sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Revelações de Cristo a s. Brígida (séc. XIV). Textos para meditar e nos mover à conversão.


Palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo a sua esposa escolhida e muito amada declarando sua mais primorosa encarnação, condenando a violenta profanação e transgressão de nossa fé e batismo e convidando sua amada esposa a amá-lo.
Livro 1 - Capítulo 1
Eu sou o Criador do Céu e da Terra, uno na divindade com o Pai e o Espírito Santo. Eu sou aquele que falou aos profetas e aos patriarcas e o único a quem esperavam. Para cumprir seus desejos e de acordo com minha promessa, assumi a carne sem pecado e sem concupiscência entrei, assim, no corpo virginal de minha Mãe como o sol que brilha através do mais claro cristal. O sol não danifica o vidro ao entrar nele ou através dele, também desta forma, a virgindade de Minha puríssima Mãe não foi perdida quando eu assumi minha natureza humana.
E de tal maneira me fiz homem e, por isso, não deixei de ser Deus e nem me tornei menor que o Pai e o Espírito Santo na Divindade, embora estando submetido a natureza humana quando a assumi no ventre virginal de minha Mãe. Assim como a luminosidade jamais é separada do fogo, também minha divindade jamais foi separada de minha humanidade, nem mesmo na morte. Depois, desejei para meu corpo puro e sem mancha que fosse ferido, desde a planta dos pés até a cabeça, pelos pecados de todos os homens e ser colocado na Cruz. Agora, meu corpo é oferecido cada dia no altar para que as pessoas possam amar-me mais e recordar meus favores com mais freqüência.
Mas o homem esqueceu de tudo isso, ele me menosprezou e me expulsou de meu próprio reino e, no meu lugar, escolheu e honrou um ladrão infame. Quis introduzir meu reino no coração do homem e com razão e rigor eu deveria ser seu Rei e Senhor porque o criei e o redimi, mas o homem quebrou e profanou a fé e a palavra que me proferiu no Batismo; também violou e menosprezou as leis que lhe propus; ama sua própria vontade e pensamentos e a mim, menospreza. Não me alegro com isso quando vejo que tem mais estima ao demônio, que é um ladrão infame, do que a mim; a ele entregou sua fé e palavra sendo um ladrão que rouba e leva para si as almas que redimi com meu sangue e, assim, as engana com falsas promessas. Ele levou as almas, mesmo não sendo mais poderoso que eu e te afirmo, meu poder é tão maior e justo que tudo posso fazer com apenas uma palavra, é por isso que todos os santos me evocaram, não farei coisa alguma, por mínima que seja, contra a razão e a justiça.
Ele as leva porque o homem não sabe usar seu livre arbítrio, menosprezando minhas leis e consentindo às tentações, sendo assim, é bom que experimente a tirania daquele em quem colocou sua fé. Porque o demônio, criado por mim bom, foi, por seu pecado e malícia, rebaixado de sua dignidade, tornando-se um carrasco para atormentar os pecadores. É verdade que fui e ainda sou menosprezado pelos homens, entretanto, sou tão misericordioso que, qualquer um que me peça misericórdia e se humilhe, alcançará o perdão de seus pecados e o livrarei do demônio. Mas para aqueles que continuarem a me menosprezar, usarei de tal rigor e justiça que tremerão e, conseqüentemente, dirão: Ai de nós que provocamos a ira do Senhor de toda majestade!
Você, porém, filha escolhida, a quem falo com meu espírito, ama-me com todo seu coração, não com o amor com o qual ama seus filhos, nem com o que amou seus pais, e sim com um amor superior, um amor que está acima de todos e de tudo nesse mundo, porque eu, seu Senhor e Criador, quis que todos os meus membros fossem feridos por você e, se fosse preciso, o faria outra vez. Imita e segue minha humildade, pois mesmo sendo o Rei da Glória e dos Anjos, quis ser coberto com vestimentas vis para que zombassem de mim; estava nu e atado a uma coluna e não houve zombaria alguma e nem blasfêmia que meus ouvidos não pudessem ouvir. Coloque sempre minha vontade cima da sua, como fez minha Mãe e sua Senhora por toda a vida, ela sempre quis aquilo que eu quis. Se fizer isso, seu coração estará no meu e o envolverei com meu amor como o fogo que inflama e queima lenha seca.
Sua sorte será tamanha que encherei o vazio de sua alma e estarei em ti de tal maneira que lhes serão amargas todas as coisas temporais, e que todos os deleites da carne sejam, então, um veneno para você. Descansará nos braços de minha Divindade onde não há nenhum deleite da carne, pois nele há somente gozo do espírito, digo-lhe isto porque sua alma será banhada, por dentro e por fora, com essa alegria, de tal modo, que não haverá lugar para pensar e nem desejar outra coisa. Portanto, ame somente a mim e terás tudo que desejar de forma abundante. Por ventura, está escrito que faltou azeite para o sustento daquela viúva? Alguma vez o Senhor deixou de fartar a terra de água como havia prometido ao profeta? Eu sou o verdadeiro Profeta: Se acreditar em minhas palavras e fizer o que lhe mando, jamais lhe faltará azeite, gozo e alegria por toda a eternidade.
Palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo àquela que Ele escolheu por sua esposa a qual ensinou as práticas da fé verdadeira e, também, quais qualidades, virtudes e intenções a esposa deveria ter em relação a seu esposo.
Capítulo 2
Eu sou o Criador do céu, da terra, do mar e de todas as coisas que estão neles. Eu sou um com o Pai e o Espírito Santo e não sou como os deuses de pedra ou de ouro, como disseram algumas pessoas, senão Eu seria vários deuses, mas ao contrário disso, sou um Deus uno, Pai, Filho e Espírito Santo, três pessosa, um quanto à substância e natureza, que cria todas as coisas e por ninguém foi criado, imutável, onipotente e sem princípio ou fim. Eu sou aquele que nasci da Virgem, sem perder minha Divindade, uni a ela a Humanidade para que, em uma mesma pessoa, fosse verdadeiro Filho de Deus e Filho da Virgem. Eu sou o que foi crucificado, morto e sepultado, mas minha Divindade não foi afetada, mesmo quando fui morto segundo a carne e vossa humanidade que eu apenas assumi. Vivi segundo minha Divindade a qual era Deus com o Pai e o Espírito Santo.
Eu sou o mesmo que ressuscitou e subiu aos Céus e agora falo com você em espírito. Eu a escolhi e tomei por esposa para mostrar-lhe meus segredos, porque essa é minha vontade. Você também, por certo direito, tse fez minha quando, ao morrer seu marido, submeteu toda sua vontade sob minhas mãos e também ao desejar e rogar para que a instruísse como poderia ser “pobre” por mim, sendo assim, quis deixar tudo e, ao fazê-lo, fez-se minha por direito e, é claro, que correspondi a tanto amor. Por isso, Eu, Deus, a tomo para mim e, para meu próprio prazer, a recebo convenientemente por esposa, ó alma casta, me agrada, assim, sendo vós pura.
Deve, pois, a esposa, encontrar-se preparada, de maneira que, quando seu esposo quiser celebrar as bodas, ela esteja decentemente ornada e limpa. Você já está bem limpa, pois seus pensamentos estão sempre atentos a seus pecados para evitá-los. Também, através do batismo, você recebeu a purificação do pecado de Adão e em tantas outras vezes, havendo você caído no pecado, a socorri e a levantei. A esposa deve ter também, em seu peito, o sinal visível de seu esposo e esse será a memória contínua das graças que ele lhe fez. Lembre-se sempre que nobremente te criei dando-lhe alma e corpo, que amorosamente dei-lhe saúde e bens temporais, com carinho a resgatei morrendo e lhe restituí a herança que havia perdido. Deve também a esposa fazer a vontade do esposo. Qual é minha vontade se não que me ame mais do que a todas as coisas deste mundo e que não ame nada mais se não somente seu Deus e Esposo?
Criei todas as coisas por amor do homem e o fiz senhor delas e ele me paga amando-as e me desprezando. As custas do meu sangue lhe compraram a herança do Céu que havia perdido por seu pecado e, com tudo isso, o homem ainda está distante e alienado pela razão, deixando esta herança que lhe ganhei, que é um bem e uma honra eternos, por uma honra e um bem transitórios que se comparam a espuma do mar que em dado momento surge e aumenta e em outro se desfaz e se acaba no nada. E se você, esposa minha, amar-me apenas e menosprezar todas as coisas, não somente filhos e pais, mas também as honras e riquezas, darei-lhe um dom preciosíssimo e dulcíssimo que não será ouro e nem prata senão eu mesmo, pois Sou o Rei da Glória e darei-me por seu esposo e serei seu prêmio.
Se acaso você se envergonhar de ser pobre e menosprezada, coloque seus olhos em mim, que sou teu Deus e que padeci esta pobreza e repúdio antes de você; meus servos e amigos me desampararam na terra, porque na verdade eu buscava amigos para o Céu. E se por ventura temer os trabalhos e as enfermidades, considera quanto maior trabalho seria arder nos infernos. Não seria merecido, por assim dizer, quando me ofendeu? Acaso seria diferente se você tivesse praticado o mal a qualquer senhor deste mundo? Porém, eu a amo de todo o coração e não faço coisa alguma contra a justiça e, assim como me ofendeu com todos os membros do seu corpo, com todos você deverá pagar a pena de sua culpa.
Mas por ter feito um propósito de vontade de emendar-se, uso de misericórdia contigo, e por mais pequena emenda que fizer apagarei grandes castigos. Portanto, abraça de boa vontade um pouco de trabalho para que eu lhe dê um grande prêmio, pois é conveniente que a esposa padeça de trabalhos, assim como fez o Esposo, para que ela mereça gozar das graças e da paz de seu amado.
Palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo a sua esposa sobre o amor e a honra que se deve aprender a ter para com Ele, o Esposo, e também sobre o ódio ao pecado e sobre o amor ao mundo.
Capítulo 3
Eu sou seu Deus e Senhor a quem adora. Sou o que conserva e sustenta o céu e a terra sem que eles tenham alicerce ou coluna para se estruturarem. Sou aquele que, cada dia, assume a aparência de pão para ser sacrificado no altar, Deus e Homem verdadeiro, o mesmo que a escolhe e a chama. Honra meu Pai! Ama-me! Obedeça ao Espírito Santo! Tenha minha Mãe por sua Senhora! Venera a todos os meus Santos! Mantenha a verdadeira fé que lhe seja ensinada por alguém que experimentou em si mesmo o conflito ente os dois espíritos, o da falsidade e o da verdade, e que conseqüentemente venceu com minha fé. Tenha a verdadeira humildade que consiste em ter e manifestar ser quem é e de dar a Deus glória pelos bens e benefícios que possui.
Por ventura, nestes tempos miseráveis, muitos me odeiam e minhas palavras e obras são tomadas como dolorosas e vazias e, com isso, amam o demônio e o recebem de braços abertos. Não fazem coisas por mim a não ser com tristeza a amargura e também não professam meu nome. Mas amam o mundo e as coisas mundanas com tanta veemência que não se cansam de trabalhar por elas noite e dia e andam sempre atônitos pelo amor ao que é perecível. Se comparados, seus esforços soam a mim o mesmo que se alguém desse dinheiro a um inimigo para matar seu próprio filho. Isto é o que eles fazem. Assim agem estes amantes do mundo que dão uma pequenina esmola e me honram somente com seus lábios, pois pensam prosperar somente nas coisas do mundo e, deste modo, perseveram em seu orgulho e em seu pecado. Sufocam o bom espírito e nunca dão um passo em direção ao bem e à virtude.
Portanto, se me amar verdadeiramente com todo o seu coração e se não desejar nenhuma outra coisa que não seja somente a mim, eu serei um ímã que, com meu amor, atrairei você a mim como o ferro é atraido. Farei com que descanse em meu braço que é tão forte que, quando está estendido não há ninguém que consiga dobrá-lo e quando dobrado não há ninguém que consiga estendê-lo. É tão doce que não se pode comparar com nenhum deleite deste mundo.
EXPLICAÇÃO
Este foi um santo, doutor em teologia, que se chamou Mestre Matias da Suécia, canônico de Linköping, que glossou a Bíblia de maneira excelente. Sofreu tentações muito sutis do demônio, incluindo uma série de heresias contra a fé católica, todas as quais superou com a ajuda de Cristo e não pôde ser vencido pelo demônio. Isso tudo está escrito na biografia de Santa Brígida. Foi este Mestre Matias quem compôs o prólogo deste livro e que começa assim: “Stupor et mirabilia, etc”. Foi um homem santo e muito poderoso em palavras e obras. Quando a esposa de Cristo morreu na Suécia, pois até então vivia em Roma, ouviu em sua oração uma voz que dizia a seu espírito: “Feliz de você, Mestre Matias, pela coroa que foi preparada para ti no Céu. Vem agora para a sabedoria que não tem fim!” Ao longo dos escritos dessas revelações será possível ler mais sobre ele.
Palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo a sua esposa sobre como ela deveria proceder não se preocupando ou pensando nas coisas reveladas a ela vindas do mau espírito e também como reconhecer um bom e um mau espírito.
Capítulo 4
Sou seu Criador e Redentor. O que há em minhas palavras para que esteja com medo delas? Por que questiona de que espírito procede, se do bom ou do mau? Encontrou algo em minhas palavras que sua consciência a acusa e viu algo que não deveria fazer? Porventura mandei-lhe fazer algo contra a razão? E a esposa lhe respondeu: Não, certo que não, Senhor, creio que todas as vossas palavras são verdadeiras, confesso meu erro. O Espírito então lhe disse: Mandei-lhe três coisas das quais poderia reconhecer ser bom o espírito que te falava. Pedi que honrasse a seu Deus que te fez e lhe deu todas as coisas que tem e é exatamente o que sua razão te ordena fazer, que O honre acima de todas as coisas.
Mandei que conservasse uma fé firme e reta na qual consite em crer que nada é feito e nem se pode fazer sem Deus e lhe disse que usasse com moderação e equilíbrio todas as coisas porque foram feitas para que o homem se beneficiasse delas para, assim, suprir sua necessidade. Também, desse modo, pelas três coisas contrárias a elas se pode reconhecer um espírito mal. Ele a instruiria a buscar honra para si e a vangloriar com os dons da qual lhe dei, ainda, lhe persuadiria para que não tenha a fé verdadeira e que não use com moderação e temperança de seus sentidos, a induzindo, então, à impureza do seu corpo e de todas as demais coisas e, para conseguir isso, inflamaria seu coração e se mostraria com uma aparência de bem.
Por isso mandei que examinasse bem sua consciência e que a manisfestasse a homens sábios e de vida espiritual. Portanto, não duvide que quem está contigo é o espírito bom de Deus quando, tanto você quanto Ele, desejarem a mesma coisa e se inflamarem com este desejo, porque somente eu posso causar este fervor. É impossível, tanto ao demônio quanto o homem, chegar perto de você, por mais mau que seja, se eu não o permitir e se o permitir é por causa dos seus pecados ou pelos meus planos secretos; saiba que eles são criaturas minhas tanto quanto todas as outras coisas criadas boas, mas sua malícia fizeram deles maus e é por isso que sou Senhor sobre eles.
Por esta razão, acusam-me falsamente aqueles que dizem que as pessoas que me rendem grande devoção estão loucas ou possuídas. Fazem-me parecer, com isso, um homem que expõe a sua casta e fiel mulher ao adúltero. Isso é o que Eu seria se deixasse que alguém que me ame plena e retamente fosse possuído por um demônio. Mas, visto que sou fiel, nenhum demônio nunca poderá controlar a alma de nenhum de meus servos devotos. Apesar de que meus amigos, às vezes, parecem estar quase fora de sua razão, não é porque sofrem devido ao demônio nem porque me servem com fervor, mas bem se deve a algum defeito do cérebro ou a alguma outra coisa oculta, que sirva para humilhá-los. Às vezes, também pode ocorrer que o diabo receba de mim um poder sobre os corpos das boas pessoas, para um maior benefício dessas, o que obscureceria suas consciências. Todavia, nunca poderá conseguir o controle das almas daqueles que têm fé e se deleitam em mim.
As palavras muito amorosas de Cristo a sua esposa contendo a imagem maravilhosa de um nobre castelo onde há lugares para a Igreja Militante e sobre como a Igreja de Deus será agora reconstruída através das orações da Gloriosa Virgem Maria e dos Santos.
Capítulo 5
Eu sou o Criador de todas as coisas e Rei da Glória e Senhor de todos os Anjos. Eu construí para mim um nobre castelo e coloquei nele meus eleitos. Meus inimigos violaram seus fundamentos e prevaleceram contra meus amigos, tanto que instalaram armadilhas a suas medulas até que seus pés saiam. Quebram seus ossos a pedradas e os matam de fome e sede. Eu sou perseguido por eles. Meus queridos gemem e me pedem ajuda, com isso, minha justiça clama por vingança, mas minha misericórdia recai em forma de perdão”. Então, Nosso Deus disse a Corte Celeste ali presente: “O que vocês pensam sobre essas pessoas que atacaram meu castelo?”
Todos, em uma única voz, responderam: “Senhor, toda a justiça está em você e em você vemos todas as coisas. Foi-lhe dado todo o poder para julgar, ó Filho de Deus, que existe sem início ou fim, você é o Juiz deles”. E, então, ele disse: “Com razão, é verdade que vocês vêem e sabem tudo, então, pelo bem desta minha esposa, digam-me qual deve ser a justa senteça.” Eles responderam: “A justiça verdadeira é: todos aqueles que derrubaram os muros sejam castigados como ladrões; que aqueles que persistem no mal sejam castigados como invasores, que os cativos sejam libertos e os famintos saciados”.
Então, a Virgem Maria, Mãe de Deus, que até então, permanecia em silêncio disse: “Meu Senhor e Filho querido, que foi gerado em meu ventre como Deus e Homem verdadeiro. Santificou-me dignamente, eu que era um vaso de argila. Suplico que não execute esta sentença por hora, tenha misericórdia de seus inimigos, pelo menos desta vez.” O Senhor respondeu a sua Mãe: “Bendita seja tal palavra que saiu de sua boca, como um perfume muito suave, ela subiu e chegou a presença de minha Divindade. Você é, Mãe querida, a alegria dos Anjos e dos Homens e é sua Senhora e Rainha e, com suas palavras, consola minha Divindade e alegra os Santos. Tudo se deve porque, desde sua infância, sempre buscou conformar sua vontade com a minha, farei o que me pede.” Então, Jesus Cristo se volta para a Corte Celeste e lhes diz: “Por terem lutado valentemente, pelo bem de vossa caridade, me apiedarei por hora. Eu reedificarei o muro devido a vossa intercessão.”
“Salvarei e curarei os que são oprimidos pela força e os honrarei cem vezes mais pelo abuso que têm sofrido. Se os que promovem a violência pedirem por misericórdia, terão paz e misericórdia, mas aqueles que a desprezarem, sentirão minha justiça.” Depois de tudo isso, disse à Santa Brígida: “Eu te escolhi por minha esposa e a revesti com meu Espírito. Escute minhas palavras e a dos meus Santos que, todavia, vêem em mim e por mim todas as coisas e, por isso, intercedem para que você as entenda porque está nesta vida mortal e, por causa disso, não pode ver o que vêem estas almas bem-aventuradas. Mas escute tudo isso que ouviu. Aquele nobre castelo real que você viu é a Santa Igreja que edifiquei com meu sangue e dos meus Santos e, com muito amor, reuni e coloquei nela meus escolhidos e amigos. O fundamento desta Igreja é crer que eu sou um justo e misericordioso juiz, mas este fundamento foi destruído e os muros abertos por grandes fendas, porque todos dizem que sou misericordioso e quase ninguém acredita que sou juiz, que julgo justamente.
Eles me vêem como um mau juiz justamente porque tenho sido misericordioso com meu inimigos e libertado os culpados para que, então, possam aflingir mais os inocentes. Mas eles se enganam, sou tão misericordioso quanto justo, de tal maneira que não deixarei sem castigo o mínimo pecado que seja e também não deixarei sem recompensa o mínimo bem que se tenha feito. Por causa dos muros enfraquecidos e das brechas abertas neles, todos aqueles, sem temor algum, entraram em minha Igreja e me ofenderam e, com isso, afirmam que não sou um juiz justo e de tal maneira maltratam meus amigos e os cercam com armadilhas como se fossem criminosos. Para meus amigos, não há dia bom e nem consolo, todos são perseguidos como se fossem ladrões. Se falam a verdade que aprenderam de mim, são reprovados e dizem que tais ensinamentos são enganadores e mentirosos; desejam falar e ouvir o que é justo e reto, mas não há ninguém a quem ouvem e seguem.
E o pior é que, sendo o Senhor absoluto e Criador de todas as coisas, sou blasfemado quando dizem: ‘Não sabemos se Deus verdadeiramente existe e se existir, não nos importamos com nada.’ Eles jogam minha bandeira no chão e a pisam dizendo: ‘Por que e para que esse tal Jesus Cristo sofreu e morreu? Que proveito tiramos disso? Dê-nos o que desejamos e isso nos basta, não queremos esse seu reino celestial, fique com ele e o goze longe de nós. Queremos estar nas almas desses (que estão na Igreja)’. Depois disso ainda dizem: ‘Preferimos morrer ao deixar de fazer nossa vontade.’ Percebes, querida esposa, quais são os pecadores. Eu os fiz com apenas uma palavra e posso, com uma outra, destruí-los juntamente com sua soberba.
Mas, devido aos apelos de minha Mãe e de todos os Santos, a eles concedo e os convido à paz se assim a aceitarem e os perdoarei, mas se não, os castigarei com rigor na presença dos Anjos e dos Homens os tratando como ladrões públicos e todos dirão que é justo o castigo que lhes darei. E, assim, como aos condenados à forca que depois de mortos são colocados pelos caminhos para que os corvos venham comê-los, também esses serão devorados pelos demônios, mas, ao contrário dos enforcados, não serão consumidos.
E, como estão de pé e presos a seu castigo, verão que ali não haverá descanso e nem sossego e estarão cercados de dor e de angústia. Um rio de fogo entrará por suas bocas e se dará neles um vazio e a cada novo dia maiores castigos virão. Mas meus amados amigos serão salvos e se consolarão com as palavras que saem de meus lábios e, assim, verão minha justiça e misericórdia. Os vestirei com as armas fortes do meu amor e caridade de tal maneira que serão vigorosos e prostrarão ao chão os blasfemadores e os maus como se fossem um monte de esterco e esses ficarão envergonhados por experimentarem minha justiça porque abusaram de minha paciência.
Palavras de Cristo a sua esposa sobre como seu espírito não pode habitar no mal, as diferenças entre o mal e o bem e o envio do bem munido com armas espirituais para a guerra contra o mundo.
Capítulo 6
Meus inimigos são como bestas selvagens que nunca se fartam e nem se aquietam. Seus corações encontram-se tão vazios de toda caridade que jamais entra neles um pensamento que se refira a minha Paixão e nunca deram graças uma única vez dizendo de todo coração: ‘Senhor, te amamos porque nos redimistes com vossa Paixão e morte.’ Como pode meu Espírito estar com essas tais pessoas que não têm nenhum amor divino para comigo, pessoas que praticam a traição com outras com o único intento de conseguirem o que querem? Têm um coração cheio de vermes vis, isto é, de desejos mundanos. O demônio depositou seu esterco na boca deles porque não têm nenhum apreço por minhas palavras. E, então, com minha serra, eu os cortarei de entre meus amigos. Não há forma pior de morrer do que sob a serra. Do mesmo modo, não há punição em que eles não tomarão parte: serão serrados em dois pelo demônio e separados de mim. Eles se tornarão tão odiosos e, juntamente com eles, seus adeptos serão cortados e lançados ao longe.
Portanto, envio notícias dos enganos do demônio a meus amigos, pois são valentes soldados que lutam contra ele, mesmo sendo atormetados em sua carne, se abstêm de pecar, estes sim são meus soldados. Suas lanças serão as palavras que saem de meus lábios, suas espadas serão a fé e em seus peitos estarão as couraças da caridade que se compara com o amor que cada um tem por mim e, ainda, trazem ao lado os escudos da paciência para sofrerem valorosamente toda a contrariedade. Assim sendo, eu guardo estes meus queridos como ouro puríssimo em um precioso vaso.
Quero, então, que saiam agora e vivam o testemunho da minha verdade. Eu, segundo o que tenho ordenado e decretado, não poderia entrar com minha humanidade na majestade de minha glória sem haver passado pelos trabalhos e sofrimentos das tribulações. Como, pois, será possível que eles possam entrar então? Se seu Senhor sofreu açoites, seria muito para eles sofrerem açoites de palavras? Não tenham medo de nada, pois eu nunca os desampararei; assim como não é possível que o demônio toque ou divida o coração de Deus, do mesmo modo, não será possível que o mal vos separe de mim e, se alguma vez os deixo sofrer, é para sua maior glória, pois vocês são como ouro puríssimo que são purificados no fogo da tribulação.
Palavras da Gloriosa Virgem Maria a sua Filha sobre a forma de se vestir e o tipo de roupas e ornamentos com que a Filha deveria ser adornada e vestida.
Capítulo 7
Eu sou Maria, aquela que deu à luz o Filho de Deus, que é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. Eu sou a Rainha dos Anjos. Meu Filho ama você com todo o seu coração. Assim, ame-o também! Minha Filha, você deve ser adornada com as mais belas vestes e eu mostrarei como e que tipo de roupas deve usar. Como antes, tinha vestes íntimas e outras sobrepostas como os sapatos, um manto e um broche sobre seu peito, mas agora suas roupas devem ser espirituais. Suas vestes íntimas devem ser a sua contrição, assim como essa peça de seu vestuário está bem colada ao corpo, a contrição deve estar bem junto a você, e como é a primeira a se colocar, assim também a contrição e a confissão são as primeiras formas de conversão para Deus.
Através disso, a mente, que uma vez encontrou gozo no pecado, é purificada e a carne impura passa a ser controlada. Já os sapatos são duas disposições: a intenção de emendar-se em relação as trangressões passadas e o firme propósito de fazer o bem conservando-se longe do mal. Depois disso, as vestes que cobrem a sua nudez é a esperança em Deus. Igual a uma blusa que tem duas mangas, assim também são a veste espiritual, as mangas de justiça e de misericórdia, as quais estão ligadas a sua esperança. Desta forma, você esperará na misericórdia de Deus porque não negligenciou sua justiça.
Pense em sua justiça e em seu juízo de forma a não esquecer de sua misericórdia, porque Ele não aplica sua justiça sem misericórdia e nem a misericórdia sem justiça. O manto é a fé que, da mesma forma que cobre tudo e tudo é envolto por ele, na natureza humana pode-se entender tudo e, assim, atingir tudo através da fé. Esse manto deve ser ornado com as marcas do amor do seu Esposo, a marca de como Ele a criou, de como Ele a redimiu, de como Ele a alimentou e a trouxe para o âmago de seu Espírito, abrindo, assim, seus olhos espirituais.
O broche é o sinete de sua Paixão e, afixado firmemente em seu peito, lhe traz ao pensamento os atos de escárnio e flagelo que sofreu, a cruel forma como Ele foi levantado vivo na cruz, ensangüentado e pregado a ela, o como seu corpo todo padeceu mortalmente pela aguda dor da Paixão e suas palavras ao encomendar seu espírito nas mãos de seu Pai. Esse broche precisa sempre estar sobre seu peito! Sobre sua cabeça, permita que haja uma coroa, a coroa da castidade que a ajudará a suportar os açoites que, de longe, podem manchá-la. Seja modesta e digna! Não pense em nada, deseja apenas seu Deus e Criador. Quando O tem, tem tudo. Adornada desta forma, espere por seu Esposo.
As Palavras da Rainha do Céu a sua amada filha ensinando-a como lhe é necessário amar e louvar seu Filho juntamente com sua Mãe.
Capítulo 8
Eu sou a Rainha do Céu. Estava preocupada sobre como você deveria louvar-me. Saiba, com certeza, que todo louvor a meu Filho é um louvor a mim e aqueles que o desonram, desonram a mim também, pois sendo meu amor por Ele e seu amor por mim algo intenso e ardente, nossos corações tornaram-se um único coração. De forma tão sublime o honrei mesmo sendo um vaso de barro, Ele elevou-me acima de todos os Anjos. Por esta razão, deverias louvar-me assim: “Bendito seja, Senhor e Criador de todos as coisas, que consentiu e, então, nasceu da Virgem Maria.
Bendito seja, Senhor, que desejou ser gestado nesse ventre imaculado sem ser um peso a ele e assim aceitou receber sua carne pura e sem mancha. Bendito seja, Senhor, porque veio à Virgem dando a Ela gozo em sua alma e em todo o seu corpo e, com o mesmo gozo, nasceu dela sem pecado ou corrupção alguma. Bendito seja, Senhor, que depois de sua Ascensão ao Céu, alegrou a Virgem Maria, sua Mãe, com frequentes consolações e a visitou com vosso divino conforto. Bendito seja, Senhor, porque assumiu o corpo e a alma da Virgem Maria, sua Mãe, e no Céu a honrou colocando-a próxima de sua Divindade acima de todos os Anjos. Tenha, Senhor, misericórdia de mim por causa das orações e intercessões de sua Divina Mãe!”
As palavras da Rainha do Céu a sua amada filha de acordo com o lindo amor que o Filho tem por sua Virgem Mãe falando sobre como a Mãe de Cristo foi concebida em um casto matrimônio e santificada no ventre, como ela foi recebida de corpo e alma no Céu, sobre o poder de seu nome e, também, sobre os Anjos designados para os homens bons ou maus.
Capítulo 9
Sou a Rainha do Céu. Ame meu Filho porque ele é merecedor e, se vier a ele, terá quantas graças puder desejar. Ele é digno de ser amado e desejado e, quando for a Ele, o terá de forma plena, pois Ele é bom e amável. Você deve amá-lo porque é virtuosíssimo e, no convívio com Ele receberá todas as virtudes. Filha, quero dizer-lhe quão lindo é o amor de meu Filho pelo meu santo corpo e alma e quanto honrou o meu nome. Ele, meu próprio Filho, amou-me primeiro, porque é meu Criador. Ele uniu-se ao casto matrimônio de meus pais, que até então não havia outro que se igualasse ao deles. Eles jamais desejaram qualquer união íntima se não estivesse de acordo com a Lei e se não fosse com a finalidade de reprodução.
Quando o Anjo lhes anunciou que haviam de dar à luz a Virgem de quem do Salvador do mundo deveria vir, preferiram a morte do que permitirem-se a algum desejo do amor carnal em si porque todo o prazer sexual estava morto neles, mas entenderam que o que sentiam era amor e isso era agradável a Deus. Depois que meu corpo havia se formado no ventre de minha mãe, Deus infundiu nele a alma criada por sua Divindade e, no mesmo momento, fui santificada juntamente com o corpo e, assim, os Anjos o velavam e o guardavam dia e noite. Quando minha alma foi santificada e unida ao corpo, minha mãe recebeu tamanho gozo e alegria que é impossível descrevê-lo. Depois de terminado o curso de minha vida, meu Filho recebeu, primeiramente, minha alma que era a senhora do corpo, e a enalteceu mais que todas as criaturas colocando-a junto a sua Divindade e depois o fez com meu corpo, de tal maneira, que não existe corpo algum tão perto de Deus como o meu.
Tem nisso o quanto meu querido Filho amou minha alma e meu corpo. Existem alguns que, juntamente com o espírito maligno, negam minha Ascensão ao Céu de corpo e alma, e há outros ainda que dizem tal coisa porque simplesmente ignoram. Mas a verdade certíssima é que meu corpo e alma foram levados ao trono da Divindade. Disse tudo isso para que saiba quanto meu Filho honrou meu nome, que é Maria, como está escrito no Evangelho, por isso atenda ao que lhe digo. Quando os Anjos ouvem este meu nome, Maria, se alegram e louvam a Deus, que, em mim e por mim, tal maravilha pôde ser realizada e como podem ver, a humanidade de meu Filho é glorificada com sua Divindade. Os que estão no purgatório recebem tanto gozo, refrigério e alegria com meu nome, assim como a um doente quando lhe dão boas esperanças em relação a sua saúde lhe dizendo coisas que o alegram e animam.
Os Anjos bons, ao ouvir meu nome, se aproximam mais dos justos os quais protejem e velam e se alegram pelos benefícios espirituais que isso traz, porque todos os homens têm seu Anjo bom que lhes guarda e um outro anjo mau para que lhe prove e lhe exercite (nas virtudes). Os Anjos bons não se afastam de Deus na prática deste encargo, pelo contrário, estão constantemente em sua presença e, deste modo, inflamam e guiam as almas para fazerem o bem. Todos os demônios temem meu nome e ao ouví-lo da boca de alguma alma desejam-na, todavia a têm em suas unhas do mesmo modo que uma ave de rapina cevada em sua presa, com bico e unhas a destrói, ao ouvir algum ruído a deixa e foge e, passado o ruído, volta à sua presa; assim, os demônios, espantados com o som do meu nome, deixam a alma que oprimem, mas não se emendam, logo voltam a ela.
Tampouco, não existe pessoa, por mais fria que possa ser em relação ao amor de Deus, a menos que seja condenada, que se envocar meu nome com a intenção de não voltar a cair nos pecados passados, não aparte logo o demônio de si para nunca mais voltar, ao menos que consinta o pecado mortal novamente. E se bem é verdade que, algumas vezes, se dá lugar ao que o inquiete, não é para que a possua se não para maior glória do homem.
Palavras da Virgem Maria a sua Filha oferecendo-lhe um útil ensinamento sobre como ela deveria viver e descrever detalhes sobre a Paixão de Cristo.
Capítulo 10
Sou a Rainha do Céu e a Mãe de Deus. Quero ensiná-la o adorno e a compostura que deve ter e a jóia que deve levar em seu peito, quero mostrar a você outras coisas que fiz, desde que conheci Deus, sendo cuidadosa e solícita em relação a minha salvação e a guarda de sua Lei. Depois que tomei consciência de que Deus era meu Criador e Juiz de todas as minhas obras e ações, amei-o cordialmente e a cada momento pensava Nele e temia ofendê-lo em minhas ações e palavras.
Depois, tendo ouvido que Deus havia dado sua Lei e ordens a seu povo e feito muitos milagres através deles, propus-me firmemente a não amar outra coisa que somente Ele e todas as coisas do mundo me eram amargas como o fel. Depois disso, quando ouvi que o mesmo Deus havia de redimir o mundo e que havia de nascer de uma virgem, amei-o de tal maneira que não pensava em nada se não em Deus e não queria outra coisa senão Ele. Busquei o recolhimento me afastando, dentro do possível, da comunicação e presença com meus pais e pessoas próximas e tudo quanto tinha dei aos pobres guardando para mim somente o necessário para sustentar o corpo e um modesto vestido.
Não havia nada que me agradasse senão somente Deus. Sempre desejei viver até que esse soberano Senhor nascesse e, talvez, por mérito, me tornasse criada e serva da Mãe de Deus. Fiz votos de guardar minha virgindade com a condição de que isso fosse a vontade de Deus, e de não possuir nada neste mundo, mas se Deus quisesse outra coisa para mim, não faria a minha, mas a sua santa vontade, porque acreditava que ele poderia tudo e não queria senão o que para mim fosse mais útil e proveitoso. Deste modo, entreguei-lhe toda minha vontade. Chegado o tempo em que, segundo a Lei, as virgens eram apresentadas no Templo do Senhor, fui eu entre elas, para obedecer a meus pais e pensava, em minha alma, que para Deus não havia nada impossível e que o Senhor sabia bem meu desejo que era somente possuí-lo e que, assim, poderia guardar minha virgindade se isso lhe agradasse, mas se não, que faria o que mais lhe agradasse.
Acolhi todas as coisas que nos ensinavam no Templo e, de volta para casa, me inflamei em um amor maior a Deus que, a cada dia aumentava, e assim, novas chamas e desejos desse amor por Ele surgiam em minha alma. Por isso me afastei de todos e ficava sozinha muitos dias e noites com receio de que minha boca falasse ou meus ouvidos ouvissem alguma coisa que fosse contra meu Deus e que meus olhos não vissem coisas em que se deleitassem e, até mesmo no silêncio, tive medo e aflição se acaso calasse o que deveria dizer. Padecendo destas perturbações a sós em meu coração, pus toda minha esperança em Deus que me fazia refletir e considerar, em muitos momentos, seu grande poder, os Anjos e todas as criaturas que lhe servem, sua glória tão inefável, eterna e sem fim.
Maravilhando-me de tudo isso, vi três coisas admiravéis: uma estrela, mas não como as que resplandecem no céu; uma luz, não como as que iluminam o mundo; senti um odor, mas não como os das plantas ou dos demais perfumes da terra, era mais suave, tanto que não se pode narrar ou descrever e do qual fui toda envolvida e, assim, me extasiava em gozo. Em seguida, ouvi uma voz que não parecia de lábios humanos e ao chegar a meus ouvidos fiquei temerosa acreditando que fosse alguma ilusão, nisso me apareceu um Anjo de Deus, sua aparência era de um homem muito belo, mas não parecia ter carne mortal e assim me disse: “Deus a salve, você que é cheia de graça!”
Maravilhada ao ouvir tais palavras, pus-me a pensar o que poderiam significar e porque o Anjo proferiu semelhante saudação. Conhecia-me e acreditava não ser digna, não só para uma coisa como essa como para qualquer outra coisa boa, mas sempre com a fé viva de que Deus podia fazer em mim o que quisesse e que nada lhe era impossível. Então, em seu segundo dizer, proclamou: “O que nascerá de você é Santo e será chamado Filho de Deus, e assim será de acordo com seu agrado”. Todavia, não me achava digna de tamanha graça e, assim, não perguntei ao Anjo por que e nem quando se daria isso, mas sim como haveria de acontecer visto que era indigna de ser a Mãe de Deus e não conhecendo homem algum. O Anjo respondeu-me desta forma: “A Deus nada é impossível e Ele agirá de acordo com sua Santa Vontade”.
Ao ouvir estas palavras, tive um fortíssimo desejo de ser a Mãe de Deus e, assim, minha alma plenamente tomada pelo amor de Deus, respondeu ao Anjo: Vedes-me aqui, Senhor, faça-se em mim a Vossa Vontade. E no mesmo instante em que pronunciei estas palavras concebi em minhas entranhas, com extraordinário gozo e alegria de alma e corpo, meu Filho Santíssimo. Todo o tempo em que O tive em meu ventre, vivi sem incômodos ou pesares e como sabia que era Onipotente aquele quem trazia em meu seio, humilhava-me em todas as coisas. Quando, finalmente, dei-lhe à luz, luz ele que seria a do mundo, não senti dor nem pesar algum, a maneira que o concebi foi tão sublime e com tanta alegria de alma e corpo que, com o excessivo gozo pelo qual fui tomada, não sentia meus pés na terra que pisava.
Com minha alma saltando de inefável júbilo, veio ao mundo meu filho que não deixou lesão ou dano em minha virgindade. Ao vê-lo e ao poder contemplar sua beleza, minha alma se inundou de alegria mesmo sabendo que era indigna de tal Filho. Porém, quando fitava em suas mãos e pés o lugar onde os cravos deveriam entrar, de acordo com o que haviam dito os profetas, meus olhos se enchiam de lágrimas e meu coração quase se partia de tristeza. E quando meu Filho via meus olhos cheios de lágrimas, se entristecia de morte, mas, em seguida, tornava a considerar o poder de sua Divindade consolando-me ao saber que Ele o queria e que convinha assim. Deste modo, sujeitei minha vontade a sua e sempre estava minha alegria mesclada à dor. Chegada a hora da Paixão de meu Filho, seu inimigos o prenderam dando-lhe golpes em seu pescoço e em seu rosto e, cuspindo nele, o escarneciam. Além de o despirem, puseram suas mãos em uma coluna atando-as sem misericórdia e, assim, se encontrando com esta sorte, nu por completo, padeceu a vergonha de sua nudez.
Diante de seus amigos, seus inimigos o cercaram e começaram a açoitar seu puríssimo e santíssimo corpo. Ao primeiro açoite, eu, que em espírito era a que mais estava perto Dele, caí por terra como morta e quando retornei a mim, vi seu corpo açoitado e ferido podendo ver os ossos de suas costas por entre as feridas, e, todavia, era mais cruel quando o açoitavam com uma corda, pois estes açoites arrancavam pedaços de sua carne deixando-a sulcada como uma terra arada. Quando meu Filho estava entregue a esta sorte, todo banhado de sangue sem haver em todo seu corpo parte sã nem onde se pudesse dar um açoite mais, um homem chegou até os carrascos e, com nojo, lhes disse: “Querem matar este homem antes que ele seja julgado?” E, então, cortou as cordas que prendiam Jesus. Com as mãos livres, meu Filho se vestiu como pôde e vi o lugar onde estavam seus pés, todo cheio de sangue, foi deixando suas pegadas ensangüentadas, acompanhei todos os seu passos, porque ao andar deixava a terra empapada com seu sangue precioso.
Não lhe deram espaço para que se vestisse e, com grande pressa e empurrões, o levaram como um ladrão, com grande dificuldade Ele tentava limpar o sangue que tinha nos olhos. Depois de haverem-no condenado, puseram sobre seus ombros a cruz e, tendo-a levado um pouco, tomaram um outro para que o ajudasse. Enquanto meu Filho caminhava até o lugar onde havia de morrer, recebia golpes no pescoço e outros na face e eram golpes dados com tanta força e veemência que, assim, eu podia ouvir claramente os sons dos açoites. Ao chegar junto com Ele ao lugar de sua Paixão, vi todos os instrumentos com que haviam de dar-lhe a morte.
Assim meu Filho esteve ali, desnudou-se ele mesmo de suas vestes enquanto seus carrascos diziam: “Estas roupas são nossas e não tornará a colocá-las porque está condenado à morte”. Estando Ele completamente nu, recebeu de alguém que se encontrava por ali, um pano para que pudesse cobrir parte de seu corpo exposto, o qual fez com muita alegria. Depois, os cruéis sacerdotes lhe agarraram e o colocaram na cruz cravando a mão direita no buraco pelo qual fora feito e atravessando a mão Dele pela parte em que os ossos estão mais unidos; depois, atando cordas ao pulso da outra mão, esticaram seu braço com violência e pregaram da mesma maneira. Logo, também pregaram o pé direito e, sobre ele, o esquerdo com os cravos que, de tal modo, todos os seus nervos e veias se estenderam e rasgaram. Puseram a coroa de espinhos em sua santa cabeça e apertaram-na, de tal forma, que com o sangue que saía, seus olhos se encheram, seus ouvidos se obstruíram e toda sua barba foi afetada com o mesmo sangue que por ela corria.
Quando meu Filho, que se achava dessa maneira, cheio de sangue e cravado na cruz, compadecendo-se de mim que estava chorando junto a Ele, fitou os olhos cheios de sangue em João, meu sobrinho, e pediu-lhe que cuidasse de mim. Neste momento ouvi uns que diziam que meu Filho era ladrão, ouvi outros ainda dizendo que era mentiroso e outros diziam que não havia outro homem mais digno de morte do que Ele e, com isso, minha dor se renovava. Mas, como lhe havia dito, ao primeiro golpe que deram no cravo que o pregaram, caí como morta, minha visão escureceu e meus pés tremiam e, por causa de tanta dor que sentia, não pude vê-lo até que terminaram de pregá-lo. Pus-me de pé e vi meu Filho pendurado na cruz como se fosse um miserável e eu, tomada por tal agonia, apenas podia ficar em pé e mais nada. Quando meu Filho me viu com seus amigos chorando inconsolavelmente, clamou por seu Pai com voz chorosa e alta dizendo: “Pai, por que me abandonaste?”
Era como se dissesse: Não há quem tenha misericórdia de mim senão vós, meu Pai. Então, se puseram os olhos meio mortos, as bochechas afundadas na face e o semblante fúnebre, a boca aberta e a língua cheia de sangue, a barriga estava grudada nas costas como se no meio não tivesse entranhas. Todo seu corpo estava roxo e debilitado pelo sangue que havia derramado; seus pés e mãos abertos e estendidos se adaptavam a forma da cruz e eu podia ver seu cabelo e barba tomados pelo sangue. E, ainda assima, estando seu corpo tão maltratado e ferido, somente seu coração se mantinha vigoroso porque tinha uma excelente e robusta natureza, visto que de minha carne tomou um corpo muito puro e perfeitamente forte. Tinha uma pele tão terna e delicada que, por menor que fosse o golpe que recebesse, no lugar saía sangue, e este sangue era tão delicado que se podia vê-lo por sob sua pele como por um cristal.
E como meu Filho era de tão forte constituição fisiológica e de natureza, lutava a vida com a morte em seu dilacerado corpo, pois a dor de seus membros e nervos destroçados subia a seu robusto e incorrupto coração e o maltratava com indescritível dor e tormento e, em outras vezes, a dor de seu coração entrava por entre os membros dilacerados, com isso, se prolongava sua amarga morte. Tomado por tamanhas dores que não cessavam, viu chorosos seus amigos, os quais preferiram padecer aquela pena em si mediante seu auxílio e, até arder para sempre no inferno, do que vê-lo padecer de tal maneira.
A Paixão de meu Filho era a causa da dor de seus amigos e excedeu a toda a amargura e tribulação que sofreu tanto no corpo como no coração porque os amava muito ternamente. Então, com a demasiada aflição de seu corpo, clamou ao Pai de parte de sua humanidade dizendo: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”. Quando eu, sua afligidíssima Mãe, ouvi estas palavras, tremeram todos os meus membros com amarga dor que atingiu fundo meu coração já doloroso e, quantas vezes eu pensava nestas palavras, soava como de novo em meus ouvidos. Chegando a hora de sua morte, seu coração despedaçava-se por causa da violência das dores, todos os seu membros tremiam, a cabeça levantando-se um pouco, tornava a cair, a boca estava aberta e sua língua banhada toda em sangue. Suas mãos se fecharam de forma a ficar contraída, pois nela havia os cravos e, assim, seus pés sustentavam o peso de seu corpo. Seus dedos e braços se estendiam de certo modo e as costas faziam grande força na cruz. Chegando Ele a esse estado, disseram-me: “Maria, seu Filho já está morto”.
E outros me diziam: “Morreu, mas ele ressuscitará”. Depois que todos já tinham se despedido dele, veio um que cravou uma lança no lado de meu Filho com tanto vigor que quase saiu pelo lado oposto e ao tirar a lança, toda ela estava embanhada de sangue. Parecia-me, então, que meu coração havia sido atravessado, assim como havia visto o que acabara de ser feito em meu caríssimo Filho. Desceram-no da cruz e o recebi em meus braços, sua aparência era senão de um leproso cadavérico; porque os olhos estavam já mortos e repletos de sangue, a boca fria como a neve, a barba enrizada, a face contraída, as mãos e os braços tão deslocados, que não se podia segurar e, assim, colocaram em cima de meu ventre.
Da maneira em que esteve na cruz, eu o tive em meus braços como um homem que recebera tormento em todo seu corpo. Envolveram-no em um lençol limpo e eu o sequei, com minhas roupas de linho, suas feridas, limpando suas chagas e fechando-lhe os olhos e a boca que em sua morte permaneceram abertos. E por último, O colocaram no sepúlcro. Ó! Assim como haviam colocado ali meu Filho, também eu fora enterrada viva com Ele, e se assim fosse sua vontade, literalmente o teria feito! Terminado tudo isso, veio aquele bondoso João e me condiziu para casa. Vê aqui, filha minha, quanto padeceu por você meu Filho?
Palavras de Cristo a sua esposa sobre como Ele mesmo se entregou, por própria e livre vontade, a seus inimigos para ser crucificado e sobre como controlar o corpo de movimentos ilícitos considerando sua paixão.
Capítulo 11
O Filho de Deus disse a sua esposa: “Eu sou criador do Céu e da Terra, e é meu verdadeiro corpo que se consagra no altar. Ama-me de todo coração, pois eu lhe tenho amado tanto que com prazer me entreguei por você a meus inimigos por própria e livre vontade e minha Mãe e amigos entregaram-se juntos a uma amarguíssima dor e pranto. Quando vi a lança, os cravos e os açoites e os demais instrumentos de minha Paixão, ainda assim me coloquei a sofrer com alegria. Quando minha cabeça sangrava por todas as partes desde a coroação de espinhos, assim, então, meus inimigos se apoderaram de meu coração, preferiria que o fizessem e o despedaçassem ao ter que perdê-la. Portanto, você seria muito ingrata se, depois de tanta entrega, não me retribuísse com grande amor. Se minha cabeça foi perfurada e se inclinou por você na cruz, também sua cabeça deveria inclinar-se à humildade. Visto que meus olhos estavam ensangüentados e cheios de lágrimas, assim seus olhos devem apartar-se de todo e qualquer deleite carnal.
E, da mesma forma que meus ouvidos cheios de sangue ouviram palavras injuriosas, assim afaste os seus de ouvir mentiras e futilidades. Porque minha boca foi forçada a beber vinagre, a sua estará fechada para o mal e aberta para o bem. Minhas mãos foram estendidas e atravessadas com os cravos, por isso suas obras, que são representadas pelas mãos, devem estender-se aos pobres e a cumprir meus mandamentos. Teus pés, isto é, os afetos com que você deve vir a mim, devem ser crucificados afastando-se de todos os deleites mundanos para que, assim, como eu padeci em todos os meus membros, de igual sorte, todos os seus se ocupem do meu serviço, porque dando-lhe mais graças que aos outros, quero que me sirva mais que a eles”.
Sobre como um Anjo reza pela esposa e como Cristo pergunta ao Anjo o que é que ele pede para a esposa e o que é bom para ela.
Capítulo 12
Um Santo Anjo, o guardião da esposa, apareceu rezando a Cristo por ela. O Senhor respondeu a sua oração e lhe disse: “Uma pessoa que quer rezar para uma outra deve pedir por sua salvação. Você é como fogo que jamais é extinto e, sem cessar, arde juntamente com meu amor. Você pode ver e conhecer todas as coisas quando me vê. Não desejas nada mais do somente aquilo que eu desejo. Então me diga, o que é bom a essa minha nova esposa?” Ele respondeu: “Senhor, conhecer todas as coisas”. O Senhor disse a ele então: “Todas as coisas, qualquer que tenha sido feita ou existirá, existe eternamente em mim.
Eu conheço e sei profundamente todas as coisas no Céu e na Terra e isso não muda nada em mim, mas, afim de que minha esposa possa reconhecer meu desejo, diga-me o que é bom para ela agora, enquanto ela está ouvindo”. E o Anjo disse: “Ela tem um coração grande e vaidoso, por esta razão, precisa penitenciar-se para tornar-se dócil”. Então o Senhor respondeu: “Qual é seu pedido para ela, meu amigo?” O Anjo disse: “Senhor, eu peço que a conceda misericórdia juntamente com a penitência”. E o Senhor disse: “Por este motivo, farei o que me pede, pois é algo que condiz com minha vontade, pois jamais realizo minha justiça sem misericórdia. Esse é o motivo, para que essa minha esposa deva amar-me de todo seu coração”.
Sobre como um inimigo de Deus tinha três demônios dentro de si e sobre a sentença que Cristo lhe aplicou.
Capítulo 13
Meu inimigo tem três demônios dentro de si. O primeiro reside em seus genitais, o segundo em seu coração, o terceiro em sua boca. O primeiro é como um marinheiro que permite que a água entre pela base de um barco e, pelo aumento gradativo, o barco é tomado pela inundação até afundar. O barco representa o corpo dele que foi atacado pelas tentações dos demônios e por sua própria luxúria como se fossem tormentas. A luxúria entrou primeiro pela base, isto é, com o deleite, ele foi tomado pelos maus pensamentos. Ao não resistir pela penitência que é o não tampar as fendas com a abstinência, a água da luxúria invadiu dia a dia o seu consentimento.
O barco sendo, então, repleto e tomado com a concupiscência em seu interior, foi inundado e afundado pela luxúria e, assim, foi incapaz de alcançar o porto da salvação. O segundo demônio se coloca no coração dele, como um verme que se encontra em uma maçã que primeiro se alimenta do miolo e depois de deixar seu excremento lá, passa a circular por todo o interior da fruta até ela ruir por inteiro e é isso que o demônio faz. Primeiro ele destrói a vontade e os bons desejos da pessoa, que são como a casca onde toda força e bondade da mente são encontradas, e, uma vez que o coração foi esvaziado desses bens, ele coloca no lugar as afeições e os pensamentos mundanos para os quais a pessoa, de forma particular, tenha maior inclinação. Ele impele o corpo a praticar tais prazeres egoístas e, por esta razão, a coragem e o entendimento do homem diminuem e sua vida torna-se tediosa. Ele é, de fato, uma maçã sem interior, ou seja, um homem sem coração, visto que entrou em minha Igreja assim, vazio, porque não possui caridade nenhuma.
O terceiro demônio é como um arqueiro que, olhando tudo a sua volta, através de sua mira, atira sem prudência. Como pode o demônio não estar no interior de um homem que sempre se inclui a suas conversas? Aquele que é mais amado é mais freqüentemente mencionado. As ásperas palavras pelas quais ele fere outras pessoas são como tiros de flecha através das miras apontadas tantas vezes quanto o número de vezes que ele menciona o demônio ou tantas vezes quanto suas palavras atingem pessoas inocentes e escandalizam pessoas simples. Eu que sou a verdade confio em minha verdade e, nesta certeza, eu o condenarei como uma prostituta ao fogo e ao enxofre, como um insidioso traidor que terá seus lábios devassos mutilados, como qualquer escarnecedor do Senhor terá a desonra eterna. De qualquer modo, se sua alma e corpo ainda estiverem unidos, minha misericórdia está aberta a ele. O que quero dele é que responda aos divinos serviços freqüentemente, não para ficar com medo de alguma reprovação aos desejos impuros, mas sim que tenha dignidade e jamais volte a ter este sinistro nome em seus lábios.
EXPLICAÇÃO
Este homem, um abade da ordem cisterciense, enterrou uma pessoa que fora excomungada. Quando estava rezando a oração correspondente sobre ele, a Senhora Brígida, em uma visão espiritual, escutou isso: “Ele usou o seu poder e o enterrou. Pode estar segura de que o próximo enterro depois deste será o seu, pois pecou contra o Pai, que nos disse para não mostrarmos imparcialidade nem honrarmos injustamente os ricos. Por um favor próprio pereceu novamente, pois este homem honrou uma pessoa indigna e o exaltou entre os dignos, coisa que não deveria ter feito. Ele também pecou contra meu Espírito, que é a comunhão e a comunidade dos justos, ao enterrar um homem injusto como sendo justo. Pecou contra mim, também, Eu, o Filho, porque eu disse: ‘Aquele que me recusar, será recusado por mim.’ Este homem honrou e exaltou alguém que minha Igreja e meu vigário haviam repudiado”. O abade se arrependeu ao tomar consciência destas palavras e morreu quatro dias depois.
Palavras de Cristo a sua esposa sobre o modo e respeito com que ela deve se manter na oração e sobre três classes de pessoas que servem a Deus neste mundo.
Capítulo 14
Sou teu Deus, aquele que foi crucificado, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem em uma única pessoa, e sou aquele que, a cada dia, está nas mãos dos sacerdotes. Quantas vezes me fizerem orações, sempre acabarão dizendo que se faça minha vontade e não a sua, porque quando roga pelos condenados, não lhe ouço, nem quando você pede o que é contra a sua salvação. E assim, é conveniente que submeta sua vontade a minha, porque sei e alcanço todas as coisas e darei a você o que a convém. Há muitos que fazem orações, mas não com reta intenção, e assim não merecem ser ouvidos. Há três tipos diferentes de pessoas que me servem. Os primeiros não crêem que sou Deus doador de todas as coisas e onipotente e me servem porque lhes dou bens e honra, mas não apreciam as coisas do Céu, as trocam justamente por ter aquilo que desejam neste mundo e por isso perderiam com gosto o Paraíso.
A estes tais, tudo lhe acontece próspero no mundo de acordo com o que desejam e, desta maneira, perdem os bens eternos, dou-lhes em bens temporais todo bem que fazem por mim, pagando-lhes de forma justa pelo que fizeram. O segundo tipo são aqueles que acreditam que sou Onipotente e Juiz rigoroso e me servem por puro medo da pena eterna, mas não por amor à virtude e, se não fosse o temor que têm, esses não me serviriam. O terceiro tipo são pessoas que crêem que sou Criador de todas as coisas e verdadeiro Deus, justo e misericordioso e assim me servem, não por medo da pena eterna, mas por amor e, prefeririam passar e sofrer penas infinitas em vez de ofender-me uma só vez, se assim, lhes for possível.
Estes merecem ser ouvidos em suas orações, porque sempre dispõem sua vontade com a minha. Os primeiros têm um castigo eterno e não verão meu rosto, já os segundos, todavia, não terão tão grande castigo e não verão minha face se não mudarem seus corações por um que sinta apenas puro amor a mim e, o conseguirão fazer somente pela prática da penitência.
Palavras de Cristo à esposa descrevendo-se como um grande Rei e também sobre dois tesouros que simbolizam o amor de Deus e o amor do mundo, e uma lição sobre como melhorar nesta vida.
Capítulo 15
Eu sou como um grande e poderoso Rei. Quatro coisas correspondem a um rei. Primeiro, o ser rico, segundo, generoso, terceiro, sábio e quarto, caridoso. Eu tenho essas quatro qualidades que lhe mencionei. Em primeiro lugar, sou o mais rico de todos, pois supro as necessidades do mundo e não tenho menos depois de ter feito qualquer doação. Segundo, sou o mais generoso, pois estou preparado para dar a quem quer que seja o que me pedir. Terceiro, sou o mais sábio, pois conheço as dívidas e necessidades de cada pessoa. Quarto, sou caridoso, pois estou mais disposto a dar do que qualquer pessoa em pedir. Eu tenho, digamos, dois tesouros.
No primeiro tesouro, guardo materiais, pesados como o chumbo, em compartimentos onde se encontram cobertos por afiadíssimos pregos. Mas estas pesadas coisas chegam a parecer tão leves, como plumas, para as pessoas que começam a trocá-las e a remexê-las e que, depois, aprendem a carregá-las consigo mesmas. O que antes parecia tão pesado se converte em luz e, as coisas que antes se viam afiadas e cortantes, tornam-se suaves. No segundo tesouro, vê-se ouro resplandecente, pedras preciosas e aromáticas e deliciosas bebidas. Mas o ouro é realmente barro e as bebidas veneno. Há dois caminhos a se percorrer no interior destes tesouros, apesar de haver antes apenas um.
Na cruz, ou seja, na entrada dos dois caminhos há um homem que, gritando para outros três que tomaram o segundo caminho, diz: “Escutem, escutem o que tenho a dizer a vocês! Se não querem escutar, ao menos usem seus olhos para ver que o que digo é certo. Se não quiserem usar nem seus ouvidos nem seus olhos, ao menos usem suas mãos para tocar e perceber que não minto”. Então, um dos três disse: “Vamos atender e ver se o que está nos dizendo é certo”. Em seguida um segundo homem disse: “Tudo o que você nos disse é falso”. O terceiro homem, então, disse: “Sei que tudo o que nos disse é certo, mas não me importo”.
“Que tesouros seriam estes se não o amor a mim e ao mundo? Há dois caminhos que se podem percorrer até estes tesouros. Humilhar-se de si mesmo e a completa autonegação conduzem ao meu amor, enquanto que o desejo carnal conduz ao amor do mundo. Para algumas pessoas, a carga que suportam, ao viver no meu amor, parece feita de chumbo porque quando têm que jejuar ou manter a vigília ou praticar a abstenção, pensam que estão carregando um fardo de chumbo. Se têm que ouvir zombarias e insultos, porque empregam tempo na oração e na prática da religião, é como se sentassem sobre cravos, sempre uma tortura para eles. A pessoa que deseja estar em meu amor, primeiro tem que tomar para si o chumbo, ou seja, fazer um esforço para praticar o bem almejado com um desejo constante. Então, de pouquinho em pouquinho levará o peso, ou seja, fará o que puder, pensando: ‘Isto posso fazer bem se Deus me ajudar’.
Então, perseverando na tarefa que assumiu, começará a carregar tudo o que antes lhe parecia chumbo, com uma disposição tão alegre que todos os trabalhos, jejuns ou vigílias, ou qualquer outra atividade, serão para ela tão leves como uma pluma. Meus amigos descansam em um lugar que, para os malvados e desidiosos, parece estar coberto de espinhos e cravos, mas que, a meus amigos, ofereço-lhes o melhor repouso, suave como as rosas. O caminho direto até esse tesouro é desdenhar sua própria vontade. Isso sucede quando um homem, pensando em minha Paixão e Morte, não se preocupa com sua vontade senão em resistir e lutar constantemente para melhorar. Apesar deste caminho ser algo difícil a princípio, ainda há muito gozo nesse processo, tanto que, tudo o que a princípio parecia impossível de se carregar, torna-se muito leve, de forma que pode-se dizer com toda razão a si mesmo: ‘Leve é o jugo de Deus’.
O segundo tesouro é o mundo. Nele há ouro, pedras preciosas e bebidas que parecem deliciosas, mas que são amargas como veneno quando provadas. O que ocorre a todos os que usufruem do ouro é que, quando seu corpo se definha e seus membros falham, quando sua essência se desgasta e seu corpo cai por terra devido à morte, então, deixam o ouro e as jóias e seu mérito passa a ser somente o barro. As bebidas do mundo, ou seja, seus prazeres, parecem deliciosas, mas quando chegam ao estômago enfraquecem a cabeça e fazem pesar o coração, arruinam o corpo e a pessoa, e então, murcha como o feno. À medida em que se aproxima a dor da morte, todas estas delícias se fazem amargas como o veneno. A própria vontade conduz a este desejo quando alguém não se preocupa em resistir às suas vontades e não medita sobre o que Eu ordenei e fiz senão que, em todo momento, apenas faz o que se deseja sendo lícito ou não.
Três homens andam por este caminho. Estou me referindo a todos os condenados, todos aqueles que amam o mundo e seu próprio desejo. Eu lhes grito desde o cruzamento dos caminhos, na entrada dos dois, porque ao vir assumindo a carne humana, mostrei dois caminhos à humanidade, de forma concreta, um para ser seguido e o outro para ser evitado, ou seja, um caminho que leva à vida e outro que conduz à morte. Antes da minha vinda à carne tão somente havia apenas um caminho. Nele, todas as pessoas, boas e más, iam ao inferno. Eu sou o que clamei e meu clamor foi este: ‘Povos, escutem minhas palavras que conduzem ao caminho da vida, empreguem vossos sentidos para compreender que o que digo é verdade. Se vocês não as escutarem ou não puderem fazê-lo, então, ao menos olhem – ou seja, empreguem a fé e a razão – e vejam que minhas palavras são certas. Da mesma forma que uma coisa visível pode ser percebida pelos olhos do corpo, assim também o invisível pode ser percebido e crido mediante os olhos da fé.
Há muitas almas simples na Igreja que fazem poucos trabalhos, mas que se salvam graças à fé por crerem que sou o Criador e Redentor do Universo. Não há ninguém que não possa compreender ou chegar à crença de que Eu sou Deus, tão somente se considerar que a Terra contém frutos e os Céus produzem a chuva; como fazem verdes as árvores; como subsistem os animais, cada um em sua espécie; como os astros são úteis ao ser humano e como ocorrem coisas contrárias à vontade do homem. Partindo de tudo isso, uma pessoa pode ver que é mortal e que é Deus que dispõe todas as coisas. Se Deus não existisse, tudo estaria em desordem. Por conseguinte, tudo foi criado e disposto por Deus, tudo foi ordenado racionalmente para a própria instrução do ser humano. Nem sequer a mais mínima coisa existe nem subsiste no mundo sem razão. Portanto, se uma pessoa não pode entender ou compreender meus poderes devido à sua debilidade, ao menos pode ver e crer por meio da fé.
Mas se ainda – ó homens! – não quiserem empregar seu intelecto para considerar meu poder, podem usar suas mãos para tocar as obras que Eu e meus Santos realizamos. São tão perfeitas que ninguém pode duvidar de que se tratam de obras realizadas por Deus. Quem, senão Deus, expulsa os demônios? O que escondi que não sirva para a salvação da alma e do corpo e seja fácil de levar? Todavia, o primeiro homem, ou melhor, algumas pessoas, dizem: ‘Vamos escutar e comprovar se isto é certo!’ Estas pessoas estão, há algum tempo, a meu serviço, mas não por amor senão por experiência e imitação de outros, não renunciaram a sua própria vontade, mas tratam de conjugá-la junto com a minha. Estes se encontram em uma perigosa posição porque querem servir a dois senhores, ainda que não possam servir bem a nenhum dos dois. Quando os chamar, serão recompensados pelo senhor que mais amaram.
O segundo homem, ou seja, algumas pessoas, dizem: ‘O que disse é falso e a Escritura é falsa’. Eu sou Deus, o Criador de todas as coisas, nada foi criado sem mim. Eu estabeleci o Novo e Antigo Testamento, ambos saíram de minha boca e não há falsidade neles porque Eu sou a Verdade. Por isso, aqueles que dizem que sou falso e que as Sagradas Escrituras são falsas, nunca verão o meu rosto, porque suas consciências lhes afirmam que sou Deus, precisam entender que tudo ocorre segundo meu desejo e disposição.
O céu lhes dá a luz, pois eles não podem iluminar a si mesmos; a terra dá frutos, pois o ar faz com que ela fique fecunda; todos os animais têm sua razão de existir; os demônios me confessam; os justos sofrem de maneira louvável por amor a mim. Eles vêem tudo isso e ainda não me vêem. Poderiam ver-me em minha justiça, se considerassem como a terra engole os ímpios ou como o fogo consome os malvados. Igualmente, também poderiam ver-me em minha misericórdia, quando a água fluiu da rocha para os retos ou as águas que se abriram para que eles pudessem passar; quando o fogo não os queimou ou quando os Céus lhes deram alimento. Depois de verem tudo isso e ainda dizer que minto, esses nunca verão meu rosto.
O terceiro homem, ou seja, outro grupo de pessoas, dizem: ‘Sabemos muito bem que Ele é Deus de verdade, mas não nos importa’. Estas pessoas serão atormentadas eternamente, porque me desprezam sendo Eu seu Senhor e Deus. Não é um grandíssimo desprezo de sua parte usar meus presentes e depois recusar servir-me? Se ao menos tivessem adquirido tudo isso por sua conta e não inteiramente por mim, seu desdém não seria tão grande. Mas darei minha graça àqueles que começarem voluntariamente a levar meu fardo e lutarem com um desejo fervoroso em prol de fazer o que podem.
Trabalharei junto a esses que portam minha carga, ou seja, os que progridem cada dia por amor a mim. Serei sua força e os inflamarei tanto que serão desejosos de fazer mais. Os que perseveram neste lugar, do primeiro tesouro, que parece furá-los como pregos em tortura, mas que na verdade é um lugar pacífico, estes que se afanam dia e noite sem descanso fazendo-se inclusos e mais ardentes nos trabalhos a mim, pensando que o que fazem é pouco, estes são meus amigos mais queridos apesar de serem muito poucos, pois os demais encontram mais prazeres nas bebidas do segundo tesouro.
Sobre como a esposa viu um santo falando a Deus sobre uma mulher que havia sido terrivelmente afligida pelo diabo e que depois se converteu graças às orações da gloriosa Virgem.
Capítulo 16
A esposa viu que um dos santos dizia a Deus: “Por que o diabo está afligindo a alma desta mulher que remitistes com vosso sangue?”. O diabo contestou de imediato dizendo: “Porque ela é minha por direito”. E o Senhor disse: “Por qual direito ela é sua?” Replicando, o diabo lhe respondeu: “Há, digo, dois caminhos. Um conduz ao Céu e outro ao Inferno. Quando ela se viu diante desses dois caminhos, sua consciência e razão lhe disseram que elegeram meu caminho. E como tem livre arbítrio para eleger o caminho de seu agrado, pensou que seria mais vantajoso dirigir sua vontade para o pecado, e assim começou a caminhar por este meu caminho.
Depois a enganei com três vícios: a gula, a cobiça pelo dinheiro e a luxúria. Agora moro em seu interior e em sua natureza. Tenho levado-a através de cinco mãos. Com uma mão lhe fecho os olhos para que não veja coisas espirituais. Com a segunda, sujeito suas mãos, de forma que não possa fazer nenhuma obra boa. Com a terceira, sustento-lhe os pés de maneira que não caminhe praticando a bondade. Com a quarta, submeto seu intelecto para que não se envergonhe de pecar e, com a quinta mão, lhe sustento o coração para que não sinta contrição alguma”.
A bendita Virgem Maria disse, então, a seu Filho: “Meu Filho, quero que me diga a verdade sobre o que vou perguntar-lhe”. Jesus respondeu: “Você é minha Mãe, é a Rainha do Céu, é a Mãe da Misericórdia, o consolo das almas do purgatório, a alegria dos que peregrinam pelo mundo. É a Soberana dos Anjos, a criatura mais perfeita ante Deus. Também é soberana sobre o diabo, por isso ordena você mesma sobre este demônio, querida Mãe, e ele lhe dirá o que quer saber”. A bendita Virgem perguntou, então, ao diabo: “Diga-me, que intenção tinha esta mulher antes de entrar na Igreja?” O diabo lhe respondeu: “Acolheu a intenção não voltar a pecar”. E a Virgem Maria lhe disse: “Porém, sua intenção anterior lhe condizia ao inferno, diga, pois, agora, para que direção aponta sua atual intenção de afastar-se do pecado?”
O diabo respondeu a Ela com pouco caso: “A intenção de evitar o pecado a conduz ao Céu”. A Virgem Maria disse: “Como você admitiu que era seu direito afastá-la do caminho da Santa Igreja devido a sua intenção anterior, agora é questão de justiça que deve ser conduzida de volta a Igreja, dada sua presente intenção. Agora, demônio, farei-lhe outra pergunta: “Diga, que intenção tem ela em seu atual estado de consciência?” Ele respondeu: “Sua mente está terrivelmente contrita e arrependida, chora por tudo que fez. Decidiu não cometer semelhantes pecados nunca mais e emendar-se em relação a tudo que pode”. A Virgem, então, perguntou: “Poderia dizer-me se os três pecados de luxúria, gula e cobiça podem existir em um coração junto a suas três boas resoluções de contrição, arrependimento e propósito de emenda”?
Ele respondeu: “Não”. E a Bendita Virgem disse: “Diga-me, então, qual deve retroceder e sair de seu coração, as três virtudes ou os três vícios que, segundo você, não podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo”? Respondeu: “Digo que os pecados”. E, assim, a Virgem acrescentou: “O caminho para o inferno, então, está encerrado para ela e o caminho do Céu se faz aberto”. De novo, a Bendita Virgem Maria indagou ao diabo: “Diga-me, se um ladrão fechar as portas da esposa e quiser violá-la, que teria que fazer o Esposo?” Assim lhe disse: Se o Esposo é bom e valente, deve defendê-la arriscando sua vida pelo bem dela”. Então, a Virgem disse: “Você é o ladrão malvado. Esta alma é a esposa de meu Filho que a redimiu com seu próprio sangue. Você a corrompeu e a atacou com violência. Portanto, visto que Meu Filho é o Esposo de sua alma e Senhor sobre você, retire-se de sua presença”.
EXPLICAÇÃO
Esta mulher era uma prostituta que, depois de arrepender-se, quis voltar ao pecado porque o diabo a molestava dia e noite, tanto que, visivelmente pressionava seu olhos e, diante de muitos, a arrastava para fora da cama. Então, diante de testemunhas confiáveis, Santa Brígida disse abertamente: “Vai embora, diabo, humilhou muito esta criatura de Deus”. Depois de ter dito isso, a mulher ficou quieta por meia hora com os olhos fixos no chão e, então, se levantou e disse: “Vi o demônio em uma forma abominável saindo pela janela e, em seguida, ouvi sua voz que me dizia: ‘Mulher, verdadeiramente, você está livre’”. Desde aquele momento, esta mulher, venceu toda a impaciência, cessaram seus pensamentos sórdidos e veio a descansar em uma boa morte.
Palavras de Cristo a sua esposa, comparando um pecador a três coisas: uma águia, um caçador e um lutador.
Capítulo 17
Eu sou Jesus Cristo e sou eu quem está falando a você. Sou eu que estive no ventre da Virgem, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. Apesar de estar no ventre de minha Mãe, ainda governava tudo juntamente com o Pai. Minha esposa, saiba que esse homem, que é um perverso inimigo meu, se parece com três coisas. Primeiro, é como uma águia que voa mais alto no céu, enquanto outras aves voam mais baixo; segundo, é um caçador voraz que entoa doces melodias, com uma armadilha preparada e repleta de uma goma pegajosa, cujos tons somente as aves podem produzir de forma que envolvem esta armadilha e sem deixar pegadas na goma; terceiro, é como um lutador que vence todos os combates.
É como uma águia porque, em seu orgulho, não pode tolerar que haja nada acima de si e fere a qualquer um que esteja a seu alcance com as unhas de sua malícia. Cortarei as asas de seu poder e de seu orgulho e eliminarei sua maldade da terra. Eu a jogarei em um fogo inextinguível onde será eternamente atormentada se não se emendar buscando outro caminho. É também como um caçador que atrai a todos com a doçura de suas palavras e promessas, mas quem se aproxima dele fica preso à perdição sem poder escapar. Por esta razão, as aves do inferno lhe furarão os olhos para que nunca possa ver minha glória se não somente a escuridão perpétua do inferno.
Cortarão as orelhas para que não ouça as palavras de minha boca. No lugar de suas doces palavras, lhe darão amargos tormentos desde a planta dos pés até o topo de sua cabeça e, assim, resistirá a tantas torturas como homem conduzido à perdição. É também como um lutador brigão que gosta de ser o primeiro a fazer a maldade, não querendo ceder diante de nada e sempre determinado a derrotar qualquer pessoa. Como lutador, pois, terá o primeiro lugar em cada castigo; seus tormentos se renovarão constantemente e nunca terminarão. Enquanto sua alma estiver unida a seu corpo, minha misericórdia permanece quieta, esperando por ele.
Palavras de Cristo a sua esposa sobre como deve ter a humildade na casa de Deus; sobre como esta casa denota a vida religiosa; sobre como os edifícios, os donativos e demais coisas devem ser doados para que os bens sejam retamente adquiridos e sobre como fazer restituição.
Capítulo 18
Em minha casa deve haver muita humildade como essa que agora só recebe desprezo. Deve haver uma forte parede divisória entre os homens e as mulheres, apesar de eu ser capaz de defender a cada um e de apoiá-los sem necessidade de paredes, mas por precaução e devido aos saques do demônio, quero um muro que separe as duas residências. Tem que ser uma parede forte, mas modesta e não demasiadamente alta. As janelas devem ser muito sensíveis e transparentes, o telhado moderadamente alto, de forma que não se veja ali nada que não indique humildade.
Os homens que, hoje em dia, edificam casas para mim, são construtores magistrais, mas agarram o Senhor da casa e, quando Ele entra, pisoteiam-lhe os pés. Elevam o barro muito alto e colocam o ouro por baixo. Isso é o que fazem comigo. Constróem barro, ou seja, acumulam bens temporais e perecíveis sob o Céu, enquanto que descuidam das almas, que, para mim, são mais preciosas que ouro. Quando tento ir até eles, através de minhas palavras ou mediante bons pensamentos, agarram-me com arrogância e me pisoteiam, ou seja, me atacam com blasfêmias e consideram meus trabalhos e palavras tão desprezíveis como o barro. Consideram-se, assim, muito mais sábios.
Se quisessem construir algo para mim e para minha glória, a primeira coisa que deveriam fazer seria construir suas próprias almas. Quem constrói minha casa tem que ter o máximo cuidado de não deixar que entre um único centímetro que não tenha sido adquirido de origem reta e justa para destiná-lo ao edifício. Há muitas pessoas que sabem que possuem bens conseguidos ilicitamente e não se arrependem disso, nem têm intenção de restituir e reparar seus roubos e fraudes, apesar de saberem que poderiam fazê-lo se assim quiserem. Todavia, como sabem que não podem manter estas coisas para sempre, dão uma parte de seus bens mal adquiridos à Igreja, como se pudessem aplacar-me com sua doação. As posses legítimas reservam as seus descendentes.
Isso não me agrada em nada. Uma pessoa que deseja agradar-me com suas doações, deve ter, antes de tudo, o propósito de emendar-se em seu caminho e depois fazer todo bem que puder. Deve lamentar-se e chorar pelo mal que fez e restituí-lo se puder. Se não puder, deve ter a intenção de fazer a restituição de seus bens adquiridos fraudulentamente. Então, tem que cuidar de não voltar a cometer tais pecados. Se a pessoa a quem deve restituir os bens mal adquiridos já não está viva, então pode fazer a mim a doação, pois, com isso, posso devolver-lhes este benefício. Se não puder restituí-los, sempre que se humilhar diante de mim, com um propósito de emenda e um coração contrito, tenho meios de fazer a restituição e, agora ou no futuro, restaurar tais bens àqueles que foram prejudicados.
Vou explicar-lhe o significado da casa que quero construir. A casa é a vida religiosa. Eu sou o Criador de todas as coisas, através do qual tudo foi feito e existe, sou seu fundamento. Há quatro paredes nesta casa. A primeira é a justiça pela qual julgo aqueles que são hostis a ela. A segunda parede é a sabedoria com a qual ilumino seus habitantes com meu conhecimento e compreensão. A terceira é o poder mediante o qual fortaleço a todos contra as maquinações do demônio. A quarta parede é minha misericórdia que acolhe quem quer que a peça. Nessa parede está a porta da graça, através da qual todos aqueles que a buscam são bem vindos. O telhado desta casa é a caridade, mediante a qual cubro os pecados daqueles que me amam de forma que não sejam sentenciados por suas falhas.
A clarabóia do teto, por onde entra o sol, é a consideração de minha graça. Através dela, se introduz aos habitantes o candor de minha divindade. O fato da parede ser grande e forte significa que nada pode enfraquecer minhas palavras nem destruí-las. Já o ser moderadamente alta significa que minha sabedoria pode ser entendida e compreendida em parte, mas nunca completamente. As janelas sensíveis e transparentes significam que minhas palavras são simples e, assim, chega ao mundo, através delas, a luz do conhecimento divino. O telhado moderadamente alto significa que minhas palavras não devem manifestar-se de maneira incompreensível ou inalcançável senão de forma clara e simples.
Palavras do Criador à esposa sobre o esplendor de seu poder, sabedoria, virtude e sobre como aqueles que agora se dizem sábios são os que mais pecam contra Ele.
Capítulo 19
Eu sou o criador do Céu e da Terra. Tenho três qualidades. Sou o mais poderoso, o mais sábio e o mais virtuoso. Sou tão poderoso que os Anjos me honram no Céu e, nos infernos, os demônios não se atrevem a olhar-me. Todos os elementos respondem às minhas ordens e chamadas. Sou tão sábio que nada consegue alcançar meu conhecimento. Minha sabedoria é tal que sei tudo o que tem sido e o que ainda será. Sou tão racional que nem sequer a mais mínima coisa, nem um verme nem nenhum outro animal, por mais deforme que pareça, foi feito sem um motivo. Também sou tão virtuoso que todo o bem emana de mim como de um manancial abundante e toda a doçura vem de mim como de uma boa vinha.
Sem mim, ninguém pode ser poderoso, ninguém pode ser sábio, ninguém pode ser virtuoso. Por isso, os homens poderosos do mundo pecam contra mim em excesso. Dei-lhes força e poder para que possam honrar-me, mas atribuem a si mesmos a honra como se tivessem obtido por si mesmos. Estes frágeis homens não consideram sua debilidade. Se lhes permito a menor enfermidade, seriam imediatamente derrubados e tudo para eles perderia seu valor. Como, pois, serão capazes de suportar meu poder e os castigos da eternidade? Mas aqueles que agora se dizem sábios, todavia são os que mais pecam contra mim. Dei lhes sentido, entendimento e sabedoria para que me amassem, mas a única coisa que entendem é seu próprio proveito temporal. Têm olhos em suas cabeças, mas tão somente olham para seus próprios prazeres.
Estão cegos, até para dar-me graças e louvores pelo que lhes dei, pois nenhum, nem bom ou mau, pode perceber ou compreender sem mim, mesmo quando permito aos malvados inclinar sua vontade para fazer o que desejam. Tampouco, ninguém pode ser virtuoso sem mim. Agora poderia eu usar um provérbio comum: “Todos depreciam o homem paciente”. Devido a minha paciência, todos crêem que sou um pobre tolo e é por isso que me olham com desprezo. Mas pobres deles quando, depois de tanta paciência, lhes for dada sua sentença! Diante de mim serão como lama que deslizam para as profundidades e não param até chegar a parte mais baixa do inferno.
Diálogo de agradecimento entre a Virgem Mãe e o Filho e, entre eles, com a esposa e também sobre como a noiva deverá se preparar para o casamento.
Capítulo 20
A Mãe apareceu dizendo ao Filho: “Você é o Rei da Glória, Filho meu, é o Senhor de todos os senhores, criou o Céu e a Terra e tudo o que existe neles. Sejam cumpridos todos os seus desejos, faça-se toda sua vontade!” O Filho respondeu: “Há um antigo provérbio que diz: ‘o que se aprende na juventude se preserva até a velhice’. Mãe, desde sua juventude você aprendeu a seguir minha vontade e a submeter todos os seus desejos a mim. Disse corretamente: ‘faca-se sua vontade!’ Você é como ouro precioso que se estende e persiste sobre a dura bigorna, porque foi golpeada por todo tipo de tribulação e sofreu em minha Paixão mais que todos os demais.
Quando, pela intensidade de minha dor na cruz meu coração se partiu, o seu também foi ferido como se recebesse uma afiadíssima faca no peito. Teria desejado ser cortada em duas se fosse essa minha vontade. Mesmo se tivesse a capacidade de opor-se a minha paixão e suplicado que me fora permitido viver, todavia não o teria feito se isso não estivesse de acordo com minha vontade. Por essa razão, tem feito bem ao dizer: ‘faça-se sua vontade!’”
Então, Maria disse a esposa: “Esposa de meu Filho, ame-o porque Ele ama você. Honra seus Santos que estão em sua presença, são como estrelas incontáveis, cuja luz e esplendor não se pode comparar com nenhuma luz temporal. Assim como a luz do mundo é distinta da escuridão, igual – mas muito mais – ocorre com a luz dos santos, que difere da luz deste mundo.
Digo a você que se os Santos fossem vistos claramente como são, nenhum olho humano poderia suportar sem depois se ver privado de sua vista corporal”. Então, o Filho da Virgem falou com sua esposa dizendo: “Esposa minha, deve ter quatro qualidades. Primeiro, deve estar preparada para as bodas de minha divindade, onde não há desejo carnal senão somente o mais suave prazer espiritual, prazer tal que é próprio de Deus ter com uma alma casta. Desta forma, nem o amor por seus filhos, nem os bens temporais, nem o afeto de seus parentes pode separar você do meu amor. Não permita que aconteça a você assim como foi com aquelas virgens tolas que não estavam preparadas quando o Senhor as solicitou para as bodas e, assim, ficaram de fora.
Segundo, deve ter fé em minhas palavras. Como sou a Verdade, nada, senão a verdade, sai de meus lábios e ninguém pode encontrar em minhas palavras outra coisa além da verdade. Às vezes, o que digo tem um sentido espiritual e já em outras se harmoniza com a letra da palavra em cujo caso minhas palavras precisam ser entendidas segundo seu sentido literal. Portanto, ninguém pode acusar-me de mentir. Em terceiro lugar, você deve ser obediente para que não haja nenhum só membro de teu corpo que possa fazer o mal e para que não se submeta a correspondente penitência e reparação. Porém, sou misericordioso, mas não deixo de lado a justiça.
Por isso, obedece humildemente e com prazer àqueles a quem você é submissa, de forma que não haja nem o que te pareça útil e razoável, se é que isto iria contra a obediência. É melhor renunciar a tua própria vontade pela obediência, mesmo quando seu objetivo for bom, e ajustar-se às orientações de seu diretor sempre e quando não for contra a salvação de sua alma nem uma orientação irracional. Em quarto lugar, deve ser humilde porque está unida em um matrimônio espiritual. Por isso, tem que ser humilde e modesta quando chegar seu marido. Que seu criado seja moderado e contido, ou seja, que seu corpo pratique a abstinência e seja bem disciplinado, porque vai portar a semente de um retorno espiritual para o bem de muitos. Da mesma forma que, ao inserir um broto em um talo seco e o talo começar a florescer, você deve portar frutos e florescer por minha graça. E minha graça a embriagará e toda a Corte Celestial se regozijará pelo doce vinho que lhe darei.
Não desconfie de minha bondade. Asseguro que, assim como Zacarias e Isabel se regozijaram em seus corações com um deleite indescritível pela promessa de um futuro filho, assim, você também se regozijará na graça que quero dar e, por sua vez, outros se alegrarão através de você. Foi um Anjo que falou com os dois, Zacarias e Isabel, mas sou Eu, Deus Criador dos Anjos e seu criador, quem lhe fala agora. Pelo meu bem, eles deram a vida ao meu mais querido amigo, João. Através de você, quero que nasçam muitos filhos, não de carne, mas de espírito. Em verdade, João foi uma cana cheia de doçura e mel, pois nada impuro jamais entrou em sua boca nem jamais transpassou os limites da necessidade para obter o que necessita para viver. Nunca saiu sêmen de seu corpo, por esta razão, então, podemos chamá-lo de anjo e virgem”.
Palavras do Esposo a sua esposa recorrendo a uma parábola sobre um feiticeiro para ilustrar e explicar o que é o demônio.
Capítulo 21
O Esposo, Jesus, falou a sua esposa em parábolas, empregando o exemplo de um sapo. Disse: “Certo feiticeiro tinha um ouro finíssimo e reluzente. Um homem sensível e de modestas maneiras veio a ele e quis comprar seu ouro. O feiticeiro lhe disse: ‘não conseguirá este ouro a não ser que me dê um ouro melhor e em maior quantidade’. O homem disse: ‘Desejo tanto seu ouro que lhe darei o que quer antes que eu fique sem ele’. Depois de dar ao feiticeiro um ouro melhor e em maior quantidade, levou o outro reluzente que esse tinha e o guardou em uma maleta, planejando fazer um anel. Passado algum tempo, o feiticeiro foi ver o homem e lhe disse: ‘O ouro que você comprou e guardou em sua maleta não é ouro como crê realmente, é um sapo feio que se alimentou em meus peitos e comeu do meu alimento.
E para comprovar a verdade que lhe revelo, abra a maleta e verá como o sapo saltará em direção ao peito onde se alimentava. Quando o homem tomou a maleta para averiguar, pôde sentir o sapo dentro dela forçando as quatro travas já a ponto de rompê-las. Ao abrir a fechadura da maleta, o sapo viu o feiticeiro e saltou em seu peito. Os criados e amigos do homem viram isso e lhe disseram: ‘Mestre, seu ouro está dentro do sapo e, se o deseja, facilmente pode conseguí-lo de volta’. ‘Como?’ – perguntou ele – ‘Como posso?’ Eles disseram: ‘Se alguém usar uma faca afiada e aquecida e a inserir no lombo do sapo, poderá reaver seu ouro através do corte feito. Se não puder encontrar pelo primeiro corte feito, então, terá que fazer todo o possível para inserir a faca firmemente em outras partes do sapo para, assim, conseguir recuperar o que comprou’.
Quem é o feiticeiro senão o demônio persuadindo as pessoas e lhes trazendo prazeres e glórias fugazes? Ele assegura que o falso é verdadeiro e faz com que o verdadeiro pareça falso. Possui um ouro, o qual chama de precioso, e diz à alma que, mediante meu divino poder, tal preciosidade se faz mais que todas as estrelas e planetas. Esposa minha, eu darei a você a vida eterna, pois você é preciosa para mim, assim como todo o resto da criação. Preparei para ela (a criação) um lugar eterno de descanso e morada junto a mim. Arrebatei-a do poder do demônio com um ouro melhor e mais caro ao dar minha própria carne imune a todo pecado, resistindo a uma Paixão tão amarga que nenhum membro de meu corpo ficou ileso. Pus a alma redimida em uma maleta até o momento em que lhe dei um lugar na corte de minha divina presença. Agora, todavia, a alma humana redimida se mostra convertida em um sapo torpe e feio brincando em sua soberba e vivendo no lodo de sua luxúria.
O ouro é pertença minha por direito e me foi tirado. Por isso, o diabo mesmo pode me dizer: ‘O ouro que comprou não é ouro senão um sapo, alimentado nos peitos dos meus prazeres. Separa o corpo da alma e verá como este voa direto ao peito de meu deleite onde se alimentou’. Minha resposta a ele é esta: ‘Visto que o sapo é horrível para ser visto e ouvido, venenoso para ser tocado e em nada me agrada, mas a você sim, cujos peitos alimentou, então pode ficar com ele, pois tem direito a ele. Assim, quando se abre a fechadura, ou seja, quando a alma se separa do corpo, essa voará diretamente a você para ficar contigo eternamente’. Tal é a alma da pessoa que estou descrevendo para você. É como um sapo maligno, cheio de imundícies e luxúrias alimentado nos peitos do mal.
Agora, quando falo da maleta, quero dizer que ela significa o corpo dessa alma que, ao se abrir acolhe a morte que lhe sobrevém. A maleta é fechada por quatro travas (ou dobradiças) que estão a ponto de romper-se, com isso quero dizer que seu corpo se mantém por quatro coisas que são: força, beleza, sabedoria e visão, as quais, agora, estão começando a faltar. Quando tal alma se separa do corpo, voará direto ao demônio de cujo leite se alimentou e também por ter se esquecido do meu amor que havia carregado para seu bem, agora recebe o castigo que mereceu. Ele não repõe meu amor com amor senão que, em seu lugar, tira-me da posição que corresponde somente a mim. Deve mais a mim do que a qualquer outra pessoa, mas encontra maior prazer no demônio. O som de sua oração é como a voz de um sapo, seu aspecto se torna detestável.
Seus ouvidos não escutam minha alegria, seu corrompido sentido de tato nunca sentirá minha divindade. Todavia, como sou misericordioso, se alguém quiser tocar sua alma, mesmo que seja impura, para examiná-la a fim de ver se há alguma contrição ou algum bem em sua vontade, se alguém quiser introduzir em sua mente uma faca afiada e quente, ou seja, buscar nela o temor do meu estrito juízo, até poderia, pois esta alma terá minha graça sempre e quando ela consentir. Se não houvesse contrição nem caridade nela, até poderia haver alguma esperança no caso de que alguém a perfuraria com uma afiada correção e a castigaria fortemente, porque, enquanto a alma vive no corpo, minha misericórdia está aberta a todos.
Você se dá conta de que eu morri por amor e ninguém me responde com amor e sim se apoderam do que, por justiça, é meu? Seria justo que a pessoa melhorasse sua vida em proporção ao esforço que custou redimí-la. Todavia, agora, as pessoas querem viver o pior, em proporção à dor que sofri em minha Paixão. Quanto mais lhes mostro o abominável de seus pecados, mais ousadamente se lançam a pecar. Perceba, pois, e considera que, não sem motivo, estou enojado. Elas, de certa forma, dão um jeito para mudar, por si mesmas, minha boa vontade em aborrecimento. Redimi todos do pecado e elas se enredam cada vez mais em praticar tais atos torpes. Por isso, esposa minha, dá-me o que está obrigada a dar, ou seja, mantém sua alma limpa porque eu morri por ela, para que pudesse manter-se pura para mim”.
A amável pergunta da Mãe à Esposa, a humilde resposta da esposa à Mãe, útil réplica da Mãe à Esposa e sobre o progresso das pessoas boas entre os malvados.
Capítulo 22
A Mãe falou a esposa de seu Filho dizendo-lhe: “Você é a esposa de meu Filho. Diga-me, no que está pensando e o que deseja?” A esposa respondeu: “Senhora minha, a Senhora o sabe, porque sabe tudo”. A Virgem Bendita acrescentou: “Mesmo que eu saiba tudo, gostaria que me dissesse na presença dessas pessoas que lhe escutam”. A esposa disse: “Senhora minha, temo duas coisas. Primeiro – disse – temo não lamentar-me nem emendar-me por meus pecados tanto quanto desejaria. Segundo, estou triste porque seu Filho tem muitos inimigos”.
A Virgem Maria retomou a palavra: “Dar-lhe-ei três remédios para a primeira preocupação. Em primeiro lugar, pense em como todos os seres que não têm espírito eterno, como as rãs ou qualquer outro animal, de vez em quando têm problemas. Seus espíritos, que não são eternos, desaparecem quando seus corpos morrem. Todavia, seu espírito e toda a alma humana vive para sempre. Segundo, pense na misericórdia de Deus, porque não há ninguém que, por mais pecados que tenha, não seja perdoado se tão somente rezar com contrição e com a intenção de melhorar. Terceiro, pense quanta glória consegue a alma quando vive com Deus e em Deus eternamente.
Vou dar-lhe também três remédios para sua segunda preocupação, sobre os muitos inimigos de Deus. Primeiro, considera que seu Deus e Criador, e o deles também, é seu Juiz, e que eles nunca se atreverão a sentenciar, mesmo que suportou pacientemente sua maldade durante tempos. Segundo, recorde que eles são os filhos da infâmia, e pense no quão duro e insuportável será para eles arder eternamente. São servos tão péssimos que ficam sem herança, enquanto os bons filhos a receberão. Mas talvez se pergunte: ‘Nada, então, vai aconselhar a eles?’ Claro que sim! Recorda que as boas pessoas se misturam com os perversos e que os filhos adotivos, às vezes, se afastam dos bons como o filho pródigo que procurou uma terra distante e levou uma vida de perdição. Mas, às vezes, certas palavras convertem suas consciências e eles voltam ao Pai e eu os aceito como antes de terem cometido o pecado. É assim que se deve aconselhá-los, especialmente porque um conselheiro pode encontrar somente gente perversa ao seu redor, mas deve pensar em seu interior: ‘Talvez haja alguns entre eles que se tornaram filhos de meu Senhor. Por isso, os aconselharei’. Esse conselheiro será muito premiado.
Em terceiro lugar, considere que os malvados, se ainda continuam vivendo, é para que sejam como prova para os bons que estão perdidos, os filhos pródigos, para que eles, exasperados pelos hábitos dos perversos, possam conseguir sua remuneração como fruto de sua paciência. Poderá entender melhor isso por meio de um exemplo. Uma rosa desprende um agradável aroma, é bela de se ver e suave para o tato, mas cresce entre espinhos que espetam se os tocar, são feios de se ver e não desprendem nenhum bom odor. Igualmente, as pessoas boas e retas, mesmo que possam ser agradáveis por sua paciência, belas por seu caráter e suaves por seu bom exemplo, no entanto não podem progredir, nem serem postas à prova a menos que estejam entre os malvados.
Os espinhos são, às vezes, a proteção da rosa, de forma que ninguém a arranque em plena floração. Assim também, os malvados oferecem aos bons a ocasião de não lhes seguir no pecado quando, devido à maldade dos outros, os justos se reprimem antes a ruína que lhes levaria uma imoderada alegria ou qualquer outro pecado. O vinho não mantém sua qualidade exceto entre excrementos e tampouco as pessoas boas e justas podem manter-se firmes nos avanços das práticas das virtudes sem serem postas à prova mediante tribulações e sendo perseguidas pelos injustos. Por isso, suporte os inimigos de meu Filho. Recorde que Ele é o Juiz e, se a justiça exigir que Ele os destrua por completo, acabaria com eles em um instante. Tolera-os, pois, tanto como Ele os tolera!”
Palavras de Cristo a sua esposa descrevendo um homem que não é sincero, mas sim inimigo de Deus e especialmente sobre sua hipocrisia e suas características.
Capítulo 23
As pessoas o vêem como um homem bem vestido, forte e digno, ativo na batalha do Senhor. Todavia, quando se tira a casca, é repugnante de olhar e inútil para qualquer trabalho. Seu cérebro aparece desnudo, tem as orelhas na frente e os olhos na parte traseira de sua cabeça. Seu nariz está cortado. Suas bochechas estão fundas como as de um homem morto. Em seu lado direito, sua “maçã do rosto” é a metade de seus lábios e está deformada por completo, ou seja, que não há nada na direita exceto sua garganta descoberta.
Seu peito está infestado de vermes; seus braços são como um par de serpentes. Um maligno escorpião se senta em seu coração; suas costas parecem carvão queimado. Seus intestinos fedem podre como carne cheia de pus, seus pés estão mortos e são inúteis para caminhar. Agora lhe digo o que tudo isso significa. Por fora, é um tipo de homem que parece ornado de bons hábitos, sabedoria e ativo no meu serviço, mas não é assim realmente. Porque se tirarmos a casca de sua cabeça, mostra-se desnudo tanto que, a presunção e a frivolidade de suas maneiras são sinais suficientes, para os homens bons, de que este homem é indigno de tanta honra.
Se conhecessem minha sabedoria, perceberiam que quanto mais o elevarem em sua honra sobre os demais, muito mais que eles, deveria o honrado cobrir-se de austeras maneiras. Suas orelhas estão em sua frente porque, em lugar da humildade, que deveria ter por sua alta categoria e que deveria deixar brilhar para outros, ele tão somente quer receber bajulação e glória. Em seu lugar, ele põe o orgulho e é por isso que quer que todos o chamem de grande e bom. Tem olhos na nuca porque todo seu pensamento está no presente e não na eternidade. Ele pensa em como comprazer os homens e sobre o que se requer para as necessidades do corpo, mas não em como comprazer-me nem no que é bom para as almas. Seu nariz está cortado, tanto que perdeu a discrição mediante a qual poderia distinguir entre pecado e virtude, entre a glória temporal e eterna, entre as riquezas mundanas e eternas, entre os prazeres breves e os eternos.
Suas bochechas estão afundadas, ou seja, todo seu sentido de vergonha em minha presença, juntamente com a beleza das virtudes pelas quais poderia comprazer-me, estão mortos por completo a menos no que me diz respeito. Tem medo de pecar pela vergonha humana, mas não por medo de mim. Parte de sua “maçã do rosto” e lábios estão deformados sem que nada fique a salvo, até mesmo a garganta é afetada porque a imitação de meus trabalhos e a recomendação de minhas palavras, junto com a oração sentida desde o coração, não existem mais nele e, assim, nada fica salvo em sua garganta glutona. Mas encontra, na imitação do depravado e no envolver-se em assuntos mundanos, algo, por sua vez, saudável e atrativo.
Seu peito está cheio de vermes porque nele, onde deveria estar a recordação de minha Paixão e a memória de minhas obras e mandamentos, tão somente há preocupação pelos assuntos temporais e desejos mundanos. Os vermes corroeram sua consciência de forma que já não pensa em coisas espirituais. Em seu coração, onde gostaria de morar e onde deveria residir meu amor, reside um maligno escorpião de calda venenosa e rosto insinuante.
Isso acontece porque de sua boca saem palavras sedutoras e aparentemente sensíveis, mas seu coração está cheio de injustiça e falsidade, porque não lhe importa se a Igreja que representa se destrói enquanto ele pode seguir adiante com sua vontade egoísta. Seus braços são como serpentes porque, em sua perversidade, alcança os simples e os atrai para si com simplicidade, mas quando se acomoda em seu propósito, os dispensa como a pobres desgraçados.
Assim como uma serpente, se enrosca sobre si escondendo sua malícia e iniqüidade, de tal forma que dificilmente se pode detectar seu artifício. A meus olhos, ele é como uma vil serpente, porque igualmente a sente, é mais odioso que qualquer outro animal, ele é também para mim o mais deformado de todos na medida que reduz a nada minha justiça e me considera como alguém resistente a infligir castigos.
Suas costas são como o carvão negro, mesmo que devesse ser como o marfim, pois suas obras deveriam ser mais valentes e puras que as dos outros, para apoiar aos débeis com sua paciência e exemplo de boa vida. Todavia, é como carvão porque, também ele é débil para resistir a uma só palavra que me glorifique, a menos que isso o beneficie. Ele crê ser valente, apesar de tudo, com respeito ao mundo. Em conseqüência, ainda que creia que se mantém reto, cairá na mesma medida de sua deformidade e será privado de vida, como o carvão, diante de mim e dos meus santos. Seus intestinos estão fétidos porque, diante de mim, seus pensamentos e afetos fedem a carne podre, cujo fedor ninguém pode suportar. Nenhum dos santos o podem suportar.
Ao contrário, todos afastam sua cara dele e exigem que lhe apliquem uma sentença. Seus pés estão mortos porque eles são suas duas disposições comigo, ou seja, seu desejo de emenda por seus pecados e seu desejo de fazer o bem. Esses pés estão mortos nele porque a essência do amor se consumiu e não fica nada mais que os ossos duros. É esta condição que está diante de mim. Contudo, enquanto sua alma permanecer em seu corpo, poderá obter minha misericórdia.
EXPLICAÇÃO
São Lourenço apareceu dizendo: “Quando estive no mundo, tinha três coisas: continência comigo mesmo, misericórdia com meu próximo e caridade com Deus. Por isso, ensinei a palavra de Deus zelosamente, distribuí os bens da Igreja com prudência e suportei açoites, fogo e a morte com alegria. Mas este bispo resiste e camufla a incontinência do clero, gasta livremente os bens da Igreja com os ricos e mostra caridade fazendo consigo e com eles. Portanto, declaro para ele que uma nuvem luminosa subiu ao Céu escurecida como por chamas “escuras”, de tal forma, muitos não podem vê-la.
Esta nuvem simboliza as orações da Mãe de Deus para a Igreja. As chamas da avareza e da falta de piedade e justiça a ensoberbecem de tal maneira que a amável misericórdia da Mãe de Deus não pode entrar nos corações dos oprimidos. Por isso, que o arcebispo vira rapidamente a caridade divina corrigindo-se, aconselhando seus subordinados de palavras e de obra e motivando-os a melhorar. Se não o faz, sentirá a mão do Juiz, e sua Igreja diocesana será purgada a fogo e espada e afligida pela rapina e tribulação, tanto que passará muito tempo sem que ninguém possa consolá-la”.
Palavras de Deus Pai à Corte Celeste e a resposta do Filho, também, à Mãe e ao Pai, solicitando graças para sua Filha, a Igreja.
Capítulo 24
Falou o Pai enquanto atendia toda a Corte Celeste e disse: “Ante vós exponho minha queixa porque desposei minha Filha com um homem que a atormenta terrivelmente, atou seus pés a uma estaca de madeira e toda a sua essência lhe sai por baixo”. O Filho lhe respondeu: “Pai, eu a redimi com meu sangue e a aceitei por Esposa, mas agora ela me foi tirada à força”. Então, falou a Mãe: “Tu és meu Deus e Senhor. Meu corpo carregou os membros de teu bendito Filho, que é verdadeiro Filho teu e é verdadeiro Filho meu. Não lhe negue nada na terra. Por minhas súplicas, tenha misericórdia de tua Filha!” Depois disso, falaram os Anjos dizendo: “Tu és nosso Senhor. Em ti possuímos todo o bem e não necessitamos nada mais que vós.
Quando sua esposa saiu de ti, todos nós nos alegramos, mas agora temos razões para estarmos tristes, porque agora ela foi jogada nas mãos do pior dos homens, que a ofende com todo o tipo de insultos e abusos. Por isso, tenha piedade dela por tua grande misericórdia, pois ela se encontra em extrema miséria e não há ninguém que possa consolá-la nem libertá-la exceto tu, Senhor, Deus todo poderoso”. Então, o Pai respondeu ao Filho dizendo: “Filho, sua angústia é a minha, sua palavra é a minha e suas obras são as minhas. Você está em mim e eu estou em ti, inseparavelmente. Faça-se sua vontade!” Depois, disse a Mãe do Filho: “Por não haver-me negado nada na terra, não te negarei nada no Céu. Teu desejo deve ser satisfeito”. Aos anjos disse: “São meus amigos e a chama de seu amor arde em meu coração. Por suas orações, terei misericórdia de minha filha”.
Palavras do Criador à esposa sobre como sua justiça mantém os malvados na existência por três razões.
Capítulo 25
Eu sou o Criador do Céu e da Terra. Você perguntava, esposa minha, porque sou tão paciente com os malvados. Isso se deve ao fato de ser misericordioso. Minha justiça os agüenta por três razões e, por três razões minha misericórdia os mantém. Em primeiro lugar, minha justiça os agüenta de forma que seu tempo se complete até o final. Você poderia perguntar a um rei justo porque ele não condena alguns prisioneiros à morte e sua resposta seria: ‘Porque ainda não chegou o tempo da assembléia geral da corte na qual poderão ser ouvidos e porque também, aqueles que os ouvem, podem tomar maior consciência’. De forma parecida, eu tolero os malvados até que chegue seu tempo, de maneira que sua maldade possa ser conhecida por outros.

Não preveni a condenação de Saul muito antes que se desse a conhecer aos homens? Os tolerei durante muito tempo para que sua maldade pudesse ser mostrada a outros. A segunda razão é que os malvados fazem alguns bons trabalhos pelos quais devem ser compensados até o último centavo. Desta forma, nem o mínimo bem que tenham feito por mim ficará sem recompensa e, conseqüentemente, receberão seu salário na terra. Em terceiro lugar, os agüento para que manifeste assim a glória e a paciência de Deus. É por isso que tolerei Pilatos, Herodes e Judas, apesar de merecerem ser condenados. Assim, respondi a pergunta de por que tolero tais pessoas que concordam com Judas e Pilatos.
Minha misericórdia mantém os malvados também por três razões. Primeiro porque meu amor é enorme e o castigo é eterno e muito grande. Por isso, devido ao meu grande amor, os tolero até o último momento para retardar seu castigo o quanto for possível na extensa prolongação do tempo. Em segundo lugar, é para permitir que sua natureza seja consumida pelos vícios, pois experimentariam uma morte temporal mais amarga se tivessem uma constituição jovem. A juventude padece uma maior e mais amarga agonia na hora da morte. Em terceiro lugar, pelo bem das boas pessoas e conversão de alguns dos malvados. Quando as pessoas boas e retas são atormentadas pelos perversos, isso beneficia os bons e justos, pois os permite resistir a pecar ou conseguir um maior mérito.
Igualmente, os malvados, às vezes, tem um afeto positivo por outras pessoas perversas. Quando esses últimos refletem sobre a queda e maldade dos primeiros, dizem a si mesmos: ‘De que nos serve seguir seus passos?’ E: ‘se o Senhor é tão paciente, será melhor que nos arrependamos’. Desta forma, acontece de voltarem a mim porque temem fazer o que fazem os outros e, além disso, sua consciência lhes diz que não devem fazer esse tipo de coisas. Dizem que, se uma pessoa é picada por um escorpião, pode-se curar a vítima quando se unta o local da picada com azeite e, assim, morreria outro escorpião. De forma parecida, em outras circunstâncias, uma pessoa malvada que vê a outra cair pode ver-se ferroada pelo remorso e curada ao refletir sobre a maldade e vaidade do outro.
Palavras de louvor a Deus pela Corte Celeste; sobre como teriam nascido as crianças se nossos primeiros pais não tivessem pecado; sobre como Deus mostrou seus milagres através de Moisés e, depois, por si mesmo a nós com sua própria vinda; sobre a perversão do matrimônio corporal nestes tempos e sobre as condições do matrimônio espiritual.
Capítulo 26
A Corte Celeste foi vista diante de Deus. Toda a Corte disse: “Louvado e honrado seja, Senhor Deus, você que é, foi e será sem fim! Somos seus servidores e lhe oferecemos um triplo louvor e honra. Primeiro, porque nos criou para que gozássemos contigo e, também nos deste uma luz indescritível em que nos regozijamos eternamente. Segundo, porque todas as coisas foram criadas e são mantidas em sua bondade e constância e todas as coisas permanecem de acordo com sua conveniência e se submetem à sua palavra. Terceiro, porque criou a humanidade e adotou uma natureza humana para o bem dela.
Nos regozijamos grandemente por essa razão e, também, por tua castíssima Mãe que foi achada digna de gerar-lhe e a quem os Céus não podem conter nem limitar. Por isso, por meio da classe angelical que exaltou com honra, que vossa glória e bênçãos recaiam sobre todas as coisas! Que vossa inesgotável eternidade e constância esteja sobre tudo o que possa existir e permanecer constante! Só o Senhor, há de ser temido por seu grande poder, só o Senhor há de ser desejado por sua grande caridade, só o Senhor há de ser amado por tua constância. Louvado seja incessantemente e para sempre! Amém!”
O Senhor respondeu: “Vocês me honraram dignamente por toda a criação. Mas, digam-me, por que me louvam pela raça humana que me provoca mais indignação do que qualquer outra criatura? A fiz superior às criaturas menores e por nenhuma outra tenho sofrido tanta indignidade como pelos humanos e nem redimi a nenhum outro ser com tão alto preço. Que criatura, a não ser o homem, não se guia por sua ordem natural? Causam-me mais problemas que as demais criaturas. Igualmente os criei como vocês, para que me louvem e glorifiquem. Fiz um Adão para que me honrasse e dei-lhe um corpo para que fosse seu templo espiritual e coloquei nele uma alma como de um belo Anjo, porque a alma humana é de virtude e força angelicais. Neste templo, Eu, seu Deus e Criador, fui seu terceiro companheiro para que ele desfrutasse e se deleitasse em mim, pois, em seguida, lhe fiz um outro templo similar de sua costela.
Agora, esposa minha, para quem dispusemos tudo isso, pode perguntar: ‘Como foram ter filhos se não tiveram pecado?’ Respondo-lhe: O sangue do amor semeou sua semente no corpo da mulher sem nenhuma luxúria vergonhosa, mediante o amor divino, o afeto mútuo e o intercâmbio sexual que tiveram um pelo outro e, assim, a mulher se fez grávida. Uma vez concebido o filho sem pecado ou prazer luxurioso, Eu infundi uma alma de minha divindade nele e a mulher gerou assim o filho e o deu à luz sem dor. O menino nasceu perfeito como Adão. Mas ele desprezou esse privilégio ao permitir que o demônio condicionasse uma maior glória da que eu lhe havia proporcionado.
Por trás de seu ato de desobediência, meu Anjo veio a eles e por isso se envergonharam de sua nudez. Neste momento, experimentaram a concupiscência da carne e, assim, sofreram fome e sede. Também me perderam. Antes, quando me tinham, não sentiam fome, nem desejo carnal, nem vergonha e somente Eu era todo seu bem, seu prazer e perfeito deleite. Depois que o demônio se alegrou por sua perdição e queda, comovi-me por eles com dor e não os abandonei, mas lhes mostrei uma grande misericórdia. Vesti sua nudez, dei-lhes pão da terra e, pela mudança da sensualidade que o demônio gerou neles por trás de seus atos de desobediência, infundi almas em suas sementes, através do meu poder divino.
Também converti tudo o que o demônio lhe sugeriu em algo para seu bem. Depois lhe mostrei como viver e como serem dignos de mim. Dei-lhes permissão para terem relações lícitas e o havia feito antes, mas eles estavam paralisados de medo e temerosos de unir-se sexualmente. Igualmente, quando Abel foi morto e estiveram condoendo-se por muito tempo mantendo abstinência, fui movido pela compaixão e os confortei. Quando se lhes fiz saber minha vontade, começaram de novo a ter relações e a procriar. Prometi-lhes que Eu, o Criador, nasceria de sua descendência. À medida que cresceu a maldade dos filhos de Adão, mostrei a justiça aos pecadores e a misericórdia a meus eleitos. Assim me comprazi, os preservei da perdição e os criei, porque mantiveram meus mandamentos e acreditaram nas minhas promessas. Quando chegou o momento da minha misericórdia, permiti que minhas poderosas obras fossem conhecidas através de Moisés e salvei meu povo, segundo o que havia dito. Os alimentei com o maná e caminhei à frente deles em uma coluna de nuvem e fogo. Dei-lhes minha Lei e lhes revelei meus mistérios e o futuro mediante meus profetas.
Depois disso, Eu, Criador de todas as coisas, elegi para mim uma Virgem nascida de um pai e uma mãe. Com ela, assumi a carne humana e aceitei nascer dela sem relações sexuais nem pecado. O mesmo que aqueles primeiros filhos haviam nascido no paraíso através do mistério do amor divino e do amor e afeto mútuo de seus pais, sem nenhuma luxúria vergonhosa, assim, minha divindade adotou uma natureza de uma Virgem, gerada sem sexo e sem dano a sua virgindade. Ao assumir a carne, Eu, verdadeiro Deus e Homem, cumpri a Lei e todas as escrituras, tal como antes se havia profetizado sobre mim.
Introduzi uma nova Lei, porque a antiga havia sido restrita e difícil de cumprir e não foi mais que um molde do que havia de fazer no futuro. Na antiga Lei havia sido lícito pra um homem ter várias mulheres de forma que as gerações vindouras não ficaram sem filhos ou tiveram que unir-se aos gentios. Na minha nova Lei, se ordena ao marido que tão somente tenha uma esposa e o proíbe, durante o tempo que ela viver, de ter várias mulheres. Aqueles que se unem sexualmente mediante o amor e temor divino, pelo bem da procriação, são um templo espiritual onde eu desejo morar como o terceiro companheiro desse casal.
Todavia, as pessoas destes tempos se unem em matrimônio por sete razões. Primeiro, pela beleza facial; segundo, pela riqueza; terceiro, pelo prazer grosseiro e gozo indecente que experimentam na relação sexual; quarto, pelas festas e glutonaria descontrolada; quinto, porque aflora o orgulho no vestir, no comer, nas distrações e em outras futilidades; sexto, para ter retornos, mas não para Deus nem para as boas obras senão para o enriquecimento e honra; sétimo, se unem pela luxúria e pelo luxurioso apetite das bestas. Estas pessoas se unem ante a porta de minha Igreja com acordos e harmonia, mas seus sentimentos e pensamentos internos são completamente opostos aos meus.
Em lugar de minha vontade, preferem sua própria que se inclina por comprazer ao mundo. Se todos os seus pensamentos se dirigissem a mim e se confiassem sua vontade em minhas mãos e casassem no temor divino, então lhes daria minha aprovação e Eu seria seu terceiro companheiro. Mas, agora, apesar de estar em sua cabeça, não conseguem minha aprovação porque têm mais luxúria em seu coração do que amor por mim. Sobem ao altar e ali ouvem que deveriam ser um só coração e mente, mas meu coração se aparta deles porque não possuem o calor de meu coração e não conhecem o sabor de meu corpo.
Eles buscam um calor perecível e uma carne que é comida pelos vermes. Assim, estas pessoas se unem em matrimônio sem o laço da união de Deus Pai, sem o amor do Filho e sem o consolo do Espírito Santo. Quando o casal chega à cama, meu Espírito o abandona, pois lhes acerca o espírito da impureza, porque tão somente se unem na luxúria e não argumentam nem pensam em nada mais. Mas, ainda, minha misericórdia pode estar com eles sem se converterem, porque Eu, amorosamente, coloco uma alma vivente, criada por meu poder, em sua semente. Às vezes, permito que os maus pais tenham bons filhos, mas é mais freqüente que nasçam maus filhos de maus pais, pois estes filhos imitam a iniqüidade de seus pais tanto quanto podem e lhes imitariam ainda mais se minha paciência permitisse. Um casal assim nunca verá meu rosto, a menos que se arrependa, porque não há pecado tão grave que não possa ser limpo pela penitência.
Falarei agora do matrimônio espiritual, que é apropriado que Deus contraia com corpos puros e almas castas. Nele, há sete benefícios, que são os opostos dos males mencionados acima. Nele não há desejo de beleza de formas ou formosura corporal nem de vistas prazerosas, senão tão somente a visão e o amor de Deus. Tampouco há, em segundo lugar, nenhum desejo de possuir nada nem acima nem mais do que o necessário que se exige para viver sem excesso. Terceiro, os esposos evitam as conversas frívolas e ociosas. Quarto, não lhes preocupa reunir-se com amigos ou parentes porque Eu sou o único que eles amam e desejam.
Quinto, mantêm uma humildade interior em sua consciência e também externamente em sua forma de vestir. Sexto, nunca têm vontade alguma de conduzir-se pela luxúria. Sétimo, geram filhos e filhas para Deus, por meio de seu bom comportamento e bom exemplo e mediante o aconselhamento de palavras espirituais. Assim, ao preservar sua fé intacta, se unem ante a porta da minha Igreja, onde me dão sua aprovação e Eu lhes dou a minha. Sobem ao meu altar e desfrutam do deleite espiritual de meu corpo e de meu sangue. Deleitando-se com eles, desejam ser um coração, um corpo e uma vontade e Eu, verdadeiro Deus e Homem, poderoso sobre o Céu e a Terra, serei seu terceiro companheiro e encherei seus corações.
Aqueles casais mundanos desejam que seu apetite pelo matrimônio se baseie na luxúria das bestas e, muitas vezes, pior que as bestas! Estes esposos espirituais fundamentam sua união no amor e temor a Deus e não desejam comprazer com ninguém mais que a mim. O espírito do mal enche os primeiros e os incita ao deleite carnal onde não há nada mais que podridão. Os últimos se enchem de meu Espírito e se inflamam com o seu fogo divino que nunca falhará.
Eu sou um Deus em três pessoas. Sou uma mesma substância com o Pai e o Espírito Santo. Assim com é impossível para o Pai estar separado do Filho e para o Espírito Santo estar separado de ambos, assim como é impossível que o calor esteja separado do fogo, igualmente é impossível para estes esposos espirituais estarem separados de mim. Eu estou com eles como seu terceiro companheiro. Meu corpo foi ferido uma vez e morreu na Paixão, mas nunca mais será ferido nem morrerá. De igual forma, aqueles que se erguerem a mim através de uma fé reta e uma vontade perfeita nunca morrerão em mim. Onde quer que estejam, se sentados ou caminhando, estarei com eles como seu terceiro companheiro”.
Palavras da Mãe à esposa sobre três coisas em uma dança; sobre como esta dança simboliza o mundo e sobre o sofrimento da Mãe na morte de Cristo.
Capítulo 27
A Mãe de Deus falou à esposa: “Filha minha, quero que saiba que onde há dança há três coisas: alegria vazia, vozes confusas e trabalhos sem sentido. Se alguém entra no ambiente angustiado e triste, então um amigo que se encontra em pleno desfrute da dança, mas vê seu amigo entrando triste e melancólico, deixa imediatamente sua diversão, abandona a dança e se condoliza com seu amigo angustiado. Esta dança é o mundo, que sempre se encontra pego por uma ansiedade que, de forma tola, se parece gozo, mas é uma alegria vazia. Neste mundo há três coisas: alegria vazia, palavreado frívolo e trabalho sem sentido, porque um homem há de deixar para trás tudo aquilo em que trabalhou.
Quem, na plenitude desta dança humana, vai considerar minhas fadigas e angústias e vai se consolidar comigo – que abandone todo gozo mundano – e vá apartar-se do mundo? Quando meu Filho morreu, eu era uma mulher com o coração transpassado com cinco espadas. A primeira foi sua vergonhosa nudez. A segunda espada foi a acusação contra Ele, pois lhe acusaram de traição, de falsidade e de deslealdade. Ele, quem eu sabia que era justo e honesto e que nunca ofendeu e nem quis ofender a ninguém. A terceira espada foi sua coroa de espinhos que perfurou sua sagrada cabeça tão selvagemente que o sangue escorreu até sua boca, sua barba e seus ouvidos. A quarta espada foi sua voz fraca, prestes a morrer na cruz, com a qual gritou ao Pai dizendo: ‘Pai, porque me abandou?’ Era como se dissesse: ‘Pai, ninguém se apieda de mim, somente você’. A quinta lança que cortou meu coração foi sua amarguíssima morte.
Seu preciosíssimo sangue se derramava tanto quanto espadas transpassavam meu coração. As veias de suas mãos foram perfuradas e a dor de seus nervos afetados chegava até seu coração e seu coração também se virava a recorrer as suas terminações nervosas. Seu coração era forte e vigoroso, ao ter sido dotado de uma boa constituição, isto fazia com que sua vida resistisse lutando contra a morte e que sua amargura se prolongasse ainda mais no cúmulo de sua dor. À medida que sua morte se aproximava e seu corpo chegava ao máximo ante tanta dor insuportável, de repente todo seu corpo se convulsionou e sua cabeça, que ia para trás a todo momento, pareceu erguer-se de uma maneira diferente. Abriu levemente seus olhos semi-fechados e por vez abriu sua boca de forma que pude ver sua língua ensangüentada. Seus dedos e braços, que estavam muito contraídos, se esticaram.
Nada mais houve depois disso e, assim, entregou seu Espírito e sua cabeça abaixou-se sobre seu peito. Suas mãos correram um pouco em relação ao lugar das feridas e seus pés tiveram que suportar a maior parte do peso. Então, minhas mãos ficaram secas, meus olhos se fecharam em escuridão e meu rosto ficou pálido como a morte. Meus ouvidos não ouviam nada, meus lábios não podiam articular palavra alguma, meus pés não me sustentavam e meu corpo caiu ao chão.
Quando me levantei e vi meu Filho com um aspecto pior que um leproso, lhe entreguei toda minha vontade, sabendo que tudo havia ocorrido segundo a sua e que nada disso teria sucedido sem que Ele não houvesse permitido. Dei-lhe graças por tudo e certo júbilo se misturou em minha tristeza porque vi que Ele, que nunca havia pecado e por seu grandiosíssimo amor, quis sofrê-lo todo pelos pecadores. Que estes que estão no mundo possam contemplar o que passei quando morreu meu Filho e que sempre o tenham em sua memória!”
Palavras do Senhor à esposa descrevendo como foi julgado um homem ante o tribunal de Deus e sobre a terrível sentença ditada sobre ele por Deus e por todos os Santos.
Capítulo 28
A esposa viu que Deus estava enojado e Ele disse: “Eu sou sem princípio e fim. Não há mudança em mim nem de anos ou dias. Todo o tempo do mundo é como uma só hora ou momento para mim. Todos aqueles que me vêem, contemplam e entendem tudo o que existe em mim em um instante. Todavia, esposa minha, ao estar você em um corpo material, não pode perceber nem conhecer como um espírito conhece. Por isso, para seu bem, explicarei a você o que sucedeu. Eu estava, por assim dizer, sentado no tribunal para julgar, porque todo julgamento me é sido dado, e certa pessoa veio a ser julgada ante o tribunal.
A voz do Pai ressoou e lhe disse: ‘Mais valeria a você não ter nascido’. Não porque Deus se arrependesse de criá-lo, senão como qualquer um que sinta preocupação por outra pessoa e se compadecesse dela. A voz do Filho interveio: ‘Eu derramei meu sangue por você e aceitei uma duríssima penitência, mas você afastou-se completamente e isso já não tem nada a ver com você’. A voz do Espírito disse: Eu busquei por todos os rincões do seu coração para ver se poderia encontrar algo de ternura e caridade, mas é tão frio como o gelo e tão duro como uma pedra. Este homem não me concerne’. Estas três vozes foram ouvidas como se fossem três Deuses, foram feitas audíveis para você, esposa minha, porque de outra forma não poderia compreender este mistério.”
As três vozes, do Pai, Filho e Espírito Santo, se transformaram imediatamente em uma só voz que retumbou e disse: “De nenhuma maneira merece o reino dos Céus!” A Mãe de Deus permaneceu em silêncio e não desprendeu sua misericórdia, pois o defendido não era digno dela. Todos os Santos clamaram a uma voz dizendo: “É justiça divina para ele ser perpetuamente exilado de seu Reino e de seu gozo”. Todos no purgatório disseram: “Não temos uma penitência suficientemente dura para purificá-lo de seus pecados. Terá que suportar maiores tormentos e, portanto, tem que ser apartado de nós”. Então, o homem, defendendo-se, exclamou com uma voz horrenda: “Ai, ai da semente que me fecundou no ventre de minha mãe e que dela eu me formei!”
Uma segunda vez exclamou: “Maldita a hora em que minha alma se uniu a meu corpo e maldito aquele que me deu um corpo e uma alma!” Então, chegaram três vozes horríveis do inferno que lhe disseram: “Vem conosco, alma maldita, como o líquido que se derrama até a morte perpétua e vive sem fim!” Uma segunda vez, as vozes o envolveram e o chamaram: “Vem, alma maldita, vazia por sua maldade! Nenhum de nós deixará de encher você de seu próprio mal e dor!” Em uma terceira vez assim disseram: “Vem, alma maldita, pesada como uma pedra que afunda e nunca alcança o fundo onde deveria descansar! Descerá mais baixo que nós e não parará até que tenha chegado ao mais profundo abismo”.
Então, o Senhor disse: “Como um homem com várias esposas, ao ver cair uma se aparta dela, se volta para as outras que permanecem firmes e se alegra com essas, assim Eu apartei dele meu rosto e minha misericórdia e me voltei para os que me servem e me obedecem e, assim, me alegro com eles. Portanto, agora que você sabe de sua queda e desgraça, sirva-me com maior sinceridade do que ele, em proporção à maior misericórdia que lhe dispenso! Aparte-se do mundo e de seus desejos! Acaso aceitei tão áspera Paixão pela glória do mundo a troco de nada? Acha que eu não podia consumá-la em menos tempo e com mais facilidade? Claro que podia! Contudo, a justiça exigia isso. Como a humanidade pecou em todos e cada um de seus membros, tive que executar minha justiça em todos e cada um dos membros.
Por isso, Deus, em sua compaixão pela humanidade e em seu ardente amor se fez na Virgem, recebeu dela uma natureza humana através da qual pude suportar todo o castigo que estava toda a humanidade. Ao haver tomado sobre mim seu castigo, por amor, permaneça firme na verdadeira humildade, como meus servos, assim, não terá nada de que envergonhar-se nem nada que temer mais que a mim! Guarda suas palavras de tal forma que, se essa fosse minha vontade, você não falaria. Não se entristeça pelas coisas temporais que são somente passageiras. Eu posso fazer, a quem quiser, rico ou pobre. Assim, pois, esposa minha, deposita toda sua esperança em mim!”
EXPLICAÇÃO
Esse homem era um canônico de nobre reputação e diácono que, ao obter uma falsa dispensa, quis casar-se com uma rica donzela. Contudo, foi surpreendido por uma morte repentina e não conseguiu seu objetivo.
Palavras da Virgem à filha sobre duas senhoras, uma que se chamava “soberba” e a outra “humildade”, simbolizando esta última como a mais doce das Virgens e sobre como a Virgem comparece e une-se a aqueles que a amam e, também, a hora de sua morte.
Capítulo 29
A Mãe de Deus se dirigiu à esposa de seu Filho dizendo: “Há duas senhoras. Uma delas não tem um nome especial, mas não merece nome; a outra é a humildade e se chama Maria. O diabo é o mestre da primeira senhora porque tem domínio sobre ela. Um de seus cavaleiros disse a essa dama: ‘Senhora minha, estou disposto a fazer o que puder por você, se puder copular comigo a menos uma vez. Sou poderoso, forte e tenho um coração valente, não temo nada e estou até disposto a morrer por você’. Ela lhe contestou: ‘Servo meu, seu amor é grande. Todavia, eu estou sentada em um trono muito alto, tão somente tenho um assento e há três portas entre nós.
A primeira porta é tão estreita que qualquer prenda que um homem leve sobre seu corpo enroscará e rasgará deixando um buraco. A segunda porta é tão afiada que corta até as fibras nervosas. A terceira arde com um fogo tal que ninguém escapa de seu ardor sem ficar derretido como o cobre. Ademais, estou sentada tão alto que qualquer um que queira sentar-se comigo – ao ter eu somente um trono – cairia nas grandes profundidades do chão debaixo de mim’. O diabo lhe respondeu: ‘Darei minha vida por ti, pois uma queda não representa nada para mim’.
Esta senhora é a sabedoria e qualquer um que quiser chegar a ela passará, como que, por três portas. Pela primeira porta entram aqueles, levados por sua soberba, que dão tudo o que têm para receber honras humanas e, se não possuem nada, mudam toda sua vontade em viver com orgulho e colher elogios. Pela segunda porta entra a pessoa que dedica todo seu trabalho e tudo o que faz, todo seu tempo, todos seus pensamentos e toda sua força para satisfazer sua soberba. E ainda, se tiver que deixar que firam seu corpo para conseguir honras e riquezas, o faria com gosto. Pela terceira porta entra a pessoa que nunca se cala e nem se aquieta senão que arde como o fogo com o pensamento de como conseguir alguma honra mundana ou posição de sabedoria, mas quando obtém o que deseja, não pode permanecer muito tempo no mesmo estado, senão, termina caindo miseravelmente. Apesar de tudo isso, a sabedoria ainda permanece no mundo.

Eu sou – disse Maria – a mais humilde. Estou sentada em um trono espaçoso. Sobre mim não há sol, nem lua, nem estrelas e nem sequer nuvens senão um brilho inconcebível e uma calma maravilhosa da clara beleza da majestade de Deus. Abaixo de mim não há terra nem pedra, somente um incomparável descanso na bondade de Deus. À minha volta não há barreiras nem paredes, pois estou cercada da gloriosa corte dos Anjos e das almas dos Santos. Porém, estou sentada em um trono sublime, ouço meus filhos que vivem na Terra, entregando-me diariamente seus suspiros e suas lágrimas. Vejo suas lutas e sua eficácia, que é maior do que aquela daqueles que lutam por sua senhora, a sabedoria. Por isso, os visitarei e os reunirei comigo em meu trono, porque este é grande e há muito espaço para todos.
Todavia, não podem vir e sentar-se comigo porque há ainda dois muros entre eles e eu, mediante os quais os conduzirei confiadamente para que possam chegar até meu trono. O primeiro muro é o mundo e ele é estreito. Assim, meus servos no mundo receberão consolação de minha parte. O segundo muro é a morte. Por isso, eu, sua mais querida Senhora e Mãe, comparecerei para unir-me com eles na morte de maneira que ainda na mesma morte possam sentir meu refrigério e consolo. Os reunirei comigo no trono da alegria celestial de maneira que, no gozo sem fim, possam descansar eternamente nos braços do amor perpétuo e da glória eterna”.
Amorosas palavras do Senhor à esposa sobre como se multiplica o número de falsos cristãos até o ponto de estarem voltando a crucificar Cristo e sobre como Ele ainda está disposto a aceitar a morte, uma vez mais, pela salvação dos pecadores, se fosse possível.
Capítulo 30
Eu sou Deus. Criei todas as coisas para o benefício da humanidade, para que tudo lhe servisse e instruísse. Mas, até em sua própria condenação, os seres humanos abusam de tudo que fiz como dádiva para os homens. Para eles, Deus importa menos do que a coisas criadas. Os judeus prepararam três tipos de castigo para mim em minha Paixão: primeiro, a madeira em que fui açoitado e coroado de espinhos, depois foi usada para me pregarem; segundo, com ferro cravaram minhas mãos e meus pés; terceiro, deram-me fel para beber. Além disso, insultaram-me com blasfêmias como se Eu fosse um tolo ao suportar a morte que livremente aceitei e me chamaram de falso devido a meus ensinamentos.
O número desse tipo de pessoa tem multiplicado pelo mundo nestes tempos e há muito poucos que me consolam. Penduram-me no madeiro por seu desejo de pecar, açoitam-me com sua impaciência, pois ninguém suporta mais nem uma palavra minha e coroam-me com os espinhos de sua soberba que fazem o que querem para chegar mais alto que Eu. Cravam minhas mãos e pés com o ferro de seus corações endurecidos, visto que se gloriam em pecar e se endurecem tanto que não me temem. Pelo fel, oferecem-me tribulações e, por haver sofrido minha Paixão com alegria, me chamam de falso e vaidoso. Sou suficientemente poderoso para arruiná-los por causa de seus pecados e também o mundo inteiro se assim quisesse.
Todavia, se lhes arruinasse, os que ficassem me serviriam por medo e isso não seria correto porque as pessoas devem servir-me por amor. Se viessem pessoalmente e se unissem a mim, de uma forma visível, enxergariam, mas seus olhos não suportariam o verme de seus pecados e nem seus ouvidos escutariam minha voz corretamente, contudo, como poderia um ser mortal ver um outro imortal? Apesar de tudo, voltaria a morrer pela humanidade se fosse possível”.

Então, apareceu a bendita Virgem Maria e seu Filho lhe perguntou: “Que deseja, minha Mãe, minha eleita?” E ela disse: “Tenha misericórdia de sua criação, meu Filho, por seu amor!” Ele replicou: “Serei misericordioso uma vez mais, por você”. Então, o Senhor falou a sua esposa, dizendo-lhe: “Eu sou seu Deus, o Senhor dos Anjos. Sou Senhor da vida e da morte. Eu mesmo desejo habitar em seu coração, pois a amo tanto! Os Céus e a Terra e tudo o que está nela não podem me conter, mas apesar disso desejo habitar seu coração que não é mais que um pedaço de carne. Por que você teme o que possa faltar quando, em seu interior está Deus todo poderoso em quem se encontra toda a bondade?
Deve haver três coisas em um coração para que me sirva de morada: uma cama em que possamos descansar, um assento onde possamos nos sentar e uma lâmpada para que nos dê luz. Haja, pois, em teu coração uma cama para um sereno repouso onde possa descansar dos pensamentos vis e desejos do mundo! Lembre-se sempre do gozo eterno! O assento há de ser sua intenção de permanecer comigo, mesmo que, às vezes, tenha que sair. Iria contra a natureza se permanecesse continuamente em pé. A pessoa que está sempre de pé é a que sempre deseja estar no mundo e nunca vem sentar-se comigo. A luz da lâmpada há de ser a fé, mediante a qual crê que Eu posso fazer qualquer coisa e que sou todo poderoso sobre todos as coisas”.
Sobre como a esposa viu a dulcíssima Virgem Maria adornada com uma coroa e outros adornos de extraordinária beleza e sobre como São João Batista explicou à esposa o significado da coroa e das demais coisas.
Capítulo 31
A esposa viu a Rainha dos Céus, a Mãe de Deus, usando uma preciosa e radiante coroa sobre sua cabeça, com seu cabelo extraordinariamente belo e solto sobre seus ombros, uma túnica dourada com lampejos de um brilho indescritível e um manto azul de um Céu claro e calmo. Estando a esposa tomada de maravilhas ante esta amorosa visão e mantendo-se em seu encantamento como sobressaltada de gozo interior, apareceu-lhe o bendito São João Batista e lhe disse: “Preste muita atenção ao que tudo isso significa.
A coroa representa que ela é a Rainha, Senhora e Mãe do Reino dos Anjos. Seu cabelo solto indica que é uma virgem pura e imaculada. O manto da cor do céu quer dizer que ela está morta a tudo o que é temporal. A túnica dourada significa que ela esteve ardente e inflamada no amor de Deus, tanto internamente como em seu exterior.
Seu Filho colocou sete lírios em sua coroa e, entre eles, sete pedras preciosas. O primeiro lírio é sua humildade; o segundo, o temor; o terceiro, a obediência; o quarto, a paciência; o quinto, a firmeza; o sexto, a mansidão, pois ela amavelmente dá a todos o que lhe pedem; o sétimo é sua misericórdia nas necessidades, pois, em qualquer contrariedade em que se encontre um ser humano, se a invocar com todo seu coração, será resgatado.
Entre estes lírios replandescentes, seu Filho colocou sete pedras preciosas. A primeira é sua extraordinária virtude, pois não existe virtude em nenhum outro espírito nem em nenhum outro corpo que ela não possua com maior excelência. A segunda pedra preciosa é sua perfeita pureza, pois a Rainha dos Céus é tão pura que nem uma só mancha de pecado nunca se fez encontrada nela desde o princípio quando veio ao mundo pela primeira vez até o dia de sua morte.
Todos os demônios juntos não poderiam encontrar nela nem a mínima impureza que coubesse na cabeça de um alfinete. Ela foi verdadeiramente pura, pois o Rei da Glória não poderia ter estado se não na mais pura e limpa, no vaso mais seleto entre os seres humanos. A terceira pedra preciosa foi sua beleza, para que Deus seja constantemente louvado pela beleza de sua Mãe. Sua beleza enche de gozo os Santos Anjos e todas as almas santas.
A quarta pedra preciosa da coroa da Virgem Mãe é sua sabedoria, pois ela foi agraciada com toda a divina sabedoria em Deus e, graças a ela, toda sabedoria se completa e se aperfeiçoa. A quinta pedra é poder, pois ela é tão poderosa ante Deus que pode esmagar qualquer coisa que foi feita ou criada.
A segunda pedra preciosa é sua radiante claridade, pois ela resplandece tão clara que projeta luz sobre os Anjos, cujos olhos brilham mais claros que a luz e os demônios não se atrevem nem a olhar o brilho de sua claridade. A sétima pedra preciosa é a plenitude de todo deleite e doçura espiritual, porque sua plenitude é tal que não há gozo que nela não seja incrementado, nem deleite que não se faça mais pleno e perfeito por ela e pela bendita visão que alguém possa ter dela, pois está cheia e repleta de graças, mais que todos os santos.
Ela é o vaso puro onde descansa o pão dos Anjos e é nele que se encontra toda doçura e beleza. Estas são as sete pedras preciosas que seu Filho colocou entre os sete lírios de sua coroa. Por isso, como esposa de seu Filho, dá-lhe honra e louvores com todo seu coração, pois Ela é verdadeiramente digna!”
Sobre como, atrás do conselho de Deus, a esposa elege a pobreza para si e renuncia as riquezas e desejos carnais; sobre a verdade das coisas reveladas a ela e sobre três pessoas notáveis mostradas por Cristo.
Capítulo 32
Você será como alguém que se desprende do mundo e, por sua vez, colherá tais frutos com alegria. Tem que desprender-se das riquezas e colher virtudes, deixar aquilo que passará e acumular bens eternos, abandonar as coisas visíveis e se apossar do invisível. Ao contrário do prazer do corpo, dar-lhe-ei a exultação de sua alma; ao contrário das alegrias do mundo, dar-lhe-ei as do Céu; em vez da honra mundana, a honra dos anjos; em vez da presença da família, a presença de Deus; em vez de possuir bens, dar-lhe-ei a mim mesmo, doador e Criador de todas as coisas. Responda, por favor, às três perguntas que formularei: Primeiro, diga-me se quer ser rica ou pobre neste mundo”.
Ela respondeu: “Senhor, prefiro ser pobre, pois as riquezas me criam ansiedade e me distraem ao serví-lo”. Diga-me, em segundo lugar, se você encontrou algo repreensível para sua mente ou falso nas palavras que ouviu de minha boca”. E ela disse: “Não Senhor, tudo é claro e compreensível”. “Terceiro, diga-me se o prazer dos sentidos que você experimentou antes agrada-lhe mais que os gozos espirituais que agora tem”. E ela respondeu: “Em meu coração envergonho-me de pensar em meus deleites anteriores e agora parecem veneno, são tão amargos quanto era meu desejo por eles. Prefiro morrer antes de voltar a eles; não podem se comparar com do deleite espiritual”.
“Portanto, disse ele, se pode comprovar que todas as coisas que lhe disse são certas, por que, então, tem medo ou está preocupada com o fato de eu atrasar tudo o que já disse que se fará? Tome em conta os Profetas, considere os Apóstolos e os Santos Doutores da Igreja! Eles descobriram algo em mim que não foi a verdade? É por isso que, para eles, não importaram nem o mundo nem seus desejos. Ou, por que crê que os profetas predisseram acontecimentos futuros com tanta antecipação se não foi pela vontade de Deus que eles dessem a conhecer as palavras antes dos feitos para que os ignorantes fossem instruídos na fé?
Todos os mistérios de minha encarnação foram concedidos com antecedência aos Profetas, inclusive a estrela que guiou os Magos. Eles creram nas palavras do Profeta e mereceram ver aquilo que haviam crido e lhes dei certeza no momento em que viram a estrela. Da mesma forma agora, minhas palavras deverão ser anunciadas, depois verão os feitos e se crerá neles com maior evidência.
Mostrarei a você três pessoas. Primeiro, um homem cuja consciência está manchada com um pecado manifesto e, o demonstrei por sinais evidentes. Por que? Não poderia fazê-lo destruindo-o pessoalmente? Não poderia tê-lo expulsado para o abismo eterno em um segundo se eu, assim, quisesse? Claro que sim. Mas o suporto ainda para a instrução dos outros e em prova de minhas palavras, mostrando quão justo e paciente que sou e quão infeliz é esse homem que é governado pelo demônio.
O poder do demônio sobre ele aumentou por sua intenção de permanecer no pecado e por seu deleite nele, com o resultado de que nem minhas palavras amáveis nem as duras ameaças ou o medo do Gehenna (do inferno) possam recuperá-lo. E, também, em justiça, porque ele teve uma constante intenção de pecar, mas, ainda sim, não o havia colocado em prática, por isso, merece ser enviado ao demônio por toda a eternidade. O mínimo pecado é suficiente para condenar a quem se deleita nele e não se arrepende.
Mostrarei agora os outros dois. O demônio atormentou a carne de um deles, mas não chegou a entrar em sua alma. Escureceu sua consciência mediante suas maquinações, mas não pôde entrar em sua alma nem adquirir poder sobre ele. Você pode perguntar: ‘Acaso não é a consciência o mesmo que a alma? Não está ele na alma quando está na consciência?’ Não. O corpo possui dois olhos para ver, mas, ainda, perdendo o poder da vista, o corpo pode manter-se são. Acontece o mesmo com a alma. Ainda que o intelecto e a consciência, às vezes, se perturbam na confusão com medo da penitência, ainda assim, a alma nem sempre fica ferida de maneira que incorra na culpa. Assim, pois, o demônio dominou a consciência de um homem, mas não sua alma.
Mostrarei ainda um terceiro homem cujo corpo e alma estão completamente sujeitos ao demônio. A menos que o coaja com meu poder e graça especiais, nunca poderá ser expulso nem sair dele. O demônio sai de algumas pessoas por vontade e disposição próprias, mas de outras sai tão somente pela resistência e baixa coação. Acontece ainda em algumas pessoas, bem devido ao pecado de seus pais ou por algum desígnio de Deus – como, por exemplo, em crianças ou naqueles que carecem de inteligência – em outros entra por sua infidelidade e pelo pecado alheio.
Desses últimos, o demônio sai voluntariamente quando é expulso por pessoas que conhecem conjuros ou a arte de expulsar demônios, sempre que o fazem sem vã glória ou por algum tipo de benefício temporal, pois o demônio tem poder para entrar naquele que o expulsa ou voltar de novo para a mesma pessoa de onde saiu, se não houver amor de Deus em nenhum deles. Nunca sai do corpo ou da alma daqueles que os possuem completamente, exceto mediante meu poder.
Como o vinagre que, quando se mistura com o vinho doce, infecta a doçura do mesmo e já não pode mais ser separado novamente, igualmente o demônio não sai da alma de ninguém a quem possua, exceto mediante meu poder. Quem é este vinho senão a alma humana, que foi mais doce para mim que nenhum outro ser criado, e tão querida que inclusive deixei que minha carne fosse cortada e meu corpo machucado até as costelas por sua salvação? Antes de perdê-la, aceitei morrer por ela.
Este vinho foi conservado entre os resíduos, igualmente, coloquei a alma em um corpo onde foi guardado, como em uma urna selada, pela minha vontade. Todavia, o pior vinagre se misturou com este vinho doce, estou me referindo ao demônio, cuja maldade é mais azeda e abominável para mim que o vinagre. Por meu poder, este vinagre será eliminado da pessoa cujo nome direi, de maneira que possa Eu revelar assim minha graça e sabedoria através dele, mas mostrarei meu juízo e minha justiça através do homem que acabo de lhe falar.
EXPLICAÇÃO
O primeiro homem foi um nobre e soberbo cantor, que acudiu Jerusalém sem a permissão do Papa e foi atacado pelo demônio. (Fala-se também algo deste endemoniado no Livro III, capítulo 31 e no Livro IV, revelação 115). O segundo endemoninhado foi um monge cisterciense. O demônio o atormentou tanto que podia apenas ser dominado por quatro homens. Sua língua era longa e anormal e assemelhava-se a de uma vaca. Os grilhões de suas mãos foram feitos em pedaços de forma invisível.
Este homem foi salvo pelas palavras do Espírito Santo através da Senhora Brígida ao cabo de um mês e dois dias. O terceiro endemoninhado era um vereador de Östergötland (Suécia). Quando lhe recomendou que fizesse penitência, disse-lhe a quem o aconselhou: “Não pode um dono de uma casa sentar-se onde quiser? Se o demônio possuir meu coração e minha língua como posso fazer penitência?” Maldizendo os Santos de Deus, morreu naquela mesma noite sem os sacramentos ou confissão.
Advertências do Senhor à esposa em relação com a verdadeira e falsa sabedoria e sobre como os bons Anjos ajudam os bons aprendizes, enquanto que os demônios o fazem em relação aos maus aprendizes.
Capítulo 33
Alguns dos meus amigos são como estudantes com três características: uma inteligência maior do que é natural ao cérebro para discernir, uma sabedoria sem ajuda humana, tanta, pois, que eu lhes ensino interiormente e estão sempre cheios de doçura e amor divino com as quais derrotam o demônio. Mas hoje em dia, as pessoas abordam seus estudos de outra maneira. Primeiro, buscam o conhecimento com arrogância para serem considerados bons alunos. Segundo, buscam o conhecimento para manter e obter riquezas.
Terceiro, buscam o conhecimento para alcançar honras e privilégios. Por isso, quando comparecem em suas escolas e entram ali, apartar-me-ei dessas almas, pois estudam por orgulho mesmo eu lhes ensinando a humildade. Entram por cobiça, quando eu não tive nem onde repousar a cabeça. Entram para obter privilégios e invejam os outros por estarem situados em lugares mais altos que eles, enquanto que Eu fui sentenciado por Pilatos e enganado por Herodes. É por isso que os abandono, porque não estudam meus ensinamentos. Todavia, como sou bondoso e amável, dou a cada um o que pedem. Se me pedem pão, dou-lhes pão e se me pedem palha dou-lhes palha.
Meus amigos pedem pão, porque buscam e estudam a divina sabedoria, onde se pode encontrar meu amor. Outros, ao contrário, pedem palha, ou seja, sabedoria mundana. Igual a palha, não serve para nada e é o alimento dos animais irracionais, da mesma forma, não há nenhum uso na sabedoria do mundo que sirva de alimento para a alma. Não há nada mais que uma pequena reputação e esforço sem sentido, pois quando um homem morre, todo seu conhecimento se apaga da existência e aquilo no qual empregaram-se para exaltarem-se já não podem ver. Eu sou um grande Senhor com muitos servos que, por meio de seu Senhor, distribuem às pessoas o que necessitam.
Desta forma, os Anjos bons e os maus permanecem abaixo de minha autoridade. Os Anjos bons ajudam as pessoas que estudam meu conhecimento, ou seja, aqueles que me servem, nutrindo-lhes de consolações e do desfrute de seu trabalho. Os anjos maus ajudam os sábios do mundo. Os inspiram no que eles querem e lhes formam segundo seus desejos, inspirando-lhes especulações junto com grande quantidade de trabalho. Ainda assim, se voltarem seus olhos para mim, poderia dar-lhes o pão que não tiveram por seu esforço e o bastante do mundo como para saciar-lhes o que nunca podem saciar, pois eles mesmos convertem o que é doce em amargo.
Mas você, esposa minha, deve ser como um queijo e seu corpo como o molde, no qual o queijo se molda até que fica na forma do molde. Desta forma, sua alma, que é para mim tão deliciosa e saborosa como o queijo, deve ser provada e purificada no corpo o tempo suficiente para que o corpo e a alma se ponham de acordo e para que ambos mantenham a mesma forma de continência, de maneira que a carne obedeça ao espírito e o espírito guie a carne até a virtude.
Instruções de Cristo à esposa sobre a forma de viver. Também sobre como o demônio admite ante Cristo que a esposa ama a Cristo sobre todas as coisas; sobre a pergunta que o demônio fez a Cristo questionando por que a ama tanto e sobre a caridade que Ele tem para com a esposa e como o diabo descobre isso.
Capítulo 34
Sou o Criador do Céu e da terra e nas entranhas da Virgem Maria fui verdadeiro Deus e homem que morreu, ressuscitou e subiu aos Céus. Você, esposa minha, chegou a um lugar desconhecido e, por isso, precisa aprender quatro coisas: Primeiro, o idioma do lugar; segundo, como se vestir adequadamente; terceiro, como organizar seus dias e seu tempo segundo os hábitos do lugar; quatro; acostumar-se a uma nova alimentação.
Igual aos que vieram da instabilidade do mundo para a estabilidade, você deve aprender um novo idioma, ou seja, como abster-se de palavras inúteis e ainda das mais legítimas, devido à importância do silêncio e da quietude. Deve se vestir de humildade interior e exterior, de forma que, nem se exalte interiormente por crer que seja mais santa que outros, nem exteriormente se sinta envergonhada de atuar publicamente com humildade. Terceiro, seu tempo deve ser regulado de maneira que, igual aos pequenos acostumados a dedicar tempo às necessidades do corpo, agora você só tem tempo para a alma e nunca queira pecar contra mim.
Quarto, sua nova alimentação é a prudente abstinência da glutonaria e dos manjares tanto quanto você puder suportar em sua constituição natural. Os atos de abstinência que excedem a capacidade de natureza não me agradam, pois Eu exijo racionalidade e submissão dos desejos.”
Neste momento apareceu o demônio. O Senhor lhe disse: “Você foi criado por mim e viu em mim toda justiça. Diga-me se esta nova esposa é legitimamente minha por direito! Permito-lhe que veja e entenda seu coração para que saiba como me contestar! Ela ama algo mais que a mim ou me trocaria por algo?” O demônio lhe respondeu: “Ela não ama nada como a você. Antes que perdê-lo, se submeteria a qualquer tormento, sempre que lhe der a virtude da paciência. Vejo, como um veículo de fogo descendo de você até ela, que prende tanto seu coração que ela não pensa nem ama nada mais que a você somente”.
Então, o Senhor disse ao demônio: “Diga que sente seu coração e se gosta do grande amor que sinto por ela”. O diabo respondeu: “Tenho dois olhos, um corporal – mesmo não sendo corpóreo – por meio do qual percebo as coisas temporais tão claramente que não há nada escondido nem tão escuro que se possa esconder de mim. O segundo olho é espiritual e com ele vejo toda dor mesmo que seja muito leve e posso entender de que pecado pertence. Não há pecado, por mais tênue e leve que seja, que eu não possa ver a menos que tenha sido purgado pela penitência. Apesar de que não há órgão mais sensível que os olhos, deixaria que duas tochas ardentes penetrassem neles em troca de que ela não visse com os olhos do espírito. Também tenho dois ouvidos.
Um deles é corporal e ninguém fala tão privadamente que eu não possa ouvir e saber graças a este ouvido. O segundo é o ouvido espiritual e nem os pensamentos nem os desejos de pecar podem ser ocultados a menos que tenham sido apagados com a penitência. Há certos castigos no inferno que são como uma torrente fervendo que jorra de um terrível fogo. Sofreria este fogo dentro e fora dos meus ouvidos sem cessar em troca de que ela deixasse de ouvir com os ouvidos de seu espírito. Também tenho um coração espiritual. Desejaria que o cortassem interminavelmente em pedaços e que se renovasse continuamente para ser cortado de novo se assim seu coração se esfriasse em seu amor por você. Mas, agora, como você é justo, quero fazer uma pergunta: Diga-me, por que a ama tanto e por que não elegeu alguém de maior santidade, riqueza e beleza para você?”
O Senhor respondeu: “Porque isto é o que a justiça demanda. Você foi criado por mim e viu em mim toda a justiça. Agora que ela escuta, diga-me, por que foi justo que você caísse tão baixo e em que pensava quando caiu?” Ele assim falou: “Eu vi três coisas em você: Vi sua glória e honra sobre todas as coisas e pensei em minha própria glória. Em minha soberba, estava disposto não somente a igualar-me a você, mas ser mais que você. Segundo, vi que era o mais poderoso de todos e quis ser mais poderoso do que você. Terceiro, vi o que haveria de ser no futuro e como sua glória e honra não teriam nem princípio nem fim, o invejei e pensei que com gosto seria torturado eternamente com todo o tipo de castigos, se assim, o fizesse morrer. Com tais pensamentos caí e, com isso, criou-se o inferno”.
O Senhor continuou: “Perguntou-me por que amo tanto esta mulher. Asseguro-lhe, é porque Eu transformo em bondade toda sua maldade. Ao tornar-se tão soberbo e não querendo render-me glórias, assim como a todos iguais a você, não entende meus atos, não entende que me humilhando de todas as maneiras, reúno os pecadores comigo e me coloco ante eles, para, assim, compartilhar minha glória. Segundo, por este desejo tão baixo de querer ser mais poderoso que Eu, faço os pecadores mais poderosos que você e compartilho com eles meu poder.
Terceiro, pela inveja que você tem de mim, estou tão cheio de amor que me ofereço a todos. Agora, pois, demônio – continuou o Senhor – teu coração de escuridão saiu da luz. Diga-me, enquanto ela escuta, quanto a amo”. E o demônio disse: “Se fosse possível, você estaria disposto a sofrer em todos e em cada um de seus membros a mesma dor que sofreu na cruz em vez de perdê-la”. Então o Senhor replicou: “Se sou tão misericordioso que não recuso perdoar a ninguém que me peça humildemente, clame você mesmo misericórdia e Eu a darei”.
O diabo lhe respondeu: “Isso não farei de nenhuma maneira! No momento de minha queda foi estabelecido um castigo para cada pecado, para cada pensamento ou palavra indigna. Cada um dos espíritos que caiu terá seu castigo. Antes que ter de dobrar meus joelhos ante você, prefiro tolerar todos os castigos em mim podendo abrir minha boca e gritar durante o castigo e, ainda, ser renovada para sempre minha punição.
Então, o Senhor disse a sua esposa: “Veja que endurecido está o príncipe do mundo e que poderoso é contra minhas graças e justiça! Tenha certeza de que poderia destruí-lo em um segundo por meio do meu poder, mas não faço nada contra ele, assim como a um bom Anjo do Céu. Quando chegar seu tempo, e já se está cumprindo, o julgarei e também a seus seguidores. Por isso, esposa minha, persevera nas boas obras! Ama-me com todo seu coração! Não tema a nada mais que a mim! Pois Eu sou o Senhor que está acima do demônio e de tudo que existe”.
Palavras da Virgem à esposa, explicando sua dor na paixão de Cristo e sobre como o mundo foi vendido por Adão e Eva e recuperado mediante Cristo e sua Mãe, a Virgem.
Capítulo 35
Falou Maria: “Considera, filha, a Paixão de meu Filho. Senti como se os membros de seu corpo e seu coração fossem os meus. Da mesma forma como as outras crianças são normalmente gestadas no útero de sua mãe, aconteceu em mim. Todavia, Ele foi concebido pelo ardor do amor de Deus, enquanto que outros são concebidos pela concupiscência da carne. Assim, seu primo João disse corretamente: ‘O verbo se fez carne’. Ele veio e esteve em mim por amor. O verbo e o amor o criaram em mim. Ele foi para mim como meu próprio coração e, por isso, quando dei à luz, senti que a metade de meu coração havia nascido e saído de mim.
Quando Ele sofria, eu sentia como se sofresse meu próprio coração. Quando algo está metade fora e metade dentro, se a parte de fora está ferida, a parte de dentro sente uma dor parecida. Da mesma maneira, quando meu Filho foi açoitado e ferido, era como se meu próprio coração estivesse sendo açoitado e ferido. Eu era a pessoa mais próxima a Ele em sua Paixão e nunca me separei dele. Estive ao lado de sua cruz e, como quem está mais próximo da dor a sofre mais, assim sua dor foi pior para mim que para os demais.
Quando ele me olhou da cruz e eu o olhei, minhas lágrimas brotaram como sangue das veias. Quando Ele me viu transbordada de dores, se sentiu tão angustiado que toda a dor de suas próprias feridas se atenuou ao ver as minhas. Por ele, posso dizer que sua dor era minha dor e que seu coração era meu coração. Da mesma forma como Adão e Eva venderam o mundo por uma só maçã, podemos dizer que meu Filho e Eu recuperamos o mundo com um só coração. Assim, Filha minha, pensa em como estava Eu quando morreu meu Filho e, com isso, não será difícil para você renunciar ao mundo”.
Resposta do Senhor a um Anjo que estava rezando sobre que a esposa se daria a padecimentos no corpo e na alma e sobre como as almas mais perfeitas se dão a maiores moléstias.
Capítulo 36
O Senhor disse a um Anjo que rezava pela esposa de seu Senhor: “É como um soldado do Senhor que nunca abandona seu posto por causa do tédio e que nunca aparta seus olhos da batalha por medo. É tão firme como uma montanha e arde como uma chama. É tão limpo que não há mancha em você. Pede-me que tenha misericórdia de minha esposa. Mesmo que conheça e veja tudo em mim, diga, enquanto ela escuta, que tipo de misericórdia está pedindo para ela? Saiba que minha misericórdia tem três vertentes.
Primeiramente, a misericórdia está com ela, no qual o corpo é castigado e a alma preservada, como ocorreu com meu servo Jó, cuja carne foi sujeita a todo tipo de dores, mas cuja alma se salvou. O segundo tipo de misericórdia é aquela mediante a qual o corpo e a alma são preservados como foi o caso do rei que viveu com todo tipo de luxos e não sentiu dores nem em seu corpo nem em sua alma enquanto esteve no mundo. O terceiro tipo de misericórdia é aquela a que se aplica, no corpo e na alma, os castigos, assim, se colhe o resultado de que ambos experimentam angústias em seus corpos e dor em seus corações, como é o caso de Pedro, Paulo e outros Santos.
Há três estados para os seres humanos no mundo. O primeiro estado é daqueles que caem em pecado e se levantam de novo. Algumas vezes, permito que estas pessoas experimentem angústias em seu corpo para que sejam salvas. O segundo estado é o daqueles que vivem a todo tempo com o objetivo de pecar sempre. Todos os seus desejos se dirigem ao mundo. Se fazem algo por mim, muito de quando em quando, o fazem com a esperança de conseguir benefícios temporais de engrandecimentos e prosperidade.
A estas pessoas não são aplicadas muitas dores de corpo nem de coração. Permito que sigam com seu poder e desejos, porque eles receberam aqui sua recompensa até pelo mínimo bem que fizeram por mim, pois lhes esperam um castigo eterno, tanto como eterna é sua vontade de pecar. O terceiro estado é o daqueles que têm mais medo de pecar contra mim e de contrariar minha vontade que do castigo em si. Antes, prefeririam o insuportável castigo eterno que provocar conscientemente minha ira. A estas pessoas, se lhes são dadas tribulações no corpo e no coração, como é o caso de Pedro, Paulo e de outros Santos, corrijam suas transgressões neste mundo. Também são castigados, durante certo tempo, para merecerem uma glória maior, ou seja, serem exemplos para outros. Expliquei a você esta tríplice misericórdia aplicada a três pessoas deste reino cujos nomes você conhece.
Assim, pois, Anjo e servo meu, que tipo de misericórdia você pede para minha esposa?” E ele disse: “Misericórdia de corpo e alma, para que ela possa emendar suas transgressões neste mundo e nenhum de seus pecados se submeta a seu juízo”. O Senhor respondeu: “Faça-se segundo sua vontade!” Então, dirigiu-se à esposa: “Você é minha e farei com você o que eu quero. Não ame nada mais que a mim!
Purifique-se constantemente e a todo momento do pecado, segundo o desejo daqueles a quem lhe encomendei. Não oculte nenhum pecado! Não deixe que fique nada sem examinar, não pense que nenhum pecado é leve ou sem importância! Qualquer coisa que passe por desapercebido, Eu a lembrarei e julgarei. Nenhum pecado seu será julgado por mim se for expiado nessa vida mediante sua penitência. Aqueles pecados pelos quais não se fizer penitência serão purgados no purgatório ou por meio de algum dos meus juízos secretos se caso ainda não fora reparado aqui na Terra”.
Palavras da Mãe à esposa descrevendo a excelência de seu Filho; sobre como Cristo é agora mais duramente crucificado por seus inimigos, os maus cristãos, mais do que pelos judeus e sobre como, em conseqüência, essas pessoas receberam um castigo mais duro e amargo.
Capítulo 37
A Mãe disse: “Meu Filho teve três dádivas. A primeira foi que ninguém jamais teve um corpo tão refinado como o d’Ele ao ter duas naturezas perfeitas, uma divina e outra humana. Ele foi tão puro como uma peça de cristal, onde não se pode encontrar nenhuma partícula, nenhuma só deformidade em seu corpo. A segunda bondade foi que Ele nunca pecou. Outros meninos, às vezes, carregam os pecados de seus pais, além de seus próprios. Este menino, que nunca pecou, carregou o pecado de todos. A terceira dádiva foi que, enquanto algumas pessoas morrem por Deus e por uma maior recompensa, Ele morreu tanto por seus inimigos quanto por mim e seus amigos.
Quando seus inimigos o crucificaram, fizeram-lhe quatro coisas. Em primeiro lugar, o coroaram de espinhos. Em segundo, cravam suas mãos e seus pés. Terceiro, deram-lhe fel para beber enquanto transpassaram seu lado. Mas minha dor é que seus inimigos, que agora estão no mundo, crucificam meu Filho mais duramente do que fizeram os judeus. Mesmo assim, poderia dizer que Ele não pode sofrer e morrer agora, por isso o crucificam através de seus vícios. Um homem pode lançar insultos e injúrias sobre a imagem de um inimigo seu e, mesmo assim essa imagem não sentir o dano, o perpetrador seria acusado e sentenciado por sua maliciosa intenção de injuriar. Igualmente, os vícios que crucificam meu Filho, em um sentido espiritual, são mais abomináveis e mais sérios para Ele que os vícios de quem o crucificou no corpo.
Mas você pode perguntar ‘Como o crucificam?’ Bem, primeiro o colocam sobre a cruz que prepararam para Ele, isto é, quando não têm em conta os preceitos de seu Criador e Senhor. Depois o desonram quando Ele os adverte através de seus servos, que hão de servir-lhe desonrando as advertências e, assim, fazem o que lhes apetece. Crucificam sua mão direita confundindo justiça e injustiça ao dizer: ‘O pecado não é tão grave nem tão odioso para Deus como se diz, Ele, também, não castiga ninguém para sempre, suas ameaças são para assustar-nos. Por que haveria de redimir-nos se quisesse que morrêssemos?’ Eles não consideram que até o mais mínimo pecado no qual uma pessoa se deleita é suficiente para aplicar a ele ou a ela o castigo eterno.
Posto que Deus não deixa que nem o mais mínimo pecado fique sem castigo, nem o mínimo bem sem recompensa, eles serão castigados sempre que mantiverem a intenção constante de pecar e, meu Filho, que vê seus corações, conta isso como um ato. Pois, se meu Filho o permitisse, eles realizariam obras segundo suas intenções. Crucificam sua mão esquerda convertendo a virtude em vício. Querem continuar pecando até o fim, dizendo: ‘Se, ao final, dissermos uma única vez para que Deus tenha misericórdia de nós, sua misericórdia, que é tão grande, nos perdoará’. Ao querer o pecado sem emendar-se, querer a recompensa sem lutar por ela, não é virtude, a menos que haja algo de contrição em seu coração, ou a menos que a pessoa deseje realmente emendar seu caminho, tudo, sem que uma enfermidade ou qualquer outra condição não o impeça.
Crucificam seus pés quando são coniventes com o pecado, sem pensar, uma única vez, no amarguíssimo castigo de meu Filho, também não lhe dão graças de coração, dizendo: ‘Senhor, que amargamente sofreu! Louvado seja por sua morte!’ Tais palavras nunca saem de seus lábios. Coroam-no com uma coroa de escárnios ao evitar seus servos e considerar inútil seu serviço. Dão a ele fel para beber quando se deleitam e se filiam ao pecado. Nunca sentem no coração a seriedade que é o pecado.
Transpassam seu lado quando têm a intenção de perseverarem no pecado. Digo-lhe, em verdade, e se pudesse diria a meus amigos, que para meu Filho essas pessoas são mais injustas que aqueles que o sentenciaram, piores inimigos que aqueles que o crucificaram, a mais falta de vergonha que aqueles que o venderam. A eles se espera maior castigo que aos outros. De fato, Pilatos supôs muito bem que meu Filho não tinha pecado e que não merecia a morte. Todavia, por medo de perder o poder temporal e pela insistência dos judeus, ainda receoso, teve que sentenciar a morte de meu Filho. Que temeriam estas pessoas que o servissem? Que honra e privilégio perderiam se o honrassem?
Eles receberam, pois, uma sentença mais dura por serem piores que Pilatos na consideração a meu Filho. Pilatos o sentenciou por medo, submetendo-se ao pedido e intenções dos outros. Estas pessoas o sentenciam por seu próprio benefício e sem medo algum, desonrando-o através do pecado que poderiam abster-se, se assim o quisessem. Mas eles não se abstêm de pecar nem se envergonham de terem cometido pecados, pois não tomam em consideração que não merecem nem a mínima consideração daquele a quem eles não servem.
São piores que Judas, pois Judas, depois de ter traído o Senhor, reconheceu que Jesus era mesmo Deus e que havia pecado gravemente contra Ele. Desesperou-se, todavia, e se precipitou ao inferno pensando que já não merecia viver. Mas estas pessoas reconhecem seu pecado e, ainda assim, perseveram e, sem arrependimento algum em seus corações. Mas bem, desejam arrebatar-se ao Reino dos Céus por uma espécie de força e violência, crendo que possam conseguir, não por seu feito e sim por sua vã esperança, vã porque não se dará a ninguém mais que aos que trabalham e fazem algum sacrifício para o Senhor. São piores que os que o crucificaram.
Quando viram as boas obras de meu Filho, como a ressurreição da morte ou a cura de leprosos, pensaram em seu interior: ‘Estas obras maravilhosas inauditas e inusitadas, superando a todos à vontade com uma só palavra, conhecendo nossos pensamentos, fazendo tudo o que deseja, se continuar assim, teremos que nos submeter a seu poder e ser seus servos’. Por isso, em lugar de submeter-se a Ele, o crucificam com sua inveja. Mas se soubessem que Ele é o Rei da Glória, não o teriam crucificado. Por outro lado, essas pessoas vêem cada dia suas grandes obras e milagres e se aproveitam de sua bondade.
Escutam como têm que servi-lo e se acercam a Ele, mas em seu interior pensam: ‘Seria duro e insuportável renunciar a nossos bens temporais para fazer sua vontade e não a nossa’. Por isso, não apreciam a vontade d’Ele, colocam acima de tudo seus desejos egoístas e crucificam meu Filho por sua teimosia, acumulando pecado sobre pecado contra suas próprias consciências. São piores que seus carrascos, pois os judeus agiram por inveja e porque não sabiam que Ele era Deus. Esses, todavia, sabem que é Deus e, por maldade, presunção e cobiça, o crucificam, em um sentido espiritual, mais duramente que os que crucificaram fisicamente seu corpo, pois estas pessoas já foram redimidas e aquelas ainda não eram. Assim, pois, minha filha, obedeça e tema a meu Filho, pois tudo o que tem de misericordioso Ele o tem de justo também!”
Agradável diálogo de Deus Pai com o Filho sobre como o Pai deu ao Filho uma nova esposa; também sobre como o Filho a tomou carinhosamente para si e sobre como o Esposo ensina a esposa a paciência e simplicidade mediante uma parábola.
Capítulo 38
O Pai disse ao Filho: “Acudi com amor a Virgem e recebi d’Ela teu verdadeiro corpo. Você, portanto, está em mim e Eu em você. Assim como o fogo e o calor nunca estão separados, também é impossível separar sua natureza divina e humana”. O Filho respondeu: “Glória e honra para você, Pai! Faça-se sua vontade em mim e a minha em você!” O Pai, por sua vez, acrescentou: “Olhe, Filho meu, confio-lhe esta nova esposa como um cordeiro que deve ser guiado e alimentado. Como um pastor, então, deves procurar queijo para comer, leite para beber e lã para vestir.
Enquanto a você, esposa, deves obedecer-lhe. Você tem três deveres: deve ser paciente, obediente e alegre”. Então, o Filho disse ao Pai: “Sua vontade vem com poder, seu poder com humildade, sua humildade com sabedoria, sua sabedoria com misericórdia. Que sua vontade, que é e sempre será sem princípio ou fim, se faça em mim! A ela, abrirei as portas de meu amor em seu poder e na inspiração do Espírito Santo, pois somos, não três, mas um só Deus”. Então, o Filho disse a sua esposa: “Você ouviu como o Pai a confiou a mim. Por isso, você deve ser simples e paciente como um cordeiro e produzir alimento e vestido.
Há três grupos de pessoas no mundo. O primeiro está completamente desnudo, o segundo está sedento e o terceiro está faminto. O primeiro equivale a fé de minha Igreja, que está desnuda porque todos se envergonham de falar sobre a fé e sobre meus mandamentos. E se alguém falar, é desapreciado e chamado de mentiroso. Minhas palavras, procedentes de minha boca, hão de vestir esta fé como a lã. Igualmente a lã que cresce no corpo da ovelha mediante o calor, assim minhas palavras hão de entrar em seu coração através do calor de minhas naturezas divina e humana.
Elas vestiram minha santa fé para um testemunho de verdade e sabedoria e demonstraram que tal testemunho, que agora é considerado insignificante, é verdadeiro. Como resultado, as pessoas que até agora têm sido tíbias sobre o vestir sua fé em obras, se converteram quando ouviram minhas palavras de amor e serão reacesas para falar com fé e atuar com coragem.
O segundo grupo são aqueles amigos meus que possuem um sedento desejo de ver minha honra reconhecida e se aborrecem quando sou desonrado. A doçura que sentem com minhas palavras os embriagará com um maior amor por mim e, junto a eles, outros, que agora estão mortos, se reinflamarão no meu amor, quando ouvem sobre a misericórdia que tenho demonstrado com os pecadores.
O terceiro grupo de pessoas são aqueles que, em seu coração, pensam assim: ‘Se ao menos soubéssemos – dizem – a vontade de Deus e de que maneira devemos viver e se ao menos nos ensinasse a forma correta de viver, com muito gosto faríamos o que estivesse ao nosso alcance’. Estas pessoas estão famintas de conhecer meu caminho, mas ninguém as satisfaz, pois ninguém lhes mostra exatamente o que devem fazer. Mesmo se alguém mostrar, elas não viveriam de acordo. Portanto, as palavras parecem estar como mortas para elas, pois não se vive de acordo com o mostrado. Por isso, Eu lhes mostrarei diretamente o que devem fazer e as encherei com minha doçura.
As coisas temporais, que parecem as mais desejadas por todos agora, não podem satisfazer a natureza humana se não mais bem avivar o desejo de buscar mais e mais coisas. Minhas palavras e meu amor, todavia, satisfazem os homens e os preenchem de abundante consolação. Por isso, esposa minha, você que é uma das minhas ovelhas, cuida de manter a paciência e a obediência. Você é minha por direito e, por isso, deve seguir minha vontade.
Uma pessoa que deseja seguir a vontade de outra faz três coisas: primeiro, tem o mesmo pensamento que a outra, segundo, age de forma similar a ela e, terceiro, se mantém afastada dos inimigos de quem segue. Quem são meus inimigos senão o orgulho e cada um dos pecados? Por isso, mantenha-se afastada deles se deseja seguir minha vontade”.
Palavras em que o Criador explica três perguntas de Graças a sua esposa: a primeiro sobre a servidão do marido e a dominação da mulher; a segunda sobre o trabalho do esposo e o gasto da esposa; a terceira sobre o Senhor desprezado e o servo exaltado.
Capítulo 40
Eu sou teu Criador e Senhor. Responda-me a três perguntas que vou explicar. Em que situação podemos encontrar uma casa onde a esposa está vestida como uma grande senhora e o esposo como um servo? É correto isso?” Ela respondeu interiormente em sua consciência: “Não, meu Senhor, isso não está correto”. E o Senhor disse: “Eu sou o Senhor de todas as coisas e o Rei dos Anjos. Eu me vesti de servo, ou seja, a minha natureza humana, tão somente com a finalidade de utilidade e necessidade.
Não desejei nada do mundo, apenas o alimento e o vestir superficial. Você, todavia, que é minha esposa, quer igualar-se a uma grande senhora, com riquezas e honras e ser exaltada. Qual é o benefício de tudo isso? Todas as coisas são vãs e terão que ser deixadas ao abandono. A humanidade não foi criada para essa frivolidade, senão para possuir o que necessita a natureza.
O orgulho inventou o supérfluo que agora se mantém e se deseja como o normal. Em segundo lugar, diga-me, é correto que o marido trabalhe desde a manhã até a noite enquanto a mulher gasta em uma hora tudo o que ele conseguiu com seu esforço?” Ela contestou: “Não, não é correto. Ao contrário, a esposa deve viver e atuar seguindo a vontade de seu esposo”. E o Senhor disse: “Trabalhei como o homem que trabalha de manhã até a noite. Trabalhei desde a minha juventude até o momento de meu sofrimento, mostrando o caminho até o Céu, aconselhando e colocando em prática o que ensinava.
A esposa, ou seja, a alma humana que deveria ser como minha mulher, gasta todo meu salário para viver luxuosamente. Como conseqüência, nada do que fiz pode beneficiar-me, nem encontro nela virtude alguma em que posso deleitar-me. Terceiro, diga-me, não é errôneo e detestável para o senhor do lar ser desprezado e para o servo ser exaltado?” E ela disse: “Sim”. E o Senhor disse: “Eu sou o Senhor de todas as coisas. Meu lar é o mundo. Todos os membros da humanidade deveriam estar a meu serviço. Todavia, Eu, o Senhor, agora sou desprezado no mundo, enquanto que a humanidade é exaltada. Portanto, você, a quem Eu elegi, cuida em cumprir minha vontade, porque tudo no mundo não é mais que uma brisa do mar e um falso senhor!”
Palavras do Criador na presença da Corte Celeste e de sua esposa, falando sobre aquelas que se queixam dos cinco homens que são representados pelo Papa e seus clérigos, os leigos corruptos, os judeus e os pagãos. Também sobre a ajuda enviada a seus amigos que representam toda a humanidade e sobre a dura condenação de seus inimigos.
Capítulo 41
Eu sou o Criador de todas as coisas. Nasci do Pai antes que existisse lúcifer. Existo inseparavelmente no Pai e o Pai em mim e há um Espírito em ambos. Por conseguinte, há um Deus – Pai, Filho e Espírito Santo – e não três Deuses. Eu sou Aquele que fiz a promessa da herança eterna a Abraão e conduzi meu povo para fora do Egito através de Moisés. Eu sou o que falei através dos Profetas. O Pai me colocou no ventre da Virgem Maria sem se separar de mim, permanecendo comigo para que a humanidade, que abandonou Deus, possa retornar a Ele através do meu amor.
Agora, todavia, em vossa presença, Corte Celeste, apesar de verem e saberem tudo de mim, pelo bem do conhecimento e a instrução desta desposada minha que não pode perceber o espiritual se não por meio do físico, Eu declaro meu pesar ante vocês em relação aos cinco homens aqui presentes, por serem eles ofensivos para mim de muitas maneiras.
Da mesma forma que Eu, em uma ocasião, inclui todo o povo israelita no nome de Israel, em sua Lei agora, mediante estes cinco homens, quero me referir a todos no mundo. O primeiro homem representa o líder da Igreja e seus sacerdotes; o segundo, os leigos corruptos; o terceiro, os judeus, o quarto os pagãos e o quinto, meus amigos. E o que diz respeito, judeu, feito uma exceção com todos os judeus que são cristãos em segredo e que me servem em caridade sincera, conforme a fé e trabalhos perfeitos em silêncio. Em relação a você, pagão, foi feita uma exceção com todos aqueles que com gosto caminhariam pelas veredas de meus mandamentos sem tão somente saber como e se foram instruídos, os que tratam de pôr em prática tudo o que podem e dos que são capazes. Estes não serão, de nenhuma maneira, sentenciados com vocês.
Agora declaro meu desgosto para com você, cabeça de minha Igreja, você que se senta em minha cátedra. Concedi este cargo a Pedro e a seus sucessores para que se sentassem com uma tripla dignidade e autoridade: primeiro, para que pudessem ter o poder de ligar e desligar as almas do pecado; segundo, para que pudessem abrir-lhe o Céu aos penitentes; terceiro, para que fechassem o Céu aos condenados e àqueles que me desprezam. Mas você, que deveria estar absolvendo almas e apresentando-me a elas, é realmente um assassino dos meus eleitos. Designei Pedro como o pastor e o servente de minhas ovelhas, mas você as dissipa e as fere, é pior que lúcifer.
Ele tinha inveja de mim e não conseguiu matar ninguém mais que a mim, de forma que pudesse governar em meu lugar. Mas você é pior, não somente me mata ao apartar-me de você por seu trabalho senão que, também, mata as almas devido ao seu mau exemplo. Eu redimi almas com meu sangue e as encomendei como um amigo fiel. Mas você as devolve ao inimigo de quem eu as redimi. É mais injusto que Pilatos. Ele tão somente me condenou à morte. Mas você não somente me condena como se Eu fosse um pobre homem indigno, como condena as almas de meus eleitos e deixa livres os culpados.
Merece menos misericórdia que Judas. Ele tão somente me vendeu, mas você, não só me vende, como também vende as almas de meus eleitos com base em seu próprio proveito e vã reputação. Você é mais abominável que os judeus. Eles tão somente crucificaram meu corpo, mas você crucificou e castigou as almas de meus eleitos para quem sua maldade e transgressão são mais afiadas que uma espada.
Assim, posto que é como lúcifer, mais injusto que Pilatos, menos digno de misericórdia que Judas e mais abominável que os judeus, meu aborrecimento contigo está justificado. O Senhor disse ao segundo homem, ou seja, o que representa os leigos: “Eu criei todas as coisas para seu uso. Você me deu seu consentimento e Eu a você. Você me prometeu sua fé e me jurou que me serviria. Agora, todavia, se apartou de mim como alguém que não conhece a Deus. Refere-se a minhas palavras como mentiras e a meus trabalhos como carentes de sentido. Disse que minha vontade e meus mandamentos são muito duros.
Violou a fé que você prometeu. Destruiu seu juramento e abandonou meu Nome. Afastou-se da companhia de meus Santos e integrou a companhia dos demônios fazendo-se sócios deles. Você não crê que ninguém mereça louvor e honra salvo você mesmo. Considera difícil tudo o que tem a ver comigo e o que está obrigado a fazer por mim, enquanto que as coisas que você gosta de fazer são fáceis para você. É por isso que meu aborrecimento contigo está justificado, porque você quebrou a fé que me prometeu no batismo e nos outros juramentos.
Acima, me acusa de mentir sobre o amor que lhe mostrei em palavras e feitos. Disse que eu era um louco por sofrer”. Ao terceiro homem, ou seja, o representante dos judeus, lhe digo: “Eu comecei meu amoroso idílio com você. Elegi você como meu povo, o libertei da escravidão, dei-lhe minha Lei e conduzi até a Terra que havia prometido a seus pais e enviei profetas que lhe consolaram. Depois, elegi uma Virgem de entre vós e assumi, através dela, a natureza humana. Meu desgosto contigo é que ainda recusa crer em mim dizendo: “Cristo não veio, todavia, ainda virá”.
O Senhor disse ao quarto homem, ou seja, aos pagãos: “Eu criei você e o redimi para que fosse cristão. Fiz com você todo o bem. Mas você é como alguém que está fora de seus sentidos, porque não sabe o que faz. Era como um cego, porque não sabe até onde vai. Adora as criaturas em lugar do Criador, a falsidade em lugar da verdade. Ajoelha ante as coisas que são inferiores a você. Esta é a causa dos meus desgostos em relação a você”. Ao quinto homem, disse: “Aproxima-se mais, amigo!” E se dirigiu diretamente à Corte Celestial: “Queridos amigos, este amigo meu representa meus muitos amigos. Ele é como um homem cercado por corruptos e mantido em um duro cativeiro. Quando diz a verdade, atiram pedras em sua boca. Quando faz algo bom, cravam uma lança em seu peito. Ai! Meus amigos e santos! Como posso suportar essas pessoas e quanto tempo suportarei semelhante desprezo?”
São João Batista respondeu: “É como um espelho imaculado. Vemos e sabemos todas as coisas em você como um reflexo, sem necessidade de palavras. É a doçura incomparável na qual saboreamos todo o bem. É como a mais afiada das espadas e um Justo Juiz”. O Senhor lhe respondeu: “Amigo meu, o que disse é certo. Meus eleitos vêem toda a bondade e justiça em mim. Os espíritos diabólicos ainda o fazem, mesmo que não na luz senão em sua própria consciência. Como um homem na prisão, que aprendeu as letras e ainda as conhece quando as encontra na escuridão e não as vê; os demônios, apesar de não verem minha justiça à luz da caridade, ainda assim, conhecem e vêem em sua consciência. Eu sou como uma espada que corta em dois. Eu dou a cada pessoa o que ele ou ela merecem. Então, o Senhor acrescentou, falando ao Bem-Aventurado Pedro: “Você é o fundador da fé e da minha Igreja. Enquanto escuta meu exército, declara a sentença desses cinco homens!”
Pedro falou em resposta: “Glória e honra a Você, Senhor, pelo amor que demonstrou à Terra! Que toda sua Corte o bendiga, porque você nos faz ver e saber em Você tudo o que é e o que será! Você é verdadeiramente justo com o primeiro homem, o que se senta em sua cátedra e realiza os feitos de lúcifer, vergonhosamente deve renunciar a esse lugar no que presumiu sentar-se e compartilhar o castigo de lúcifer. A sentença do segundo homem é que aquele que abandonou a fé deve descer ao inferno com a cabeça para baixo e os pés para cima por tê-lo desprezado e por ter amado a si mesmo somente.
A sentença do terceiro é que não verá seu rosto e será condenado por sua perversidade e avareza, posto que os que não crêem não merecem contemplar a sua visão. A sentença do quarto é que deveria ser encerrada e confinada na escuridão como um homem fora de seus sentidos. A sentença do quarto é que deveria receber ajuda”. Quando o Senhor ouviu isto, respondeu: “Prometo por Deus, o Pai, cuja voz ouviu João Batista no Jordão, que farei justiça a esses cinco”.
Depois, o Senhor continuou e disse ao primeiro dos cinco homens: “A espada de minha severidade atravessará seu corpo, entrando desde o alto de sua cabeça e penetrando tão profundo e com força que nunca poderá ser tirada. Seu assento afundará como uma pedra pesada e não parará até que alcance a parte mais baixa das profundezas. Seus dedos, ou seja, seus conselheiros, ardem em um fogo suntuoso e inextinguível.
Seus braços, ou seja, seus vigários, que deveriam ter conseguido o benefício das almas, mas que em seu lugar conseguiram proveitos mundanos e honras, serão sentenciados ao castigo de que falava Davi: ‘Que seus filhos fiquem órfãos e sua mulher viúva, que os estranhos arrebatem sua propriedade’. Que significa ‘sua mulher’ senão a alma que foi separada da glória do Céu e que ficará viúva de Deus? ‘Seus filhos’, ou seja, as virtudes que aparentaram possuir e minha gente simples, aqueles que se submeteram, serão apartados deles. Sua classe e propriedade cairão nas mãos de outros e eles herdarão a eterna vergonha em lugar de sua posição privilegiada.
Suas mitras afundarão no barro do inferno e eles mesmos nunca se levantarão dali. Por isso, assim como a honra e o orgulho que alcançaram sobre outros aqui na terra e afundaram no inferno tão profundamente, mais que os demais, será impossível levantar-se. Suas extremidades, ou seja, todos os sacerdotes aduladores que os imitam, serão separados deles e asilados, igual a uma parede que se derruba, no qual não ficará pedra sobre pedra e o cimento já não irá aderir às pedras. A misericórdia nunca lhes chegará, porque meu amor nunca lhes esquentará nem lhes recolocará na eterna Mansão Celestial. Em segundo lugar, despojados de todo bem, serão eternamente atormentados junto a seus líderes.
Ao segundo homem, Eu lhe digo: Dado que você não quer manter-se na fé que me prometeu nem manifestar amor a mim, enviarei a você um animal que procederá da torrente impetuosa para devorá-lo. E, assim como uma torrente que sempre corre para baixo, o animal o levará às partes mais baixas do inferno. Tão impossível como é para você viajar corrente acima contra uma torrente impetuosa, igualmente será difícil para você subir do inferno.
Ao terceiro homem, eu digo: ‘Já que você, judeu, não quer crer que Eu já vim, por isso, quando voltar para o segundo juízo, não me verá em minha glória senão na sua consciência e comprovará que tudo o que lhe disse era verdade. Então, lhe será aplicado o castigo como merece’. Ao quarto homem, digo: ‘Como você não se ocupou de crer nem quis saber, sua própria escuridão será sua luz e seu coração será iluminado para que compreenda que meus juízos são verdadeiros, mas, todavia você não alcançará a luz’. Ao quinto homem, quero dizer: ‘Farei três coisas por você.
Primeiro, encher-lhe-ei inteiramente com meu calor. Segundo, farei com que sua boca seja mais forte e mais firme que qualquer pedra, de modo que as pedras que lhes sejam arremessadas voltem a quem as atirou. Terceiro, quero armar-lhe com minhas armas, de forma que, nenhuma lança lhe ferirá senão que tudo cederá ante você como a cera frente ao fogo. Portanto, permaneça forte e resista como um homem! Como um soldado que, na guerra, espera a ajuda de seu Senhor e luta enquanto tiver fluido de vida, assim também você, mantenha-se firme e lute!
O Senhor, seu Deus, aquele a quem ninguém pode resistir, o ajudará. E, como vocês são poucos em número, os darei honra e os converterei em muitos. Veja, amigo meu, veja estas coisas e as reconheça em Mim e, por isso, se mantenha ante Mim’. As palavras que agora pronunciei se cumprirão. Aqueles homens nunca entrarão em meu Reino enquanto eu for o Rei, a menos que emendem seus caminhos. Porque o Céu não será senão para aqueles que se humilham e fazem penitência”. Então, toda a Corte respondeu: “Glória a Você, Senhor Deus, que não tem princípio nem fim”!
Palavras da Virgem Maria aconselhando a esposa como deve amar a seu Filho sobre todas as coisas e sobre como cada virtude e graça está contida na Virgem Gloriosa.
Capítulo 42
A Mãe do Céu falou: “Eu tinha três virtudes pelas quais agradei meu Filho. Tinha tanta humildade que nenhuma criatura, Anjo ou ser humano, era mais humilde que Eu. Em segundo lugar, tinha obediência e me esforcei em seguir meu Filho em todas as coisas. Em terceiro lugar, tinha uma grande caridade. Por esta razão, recebi honras três vezes mais de meu Filho. Primeiro, me deu mais honra que aos Anjos e aos Homens, de forma que não há virtude em Deus que não irradie de mim, apesar d’Ele ser a fonte e o Criador de todas as coisas.
Mas eu sou a criatura que Ele para a qual garantiu a graça principal em comparação com as demais. Segundo, em razão de minha obediência, recebi tamanho poder que, não há pecador, por maculado que esteja, que não receba o perdão se voltar-se a mim com o propósito de emenda e coração contrito. Terceiro, em razão de minha caridade, Deus se aproximou tanto de mim que, qualquer um que veja Deus me vê também, e, qualquer ser que me veja pode ver a natureza divina e humana em mim e eu em Deus como se fosse um espelho.
Porque quem vê a Deus vê três pessoas nele, e quem me vê, vê como se fosse três pessoas. Porque Deus fez minha alma e corpo Assim Mesmo e me cumulou de toda virtude, de maneira que não há virtude em Deus que não brilhe em mim, apesar de Deus ser o Pai e o doador de todas as virtudes. Como se tratasse de dois corpos conjugados – um recebe o que recebe o outro – assim fez Deus comigo. Não existe doçura que não esteja em mim. É como alguém que tem uma noz e compartilha um pedaço com outra pessoa. Minha alma e corpo são mais puros que o sol e mais limpos que um espelho.
Por isso, assim como as Três Pessoas se veriam em um espelho se situassem frente a ele, assim o Pai e o Filho e o Espírito Santo podem ver-se em minha pureza. Uma vez tive meu Filho em meu ventre e junto sua natureza divina. Agora, Ele há de se ver em mim com suas duas naturezas, Divina e Humana, como em um espelho, porque eu fui glorificada. Por isso, esposa de meu Filho, procure imitar minha humildade e não ame nada mais que meu Filho Jesus”.
Palavras do Filho à esposa sobre como as pessoas se elevam de um pequeno bem ao bem perfeito e se afundam de um pequeno mal ao maior castigo.
Capítulo 43
O Filho disse: “Às vezes, surge um grande benefício a partir de um pequeno bem. A palmeira possui um odor maravilhoso e dentro de seu fruto, o datil, permanece como uma pedra. Se esta semente for plantada em um solo fértil, brotará e florescerá, crescendo até converter-se em uma altíssima árvore. Mas se plantar em solo estéril, secará. O solo que se deleita no pecado é absolutamente estéril, carente de benefícios. Se semear aí a semente das virtudes, elas não poderão nascer. Rico é o solo da mente que conhece seu pecado e se lamenta de tê-lo cometido. Se a ‘pedra’ do datil, ou seja, o pensamento de meu severo juízo e poder, se semeia aí, surgirão três raízes na mente.
A primeira raiz é o dar-se conta de que uma pessoa não pode fazer nada sem minha ajuda. Isto lhe fará abrir a boca em ação de pedir-me. A segunda raiz é começar a encomendar-me a algumas almas pequenas pelo bem do meu Nome. A terceira raiz é retirar-se dos próprios assuntos para servir-me. A pessoa, então, começa a praticar a abstinência, o jejum e a negação de si mesma: isso é o tronco da árvore.
Depois, vão crescendo os ramos da caridade à medida que um conduz até o bem todos que pode. Posteriormente, cresce o fruto quando instrui a outros segundo seu conhecimento e, piedosamente, trata de ensinar maneiras de dar-me uma maior glória. Esse tipo de fruto é o mais prazeroso para mim. Desta forma, a partir de um pequeno começo, um se eleva até a perfeição. Enquanto a semente forma a raiz do princípio mediante a piedade, o corpo cresce por meio da abstinência, as ramas se multiplicam por meio da caridade e o fruto cresce através da predicação.
E, de igual maneira, uma pessoa começa a afundar a partir de um leve mal e que a leva à condenação e ao castigo. Sabe qual é a carga mais pesada que impede que as coisas cresçam? Com certeza é a carga de um menino que está a ponto de nascer, mas que não pode sair e morre no ventre da mãe, comprometendo, assim, também a vida dela, conseqüentemente, o pai a sepulta com o filho dentro de seu ventre. Isto é o que faz o demônio com a alma. A alma imoral é como se fosse a esposa do demônio que se submete a sua vontade. Ela concebe o filho pelo demônio ao obter prazer no pecado e regozijar-se nele.
Assim como uma mãe concebe e gera o fruto mediante uma pequena semente que é quase insignificante, igualmente deleitando-se no pecado a alma dá muito fruto ao demônio. Quer dar luz, mas não pode, porque sua natureza foi consumida pelo pecado e se cansou da vida. Então, o medo se fez presente porque ela não pôde realizar seu desejo. A força e a alegria acabam e ela se vê rodeada de preocupações e pesares.
Então, seu ventre arrebenta e ela perde a esperança de fazer o bem. Morre enquanto blasfema e renega a justiça divina. E, assim, é conduzida pelo pai, o diabo, até o sepulcro do inferno de onde ela permanece enterrada para sempre com a podridão de seu pecado e com o filho de seu depravado deleite. Vê assim, como um pecado pequeno de início, chega a aumentar e crescer até a condenação”.
Palavras do Criador à esposa sobre como Ele é agora desprezado e ultrajado por pessoas que não prestam atenção ao que fez por amor, ao aconselhar-lhes mediante os profetas e mediante seu próprio sofrimento para sua salvação. Também sobre como ignoram o aborrecimento que Ele dirigiu aos obstinados, corrigindo-lhes severamente.
Capítulo 44
Eu sou o Criador e Senhor de todas as coisas. Eu fiz o mundo e o mundo me evita. Ouço no mundo um ruído parecido ao das abelhas que acumulam mel sobre a terra. Quando a abelha está voando e começa a aterrissar emite um zumbido. Agora, ouço como uma voz que zumbe no mundo e que diz: ‘Não me importa!’ De fato, a humanidade não presta atenção nem se preocupa com o que fiz por amor, aconselhando-se mediante os profetas, pelo meu próprio ensinamento e mediante meu sofrimento por eles. Não lhes importa o que fiz em minha ira, ao corrigir os malvados e desobedientes.
Só vêem que são mortais e se sentem inseguros sobre a morte, mas não lhes preocupa. Ouvem e vêem a justiça que se infligiu ao Faraó e a Sodoma devido ao pecado e ao que se aplicou sobre outros reis e príncipes, permitindo-a diariamente mediante a espada e outras desgraças, mas parece que estão cegos diante de tudo isso. Assim como as abelhas, voam por onde querem.
De fato, às vezes, voam como se disparassem até o alto, quando se exaltam a si mesmos pelo orgulho, mas, em seguida, caem de novo rapidamente quando voltam a sua luxúria e a sua gula. Reúnem mel da terra para si mesmos, fatigando-se e acumulando-se por serem impelidas pela necessidade do corpo, mas não para a alma. Buscam o terreno mais que a honra eterna. Convertem, o que é passageiro, em um auto-castigo, o inútil em tormento eterno. Todavia, pela intercessão de minha Mãe, enviarei minha voz clara a essas abelhas, exceto sobre meus amigos que se encontram no mundo tão somente em corpo, os cobrirei de misericórdia. Se me atenderem, se salvarão.
Resposta da Mãe de Deus, dos Anjos, dos Profetas, dos Apóstolos e dos demônios a Deus, na presença da esposa, testemunhando sua grandeza na Criação, Encarnação, Redenção e demais; sobre como as pessoas contradizem hoje todas estas coisas e também acerca de seu severo juízo sobre eles.
Capítulo 45
A Mãe de Deus disse: “Esposa de meu Filho, veja e permaneça firme porque meu Filho se acerca a você. Saiba que sua carne foi espremida como a uva em um lagar, pois, devido ao pecado do homem com todos os membros do corpo, meu Filho realizou a expiação em todos os membros de seu Corpo. Os cabelos d’Ele foram arrancados, seus tendões distendidos, suas articulações desencaixadas, seus ossos deslocados, suas mãos e pés completamente perfurados. Sua mente foi agitada, seu coração afligido pela dor, seu estômago absorvido até as costas e tudo isso porque a humanidade havia pecado com cada membro de seu corpo”.
Então, o Filho, na presença da Corte Celeste disse: “Ainda que todos saibam, falo para esta esposa minha que está aqui. A vocês me dirijo, Anjos, digam-me: Quem é o que não teve princípio nem terá fim? E quem é aquele que criou todas as coisas e não foi criado por ninguém? Falem e dêem testemunho”. Responderam os Anjos todos a uma voz: “Senhor, esse é você e damos testemunho de três coisas: Primeiro, de que é nosso Criador e de tudo o que há no Céu e na Terra. Segundo, de que é sem princípio, seu domínio é sem fim e seu poder eterno. Nada foi feito sem você e sem você nada pode existir. Em terceiro lugar, testemunhamos que vemos em você toda justiça além de tudo o que foi e será. Todas as coisas são um eterno presente para você, sem princípio ou fim”.
Depois, disse aos Profetas e Patriarcas: “Quem os conduziu da escravidão à liberdade? Quem dividiu as águas ante vocês? Quem vos deu a Lei? Profetas, quem deu a vocês inspiração ao falar?” Eles responderam: “Você, Senhor. Você nos resgatou da escravidão e deu-nos a Lei. Sua inspiração tocou nosso espírito para falar”.
Depois, disse a sua Mãe: “Dê testemunho de tudo o que sabes de mim!” Ela respondeu: “Antes que o Anjo da Anunciação viesse a mim, eu estava sozinha. Quando foram pronunciadas as palavras do Anjo, seu corpo esteve dentro de mim em suas duas naturezas, a divina e humana, e senti seu Corpo no meu Corpo. Eu gerei você sem dor. Dei-lhe à luz sem angústia. Envolvi-o em panos e o alimentei com meu leite. Estive ao seu lado desde seu nascimento até sua morte”.
Então, o Senhor disse aos Apóstolos: “Disseram a quem viram, ouviram e perceberam com vossos sentidos!” Eles lhes responderam: “Ouvimos suas palavras e as escrevemos. Ouvimos suas palavras prodigiosas quando nos deu a Nova Lei, quando, com uma palavra, deu ordem aos demônios e eles saíram, quando, com uma palavra, ressuscitou os mortos e curou os enfermos. Nós o vimos em um corpo humano. Vimos seus milagres e a glória divina de sua natureza humana.
Nós o vimos sendo preso por seus inimigos e colocado em sua Cruz. Nós o vimos sofrer da maneira mais amarga e, depois, ser colocado em um sepulcro. Nós o sentimos com nossos sentidos quando ressuscitou. Tocamos seus cabelos e seu rosto. Tocamos seus membros e suas partes chagadas. Comeu conosco e compartilhou de nossos diálogos. Você foi e é verdadeiramente o Filho de Deus e o Filho da Virgem. Também o sentimos com nossos sentidos quando subiu ao Pai, em sua natureza humana com quem está eternamente”.
Depois, disse Deus aos espíritos imundos: “Ainda que, em vossas consciências vocês ocultem a verdade, ordeno que digam quem foi que diminuiu vosso poder”. Eles lhe responderam: “Como ladrões que não dizem a verdade, ao menos que tenham os pés presos em um duríssimo madeiro, nós não diríamos a verdade se não fôssemos forçados por um imponente e divino poder. Você foi quem desceu ao inferno com toda sua força e diminuiu nosso poder no mundo. Levou do inferno o que te correspondia por próprio direito”. Então o Senhor disse: “Deram conta, todos vocês que têm um espírito e não estão em um corpo, que de forma concreta, os seres humanos me contradizem. Alguns deles conhecem a verdade, mas não se importam. Outros não a conhecem e por isso dizem que não lhes importa e afirmam que tudo é falso”.
Ele dirigiu-se novamente aos Anjos e disse: “Os seres humanos dizem que vosso testemunho é falso, que eu não sou o Criador e que todas as coisas não são reconhecidas como de minha autoria. Por tanto, amam mais ao criado do que a mim, o Criador”. Novamente se dirigiu aos Profetas e disse: “Os homens os contradizem e afirmam que a Lei não tem sentido, que vocês os libertaram graças a vosso próprio valor e capacidade, que o Espírito era falso e que vocês falavam por própria vontade”. Em seguida, dirigindo-se a sua Mãe, disse: “Alguns dizem que você, Mãe, não era Virgem, outros que Eu não encarnei de você, outros conhecem a Verdade, mas não se importam com ela”.
Aos Apóstolos, retomou: “contradizem-nos dizendo que são mentirosos, que a Nova Lei é inútil e irracional. Há outros que crêem que é verdadeira, mas não se importam com ela. Agora, pois, Eu pergunto a vocês: Quem será seu juiz?” Todos eles responderam: “Você, Deus, que é sem princípio nem fim. Você, Jesus Cristo, que é um com o Pai. O Pai lhe outorgou todo o poder de julgar, você é seu Juiz”. O Senhor retomou a palavra: “Eu fui seu acusador e agora sou seu Juiz. Todavia, apesar de tudo saber e tudo poder, dá-me vosso veredicto sobre eles”.
Eles, assim, disseram: “Assim como o mundo inteiro pereceu em seus inícios com as águas do dilúvio, igualmente agora o mundo merece ser consumido pelo fogo, pois a iniqüidade e a injustiça são agora mais abundantes que então”. O Senhor respondeu: “Como sou justo e misericordioso e não faço juízo sem misericórdia e nem misericórdia sem justiça, uma vez mais enviarei minha misericórdia ao mundo pela intercessão de minha Mãe e dos meus Santos. Se os seres humanos não quiserem escutar, seguirá a eles uma justiça que será, com muito, a mais severa”.
Palavras mútuas de louvor que, na presença de Santa Brígida, se dão Jesus e Maria, e sobre como as pessoas vêem Cristo como desleal, desgraçado e indigno dizendo que Ele é assim e também sobre a eterna condenação dessas pessoas.
Capítulo 46
Maria falou a seu Filho dizendo: “Bendito seja, meu Filho, que é sem princípio nem fim! Você teve o corpo mais nobre e belo, você foi o mais valente e virtuoso dos homens, o mais digno do seres”. O Filho respondeu: “As palavras que saem de seus lábios são doces e deleitam no mais profundo do meu coração como a mais doce das bebidas. Você, minha Mãe, foi para mim a mais doce das criaturas. De uma maneira em que uma pessoa possa ver distintos rostos em um espelho, mas nenhum lhe agrada mais que o seu próprio, assim, mesmo amando meus Santos, a amo com particular amor, porque nasci de sua carne.
Você é como um incenso seleto cujo odor subiu até o Céu e atraiu toda a divindade para seu corpo. Esta mesma fragrância elevou seu corpo e sua alma até Deus, onde está agora com todo seu ser. Bendita seja, Mãe querida, porque os Anjos se regozijam sem sua formosura e todos que a invocam, com o coração sincero, ficam libertos graças ao seu poder. Todos os demônios temem diante de sua luz e não se atrevem a permanecer em seu esplendor porque eles sempre querem estar nas trevas.
Você me louvou por três qualidades. Disse que Eu tive o corpo mais nobre, depois afirmou que Eu era o mais valente dos homens e, em terceiro, que fui o mais digno ser entre todos. Estas qualidades são contraditórias, agora, para aqueles que possuem um corpo e uma alma. Dizem que eu sou desleal, que sou o homem mais desgraçado e o mais indigno dos seres. Quer mais deslealdade que arrastar o outro para o pecado? Isso é o que dizem de mim, que conduzo ao pecado. Dizem, literalmente, que o pecado não é tão repugnante nem despreza Deus tanto como eu havia dito. ‘Porque – segundo eles – nada existe a menos que Deus queira e nada foi criado sem Ele.
Por que, então, não poderíamos usar tudo o que foi criado como nós queremos? Nossa natural fragilidade, assim, o exige e esta é a forma com a qual todos vivemos e ainda estamos vivendo’. Assim, agora, é como as pessoas se dirigem a mim. Minha natureza humana, com a qual apareci entre os homens como Deus verdadeiro, é, efetivamente, considerada por eles como desleal, apesar de tudo, eu apartei a humanidade do pecado e lhe mostrei a gravidade que era isso, como se Eu tivesse alentado a fazer algo inútil e torpe. Dizem, literalmente, que nada é nobre exceto o pecado e tudo aquilo que satisfaça seus caprichos. Também dizem que eu sou o mais desgraçado dos homens, quem é mais desgraçado que alguém que, quando diz a verdade, vê sua boca ferida pelas pedras que lhe arremessam e é golpeado na cara e, acima de tudo isso, escuta as censuras das pessoas dizendo: ‘Se fosse um homem se vingaria’? Isso é o que fazem comigo.
Falo com eles através de sábios doutores e das Sagradas Escrituras, mas eles dizem que Eu minto. Ferem minha boca com pedras e com socos cometendo adultério, matando e mentindo. Dizem: ‘Se fosse um grande homem, se fosse o mais poderoso Deus, se vingaria dessas transgressões’. Todavia, Eu sofro em minha paciência. Cada dia, ouço-lhes afirmar que o castigo nem é eterno nem tão severo como se falou e minhas palavras são consideradas mentiras.
Por último, me vêem como o mais indigno dos seres. O que é mais desagradável em uma casa do que um cachorro ou um gato que alguém estaria mais que contente em trocar por um cavalo, se pudesse? Mas as pessoas afirmam e propagam que Eu sou pior que um cachorro. Não me tomariam se, para isso, tivessem que se desprender do cachorro, e antes ainda, me recusariam e me negariam se tivessem que ficar sem a casinha do cachorro. Existe algo, por mais leviano que seja para a mente humana, que não seja considerado de maior valor ou que seja mais desejado que Eu?
Se me tivessem em maior estima, se me conhecessem mais que as demais criaturas, me amariam mais que tudo, mas carregam valores e coisas insignificantes e as amam mais que a mim. Apiedam-se de qualquer coisa mais que a mim. Desprezam-se por suas próprias perdas e pelas de seus amigos. Eles se afligem por uma única palavra de injúria ditas a eles. Entristecem-se por ofender as pessoas de maior classe que elas, mas não se importam em ofender a mim, o Criador de todas as coisas. Quem é que, sendo tão desprezado e que não seja escutado quando pede algo ou que não seja compensado quando tenha dado algo? Eu sou totalmente indigno e desprezível a seus olhos, tanto que não me consideram merecedor de nenhum bem, apesar de Eu ter lhe dado todo o bem.
Mãe minha, você saboreou mais de minha sabedoria que as demais criaturas e nada mais que a verdade saiu de seus lábios. Tampouco, dos meus lábios, pode sair outra coisa mais que a verdade. Em presença de todos os Santos, Eu me justificarei ante o primeiro homem, o que disse que Eu tinha um corpo indigno. Demonstrarei que, de fato, possuo o corpo mais nobre, sem deformidade nem pecado, e esse homem cairá na eterna censura para que todos o vejam. Já para aquele que disse que minhas palavras eram mentiras e que não sabia se Eu era ou não Deus, demonstrar-lhe-ei que sou verdadeiramente Deus e ele deslizará como o barro até o inferno. E ao terceiro, que sustentava que eu era indigno, o condenarei ao castigo eterno, de maneira que nunca veja minha glória nem meu gozo”.
Então, disse à esposa: “Mantenha-se firme no meu serviço! Você se vê rodeada por um muro, como dissemos, do qual não pode escapar nem escavar seus fundamentos. Assuma voluntariamente esta pequena tribulação e você chegará a experimentar o eterno descanso em meus braços! Você conhece a vontade do Pai, escuta as palavras do Filho e conhece meu Espírito. Obtenha deleite e consolo nos diálogos com minha Mãe e meus Santos. Por isso, mantenha-se firme! Do contrário, chegará a conhecer essa minha justiça pela qual se verá forçada a fazer o que, agora amavelmente, eu a estou alentando que faça.
As palavras do Senhor à esposa sobre o acréscimo da Nova Lei, sobre como a Lei é rejeitada e desdenhada pelo Mundo agora, sobre como os maus sacerdotes não são sacerdotes de Deus e sim traidores, e sobre a suas maldição e a condenação.
Capítulo 47
Eu sou o Deus que uma vez foi chamado de o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó. Eu sou o Deus que deu as Leis a Moisés. Esta Lei era como uma vestimenta. Assim como uma gestante prepara o enxoval de seu bebê, Deus também preparou a Lei, que foi a vestimenta, a sombra e o sinal das coisas por vir. Vesti-me e embrulhei-me nas vestimentas da Lei. À medida que um menino cresce, suas roupas velhas são substituídas por novas.
Da mesma forma, quando a vestimenta da Lei Antiga estava pronta para ser deixada de lado, Eu vesti a roupa nova, ou seja, a Nova Lei e a dei para todos que quisessem ter a mim e às minhas vestimentas. Esta roupa não é muito apertada, nem difícil de vestir, mas é bem justa. Ela não ordena que as pessoas jejuem ou trabalhem demais, nem que se matem ou façam algo além de seu alcance, mas ela é benéfica para a alma e conduz à moderação e correção do corpo. Pois, quando o corpo está muito preso ao pecado, o pecado o consume.
Duas coisas podem ser encontradas na Nova Lei. Primeiro, a temperança prudente e o uso correto dos bens físicos e espirituais. Segundo, uma facilidade para manter a Lei, na qual a pessoa que não puder se manter em um estado poderá em outro. Nela, descobre-se que a pessoa que não foi chamada a viver o celibato pode viver um matrimônio honrado, pois, mesmo depois de cair no pecado, a pessoa pode levantar-se novamente. Entretanto, agora, esta Lei é rejeitada e menosprezada pelo mundo. As pessoas dizem que a Lei é muito rígida, pesada e sem atrativos. Eles a chamam de rígida, pois a Lei ordena que a pessoa se contente somente com aquilo que é necessário e evite o que é supérfluo. Porém, eles querem ter tudo além da razão e mais do que o corpo pode suportar, assim como a ralé.
É por isso que ela parece ser rígida ou rigorosa para eles. Segundo, eles dizem que é pesada, pois a Lei diz que a pessoa deve tolerar o desejo pelo prazer com razão e em tempos estabelecidos. Mas, querem ceder aos seus prazeres mais do que é bom e além do que é estabelecido. Terceiro, dizem que ela não tem atrativos, pois a lei ordena que eles amem a humildade e refiram todo bem a Deus. Querem ser orgulhosos e exaltar a si mesmos pelos presentes bons que Deus os deu. É por isso que ela não é atraente para eles.
Viu como eles se desfazem das roupas que lhes dei? Eu dei um fim aos velhos costumes e introduzi o novo para durar até que Eu venha no julgamento, pois os modos antigos eram muito difíceis. Porém, eles, vergonhosamente, descartaram a vestimenta com a qual cobri a alma, ou seja, uma fé ortodoxa. Além de somarem pecado sobre pecado, também querem me trair. Davi não disse no salmo: ‘Aquele que comeu de meu pão tramou a traição contra mim?’ Quero que perceba duas coisas nessas palavras. Primeiro, ele não diz “trama”, mas “tramou”, tão forte que já é passado.
Segundo, ele aponta somente para um homem como traidor. Da mesma forma, Eu digo que são aqueles no presente que me traem, não aqueles que foram ou serão, mas aqueles que continuam vivos. Também digo que não se trata de apenas uma pessoa, mas de muitas. Mas você deve me perguntar: ‘Não há dois tipos de pão, aquele invisível e espiritual, do qual os Anjos e os Santos vivem e o outro que pertence à Terra, pelo qual os homens se alimentam? Mas os Anjos e os Santos não desejam nada a menos que esteja de acordo com a sua vontade, e os homens não podem fazer nada a menos que você aceite. Como, então, podem te trair?’
Na presença do meu anfitrião celestial que sabe e vê todas as coisas em mim, Eu respondo de forma que possa compreender: De fato, há dois tipos de pão. Um é aquele dos Anjos, que comem meu pão no meu Reino e são preenchidos com a minha glória indescritível. Eles não me traem, pois não querem nada que não seja aquilo que Eu quero. Mas aqueles que comem meu pão no altar me traem. Eu realmente sou o Pão Vivo. É possível perceber três coisas nesse Pão: forma, sabor e harmonia. De fato, Eu sou o Pão e, como tal, tenho três coisas em mim: sabor, forma e harmonia. Sabor, pois tudo e qualquer coisa sem mim é sem sabor, insatisfatório e sem sentido, assim como uma refeição sem pão é sem sabor e não nutritiva.
Eu também tenho a forma de um pão, ou seja, a forma na qual permaneço na Terra. Vim na forma humana da Virgem Mãe, já ela vem da descendência de Adão, que, por sua vez, é da Terra. Pode-se encontrar em mim a perfeita harmonia, pois não tenho começo ou fim. Ninguém pode imaginar ou encontrar o começo da minha sabedoria, do meu poder e da minha caridade. Sou em todas as coisas, estou sobre todas as coisas e além de todas as coisas. Mesmo se alguém fosse como uma flecha, que segue perpetuamente seu curso sem parar, nunca conseguiria encontrar o fim ou o limite do meu poder e da minha força.
Portanto, através dessas coisas, sabor, forma e harmonia, Eu sou o Pão perfeito que se consagra sobre o altar, pão que é transformado no meu corpo, aquele mesmo que foi crucificado. Assim como uma coisa que é seca e facilmente inflamável é consumida rapidamente quando colocada no fogo e em seguida não resta nada, pois o fogo a consome, assim também acontece quando estas palavras são ditas: ‘Este é o meu corpo…,’ o que antes era pão imediatamente se torna meu corpo. É colocada uma chama, não pelo fogo, mas pela minha divindade. Portanto, aqueles que comem do meu corpo eucarístico são aqueles que me traem.
Que tipo de crime poderia ser mais repugnante do que matar a si mesmo? Ou qual traição pode ser pior do que quando duas pessoas estão unidas por alguma coisa indissolúvel, assim como um casal, e um trai o outro? O que um dos dois faz para trair o outro? Ele diz a ela decepcionado: ‘Vamos a tal e tal lugar assim posso ter minha jornada com você!’ Então, ela o acompanha com toda simplicidade, pronta para atender a todos os desejos de seu marido. Mas, quando ele encontra a oportunidade e o lugar certos, aponta armas traiçoeiras contra ela, ou utiliza algo pesado o suficiente para matá-la com um único golpe, ou afiado o suficiente para cortar seus órgãos vitais, ou, ainda, algo sufocante para asfixiar seu espírito de vida. Então, quando ela morre, o traidor pensa consigo mesmo: ‘Agora eu errei. Se meu crime for descoberto e tornar-se público, serei condenado à morte’ Então, ele coloca o corpo de sua esposa em um lugar escondido, assim seu pecado não será descoberto.
Esta é a forma com que sou tratado pelos meus sacerdotes, que são meus traidores. Pois eles e Eu estamos ligados por uma substância indissolúvel, pois quando pegam o pão e, pelo pronunciamento das minhas palavras, o transformam em meu corpo verdadeiro, aquele que recebi da Virgem. Nenhum Anjo pode fazer isto. Eu dei essa dignidade apenas aos sacerdotes e selecionei-os para as ordens mais altas. Mas eles lidam comigo como traidores. Colocam um sorriso feliz e agradável no rosto para mim e me levam a um local escondido onde podem me trair. Estes sacerdotes colocam um sorriso no rosto por aparentarem ser bons e simples. Eles me levam para uma câmara escondida através da aproximação do altar. Lá, estou pronto como uma noiva ou um noivo para realizar todos os seus desejos e, ao contrário, eles me traem.
Primeiro, me batem com algo pesado sempre que o ofício divino, que recitam para mim, se torna incomodamente pesado. Preferem falar uma centena de palavras pelo mundo do que uma única palavra em minha honra. Preferem dar uma centena de moedas de ouro para o Mundo do que um único centavo para Mim. Preferem trabalhar centenas de vezes para seu próprio benefício e da Terra do que uma só vez para minha honra. Eles me pressionam tanto com este fardo pesado que é como se eu estivesse morto em seus corações. Segundo, eles me perfuram com uma lâmina afiada que penetra em meus órgãos vitais cada vez que o sacerdote sobe ao altar com o conhecimento de que ele pecou e arrependeu-se, mas está firmemente determinado a pecar novamente, uma vez que tenha acabado a sua tarefa. Pensam consigo mesmos: Eu realmente me arrependo do meu pecado, mas não vou desistir da mulher com a qual pequei, para ser capaz de não pecar mais.’ Isto me corta como se fosse a mais afiada das lâminas.
Terceiro, é como se eles asfixiassem meu Espírito quando pensam: ‘É bom e prazeroso estar no mundo, é bom perder-se na luxúria e não posso me conter. Farei o que quiser na minha juventude. Quando envelhecer, irei me abster e melhorar os meus hábitos.’ E, através desse mau pensamento, eles sufocam o espírito de vida. Mas como isso acontece? Bem, neles, o coração cresce tão frio e tépido em relação a mim e todas as virtudes que ele nunca pode se aquecer ou crescer no meu amor. Assim como o gelo que não pega fogo, mesmo quando mantido sobre uma chama, apenas derrete, o mesmo aconteceria com eles, se Eu desse a minha graça e eles ouvissem minhas palavras de censura, não avançariam no modo de vida, mas apenas cresceriam barreiras e escória em relação a toda virtude. E assim me traem, naquilo que fingem ser simples sem ser, ficam tristes em dar-me a glória em vez de aproveitá-la e também naquilo que pretendem pecar e continuam pecando até o final.
Eles também me escondem e me colocam em um local afastado de todos e pensam: ‘Sei que pequei. Mas se me abstiver do sacrifício, ficarei envergonhado e todos irão me condenar.’ Então, imprudentemente, eles sobem ao altar e me colocam diante deles e me seguram, Deus e Homem verdadeiro. Fico como se estivesse em um lugar escondido, uma vez que ninguém sabe quão corrompido e sem vergonha eles são. Eu, Deus, diante deles, como se estivesse confinado, já que, mesmo se o sacerdote for o pior dos pecadores e pronunciar as palavras “Este é o meu corpo… ”, continua consagrando meu corpo verdadeiro na Eucaristia, e Eu, Deus e Homem verdadeiro, estou ali diante dele. Entretanto, quando me coloca em sua boca, não estou mais presente para ele na graça das minhas naturezas humana e divina, para ele só resta a forma e o sabor do pão, não porque Eu não esteja realmente presente ali para os maus assim como para os bons devido à instituição do sacramento, senão porque os bons e os maus não me recebem com os mesmos efeitos.
Olhe, estes sacerdotes não são meus sacerdotes, mas traidores! Eles também me vendem e me traem como Judas. Olho para os pagãos e Judeus, mas não vejo ninguém pior que estes sacerdotes, já que caíram no pecado de Lúcifer. Agora, deixe me dar sua sentença e a quem eles se assemelham. A sentença é a condenação. Davi condenou aqueles que eram desobedientes a Deus, não por ira, má vontade ou impaciência, senão pela justiça divina, pois ele foi um profeta e rei justo. Eu, que sou maior que Davi, também condeno estes sacerdotes, não através da raiva ou má vontade, mas pela justiça.
Maldito seja tudo que tenham retirado da Terra para seu próprio benefício, pois eles não louvam seu Deus e Criador que deu a eles estas coisas. Amaldiçoada seja a comida e a bebida que entra em suas bocas e que engorda seus corpos para depois virarem comida para minhocas levando, por fim, suas alma ao inferno.
Amaldiçoados sejam seus corpos que se levantarão novamente no inferno para serem queimados eternamente. Amaldiçoados sejam os anos inúteis de suas vidas. Amaldiçoadas sejam as suas primeiras horas no inferno, pois nunca acabarão. Amaldiçoados sejam seus olhos que viram as luzes do paraíso.
Amaldiçoados sejam os ouvidos que ouviram minhas palavras e permaneceram indiferentes. Amaldiçoado seja o paladar, pelo qual experimentaram meus presentes.
Amaldiçoado seja o tato, pelo qual eles me tocaram. Amaldiçoado seja o olfato, pelo qual sentiram coisas prazerosas e me negligenciaram, o mais prazeroso de todos.
Como, exatamente, eles estão amaldiçoados? Bem, suas visões estão amaldiçoadas porque não verão a Deus em si, mas apenas escuridão e a punição do inferno. Seus ouvidos estão amaldiçoados porque não escutarão minhas palavras, apenas os clamores e horrores do inferno. Seus paladares estão amaldiçoados porque não experimentarão minha alegria e bens eternos, mas sim a amargura eterna. O tato está amaldiçoado, pois não irão me tocar, tocarão apenas o fogo perpétuo. Seus olfatos estão amaldiçoados, pois não sentirão os cheiros mais doces do meu Reino, que superam todos os perfumes, mas terão apenas o fedor do inferno que é mais amargo do que a bile e pior que enxofre.
Eles podem ser amaldiçoados pela Terra, pelo Céu e por todas as criaturas brutas se não mudarem de comportamento. A justiça obedece e glorifica a Deus, pois terão a justa paga de seu afastamento do reto caminho pelo qual juraram fidelidade. Portanto, Eu juro pela verdade, pois sou a Verdade, que se eles morrerem dessa forma, com tal disposição, nem meu amor nem minha virtude irá rodeá-los. Ao contrário, eles serão condenados para sempre.
Sobre como, na presença da Corte Celestial e da esposa, a natureza divina fala à natureza humana contra os Cristãos, assim como Deus falou a Moisés contra o povo, sobre como os sacerdotes condenados amam as coisas mundanas e desprezam Cristo e também sobre sua condenação e maldição.
Capítulo 48
A Corte Celestial foi vista no Céu e Deus lhe disse: ‘Observe, pelo bem desta minha esposa aqui presente, estou falando a vocês, meus amigos que estão aqui ouvindo, vocês que sabem, compreendem e vêem todas as coisas em mim. Como alguém falando consigo mesmo, minha natureza divina irá falar à minha natureza humana. Moisés esteve com o Senhor na montanha por quarenta dias e quarenta noites.
Quando as pessoas viram que já fazia tempo que ele havia partido, elas pegaram ouro, fundiram-no e o moldaram na forma de um bezerro, chamando-o de deus. Então, Deus disse a Moisés: ‘ As pessoas pecaram. Irei liquidar com eles, assim como a escrita é apagada de um livro.’ Moisés responde: ‘Não, meu Senhor. Lembre-se de como os guiou no Mar Vermelho e realizou maravilhas em prol deles. Se acabar com eles, então, onde está sua promessa? Não faça isso, eu te imploro, a partir daí seus inimigos dirão: O Deus de Israel é mau, Ele guiou o povo no mar e o matou no deserto.’ E Deus ficou alegre com estas palavras.
Eu sou Moisés, figurativamente falando. Minha natureza divina fala à humana, assim como ela fez a Moisés, dizendo: ‘Olhe o que o seu povo fez, olhe como eles me desprezam! Todos os cristãos serão mortos e sua fé apagada.’ Minha natureza humana responde: ‘Não, Senhor. Lembre-se como Eu conduzi o povo através do mar pelo meu sangue, quando fui espancado desde a sola dos meus pés até a coroa da minha cabeça! Eu os prometi a vida eterna. Tenha misericórdia por causa da minha Paixão!’
Quando a natureza humana ouviu isto, ficou tomada de compaixão e disse: ‘Seja feita a sua vontade, pois todo o juízo foi dado a você!’ Vejam que amor, meu amigos! Mas agora na presença de vocês, meus amigos espirituais, meus Anjos e Santos, e na presença dos meus amigos corpóreos, que estão no mundo, ainda que só em corpo, lamento que meu povo esteja acumulando lenha, acendendo uma fogueira e jogando ouro nela, da qual um bezerro emerge para o adorarem como deus. Assim como um bezerro que tem quatro patas, uma cabeça, uma garganta e um rabo. Quando Moisés se demorou na montanha, as pessoas diziam: ‘Não sabemos o que pode ter acontecido com ele.’ E elas se lamentaram que ele havia guiado-as para sair de seu cativeiro e disseram: ‘Vamos procurar por outro deus para nos guiar!’
É assim que estes sacerdotes malditos estão me tratando agora. Eles dizem: ‘Por que estamos vivendo uma vida mais austera que os demais? Qual é nossa recompensa? Estaríamos melhor se vivêssemos sem preocupações e na luxúria. Então, amemos o mundo que vemos com certezas! Apesar de tudo, não temos certeza da promessa d’Ele.’ Então pegam lenha, ou seja, aplicam todos seus sentidos para amar o mundo. Eles acendem o fogo quando todos os seus desejos estavam já para o mundo.
Eles queimam à medida que sua luxúria cresce na mente e resulta em atos. Depois, eles jogam ouro na fogueira, ou seja, todo o amor e respeito que deveriam demonstrar por mim, mostram para conseguir o respeito mundano. Então, surge o bezerro, quer dizer, o amor completo ao mundo, que é composto por quatro patas: preguiça, impaciência, alegria supérflua e ganância.
Estes sacerdotes, que deveriam ser meus, são preguiçosos para me honrar, impacientes no sofrimento, excessivos na alegria e nunca se contentam com aquilo que conseguem. Este bezerro também tem uma cabeça e uma garganta, ou seja, um desejo total pela comilança que nunca pode ser satisfeito, nem mesmo se tragasse o oceano inteiro. O rabo do bezerro é a sua malícia, pois não permitem que ninguém mantenha a sua propriedade, nem se pudessem evitar.
Pelo desprezo e exemplo imoral, ferem e corrompem todos que me servem. Tal é o amor pelo bezerro em seus corações e em tal amor se alegram e aproveitam. Eles pensam em mim da mesma forma que aqueles, na Antigüidade, pensavam a respeito de Moisés: ‘Ele se foi já há muito tempo’, dizem. ‘Suas palavras parecem não ter sentido e trabalhar para Ele é um peso. Permita-nos ter nossa própria vontade, deixe nossa força e prazer serem nosso deus!’ Também não se contentam em me esquecer completamente, em vez disso, me tratam como um ídolo. Os pagãos adoravam pedaços de madeira, pedras e pessoas mortas, entre outros, um ídolo chamado pelo nome de Belzebu. Seus sacerdotes costumavam oferecer-lhe incenso, genuflexões e gritos de louvor.
Qualquer coisa no sacrifício de suas oferendas que fosse inútil era deixado no chão e os pássaros e insetos comiam. Mas os sacerdotes costumavam manter para si mesmos qualquer coisa que fosse útil. Então trancavam a porta de seus ídolos e guardavam a chave pessoalmente, para que ninguém pudesse entrar. É assim que os meus sacerdotes estão me tratando atualmente. Oferecem-me incenso, ou seja, falam e pregam belas palavras às pessoas para ganhar respeito e benefícios passageiros, mas não por amor a mim. E assim como você não pode prender o aroma do incenso, mas pode senti-lo e vê-lo, também acontece com suas palavras que não têm nenhum efeito nas almas, para criarem raízes e mantê-las em seus corações, mas tais palavras são ouvidas e vistas para agradar por um tempo.
Eles oferecem preces, mas nem todas me agradam. Igualmente como as pessoas que pronunciam gritos de louvor em seus lábios, mas estão com o coração vazio, ficam diante mim com preces nos lábios enquanto seus corações vagam pelo mundo. Entretanto, como se estivessem falando com uma pessoa da ordem, mantêm suas mentes no que dizem para não cometerem erros que poderiam ser observados pelos outros.
Na minha presença, entretanto, os sacerdotes são como homens confusos que dizem uma coisa com seus lábios e têm outra em seus corações. As pessoas que escutam suas palavras não podem ter certeza sobre mim. Eles dobram seus joelhos para mim, ou seja, prometem humildade e obediência, porém, na verdade são tão humildes quanto lúcifer. Obedecem suas próprias vontades, não a minha.
Eles também me trancam e guardam a chave. Abrem e oferecem glória a mim quando dizem: ‘Sua vontade seja feita na Terra, assim como no Céu!’ Mas, então, trancam-me quando realizam sua própria vontade, enquanto as minhas se tornam como as de um prisioneiro ou um homem sem poder, pois não podem ser ouvidas ou vistas. Guardam a chave no sentido de que pelo exemplo deles, também deixam perdidos outros que querem fazer a minha vontade.
E, se pudessem, gostariam de impedir minha vontade de ser liberto e ser alcançado, exceto quando isto está de acordo com suas próprias vontades. Eles mantêm para si qualquer coisa no sacrifício da oferenda que seja necessário e útil para eles e exigem todos os direitos e privilégios. De qualquer forma, consideraram inúteis os corpos das pessoas que caem no chão e morrem e para os quais são obrigados a oferecer o sacrifício mais importante, mas os deixam lá para as sevandijas, ou seja, para os vermes.
Eles não se importam com os direitos das pessoas ou com a salvação das almas. O que foi dito a Moisés? ‘Mate aqueles que fizeram este ídolo!’ Alguns foram mortos, mas não todos. Conseqüentemente, agora minhas palavras virão e os matarão, alguns em corpo e alma por meio da condenação eterna, outros em vida para que se convertam e vivam, outros ainda pela morte rápida como os sacerdotes que são odiosos para mim. A que eu deveria uni-los? Na verdade, eles são como os frutos dos pequizeiros, que são amarelinhos e bonitos por fora, mas por dentro são cheios de impurezas e espinhos.
Da mesma forma, estes homens vêm até mim amarelinhos e caridosos e perante as pessoas parecem ser puros, mas por dentro estão sujos. Se esta fruta é colocada no solo, outras mudas derivam dela. Igualmente, estes homens escondem seus pecados e malícias em seus corações, como no solo, e se tornam tão enraizados no mal que nem se envergonham de sair em público e gabar-se de seus pecados. Conseqüentemente, não apenas encontram uma ocasião para pecar, mas também ficam com a alma gravemente ferida, pensando consigo mesmos: ‘Se o padre faz isto, é o mais lícito para nós.’
Assim como é, eles não se assemelham somente à fruta, mas também aos espinhos, no sentido de que desdenham a mudança pela correção e repreensão; acreditam que ninguém é mais sábio que si mesmos e que podem fazer o que quiserem. Portanto, Eu juro pela minha natureza divina e humana, na audiência de todos os Anjos, que atravessarei a porta que eles fecharam para a minha vontade. Minha vontade deve ser cumprida e a vontade deles deve ser aniquilada e trancada na punição sem fim. Por isso, assim como foi dito na Velha Lei, Eu devo começar meu julgamento pelo meu clero e no meu altar.”
As palavras de Cristo à sua esposa sobre como Cristo, figurativamente, se uniu a Moisés para guiar o povo para fora do Egito, sobre como os sacerdotes malditos, os quais Ele escolheu no lugar dos profetas como seus amigos, agora choram: “Afastados de nós!”
Capítulo 49
O Filho falou: “Antes Eu me uni, figurativamente, a Moisés. Quando ele estava guiando o povo, o mar se abriu para a direita e para esquerda. De fato, Eu sou Moisés, figurativamente falando. Conduzi o povo Cristão, ou seja, abri o paraíso para eles e mostrei o caminho. Mas agora escolhi outros amigos para mim, mais especiais e íntimos que os profetas, chamados de meus sacerdotes, que não apenas escutam e vêem minhas palavras quando me vêem, mas até me tocam com as suas mãos, o que nenhum dos profetas ou Anjos puderam fazer.
Estes sacerdotes, que escolhi como amigos no lugar dos profetas, me aclamam, não com vontade e amor como os profetas faziam, mas me chamam com duas vozes opostas. Não me aclamam como fizeram os profetas: ‘Venha, Senhor, pois você é bom!’ Em vez disso gritam: ‘Afaste-se de nós, pois suas palavras são amargas, seu trabalho penoso e uma desgraça para nós!’ Apenas escute o que estes sacerdotes malditos dizem! Eu fico perante eles como a ovelha mais mansa, eles retiram a lã de mim para fazerem suas vestes, leite para seu alimento e, ainda assim, me repugnam por amá-los tanto.
Fico perante eles como um hóspede dizendo: ‘Amigo, provenha para mim as necessidades básicas que preciso e receberá a melhor recompensa de Deus por isso!’ Mas em retribuição pela minha simplicidade, me afugentam como se eu fosse um lobo deitado, esperando pela grande ovelha. Em vez de hospitalidade, eles me afrontam como um traidor e se recusam a me levar a outras pessoas. Mas o que o visitante rejeitado fará? Ele deveria trazer armas contra o dono da casa que o afasta?
De forma alguma. Isto não seria justo, uma vez que o proprietário pode dar ou negar a sua propriedade a quem quer que queira. O que, então, o visitante fará? Ele, certamente, poderia dizer àquele que o rejeita: ‘Amigo, uma vez que você não quer me receber, irei para a casa de outra pessoa que tenha pena de mim.’ E, indo em busca de tal, escuta dela: ‘Seja bem-vindo, senhor, tudo o que tenho é seu. Você será o senhor agora! Serei seu servo fiel.’
Estes são os tipos de alojamentos que eu gosto de permanecer, onde escuto tal voz. Sou como o visitante rejeitado pelos homens. Embora possa entrar em qualquer lugar pela virtude do meu poder, todavia, o faço somente sob o ditado da justiça. Eu entro apenas onde as pessoas me recebem com boa vontade, como seu Senhor verdadeiro, não como um hóspede, mas como aquele que recebe suas vontades próprias em minhas mãos.”
As palavras mútuas de bênção e louvor da Mãe e do Filho, sobre a graça concedida pelo Filho à sua Mãe para as almas no purgatório e aqueles que permanecem neste mundo.
Capítulo 50
Maria falou a seu Filho, dizendo: "Glorificado seja seu nome, meu Filho, e santificado seja sua natureza divina que não tem começo nem fim! Em sua natureza divina há três atributos maravilhosos de poder, sabedoria, e virtude. Seu poder é como o fogo mais quente em face de qualquer coisa sólida e forte, é para ser considerado como palha na fogueira. Sua sabedoria é como o mar que nunca pode ser esvaziado por causa de sua imensidão e que cobre vales e montanhas quando se levanta e vai para cima deles. É igualmente impossível compreender e sondar sua sabedoria.
Como você criou a humanidade sabiamente e a estabeleceu sobre toda sua criação! Como sabiamente você organizou os pássaros no céu, os animais na terra, os peixes no mar, dando para cada um, seu próprio tempo e função! Como maravilhosamente você dá e tira a vida das coisas! Como sabiamente você dá sabedoria ao tolo e a tira dos orgulhosos! Sua virtude é como a luz do sol que brilha no céu e ilumina a terra com sua luz. Sua virtude, igualmente, satisfaz de alto a baixo e preenche todas as coisas. Por isso, bendito seja, meu Filho, que é meu Deus e Senhor!”
O Filho assim respondeu: “Minha querida Mãe, suas palavras são doces para mim, pois vêm de sua alma. Você é como o amanhecer que avança serenamente. Você ilumina os céus; sua luz e serenidade ultrapassam a de todos os Anjos. Pela sua serenidade, você atraiu para si o verdadeiro sol, ou seja, minha natureza divina, tanto que o sol da minha divindade veio e se instalou em você. Pelo seu calor, dentre todos os outros, foi aquecida em meu amor e pelo esplendor da minha divindade, mais que todos, foi iluminada pela minha sabedoria. A escuridão da Terra foi afastada e todos os Céus foram iluminados por você. Com a minha verdade, digo que sua pureza é mais agradável a mim do que a de todos os Anjos, atraiu minha divindade a você, de forma que foi preenchida pelo fogo do Espírito.
Nele, você gerou o Verdadeiro Deus e Homem, guardado em seu ventre, por onde a natureza humana é iluminada e os Anjos alegrados. Portanto, seja bendita por seu Filho Santo! E, portanto, nenhum pedido passará por mim sem ser ouvido. Qualquer um que clamar por misericórdia através de você, e tiver a intenção de corrigir seus modos, ganhará a graça. Assim como o calor vem do sol, toda a misericórdia será dada por você. Mãe, é como uma fonte corrente, da qual a misericórdia chega aos miseráveis ".
Em seguida, Maria respondeu a Jesus: "Seja seu todo poder e toda glória, meu Filho! Você é o meu Deus, um Deus de misericórdia. Tudo o que tenho de bom vem de você. Você é como uma semente que, enfim, caiu em terra boa e frutificou rendendo mais e mais. Toda a misericórdia vem de você, sendo incontável e inexplicável, podendo, de fato, ser simbolizado pelo número cem, que significa a perfeição, pois tudo é perfeito através de você e a perfeição vem de você".
Então, Jesus respondeu à Maria: "Mãe, sabiamente você me comparou a uma semente que cresceu e, mesmo que minha natureza divina tenha vindo a você e minha natureza humana não ter sido semeada pela relação sexual, cresci e a misericórdia fluiu de seu ventre para todas as pessoas. Essa é a verdade mais sábia. Agora, então, pela minha misericórdia e pelas doces palavras vindas de seus lábios, peça o que quiser, pois lhe será concedido, minha amada Mãe." A Mãe respondeu: "Meu Filho, uma vez que você me deu a misericórdia, então peço para que tenha piedade dos miseráveis e os ajude. Afinal de contas, há quatro lugares.
O primeiro é o Céu, onde os Anjos e a alma dos Santos não precisam de mais nada além de você, pois possuem todo o bem. O segundo lugar é o inferno e aqueles que vivem lá estão repletos de mal e excluídos de toda misericórdia. Desta forma, nada de bom pode mais entrar neles. O terceiro é o lugar daqueles que foram purificados. Estes precisam de uma misericórdia em dose tripla, uma vez que estão triplamente afligidos. Eles sofrem com o que ouvem, pois não ouvem nada além de tristeza, dor e miséria. Estão angustiados com o que vêem, pois não vêem nada além da própria miséria.
Estão aflitos com o que sentem, pois sentem apenas o calor insuportável do fogo e um sofrimento doloroso. Pelas minhas preces, conceda a eles sua misericórdia, meu Senhor e meu Filho!” Jesus assim respondeu:
"Por você, Eu, alegremente, concederei a esses a misericórdia que me pede. Primeiro, o que eles ouvem será aliviado, assim como o que vêem, seus sofrimentos serão reduzidos e mitigados. Além disso, a partir deste momento, aqueles que se encontrarem na maior purificação do purgatório, devem avançar para o estágio médio. Aqueles que estiverem no estágio médio, avançarão para a purificação mais branda.
E, aqueles que estiverem na punição mais branda, deverão alcançar o descanso." A Mãe respondeu: "Louvor e honra sejam dadas a Você, meu Filho!" E acrescentou em seguida: "O quarto lugar é o mundo. Seus habitantes precisam de três coisas: primeiro, arrependimento pelos seus pecados; segundo, reparação; terceiro, o poder para fazer o bem." Jesus respondeu: "A todos que invocam meu nome e têm esperança em Você, juntamente com o propósito de emenda pelos seus pecados, serão dadas estas três coisas, assim como o Reino do Céu.
Suas palavras são tão doces para mim, que não posso negar nada que me pediu, uma vez que a sua vontade é a minha vontade. Você é como uma chama ardente e reluzente, da qual tochas apagadas podem ser re-acesas, e uma vez acesa, cresce com força. Por meio de seu amor, que cresceu no meu coração e me atraiu a você, aqueles que estão mortos pelo pecado irão ressuscitar e aqueles que estão tépidos e perdidos como a fumaça, crescerão fortes em meu amor".
As palavras de bênção da Mãe ao Filho e sobre como o Filho faz uma comparação adorável da doce Mãe a uma flor que cresce em um vale.
Capítulo 51
Maria Santíssima falou a Jesus, dizendo: “Glorificado seja seu nome, meu Filho Jesus Cristo! Louvores a sua natureza humana, que supera toda a criação! Glória a tua natureza divina acima de toda a bondade! A sua natureza divina e a humana são um único Deus.” Jesus respondeu: “Minha Mãe, você é como uma flor que cresceu em um vale. Ao redor do vale havia cinco montanhas altas. A flor brotou de três raízes, tendo uma haste perfeita sem qualquer nó. Esta flor tinha cinco folhas, adoráveis, em todos os sentidos. O vale e sua flor ultrapassaram as cinco montanhas e as folhas da flor se esparramaram sobre todo céu, acima de todos os coros dos Anjos.
Você, minha Mãe bem-aventurada, é aquele vale em virtude da grande humildade que teve em comparação às outras criaturas. Ultrapassou as cinco montanhas. A primeira montanha era Moisés, em virtude do poder que tinha, pois manteve o poder sobre meu povo através da Lei, e o manteve firme em seus pulsos. Porém, você gerou o Senhor de toda a Lei em seu ventre e, portanto, você é mais alta que esta montanha. A segunda montanha era Elias, tão santo que foi aceito de corpo e alma dentro do santuário. Entretanto, você, minha querida Mãe, foi aceita pela alma ao trono de Deus acima de todos os Coros dos Anjos e seu corpo, o mais puro, está lá, junto de sua alma. Portanto, Você é mais alta que Elias.
A terceira montanha é a força de Sansão, se comparada com as de outros homens. Contudo, o diabo derrotou-o através da enganação. Mas você derrotou o diabo com sua força. Portanto, é mais forte que Sansão. A quarta montanha é Davi, um homem de acordo com meu coração e vontade, que, apesar disso, caiu em pecado. Mas você, minha Mãe, seguiu toda minha vontade e nunca pecou. A quinta montanha é Salomão, homem muito sábio, mas que se tornou um tolo. De fato, você, minha Mãe, é muito sábia e nunca se tornou uma tola ou foi enganada. Portanto, você é mais alta que Salomão. A flor cresceu de três raízes no sentido em que você possuiu, em vida e agora no Céu, três coisas a partir da sua mocidade: obediência, caridade e compreensão divina.
Destas três raízes brotou a haste mais perfeita, sem um único nó, ou seja, sua vontade nunca se desviou para nada além da minha vontade. A flor também teve cinco folhas que cresceram além do Coro de Anjos. Você, minha Mãe, é de fato a flor destas cinco folhas. A primeira folha é sua nobreza, que é tão grande, que meus Anjos, que são nobres em minha presença, percebendo a sua nobreza, a vêem superior a si mesmos e mais exaltada do que suas próprias santidades e nobrezas. Você é, portanto, mais alta que os Anjos. A segunda folha é a sua misericórdia, que é tão grande que, quando viu a miséria das almas, teve compaixão por elas e sofreu a dor da minha morte.
Os Anjos são cheios de misericórdia, contudo nunca sofreram dor. Entretanto, você, Mãe amorosa, foi misericordiosa com os miseráveis, passando por toda a dor da minha morte e, em decorrência da sua misericórdia, preferiu sofrer a dor a se livrar dela. Portanto, a sua misericórdia ultrapassa a de todos os Anjos. A terceira folha é sua grande bondade. Os Anjos são amáveis e gentis, desejando o bem a todos, mas você, minha querida Mãe, teve em sua alma e em seu corpo a vontade como a de um Anjo antes da sua morte e fez o bem a todos o quanto pôde. E agora você não recusa ninguém que reza e lhe suplica ajuda. Assim, sua bondade é mais perfeita que a dos Anjos.
A quarta folha é a sua beleza. Cada um dos Anjos vê a beleza dos outros e admira a beleza de todas as almas e de todos os corpos. Entretanto, eles vêem que a beleza da sua alma, em especial, está acima do resto de toda Criação e que a nobreza do seu corpo supera a de todos os Seres Humanos que foram criados. Portanto, sua beleza ultrapassa a de todos eles e de toda a Criação. A quinta flor é sua alegria divina, pois, nada a alegra mais além de Deus, assim como nada além de Deus alegra os Anjos. Cada um deles sabe e soube a própria e verdadeira alegria. Mas quando viram a sua alegria em Deus, cada um deles, em sua consciência, percebia que a alegria em si brilhava como uma luz no amor de Deus.
Eles perceberam que sua alegria era como uma grande fogueira, queimando com o fogo mais quente em chamas tão altas que chegavam perto da minha divindade. Portanto, ó Mãe adorável, sua alegria divina brilha acima do Coro de todos os Anjos. Esta flor, possuindo estas cinco folhas de nobreza e misericórdia, bondade, beleza e alegria divina, é adorável em todos os sentidos. Quem quer que queira provar da sua doçura deveria se aproximar de você e recebê-la abertamente. Isto também é o que você fez, boa Mãe. Pois foi tão dócil com meu Pai que ele recebeu todo seu interior no seu Espírito e sua doçura o agradou mais que a de qualquer um.
Pelo calor e poder do sol, a flor também possui uma semente e dela cresce um fruto. Abençoado seja este sol, ou seja, minha natureza divina que tocou a natureza humana do seu ventre virginal! Da mesma maneira que uma semente faz as mesmas flores brotarem em qualquer lugar que forem semeadas, assim também meus membros eram como os seus em sua forma e aparência, embora eu fosse um homem e você uma virgem mulher. Este vale, com esta flor, ergueu-se sobre todas as montanhas quando o seu corpo, juntamente com a sua santa alma, foi elevado sobre todos os Coros dos Anjos".
As palavras de bênção da Mãe e sua oração ao Filho para que as palavras dele possam ser difundidas no mundo e arraigadas nos corações de seus amigos, sobre como a Virgem é, maravilhosamente, comparada a uma flor que cresce em um jardim. E sobre as palavras de Cristo transmitidas pela esposa ao Papa e para outros prelados da Igreja.
Capítulo 52
A Virgem Santa falou ao Filho dizendo: “Você é bendito, meu Filho e meu Deus, Deus dos Anjos e Rei de glória! Eu rezo para que as palavras que você pronunciou possam ser arraigadas no coração de seus amigos e fixadas em suas mentes como o betume com o qual a arca de Noé foi calafetada, para que nem as tempestades nem os ventos pudessem afetar seu interior. Que elas se espalhem pelo mundo como grandes galhos cheio de lindas flores, das quais os ramos se esparramam por toda a parte. Que dêem doces frutos, assim como no dia em que a doçura deleita a alma sem medida.”
Jesus, então, respondeu: "Bem-Aventurada é Você, minha querida Mãe! Meu Anjo Gabriel disse a você: 'Bendita é entre as mulheres, Maria!' E eu testemunho que você é abençoada e a mais santificada acima de todos os Coros dos Anjos. Você é como uma flor de jardim que está rodeada por outras flores perfumadas, mas supera todas elas com o seu perfume, beleza e virtude. Estas flores representam todos os eleitos, desde Adão até o final dos tempos. Elas foram plantadas no jardim do mundo, deram flores e também floresceram em várias virtudes, mas entre todas estas que foram e que ainda serão, você é a mais perfeita fragrância de uma vida humilde, na beleza de uma virgindade agradável e na virtude da abstinência.
Dou testemunho que você foi mais que uma mártir em minha Paixão, mais que um Anjo cheio de misericórdia e compaixão. Por você, arraigarei as minhas palavras, com o betume mais forte, no coração de todos os meus amigos. Elas irão se espalhar como as flores perfumadas e darão os frutos como os das mais doces e deliciosas palmeiras”. Então, o Senhor falou à esposa: "Diga a seu amigo que ele deve levar adiante estas palavras quando escreve a seu pai, cujo coração está de acordo com o meu e, ele as levará ao arcebispo e depois a outro bispo.
Quando estes estiverem completamente informados, deverá enviá-las para um terceiro bispo. Diga a ele da minha parte: 'Eu sou seu Criador e o Redentor de almas. Eu sou Deus a quem você ama e honra acima de tudo e de todos. Observe como a alma daqueles que redimi com meu sangue é parecida com a alma daqueles que não conhecem Deus, que foram cativadas pelo diabo de maneira tão terrível, castigando todas as partes de seus corpos, como se os passassem por uma moenda de cana. Portanto, se você sente algo pelas feridas em sua alma, se meu açoitamento e sofrimento significam alguma coisa a você, então mostre, com suas ações, o quanto você me ama!
Torne pública as palavras da minha boca e leve-as pessoalmente ao chefe da Igreja! Darei a você o meu Espírito, de forma que, onde haja a discórdia entre duas pessoas, seja capaz uni-las em meu nome e através do poder lhe dado, se elas, assim, acreditarem. Como evidências da minha palavra, você apresentará ao Pontífice os testemunhos das pessoas que provaram e se encantaram com as minhas palavras. Pois as minhas palavras são como toucinho que, quanto mais quente, mais depressa derrete. Onde não há calor, é rejeitado e não alcança as outras partes.
As minhas palavras são a mesma coisa, quanto mais a pessoa se alimenta delas com amor fervente por mim, mais ela é alimentada com a doçura da vontade divina e do amor interno e mais se queima no meu amor. Mas é difícil para aqueles que não gostam das minhas palavras terem um pedaço de toucinho em suas bocas. Uma vez que provam, o cospem e passam por cima. Algumas pessoas menosprezam minhas palavras, pois não sentem nada pela doçura das coisas espirituais. O senhor da terra, o qual escolhi como um dos meus membros e o fiz verdadeiramente meu, o ajudará virilmente e o proverá com as providências necessárias para sua viagem, por meios lícitos e corretamente adquiridos”.
As palavras de bênção e louvor mútuas da Mãe e do Filho e sobre como a Virgem é comparada à arca onde foram guardados o cajado, o maná e as escrituras da Lei. Muitos detalhes maravilhosos estão presentes nesta imagem.
Capítulo 53
Maria falou a Jesus: “Bendito é você, meu Filho, meu Deus e Senhor dos Anjos! Você é aquele de quem os Profetas ouviram a voz, aquele com quem os Apóstolos viveram, aquele que Judeus e seus inimigos tocaram para crucificar. Com sua divindade, humanidade e o Espírito Santo, você é Deus, o verdadeiro Deus, pois os Profetas ouviram o Espírito, os Apóstolos viram a glória de sua divindade e os Judeus crucificaram sua humanidade. Gloriosamente é sem começo e fim, você é o Santo dos santos!”
O Filho respondeu: “Bem-aventurada é você, pois é Virgem e Mãe! Você é a arca da Lei Antiga, na qual havia três coisas: o cajado, o maná e as escrituras. Três coisas foram feitas pelo cajado: primeiro, se transformou em serpente sem veneno. Segundo, o mar foi dividido por ele. Terceiro, fez com que a água brotasse da pedra. Este cajado é um símbolo meu, pois repousei em seu ventre e assumi de você a natureza humana. Primeiro, sou tão temível aos meus inimigos como a serpente foi a Moisés. Eles fogem de mim assim como fogem das vistas de uma serpente; repugnam-me e detestam-me como se eu fosse uma serpente, embora eu não tenha o veneno da malícia e seja cheio de misericórdia.
Permito que me carreguem como o cajado, se desejarem. Volto a eles, se me pedirem. Se me chamarem, corro ao encontro, como uma mãe que encontra seu filho. Se clamarem, eu lhes mostro misericórdia e perdôo o seus pecados. Faço tudo isso por eles, mas mesmo assim me repugnam como se Eu fosse uma serpente. Segundo, o mar foi dividido por este cajado, no sentindo de que o caminho para o paraíso, que foi fechado pelo pecado, fosse reaberto através do meu sangue e do meu sofrimento. O mar foi, de fato, aberto e o que era intransitável se tornou um caminho no momento em que a dor por todo meu corpo atingiu meu coração e foi dilacerado pela violência de tão cruel sacrifício. Então, quando as pessoas foram conduzidas pelo mar, Moisés não os levou diretamente para a terra prometida, mas sim para o deserto, onde eles poderiam ser testados e instruídos.
Agora, também, uma vez que as pessoas aceitaram minha fé e meu mandamento, eles não são levados diretamente para o Paraíso, é necessário que sejam testados no deserto, ou seja, na Terra, para mostrar como amam a Deus. Além disso, no deserto as pessoas provocaram Deus por três coisas: primeiro, pois fizeram um ídolo para elas e o adoraram; segundo, porque almejaram a abundância que tinham no Egito; terceiro, por orgulho, quando quiseram ir à luta contra seus inimigos sem a aprovação de Deus.
Ainda hoje, as pessoas pecam contra mim da mesma maneira. Elas adoram um ídolo, pois amam o mundo e tudo aquilo que ele pode lhes oferecer e o fazem mais do que a mim, que sou o Criador de tudo. De fato, o mundo é o deus deles, não Eu. Como disse em meu Evangelho: ‘Onde está o tesouro de um homem, está seu coração.’ Assim, o tesouro desses pecadores é o mundo, uma vez que seus corações estão somente nesta vida passageira e não em mim. Portanto, assim como aqueles que pereceram no deserto pela espada, eles também perecerão pela espada da condenação eterna, na qual a alma viverá eternamente o tormento do castigo.
Segundo, eles pecaram por almejar a luxúria. Eu dei à humanidade tudo que precisa para uma vida honrada e moderada, mas as pessoas querem possuir todas as coisas sem moderação ou discrição. Pois, se suas constituições físicas pudessem agüentar, eles estariam, continuamente, fazendo sexo, bebendo sem restrições e cobiçando sem medida; e, contanto que pudessem pecar, nunca desistiriam de seus desejos torpes. Por esta razão, a mesma coisa que aconteceu para aqueles no deserto, acontecerá para estes: morrerão subitamente.
Pois, o que é o tempo desta vida comparado ao da eternidade se não um único momento? Portanto, por conta da brevidade desta vida, eles terão uma morte física rápida, mas viverão a dor espiritual para sempre. Terceiro, em razão do orgulho, eles pecaram no deserto, uma vez que quiseram ir para uma batalha sem a aprovação de Deus. As pessoas desejam ir para o Céu através de seu próprio orgulho. Elas não confiam em mim, apenas nelas mesmas, fazendo sua própria vontade e deixando a minha de lado.
Portanto, assim como aqueles que foram mortos por seus inimigos, estes também serão mortos pelos demônios em sua vida espiritual e seu sofrimento será eterno. É por isso que eles me odeiam como a uma serpente, adoram um ídolo em meu lugar e amam o próprio orgulho em vez da minha humildade. Todavia, continuo tão misericordioso que se eles se voltarem a mim com arrependimento em seus corações, os acolherei como um pai dedicado e os receberei.
Em terceiro lugar, a água brotou da pedra por conta deste cajado. Esta pedra é o duro coração humano. Quando ele é perfurado pelo meu temor e amor, lágrimas de arrependimento e penitência fluem diretamente dele. Ninguém é sem valor, ninguém é tão mau que sua face não se encha de lágrimas e todos os seus membros se movem para a devoção, se ele voltar-se a mim, se em seu coração ele refletir sobre a minha Paixão, se ele prestar atenção em meu poder e se ele considerar como a minha bondade faz com que a terra e as árvores dêem frutos, acolherei o homem de coração convertido. Segundo, na arca de Moisés encontra-se o maná.
Assim também em você, minha Virgem Mãe, encontra-se o Pão dos Anjos e das almas dos Santos e dos íntegros aqui na Terra, a quem nada mais agrada além da minha doçura, para quem todo o mundo está morto, em quem, se fosse minha vontade, viveria muito bem sem a nutrição física. Terceiro, na arca estavam as escrituras da Lei. Assim também em você encontra-se o Senhor de todas as Leis. Portanto, você é abençoada sobre todas criaturas do Céu e da Terra!” Então, ele falou à esposa, dizendo: “Diga três coisas aos meus amigos. Quando habitei o mundo fisicamente, temperei minhas palavras de tal maneira que o bem se tornou mais forte.
De fato, o mal se tornou melhor, como foi claramente o caso de Maria Madalena, Mateus e muitos outros. Novamente, eu temperei minhas palavras de tal forma que meus inimigos não foram capazes de diminuir a força delas. Por esta razão, que as minhas palavras possam funcionar com fervor para as pessoas que as receberem, para que o bem cresça ardentemente na bondade através das minhas palavras, os maus se arrependam de suas maldades e que elas possam prevenir meus inimigos do castigo que terão se obstruírem isso tudo que lhes tenho falado.
Se quisesse, poderia muito bem revelar minhas palavras para que o mundo inteiro pudesse ouvi-las. Eu consigo abrir o inferno para que todos possam ver o sofrimento nele. Entretanto, não seria justo, serviriam a mim por medo, quando devem me servir por amor. Pois apenas a pessoa que ama entrará no reino dos Céus. Além disso, eu estaria prejudicando o diabo, se levasse comigo os escravos que ele adquiriu sem boas ações. Eu também prejudicaria os Anjos do Céu, se o espírito de um impuro fosse colocado no mesmo nível de um puro e fervoroso no amor.
Conseqüentemente, ninguém entrará no Céu, exceto aqueles que foram testados como ouro na fogueira do purgatório ou que provaram por si mesmos, através do tempo nas boas ações quando estiveram na Terra de tal forma que não tenham nenhuma mancha que não tenha sido limpa. Se você não sabe a quem minhas palavras devem ser enviadas, eu lhe digo.
Àqueles que querem ganhar méritos através das boas ações com a finalidade de entrar para o Reino dos Céus ou que já alcançaram o mérito através das boas ações do passado e, por isso, são merecedores de recebê-las.
Àqueles que têm gosto pelas minhas palavras e humildemente esperam a inscrição de seus nomes no livro da vida, pois viveram cada sílaba daquilo que disse que fizessem. Àqueles que não gostam das minhas palavras mesmo que as considerem em princípio, mas depois, as rejeitam convenientemente.
As palavras de um Anjo à esposa sobre se o espírito de seus pensamentos é bom ou ruim, sobre como há dois espíritos, um não criado e um criado e sobre suas características.
Capítulo 54
Um anjo falou à esposa dizendo: “Há dois espíritos, um não criado e um criado. O não criado possui três características. Em primeiro lugar, ele é quente, em segundo lugar, doce e em terceiro lugar, puro. Ele não emite calor das coisas criadas, mas de si mesmo, uma vez que, junto com o Pai e o Filho, ele é o Criador de todas as coisas e o todo Poderoso. Ele emite calor sempre que a alma inteira se inflama pelo amor de Deus. Ele é doce, pois nada o agrada mais que Deus ou a lembrança de seus feitos. Ele é puro e nele nenhum pecado pode ser encontrado, nenhuma deformidade, nenhuma corrupção, ou mutabilidade.
Ele não emite calor como fogo material ou como o sol, que faz as coisas derreterem. Seu calor é tanto o amor interno quanto o desejo da alma que a completa e fica mais forte em Deus. Ele é doce à alma, não da forma como o vinho é escolhido, ou pelo sentir do prazer sensual ou, ainda, através de qualquer outra coisa no mundo que seja agradável. Preferivelmente, a doçura do Espírito é incomparável a toda doçura temporal e inimaginável àqueles que nunca a provaram. O Espírito Santo é tão puro quanto os raios do sol, onde nenhuma impureza pode ser encontrada.
O outro, o espírito criado, também possui três características. Ele está queimado, amargo, e sujo. Primeiro, arde em labaredas e se consome como as chamas, visto que incendeia a alma que possui com o fogo da luxúria e do desejo depravado. Isso faz com que não possa pensar em nada além daquilo que satisfaça sua vontade, até o ponto em que, como resultado, sua vida temporal perca toda a honra e consolidação. Segundo, ele é tão amargo quanto a bílis, visto que foi inflamado pelo desejo luxurioso e, assim, convence a alma de que as alegrias futuras se comparam a nada e os bens eternos parecem tolices.
Tudo o que tem a ver com Deus e todas as práticas de amor da alma para com Ele, se tornam amargos e tão abomináveis como o vômito e a bílis. Terceiro, o espírito é imundo, uma vez que deixa a alma tão vil e propensa a pecar, também não se envergonha de nenhum ato torpe e nem desiste de nenhum ato vilipendioso que pratica.
É por isso que o espírito queima como fogo, pois queima pela injustiça e incendeia outros juntamente com ele. É por isso que este espírito é de fato amargo, pois todo o bem é amargo a ele, pois quer fazer o bem amargo aos outros, assim como também para si. Reafirmo novamente, ele é impuro, pois tem prazer com o imundo e procura recrutar outros como ele. Agora, você deve me perguntar: ‘Mas você não é um espírito criado assim como esse? Por que, então, você é dessa forma?’ Eu responderei: Claro que sou criado por aquele mesmo Deus que também criou o outro espírito, o que é imundo, uma vez que só há um Deus: Pai, Filho e Espírito Santo, três Pessoas, mas um único Deus. Todos nós fomos perfeitamente criados para o bem, uma vez que Deus não criou nada além do bem.
Posso ser comparado a uma estrela, pois permaneço na bondade e no amor de Deus, no qual eu fui e permaneço. Ele, o espírito imundo, pode ser comparado a um carvão, uma vez que deixou o amor divino. Portanto, assim como uma estrela tem brilho e esplendor e o carvão não, um Santo Anjo, que é como uma estrela, tem seu esplendor, ou seja, o Espírito Santo. Ele vive aquecido no amor de Deus, brilha em seu esplendor, se agarra a Ele e se conforma com a vontade de Deus, sem nunca querer qualquer coisa além daquilo que Deus quer. É por isso que ele arde como um labareda, é por isso que é puro.
O demônio é como um carvão feio, mais feio do que qualquer outra criatura, pois, só pelo fato de ter sido o mais belo dos Anjos, tornou-se o mais feio entre todos, justamente por opor-se ao seu Criador. Assim como os Anjos de Deus brilham à luz divina e se inflamam incessantemente em seu amor, o demônio também queima, mas na angústia de sua malícia. A malícia dele é insaciável, assim como a graça e a bondade do Espírito Santo são inexplicáveis. Entretanto, não há ninguém no mundo tão arraigado ao demônio cujo poder do Espírito Santo, ao visitá-lo, não mude seu coração. Da mesma forma, não há ninguém tão bom que o demônio não tente tocá-lo com sua tentação. Muitas pessoas boas e justas são tentadas pelo demônio com a permissão de Deus. Isto não é por causa da maldade e pecado que eventualmente tenham, mas para a sua maior glória.
O Filho de Deus, uno em divindade com o Pai e com o Espírito Santo, se foi tentado na sua natureza humana, mais seus eleitos são e serão postos à prova para uma recompensa ainda maior! Novamente, muitas pessoas boas, às vezes, caem no pecado e a consciência delas se escurece por conta da mentira do demônio, mas elas conseguem se levantar mais fortes que antes, pois o fazem mediante o Espírito Santo. Entretanto, não há ninguém que não se dê conta disto em sua consciência e que não perceba que a tentação do mal conduz à deformidade do pecado e não ao bem, tudo deve ser feito e analisado cuidadosamente, deve ser feito sempre uma confissão dos erros e uma meditação corretiva na própria consciência.
E assim, esposa do meu Senhor, você não deve ficar em dúvida se o espírito de seus pensamentos são bons ou maus. Pois a sua consciência lhe fala quais coisas ignorar e quais escolher. O que uma pessoa cheia de maldades deve fazer, uma vez que o Espírito Santo não pode entrar nela por estar cheia de pecados e vivendo na escuridão? Ela deve fazer três coisas: uma confissão clara e completa de seus pecados, na qual, mesmo se ela não estiver totalmente arrependida, devido à dureza de coração, mesmo assim se beneficie disso, visto que o demônio a respeitará e sairá do caminho do Espírito Santo.
Segundo, praticar a humildade, resolvendo, assim, reconciliar-se pelos pecados que cometeu praticando todo o bem reparador que puder, conseqüentemente, o demônio começará a ir embora. Terceiro, clamar o Espírito Santo a Deus em prece humilde, com amor verdadeiro e arrependido dos pecados que cometeu, pois o amor por Deus mata e expulsa o demônio.
O demônio é tão invejoso e malicioso que preferiria morrer cem vezes a ver alguém fazer um bom ato, por pequeno que seja, por amor a Deus".
Tomando a palavra, Maria Santíssima falou à esposa dizendo: “Nova esposa de meu Filho, arrume-se, vista seu broche, ou seja, a Paixão de meu Filho!” Ela respondeu: “Minha Senhora, coloque-o em mim!” E ela disse: “Claro que eu coloco. Eu também quero que você saiba como meu Filho estava disposto e por que os pais o almejaram tanto. Ele permaneceu entre duas cidades. A voz da primeira cidade clamava a Ele, dizendo: Você, aí, que está entre as duas cidades, você é um homem sábio, pois sabe como precaver os perigos iminentes.

Você também é forte o bastante para suportar males projetados. Você é bem corajoso, uma vez que não teme nada. Nós almejamos e esperamos por Você. Abra o nosso portão! Os inimigos estão bloqueando-o para que ele não possa ser aberto” Uma voz da segunda cidade foi ouvida: ‘Ó homem amável e forte, escute nossa queixa e lamento! Sentamos na escuridão e sofremos de fome e sede insuportáveis. Olhe para nossa pobreza e miséria! Nós estamos tão acabados quanto a grama cortada pela foice. Nós murchamos perdendo toda a bondade e toda nossa força nos deixou. Venha até nós e nos salve, pois só você é aquele que esperamos, temos esperança em você como nosso Salvador!
Venha e ponha fim a nossa pobreza, transforme nosso lamento em alegria! Seja nossa ajuda e salvação! Venha a nós, ó Corpo tão Precioso e Santo, corpo este vindo da Virgem Pura!’ Meu Filho ouviu estas duas vozes vindas das duas cidades, ou seja, do Céu e do Inferno. Portanto, em sua misericórdia, ele abriu as portas do inferno por meio da sua Paixão e o derramamento de seu sangue resgatou seus amigos que estavam lá, pois haviam morrido sem seu Santo e Doloroso Sacrifício na cruz. Ele também abriu o Céu e deu alegria aos Anjos através do resgate de seus amigos do inferno. Minha filha, pense nessas coisas e as guarde para sempre diante de você!”
Sobre como Cristo é comparado a um poderoso senhor que constrói uma grande cidade e um lindo palácio, que representam o mundo e a Igreja, e sobre como os juízes, defensores e trabalhadores da Igreja de Deus desviaram-se como um arco enganoso.
Capítulo 55
Sou como um poderoso senhor que construiu uma cidade e deu seu nome a ela. Na cidade, ele então construiu um palácio no qual havia vários pequenos cômodos para armazenagem. Depois de construir o palácio e de organizar sua situação, ele dividiu seu pessoal em três grupos, dizendo: ‘Estou partindo para uma região remota. Fiquem firmes e trabalhem bravamente em nome de minha glória! Providenciei o que precisam para saciar sua fome e outras necessidades. Vocês têm juízes para julgá-los. Têm defensores para defendê-los de seus inimigos. Também providenciei trabalhadores para alimentá-los.
Eles devem pagar um décimo de seu trabalho, reservando esta quantia para meu uso e em meu nome.’ Entretanto, algum tempo após ter partido, o nome da cidade foi esquecido. Então, os juízes disseram: ‘Nosso senhor viajou para uma região remota. Que julguemos corretamente e façamos justiça de modo que, quando ele retornar, não seremos acusados, e sim elogiados e abençoados’. Então, os defensores disseram: ‘Nosso senhor confia em nós e entregou sua casa a nossos cuidados. Assim, que privemo-nos de nosso alimento e bebida supérfluos, para que possamos estar qualificados para a batalha!
Que privamo-nos de nosso sono excessivo, para que não sejamos vítimas de armadilhas! Que estejamos bem armados e em alerta constante, para que não nos peguem de surpresa em um ataque inimigo! A honra de nosso senhor e a segurança de seu povo dependem de nós’. Então, os trabalhadores disseram: ‘A glória de nosso senhor é grande e sua recompensa é maravilhosa. Que trabalhemos vigorosamente e demos a ele não apenas um décimo de nosso trabalho, mas ofereçamos tudo o que sobrar de nossas despesas! Nossos salários serão tão gloriosos assim como é grande o amor que ele detém por nós’. Depois disso, algum tempo se passou e o senhor da cidade e seu palácio foram esquecidos. Então, os juízes disseram para si mesmos: ‘Nosso senhor está demorando. Não sabemos se retornará. Assim, julguemos da forma que quisermos e como nos agrada!’
Depois disso, os defensores disseram: ‘Somos tolos, pois trabalhamos e não sabemos que recompensa receberemos. Aliemo-nos a nossos inimigos e durmamos e bebamos com eles! Pois, assim, não nos preocuparemos com eles.’ Depois disso, os trabalhadores disseram: ‘Por que guardamos nosso ouro para outra pessoa? Não sabemos quem ficará com ele. É melhor, então, que o usemos de acordo com nossa vontade. Que demos a décima parte aos juízes, e, depois de nos conciliar com eles, poderemos fazer o que quisermos’. Verdadeiramente, sou como este poderoso senhor. Construí uma cidade, isto é, o mundo, e lá fiz um palácio, isto é, a Igreja.
O nome dado ao mundo foi divina sabedoria, pois já tinha este nome desde o início, já que foi criado na divina sabedoria. Este nome foi venerado por todos e Deus foi louvado por sua sabedoria e proclamado por suas criaturas. Nos tempos atuais, o nome da cidade foi desonrado e modificado, sendo que agora é chamado de sabedoria humana. Os juízes, que antes davam sentenças justas por temor ao Senhor, agora se voltaram ao orgulho e estão decadentes.
Desejam ser eloqüentes para serem louvados pelos humanos; falam agradavelmente para obter favores. Toleram quaisquer palavras para que digam que são bons e compassivos; permitem-se ser subornados e delegam sentenças injustas. São ajuizados no que diz respeito a seus bens mundanos e seus desejos, mas são ignorantes em relação a meu louvor. Pisoteiam os homens comuns e os mantêm quietos. Expandem sua ganância a todos e transformam o que é certo em errado. Esta é a sabedoria apreciada nos dias de hoje, enquanto a minha cai em esquecimento.
Os defensores da Igreja, que são os nobres e os cavaleiros, olham para meus inimigos, que atacam a minha Igreja, e fingem que não os vêem. Escutam estes se aproximarem e não dão importância. Conhecem e entendem os feitos daqueles que atacam meus mandamentos e, entretanto, os toleram pacientemente. Vêem-nos cometer diariamente todo tipo de pecado mortal e não se arrependem, pelo contrário, dormem ao lado deles e fazem acordos com eles, unindo-se através de juramento.
Os trabalhadores, que representam todos os cidadãos, rejeitam meus mandamentos e retêm meus presentes e dízimos. Subornam os juízes e lhes demonstram reverência para garantir sua boa vontade e favores. Ouso dizer que, de fato, a espada do temor a mim e a minha Igreja na terra foram deixadas de lado, e uma bolsa cheia de dinheiro foi aceita em troca.
Palavras com as quais Deus explica o capítulo anterior, sobre a sentença dada às pessoas mencionadas e sobre como Deus tolera os maus temporariamente em nome do bem.
Capítulo 56
Disse-lhe anteriormente que a espada da Igreja foi deixada de lado e uma bolsa de dinheiro foi aceita em troca. Esta bolsa tem apenas uma abertura. É tão profunda que tudo o que é colocado dentro dela nunca alcança seu fundo, assim a bolsa nunca é preenchida. Esta bolsa representa a ganância. Ela excedeu todas as fronteiras e medidas e se tornou tão forte que o Senhor hoje é desprezado e nada mais é desejado exceto o dinheiro e o egoísmo. Entretanto, represento tanto um pai como um juiz.
Quando seu filho vai a julgamento, os observadores dizem: ‘senhor, dê logo sua sentença!’ O senhor responde: ‘Esperem um pouco até amanhã, pois talvez meu filho possa se redimir’. Quando chega o dia seguinte, as pessoas dizem a ele: ‘Dê sua sentença, senhor! Por quanto tempo irá adiá-la e não condenará o culpado?’ O senhor responde: ‘Esperem um pouco mais, para vermos se meu filho se redimirá! E, então, se isso não acontecer, farei o que for justo.’ Da mesma forma que esse juiz, eu tolero as pessoas até o último momento, já que sou pai e juiz. Entretanto, pelo fato de minha sentença ser incomutável, apesar da demora no processo, posso punir pecadores que não se redimiram ou demonstrar minha misericórdia se eles se converterem.
Disse-lhe anteriormente que dividi as pessoas em três grupos: juízes, defensores e trabalhadores. O que os juízes simbolizam senão os sacerdotes que transformaram a sabedoria divina em corrupta e vazia? Assim como clérigos eruditos que transformam muitas palavras em poucas, e estas poucas palavras dizem a mesma coisa, os clérigos de hoje transformaram meus dez mandamentos em uma única frase. E qual é essa única frase? ‘Estenda sua mão e dê-nos dinheiro!’ Esta é sua sabedoria: falar elegantemente e agir maldosamente, fingir que pertencem a mim e agir injustamente contra mim.
Em troca de suborno, toleram pecados e causam a desgraça das pessoas simples através de seu exemplo. Além disso, odeiam aqueles que me seguem. Segundo, os defensores da Igreja, os cavaleiros, são desleais. Quebraram sua promessa e juramento e toleram aqueles que pecam contra a fé e a lei de minha Sagrada Igreja. Terceiro, os trabalhadores, ou cidadãos, são como touros indomáveis, pois fazem três coisas. Pisam no chão com força; segundo, fartam-se até estarem saciados; terceiro, satisfazem seus desejos de acordo com sua vontade. Os cidadãos desejam bens temporais passionalmente. Saciam sua gula excessiva e sua vaidade mundana. Satisfazem seu deleite carnal de forma irracional.
Porém, embora meus inimigos sejam muitos, ainda tenho amigos entre esses, mesmo que escondidos. Foi dito a Elias, que acreditava não haver mais amigos meus além dele mesmo: ‘Existem sete mil homens que não se curvaram a Baal’. Da mesma forma, embora sejam muitos os inimigos, ainda tenho amigos escondidos entre eles, que lamentam diariamente, pois meus inimigos prevaleceram e meu nome foi desprezado. Como um rei bondoso e caridoso que conhece os males da cidade, mas tolera seus habitantes pacientemente e envia cartas a seus amigos alertando-os sobre o perigo, assim também, pelo bem de seus oradores, envio minhas palavras a meus amigos.
Estas não são tão obscuras como as encontradas no Apocalipse que revelei a João embaixo de um véu de obscuridade para que pudessem, a seu tempo, ser explicadas por meu Espírito quando assim Eu quisesse. Elas não estão tão escondidas a ponto de não serem reveladas (assim como quando Paulo viu alguns de meus mistérios e foi proibido de comentá-los), mas estão tão evidentes que todos, tanto os pequenos como os grandes, podem entendê-las tão facilmente que qualquer um que quiser poderá alcançá-las.
Dessa forma, que meus amigos vejam que minhas palavras atingem meus inimigos, para que talvez se convertam, e que seu perigo e julgamento sejam conhecidos, para que possam sentir pesar pelas suas ações! Caso contrário, a cidade será julgada e, como uma parede é derrubada sem deixar pedra sobre pedra ou mesmo duas pedras unidas no alicerce, assim deve acontecer com a cidade, isto é, o mundo. Os juízes certamente serão queimados no mais ardente fogo. Não há fogo que arde mais do que aquele alimentado pela abundância.
Esses juízes eram abundantes, já que satisfaziam seu egoísmo mais que qualquer outra pessoa, ultrapassavam todos em sua honra e excessos mundanos e eram mais maliciosos e injustos que os outros. Assim, arderão no fogo mais ardente. Os defensores serão pendurados na forca mais alta. Uma forca consiste de dois pilares de madeira verticais com um terceiro colocado no topo como uma viga mestra. Esta forca com dois pilares de madeira representa sua cruel punição, que é, por assim dizer, feita a partir de dois pedaços de madeira.
O primeiro pilar significa que eles não esperaram por minha recompensa eterna e também não trabalharam para merecê-la. O segundo pilar significa que não confiaram em meu poder e bondade, pensando que Eu não era capaz de fazer todas as coisas ou que não queria sustentá-los suficientemente. A viga de madeira significa suas consciências deturpadas, pois entendiam o que estavam fazendo, mas estavam fazendo o mal e não sentiam vergonha por contrariarem suas consciências. A corda da forca significa o fogo eterno que não pode ser apagado pela água nem cortada por tesouras, ou partida e desgastada pelo tempo.
Nesta forca de punição cruel e fogo inextinguível, ficarão pendurados e humilhados como traidores. Sentirão angústia, pois foram desleais. Ouvirão insultos, pois minhas palavras foram desagradáveis. Gritos de dor estarão em suas gargantas, pois sentiam prazer em seu próprio louvor e glória. Corvos, isto é, demônios que nunca se satisfazem, os machucarão, mas, embora estejam feridos, nunca morrerão: viverão em um tormento sem fim e seus atormentadores viverão eternamente. Sofrerão dor sem fim e desgraça completa. Seria melhor para eles se nunca tivessem nascido e que suas vidas não fossem prolongadas! A sentença dos trabalhadores será a mesma que é dada aos touros. Touros têm o couro e a carne muito espessos. Dessa maneira, sua sentença é a faca. Esta lâmina afiada significa a morte e a condenação ao inferno que atormentará aqueles que me desprezaram e amaram sua vontade egoísta em vez de meu mandamento.
A carta, isto é, minhas palavras, foi escrita. Que meus amigos trabalhem para que a carta alcance meus inimigos de forma sábia e discreta, na esperança de que a escutem e se arrependam. Se, depois de ouvirem minhas palavras, alguns deles digam: ‘Esperemos um pouco mais, ainda não é a hora, ainda não chegou o momento”, então, pela minha natureza divina, que expulsou Adão do paraíso e mandou as dez pragas ao faraó, juro que irei até eles antes do que pensam.
Pela minha natureza humana, que assumi sem pecados da Virgem para a salvação dos homens e que me fez sofrer angústias em meu coração, enfrentando dor e morte pela vida dos homens, levantando-me novamente e ascendendo até sentar-me ao lado direito de meu Pai, verdadeiro Deus e homem em uma só pessoa, juro que conduzirei minhas palavras. Por meu Espírito, que descendeu sobre os Apóstolos no dia de Pentecoste e os inflamou de tal forma que eles falaram a língua de todos os povos, Eu juro que, a menos que reparem seus modos e retornem a mim como servos frágeis, vingar-me-ei deles em minha fúria.
Então, eles sofrerão em corpo e alma. Sofrerão com o fato de terem vivido na Terra. Sofrerão com o fato de que o prazer que tiveram era pequeno e agora insignificante, e que sua tortura será eterna. Então, perceberão o que agora se recusam a acreditar, isto é, que minhas palavras foram palavras de amor. Assim, entenderão que os aconselhei assim com um pai, mas que não quiseram me escutar. Em verdade, se não acreditam nas palavras da bondade, terão de acreditar nas ações que se seguirão.
As palavras da esposa sobre como as almas dos Cristãos são alimentadas de forma asquerosa e desprezível, enquanto amam o mundo e se deleitam nele e sobre a terrível sentença dada a tais pessoas.
Capítulo 57
O Filho falou à esposa: ‘Os Cristãos estão me tratando da maneira como fui tratado pelos Judeus. Os judeus me expulsaram do templo e tentaram me matar, mas, pelo fato de minha hora ainda não ter chegado, escapei de suas mãos. Os Cristãos me tratam assim agora. Expulsam-me de seu templo, quer dizer, de suas almas, que deveriam ser meu templo, e me matariam se pudessem. Em suas bocas sou como carne podre e com mau cheiro, pensam que conto mentiras e não se importam comigo. Voltam-se contra mim, mas Eu virarei minha face, já que não há nada além de ganância em suas bocas e apenas uma luxúria irracional em sua carne.
Apenas a vaidade e o prazer mundano encantam seus olhos. Minha Paixão e meu Amor são repugnantes para eles e minha vida é onerosa. Por isso, agirei como o animal que tinha muitas tocas: quando os caçadores o perseguiam em uma das tocas, ele escapava para outra. Farei isto, pois sou perseguido pelos Cristãos com seus trabalhos ruins e expulso de seus corações. Dessa forma, dirijo-me aos pagãos, que em cujas bocas ainda sou amargo e insípido, mas tornar-me-ei mais doce do que mel em suas bocas.
Entretanto, ainda sou tão misericordioso que receberei alegremente qualquer um que pedir perdão e disser: ‘Senhor, sei que pequei gravemente e quero melhorar minha vida através de sua graça. Tenha misericórdia em nome de sua amarga Paixão!’ Entretanto, para aqueles que persistem na maldade, devo proceder como um gigante que tem três características: é medonho, forte e cruel. Atingirei os Cristãos com tal medo que eles não ousarão levantar um dedo contra mim. Também virei com tal força que eles agirão como moscas. Terceiro, virei com tal severidade que sentirão um pesar sem fim’.
As palavras da Mãe à esposa e as doces palavras da Mãe e do Filho dirigidas um ao outro, e sobre como Cristo é amargo, o mais amargo, para os maus, porém doce, o mais doce, para os bons.
Capítulo 58
A Mãe disse à esposa: ‘Considere, jovem esposa, a Paixão de meu Filho. Sua Paixão foi mais amarga que a de todos os Santos. Assim como uma mãe ficaria perturbada se visse seu filho ser esquartejado vivo, eu também fiquei perturbada ao ver a Paixão de meu Filho quando presenciei a crueldade de tudo aquilo’. Então ela disse a seu Filho: ‘Glorificado seja, meu Filho, pois você é santo, assim como diz o verso: ‘Santo, santo, santo, Senhor Deus dos Exércitos’. Abençoado seja, pois é doce, o mais doce! Você já era santo antes de encarnar, santo no útero e após a encarnação.
Já era doce antes da criação do mundo, mais doce que os Anjos, o mais doce para mim em sua encarnação’. O Filho respondeu: ‘Abençoada seja você, Mãe, sobre todos os Anjos! Assim como fui o mais doce para você, assim como diz agora, então sou amargo, o mais amargo para os maus. Sou amargo para aqueles que dizem que criei muitas coisas sem motivo, que blasfemam e dizem que criei as pessoas para a morte e não para a vida. Que idéia infeliz e sem sentido! Eu, que sou justo e virtuoso, criei os Anjos sem um motivo? Teria dotado a natureza humana de tanta bondade se a tivesse criado para a condenação? De maneira alguma!
Fiz todas as coisas bem e por amor dei todas as coisas boas à humanidade. Entretanto, a humanidade transforma todas as coisas boas em más. Não fiz nenhuma coisa má, mas eles fazem, ao direcionarem sua vontade para outras partes além do que deveriam de acordo com a Lei Divina. Isto é que é maldade. Sou amargo para aqueles que dizem que dei a eles o livre arbítrio para cometerem o pecado e não para fazerem o bem, que dizem que não sou justo, pois condeno algumas pessoas enquanto inocento outras, que me culpam por sua própria maldade, pois afasto deles minha graça.
Sou o mais amargo para aqueles que dizem que minha Lei e Mandamentos são muitos difíceis e que ninguém é capaz de segui-los, que dizem que minha Paixão é inútil, e por isso não a consideram para nada. Assim, juro por minha vida, como jurei aos Profetas, que apelarei de minha causa aos Anjos e todos os meus Santos. Aqueles que sentem meu amargor comprovarão que Eu criei todas as coisas racionalmente e bem e para o benefício e instrução da humanidade, e que até o menor dos vermes existe por um motivo. Aqueles que sentem meu amargor comprovarão que dei o livre arbítrio aos humanos com respeito ao bem sabiamente. Eles também descobrirão que sou justo, que ofereço o reino eterno às pessoas boas e punição aos maus.
Não seria conveniente para o demônio, que eu criei como bom, mas que caiu em sua própria malícia, manter relações com os bons. Os maus também descobrirão que o culpado por sua maldade não sou eu, e sim eles mesmos. De fato, se fosse possível, receberia com prazer a mesma punição que uma vez recebi na cruz por todas as pessoas, para que possam recuperar sua herança prometida. Mas a humanidade sempre opõe sua vontade à minha. Dei-lhes liberdade para que me servissem se quisessem, e para que pudessem receber a recompensa eterna.
Mas se assim não quisessem, compartilhariam sua punição com o demônio, para quem, devido a sua malícia e suas conseqüências, o inferno foi criado. Por ser repleto de caridade, não quis que a humanidade me servisse por medo ou fosse compelida a fazê-lo como animais irracionais, mas sim por amor a Deus, pois ninguém que serve a mim de má vontade ou por medo da punição pode ver meu rosto. Aqueles que sentem meu maior amargor perceberão que minha lei era gentil e minha submissão é tranqüila. Ficarão inconsolavelmente tristes por terem rejeitado minha Lei e em vez disso amaram o mundo, cuja submissão é mais pesada e mais difícil que a minha’.
Então, sua Mãe respondeu: ‘Abençoado seja, meu Filho, meu Deus e meu Senhor! Já que foi meu doce deleite, rezo para que outros sejam cúmplices dessa doçura’. O Filho respondeu: ‘Abençoada seja, minha querida Mãe! Suas palavras são doces e cheias de amor. Assim, tudo ficará bem para aqueles que receberem sua doçura e consigam mantê-la perfeitamente. Mas qualquer um que recebê-la e rejeitá-la será punido da forma mais amarga’. Então, a Virgem respondeu: ‘Bendito seja, meu Filho, por todo o seu amor!”
As palavras de Cristo, na presença da esposa, que contêm símiles nas quais Cristo é comparado a um camponês, bons sacerdotes a bons pastores, maus sacerdotes a maus pastores e bons cristãos a uma esposa. Estas símiles são úteis de várias formas.
Capítulo 59
Sou aquele que nunca proferiu uma mentira. O mundo me considera como um camponês cujo nome parece desprezível. Minhas palavras são consideradas tolas e minha casa é um modesto barraco. Este camponês tinha uma esposa que não queria nada além do que ele queria, que tinha tudo em comum com seu marido e aceitava-o como seu senhor. Este camponês também tinha muitas ovelhas, e contratou um pastor para cuidar delas por cinco moedas de ouro e pelo suprimento de suas necessidades diárias. Este era um bom pastor, que fez bom uso do ouro e da comida que recebia.
Com o passar do tempo, o pastor foi substituído por um outro, inferior ao primeiro, que usou o ouro para comprar uma esposa e dar-lhe sua comida, com quem tirava folgas constantes em vez de cuidar das ovelhas, que se dispersavam fugindo de predadores. Quando o camponês viu suas ovelhas dispersas, gritou: ‘Meu pastor é desleal a mim. Minhas ovelhas foram dispersas e algumas delas foram devoradas por predadores, enquanto outras morreram e seus corpos foram largados’. Então, a esposa do camponês disse a ele: ‘Meu senhor, é certo que não recuperaremos os corpos que foram devorados. Mas, carreguemos e utilizemos os corpos que permaneceram intactos, embora não haja um sopro de vida neles. Suportaremos se não nos sobrar mais nada’. O marido respondeu: ‘O que faremos? Uma vez que os predadores eram venenosos, a carne das ovelhas se infectou com o veneno mortal, o couro foi arruinado, a lã está ruim’.
Sua esposa respondeu: ‘Se tudo foi arruinado e perdido, o que, então, faremos para sobreviver?’ Seu marido respondeu: ‘Posso ver algumas ovelhas vivas em três lugares. Algumas delas assemelham-se às ovelhas mortas e não ousam respirar por medo. Outras estão afundadas na lama e não conseguem se levantar. Outras estão escondidas e não ousam sair de seus esconderijos. Venha, esposa, levantemos as ovelhas que tentam se levantar, mas não conseguem sem ajuda, para que possamos fazer uso delas!’ Veja que Eu, o Senhor, sou este camponês. Os homens pensam que sou um asno criado em seu estábulo de acordo com sua natureza e hábitos. Meu nome é a Mente da Santa Igreja. Acredita-se que ela é desprezível, visto que seus sacramentos, o batismo, unção, penitência e matrimônio são, como ela foi, recebidos com desprezo e aplicadas com ganância.
Minhas palavras são consideradas como tolas, visto que as palavras que saem de minha boca, as quais digo através de parábolas, foram convertidas da compreensão espiritual para o entretenimento. Minha casa é vista como desprezível, visto que o que é terreno é amado mais do que o que é espiritual. O primeiro pastor simboliza meus amigos, isto é, os sacerdotes que tinha na Santa Igreja, pois ‘um’ na verdade representa muitos. Confiei-lhes minhas ovelhas, isto é, o meu venerável corpo para que consagrassem e as almas dos meus escolhidos para que governassem e defendessem.
Também dei-lhes cinco coisas boas, mais preciosas que ouro, a saber, a compreensão do que é mais recôndito para que saibam discernir entre o bem e o mal, entre a verdade e a mentira. Segundo, dei-lhes discernimento e sabedoria para questões espirituais; isto foi esquecido, sendo que amam a sabedoria humana agora. Terceiro, dei-lhes a castidade; quarto, a temperança e a abstinência para que tivessem auto-controle sobre seus corpos; quinto, firmeza nos bons hábitos, palavras e ações. Depois deste primeiro pastor, quero dizer, destes meus amigos que faziam parte da minha Igreja no passado, outros pastores maus também se juntaram. Compraram esposas em troca de ouro, isto é, em troca da castidade e das cinco qualidades, apropriaram-se do corpo de uma mulher, isto é, da imoderação. Assim, meu Espírito os deixou.
Quando se concentram em pecar ou satisfazer suas esposas, isto é, sua luxúria, de acordo com seu prazer, meu Espírito não está presente neles, já que não se importam de perder as ovelhas enquanto seguem sua vontade própria. As ovelhas que foram completamente devoradas representam aqueles cujos espíritos estão no inferno e cujos corpos estão enterrados em túmulos e esperam pela ressurreição da condenação eterna. As ovelhas cujos corpos permanecem, mas cujos espíritos foram levados, representam as pessoas que não me amam, não me temem e também não sentem nenhum tipo de devoção ou carinho em relação a mim.
Meu espírito está longe deles, já que dentes venenosos de animais envenenaram sua carne; em outras palavras, seus pensamentos e espíritos, aqui simbolizados pelas vísceras e pela carne das ovelhas, são tão repulsivos para mim quanto é a carne envenenada. Sua pele, isto é, seu corpo, é infecundo para qualquer bondade e caridade e não tem condições de servir em meu reino. Em vez disso, será entregue ao fogo eterno do inferno após o julgamento. Sua lã, isto é, suas ações, é totalmente inútil e não há nada que os faça merecer meu amor e graça.
O que, então, minha esposa, que simboliza os bons Cristãos, podemos fazer? Vejo que ainda há ovelhas vivas em três lugares. Algumas delas assemelham-se às ovelhas mortas e não ousam respirar por medo. Estes são os pagãos que ficariam felizes com a verdadeira fé se ao menos a conhecessem. Entretanto, não ousam respirar, isto é, não ousam perder sua fé e aceitar a verdadeira fé. O segundo grupo de ovelhas é daqueles que permanecem escondidos e não ousam sair de seus esconderijos. Estes são os judeus que, por assim dizer, se encontram cobertos por um véu.
Sairiam com prazer se tivessem certeza do meu nascimento. Se escondem por trás do véu, visto que sua esperança pela salvação está nas imagens e sinais que me simbolizavam na Lei, mas que foram consumadas em mim. Por causa de sua esperança vazia, têm medo de se expor à fé correta. Em terceiro, as ovelhas afundadas na lama são Cristãos em estado de pecado mortal. Por temerem a punição, voltariam à superfície com prazer, mas não conseguem devido aos graves pecados cometidos e porque não possuem caridade.
Assim, ó minha esposa, ó meus bons Cristãos, ajudem-me! Assim como homem e mulher são considerados como uma só carne e um só membro, o Cristão é meu membro e Eu sou o dele, já que estou nele e ele em Mim.
Então, minha esposa, meus bons Cristãos, dirijam-se comigo às ovelhas que ainda têm algum sopro de respiração e levantemos e reavivemos todas! Tenham compaixão por mim, pois adquiri minhas ovelhas com muito afeto! Carreguemos todas juntas! Vocês carregam as costas e Eu a cabeça! Alegro-me em carregá-las em meus braços. Já as carreguei em minhas costas quando estavam feridas e pregadas na cruz.
Ó meus amigos, amo essas ovelhas com tanto carinho que, se fosse possível sofrer tal morte em nome de cada uma como sofri uma vez na cruz por todas elas, preferiria redimi-las do que perdê-las. Por isso, com todo o meu coração, grito para que meus amigos não poupem esforços por mim. Se não me pouparam da repreensão enquanto estive no mundo, então eles não devem se poupar ao falar a verdade sobre mim. Não me envergonhei de morrer de forma desprezível, mas permaneci lá assim como quando nasci, nu, perante os olhos de meus inimigos. Seus punhos golpearam meus dentes; fui arrastado pelos cabelos; fui flagelado por chicotes; fui pregado à madeira com suas ferramentas, e pendurado na cruz juntamente com ladrões.
Por esse motivo, meus amigos, não se poupem por mim que suportei tudo isso por amor a vocês! Trabalhem corajosamente e tragam ajuda a todas as minhas ovelhas! Pela minha natureza humana, que está no Pai e o Pai está em mim, e sobre minha natureza divina, que está em meu Espírito assim como o Espírito está nela e como o mesmo Espírito está em mim e Eu nele, estes três sendo um Deus em três pessoas, juro que encontrarei estas pessoas que carregam minhas ovelhas e as ajudarei enquanto realizam este trabalho. E dar-lhes-ei uma preciosa recompensa: a mim mesmo, até sua alegria eterna.
As palavras do Filho à esposa sobre três tipos de Cristãos, simbolizados pelos Judeus que viviam no Egito, e sobre como estas revelações foram dadas à esposa para que fossem transmitidas, publicadas e pregadas aos ignorantes pelos amigos de Deus.
Capítulo 60
O Filho falou à esposa: ‘Eu sou o Deus de Israel, aquele que falou com Moisés. Quando foi enviado a meu povo, Moisés pediu por um sinal, dizendo: ‘As pessoas não acreditarão em mim de outra maneira’. Se as pessoas para as quais Moisés foi enviado pertenciam ao Senhor, por que ele não tinha convicção? Você deve saber que havia três tipos de pessoas entre os Judeus. Alguns deles acreditavam em Deus e em Moisés. Outros acreditavam em Deus, mas não confiavam em Moisés, imaginando se, talvez, ele dizia ou fazia tais coisas por invenção própria ou presunção. O terceiro tipo era daqueles que não acreditavam em Deus nem em Moisés.
Da mesma forma, existem atualmente três tipos de pessoas entre os Cristãos como simbolizado pelos hebreus. Existem alguns que realmente acreditam em Deus e em minhas palavras. Existem outros que acreditam em Deus, mas não confiam em minhas palavras, pois não sabem como distinguir entre um espírito bom e um mau. O terceiro grupo é daqueles que não acreditam em mim nem mesmo em você, a quem transmiti minhas palavras. Mas, como disse, embora alguns dos Hebreus não confiassem em Moisés, cruzaram o Mar Vermelho junto a ele em direção ao deserto onde aqueles que não confiavam idolatraram ídolos e provocaram a ira de Deus, motivo pelo qual encontraram seu fim em uma morte infeliz, embora apenas aqueles que tinham má fé assim o fizeram.
Por esta razão, já que o espírito humano custa a acreditar, meu amigo deve transmitir minhas palavras àqueles que têm fé em mim. Mais tarde, espalharão minhas palavras a outros que não sabem distinguir um espírito bom de um mau. Se os ouvintes pedirem por um sinal, que mostrem a essas pessoas um cajado, assim como Moisés o fez, ou seja, que expliquem a eles minhas palavras. O cajado de Moisés permanece firme e, devido à sua transformação em uma cobra, é também assustador. Da mesma forma, minhas palavras são firmes e não se pode encontrar nenhuma mentira nelas.
São assustadoras, pois relatam um julgamento verdadeiro. Que expliquem e declarem que, pelas palavras e sons de uma única boca, o demônio afastou-se da criatura de Deus, aquele mesmo demônio que podia mover montanhas, não fosse ele impedido por meu poder. Que tipo de poder possuía ele com a permissão de Deus quando se esquivava ao som de uma única palavra? Portanto, da mesma forma que os Hebreus que não acreditavam em Deus nem em Moisés deixaram o Egito em busca da terra prometida, sendo forçados a ir juntamente com os outros, assim também muitos Cristãos se juntarão, a contragosto, a meus escolhidos, não confiando em meu poder de salvação.
Eles não acreditam em minhas palavras de maneira alguma; possuem apenas uma falsa esperança em meu poder. Entretanto, minhas palavras se cumprirão sem a sua vontade, e eles serão forçados a seguir até onde me for conveniente’’.
Instruções do Filho à esposa em relação ao demônio; a resposta do Filho à esposa explicando porque Ele não afasta os malfeitores dos pecados; e sobre como o Reino dos Céus é oferecido a pessoas batizadas que morreram antes de atingirem a idade da discrição.
Livro 2 - Capítulo 1
O Filho falou à esposa, dizendo: “Quando o demônio tentar-lhe, diga a ele essas três coisas: ‘As palavras do Senhor nada podem ser além de verdadeiras.’ Segundo: ‘Nada é impossível para Deus, pois para Ele tudo é possível.’ Terceiro: ‘Você, demônio, não poderia me oferecer amor tão grande como aquele que Deus me oferece.’” Mais uma vez, o Senhor falou à esposa, dizendo: “Olho para as pessoas de três maneiras: primeiro, para seus corpos e em que condição estes se encontram; segundo, para suas consciências, e em que caminho estas tendem a seguir; terceiro, seus corações e o que estes desejam.
Como um pássaro que vê um peixe no mar e avalia a profundidade da água, além de considerar as condições do vento, Eu também conheço e avalio os modos de cada pessoa e considero o que é devido a cada um, pois sou mais perspicaz e posso avaliar a situação humana melhor do que uma pessoa possa conhecer a si mesma. Portanto, como vejo e conheço todas as coisas, você pode perguntar-me por que não afasto os malfeitores antes destes se afundarem no pecado. Eu mesmo me fiz essa pergunta e Eu mesmo a responderei: Sou o Criador de todas as coisas, e todas as coisas são reveladas a mim. Conheço e vejo tudo o que foi e tudo o que será.
Porém, embora saiba e possa fazer tudo, ainda assim, por questões de justiça, não interfiro na constituição natural do corpo mais do que na inclinação da alma. Cada ser humano existe de acordo com a constituição natural do corpo, assim como é e como foi originado a partir da eternidade em minha revelação. O fato de uma pessoa viver mais do que outra tem a ver com a força da natureza ou fraqueza e é relacionada à constituição física da pessoa. Não é devido à minha revelação que uma pessoa perde a visão ou outra se torna incapaz ou algo parecido, já que minha revelação de todas as coisas é tal que ninguém é inferior a ela, e a mesma também não é prejudicial a ninguém.
Ademais, isso não acontece em razão do curso e posição dos elementos sagrados, mas devido ao princípio escondido de justiça na constituição e conservação da natureza. Pois o pecado e a desordem natural levam à deformidade do corpo de diversas maneiras. Isso não acontece porque assim o desejo diretamente, mas porque Eu permito que isso aconteça pelo bem da justiça. Mesmo que possa fazer tudo, não obstruo a justiça. Portanto, a extensão ou brevidade de uma vida está relacionada à fraqueza ou força de sua constituição física, assim como foi apresentado em minha revelação que ninguém pode questionar.
Isso pode ser compreendido através de uma comparação. Imagine que havia duas estradas e outra que conduzia a elas. Havia muitos túmulos nas duas estradas, que se cruzavam e se sobrepunham. O fim de uma dessas estradas se direcionava para baixo; o fim da outra tendia para cima. No cruzamento estava escrito: “Quem viajar nesta estrada inicia sua jornada com prazer e alegria e a termina com miséria e degradação. Quem viajar na outra estrada inicia sua jornada com esforço moderado e suportável e alcança o fim com grande alegria e conforto.” Um indivíduo que andava por uma única estrada era completamente cego. Entretanto, quando ele alcançou o cruzamento, seus olhos foram abertos e ele viu o que estava escrito sobre como as duas estradas terminavam.
Enquanto ele observava o sinal e refletia sobre o mesmo, apareceram repentinamente dois homens que haviam sido encarregados de guardar as duas estradas. Enquanto observavam o viajante no cruzamento, diziam um ao outro: “Observemos cuidadosamente qual estrada ele escolherá seguir e então ele pertencerá àquele cuja estrada ele escolher”. O viajante, no entanto, considerava os fins e as vantagens de cada estrada. Tomou a decisão prudente de escolher a estrada cujo início envolvia certa dor, mas prometia alegria no final, em vez de escolher a estrada que começava em alegria, mas terminava em dor. Ele decidiu que era mais sensato e suportável cansar-se um pouco no começo e descansar em segurança no fim.
Você compreende o que tudo isto significa? Eu devo dizer-lhe. Estas duas estradas são o bem e o mal que existem dentro do ser humano. Cabe à capacidade e livre arbítrio de um indivíduo escolher o que quer ao atingir a idade da discrição. Uma única estrada conduz às duas que levam à escolha entre o bem e o mal; em outras palavras, a infância caminha em direção à maioridade. O homem que caminha pela primeira estrada é como um cego, pois ele é, por assim dizer, cego desde sua infância até atingir a maioridade, pois não sabe distinguir entre bem e mal, entre pecado e virtude, entre o que é permitido e o que é proibido.
O homem que caminha pela primeira estrada, ou seja, na idade da juventude, é como um cego. Entretanto, quando ele atinge o cruzamento, ou seja, a idade da discrição, os olhos de sua compreensão são abertos. Ele, então, sabe decidir se é melhor suportar certa dor seguida de felicidade eterna ou obter certa felicidade seguida de dor eterna. Em qualquer caminho que ele escolher, não faltarão aqueles que julgam cuidadosamente seus passos. Nessas estradas há muitos túmulos, um atrás do outro, um oposto ao outro, pois, tanto na juventude quanto na velhice, um indivíduo pode morrer mais cedo, outro mais tarde, um ainda jovem, outro velho. O final desta vida é simbolizado de maneira apropriada por túmulos: ele virá para todos, de um modo ou de outro, de acordo com a constituição natural de cada um e exatamente como Eu assim revelei.
Se Eu afastasse um indivíduo de sua constituição natural, o demônio teria motivos para acusar-me. Portanto, para que o demônio não encontre em mim algo que possa contrariar a justiça, não interfiro na constituição natural do corpo mais do que interfiro na constituição da alma. Mas considere minha bondade e misericórdia! Pois, como o professor diz, dou virtude àqueles que não a possuem. Em razão de meu grande amor, concedo o reino dos céus a todos aqueles que foram batizados e morrem antes de atingirem a idade da discrição. Como está escrito: Alegra a meu Pai conceder o Reino dos Céus a estes.
Em razão de meu amor terno, demonstro misericórdia até mesmo às crianças pagãs. Se qualquer um deles morre antes de atingir a idade da discrição, como eles não podem me conhecer cara a cara, eles então vão para um lugar que não é permitido que se saiba, mas onde eles viverão sem sofrimento. Aqueles que já passaram a estrada única atingem as duas outras estradas, ou seja, a idade da discrição entre o bem e o mal. Está, então, em seu poder escolher o que mais lhes agrada.
Sua recompensa se inclinará de acordo com sua vontade, já que a partir de então eles sabem ler os sinais escritos no cruzamento dizendo que é melhor suportar certa dor no início e alegria esperando por eles no final, do que obter alegria no início e dor no final. Algumas vezes, pode acontecer de um indivíduo ser levado mais cedo do que sua constituição física natural normalmente possibilitaria, por exemplo, por decorrência de um homicídio, embriaguez e outras coisas do tipo.
Isto acontece pois a maldade do demônio é tal que o pecador neste caso receberia uma punição extremamente duradoura se ele continuasse vivo por um longo período. Portanto, algumas pessoas são levadas mais cedo do que sua condição permitiria devido à necessidade de justiça em razão de seus pecados. Sua retirada do mundo foi revelada a mim desde a eternidade, e é impossível a qualquer um opor-se à minha revelação.
Algumas vezes, pessoas boas também são levadas mais cedo do que sua condição física natural possibilitaria. Em razão do grande amor que sinto por elas e de seu grande amor e esforço em disciplinar o corpo pelo meu bem, a justiça pede que eles sejam levados embora, como foi revelado a mim desde a eternidade. Assim, não interfiro na constituição natural do corpo mais do que interfiro na constituição da alma.”
A acusação do Filho de uma certa alma que seria condenada na presença da esposa, e a resposta de Cristo ao demônio sobre por que permitiu isso a essa alma e por que permite que outros malfeitores toquem ou recebam seu corpo.
Capítulo 2
Irado, Deus apareceu e disse: “Esta obra (humana) vinda de minhas mãos, a quem destinei grande glória, considera-me com grande desprezo. Esta alma, a quem ofereci todo o meu cuidado, fez três coisas a mim: Desviou seus olhos de mim e os voltou em direção ao inimigo. Estabeleceu sua própria vontade no mundo. Depositou confiança em si mesmo, pois era livre para pecar contra mim. Por esta razão, como ela não se deu ao trabalho de demonstrar consideração por mim, demonstro-lhe minha justiça. Em razão de ter estabelecido sua vontade contra mim e depositado falsa confiança em si mesma, Eu o afasto do objeto de seu desejo.”
Então, um demônio gritou: “Juiz, esta alma pertence a mim.” O Juiz respondeu: “Quais acusações você tem contra ele?” Ele respondeu: “Minha queixa é a declaração em sua própria acusação de que ela lhe desprezou, seu Criador, e por causa disso tornou-se minha criada. Além disso, já que foi levada de maneira repentina, como ela poderia, subitamente, agradar-lhe? Pois quando seu corpo era sadio e ela vivia no mundo, não lhe serviu com sinceridade no coração, já que amava as criações mais fervorosamente, e nem mesmo suportou a doença pacientemente ou refletiu sobre as suas obras como deveria. No final, o fogo da misericórdia não queimava dentro dela. Ela é minha, pois você a levou embora repentinamente.”
O Juiz respondeu: “Um fim repentino não condena uma alma, a menos que haja inconsistências em suas ações. A vontade de um indivíduo não é condenada para sempre sem deliberação cautelosa.” Então a Mãe de Deus veio e disse: “Meu Filho, se um criado preguiçoso tem um amigo que tem uma boa relação com seu mestre, seu amigo não deveria defendê-lo? Ele não deveria ser salvo, se pedir por isso, pelo bem do outro?”
O Juiz respondeu: “Cada ato de justiça deveria ser acompanhado pela misericórdia e sabedoria – misericórdia para diminuir a severidade, sabedoria para garantir que a justiça seja mantida. Mas, se a transgressão for tal que não mereça perdão, a sentença pode, ainda, ser aliviada pelo bem da amizade sem infringir a justiça.” Então a Mãe disse: “Meu abençoado Filho, esta alma pensava em mim constantemente, me reverenciava e celebrava a grande solenidade em meu nome, mesmo que demonstrasse frieza em relação a você. Então, tenha piedade dele!”
O Filho respondeu: “Abençoada Mãe, você conhece e vê todas as coisas em mim. Mesmo que esta alma a mantivesse em sua mente, ela fez muito mais em favor de seu corpo do que para seu bem-estar espiritual. Não tratou meu puro corpo como deveria. Suas palavras infames o afastaram de desfrutar de minha caridade. O amor mundano e a desunião encobriram meu sofrimento. Sua morte foi acelerada quando considerou meu perdão como certo e quando não pensou em seu fim.
Embora tenha me recebido continuamente, isto não a fez melhorar, pois ela não se preparou de forma adequada. Um indivíduo que deseja receber seu nobre Senhor e hóspede não deve apenas preparar o quarto, como também todos os utensílios. Este homem não o fez, já que, embora tenha limpado a casa, não a varreu com cuidado. Ele não espalhou pelo chão as flores de suas virtudes ou preencheu seus utensílios com abstinência. Dessa forma, é possível perceber que ele merece o que e a ele deve ser feito”.
“Embora possa ser invulnerável e além da compreensão e possa estar em todos os lugares em razão de minha divindade, minha alegria está nos puros, mesmo se Eu entrar nos bons e nos condenados da mesma forma. Os bons recebem meu corpo, que foi crucificado e subiu aos céus, previamente representado pelo maná e pela farinha da viúva. Os maus também o fazem, mas enquanto que para os bons isto leva a uma maior força e conforto, para os maus leva a uma condenação ainda mais justa, visto que eles, em sua indignidade, não têm medo de se aproximar de um sacramento tão justo”. O demônio respondeu: “Se ele se aproximasse de você indignamente e sua sentença foi mais severa por causa disso, por que você permitiu que ele se aproximasse e o tocasse apesar de sua indignidade?”
O Juiz respondeu: “Você não está perguntando isto com amor, já que não o tem, mas meu poder o obriga a perguntar em razão da minha esposa que está escutando. Da mesma forma em que tanto os bons quanto os maus tocam minha natureza humana para provar a realidade da mesma, assim como minha humildade paciente, também os bons e os maus comem o meu corpo no altar – os bons para alcançar maior perfeição, os maus para que não acreditem que já estejam condenados e assim, tendo recebido meu corpo, eles possam converter-se, desde que decidam corrigir suas intenções. Que maior amor posso demonstrá-los do que aquele em que Eu, o mais puro, entro até mesmo nos mais impuros (posto que, assim como o sol, não posso ser corrompido)? Você e seus companheiros desprezam este amor, pois vocês se endureceram contra o amor”.
Então, a Mãe falou novamente: “Meu bom Filho, sempre que se aproximou de você ela lhe foi reverente, embora não como deveria ter sido. Ele também se arrepende de ter-lhe ofendido, embora não completamente. Meu Filho, por mim, considere isto em seu favor”. O Filho respondeu: “Como disse o profeta, Eu sou o verdadeiro sol, posto que sou muito melhor que o sol. Este não penetra montanhas ou mentes, e eu posso fazer tanto um quanto outro.
Uma montanha pode ficar no meio do caminho do sol e assim sua luz não alcança as terras vizinhas, mas o que pode atrapalhar meu caminho exceto o pecado que impede esta alma de ser atingida por meu amor? Mesmo se parte da montanha fosse removida, as terras vizinhas ainda não receberiam o calor do sol. E se eu entrasse em parte de uma mente pura, que consolo teria eu se pudesse sentir o mau cheiro vindo de outra parte? Portanto, uma pessoa deve livrar-se de tudo o que é sujo e então a doce alegria resultará desta limpeza”. Sua Mãe respondeu: “Seja feita sua vontade com toda a misericórdia!”
EXPLICAÇÃO
Este foi um sacerdote que freqüentemente recebia avisos relacionados a seu comportamento incontinente e não escutava a razão. Um dia, quando ele saía em direção ao prado para tratar seu cavalo, houve um trovão e um raio que o atingiu e o matou. Seu corpo ficou ileso exceto por suas partes íntimas, visível e completamente queimadas. Então o Espírito de Deus disse: “Filha, aqueles que se envolvem em tais prazeres desprezíveis merecem sofrer em suas almas o que este homem sofreu em seu corpo”.
Palavras maravilhadas da Mãe de Deus à esposa e sobre cinco casas no mundo cujos moradores representam cinco classes de pessoas, a saber, cristãos infiéis, judeus obstinados e pagãos em separado, judeus e pagãos juntos e os aliados de Deus. Este capítulo contém muitas observações úteis.
Capítulo 3
Maria disse: “É terrível que o Senhor de todas as coisas e Rei da glória seja desprezado. Ele foi como um peregrino na terra, vagando de um lugar para outro, batendo em muitas portas, como um viajante que procura por boas-vindas. O mundo era como uma propriedade com cinco casas. Quando o Filho apareceu vestido como um peregrino na primeira casa, bateu na porta e disse: ‘Amigo, abra a porta e deixe-me entrar para descansar e ficar com vocês, para que nenhum animal selvagem me ataque, para que as tempestades e chuvas não caiam sobre mim! Dê-me algumas de suas roupas para aquecer-me do frio, para cobrir-me de minha nudez! Dê-me um pouco de sua comida para acabar com minha fome e uma bebida para reavivar-me. Você receberá uma recompensa de seu Deus!’
A pessoa do lado de dentro respondeu: ‘Você é muito impaciente, por isso não pode viver conosco em paz. Você é muito alto. Por este motivo não podemos vesti-lo. Você é muito ganancioso e guloso, e assim não podemos satisfazê-lo, pois não há fim para o seu apetite’. Cristo peregrino respondeu do lado de fora: ‘Amigo, deixe-me entrar alegre e voluntariamente. Não preciso de muito espaço. Dê-me algumas de suas roupas, já que não há roupas em sua casa tão pequenas que não possam aquecer-me! Dê-me um pouco de sua comida, já que apenas um bocado pode me satisfazer e uma gota de sua água irá me refrescar e fortalecer.’
A pessoa do lado de dentro respondeu: ‘Nós lhe conhecemos bem. Você é humilde em seu discurso, mas inoportuno em seus pedidos. Parece facilmente satisfeito quando na verdade é insaciável no que diz respeito à sua suficiência. Você está com muito frio e é muito difícil vesti-lo. Vá embora, não o receberei!’ Então, ele se dirigiu à segunda casa e disse: ‘Amigo, abra a porta e olhe para mim! Eu lhe darei o que você precisa. Eu o defenderei de seus inimigos.’ A pessoa do lado de dentro respondeu: ‘Meus olhos são frágeis. Os machucaria se olhasse para você. Tenho bastante e não necessito de nada que venha de você. Sou forte e poderoso. Quem pode me prejudicar?’
Dirigindo-se, então, à terceira casa, ele disse: ‘Amigo, preste atenção e me escute! Estenda suas mãos e me segure! Abra sua boca e me prove!’ O morador da casa respondeu: ‘Grite mais alto para que possa escutá-lo melhor! Se for bondoso, me aproximarei de você. Se for agradável, deixarei que entre.’ Em seguida, dirigiu-se à quarta casa cuja porta estava entreaberta. Ele disse: ‘Amigo, se considerasse que seu tempo foi gasto desnecessariamente, você me deixaria entrar. Se entendesse e escutasse o que eu fiz por você, teria compaixão por mim. Se percebesse o quanto me ofendeu, iria suspirar e implorar por perdão.’
O homem respondeu: ‘Estamos quase morrendo de tanto esperar e ansiar por sua presença. Tenha compaixão de nossa desgraça e estaremos prontos para entregar-nos a você. Veja a nossa miséria e observe a angústia de nossos corpos, e estaremos prontos para o que desejar’. Depois disso, dirigiu-se à quinta casa, que estava completamente aberta. Ele disse: ‘Amigo, eu entraria aqui com prazer, mas neste momento procuro um local para descansar que seja mais macio do que uma cama de plumas, um calor maior que o proveniente da lã, uma comida mais fresca do que a oferecida por carne recém extraída.
Os que estavam do lado de dentro responderam: 'Temos martelos aos nossos pés. Podemos usá-los com prazer para golpear nossos pés e pernas, e oferecer-lhe o sangue que escorre deles para ser seu local de descanso. Podemos expor nosso interior e abrir nossas entranhas para você com prazer. Entre imediatamente! Não há nada mais macio que nossa medula para que descanse, nada melhor que nossas entranhas para aquecê-lo. Nosso coração é mais fresco do que a carne recém extraída de um animal. Ficaremos felizes em cortar nossa carne para alimentá-lo. Apenas entre! Pois você é doce e maravilhoso!’
Os moradores dessas cinco casas representam cinco diferentes classes de pessoas no mundo. Os primeiros são cristãos infiéis que dizem que as sentenças de meu Filho são injustas, suas promessas falsas e suas ordens intoleráveis. Estas pessoas são aquelas que, em seus pensamentos, mentes e blasfêmias dizem aos pregadores do meu Filho: ‘Ele pode ser todo-poderoso, mas está longe e não pode ser alcançado. Ele é alto e largo e não pode ser vestido. É insaciável e não pode ser alimentado. É muito impaciente e não há como lidar com ele’. Eles dizem que ele está longe porque não realizam boas ações e caridade e não tentam se elevar à sua bondade.
Dizem que ele é largo, pois sua própria ganância não conhece limite: estão sempre fingindo não ter ou precisar de algo e sempre prevendo problemas antes de aparecerem. Também o acusam de ser insaciável, pois o céu e a terra não são suficientes para ele, e assim ele exige dádivas ainda maiores da humanidade.
Crêem que é uma tolice desistir de tudo pela salvação da alma conforme os preceitos, assim como acham que é prejudicial oferecer menos ao corpo. Dizem que ele é impaciente, pois odeia vícios e os envia coisas contra sua vontade. Acham que nada é bom ou útil, exceto o que o prazer do corpo os sugere. Meu Filho, é claro, é de fato todo-poderoso no Céu e na Terra, o Criador de todas as coisas e que não fora criado por ninguém, que já existia antes de tudo, depois do qual ninguém mais surgirá. Ele é, de fato, o mais distante, o maior e mais alto, está dentro e fora e acima de todas as coisas. Mesmo assim, apesar de ser tão poderoso, em seu amor ainda quer ser vestido com a ajuda humana – ele que não necessita de roupas, que veste todas as coisas e está vestido eterna e invariavelmente em honra e glória perpétuas.
Ele, que é o pão dos anjos e dos homens, que alimenta a todos e não tem necessidades, quer ser alimentado com amor humano. Ele, o restaurador e criador da paz, pede paz aos homens. Assim, quem quiser recebê-lo com boas intenções pode saciá-lo com apenas um pedaço de pão, desde que a intenção seja boa. Ele pode ser vestido com apenas um fio, desde que com amor. Uma única gota pode aliviar sua sede, desde que haja disposição correta para tal.
Desde que a devoção de um indivíduo seja fervente e imutável, ele pode receber meu Filho em seu coração e falar com Ele. Deus é espírito e, por isso, quis transformar criaturas de carne em seres espirituais e seres efêmeros em eternos. Ele acredita que tudo o que acontece com os membros do seu corpo também acontece com ele. Ele não considera apenas o trabalho ou habilidades de um indivíduo, mas também o fervor de sua vontade e a intenção com a qual o trabalho é realizado. Na realidade, quanto mais meu Filho clama por essas pessoas em suas revelações ocultas, e quanto mais ele os adverte através de seus pregadores, mais eles endurecem sua vontade contra meu Filho.
Não o escutam ou abrem a porta para recebê-lo como um ato de caridade e boa vontade. Assim, quando sua hora chegar, a falsidade em que confiam será destruída, a verdade será exaltada e a glória de Deus se manifestará. Os segundos são judeus obstinados. Essas pessoas parecem, a si mesmos, razoáveis de todos os modos e consideram a sabedoria como a justiça legal. Defendem suas próprias ações e as consideram como mais honrosas do que as dos outros. Se ouvem falar de tudo o que meu Filho fez, o desprezam. Se ouvem suas palavras e preceitos, reagem com desdém.
Ainda pior, se considerariam pecadores e sujos se ouvissem ou refletissem sobre qualquer coisa relacionada a meu Filho e ainda mais desprezíveis e miseráveis se imitassem suas ações. Mas enquanto os ventos da boa sorte ainda sopram sobre eles, acreditam que são os mais sortudos. Enquanto sua força física estiver ilesa, acreditam que são os mais fortes. Por esse motivo, sua esperança se transformará em nada e sua honra se tornará uma vergonha.
Os terceiros são os pagãos. Alguns deles exclamam em zombaria todos os dias: ‘Quem é este Cristo? Se ele é tão benevolente ao presentear, devemos recebê-lo com alegria. Se é gentil em perdoar os pecados, devemos honrá-lo com mais alegria ainda’. Mas essas pessoas fecharam os olhos de suas mentes a ponto de não perceberem a justiça e misericórdia de Deus.
Eles tapam seus ouvidos e não escutam o que meu Filho diz por eles e por todos. Fecham suas bocas e não questionam como será seu futuro e o que estará a seu favor. Cruzam seus braços e não se esforçam em procurar por um caminho pelo qual possam escapar das mentiras e encontrar a verdade. Portanto, já que não querem entender ou tomar precauções, embora possam e disponham de tempo para tal, eles e suas casas cairão e serão envolvidos pela tempestade.
Os quartos são os judeus e pagãos que gostariam de ser cristãos, se soubessem como contentar meu Filho e se recebessem ajuda. Eles escutam das pessoas de regiões vizinhas todos os dias, e também dos apelos por amor vindos de si mesmos, assim como outros sinais, quanto meu Filho fez e sofreu por todos. É por isso que clamam por ele em suas consciências e dizem:
‘Ó Senhor, ouvimos dizer que você prometeu se entregar a nós. Então, estamos esperando por você. Venha e cumpra sua promessa! Nós vemos e entendemos que não existe poder divino naqueles que são idolatrados como deuses, não há amor pela alma, agradecimento ou pureza. Vemos apenas razões carnais, amor pelas honras do mundo.
Sabemos sobre a Lei e ouvimos falar sobre as grandes obras que você realizou pela misericórdia e justiça. Ouvimos as declarações de seus profetas que esperavam por você, aquele que haviam anunciado. Então venha, gentil Senhor! Queremos nos entregar ao Senhor, pois sabemos que em você existe amor pelas almas, o uso correto de todas as coisas, pureza perfeita e vida eterna. Venha sem demora e nos ilumine, pois estamos quase morrendo de tanto esperar!’ É assim que eles clamam por meu Filho. Isto explica porque suas portas estão entreabertas, porque sua intenção é completa com respeito ao bem, porém ainda não o preencheram. Essas são pessoas que merecem obter a graça e consolo de meu Filho.
Na quinta casa estão os aliados de meu Filho. As portas de suas mentes estão completamente abertas para Ele. Contentam-se ao ouvi-lo chamar. Eles não apenas abrem a porta ao ouvi-lo bater, mas correm para recebê-lo com alegria. Com os martelos dos preceitos divinos, destroem tudo o que há de errado neles mesmos. Preparam um local para meu Filho descansar, não feito de plumas de aves, mas sim da harmonia das virtudes e da contenção da simpatia pelo mal, a essência de todas as virtudes. Oferecem um tipo de calor que não vem da lã, mas de um amor tão fervente que os faz entregar a ele todos os seus pertences e também a si mesmos.
Também preparam comida, mais fresca do que qualquer carne: é seu coração perfeito que não deseja ou ama nada além de seu Deus. O Senhor dos Céus habita em seus corações, e o Deus que nutre todas as coisas é nutrido por sua caridade. Eles mantêm seus olhos na porta, para evitar que o mal entre, mantêm seus ouvidos virados em direção ao Senhor, e suas mãos prontas para lutar contra o inimigo. Imite-os minha filha, o quanto puder, pois sua fundação é construída em pedra sólida. As outras casas são fundadas em lama, e é por isso que se abalam quando o vento se aproxima”.
As palavras da Mãe de Deus a seu Filho em nome de sua esposa, sobre como Cristo é comparado a Salomão, e a sentença severa contra falsos Cristãos.
Capítulo 4
A Mãe de Deus falou a seu Filho, dizendo: “Meu Filho, veja como sua esposa está chorando, pois você tem poucos aliados e muitos inimigos”. O Filho respondeu: “Está escrito que os filhos do reino serão expulsos e não herdarão o reino. Da mesma forma está escrito que uma certa rainha veio de longe para ver as riquezas de Salomão e ouvir sobre sua sabedoria. Quando viu tudo, ficou sem fôlego de tão maravilhada. As pessoas de seu reino, entretanto, não prestaram atenção à sua sabedoria e tampouco admiraram suas riquezas.
Sou representado por Salomão, embora eu seja muito mais rico e sábio do que ele foi, visto que toda a sabedoria se origina em mim e todos os sábios adquirem sua sabedoria em mim. Minhas riquezas são a vida eterna e glória indescritível. Prometi e ofereci estes bens aos cristãos como meus próprios filhos, para que os possuíssem eternamente, contanto que se espelhassem e acreditassem em minhas palavras. Mas eles não prestaram atenção em minha sabedoria.
Consideram meus feitos e promessas com desprezo e minhas riquezas como algo sem valor. O que devo fazer a eles, então? Certamente, se os filhos recusam sua herança, então estranhos, isto é, pagãos, a receberão. Como aquela rainha estrangeira, que representa almas fiéis, eles virão e admirarão a riqueza de minha glória e caridade, tanto que deixarão seu espírito de infidelidade para se preencherem com meu Espírito.
O que, então, devo fazer com os filhos do reino? Lidarei com eles da mesma maneira com a qual um habilidoso oleiro que, quando observa que o primeiro objeto que tem de fazer a partir da argila não é nem bonito muito menos útil, o joga no chão esmagando-o. Lidarei com os cristãos da mesma forma. Embora devam pertencer a mim, já que os criei à minha imagem e os salvei com meu sangue, eles lamentavelmente se deformaram. Dessa maneira, serão pisoteados como terra e jogados no inferno”.
As palavras do Senhor na presença da esposa no que diz respeito à sua própria majestade e uma maravilhosa parábola comparando Cristo a Davi, enquanto judeus, maus cristãos e pagãos são comparados aos três filhos de Davi, e sobre como a Igreja subsiste nos sete sacramentos.
Capítulo 5
Eu sou Deus, não sou feito de pedra ou madeira, nem criado por outro que não seja o Criador do universo, existindo sem começo ou fim. Sou aquele que entrou na Virgem e esteve com Ela sem perder a divindade. Através de minha natureza humana, estive dentro de Minha Mãe, porém preservando minha natureza divina e, consequentemente, sou a mesma pessoa que, através de minha natureza divina, continuou a reinar sobre o Céu e a Terra ao lado do Pai e do Espírito Santo. Através de meu Espírito, plenifiquei com meu fogo aquela que me levou em seu ventre – não no sentido de que o Espírito que a plenificou fora algo em separado, mas este mesmo Espírito é o mesmo que estava no Pai e em mim, o Filho, assim como o Pai e o Filho estavam nele, os três como um só Deus, e não três Deuses.
Eu sou como o Rei Davi que teve três filhos. Um deles chamava-se Absalão, que buscou a vida de seu pai. O segundo, Adonias, buscou o reino de seu pai. O terceiro filho, Salomão, obteve seu reino. O primeiro filho designa os judeus. São as pessoas que buscaram minha vida e morte e desprezaram meus conselhos. Conseqüentemente, agora que seu castigo é conhecido, posso dizer o mesmo que Davi disse quando da morte de seu filho: “Meu filho, Absalão!” ou seja, Ó meus filhos judeus, onde estão sua ânsia e expectativa agora? Ó meus filhos, qual será seu fim agora? Senti compaixão por vocês, pois ansiaram por minha chegada – por mim, aquele que vocês sabiam que havia chegado pois receberam muitos sinais – e porque vocês ansiaram pela glória que se esvai rapidamente, a qual toda já se esvaiu.
Mas agora, sinto uma compaixão maior por vocês, como quando Davi repetiu essas primeiras palavras várias vezes, pois vejo que terminarão com uma morte desprezível. Dessa maneira, assim como Davi, digo com todo o meu amor: “Meu filho, quem me deixará morrer em seu lugar?” Davi sabia bem que não poderia trazer seu filho morto de volta à vida através de sua própria morte, mas, a fim de demonstrar seu afeto paterno e o anseio impetuoso de sua vontade, mesmo sabendo que era impossível, estava preparado para morrer no lugar dele.
Da mesma maneira, eu agora digo: Ó meus filhos judeus, embora demonstrem má-vontade comigo e tenham feito tudo o que puderam contra mim, se fosse possível e se meu Pai permitisse, morreria novamente e de boa vontade por vocês, pois tenho pena da miséria que causaram a si mesmos como exigido pela justiça. Eu lhes disse o que tinha de ser feito através de minhas palavras e lhes mostrei através de meu exemplo. Coloquei-me em frente a vocês como uma galinha que lhes protege com as asas cheias de amor, mas vocês rejeitaram tudo. Portanto, todas as coisas pelas quais esperaram lhes escaparam. Seu fim é a miséria e todo o seu trabalho foi desperdiçado.
Maus cristãos são simbolizados pelo segundo filho de Davi que pecou contra seu pai em sua velhice. Ele raciocinou da seguinte forma: “Meu pai é um velho e sua força está enfraquecida. Se digo algo errado a ele, não responde. Se faço qualquer coisa contra ele, não se vinga. Se cometo uma agressão, ele a suporta pacientemente. Portanto, farei o que quiser”. Com alguns criados de seu pai Davi, seguiu até um bosque com algumas árvores para fingir ser o rei. Porém, quando a sabedoria e intenção de seu pai se fizeram evidentes, mudou seu plano e aqueles que estavam com ele foram desmoralizados.
Isto é o que os cristãos estão fazendo comigo. Eles pensam consigo mesmos: “Os sinais e decisões de Deus não se manifestam agora como antigamente. Podemos dizer o que quisermos, já que ele é misericordioso e não presta atenção. Deixe-nos fazer o que quisermos, já que ele nos dá passagem facilmente”. Eles não têm fé no meu poder, como se nos dias de hoje Eu fosse mais fraco ao realizar minha vontade do que antes. Imaginam que meu amor diminuiu, como se não estivesse mais disposto a demonstrar misericórdia por eles como demonstrava a seus pais.
Também pensam que meu julgamento é algo cômico e que minha justiça nada significa. Assim, eles também vão até um bosque com criados de Davi para brincarem de ser reis cheios de presunção. O que esse bosque com algumas árvores simbolizam, se não a Santa Igreja que sobrevive através dos sete sacramentos como se fosse através de algumas árvores? Eles entram na Igreja com alguns dos criados de Davi, ou seja, com alguns bons feitos, para receberem o Reino de Deus com presunção.
Realizam um número modesto de boas ações, confiantes de que dessa forma, não importa a quantidade ou tipo de pecados que cometeram, ainda podem receber o reino dos céus como que por direito hereditário. O filho de Davi queria obter o reino contra a vontade de seu pai, mas foi afastado como castigo, visto que tanto ele como sua ambição não eram justos, e o reino foi dado a um homem melhor e mais sábio. Da mesma forma, essas pessoas também serão afastadas de meu reino. Ele será oferecido àqueles que fazem a vontade de Davi, já que apenas aquele que realiza caridade poderá obter meu Reino. Apenas aquele que é puro e conduzido pelo meu coração pode aproximar-se de mim, o mais puro de todos.
Salomão foi o terceiro filho de Davi. Ele representa os pagãos. Quando Batseba ouviu que alguém que não era Salomão, a quem Davi havia prometido que o sucederia como rei, havia sido escolhido por certas pessoas, ela dirigiu-se a Davi e disse: “Meu senhor, você jurou a mim que Salomão o sucederia como rei. Agora, entretanto, outra pessoa foi escolhida. Se isto realmente acontecer, serei sentenciada ao fogo como uma adúltera e meu filho será considerado como ilegítimo”.
Quando ouviu isso, Davi levantou-se e disse: “Eu juro em nome de Deus que Salomão sentará em meu trono e me sucederá como rei”. Ele então ordenou que seus criados pusessem Salomão no trono e que proclamassem rei o homem escolhido por Davi. Assim foi feito e Salomão recebeu grande poder, e todos aqueles que haviam votado em seu irmão foram dispersos e reduzidos à servidão. Batseba, que teria sido considerada uma adúltera se outro rei fosse eleito, representa nada mais que a fé dos pagãos.
Nenhum tipo de adultério é pior do que se vender à degradação longe de Deus, da verdadeira fé e da crença em um deus que não seja o Criador do universo. Assim como Batseba, alguns pagãos vêm a mim com corações humildes e arrependidos, dizendo: “Senhor, você prometeu que seríamos cristãos. Cumpra sua promessa! Se outro rei, se outra fé que não seja a sua nos dominar, se você se afastar de nós, queimaremos em tristeza e morreremos como adúlteras que preferiram um amante no lugar de um marido fiel. Além disso, embora viva eternamente, você morrerá para nós e nós para você no sentido de que sua graça será removida de nossos corações e assim ficaremos contra você por conta da nossa falta de fé.
Dessa maneira, cumpra sua promessa, fortaleça nossa fraqueza e ilumine nossa escuridão! Se demorar, se você se afastar de nós, sucumbiremos”. Depois de ouvir isso, me levantarei como Davi através de minha graça e misericórdia. Juro por minha natureza divina, juntamente com minha humanidade, e por minha natureza humana, juntamente com meu Espírito, e por meu Espírito, que existe em minhas naturezas divina e humana, esses três sendo apenas um Deus e não três, que cumprirei minha promessa.
Enviarei meus aliados para trazer meu filho Salomão, isto é, os pagãos, para o bosque, isto é, a Igreja, que sobrevive através dos sete sacramentos, ou seja, as sete árvores (a saber, o batismo, penitência, confirmação, eucaristia, sacerdócio, matrimônio e extrema-unção).
Eles descansaram sobre meu trono, isto é, na verdadeira fé da Santa Igreja. Além disso, os maus cristãos se tornarão seus criados. Os primeiros encontrarão alegria em uma herança eterna e no doce alimento que lhes prepararei. Os últimos, entretanto, sofrerão na miséria que será eterna. E assim, já que ainda é tempo de vigilância, que meus aliados não durmam, que não se cansem, pois uma recompensa gloriosa os espera por todo o seu trabalho!”
As palavras do Senhor na presença da esposa em relação a um rei que se encontra em um campo de batalha com aliados à sua direita e inimigos à sua esquerda, sobre como o rei representa Cristo, com os cristãos à direita e pagãos à esquerda, sobre como os cristãos são rejeitos e como ele envia seus pregadores aos pagãos.
Capítulo 6
O Filho disse: “Sou como um rei que se encontra em um campo de batalha com aliados à direita e inimigos à esquerda. Ouviu-se um grito em direção àqueles à direita onde todos estão bem armados. Seus capacetes estão presos e seus rostos virados em direção a seu senhor. Ouve-se o grito em direção a eles: ‘Voltem-se para mim e confiem em mim! Eu tenho ouro para dar-lhes.’ Quando ouviram isso, voltaram-se em direção a ele. A voz falou uma segunda vez àqueles que se viraram: ‘Se quiserem ver o ouro, desprendam seus capacetes, e se quiserem ficar com eles, eu os prenderei novamente quando quiser’.
Quando eles consentiram, ele prendeu os capacetes de trás para frente. O que aconteceu depois foi que a parte frontal dos capacetes que tinha abertura para enxergar estava na parte de trás de suas cabeças, enquanto que a parte de trás cobria seus olhos para que não pudessem ver. Gritando, ele os liderava como se fossem cegos. Depois que isto aconteceu, alguns dos aliados do rei relataram a seu senhor que seus inimigos haviam enganado seus homens. Ele disse aos aliados: ‘Vá e diga a eles: Desprendam seus capacetes e vejam como foram enganados! Virem-se para mim e os receberei em paz!’ Eles não quiseram ouvir, e sim consideraram isto com zombaria. Os criados ouviram isso e relataram a seu senhor.
Ele disse: ‘Bem, então, já que me desprezaram, aproximem-se daqueles que estão à esquerda e diga a eles essas três coisas: O caminho que os conduz à vida foi preparado para vocês. Acreditem seguramente que o caminho foi preparado! Reúnam-se ao Senhor com amor e ele irá recebê-los com amor e paz e os conduzirá à paz eterna!’ Quando ouviram as palavras do mensageiro, acreditaram nelas e foram recebidos em paz.
Eu sou este rei. Tive cristãos a meu lado, já que preparei uma recompensa eterna para eles. Seus capacetes estavam presos e suas faces voltavam-se para mim enquanto tinham a intenção de realizar minha vontade, obedecer meus preceitos e enquanto seu anseio era o de alcançar os céus. Logo, a voz do demônio, isto é, o orgulho, soou no mundo e lhes mostrou as riquezas mundanas e o prazer carnal. Voltaram-se em direção a ele ao entregar seus desejos e consentimento ao orgulho. Em razão do orgulho, tiraram seus capacetes ao realizarem seus desejos e preferiram bens temporais a espirituais.
Agora que deixaram de lado os capacetes da vontade de Deus e as armas da virtude, o orgulho os dominou e amarrou de tal forma que só conseguem ser felizes quando pecam até o fim e ficariam contentes em viver eternamente, contanto que pecassem eternamente. O orgulho os cegou de tal forma que as aberturas dos capacetes para que pudessem enxergar estão na parte de trás da cabeça e na frente só há escuridão. O que essas aberturas nos capacetes representam se não a consideração do futuro e a circunspeção da realidade do presente? Através da primeira abertura, eles enxergariam a alegria das recompensas futuras e os horrores das punições, assim como a terrível sentença de Deus. Através da segunda abertura, eles enxergariam os preceitos e proibições de Deus, e também o quanto transgrediram esses preceitos e como deveriam melhorar. Mas essas aberturas estão para trás e nada pode ser visto, o que significa que a realidade celeste não foi considerada.
Seu amor por Deus tornou-se frio, enquanto seu amor pelo mundo é considerado com encanto e recebido de tal forma que os conduz como um veículo desgovernado que se move para onde sua vontade desejar. Entretanto, ao me verem desonrado, almas caindo e o demônio assumindo o controle, meus aliados clamam por mim em suas preces. Suas preces alcançaram os céus e chegaram até meus ouvidos. Comovido pelas preces, envio meus pregadores a essas pessoas diariamente, mostro-lhes sinais e aumento minhas graças a eles. Porém, em seu desprezo a tudo isso, eles acumulam pecado sobre pecado.
Dessa forma, devo dizer a meus criados que efetivarei minhas palavras: Meus criados, dirijam-se ao lado esquerdo, isto é, com os pagãos, e digam: ‘O Senhor dos Céus e Criador do universo tem o seguinte para lhes dizer: O caminho dos Céus está aberto a vocês. Entrem com fé! O portão dos Céus está aberto a vocês, tenham esperança e o atravessarão! O Rei dos Céus e Senhor dos Anjos virá encontrá-los pessoalmente e lhes dará paz e bênção eternas.
Encontrem e recebam o Senhor com a fé que ele revelou a vocês e que preparou o caminho dos Céus! Recebam-no com sua esperança, pois ele mesmo pretende dar-lhes seu reino. Amem-no com todo o seu coração e pratiquem o seu amor e assim entrarão pelos portões de Deus dos quais aqueles cristãos foram afastados, pois não quiseram entrar e também não o merecem em razão de seus próprios atos’. Através de minha verdade, declaro que colocarei minhas palavras em prática e não as esquecerei. Receber-lhes-ei como meus filhos e serei seu Pai, Eu, a quem os cristãos desprezaram.
Vocês então, meus aliados no mundo, partam sem medo e gritem alto, anunciem minha vontade e ajudem a realizá-la. Estarei em seus corações e em suas palavras. Serei seu guia em vida e seu salvador na morte. Não os abandonarei. Andem bravamente – quanto maior o trabalho, maior será a glória! Posso fazer tudo em um único instante e com uma única palavra, mas quero que sua recompensa floresça de seu próprio esforço e que minha glória floresça de sua coragem. Não se surpreendam com o que digo.
Se o homem mais sábio do mundo pudesse contar quantas almas vão para o inferno todos os dias, o número superaria os grãos de areia no mar ou as pedras que se encontram na costa. Esta é uma questão de justiça, pois estas almas se separaram de seu Senhor e de Deus. Digo isto para que os números do demônio diminuam, para que se conheça o perigo e meu exército se complete. Se eles pudessem ouvir e perceber!”
Jesus Cristo fala à esposa e compara sua natureza divina a uma coroa usando Pedro e Paulo para simbolizar o estado clerical e leigo, sobre as maneiras de lidar com os inimigos, e sobre as qualidades que os cavaleiros do mundo devem ter.
Capítulo 7
O Filho falou à esposa, dizendo: “Eu sou o Rei da coroa. Você sabe por que eu disse ‘Rei da coroa’? Pois minha natureza divina não teve, tem ou terá começo nem fim. Minha natureza divina se assemelha a uma coroa, pois a mesma não possui começo ou fim. Assim como uma coroa é destinada ao futuro rei, minha natureza divina também foi destinada a ser a coroa de minha natureza humana.
Tive dois servos. Um foi sacerdote, o outro leigo. O primeiro era Pedro, que possuía sacerdócio, enquanto Paulo era leigo. Pedro era casado, mas quando percebeu que seu casamento não era coerente com seu sacerdócio e considerando que sua vocação a ele estaria sendo arriscada devido à falta de continência, deixou as práticas conjugais com sua esposa, ao contrário de uma casamento normal e lícito; ambos, estando de acordo, separaram as camas, assim, passou a devotar-me com leal sinceridade. Paulo, por outro lado, cumpria o celibato e mantinha-se puro. Veja o grande amor que tinha pelos dois!
Dei as chaves do Céu a Pedro para que tudo o que atasse e desatasse na Terra, ele ataria e desataria no Céu. Permiti que Paulo se igualasse a Pedro em glória e honra. Como juntos eram iguais na terra, agora poderiam se unir em glória eterna no Céu e assim glorificaram juntos. Entretanto, embora tenha mencionado esses dois exemplos claramente e utilizando nomes, através deles menciono outros aliados também. De modo semelhante, através da antiga Promessa Divina, falava com Israel como se estivesse me dirigindo a uma só pessoa, embora quisesse falar a todo o povo de Israel utilizando um único nome. Assim, usando esses dois homens, dirijo-me a todos aqueles que se preencheram com meu amor e glória.
Com o passar do tempo, o mal começou a multiplicar-se e a carne tornou-se fraca e inclinou-se ao pecado. Assim, estabeleço normas para cada um dos dois, para o clérigo e o leigo, representados aqui por Pedro e Paulo. Em minha misericórdia, decidi permitir que o clérigo possua uma quantia moderada de posses para suas necessidades materiais para que em seu trabalho a mim possa crescer de forma fervente e constante. Também permiti que o leigo se casasse de acordo com os preceitos da Igreja. Entre os sacerdotes, havia um homem que pensou consigo: ‘A carne me arrasta a esses prazeres, o mundo me arrasta em direção a visões prejudiciais, enquanto o demônio deixa diversas armadilhas para flagrar-me pecando.
Assim, para não ser apanhado usufruindo do prazer carnal, serei comedido em todas as minhas ações. Serei comedido em meu repouso e divertimento. Dedicarei o tempo apropriado ao trabalho e orações e reprimirei meu desejo carnal através da abstinência. Segundo, para que o mundo não me afaste do amor de Deus, abrirei mão de todas as coisas mundanas, pois são perecíveis. É mais seguro seguir Cristo na pobreza. Terceiro, para não ser enganado pelo demônio que sempre nos mostra falsidade em vez da verdade, submeterei à regra e obediência do outro; rejeitarei todo o egoísmo e mostrarei que estou pronto para dedicar-me a tudo o que for ordenado pela outra pessoa’. Este homem foi o primeiro a estabelecer regras monásticas. Ele persistiu de maneira louvável e deixou sua vida como um exemplo a ser seguido.
Durante um tempo, a classe leiga foi bem organizada. Alguns homens cultivavam o solo e trabalhavam na terra bravamente. Outros velejavam e transportavam mercadorias a outras regiões para que os recursos de uma região suprissem as necessidades de outra. Outros eram artesãos. Entre esses estavam os defensores de minha Igreja que hoje são chamados de cavaleiros.
Eles pegaram em armas como vingadores da Santa Igreja para lutar contra seus inimigos. Entre eles, surgiu um bom homem e meu aliado que pensou da seguinte forma: ‘Não cultivo o solo como um fazendeiro. Não cruzo os mares como um comerciante. Não trabalho com minhas mãos como um habilidoso artesão.
O que, então, posso fazer ou através de qual trabalho posso agradar meu Deus? Não sou vigoroso o suficiente para servir a Igreja. Meu corpo é muito mole para suportar danos físicos, minhas mãos não têm força para derrubar inimigos e minha mente fica inquieta ao refletir sobre o Céu. O que posso fazer então?
Sei o que posso fazer. Comprometer-lhe-ei a um príncipe secular através de um juramento, prometendo defender a fé da Santa Igreja com minha força e meu sangue’.
Este meu aliado dirigiu-se ao príncipe e disse: ‘Meu senhor, sou um dos defensores da Igreja. Meu corpo é fraco demais para suportar danos físicos, minhas mãos não têm força para derrubar outros; minha mente é instável quando penso sobre e realizo o que é bom; minha teimosia é o que me agrada; e minha necessidade de repouso não me permite adotar uma postura sólida pela casa de Deus.
Assim, me comprometo com um juramento público de obediência à Santa Igreja e ao senhor, ó Príncipe, jurando defendê-la todos os dias de minha vida para que, embora minha mente e vontade sejam indiferentes ao empenho, eu seja obrigado a trabalhar em nome de meu juramento’. O príncipe respondeu: ‘Irei com você até a casa do Senhor e serei testemunha de seu juramento e promessa’. Os dois vieram até meu altar, e meu aliado ajoelhou-se e disse: ‘Meu corpo é muito fraco para suportar danos físicos, minha teimosia me agrada, minhas mãos são indiferentes no que diz respeito a desferir golpes.
Dessa forma, prometo obediência a Deus e a você, meu mestre, me comprometendo através de um juramento para defender a Santa Igreja contra seus inimigos, para auxiliar os aliados de Deus, fazer bem a viúvas, órfãos e fiéis, e nunca fazer nada contra a Igreja ou a fé. Além disso, submeterei à sua punição se eu errar, para que, comprometido com minha obediência, eu tema o pecado e o egoísmo além de tudo e me dedicarei a realizar a vontade de Deus e sua própria com fervor e prontidão, sabendo que sou o mais digno de condenação e desprezo se me atrever a violar a obediência e transgredir suas ordens’. Depois da promessa em meu altar, o príncipe decidiu sabiamente que o homem deveria se vestir de forma diferente dos outros homens como um sinal de abdicação e para lembrá-lo de que deveria submeter-se a seu superior.
O príncipe também colocou uma espada em suas mãos, dizendo: ‘Esta espada é sua para ameaçar e matar os inimigos de Deus’. Colocou um escudo em seu braço, dizendo: ‘Defenda-se com este escudo contra os projéteis do inimigo e suporte pacientemente o que for lançado contra você. Que você possa antes vê-lo despedaçado do que fugir da batalha!’ Na presença de meu sacerdote que a tudo ouvia, meu aliado prometeu cumprir tudo. Quando fez a promessa, o sacerdote lhe ofereceu meu corpo para dar-lhe força e coragem para que, uma vez unido a mim através de meu corpo, meu aliado nunca se separasse de mim. Assim foi com meu aliado Jorge, e também muitos outros. Assim, também, deve ser com os cavaleiros. Devem manter seu título como resultado do mérito e usar sua armadura como resultado de suas ações em defesa da Sagrada Fé.
Ouçam como meus inimigos lutam contra as obrigações de meus aliados. Meus aliados costumavam entrar no mosteiro por sua sábia reverência e amor por Deus. Mas aqueles que estão nos mosteiros atualmente saem para o mundo em razão de seu orgulho e ganância, seguindo sua obstinação, satisfazendo o prazer carnal. A justiça exige que as pessoas que morrem realizando tais atitudes não devem experimentar a alegria dos céus e sim receber a punição interminável do inferno. Saibam, também, que os monges enclausurados que são forçados contra sua vontade a tornarem-se prelados pelo amor a Deus não são considerados. Os cavaleiros que empunhavam armas estavam prontos para entregar suas vidas pela justiça e derramar seu sangue pelo bem da sagrada fé, trazendo justiça aos necessitados, derrubando e humilhando os malfeitores.
Mas ouçam agora como eles foram corrompidos! Eles preferem morrer em batalha em nome da glória, ganância e cobiça induzidos pelo demônio em vez de viver de acordo com meus preceitos e obter alegria eterna. A retribuição será decidida durante o julgamento de todas as pessoas que morrem em tal condição e suas almas serão subjugadas ao demônio para sempre. Porém, os cavaleiros que servem a mim receberão sua retribuição nos Céus para sempre. Eu, Jesus Cristo, verdadeiro Homem e Deus, único ao lado do Pai e do Espírito Santo, um Deus para todo o sempre, disse isto.”
As palavras de Cristo à esposa sobre a deserção de um certo cavaleiro do exército verdadeiro, isto é, da humildade, obediência, paciência, fé, etc., para o exército falso, isto é, dos vícios opostos, orgulhos, etc., a descrição de sua condenação e sobre como uma pessoa pode encontrar sua condenação em razão de uma vontade má tanto quanto em razão de ações más.
Capítulo 8
Eu sou o verdadeiro Senhor. Não há outro maior que eu. Não houve outro antes de mim e também não haverá depois. A condição de senhor se origina em mim e através de mim. Este é o motivo pelo qual sou o verdadeiro Senhor e também pelo qual ninguém além de mim pode verdadeiramente ser chamado de Senhor, pois todo o poder se origina em mim.
Contei-lhe anteriormente que tive dois servos, um deles corajosamente assumiu um estilo de vida louvável e assim foi até o fim. Inúmeros outros o seguiram no mesmo ofício de cavaleiro. Dir-lhe-ei agora sobre o primeiro homem a desertar da cavalaria assim como foi instituída por meu aliado. Não lhe direi seu nome, pois você não o conhece por nome, mas revelarei seu propósito e vontade. Um homem que queria tornar-se cavaleiro veio ao meu santuário.
Quando entrou, escutou uma voz: “Três coisas são necessárias se quiser tornar-se cavaleiro: Primeiro, você deve acreditar que o pão que vê no altar é o Verdadeiro Deus e o Verdadeiro Homem, o Criador do Céu e da Terra. Segundo, uma vez que assumiu os serviços de cavalaria, você deve exercitar seu auto-domínio mais do que de costume. Terceiro, você não deve preocupar-se com honras mundanas. Certamente dar-lhe-ei alegrias e honras eternas.
Ao ouvir e considerar estas três condições, ele ouviu uma voz maligna em sua mente fazendo-lhe três propostas contrárias às anteriores. Ela dizia: “Se você me servir, far-lhe-ei três outras propostas. Deixar-lhe-ei ter o que vê, ouvir o que quiser e obter o que deseja”. Quando ouviu isso, pensou: “O primeiro senhor me disse para ter fé em algo que não vejo e me prometeu coisas que não conheço. Ele me disse para privar-me dos prazeres que posso ver e que desejo e esperar por algo que para mim é duvidoso.
O outro senhor me prometeu a honra mundana que posso ver e o prazer que desejo sem proibir-me de ver ou ouvir tudo aquilo que gosto. Com certeza, para mim é melhor segui-lo, ter o que posso ver e desfrutar das coisas que são certas em vez de esperar por coisas que para mim são incertas”. Com tais pensamentos, este homem deu início à deserção do serviço de um verdadeiro cavaleiro. Ele rejeitou a verdadeira profissão e quebrou sua promessa. Jogou o escudo da paciência aos meus pés, deixou a espada para a defesa da fé cair de suas mãos e deixou o santuário.
A voz maligna lhe disse: “Se, como eu disse, você for meu, então deverá andar com arrogância pelos campos e ruas. Aquele outro senhor ordena seus homens a serem humildes. Assim, não evite o orgulho ou a ostentação! Enquanto o outro senhor deu sua permissão através da obediência e se sujeitou a ela de todas as formas, você não deve permitir que ninguém seja superior. Não se curve a outras pessoas. Levante sua espada para derramar o sangue de seu vizinho e irmão para tomar posse de sua propriedade! Segure o escudo em seu braço e arrisque sua vida para ganhar fama! Em vez da fé que ele defende, ame o templo que é o seu próprio corpo sem privar-se de nenhum dos prazeres que o alegram”.
Enquanto o homem decidia que rumo tomar, seu príncipe colocou a mão sobre o pescoço em determinado ponto. Não é possível causar dano em nenhuma parte do corpo se o indivíduo possui boa vontade ou se ajuda alguém cuja intenção é má. Após a confirmação de sua condição de cavaleiro, o miserável trai a mesma ao exercê-la com a intenção de ostentar orgulho mundano, não levando a sério o fato de que estava sob a obrigação maior de possuir uma vida mais austera que a anterior. Inúmeros exércitos de cavaleiros seguiram e ainda seguem este cavaleiro em seu orgulho, que afundou no abismo devido à sua promessa.
Porém, dado que existem muitas pessoas que desejam subir na vida e conquistar renome, mas não o conseguem, você deve perguntar: Essas pessoas são punidas pela maldade em suas intenções da mesma forma que aquelas que alcançam o sucesso? Assim eu lhe respondo: Asseguro-lhe que qualquer um pretende subir na vida e faz tudo o que for capaz para adquirir uma posição vazia de honra mundana, embora sua intenção nunca tenha efeito devido a uma decisão secreta de minha parte, tal indivíduo será punido pela maldade de sua intenção da mesma forma que aquele que consegue realizar seu desejo, a menos que retifique sua intenção através de penitência.
Veja, dar-lhe-ei o exemplo de dois indivíduos conhecidos por muitos outros. Um deles prosperou de acordo com seus desejos e obteve quase tudo que desejou. O outro teve a mesma intenção, porém não teve as mesmas possibilidades. O primeiro ficou conhecido no mundo todo; amava o templo que era seu corpo e toda a sua luxúria; tinha o poder que queria; tudo em que tocava prosperava. O outro tinha as mesmas intenções, porém não obteve sucesso. Ele teria derramado o sangue do próximo cem vezes para realizar seus planos gananciosos.
Fez o que pôde e realizou sua vontade de acordo com seu desejo. Estes dois homens tiveram punições semelhantes. Embora não tenham morrido ao mesmo tempo, posso falar de uma alma apenas em vez de duas, já que sua condenação foi a mesma. Os dois tiveram o mesmo a dizer quando o corpo se separou da alma e esta partiu. Uma vez separada do corpo, a alma disse a ele: “Diga-me, onde estão agora as visões para alegrar meus olhos que havia me prometido, onde está o prazer que havia me mostrado, onde estão as palavras de prazer que me mandou usar?” O demônio estava lá e respondeu:
“As visões prometidas nada são além de pó, as palavras nada são além de ar, o prazer nada mais é do que lama e podridão. Estas coisas não valem mais para você agora”. A alma então gritou: “Ai de mim, fui enganado de forma desprezível! Vejo três coisas. Vejo aquele que me foi prometido sob a imagem do pão.
Ele é o verdadeiro Rei dos reis e Senhor dos senhores. Vejo o que ele prometeu e é indescritível e inimaginável. Eu vejo agora que a abstinência que ele recomendou era muito benéfica”. Então, com um tom de voz ainda mais alto, a alma gritou três vezes: “Ai de mim que nasci! Ai de mim cuja vida na Terra foi tão longa! Ai de mim que devo existir em uma morte perpétua!”
Veja a desgraça que as pessoas ruins terão em retorno pelo desprezo a Deus e pela alegria passageira! Assim, você deve me agradecer, minha esposa, por tê-la afastado de tal desgraça! Seja obediente a meu Espírito e a meus escolhidos!
As palavras de Cristo à esposa ao dar uma explicação para o capítulo anterior, sobre o ataque do demônio ao cavaleiro mencionado e sobre sua terrível e justa condenação.
Capítulo 9
Toda a extensão dessa vida nada mais é para mim do que uma única hora. Assim, o que estou lhe dizendo agora sempre esteve presente em minha revelação. Contei-lhe anteriormente sobre um homem que iniciou-se na cavalaria, e sobre outro que desertou como um infame. O homem que desertou da ordem da cavalaria jogou seu escudo sobre meus pés e deixou sua espada a meu lado, quebrando suas promessas e votos sagrados. O escudo que ele jogou simboliza nada mais do que a justa fé com a qual ele se defenderia dos inimigos da fé e de sua alma.
Os pés, com os quais caminho em direção à humanidade, simbolizam nada mais do que a alegria divina com a qual atraio uma pessoa à mim e a paciência com a qual o tolero. Ele jogou este escudo ao chão quando entrou em meu santuário, pensando consigo mesmo: quero obedecer ao senhor que aconselhou-me a não praticar a abstinência, aquele que me dá o que desejo e me permite escutar o que me agrada. Foi dessa maneira que ele jogou o escudo da minha fé ao querer seguir seu desejo egoísta, ao amar a criatura mais do que o Criador.
Se sua fé fosse justa, se acreditasse em meu poder, justiça e provedor de glória eterna, não teria desejado nada além de mim, não teria temido nada além de mim. Porém, ele arremessou sua fé sobre meus pés, desprezando e desconsiderando-a, pois não procurou me agradar e não considerou minha paciência. Então ele jogou sua espada a meu lado. Ela simboliza o temor a Deus, a qual o verdadeiro cavaleiro deve segurar em suas mãos, ou seja, em seus atos. Meu lado simboliza o cuidado e proteção com os quais protejo e defendo meus filhos, como uma galinha protege seus pintinhos, para que o demônio não os faça mal e que nenhuma acusação seja feita sobre eles. Mas aquele homem jogou fora a espada do meu temor sem pensar em meu poder e sem considerar meu amor e paciência.
Ele a jogou ao chão a meu lado como se dissesse: “Eu não temo e nem ligo para a sua defesa. Consegui o que tenho através de meus próprios atos e minha nobre descendência”. Ele quebrou a promessa que fez a mim. Qual é a verdadeira promessa que um homem está determinado a fazer em nome de Deus? Com certeza, é aquela em nome do amor: ou qualquer coisa que uma pessoa faça, deve fazer por amor a Deus. Porém, ele o deixa de lado ao transformar o amor a Deus em amor-próprio; preferiu seu egoísmo à alegria futura e eterna. Dessa forma, separou-se de mim e deixou o santuário de minha humildade.
O corpo de qualquer cristão guiado pela humildade é meu santuário. Aqueles guiados pelo orgulho não são meu santuário e sim do demônio que os desvia para o caminho do desejo mundano com propósitos próprios. Ao sair do templo de minha humildade, e ao rejeitar o escudo da santa fé e a espada do temor, ele caminhou orgulhosamente até os campos, cultivando cada desejo egoísta e desprezou o temor a mim e cresceu em pecado e luxúria.
Quando alcançou o final de sua vida e sua alma deixou o corpo, os demônios foram a seu encontro. Ouvia-se três vozes do inferno que falavam com ele. O primeiro disse: “Não é este o homem que desertou da humildade e nos seguiu com orgulho? Se seus pés pudessem levá-lo cada vez mais alto em seu orgulho a ponto de nos ultrapassar, o faria mais que rapidamente”. A alma o respondeu: “Eu sou este homem”. O juiz respondeu: “Esta é a recompensa pelo seu orgulho: você descerá acompanhado de um demônio até alcançar outro até que chegue à porção mais baixa do inferno.

E como não há demônio que não tenha conhecimento sobre a sua punição e o sofrimento infligido para cada pensamento ou feito desnecessários, você não escapará do castigo nas mãos de cada um deles e nem da maldade que existe em todos eles”. A segunda voz gritou, dizendo: “Não é este o homem que afastou-se de seu serviço professo a Deus e uniu-se a nós?”
A alma respondeu: “Eu sou este homem”. E o juiz disse: “Esta é sua recompensa: que todos os que imitam sua conduta como cavaleiro irão aumentar sua punição e sofrimento através de sua própria corrupção e dor e irão golpeá-lo como se recebesse uma ferida mortal. Você será como um homem atormentado por uma grave ferida, na verdade será atormentado por feridas sucessivas até que seu corpo esteja repleto de feridas, um sofrimento intolerável e lamento constante em relação a seu destino. Mesmo assim, você viverá em miséria.
No auge de sua dor, ela será renovada, e sua punição nunca acabará e sua angústia nunca diminuirá”. A terceira voz gritou: “Não é este o homem que trocou seu Criador pelas criaturas, o amor de seu Criador por seu próprio egoísmo?” O juiz respondeu: “Certamente é ele”.
Assim, dois buracos serão abertos nele. Através do primeiro entrarão todos as punições merecidas desde seu menor pecado até o maior deles, visto que trocou seu Criador por sua própria luxúria. Através do segundo buraco entrarão toda a dor e vergonha, e não receberá consolação ou caridade divina, visto que amou mais a si mesmo do que a seu Criador. Viverá eternamente e sua punição também será eterna, pois todos os santos se afastaram dele”. Minha esposa, veja como essas pessoas que me desprezam serão miseráveis e também o preço que pagam por tão pouco prazer!”
Assim como Deus falou a Moisés através da sarça ardente, Cristo fala a sua esposa sobre como o demônio é representado pelo faraó, cavaleiros da época atual são representados pelo povo de Israel e o corpo da Virgem pela sarça, e sobre como os cavaleiros dos bispos dos tempos atuais estão preparando uma moradia para o demônio.
Capítulo 10
Está escrito na Lei de Moisés que este cuidava de seu rebanho no deserto quando viu uma sarça em chamas, mas que não queimava e ficou com medo cobrindo assim seu rosto. Uma voz falou com ele vindo da sarça: “Fiquei sabendo que meu povo sofre e sinto compaixão por eles, pois são oprimidos por uma escravidão severa”. Esta voz que fala com você vem da sarça. Ouvi a miséria de meu povo. Quem é meu povo senão o povo de Israel? Usando este mesmo nome eu agora designo os cavaleiros em todo o mundo que fizeram votos em nome de minha cavalaria e que deveriam ser meus, mas estão sendo atacados pelo demônio.
O que o faraó fez para o meu povo de Israel no Egito? Três coisas. Primeiro, quando construíam seus muros, não recebiam ajuda dos ceifeiros que ajudaram anteriormente a fazer tijolos. Em vez disso, eles mesmos tinham de apanhar a palha onde pudessem em todo o país. Segundo, os construtores não receberam nenhum tipo de agradecimento por seu trabalho, apesar de atingirem a meta estabelecida de tijolos a serem feitos. Terceiro, os capatazes os batiam severamente sempre que sua produção decaía. Em meio a todo o sofrimento, o meu povo construiu duas cidades para o faraó.
Este faraó é ninguém menos que o demônio que ataca meu povo, isto é, os cavaleiros, que têm a obrigação de ser meu povo. Em verdade lhe digo que se os cavaleiros tivessem mantido o acordo e regras estabelecidos pelo meu primeiro aliado, estariam entre os meus mais queridos. Assim como Abraão, que foi o primeiro a receber o mandamento da circuncisão e foi obediente a mim, tornou-se meu mais querido aliado, qualquer um que demonstrar a fé e os feitos de Abraão compartilhados em seu amor e glória, assim também os cavaleiros foram amáveis comigo entre todas as ordens, já que prometeram derramar por mim seu bem mais estimado, seu próprio sangue.
Os aprecio muito por este voto, assim como Abrão fez em relação à circuncisão, e se purificaram a cada dia por cumprir sua profissão e praticar a santa caridade. Estes cavaleiros são agora tão oprimidos por serem escravos do demônio que este os fere com um golpe letal e os atira à dor e sofrimento. Os bispos da Igreja constroem duas cidades para ele assim como as crianças de Israel. A primeira cidade representa o esforço físico e a ansiedade sem propósito para adquirir bens mundanos. A segunda cidade representa a inquietação e angústia espiritual, visto que estão sempre preocupados com seus desejos mundanos. Dentro há trabalho, e por fora há inquietação e ansiedade, submetendo as questões espirituais a um fardo pesado.
Da mesma forma que o faraó não forneceu a meu povo o material necessário para fazer tijolos, campos repletos de cereais, ou vinho e outras coisas úteis, e o povo tinha de ir atrás desses suprimentos por conta própria, o demônio assim o faz. Embora eles trabalhem para o mundo e o cobicem em seus desejos mais íntimos, não conseguem realizá-los e saciar sua sede de ganância. São consumidos por dentro pelo pesar e por fora pelo trabalho. Por essa razão, sinto pena de seu sofrimento, pois meus cavaleiros, meu povo, constroem moradias para o demônio e trabalham incessantemente, pois não conseguem obter o que desejam e também porque se preocupam com bens insignificantes, embora o fruto de sua ansiedade seja a recompensa da vergonha e não uma bênção.
Quando Moisés foi enviado ao povo, Deus deu a ele um sinal milagroso por três motivos. Primeiro, porque cada pessoa no Egito adorava um deus em particular e porque inúmeros seres eram considerados como deuses. Assim, era apropriado enviar um sinal milagroso para que, através do poder de Deus, o povo acreditasse que há um só Deus e um só Criador de todas as coisas em razão dos sinais, e para que se provasse que todos os outros ídolos não tinham valor. Segundo, um sinal foi enviado a Moisés como um símbolo que previa a vinda de meu corpo.
O que a sarça ardente simbolizava senão a Virgem que concebeu através do Espírito Santo e deu à luz sem ser corrompida? Eu vim desta sarça, assumindo a natureza humana do corpo virginal de Maria. De maneira semelhante, a serpente que apareceu como sinal a Moisés simbolizava meu corpo. Em terceiro lugar, um sinal foi enviado a Moisés para confirmar a autenticidade dos eventos futuros e indicar os sinais milagrosos que ainda viriam, provando que a verdade de Deus é a mais precisa e a mais certa quanto mais claramente tudo o que foi simbolizado pelos sinais, com o tempo, se realizasse.
Envio agora minhas palavras aos filhos de Israel, ou seja, aos cavaleiros. Eles não precisam de sinais milagrosos por três motivos. Primeiro, porque o Deus e Criador de todas as coisas já é adorado e conhecido através da Santa Escritura, assim como através de várias outras indicações. Segundo, eles estão esperando pelo meu nascimento, pois sabem que eu realmente nasci e fui materializado sem corrupção, visto que a escritura foi completamente cumprida. E não há melhor ou mais certa fé para defender ou acreditar do que aquela que já foi proclamada por mim e meus santos pregadores. Entretanto, fiz três coisas através de você para que acreditassem. Primeiro, estas são minhas verdadeiras palavras e elas não diferem de verdadeira fé.
Segundo, um demônio saiu de um corpo possuído apenas com minhas palavras. Terceiro, dei a um certo homem o poder de unir corações desconfiados em misericórdia. Assim, não duvide daqueles que acreditarão em mim. Aqueles que acreditam em mim crêem também em minhas palavras. Aqueles que me provam também provam minhas palavras. Está escrito que Moisés cobriu seu rosto depois de falar com Deus. Você, entretanto, não precisa cobrir seu rosto.
Eu abri seus olhos espirituais para que você possa ver coisas espirituais. Abri seus ouvidos para que ouça aquilo que é do Espírito. Mostrar-lhe-ei a imagem de meu corpo como era durante e antes de minha paixão, e como ficou depois de minha ressurreição, como Madalena, Pedro e outros assim o viram. Você também ouvirá minha voz assim como ela falou a Moisés de dentro da sarça. Esta mesma voz fala dentro de sua alma.

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