terça-feira, 24 de outubro de 2017

Geraldo Sem-Pavor: um cruzado para nossos dias.

Se há uma coisa que os católicos de hoje perderam, a exemplo dos reis espanhóis descritos abaixo, foi o senso de prioridades e qualquer noção estratégica. 

Parece que somos obrigados a sermos tolos diante de inimigos espertíssimos...ao contrário do que a parábola do bom administrador diz.

Mas, vamos lá!

Um exemplo de estrategista: o patrono das Lutas contra os muçulmanos, o gênio estratégico, o El-Cid português, o nada politicamente correto...Geraldo Sem-Pavor!

Quem foi Geraldo Sem-Pavor? 

​Geraldo, ou Giraldo Sem-Pavor, foi um ​«nobre cavaleiro que serviu D. Afonso Henriques, mas de quem se afastou para se eximir a um castigo severo por actos condenáveis que praticara, indo, por isso, refugiar-se, com o bando de salteadores que formou e capitaneava, em território sob domínio islamita». Os seus homens eram: «moçárabes e moradores de Santarém». Os anos e anos de continuados combates nas zonas de fronteira incerta, produziram naturalmente homens desenfreados, mais habituados a subsistir de rapinas, do que de trabalho. Os bosques dos territórios disputados por cristãos e muçulmanos deviam estar repletos de «bandos de salteadores, provavelmente compostos de indivíduos de uma e outra crença, (...) guerreando indiscriminadamente cristãos e muçulmanos». Assolar campos e aldeias, rapinar e conquistar castelos para el-rei podia ser um modo de vida.

Em 1158, Afonso Henriques, a custo, toma Alcácer e, em 1159, Évora e Beja (esta apenas saqueada e aquela perdida em 1161), aproveitando uma momentânea fraqueza almóada e ignorando o tratado de Sahagún desse ano. Em Sahagún, os reis irmãos de Leão e Castela decidem qual é o espaço de cada um na conquista do território muçulmano: até Sevilha, seria para o rei de Leão; de Sevilha para lá, para o rei de Castela.

Em 1165, Geraldo toma Trujillo, bem para lá da zona de Badajoz.

Ainda em 1165, tomou Évora, cidade muito importante e que Afonso Henriques tinha perdido quatro anos antes. «Decidiu empreender uma proeza que o acreditasse no conceito do monarca português para todo o sempre. Para isso planeou conquistar aos Mouros a opulenta cidade de Évora, empresa bem difícil e árdua(fê-lo escalando os muros da cidade e abrindo os portões aos cristãos - e a cidade amanheceu sob o domínio dos mesmos)​.

Foi um feito extraordinário, especialmente para um bando de homens não ligados a um exército estruturado. O coração de Afonso Henriques abriu-se. Se alguma animosidade tinha para com Geraldo, como conta a lenda, aqui lhe perdoou. Fê-lo alcaide de Évora, que foi povoada por cristãos e nunca mais voltou a mãos muçulmanas.

Em fins de 1165 ou início de 1166, tomou Cáceres e depois, imparavelmente, Montanchez, Serpa, Juromenha, Alconchel e ainda «Mourão, Arronches, Crato, Marvão, Alvito e Barrancos». Em 1167 terá tomado Elvas e Monsaraz e em data incerta: Santa-Cruz e Monfrag, na província de Cáceres.

A estratégia de conquista desenvolvia um plano de surpresa, atacando cidades longe duma linha lógica de progressão: de Trujillo, saltou para Évora, depois para Cáceres e seguiu em ziguezague inesperado, a que se juntava o processo do ataque: «avançava sem ser apercebido na noite chuvosa, escura, tenebrosa e, (insensível) ao vento e à neve, ia contra as cidades (inimigas). Para isso levava escadas de madeira de grande comprimento, de modo que com elas subisse acima das muralhas da cidade que ele procurava surpreender; e, quando a vigia muçulmana dormia, encostava as escadas à muralha e era o primeiro a subir ao castelo e, empolgando a vigia, dizia-lhe: “Grita, corno tens por costume de noite, que não há novidade”. E então os seus homens de armas subiam acima dos muros da cidade, davam na sua língua um grito imenso e execrando, penetravam na cidade, matavam quantos moradores encontravam, despojavam-nos e levavam todos os cativos e presas que estavam nela».

Olhando para um mapa das conquistas de Geraldo, percebemos que um dos objectivos que ele tinha, era isolar Badajoz, a forte capital da taifa com o mesmo nome, cortando-lhe os abastecimentos e os apoios vizinhos. Mas Geraldo não estava apenas a apoquentar os muçulmanos; as suas conquistas penetravam profundamente no espaço de conquista definido no tratado de Sahagún e eram um perigo fortíssimo de isolar o rei de Leão.

Então, em 1168 «Fernando Rodriguez de Castro, cunhado do rei leonês», dirigiu-se a Marrocos onde passou cinco meses junto do Califa. «Por fim conseguiu uma subvenção mensal e firmou um pacto ofensivo-defensivo, o qual logo foi confirmado por Fernando II. Este comprometeu-se, assim, a que quando tomasse conhecimento de uma expedição de cristãos dirigindo-se a terra muçulmana, saísse a repeli-los sem perda de tempo. Talvez pedisse também o rei leonês o auxílio de tropas muçulmanas». 

(Observações minhas: vejam que absurdo movido por ganância, deslealdade e estupidez!)

Em Maio de 1169, Geraldo atacou Badajoz e tomou a cerca, mas a guarnição refugiou-se na alcáçova. Então Geraldo pediu ajuda a Afonso Henriques para sitiar a alcáçova. O perigo era grande para Leão (!!!) e para os muçulmanos (!!!). A notícia chegou célere a todos. Fernando II enviou uma expedição, que chegou a tempo de evitar a conquista da cidade pelos Portugueses.  Estes ficaram entre dois fogos: os Almóadas na alcáçova e os Leoneses a cercarem a cidade. 

(Observação minha: esse rei foi um dos imbecis que atrasaram a expulsão islâmica da Espanha, como se vê. Se fossem mais unidos pela fé cristã do que desunidos pela ganância, pela vaidade, pelo desejo da vanglória e pela deslealdade, já teriam expulsado os muçulmanos nos tempos do Geraldo Sem-Pavor. Alguma semelhança com os católicos de hoje, sempre atrás dos próprios interesses e vontades próprias ao invés de se unirem contra o inimigo comum? E, pior, aliando-se aos inimigos? Fique isso como lição!)

Os Portugueses tentaram escapar a esta situação melindrosa, fugindo precipitadamente, mas um pormenor deitou tudo a perder: «E aconteceu que o cabo do ferrolho não ficara bem colhido ao abrir das portas, e o cavalo, assim como ia correndo, topou nele com a ilharga de guisa, (e D. Afonso Henriques) se feriu muito: e quebrou a perna a el-rei (...). Nisto, o cavalo que ia ferido, não podendo mais suster-se, caiu com el-rei sobre a mesma perna, e acabou-lha de quebrar de todo, de maneira que os seus não puderam mais alevantá-lo nem pô-lo a cavalo».

Capturado com Geraldo pelos Leoneses, esteve Afonso Henriques dois meses prisioneiro do rei de Leão, seu genro, numa situação de extrema fragilidade política, mas este, cavalheirescamente apenas terá exigido: «Restitui-me o que me tiraste e guarda o teu reino». Assim, Afonso Henriques teve que devolver os condados galegos de Límia e Toronho e todas as terras da Extremadura espanhola, da margem esquerda do Guadiana. Ficava assim desfeita a atracção da Galiza (Galícia) e, respeitando esse pacto, só restava a Afonso Henriques avançar para Sul, através de território muçulmano, se quisesse aumentar o seu reino.

Também Geraldo, capturado, teve que devolver a Fernando II as terras «da conquista de Leão» e a Fernando Rodriguez de Castro, as terras «castelhanas» de Montanchez, Trujillo, Santa-Cruz e Monfrag. 


Afirma a tradição que o espírito aventureiro deste nobre o levou a Ceuta, no Norte d'África, em missão de espionagem a serviço secreto de D. Afonso Henriques, que lhe havia recomendado a tomada daquela praça. Quando a verdadeira finalidade da operação foi descoberta, Geraldo morreu à mãos dos almóadas.

Fontes:

ASALA, Ibn Sahib. História dos Almóadas in LOPES, David. «O Cid português: Geraldo Sempavor», Revista Portuguesa de História, Tomo 1, Coimbra, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Instituto de Estudos Históricos Dr. António de Vasconcelos, 1940.
GONZÁLEZ GONZÁLEZ, Júlio. História General de España y América, 29 Tomos, Tomo IV, La España de Los Cinco Reinos (1085-1369), 2.ª edición, Madrid, Ediciones RIALP,S. A., 1990.
HERCULANO, Alexandre. História de Portugal, I, in AMARAL, Diogo Freitas do. D. Afonso Henriques – Biografia, Amadora, Bertrand, 9.ª edição, 2000.
SERRÃO, Joel (dir.). Dicionário de História de Portugal, 6 vols., vol. II, Porto, Iniciativas Editoriais, reed., 1979.
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