se todos os seus excessos, optando por uma vida simples, onde o SER é mais importante que o TER e que, este como aquele, devem estar a serviço dos outros.


PARA AJUDAR A REZAR:

AUTOBIOGRAFIA - Lembre-se de dar um tempo fora do tempo de oração para escrever a 5ª parte da sua Autobiografia. Não deixe para o último dia. Ela deve estar terminada até o tema 35 (O RISCO DA DECISÃO).

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.

PALAVRA DE DEUS - Lc 19,1-10

REVISÃO DA ORAÇÃO - Como você tem colocado tudo o que é e tem a serviço dos outros?



32

MOTIVAÇÕES


Toda opção deve se submeter à pergunta:

- por quê o matrimônio?
- por quê o sacerdócio?
- por quê a vida religiosa?
- por quê leigo consagrado?

Por baixo de cada comportamento, por baixo de cada opção há uma variedade de motivações possíveis, algumas belas, outras menos nobres e genuínas. São as causas mais profundas do comportamento humano. O importante é perguntar qual delas predomina.

A pessoa é como um iceberg: vemos apenas a ponta da grande massa que aflora sobre a superfície. Assim é o ser humano: vemos as ações dele mas... e o seu coração? o que ele busca? O coração não se vê, mas é ele que nos faz viver ou morrer. E é o coração da pessoa que Deus quer.

Perguntar pelo coração é perguntar pelas motivações profundas, aquelas forças internas que brotam, regulam e sustentam as nossas ações mais importantes. Portanto, motivação pode ser definida como um fenômeno dinâmico resultante das forças que impelem para um objetivo. Estas forças tem como origem tanto o mundo interior do indivíduo como o ambiente externo no qual ele está imerso. Tal motivação é que pode justificar o grau de genuidade da vocação.

A pessoa chamada sente a necessidade de amadurecer sempre mais a própria identidade humana, de ir ao encontro das suas aspirações e de desenvolver as próprias aptidões naturais, de modo a atingir uma plenitude de vida também a nível humano, mediante a sua vocação.

As motivações que orientam para uma perfeição humana, são plenamente válidas e aceitáveis, desde que sejam integradas com as motivações sobrenaturais (seguimento de Cristo, doação aos outros...) Deus chama o homem real e, para que seja chamado, é necessário que seja humano. Se ele não deseja a Deus de modo humano e se não sente a sua vocação com uma certa alegria, deve-se suspeitar que teria uma vocação de tipo neurótico, que vê apenas o sacrifício, a renúncia, a negação das alegrias, etc... A opção não deve substituir o humano, mas penetrá-lo e purificá-lo aos poucos, desenvolvendo a pessoa.

Deve-se ter presente que as motivações válidas acham-se sempre misturadas com motivações inconscientes e infantis. Daí a necessidade de uma “purificação” das motivações vocacionais. Tal purificação constitui uma tarefa que cada um deve realizar durante toda a vida.

Motivações oblativas, maduras e válidas - brotam num clima de liberdade, são integradas num desenvolvimento equilibrado da personalidade e estão ligadas à essência da vocação. Por ex.: a doação gratuita e alegre ao serviço dos irmãos e do Reino. A motivação suprema e central de uma “vocação cristã” consiste em descobrir e assumir por “escolha pessoal, incondicional e amorosa”, o Senhor, entregando-se a Ele com vontade firme e capacidade de sacrificar todo o resto para viver este amor pessoal. Tal amor pode preencher as necessidades da pessoa. Esse amor consiste na doação total, libertadora e gratuita em favor do Reino.

Motivações egocêntricas conscientes: se prendem a necessidades reais e pessoais. Por ex.: gosto pelo estudo, pela solidão, pela ordem, pela liderança, etc. Há motivações onde o emocional tem a primazia: euforia, exaltação, idealismo irreal, etc. São motivações insuficientes para justificar a vocação, mas não são necessariamente contra ela. É preciso evitar que predominem na escolha, mas integrá-las com motivações mais profundas.
Motivações egocêntricas inconscientes: correspondem e dependem de necessidades profundas (carências). Podem provocar comportamentos descontrolados: atitudes de autodefesa, agressão, domínio, inferioridade, etc. Independem da vontade e diminuem o grau de liberdade e de responsabilidade da pessoa, pois esta as desconhece. Deste contexto podem brotar vocações falsas, com insuficiente consistência. Por ex.: vocações como busca de refúgio, de valorização, de vantagens materiais, de segurança, de uma família...; vocação como dever, garantia de salvação, medo da sexualidade, fuga do mundo; compensação de situações de inferioridade, sentimentos de angústia, dificuldades em enfrentar a vida e seus desafios.

Certos comportamentos levam a suspeitar da presença delas: não admitir ser questionado sobre a sua opção; ter pressa para levar a termo a decisão; recusar em se fazer conhecido pelo Orientador; repugnância em aceitar certas exigências; certeza absoluta da vocação; ter comportamentos ambivalentes (quedas freqüentes, decisões novas, resultados aparentes...)

Na oração, nas distrações, no cotidiano da vida... prestar atenção ao que se quer, ao que se busca e como se busca e perguntar-se: por quê e para que faço isso?


PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.

PALAVRA DE DEUS - Mc 8,34-38

REVISÃO DA ORAÇÃO - Você se sente chamado a renunciar a algo para seguir Jesus? Como se sente?


AMANHÃ:

REPETIÇÃO - ELE PROCURAVA VER
MOTIVAÇÕES


33

É BOM ESTARMOS AQUI


Como já vimos, Jesus tinha o hábito de retirar-se algumas vezes para a solidão dos montes para orar. O monte como lugar do encontro com Deus. Desta vez ele toma a iniciativa de levar consigo três dos seus discípulos.

Foi transfigurado... Jesus muda de figura, aparecendo com uma aparência diferente da habitual. Em Jesus resplandece a glória do Pai!

Assim como a experiência do amor, da comunhão, de uma profunda alegria, é capaz de iluminar de dentro o rosto de um jovem, transfigurando todo o seu ser, o rosto e o corpo todo de Jesus transbordam toda sua beleza interior, a beleza de sua alma unida à Deus.

O esplendor do seu rosto era como o do sol... A luz não vem de fora nem paira “sobre” Jesus. A luz sai de “dentro dele”, emana dele próprio, porque lhe pertence... “Eu sou a luz do mundo!”... A fonte dessa luz é a glória de Deus, revelando que Jesus, no seu ser profundo, é Deus mesmo.

Estar transfigurado seria o estado normal de Jesus. Uma vez, porém, que “o Verbo se fez carne e acampou no meio de nós” (Jo 1,14), “não se apegando ciosamente à sua condição divina, mas esvaziando-se a si mesmo e assumindo a condição de servo, fazendo-se um homem como os outros”(Fl 2,6-7), Jesus passou a ser visto pelos homens como um homem entre tantos.

Jesus transfigurado é o nosso destino futuro: no Reino do Pai os justos também brilharão como o sol, transfigurados pela ação do Espírito do Senhor, garantia da nossa ressurreição futura. Ser transfigurado é uma aspiração enraizada no mais profundo do coração dos homens.

Moisés e Elias, a Lei e os Profetas, não só estão com Ele, mas conversam com Ele: para realizar o desígnio salvífico de Deus, para abrir a todos os homens o acesso ao Pai, é necessário que Jesus suba a Jerusalém e sofra muito antes de entrar na sua glória.

Pedro, um discípulo espontâneo e decidido, generoso e prestativo, e ao mesmo tempo imediatista, ingênuo e míope. Ele quer prolongar esse momento de felicidade e de glória que está vivendo. Ficar para sempre na tenda, na presença de Jesus transfigurado. Não compreende a necessidade do caminho do sofrimento, da humilhação e da cruz. Pedro “não sabia o que dizia”.

E você: compreende o caminho de Jesus, a necessidade de passar pelo sofrimento no seguimento de Jesus? Ou quer sempre de novo instalar-se e acomodar-se no que é bom, no que é gostoso, interrompendo o caminho que sobe para Jerusalém?

Uma nuvem desce sobre Jesus e envolve também os discípulos. “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo, ouvi-o sempre!” Jesus é o Filho, o Amado, o Eleito. Sua missão se realiza pelo caminho da obediência até a morte.

No monte da transfiguração, Jesus, “o Caminho”, mostra aos seus discípulos qual é o caminho que eles tem de seguir: o caminho da cruz e da glória. Só se chega à glória passando pela cruz. Todos os caminhos de todos os que querem seguir a Jesus desembocam sempre, mais cedo ou mais tarde, no caminho da cruz.

O Pai tem de insistir em que escutemos o Filho sempre! Para viver no seguimento de Jesus, como discípulo, é necessário ouvir e acolher a palavra de Jesus. E viver dela. Diante dela, muitas vezes, o homem é invadido pelo medo, fica prostrado “com o rosto no chão”. Mas, Deus nos levanta, nos liberta do medo e nos põe em pé para uma vida nova. Só pode estar em pé diante de Deus aquele que Deus levanta. “Levantai-vos e não tenhais medo”. Os discípulos não têm motivo para temer, pois Jesus continua ao seu lado, próximo e familiar, mesmo despojado de sua glória.

Esta experiência do encontro com Deus pode e deve ser feita ao longo do nosso caminho de subida para Jerusalém como discípulos e seguidores de Jesus. Haver contemplado o rosto transfigurado de Jesus iluminará nossa caminhada, mesmo durante as noites...


PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.

PALAVRA DE DEUS - Mt 17,1-9

REVISÃO DA ORAÇÃO - Como você vê e sente o sofrimento, as dificuldades, as incompreensões na sua vida?


34

ESTÍMULOS E DEFESAS DIANTE DA OPÇÃO


I - ESTÍMULOS - forças internas e externas que podem ajudar a motivação para a opção como também distorcer sua autenticidade.

1. INFLUÊNCIAS:

- de ordem moral: Ex: seja perfeito! Você deve salvar-se e salvar seus familiares! Você nasceu para ser padre ou religioso, não para se casar...
- de ordem econômica e familiar: Ex: fugir da pobreza; ajudar os pais; deixar um ambiente difícil, etc.
- identificações: ser como...; necessidade de imitar alguém; conseguir realizar-se como um colega, um amigo...

2 - APOIOS:

- considerando a sua vida, de que mais você precisa? Ex: proteção, bem-estar, auto-promoção, projeção social, cultura...? Superação de sentimentos de inferioridade? Busca de valorização, de gratificação junto dos outros? O povo, o grupo...
- necessidade de realização pessoal...?
- busca de proveitos pessoais? Afinal, por que escolher esta vocação? Por que não outra?

3 - COMPENSAÇÕES:

- você se percebe como alguém que sente a necessidade de preencher vazios, de superar dificuldades profissionais, escolares, afetivas...? Isto tem algo a ver com a sua vocação? Como?
- você já passou por algumas decepções fortes que atualmente o levariam a procurar numa vocação uma solução? Quais?
- você sente falta de uma família, de uma mãe, de um pai e espera encontrar isso numa vocação?


II - DEFESAS - condicionamentos conscientes ou inconscientes que podem impedir uma decisão mais autêntica e livre. Podem substituir as verdadeiras motivações e assim enfraquecer a segurança na opção.

1 - FUGAS: a vocação que você deseja estaria dependendo de situações difíceis que você vive e das quais tenta se afastar? Ex: ambiente de casa; tensões de convivência; futuro cheio de interrogações? fuga da solidão? pouca saúde? fuga do mundo perturbador e sedutor?... etc.

2 - BLOQUEIOS:

- na área da afetividade e da sexualidade - Medo do corpo; não aceitação da sexualidade; devaneios eróticos persistentes; traumas sexuais; obsessões; tabus; fixação sobre uma pessoa com apego exagerado; desvios sexuais - homossexualismo, ausência de desejos e de problemas neste campo -; distúrbios físicos, etc...
- na área da agressividade - forte inibição para o diálogo e a criatividade; incapacidade de decidir, de arriscar, de assumir responsabilidades; inconstância; excessiva timidez; autodefesa constante; ou também exagero na manifestação da agressividade, prejudicando os outros em casa, no grupo...
- na área da autenticidade e valorização pessoais - máscaras; fingimento; duplicidade por causa do medo e da insegurança; segundas intenções; complacências - agradar para não ser prejudicado; negativismo; desconfiança de si e dos outros; auto-depreciação; pessimismo acentuado; negação do valor pessoal; autovalorização excessiva; teimosias; etc.

3 - ÍDOLOS: um ídolo é o que você absolutiza e não abre mão dele. Existe algo que você segura com todas as suas forças? interesses pessoais, idéias fixas, posicionamentos radicais, etc...
PARA AJUDAR A REZAR:

AUTOBIOGRAFIA - Continue com sua Autobiografia. Se não acabou de escrevê-la, amanhã é o último dia.

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.

PALAVRA DE DEUS - Mt 20,20-28

REVISÃO DA ORAÇÃO - Que estímulos e defesas podem distorcer as motivações da sua opção?


AMANHÃ:

REPETIÇÃO - É BOM ESTARMOS AQUI
ESTÍMULOS E DEFESAS DIANTE DA OPÇÃO



35

O RISCO DA DECISÃO


Seria impossível decidir ou optar por uma vocação sem o prévio itinerário que você acaba de percorrer, ou seja, “fazer-se livre”, “tirar as afeições desordenadas”, disposição de generosidade e de liberdade interior para acolher o projeto de Deus para você.

A partir da oração de amanhã passará a considerar sua opção! Procurará reservar um tempo maior para fazer sua “Eleição”!

Consideremos, na oração de hoje, que toda opção é uma tomada de decisão e que toda decisão pressupõe um risco, um misto de desejo e medo.

Existe, na natureza humana, a tendência natural de ultrapassar o imediato, para arriscar novos horizontes; necessidade de afrontar o perigo, de tentar, de se aventurar. A isso chamamos de desejo.

Mas existe também a tendência oposta, de se poupar e de se acautelar; a necessidade inata de evitar o perigo, de se afastar dos obstáculos, de repetir o passado. A isso chamamos medo.

Desejo e medo são dois aspectos contraditórios, porém, sempre presentes.

A necessidade de reagir, determina que é necessário superar, com tenacidade, as dificuldades, expor-se à mudança, deixar-se desafiar.

A necessidade de evitar o perigo, ordena fugir das situações embaraçosas, não se expor, justificar-se.

Tais necessidades são tendências inatas à ação, constituem-se numa quantidade de energia psíquica que impele a agir. Não podem, todavia, determinar a ação por si sós. São simples tendências, insuficientes para levar à ação. Não contém um sentido obrigatório de percurso, e sim, uma direção preferencial. Para que a ação tenha seqüência faz-se necessário um ato de vontade.

O assentimento à necessidade de evitar o perigo cria o medo, ao passo que o assentimento à necessidade oposta transforma-se em coragem.

Uma das características profundas do ser humano consiste em desejar, ser confrontado com algo que supera a sua limitação, a sua finitude, a ordem sensível ou intuitivo-emocional. Este anseio pelo infinito toma conta de nosso espírito, sem entretanto, destruir o que de finito e limitado há em nós.

Dai a dialética presente em nosso ser, entre o Infinito a que tendemos com nosso ideais e o Finito de nossa realidade. O ser humano é capaz de crescer e de regredir, de abrir-se e de fechar-se, de viver e de sobreviver. Estes dois aspectos não se excluem, antes são contemporaneamente ativos: trata-se de averiguar qual deles prevalece.

O ser humano que confia é também o ser humano que teme: o ato de coragem contém, também, o medo. Esperança e dúvida, temor e coragem, criatividade e rotina, andam juntas.

O que é que transforma a tendência em ação? De que modo a tendência ao medo torna um homem medroso, ao passo que, ao mesmo tempo faz que, num outro, predomine o desejo?

A resposta está na força de atração dos valores e, principalmente, em sua capacidade de provocação. Os valores religiosos estimulam o ser humano a ir sempre além, a ousar e a esperar. Portanto, constituem um desafio para o medo e um incentivo para o desejo. Os valores funcionam como algo que elimina o medo e estimula o desejo.

O ser humano torna-se medroso ou corajoso de acordo com o objetivo que ele próprio se propõe. De acordo com o quadro de referência escolhido, dará uma orientação diferente para suas tendências inatas: o chamado a uma vida mais elevada torna-o corajoso.

O ser humano torna-se corajoso quando toma a decisão de arriscar.


PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Mostra-me, Senhor, o melhor caminho para seguir-te!

PALAVRA DE DEUS - Jo 6,60-71

REVISÃO DA ORAÇÃO - Como se sente diante de um momento de decisão? Por quê?


36

ELEIÇÃO I


Nos Exercícios Espirituais o processo de decisão recebe o nome de Eleição.

A Eleição é um instante divino em que você, de modo pessoal e livre, tocado pelo Espírito do Senhor, discernindo as moções que Deus foi deixando no seu coração durante todo seu itinerário de oração, pode concretizar sua opção por uma vocação (matrimonial, sacerdotal, religiosa, leigo consagrado...)

Para fazer uma boa Eleição, é preciso estar no estado de disponibilidade da “terceira pessoa” (TRÊS TIPOS DE PESSOAS) e do “2º modo de amar” (TRÊS MODOS DE AMAR). Se você não se sente livre para acolher ou deixar tal bem segundo agrade ao Senhor, ou sente que existe algum ponto do seu viver que não pode ser tocado, melhor seria esperar e amadurecer, voltando às meditações anteriores, sobretudo ao “FAZER-SE DISCÍPULO”, “OS DOIS CAMINHOS” e “TRÊS TIPOS DE PESSOAS”. Se você sente uma grande abertura, um grande amor, um grande apego ao Deus de Jesus Cristo e, por causa dele, é capaz de relativizar todas as outras coisas criadas, você pode entrar em eleição, ou seja, perguntar a Jesus qual é a sua vocação.

No processo de decisão, “que o seu olhar seja simples”, isto é, que olhe sua decisão como um meio para realizar a finalidade de sua vida: louvor a Deus e serviço aos homens.

Sua oração hoje será um Exercício de Eleição. É necessário dar um tempo maior e fazê-lo sem pressa, com calma e tranqüilidade. Você deve seguir o método proposto, em clima de oração, na presença do Senhor, conversando com Ele, pedindo-lhe a graça...

Há três modos pelos quais você pode conhecer qual é a sua opção. Esses diversos modos lhe ajudam a ter certa certeza sobre em que vocação pretende seguir a Jesus Cristo. No Exercício de hoje veremos o 1º e o 2º modo.

1º MODO - A opção é sentida, percebida, com muita certeza, clareza, evidente. É algo repentino, decisivo, forte. A pessoa não têm dúvidas. Algo semelhante aconteceu com São Paulo e São Mateus ao seguirem a Jesus Cristo!

Reflita um momento se sua situação é essa... A resposta só pode ser “SIM” ou “NÃO”.

Você sente que isso acontece com você?

2º MODO - É o modo da maioria das pessoas. A certeza e a clareza vêm através da experiência de consolações e desolações, da experiência do discernimento dos espíritos. É bom retomar as revisões da oração e estar atento aos sentimentos, apelos, resistências, etc. do seu processo de oração.

Responda por escrito:

1. Quando pensa que pode seguir totalmente a Jesus Cristo na vida de matrimônio, no mais profundo do seu coração, diante do Senhor, que sentimentos têm?

2. Quando pensa que pode seguir totalmente a Jesus Cristo como sacerdote, no mais profundo do seu coração, diante do Senhor, que sentimentos têm?

3. Quando pensa que pode seguir totalmente a Jesus Cristo na vida religiosa, no mais profundo do seu coração, diante do Senhor, que sentimentos têm?
4. Quando pensa que pode seguir totalmente a Jesus Cristo como leigo consagrado, no mais profundo do seu coração, diante do Senhor, que sentimentos têm?

Releia os sentimentos que teve em cada uma das opções. Perceba:

1. Quando pensa no matrimônio para seguir a Jesus, seu coração fica contente?
2. Quando pensa no sacerdócio para seguir a Jesus, seu coração fica contente?
3. Quando pensa na vida religiosa para seguir a Jesus, seu coração fica contente?
4. Quando pensa em ser leigo consagrado para seguir a Jesus, seu coração fica contente?

Onde você foi capaz de responder “SIM” parece que o Senhor o chama a seguí-lo nesta vocação. Mas, não se precipite...

Amanhã faremos o Exercício sobre o 3º modo de fazer Eleição.


PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Mostra-me, Senhor, o melhor caminho para seguir-te!

REVISÃO DA ORAÇÃO - Que sentimentos experimentou durante o exercício de Eleição?


37

ELEIÇÃO II


Vamos continuar com a Eleição para encontrarmos realmente a melhor vocação para você seguir Jesus Cristo. Já vimos o 1º e o 2º modo. Hoje nosso Exercício será sobre o 3º modo.

3º MODO - o discernimento se faz através da razão iluminada pela fé. É um tempo tranqüilo. Nele se verifica os argumentos prós e contras sobre determinada vocação.

Você deverá fazer o exercício por escrito. Tome uma folha para cada vocação: matrimônio, sacerdócio, vida religiosa, leigo consagrado. Em cada folha faça duas colunas, uma para as “razões a favor” e outra para as “razões contra”.

1. RAZÕES A FAVOR

Você deve considerar e pensar quantas vantagens ou proveito decorrem para você, pelo fato de escolher tal vocação, olhando unicamente o serviço de Deus e dos irmãos.

- Quais as razões a favor mais importantes, que você encontra para seguir Jesus no matrimônio? Escreva o maior número possível...
- Quais as razões a favor mais importantes, que você encontra para seguir Jesus no sacerdócio? Escreva o maior número possível...
- Quais as razões a favor mais importantes, que você encontra para seguir Jesus na vida religiosa? Escreva o maior número possível...
- Quais as razões a favor mais importantes, que você encontra para seguir Jesus como leigo consagrado? Escreva o maior número possível...


2. RAZÕES CONTRA

Do mesmo modo, considere e pense nas desvantagens e perigos que decorrem para você, pelo fato de escolher tal vocação, olhando unicamente o serviço de Deus e dos irmãos.

- Quais as razões contra mais importantes para viver sua vocação cristã no matrimônio? Escreva o maior número possível...
- Quais as razões contra mais importantes para viver sua vocação cristã como sacerdote? Escreva o maior número possível...
- Quais as razões contra mais importantes para viver sua vocação cristã na vida religiosa? Escreva o maior número possível...
- Quais as razões contra mais importantes para viver sua vocação cristã como leigo consagrado? Escreva o maior número possível...

3. Depois que assim refletiu e raciocinou sobre os “prós” e “contras” da escolha de uma vocação, pare um pouco sobre cada uma das folhas e verifique as duas colunas. Examine profundamente, com sua razão e inteligência, as razões a favor e as razões contra. Sinta para onde pende o seu coração, para onde se inclina... A favor... Contra...
Escreva os sentimentos do seu coração sobre cada uma das vocações.

4. Orando na presença do Senhor, releia os sentimentos que escreveu sobre cada uma das vocações, e perceba novamente:

1. Quando pensa no matrimônio para seguir a Jesus, seu coração fica contente?
2. Quando pensa no sacerdócio para seguir a Jesus, seu coração fica contente?
3. Quando pensa na vida religiosa para seguir a Jesus, seu coração fica contente?
4. Quando pensa em ser leigo consagrado para seguir a Jesus, seu coração fica contente?

Onde você experimentou na oração consolação, alegria e paz, parece que Deus o quer nessa vocação!

Amanhã, ainda teremos um exercício de Eleição!


PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Mostra-me, Senhor, o melhor caminho para seguir-te!

REVISÃO DA ORAÇÃO - Que sentimentos experimentou durante o exercício de Eleição?


38

ELEIÇÃO III


Continuemos com a Eleição...

O Exercício deverá ser feito seguindo o roteiro, sempre em clima de oração, na presença de Deus, contando sempre com a sua graça e o seu Espírito.

Procure responder, por escrito, a cada passo. Isso é muito importante!

1. Em 1º lugar, lembre-se que o amor que move você a fazer ou escolher algo “deve vir do alto, do amor do mesmo Deus”, de maneira que, ao escolher um Caminho de vida esteja consciente que o faz somente pelo Senhor.

2. Imagine um homem que nunca viu nem conheceu e a quem deseje toda felicidade. O que lhe diria que fizesse e que vocação o aconselharia escolher, para maior glória de Deus e serviço aos irmãos?
Você seguiria para si o mesmo conselho que propôs àquele homem? O que lhe propôs?

- a vida matrimonial?
- o sacerdócio?
- a vida religiosa?
- ser leigo consagrado?

Por que você escolheu para aquele homem essa vocação?
Por que você escolheu para você essa vocação?

3. Imagine que você está terminando a vida, às portas da morte, isto é, para apresentar-se diante de Cristo. Como gostaria de apresentar-se diante de Cristo? Que caminho você teria seguido? Que opção gostaria de ter feito? Quereria ter escolhido...

- a vida matrimonial?
- o sacerdócio?
- a vida religiosa?
- ser leigo consagrado?

Guiando-se, pois, por essa sua escolha, decida-se!

4. Imagine que você está diante de Cristo, no dia do julgamento final. Vendo toda a sua vida, que teria feito Cristo em seu lugar? Qual vocação Ele lhe aconselha escolher? Ele escolheria para você...

- a vida matrimonial?
- o sacerdócio?
- a vida religiosa?
- ser leigo consagrado?

A escolha que Cristo faria para você no dia do julgamento final, adote-a agora, para que naquele momento experimente inteira alegria e paz.

5. Nesta altura, leve em consideração a opção que você fez hoje com a que fez nos outros exercícios de Eleição. Anote no seu caderno o que você está sentindo ou vivendo no mais íntimo do seu ser. Se você sente, frente à opção, paz, claridade, alegria... isso será sinal de que você optou bem. Ao contrário, se você se sente confuso, inquieto e triste em sua opção, isto indica que algo foi mal e que você terá que revisar o processo e voltar a eleger.
O compromisso com Deus, ainda que custe, sempre lhe deixa, no interior do seu ser, profundamente satisfeito. O mar poderá estar agitado na superfície, mas no fundo encontra-se sereno; e isto é ação do Espírito.

6. O discernimento e a opção que você acaba de fazer é o remate de uma caminhada, uma busca, na fé, da Vontade de Deus para você. Como conclusão, num clima de confiança, ofereça ao Senhor sua opção. Peça-lhe que se digne recebê-la e confirmá-la, isto é, que ele mostre de alguma forma que a aceita e concorda com ela.


PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Mostra-me, Senhor, o melhor caminho para seguir-te!

REVISÃO DA ORAÇÃO - Que sentimentos experimentou durante o exercício de Eleição?

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