segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Exercícios Espirituais Inacianos: Terceira Etapa.


TERCEIRA etapa

1.COMO UM MANTO ESTENDIDO


Começa uma nova Etapa... Trata-se de confirmar a Eleição. A Eleição só é válida quando vem do alto. Também sua confirmação deve provir do alto. Já não se trata da minha Eleição, mas “do que Deus quer de mim”. Deixemos que ele atue em nós, sem medo, sem impotências: foi a você, ser limitado, pobre e sem forças, que o Senhor confiou a sua Eleição.

A confirmação não se avalia por resultados externos (dar certo, sucesso, etc.), mas pelo fruto no coração. A confirmação é uma especial experiência de consolação interior dada por Deus a quem pede, percebida pelo discernimento das moções interiores.

Como meio para conseguir esta confirmação se propõe a contemplação do Mistério Pascal: Morte e Ressurreição do Senhor.

Essa terceira etapa dos Exercícios Espirituais visa fortificar e dar coragem, liberdade e convicção no seguimento de Jesus. Tomada a decisão, você começa a descobrir o preço da fidelidade no seguimento. Contemplar a Paixão de Jesus é dizer “sim” ao que Deus quer de você, aceitando os riscos imprevisíveis da sua opção.

É a experiência do “doar-se e perder-se até a morte” por aquilo que se acredita e se ama. Experiência de uma identificação com o Cristo que sofre injustamente por ser fiel ao Pai, comprometido definitivamente com os valores do Evangelho. Experiência do Cristo pobre, humilde e humilhado que tem o rosto concreto dos pobres e dos excluídos da nossa sociedade.

É tempo de pedir confirmação da sua opção!

“Eis que vem o teu rei montado num jumentinho!”
(Jo 12,15)

Jesus se aproxima espontaneamente da Paixão, para consumar o mistério de nossa salvação.

Está, pois, de livre vontade, a caminho de Jerusalém. Vem, mas não rodeado de pompa... Pelo contrário, vem manso e humilde, e se apresenta com vestes pobres...

Os peregrinos eram acolhidos na Cidade Santa com uma saudação. Do mesmo modo, a multidão entoa um canto, onde Jesus é aclamado como o Rei-Messias, o enviado de Deus, aquele que traz enfim a paz prometida!

“Hosana ao Filho de Davi! Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor!
Hosana no mais alto dos céus!”
(Mt 21,9)

Jesus, montado num jumentinho, quebra todas as expectativas do povo de um Messias triunfador e poderoso. Ele se apresenta como um rei humilde, humilhado, pobre e sofredor, que salvará o seu povo, não pela imposição da violência, mas deixando-se violentar, ele mesmo, para poder ser o primeiro a perdoar. Só assim, ele poderá trazer a paz!

É assim que Jesus é aclamado como Rei. É enquanto Rei que Ele entra em Jerusalém para ser crucificado. Não lhe tomam a vida, mas é Ele quem a dá porque Ele é Rei.

“Eu vim para servir, não para ser servido”
(Mc 10,45)

Jesus se apresenta a nós tão manso, Ele que é a própria mansidão, para vir e entrar em intimidade conosco e, tornando-se um de nós, erguer-nos e reconduzir-nos a ele.

Ouça a pergunta feita por todos: “Quem é este?” Cada um de nós tem de dar uma resposta a esta pergunta. Somente pela fé somos capazes de dar uma resposta perfeita a esta pergunta. É unicamente pela fé que podemos enxergar a realidade profunda do mistério da pessoa de Jesus.

Corramos juntos com Aquele que se apressa para a Paixão e, como os que foram ao seu encontro, estendendo no caminho seus mantos e ramos de oliveira, ofertemos a nós mesmos, prostrando-nos a seus pés como mantos estendidos.


PARA AJUDAR A REZAR:

CONFIRMAÇÃO - A sua Eleição deve receber “confirmação” da parte do Senhor. A confirmação não se avalia por resultados externos (dar certo, sucesso, etc.), mas pelo fruto no coração (Gl 5,22-25). Não é também uma sensação de alívio ou contentamento, nem o olhar que cai sobre uma passagem da Bíblia. A confirmação é uma especial experiência de consolação interior dada por Deus a quem a pede. Pode ser percebida de forma dramaticamente iluminativa, direta (mas é raro), ou pelo discernimento de consolações e desolações, caracterizada por: estarem centradas em Jesus; darem consciência realística do desafio e sofrimento envolvidos no eventual seguimento; senso de paz, mesmo na dificuldade; crescimento e confiança em Deus; humildade e dependência do Senhor; desejo acentuado de unir-se a Jesus pelo seguimento.

GRAÇA - Senhor, dai-me a graça de sentir compaixão por Ti, que sofre por causa de mim.

PALAVRA DE DEUS - Mt 21,1-11

REVISÃO DA ORAÇÃO - Como é o Jesus que você tem descoberto até aqui, nesta Etapa do Retiro?


2

CORPO DADO E SANGUE DERRAMADO


“Sou trigo de Deus, serei triturado para tornar-me o puro pão de Cristo”
(S. Inácio de Antioquia)

É próprio do coração do homem partilhar, com aqueles que ama, suas emoções, pensamentos e desejos. Participar de uma refeição com os amigos não é só partir e repartir a comida e a bebida, mas sobretudo partilhar o mais profundo que existe nos corações. É o próprio coração que se parte e reparte.

Jesus, sabendo que sua vida estava chegando já ao fim, reuniu os seus companheiros, os seus amigos ao redor de uma mesa... Companheiro, aquele que come do mesmo pão, que comunga da mesma vida... A alegria em estar com os seus...

“Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna...
Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e Eu nele”
(Jo 6,56)

O Mistério da Eucaristia, a chegada da hora de Jesus Cristo, a hora da entrega da vida verdadeira, o grande sinal do amor e fidelidade de Deus aos homens. Não é a celebração só da Paixão, mas de toda uma vida de amor, de entrega e de abertura para uma nova vida que é a doação contínua da vida.

A entrega do Corpo e do Sangue do Senhor é um convite a que todos nós entreguemos continuamente a nossa vida pelos irmãos. A Eucaristia é o momento desse apelo de Deus para nós. Se você quer ter vida, dê a vida. O “segue-me” chega até aí.

“Tomai e comei, isto é meu corpo!
Tomai e bebei, isto é meu sangue!
Fazei isto em memória de mim!”

O Pai formou um Corpo para o seu Filho pelo Espírito Santo. O Corpo de Jesus! Um corpo que o situava, com o qual Ele se exprimia. Pelo corpo Jesus se doava inteiramente aos outros. Seu amor transparecia através dos olhos, do rosto, das mãos e no modo de andar. No Corpo de Jesus, formado pelo Espírito e não pela vontade do homem, o Pai manifestava à humanidade o seu Amor eterno. O Corpo do Senhor é manifestação do amor. É dom que o Senhor faz de Si mesmo, o dom total.

Cada vez que ouvimos estas palavras na Eucaristia devemos pensar nos outros... Ser como Jesus: dar tudo sem tirar nada... “Fazei isto” é o esforço de sair de si, dos seus interesses, para pensar no bem do outro e se comprometer com a sua felicidade.

Neste mistério podemos ver “até que extremo o Pai nos amou”!

Aqueles que celebram a Ceia do Senhor, em espírito e verdade, levam para sua vida diária a prática da comunhão que aprenderam do Senhor: ser fermento no mundo, para que se torne justo e fraterno.

Como pode ser que, após tantos anos de vida cristã, ainda nos limitemos a considerar a Eucaristia como simples cerimônia ou mera devoção entre tantas outras? Ela é o centro de tudo. É ela que transforma um cristão num homem que dá testemunho.

Qual é a sua atitude, as motivações mais profundas do seu coração? Você vive para si ou para os outros? Você se encontra unido a Jesus e a seus irmãos mais necessitados? Ou você prefere tentar fazer sua vida sozinho?
A Eucaristia é um convite a partilhar toda sua vida com todos os homens.


PARA AJUDAR A REZAR:

VISITA AO SANTÍSSIMO SACRAMENTO - Poderia ajudar a rezar este mistério da Eucaristia fazê-lo em alguma igreja ou capela, diante do Sacrário, na presença eucarística do Senhor. Ou, então, dar algum tempo, durante estes dias, para visitar o Santíssimo Sacramento, com todo amor e reverência.

GRAÇA - Senhor, dai-me a graça de sentir compaixão por Ti, que sofre por causa de mim.

PALAVRA DE DEUS - Mt 26,17-30

REVISÃO DA ORAÇÃO - Você está disposto a partilhar não só o Corpo e o Sangue do Senhor mas, também, a sua própria vida?


AMANHÃ:

APLICAÇÃO DOS SENTIDOS - Você se lembra da “Aplicação dos Sentidos”? (Ver “A Mãe do Senhor vem a mim” - 2ª Etapa). Seria bom continuar aplicando-a durante os Exercícios de Repetição. Volte sobre as contemplações a serem repetidas procurando:
VER - as diferentes pessoas e fatos contemplados. Algo ou alguém lhe move a um ato de fé?
OUVIR - as diferentes palavras, mensagens. Dizem algo que você pode esperar como realidade em Deus no seu futuro?
SENTIR - nas contemplações que você repete surgem atos de amor de Deus e dos outros? Moções?
TOCAR - percebe-se algo dos mistérios contemplados da vida de Jesus que já são “seus” de algum modo?

REPETIÇÃO: COMO UM MANTO ESTENDIDO
CORPO DADO E SANGUE DERRAMADO


3

AMOU-OS ATÉ O FIM!


“Jesus levanta-se da mesa, depõe o manto e, tomando uma toalha,
cinge-se com ela, depois coloca água numa bacia e começa a lavar os pés dos discípulos
e a enxugá-los com a toalha com a qual estava cingido”
(Jo 13,4-5)

Jesus, pegando os gestos de acolhida e serviço que se usava em seu tempo, lava os pés dos seus Apóstolos! Você é convidado a colocar-se no meio deles, que têm os pés lavados, que recebem o incomparável serviço de Cristo.

É preciso olhar para Jesus, ouvir o que Ele diz, ver o que Ele faz. As palavras e o gestos manifestam o mais profundo da pessoa humana. Jesus está todo inteiro na menor das suas ações, no menor dos seus gestos. Suas palavras são acompanhadas por atitudes e gestos concretos, não ficam vazias, sem sentido, sem convencer ninguém. Tudo nele manifesta o amor.

O Criador se põe aos pés da sua criatura... Pede-lhe permissão para amá-la, pois nada pode realizar sem o consentimento dela... “Deixa-te lavar os pés...”

E nós queremos sempre manifestar a Deus o nosso amor, sem entendermos que Ele nos amou primeiro. Trata-se de recebê-lo aos nossos pés para que Ele nos mostre com que amor Ele nos ama.

Se não formos capazes de compreender o amor de Deus por nós, nos sentiremos mal, como Pedro: “Não, Senhor, jamais me lavarás os pés!” Pedro deixa Jesus lavar os pés sem compreender a sua iniciativa, o amor que o Criador tem para com a sua criatura, pondo-se aos pés de sua criatura.

No Evangelho de São João, o lava-pés se dá durante a ceia. Portanto, Judas se achava ainda presente entre os Apóstolos, e Jesus também lhe lavou os pés; não obstante, Judas “não estava limpo”.

No gesto do lava-pés, se oculta o Mistério do despojamento do Filho de Deus, que vem para servir e purificar...

Jesus quer que seus discípulos aceitem e continuem esse ato de aniquilamento. Ao mesmo tempo que se coloca aos pés de sua criatura, Ele nos mostra com que amor devemos amar uns aos outros, pois cada pessoa é, no fundo, aquela mesma diante da qual Jesus se põe de joelhos, para que aprendamos por este gesto a grandeza do homem. Jesus se coloca de joelhos diante do homem para que descubramos a sua dignidade e nos amemos como Ele nos amou!

“Se, portanto, Eu vos lavei os pés, também deveis lavar-vos os pés uns aos outros.
Dei-vos o exemplo para que como Eu vos fiz, também vós o façais”
(Jo 13,14)

Humildade não quer dizer que o inferior se disponha a prestar serviço ao superior. A verdadeira humildade é totalmente diferente; nela, o superior serve ao inferior. A humildade reveste-se da forma mais sublime, quando ela se curva diante do pecador, não como juiz, mas como Salvador e Libertador. Toda a vida de Jesus não é outra coisa senão esse único e sublime ato de verdadeira humildade.

Colocar-se à disposição do outro é colocar-se também numa perspectiva de Reconciliação. Amar de verdade é viver na dimensão da busca do que une e nunca do que separa. Reconciliar-se, deixar-se lavar é condição para ter parte com Ele.

O seguimento de Cristo pressupõe disponibilidade para o serviço fraterno. No Reino de Deus não cabem ambições de domínio e de fazer carreira. No discípulo de Jesus há de se prolongar e permanecer operante o sentimento de humildade.

O Senhor está aos seus pés, e de todos os que sabem acolhê-lo!


PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Senhor, dai-me a graça de sentir compaixão por Ti, que sofre por causa de mim.

PALAVRA DE DEUS - Jo 13,1-17

REVISÃO DA ORAÇÃO - De quem você já lavou os pés? Quem já lavou os seus pés?



4

FICAI AQUI E VIGIAI COMIGO


Depois da esperança, da paz, da majestade da última ceia, a oração de Jesus no monte da Oliveiras mostra o aspecto doloroso que a Paixão tem para ele. A agonia no monte das Oliveiras é o momento mais obscuro para Jesus e para seus seguidores. Aqui aparece toda a verdade de sua humanidade, o que faz dele nosso irmão e nosso Salvador no mais profundo de nossa miséria.

Na vida de todo homem existem momentos tristes e profundamente amargos. Momentos de profunda angústia e tribulação, quando a vida toda parece se desmoronar e perder o seu sentido. O homem se sente só...

Jesus permanece fielmente humano, tateando na noite. Quem está com ele: Pedro, que espera o Messias triunfante e chega mesmo a indicar-lhe caminhos; Tiago e João, que pedem o primeiro lugar...

Momentos de medo, perturbação, inquietação...

“...Minha alma está triste até a morte. Ficai aqui e vigiai comigo”
(Mt 26,38)

Jesus está triste. Esta tristeza de Jesus diante da sua morte nos ultrapassa. Diante de Jesus que afirma a sua tristeza, é melhor ficar em silêncio para ouvir a ressonância de sua voz.

“... Meu pai, se é possível, afasta de mim este cálice!”
(Mt 26,39)

A uma hora atrás, Jesus acabara de oferecer o cálice de seu sangue, na última ceia. Agora Ele parece hesitar. Ele se pergunta se vai aceitar ou recusar.

Jesus distingue com aterradora claridade duas vontades. Foi o momento da prova.

Duas vontades enfrentadas violentamente: “o que eu quero” e “o que Tu queres”. Foi um momento horrível. Jesus desceu nesse momento até o último limite do homem. Nesses momentos, a nossa tentação é por um Deus que se manifeste, que intervenha...

Jesus hesita durante uma ou duas horas entre a recusa e a aceitação. Ele não recusa, mas sua aceitação é lenta e dolorosa. Jesus volta duas, três vezes aos discípulos, à procura de conforto. Pedro, Tiago e João estão por fora, e por isso dormem... Não o sono do cansaço, mas o sono que conhecemos, algumas vezes, em nossas vidas, o sono de fuga, quando se trata de tomar uma decisão que nos incomoda, para evitar encarar a realidade.

Mas, além da própria morte, além do sofrimento, Jesus sabe que a Vontade do Pai é Vida. Se a Vontade do Pai se cumprir, a conseqüência não será a morte, mas a Vida, pois Deus não quer a morte.

“Meu pai, se não é possível que este cálice passe sem que eu o beba, faça-se a tua vontade!”
(Mt 26,42)

Por fim, Jesus se entregou como um filho submisso nas mãos do amado Pai com o “faça-se o que Tu queres”. Jesus está entregue ao único plano de Deus. Jesus abandona sua causa a um outro. Ele tinha amado com todo o seu ser, ele tinha servido a uma única idéia: glorificar o Pai no meio dos homens... Agora, ele abandona-se ao mistério da insondável bondade do Pai. E o abandono foi a libertação da “angústia e do terror”, e produziu na alma de Jesus os frutos habituais de todo abandono: consolação, paz, tranqüilidade e sobretudo uma satisfação por ter feito o ato supremo de amor...

“Chegou a hora: o Filho do homem vai ser entregue nas mãos dos pecadores...
Levantai-vos, vamos! Aquele que me trai está perto daqui”
(Mt 26,45-46)

Jesus foi muito sensível à amizade, mas nesta hora todos o abandonam...Quando todos o abandonam, sobra a pergunta: vale a pena? Pois, o sofrimento não tem sentido. É algo de absurdo! Mas, aquele que segue Jesus na sua agonia, não se desespera, mas crê...

“Feliz é aquele que nas aflições continua fiel. Porque sabem que quando a sua fé vence essas provações, vocês aprendem a ter mais paciência...”
(Tg 1,2-4)


PARA AJUDAR A REZAR:

ESCRÚPULO - O escrúpulo consiste na dúvida que nos impede de decidir. Neste sentido, é uma derrota da liberdade que, prisioneira da dúvida provocada pelo mal, nem o derrota, nem consegue fazer o bem. O mau espírito procura confundir a pessoa, fazendo-a perceber erro em tudo ou, ao contrário, a dar menor atenção ainda a suas falhas. Reagir, em ambos os casos, implica buscar o meio termo e não o excesso contrário.

GRAÇA - Senhor, dai-me a graça de sentir compaixão por Ti, que sofre por causa de mim.

PALAVRA DE DEUS - Mt 26,31-46

REVISÃO DA ORAÇÃO - Como você experimenta “compaixão” de forma concreta na sua vida?



AMANHÃ:

REPETIÇÃO: AMOU-OS ATÉ O FIM!
FICAI AQUI E VIGIAI COMIGO


5

OS DISCÍPULOS O ABANDONARAM


Jesus introduziu uma novidade total na vida das pessoas, inclusive no campo religioso. Jesus se distanciou da concepção vertical de um Deus que entra na história para corrigir, dominar; que discrimina entre puros e impuros. Ao contrário, proclama um Pai que vem em graça, que se aproxima dos impuros, dos estrangeiros, dos que a religião considera como pecadores.

A morte de Jesus é o resultado do anúncio da Boa Nova. Tudo vai ficando escuro na vida de Jesus e o céu parece desabar. É a hora das trevas!

Jesus Cristo não “sofreu” a Paixão no sentido de “suportá-la”. Ele a assumiu. Nossa atitude diante do sofrimento pode ser tríplice: de fugir, de rejeitar e de assumir. A fuga não é atitude e só acrescenta mais sofrimentos aos que já se tem. O suportar não é cristão. Só o assumir é cristão.

Na prisão de Jesus, dois rostos se encontram: Jesus e Judas. Judas, um dos Doze, se torna guia para a companhia de soldados encarregada da prisão. Judas tinha mergulhado na noite, símbolo das trevas que habitavam nele... É sob a figura de Judas que agora avança na direção de Jesus o príncipe deste mundo.

Na cultura de Jesus, o beijo é sinal de afeto e comunhão. Por isso, é desgostosa demais a cena de Judas que beija Jesus para traí-lo. Que decepção! Amar, confiar e ser traído, abandonado e pisado por aquele que dorme na mesma casa e come na mesma mesa...

A reação dos Apóstolos diante desta cena, a reação de Pedro:

“... desembainhou a espada e feriu um servo do Sumo Sacerdote, decepando-lhe a orelha”
(Mt 26,51)

Porém, Jesus disse:

“- Embainha tua espada, porque todos aqueles que usarem da espada,
pela espada morrerão...”
(Mt 26,52)

Os Apóstolos queriam fazer alguma coisa! Pedro é generoso. Pedro ama o Mestre. Quer dar a vida por Ele. Porém, quer dar a vida defendendo-O, matando e lutando até morrer!

Jesus reage à essa tentativa de violência praticada por Pedro. Jesus e os discípulos, que o seguem, não esperam a salvação da violência, e sim da força de um amor que cura e pensa as feridas da violência.

Deixar-se prender. Não se defender. Deixar-se conduzir como a ovelha que se leva ao matadouro! É a vontade do Pai! É um Jesus obediente, que aceita livremente a Paixão e a transforma em dom, em revelação de amor.

Pedro não compreende mais nada. Seu gesto manifesta uma última, profunda incompreensão do caminho do Messias, que não é o poder e sim o da livre doação, e que não se subtrai à fraqueza que marca o amor porque é precisamente na aceitação desta fraqueza que se cumpre o desígnio do Pai. Pedro tinha previsto tudo, exceto o que está acontecendo.

Jesus sofre diante da violência injusta de uma prisão durante a noite, mandada pela autoridade, que mais parece uma captura, como se ele fosse um malfeitor perigoso. Ele é vítima de uma trama dos chefes, que por sua vez se revelam servidores de um poder obscuro, violento e mentiroso.
Quando estaremos preparados para o inesperado como se fosse a coisa mais ordinária da nossa vida? Jesus está nos pedindo que nos preparemos para o inesperado!

Jesus está com as mãos ligadas. Não se defende, deixa-se prender, Ele, o Todo-Poderoso. Fraqueza, humildade de Deus.

“Então, os discípulos o abandonaram e fugiram”
(Mt 26,56)

O que mais dói: se sentir abandonado por tudo e todos. Os planos que construímos, as obras que realizamos, os relacionamentos interpessoais mantidos parecem ruir. Não fica nada, apenas um coração partido, uma mente cansada e Deus.

A glória de Deus se manifesta em Jesus que se deixa prender. Porém, para descobrir esta glória, precisamos de um olhar penetrante, do olhar da fé.


PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Senhor, dai-me a graça de sentir compaixão por Ti, que sofre por causa de mim.

PALAVRA DE DEUS - Mt 26,47-56

REVISÃO DA ORAÇÃO - Como se dá a presença da cruz na sua vida de seguimento de Jesus?


6

NÃO CONHEÇO ESTE HOMEM


Jesus é trazido diante de Anás e Caifás na sessão noturna do Sinédrio. É a história de um homem levado a um tribunal de outros homens para ser julgado. Jesus está diante daqueles que, oficialmente, representam a religião, representam Deus, diante do poder legítimo.

Já se sabe desde o início que não existe saída. Ele já esta julgado: sua vida, o fato de não ser um sacerdote, mas leigo, e não situado dentro do sistema, do aparato religioso de seu tempo, fazendo uma crítica radical, gera a alternativa: ou o Deus de Jesus, da fé, ou o Deus da religião oficial estabelecida.

Quando se lê hoje nos processos que muitas pessoas foram julgadas injustamente, sem possibilidade de prova ou defesa, é bom pensar em Jesus Cristo e ver o que ele sofreu. O tribunal não precisava de provas porque já o tinha condenado antecipadamente.

Qual é a atitude de Jesus quando é acusado injustamente diante dos poderes religiosos? Cala-se! Depois, quando a pergunta essencial é feita, responde claramente e simplesmente que Ele é o Filho de Deus.

“Eu sou. E vereis o Filho do homem sentado à direita do poder de Deus,
vindo sobre as nuvens do céu”
(Mt 26,64).

E depois de dizer o que tinha que dizer, Ele entra de novo no silêncio. Este silêncio não é desprezo, nem ódio, nem desforra. Jesus não julga. Disse o que o Pai lhe mandou dizer e agora entra no silêncio.

São dois modos para chegar a Deus... Para os judeus, é por práticas privilegiadas (culto, sacrifícios, ritos), lugares especiais (Templo). Para Jesus, é pelas pessoas, particularmente os excluídos e rejeitados pelo sistema, mesmo que religiosamente diferentes.

Olhemos agora para Pedro... Ele segue Jesus de longe, para ser fiel à sua promessa de fidelidade corajosa. Mas quando Pedro se acha descoberto e suspeito de aderir ao grupo de Jesus, como galileu, a coisa se torna perigosa e ele nega a sua qualidade de discípulo. É o homem que, querendo ser fiel a Deus baseado em sua própria força, acaba sendo infiel.

De uma parte o amor e o dom de Cristo, a coragem de Jesus no testemunhar sua missão, de outra, a infidelidade e a fraqueza do discípulo. A coragem de Jesus tem sua origem na comunhão com o Pai, a fraqueza do discípulo na presunção de si.

Olhemos para nós e não tanto para Pedro. Todo homem é assim. É como se Jesus nos dissesse: “Fui Eu que escolhi você. Você deveria confiar mais em mim e não em sua própria força. Aprenda isso de uma vez para sempre”.

“Pedro recordou-se do que Jesus lhe dissera:
Antes que o galo cante, negar-me-ás três vezes”. E saindo chorou amargamente”
(Mt 26,75)

Nós somos sim e não. Através de nossa fidelidade-infidelidade perpassa a fidelidade de Deus. O que interessa é a mudança de Pedro, que, nesse momento, recorda a “palavra do Senhor”. É esta palavra que suscita o seu arrependimento.

“Bem-aventurados os que choram porque serão consolados”
(Mt 5,4)
Assim, Pedro torna-se o modelo dos que se convertem. Ele redescobre o seu Senhor após a experiência do medo e do escândalo diante da humilhação de Jesus.

Veja a atitude de Jesus e aprenda a não se preocupar tanto com procurar defesas. Não somos chamados a defender-nos ou a julgar os outros, mas a testemunhar o amor de Deus em todas as partes e por todas as pessoas.

Exercite hoje a oração despojada... Não se preocupe com conclusões nem com muitas idéias. A resposta já está dada. Aprofunde sua experiência de vazio e solidão. É abandonado por todos, traído por Judas, negado por Pedro... O importante é assimilar tudo sem pressa...


PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Senhor, dai-me a graça de sentir compaixão por Ti, que sofre por causa de mim.

PALAVRA DE DEUS - Mt 26,57-75

REVISÃO DA ORAÇÃO - Sua opção vocacional continua se confirmando? Que sinais parecem surgir?


AMANHÃ:

REPETIÇÃO: OS DISCÍPULOS O ABANDONARAM
NÃO CONHEÇO ESTE HOMEM



7

QUE MAL FEZ ELE?


A contemplação e oração que você está fazendo pretendem duas coisas: penetrar no mais profundo do sentimento de Jesus para captar melhor seu amor por você e por todos os outros homens e olhar a paixão da humanidade que hoje sofre, padece, é torturada e crucificada para que tome uma atitude corajosa diante de tal situação.

Os chefes judeus conduzem Jesus ao governador Pilatos. Diante de Jesus estão os judeus e Pilatos.

Pretendendo eliminar Jesus, preparam acusações políticas mentirosas e descaradas. Acusam Jesus de uma atividade subversiva por dois motivos: por se proclamar Messias, título que para efeitos políticos eqüivale ao de rei; e por motivos político-religiosos, convidando o povo a boicotar os romanos, recusando o tributo. A acusação é muito grave, porque faz de Jesus um rebelde, punível por alta traição.

Pilatos interroga Jesus acerca da acusação principal: “Tu és o rei dos judeus?”. Jesus não nega, mas afirma que é Rei. No entanto, Jesus é um Rei diferente, que vive para servir, não para ser servido. Sua idéia de Rei é diferente de Pilatos, dos chefes judeus, do povo... “Eu não acho neste homem culpa alguma”...

Os judeus e Pilatos chantageiam-se mutuamente, e a chantagem é possível porque ambos estão fechados ao dom de si; salvar sua pele lhes importa mais que a verdade.

Pilatos envia Jesus a Herodes, pois Jesus era da Galiléia. Herodes tinha se interessado por Jesus, primeiro por curiosidade, depois com intenção hostil. Mas agora, no encontro final com Jesus, a sua curiosidade ficou decepcionada. Para Herodes Jesus não passa de um coitado, um visionário, um idiota pretendente ao trono...

Pilatos e Herodes se convencem da inocência de Jesus, mas o poder, por não ter a verdade como sua última instância, não hesita em pisotear o inocente. O poder leva em si uma dinâmica de opressão que não é concebível no Reino de Deus. Quantos Pilatos e quantos Herodes existem, ainda, na nossa história!

A morte de Jesus situa-se no final de uma série de infidelidades contra o projeto de Deus.

Os judeus se solidarizam com o agitador e homicida Barrabás e pedem sua libertação, enquanto para o inocente Jesus reclamam em altos brados a morte de cruz... Pilatos, por fim, se faz covarde e cúmplice dos judeus, e cede à pressão do povo e entrega Jesus à morte.

A paixão de Jesus é um pouco a paixão de nosso povo, que vive e sofre sem comover a ninguém, sem impressionar nossa sensibilidade. O homem, que foi criado para ser irmão dos outros homens, converteu-se, pelo seu egoísmo, em inimigo e assassino do seu irmão.

Como Jesus, hoje, também milhares de nossos irmãos são condenados à exclusão. Muitos, devido à estrutura de nossa sociedade, não podem participar dos bens necessários para uma vida digna: falta casa, trabalho, saúde, educação. Enfim, temos muitos irmãos que não se sentem gente, tal é a situação em que vivem. Milhões de pessoas diariamente se defrontam com o problema da fome... São pobres, não têm saúde, inspiram medo, enfeiam a cidade, sofrem todo tipo de violência e quando morrem são enterrados como indigentes.

Os pequeninos, os marginalizados, os velhos, os doentes, os prisioneiros, não têm nada para lhe dar, somente eles, só. Por isso eles desafiam e incomodam o nosso amor. O amor que ama sem olhar o que o outro possui é amor verdadeiro. O que deve ser amado é o homem, aquilo que ele é!
PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Senhor, dai-me a graça de sentir compaixão por Ti, que sofre por causa de mim.

PALAVRA DE DEUS - Lc 23,1-25

REVISÃO DA ORAÇÃO - Como você carrega a sua cruz de cada dia?


8

ESCURECEU-SE O SOL


“Se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica só; se morrer, produz muito fruto”
(Jo 12,24)

O caminho agora é este... não há retorno. Há na existência situações a partir das quais não se pode mais voltar, momentos em que não se pode mais recuar. A morte está ao final do caminho! Jesus bem o sabe!

Neste caminho aparece a Cruz! A Cruz é gloriosa para quem tiver este olhar de fé para contemplar nela o Corpo do Senhor. Na Cruz Cristo manifesta a totalidade do seu Amor. A Cruz que Ele toma é o homem, a pessoa; não só a humanidade sofredora mas a humanidade inteira.

“... Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu na sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de Cruz...”
(Flp 2,6-8)

Jesus vai morrer fora de Jerusalém, a Cidade Santa, que antes o aclamava como Rei. Ele não é orgulhoso no seu sofrimento. Sabe ter necessidade do outro. Aceita a ajuda de um estrangeiro, Simão Cireneu. Ele consola as mulheres de Jerusalém, cheio de ternura e misericórdia. Ele não olha para si e sim para os outros!

Quem é Simão Cirineu, hoje? Quem são as mulheres de Jerusalém? Quem são os príncipes dos sacerdotes? Quem são os malfeitores? Quem é o centurião? Quem é o bom ladrão?

Jesus é despojado de tudo. Só resta nele sua fé no Pai e o seu amor por todos nós.

“Pai, nas tuas mãos entrego o meu Espírito!”
(Lc 23,46)

Por um breve momento, o pecado arrancou do mundo a verdade, a justiça, o amor, a liberdade, a vida, a luz, a alegria, a esperança... Jesus! Foi pisado, triturado, esmagado!

“Alma de Cristo, santificai-me.
Corpo de Cristo, salvai-me.
Sangue de Cristo, inebriai-me.
Água do lado de Cristo, lavai-me.
Paixão de Cristo, confortai-me.
Ó bom Jesus, ouvi-me.
Nas vossas chagas, escondei-me.
Não permitais que me separe de vós.
Do inimigo maligno, defendei-me.
Na hora da minha morte, chamai-me.
E mandai-me ir para vós.
Para que vos louve com os vossos santos
Pelos séculos dos séculos. Amém!”

A Paixão de Jesus purifica toda vaidade, todo orgulho, toda sensualidade. Deixe-se interpelar, mais uma vez, pelo amor de Jesus. Será que sua vida não poderia ser um pouco mais austera, mais simples, mais verdadeira? Medite um pouco nas conseqüências trágicas da mentira e do pecado.

A Paixão de Jesus continua acontecendo cada ano, em cada cidade, nos prostíbulos, nalgumas delegacias, nas fábricas... acontece com os pobres, com os posseiros, com marginais e estudantes, com mulheres da vida... A Paixão de Jesus Cristo é a paixão da humanidade que sofre, violada e explorada, nos seus direitos. Nos porões da humanidade, milhões de irmãos que não têm voz, que não têm nome, continuam sofrendo a paixão de Jesus Cristo.

Que é que você faz diante deste drama? Que faz diante de semelhante paixão? Participa? Crucifica? Omite-se? Cala-se? Foge?

Não podemos fechar os nossos olhos diante dos sofrimentos e injustiças que sofrem os homens. Será que Jesus morreu à toa?


PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Senhor, dai-me a graça de sentir compaixão por Ti, que sofre por causa de mim.

PALAVRA DE DEUS - Lc 23, 26-49

REVISÃO DA ORAÇÃO - Como a Paixão de Jesus, e a de tantos irmãos, move o seu coração e os seus braços para uma vida misericordiosa?


AMANHÃ:

REPETIÇÃO: QUE MAL FEZ ELE?
ESCURECEU-SE O SOL


9

AS ÚLTIMAS PALAVRAS


Você se lembra do 3º modo de amar? É isto: aceitar o Cristo Sofredor. Já não se trata apenas de evitar o pecado, mas sim de aceitar a graça e o dom de ter a sorte do Cristo humilhado e sofredor.

A contemplação do Cristo em seu mistério de dor e sofrimento nos ensina a compreender que o sofrimento faz parte de nossa vida. Não temos que buscá-lo mas sim assumi-lo numa atitude de solidariedade com todo homem sofredor.

Na vida de Jesus Cristo existiu um caminhar para o Pai, em atitude de entrega e serviço aos irmãos. Todo o caminho de Jesus entre os homens foi uma "Via Sacra", um caminho santo, na qual em cada momento, pode-se contemplar sua fidelidade à Vontade do Pai.

Olhe a sua própria Via Sacra! Sua vida é "sacra", santa? Qual a sua atitude diante dos acontecimentos e das pessoas? Para onde você olha: para si mesmo ou para os outros? Qual a sua atenção aos que encontra no caminho? Para você, agora é o momento da transformação de sua vida em Via-Sacra, caminho santo e santificado pelo de Jesus Cristo.

Recordemos, nesta oração de hoje, as sete últimas palavras de Jesus na cruz. Deixe que elas ecoem em sua vida e o questionem.

1. “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34).

Em contraste com o comportamento dos soldados, dos chefes e também da multidão, Jesus invoca sobre todos o perdão do Pai. A invocação de Jesus é a última proposta de conversão oferecida a seus perseguidores.

2. “Em verdade te digo, hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43)

Jesus na cruz não salva a si mesmo, mas aos pecadores que se convertem e confiam nele. Dessa forma, Ele revela o rosto salvador de Deus. Deus é salvador não porque O tira da cruz, mas porque permanece fiel ao amor também na situação mais extrema. O bom ladräo defende Jesus e reconhece a sua inocência, e depois proclama a sua total confiança nele. Então o pecador arrependido pode escutar a "Boa Nova", a salvação que consiste na comunhão com Jesus no Reino de Deus. Para Jesus não há situação humana de miséria e de pecado que exclua alguém da salvação: também para o bandido que morre há esperança de futuro.

3. “Mulher, eis aí o teu filho. Eis aí tua Mãe” (Jo 19,26-27)

Jesus, na Cruz, dá o que tem de mais preciosa, a sua Mãe, ao discípulo amado, João, que a levou para sua casa. A Mãe de Jesus torna-se a Mãe do discípulo e de todos os discípulos. O discípulo amado representa todos os discípulos de Cristo, a Igreja. Assim, a Mãe de Jesus, perto da cruz de seu Filho, tornou-se a Mãe da Igreja.

4. “Tenho sede” (Jo 19,28)

Jesus é Aquele que dá a água da vida. Pede, mas para dar. Jesus pede de beber, mas de seu lado aberto sairão sangue e água.

5. “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34)

Não é um grito de desespero, pois o Pai não se alegra vendo seu Filho sofrer. É uma oração de súplica, o primeiro versículo do Salmo 22, um salmo portador de uma esperança de salvação para todos os homens e para todos os que morrem. Jesus se oferece aos homens como Salvação!
6. “Tudo está consumado” (Jo 19,30)

Não significa que chegou o fim, mas sim, que a Vontade do Pai foi realizada, em tudo e perfeitamente. E a vontade que o Pai confiou ao Filho era levar ao fim a sua obra: a revelação do amor. Amor que tem sua origem na comunhão entre Pai e Filho e sua realização humana na fraternidade humana. A cruz é o momento do cumprimento da missão de Cristo, na qual tudo é desvelado e levado à plenitude.

7. “Pai, nas tuas mãos entrego o meu Espirito” (Lc 23,46)

A vida de Jesus foi uma contínua entrega nas mãos do Pai, para fazer a sua vontade e ser fiel à sua Missão. O que o Pai queria era que Jesus, em qualquer momento e circunstância, boa ou adversa, da sua vida, fosse capaz de permanecer fiel. Na hora da morte Jesus, fiel até o último momento, se entrega totalmente a seu Pai, como para dizer-lhe: "Sim, Pai!".


PARA AJUDAR A REZAR:

VIA-SACRA - Hoje ou nos próximos dias, você pode achar útil fazer toda a Via-Sacra. Procure uma igreja ou capela onde possa percorrer as “estações”, voltando sobre os acontecimentos da Paixão do Senhor.

GRAÇA - Senhor, dai-me a graça de sentir compaixão por Ti, que sofre por causa de mim.

PALAVRA DE DEUS - Mt 27, 32-56

REVISÃO DA ORAÇÃO - Como você percebe as conseqüências da sua opção vocacional na sua vida concreta?


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A FIDELIDADE DE JESUS NOS CONFLITOS


“Não vim trazer a paz, e sim a espada”
(Mt 10,34)

Tudo o que Jesus faz - suas atitudes, seus gestos, suas palavras - revelam uma nova visão das coisas, um novo ponto de partida, uma nova ordem, um novo projeto.

Vivendo e anunciando a Boa Nova do Reino, Jesus vai provocando conflitos. Encontramos o conflito já no centro do mistério da Encarnação:

“Ele veio para os seus, mas os seus não o receberam”
(Jo 1,11)

Jesus não buscou o conflito (já que trazia uma mensagem de misericórdia e fraternidade) mas conheceu uma das experiências conflitivas mais dramáticas da história humana.

Jesus se tornou um sinal de contradição porque permaneceu absolutamente fiel a uma mensagem, a um modo de agir e a uma missão que havia recebido do Pai e que devia realizar com critérios e opções coerentes com o conteúdo do seu Evangelho.

Falar em conflito na missão de Jesus é o mesmo que falar de Fidelidade de Jesus. O que tem valor em sua vida é seu Amor Fiel, e não os conflitos em si mesmos.

A dimensão conflitiva da fidelidade de Jesus à missão é o resultado do confronto entre sua missão (que anuncia a justiça do Reino e as Bem-aventuranças), e a realidade que não quer ouvir e rejeita a novidade do Reino. Jesus não cria conflitos, Ele os revela e os constata, ao dar testemunho das exigências do Amor.

Combatido e puxado por todos os lados, Jesus resiste fiel a algo que está dentro d’Ele, só n’Ele e no mais profundo do povo pobre e sofrido. É aquela semente de resistência de que fala o profeta Isaías:

“Machucado não machuca, injustiçado não responde com injustiça, quebrado não quebra”
(Is 42,1-4)

No fim, ficou só e abandonado, exatamente como o povo de seu país.

Morre abandonado, soltando um grito (Mc 15,37). É o grito dos pobres!

Morre acreditando que Deus ouve o grito dos pobres.

Morre acreditando que a vida pisada é mais forte que o poder que a pisa, mais forte que a morte.

Morre acreditando que Deus liberta o seu povo com Poder Criador que vence a morte. E no “terceiro dia” o Pai o ressuscitará.

O conflito faz parte da vida do cristão; ele vive na luta.

O conflito perpassa nossa vida pessoal e comunitária; não é acidente de percurso, é permanente.

O conflito é um instante difícil, de parada, de mal-estar, de busca sofrida, mas é importante para purificar as pessoas, revigorar a mística e ressaltar os valores e ideais de vida.
O conflito é um momento de redifinição, de adequação à realidade e de crescimento em todas as dimensões.

Há pessoas que dissimulam o conflito para salvar a aparência da unidade. Outros recorrem ao poder. Eles eliminam o conflito, abafando, reprimindo, afastando os que causaram o conflito...

Aprendemos a ignorar os conflitos, mas raramente a enfrentá-los.

Como transformar o conflito em fonte de fé, esperança e amor? Como crescer e amadurecer no conflito? Como viver o Evangelho no conflito?

No Evangelho, conflito e crise são dados que marcam o itinerário da maturidade do seguidor de Jesus. Não há maturidade e crescimento pessoal sem passar pelas “crises conflitivas” de crescimento, de aprendizado e de educação para a liberdade.

O conflito leva à maturidade e pressupõe maturidade para ser assumido e superado.

A Espiritualidade é a resposta que damos às crises e aos conflitos; é o modo como assumimos, é o sentido que lhes damos...

Deus também se revela no conflito. Nos conflitos há uma manifestação do Espírito (fogo, dinamismo...). O conflito é um “ensaio de esperança”, uma certeza de que o Espírito “renova todas as coisas sobre a face da terra”. O conflito é certeza da novidade que vem. Por isso exige um discernimento permanente.


PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Senhor, dai-me a graça de sentir compaixão por Ti, que sofre por causa de mim.

PALAVRA DE DEUS - Is 52,13¬ - 53,12

REVISÃO DA ORAÇÃO - Qual é a sua experiência de perdão?


AMANHÃ:

REPETIÇÃO: AS ÚLTIMAS PALAVRAS
A FIDELIDADE DE JESUS NOS CONFLITOS


11

ENVOLVERAM-NO EM PANOS


"Essa cova em que estás com palmos medida
É de bom tamanho, nem largo nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio.
Não é cova grande , é cova medida
É a terra que querias ver dividida.
É uma cova grande pra teu pouco defunto
Mas estarás mais ancho que estavas no mundo.
É uma cova grande pra teu defunto parco
Porém, mais que no mundo te sentirás largo.
É uma cova grande pra tua carne pouco
Mas a terra dada não se abre a boca"
(João Cabral de Melo Neto)

O que nós vimos em Jesus no momento do sofrimento é que o amor triunfa efetivamente sobre o pecado, dor, morte. E ele se torna para nós "caminho" para que também triunfemos sobre o pecado, dor, morte, e até mesmo sobre o medo destas realidades, se nos associamos a seu Amor incondicional.

Através da compaixão, encontramos significado para nossos próprios sofrimentos, na medida em que, à luz da cruz do Senhor, eles são identificados como conseqüência da doação amorosa, do sair de si por causa dos outros.

Esse dia você vai passar junto ao sepulcro. E você o poderá passar como os Apóstolos talvez o tenham passado, com Maria e todos eles, entre si, relembrando os acontecimentos em que tomaram parte na vida de Jesus.

"Maria da noite escura, ó Mãe, Mãe da solidão
Teu filho morreu, morreu numa cruz
Teu filho morreu, morreu por amor!

Maria da noite escura, ó Mãe, Mãe da solidão
Eu quero saber, saber o porquê
Por que faz sofrer o Amor ao morrer!"

O sepultamento de Jesus foi realizado de maneira apressada por causa do descanso do sábado judaico. O autor deste último gesto de piedade humana para com Jesus é um dignitário judeu, pertencente talvez ao grupo dos nobres anciãos, membro do Sinédrio, rico proprietário, originário de Arimatéia, que pode dispor em Jerusalém de um túmulo talhado na pedra.

José de Arimatéia é um homem justo, porque dissociou-se de seus colegas no julgamento contra Jesus, e vive à espera do Reino de Deus. É um homem aberto ao futuro e à esperança.

"Ele o desceu da cruz, envolveu-o num pano de linho, e colocou-o num sepulcro,
escavado na rocha, onde ninguém ainda o havia sido depositado..."
(Lc 23,53)

Jesus teve um sepultamento digno e honrado num sepulcro novo, como convinha ao Senhor. Antes, as mulheres que sempre seguiram a Jesus desde a Galiléia preocuparam-se em terminar o embalsamento logo após o repouso do sábado, providenciando desde a tarde da sexta-feira os óleos e aromas.

Para que todos possam ter vida em abundância, é necessário que sepultemos todo egoísmo, todo o ódio, toda a ganância e exploração.

As mulheres fiéis, que seguiam a Jesus, observam a sepultura... É uma vigília de espera...


PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Senhor, dai-me a graça de sentir compaixão por Ti, que sofre por causa de mim.

PALAVRA DE DEUS - Lc 23,50-56

REVISÃO DA ORAÇÃO - Como você relaciona as “cruzes” da vida com a experiência da cruz de Jesus?



12

QUE FOI, POVO MEU, QUE TE FIZ?


Hoje e amanhã você vai fazer uma repetição de toda a Paixão de Jesus. Trata-se, mais do que contemplar as ações externas de Jesus - seus gestos e palavras - de descobrir nelas o Coração de Cristo, as motivações profundas pelas quais Ele caminhou através da solidão e do abandono a um total despojamento de si mesmo, até a morte de Cruz.

Diante do projeto do Pai, pergunte-se sobre a sua Eleição: ela se mantém diante do sofrimento, sobretudo quando este sofrimento é aquele do Senhor?

Olhe para Cristo para deixar-se transformar interiormente pela contemplação de Cristo na sua Paixão. É pela contemplação de Cristo na sua Paixão que chegaremos à transformação que desejamos. Esta contemplação nos transformará mais que todos os esforços que podemos fazer.

Nessa Etapa aprofundamos o que temos recebido, através de uma fé concreta na pessoa de Jesus Cristo. Diante do Cristo que sofre, saímos das nossas imaginações e fantasias, para nos colocarmos diante de um Cristo real e concreto.

Na sua contemplação contemple a liberdade de Jesus. É ele que, livremente, se aniquila, humilhando-se até a morte.

Entre silenciosamente na sua oração para deixar-se impregnar e receber o que Deus quer lhe comunicar.


PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Senhor, dai-me a graça de sentir compaixão por Ti, que sofre por causa de mim.

PALAVRA DE DEUS - Jo 18, 1-40

REVISÃO DA ORAÇÃO - Diante das cruzes do caminho, quais são as suas palavras e gestos?


13

UM CORAÇÃO ABERTO


Você continuará hoje a sua repetição da Paixão do Senhor, fazendo o que fizeram Maria, João, Pedro, Madalena, Marcos, José de Arimatéia, e todos os discípulos naquele sábado posterior à morte de Jesus. Eles voltaram muitas vezes sobre os acontecimentos dos dias anteriores.

Continue contemplando o Amor de Jesus Cristo aos homens. Ele não se preocupa consigo, ao passo que nós sofremos sempre a tentação de nos fecharmos em nós mesmos, de olharmos muito para nós quando estamos doentes, aflitos, preocupados... E, além disso, queremos ser o centro das preocupações dos outros. Olhe para o Pai, olhe para Cristo e olhe para os irmãos.

Que sua oração o ajude a penetrar mais profundamente no Mistério, descobrindo o sentido da glória de Deus manifestada na Cruz de Cristo.


PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Senhor, dai-me a graça de sentir compaixão por Ti, que sofre por causa de mim.

PALAVRA DE DEUS - Jo 19, 1-42

REVISÃO DA ORAÇÃO - Qual o fruto que você conseguiu nessa Etapa?

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