sexta-feira, 21 de junho de 2013

Segunda consideração dos sagrados santos estigmas.

Segunda consideração dos sagrados santos estigmas.

A segunda consideração é sobre o comportamento de São Francisco com os companheiros no referido monte.

Quanto a esta é preciso saber que, quando monsior Orlando ouviu que São Francisco com três companheiros tinha subido para morar no monte Alverne, teve uma enorme alegria e, no dia seguinte, partiu com muitos do seu castelo e foram visitar São Francisco, levando pão, vinho e outras coisas para viver, para ele e para seus companheiros. Quando chegaram lá em cima, encontraram-nos em oração.

Chegaram perto deles e os saudaram. Então São Francisco se levantou e recebeu com grande caridade e alegria monsior Orlando com a sua companhia. Feito isso, puseram-se a conversar. Depois que conversaram, e São Francisco agradeceu pelo devoto monte que ele tinha dado e pela sua vinda, ele pediu que lhe fizesse construir uma pequena cela pobre ao pé de uma faia muito bonita, que estava uma pedrada longe do lugar dos frades, pois aquele lugar lhe parecia muito devoto e apto para a oração.

Monsior Orlando mandou construí-la imediatamente. Feito isso, como a noite vinha chegando e era hora de ir embora, São Francisco, antes que eles se fossem, pregou-lhes um pouco. Depois, quando tinha pregado e lhes dado a bênção, devendo monsior Orlando partir, chamou São Francisco e os companheiros à parte e lhes disse assim: “Meus queridos frades, não é minha intenção que passeis nenhuma necessidade corporal neste monte selvagem, de modo que não possais cuidar bem das coisas espirituais. Por isso eu quero, e isto vos digo por todas as vezes, que recorrais à minha casa para todas as vossas necessidades. E se fizerdes o contrário, eu vou ter isso como um mal”. Dito isso, foi embora com sua companhia e voltou para o castelo.
Então São Francisco mandou seus companheiros sentarem e os instruiu sobre o modo e a vida que deviam ter eles e quem quer que quisesse viver religiosamente nos eremitérios. E entre outras coisas impôs-lhes especialmente a observância da santa pobreza, dizendo: “Não olheis tanto a caridosa oferta de monsior Orlando que ofendais a nossa dama, a senhora santa pobreza. Tende como certo que quanto mais nos esquivarmos da pobreza tanto mais o mundo se esquivará de nós e mais necessidade padeceremos. Mas se nós abraçarmos bem apertada a santa pobreza, o mundo virá atrás de nós e nos nutrirá copiosamente. Deus nos chamou nesta santa religião pela salvação do mundo e estabeleceu este pacto entre nós e o mundo, que nós demos ao mundo bom exemplo e o mundo cuide nós em nossas necessidades. Perseveremos, portanto, na santa pobreza, porque ela é caminho de perfeição e é garantia e penhor das nossas riquezas”.

Depois de muitas palavras bonitas e devotas, e de ensinamentos sobre essa matéria, concluiu dizendo: “Este é o modo de viver, que eu imponho a mim e a vós. E como vejo que estou me aproximando da morte, quero ficar sozinho, recolher-me com Deus e chorar diante dele os meus pecados. E Frei Leão, quando lhe parecer bem, me levará um pouco de pão e um pouco de água. De modo algum permitais que venha a mim algum secular, mas vós respondereis a ele por mim”. Dizendo essas palavras, deu-lhes a bênção e foi para a cela da faia. Os companheiros ficaram no lugar, com o firme propósito de observar os mandamentos de São Francisco.

Daí a poucos dias, estando São Francisco ao lado da referida cela, considerando a disposição do monte e admirado das grandes rachaduras e aberturas de enormes rochas, pôs-se em oração. Foi-lhe então revelado por Deus que aquelas rachaduras tão maravilhosas tinham sido feitas milagrosamente na hora da paixão de Cristo, quando, conforme diz o Evangelista, as pedras se racharam. E foi Deus quem quis que isso aparecesse especialmente no monte Alverne, porque lá deveria renovar-se a paixão de nosso Senhor Jesus Cristo, na sua alma por amor e compaixão, e no seu corpo pela impressão pela impressão dos sagrados santos estigmas.

Quando São Francisco teve essa revelação, fechou-se imediatamente na cela e se dispôs a pensar no mistério dessa revelação. E, desde então, São Francisco, pela contínua oração, começou a provar mais freqüentemente a doçura da divina contemplação, pela qual ele muitas vezes ficava tão arrebatado em Deus que os companheiros o viam elevado da terra e fora de si.

Nesses arrebatamentos contemplativos eram-lhe reveladas por Deus não só as coisas presentes e futuras mas até os pensamentos secretos e os desejos dos frades, como provou em si mesmo seu companheiro Frei Leão, naquele mesmo dia. O qual Frei Leão, suportando pelo demônio uma grandíssima tentação, não carnal mas espiritual, teve grande vontade de ter alguma coisa devota escrita de própria mão por São Francisco, pensando que, se a tivesse, a tentação iria embora, totalmente ou em parte. Tendo esse desejo, por vergonha e por reverência não tinha tido coragem de dize-lo a São Francisco.

Mas o Espírito Santo lhe revelou o que Frei Leão não disse. Por isso São Francisco chamou-o a si e fez que lhe levassem tinteiro, pena e papel. E escreveu com a própria mão uma lauda de Cristo, conforme o desejo do frade, e no fim colocou-lhe o sinal do Tau e lhe entregou dizendo: “Querido irmão, eu te dou este papel. Guarda-o diligentemente até a morte. Que Deus te abençoe e te guarde contra toda tentação. Não desanimes porque tens tentações, porque é então que eu te acho amigo e mais servo de Deus e mais te amo, quanto mais és combatido pelas tentações. Na verdade eu te digo que ninguém deve ter-se como perfeito amigo de Deus enquanto não tiver passado por muitas tentações e tribulações”.
Quando Frei Leão recebeu o escrito com a maior devoção e fé, toda tentação foi embora de repente. Voltando ao lugar, contou aos companheiros com grande alegria quanta graça Deus lhe tinha feito ao receber aquele escrito de São Francisco. Enrolando-o e guardando-o diligentemente, mais tarde os frades fizeram muitos milagres com ele.

Daquela hora em diante, o dito Frei Leão. Com grande pureza e boa intenção, começou a perscrutar e considerar solicitamente a vida de São Francisco. Por sua pureza ele mereceu ver muitas e muitas vezes São Francisco arrebatado em Deus e suspenso da terra, uma vez a três braças de altura, outra quatro, uma vez até na altura de uma faia e uma vez viu-o elevado tão alto no ar e cercado de tanto esplendor que mal podia enxerga-lo.

E que fazia este simples frade quando São Francisco estava tão pouco elevado da terra que ele podia alcança-lo? Ia piedosamente, abraçava-lhe os pés, beijava-os e dizia entre lágrimas: Meu Deus, tende misericórdia de mim pecador e, pelos méritos deste santo homem, fazei-me encontrar a vossa graça”. E, uma vez entre outras, estando ele assim abaixo dos pés de São Francisco quando ele estava tão elevado da terra que não podia toca-lo, viu uma cédula escrita com letras de ouro descendo do céu e colocando-se sobre a cabeça de São Francisco. Na cédula, estavam escritas estas palavras: Aqui está a graça de Deus. Depois que a leu, ele viu que ela voltava para o céu.

Pelo dom dessa graça de Deus que estava nele, São Francisco não só era arrebatado em Deus pela contemplação estática, mas algumas vezes era até confortado pela visita dos Anjos. Assim, estando um dia São Francisco a pensar em sua morte e na situação de sua religião depois de sua vida, e dizendo: “Senhor Deus, que será, depois de minha morte, de tua família pobrezinha, que por tua bondade confiaste a mim pecador? Quem a confortará? Quem a corrigirá? Quem te pedirá por eles?” e, dizendo palavras como essas, apareceu-lhe o Anjo mandado por Deus e confortando-o assim: “Eu te digo da parte de Deus que a profissão de tua Ordem não há de faltar até o dia do juízo, e não haverá pecador tão grande que, se amar de coração a tua Ordem, não há de encontrar misericórdia da parte de Deus. E ninguém que perseguir por maldade a tua Ordem vai poder viver. E mais, ningúem muito réu na tua Ordem, que não corrija sua vida, poderá perseverar na Ordem. Por isso não fiques triste se vês alguns frades não bons, que não observam a regra como devem, e não penses então que essa religião virá a esvair-se, pois sempre haverá nela muitos e muitos que observarão perfeitamente a vida do Evangelho de Cristo e a pureza da Regra; e aqueles que, depois da vida terrena, irão diretamente para a vida eterna sem passar absolutamente pelo purgatório. Alguns não vão observa-la perfeitamente e até os que vão para o paraíso passarão pelo purgatório, mas o tempo de sua purgação será confiado por Deus a ti. Mas não te preocupes com aqueles que não vão mesmo observar a Regra, diz Deus, porque nem ele se preocupa”. Ditas essas palavras, o anjo foi embora e São Francisco ficou todo confortado e consolado.

Aproximando-se, pois, a festa da Assunção de nossa Senhora, procurou a oportunidade de um lugar mais solitário e secreto em que pudesse fazer a mais à parte a quaresma de São Miguel Arcanjo, que começava na dita festa da Assunção. Por isso chamou Frei Leão e lhe disse assim: “Vai e fica na porta do lugar dos frades; quando eu te chamar, voltarás a mim”. Frei Leão foi e ficou à porta. São Francisco demorou um pouco e o chamou com força. Ouvindo chamar, Frei Leão voltou a ele e São Francisco lhe disse: “Filho, vamos procurar outro lugar mais secreto onde não me possas ouvir assim quando eu te chamar”.

Procurando, viram no lado do monte, na parte do sul, um lugar secreto e muito bem adequado, como ele queria. Mas não se podia chegar lá, porque na frente havia uma abertura na rocha muito terrível e amedrontadora. Com muita fadiga, puseram em cima dela um tronco como ponte e passaram para o outro lado. Então São Francisco mandou chamar os outros frades e lhes disse como queria fazer a quaresma de São Miguel naquele lugar solitário.

Pediu então que lhe fizessem uma pequena cela de modo que, por mais que ele gritasse, não poderia ser ouvido por eles. Feita a celinha de São Francisco, ele lhes disse: Voltai para o vosso lugar e deixai-me aqui sozinho pois, com a ajuda de Deus, pretendo fazer aqui esta quaresma sem estropício da mente. Por isso, nenhum de vós venha a mim, nem permitais que venha algum secular. Mas só tu, Frei Leão, uma só vez por dia virás a mim com um pouco de pão e de água, e à noite uma outra vez na hora de matinas. Então virás a mim em silêncio e, quando estiveres no começo da ponte, dirás: Domine, labia mea aperies. E se eu te responder, passa e vem à cela que vamos dizer juntos as matinas. Se eu não te responder, volta imediatamente”. São Francisco dizia isso porque algumas vezes era arrebatado em Deus e então não ouvia nem sentia nada com sentimentos do corpo. Dito isso, São Francisco deu-lhes a bênção, e eles voltaram para o lugar.

Chegando, portanto, a festa da Assunção, São Francisco começou a santa quaresma e, macerando o corpo com grandíssima abstinência e aspereza, mas confortando o espírito com fervorosas orações, vigílias e disciplinas, crescendo sempre nessas orações de virtude em virtude, dispunha sua alma a receber os mistérios divinos e os divinos esplendores, e o corpo a suportar as batalhas cruéis dos demônios, com os quais muitas vezes combatia sensivelmente. Entre outras, houve uma vez, naquela quaresma em que saindo um dia São Francisco da cela ficando bem perto dali em oração na cavidade de um rochedo, do qual, até lá embaixo no chão há uma grandíssima altura e um horrível e amedrontador precipício, de repente veio o demônio, com tempestade e grandíssimo rumor, em uma forma horrível, e bateu nele para joga-lo dali para baixo.
Como São Francisco não tinha para onde fugir e não podia suportar o aspecto crudelíssimo do demônio, voltou-se de repente com as mãos, o rosto e todo o corpo para a rocha e, recomendando-se a Deus, tateando com as mãos sem poder agarrar-se a nada. Mas, como aprouve a Deus, que nunca permite que seus servos sejam tentados mais do que podem agüentar, de repente, por milagre, a rocha em que ele se encostou foi cavada de acordo com a forma do seu corpo e o recebeu em si, como se ele tivesse posto as mãos e o rosto em cera líquida, assim na referida rocha ficou marcada a forma das mãos e do rosto de São Francisco. Assim, ajudado por Deus, escapou do demônio.

Mas o que o demônio não pode fazer então com São Francisco, joga-lo dali para baixo, aconteceu depois, um bom tempo depois da morte de São Francisco, a um seu querido e devoto frade. Ele, arrumando naquele mesmo lugar alguns troncos para poderem ir lá sem perigo por devoção a São Francisco e do milagre que lá fora feito, um dia o demônio o empurrou quando ele levava na cabeça um tronco grande que queria colocar, e o fez cair lá embaixo, com o tronco na cabeça. Mas Deus, que tinha salvado e preservado São Francisco de cair, pelos seus méritos salvou e preservou o devoto frade seu do perigo da queda.

Por isso, quando ia caindo, o frade se recomendou a São Francisco com grandíssima devoção e em alta voz. Ele apareceu de repente, pegou-o e o colocou lá embaixo, em cima das pedras, sem nenhuma pancada ou lesão. Como os outros frades ouviram o seu grito quando estava caindo, crendo que estivesse morto e esmigalhado pela alta queda sobre rochas cortantes, com grande dor e pranto apanharam o caixão e foram ao outro lado do monte para levar seus pedaços a sepultar.

Quando já tinha descido o monte, o frade que tinha caído encontrou-se com eles com o tronco na cabeça, e cantava em altas vozes o Te Deum laudamus. Com grande maravilha dos frades, ele lhes contou direitinho todo o modo da sua queda e como São Francisco o havia libertado de todo perigo. Então todos os frades juntos foram com ele para o lugar, cantando com muita devoção o predito salmo Te Deum laudamus, louvando e agradecendo a Deus e a São Francisco pelo milagre que tinha operado por seu frade.
Prosseguindo então São Francisco, como foi dito, a referida quaresma, embora sustentasse muitas batalhas do demônio, também recebia muitas consolações de Deus, não só por visitas de anjos, mas por pássaros selvagens: pois em todo aquele tempo da quaresma um falcão fez ninho ali perto de sua cela e, toda noite, um pouco antes de matinas, com o seu canto e batendo-se contra a sua cela, despertava-o e não ia embora enquanto São Francisco não se punha em pé para dizer as matinas. Quando São Francisco estava mais cansado, uma vez ou outra, ou débil ou enfermo, o falcão, como pessoa discreta e compassiva, cantava mais tarde. E assim São Francisco ficava muito contente com esse santo relógio, porque a grande solicitude do falcão afastava dele toda preguiça e o solicitava a orar, e, além disso, de dia ficava algumas vezes domesticamente com ele.

Finalmente, quanto a esta segunda consideração, estando São Francisco muito enfraquecido no corpo, tanto pela grande abstinência como pelas batalhas do demônio, querendo confortar o corpo com o alimento espiritual da alma, começou a pensar na desmesurada glória e gáudio dos bem-aventurados na vida eterna. Estava pensando isso quando lhe apareceu um Anjo com grande esplendor, que tinha uma viola na mão esquerda e um arco na direita. Estando São Francisco todo estupefato pelo aspecto do Anjo, ele passou uma vez o arco sobre a viola; e, de repente, tanta suavidade de melodia dulcificou a alma de São Francisco e a suspendeu de todo sentimento corporal, que, como ele contou depois aos companheiros, não duvidava que, se o anjo tivesse puxado o arco para baixo sua alma teria partido do corpo, pela doçura intolerável.

E isto é quanto à segunda consideração.
Para louvor de Jesus Cristo e do pobrezinho Francisco. Amém.

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