sábado, 1 de novembro de 2014

"Deixa que os mortos enterrem seus mortos".

“Deixa que os mortos enterrem os seus mortos”
Por D. Estêvão Bettencourt, OSB

Aconteceu que, indo eles pelo caminho, veio um homem que lhe disse: Seguir-te-ei para onde quer que vás. Jesus disse-lhe: As raposas têm seus covis e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.A outro disse: Segue-me. Mas ele disse: Senhor, permite-me que vá primeiro sepultar meu pai. Mas Jesus respondeu: Segue-me, e deixa que os mortos enterrem os seus mortos; tu vai e anuncia o reino de Deus (Lc 9, 57-60; cfr. Mt 8, 19-22).
ATITUDE PERANTE A VOCAÇÃO

O significado dos dizeres acima reproduzidos entende-se bem à luz do respectivo contexto, contexto que no Evangelho de São Lucas é um pouco mais explícito do que no de São Mateus.

Na verdade, os Evangelistas nos apresentam sucessivamente duas atitudes dos homens perante uma chamada do Divino Mestre – a chamada para seguirem a Cristo na qualidade de discípulos.

A primeira atitude é a da generosidade aparente, mas superficial. Com efeito, alguém se apresentou ao Divino Mestre afirmando: Mestre, seguir-te-ei para onde quer que vás. A esse fervor pouco experimentado, dizem os Evangelistas, Jesus houve por bem responder com reservas, mostrando as dificuldades do propósito: segui-lo seria expor-se a todas as espécies de privações, pois as raposas têm os seus covis, e as aves do céu os seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça, advertiu o Senhor.

A segunda atitude do homem perante a chamada de Cristo é a da vacilação. Certa vez, o próprio Divino Mestre dirigiu a alguém o convite: Segue-me. Ao que o discípulo replicou: Senhor, permite-me que vá primeiro sepultar meu pai. Não se dando por satisfeito com a resposta, Cristo insistiu: Segue-me, e deixa que os mortos enterrem os seus mortos.

Alguns comentadores julgam que o pai do jovem se achava ainda em vida, se bem que gravemente enfermo. O mancebo teria então pedido ao Senhor o prazo mais ou menos longo que decorreria até a morte e o sepultamento do doente, talvez pensando em esquivar-se definitivamente ao convite de Jesus. A maioria dos exegetas, porém, admite que o ancião já morrera e que o jovem pedia apenas o exíguo tempo necessário para participar dos funerais.

Como quer que seja, num e noutro caso o pedido parecia muito legítimo: prestar assistência aos genitores e sepultar os mortos eram obras altamente estimadas pelos judeus piedosos. E já que os judeus costumavam sepultar no próprio dia da morte (cfr. At 5, 5-6), o pedido do jovem não implicaria em grande atraso para seguir o Divino Mestre. Contudo, Jesus não quis reconhecer a legitimidade da súplica.

() Em particular, o sepultamento dos defuntos era tido como dever tão imperioso que os rabinos dispensavam das orações usuais e do estudo da Lei os filhos que tivessem por sepultar pai ou mãe (cfr. o tratado do Talmud, Berachot 17, 2); além disso, a própria Escritura Sagrada, por suas narrativas, muito parecia recomendar aos filhos o cuidado de sepultarem os seus pais (cfr. Gên 25, 9; 50, 5; Tob 1, 21; 2, 3-7; 4, 3).

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Não porque o cuidado dos mortos não seja em si uma obra boa, mas porque, no caso focalizado, a atitude do mancebo significava falta de generosidade para com Deus, significava certa covardia ou também um coração dividido entre o amor a Deus e o amor às criaturas. Ora, o Senhor quer ser amado acima de tudo; é, aliás, a reta hierarquia de valores que o exige: ou Deus ocupa o lugar capital na vida do homem, norteando todas as suas atitudes, ou simplesmente dever-se-á dizer que Deus não existe para esse homem; ninguém se iludirá julgando que cultua a Deus pelo fato de Lhe consagrar algumas de suas atitudes ou algumas de suas horas na vida.

O VALOR ABSOLUTO

Uma pequena digressão servirá para ilustrar quanto acabamos de dizer.

Um monge hindu dizia com muito acerto: “Deus é a unidade sem a qual só existem zeros”. Com efeito, Deus é, por definição, o Ser Absoluto – o que significa: o Valor Absoluto. Deus é, sim, o Valor que torna valiosa toda e qualquer criatura, e sem o qual esta é vazia e enganadora. Imaginemos uma série de três zeros, outra de seis, outra de nove zeros:

000 000.000 000.000.000

Os zeros que se acrescentam aos zeros nada alteram; tudo fica sendo zero... Mas coloquemos o número Um, uma só unidade, coisa simplicíssima, na série... Se pusermos o “Um” em último lugar, o conjunto, por mais longo que seja, ficará valendo muito pouco, será uma ninharia... Se o colocarmos em penúltimo lugar, já o conjunto valerá dez, o que ainda é muito pouco... Caso ponhamos a unidade em terceiro, em quarto, em quinto lugar, a série irá aumentando de valor (cem, mil, dez mil...). Finalmente, se se coloca o número Um à frente de cada série, ter-se-á:

1.000 mil

1.000.000 um milhão

1.000.000.000 um bilhão

Coisa estupenda! Os zeros tomam imenso valor desde que o “Um” lhes seja anteposto e os ilumine. Pois bem; Deus é esse “Um” sem o qual as criaturas nada são.

Se Deus ficar em último lugar na vida do homem, esta se apresentará sempre como insípida bagatela, ninharia vazia... Uma vez, porém, que se ponha Deus incondicionalmente em lugar capital, cada bagatela, cada zero da vida toma valor imprevistamente grande.

O homem pode acumular mil bens criados no seu tesouro; se chegarem a fazer empalidecer ou a remover a face de Deus no horizonte do indivíduo, esses bens, por mais numerosos que sejam, equivalerão a uma longa série de zeros; deixarão o seu possuidor sempre frustrado e insatisfeito...

Mas se o cristão puser Deus à frente de cada criatura e procurar ver tudo sob a perspectiva dEle, então e somente então esse homem começará a compreender o valor das criaturas; começará a compreender também que seguir Cristo é o maior de todos os bens e que a vida, vivida em fidelidade absoluta ao Senhor, vale, apesar de tudo, a pena de ser vivida!

A ÚNICA RESPOSTA

Voltando ao texto do Santo Evangelho, diremos conseqüentemente que, no caso da chamada dirigida pessoalmente por Jesus ao jovem, só uma resposta era adequada: a aceitação imediata, não postergada por qualquer outra tarefa; embora esta fosse em si legítima – como o sepultamento dos mortos –, naquelas circunstâncias tornava-se condenável porque, em vez de levar o discípulo a amar mais a Deus, servia para diminuir e entibiar a sua adesão ao Bem Infinito.

Eis o motivo da insistência apresentada por Cristo. Contudo, a segunda parte da frase do Senhor costuma também causar estranheza: Deixa que os mortos enterrem os seus mortos.

A construção da frase é evidentemente artificiosa, pois, como de antemão se pode conjeturar, faz duplo emprego do termo “mortos”. Em suma. Jesus quer dizer que, para sepultar cadáveres materiais – ou os mortos, no sentido físico –, há sempre gente suficiente; há, sim, todos aqueles que não são chamados à vida da graça e do apostolado, gente talvez indiferente aos interesses do Reino de Deus. Tais pessoas vivem para o mundo e para as tarefas deste mundo; são por Jesus designadas metaforicamente como “mortos”...

Esta figura de linguagem, forte como é, justifica-se pelo desejo que Jesus tem de realçar a grandeza e a premência da vocação dirigida ao jovem mancebo; chamado a seguir diretamente a Jesus, ele possui o quinhão por excelência, em comparação com o qual tudo empalidece ou desaparece, morre.

A figura também se explica pelo uso dos rabinos, que costumavam considerar como mortos – em espírito – os indivíduos que viviam alheios ao Reino de Deus. Aliás, um eco bem significativo desse uso ressoa no texto de São Paulo: A viúva que vive em prazeres está morta, embora pareça viva (1 Tim 5, 6).

Conseqüentemente, os mestres de Israel tinham os homens piedosos na conta de “vivos”, mesmo que estes se vissem atribulados e condenados à morte (cfr. 2 Cor 4, 7-12).

Por conseguinte, Jesus quer incutir ao discípulo que Ele chama a preciosa norma: “Deixa o cuidado dos mortos ou, mais amplamente ainda, o cuidado das coisas mortais ou temporais, aos homens que, por desconhecerem valores mais elevados, se dedicam profissionalmente a isso; tu, porém, que recebeste a melhor das vocações, não queiras viver como se não a tivesses, mas volta-se decididamente para os valores eternos”.

Durand comenta assim as palavras de Jesus: “Admiramos o soldado que, no caso de extremo perigo da pátria, permanece em seu posto na frente de combate, deixando aos de trás o cuidado de sepultar o seu pai. Como então nos contentaríamos com uma dedicação menor, ao tratar-se do Reino de Deus?” (Com. em Mateus, 133).

Por fim, o episódio que acabamos de analisar ainda sugere uma reflexão: em dados momentos da vida, a maior graça que Deus pode conceder a uma alma é a de pedir-lhe um ato de heroísmo. Esse ato, esse impulso forte, ainda que faça sofrer, vem a ser a condição imprescindível para que o cristão se eleve acima de seus interesses temporais ou para que fortaleça a sua verdadeira vida, e não se torne um morto a sepultar mortos no cemitério das coisas temporais.


Fonte: “Páginas dfíceis do Evangelho”, 2ª ed., Quadrante, São Paulo, 1993, págs. 23-29.

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