sexta-feira, 30 de maio de 2014

A sabedoria de São João da Cruz.

DITOS de Luz e Amor

(retirado do livro "Obras Completas— S. João da Cruz")

PRÓLOGO

Ó Meu Deus e meu enlevo, também foi por amor a Vós que a minha alma se quis aplicar nestes vossos ditos de luz e amor. Embora tenha o seu dizer, falta-me a sua obra e virtude, que é, meu Senhor, o que neles Vos agrada mais do que palavras e sabedoria. Talvez outras pessoas, animadas por eles, possam aproveitar no vosso serviço e amor, em que eu falto, e a minha alma se console por ter sido ocasião para encontrardes noutros o que falta nela.

Vós, Senhor, amais a discrição, a luz e o amor mais do que outras operações da alma. Por isso, estes ditos servirão de discrição para o caminhar, de luz para o caminho e de amor no caminhar.

Arrede-se, pois a retórica do mundo! Ponhamos de lado o palavreado e a eloquência oca da sabedoria humana, débil e engenhosa, que nunca Vos agrada. Ao contrário, dirijamos ao coração palavras banhadas de doçura e amor, que muito Vos agradam. Talvez, assim, retiremos pequenas ofensas e dificuldades em que muitas almas tropeçam por ignorância; e, não sabendo, continuarão a errar, pensando que acertam no seguimento do vosso dulcíssimo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, por se verem semelhantes a Ele na vida, circunstâncias e virtudes, ou na forma de desnudez e pureza de espírito. Sede Vós, porém, Pai das misericórdias, a dá-la, porque sem Vós, Senhor, nada se fará.

1. O Senhor sempre revelou aos mortais os tesouros da Sua sabedoria e do Seu espírito; mas agora, que a malícia vai mostrando cada vez mais o seu rosto, revela-os ainda mais.

2. Ó Senhor, meu Deus, quem Vos procurará com amor puro e singelo sem que Vos encontre ao seu gosto e vontade, sabendo que Vós sois o primeiro a mostrar-vos e a vir ao encontro daqueles que Vos desejam?

3. Ainda que o caminho seja plano e suave para os homens de boa vontade, contudo o caminhante andará pouco e a muito custo se nisso mesmo não se empenhar com boas pernas, coragem e audaz porfia.

4. Mais vale estar carregado junto do forte do que aliviado junto do fraco. Quando estás carregado estás junto de Deus, que é a tua fortaleza, pois Ele está perto dos atribulados. Quando estás aliviado estás junto de ti, que és a tua própria fraqueza. A virtude e a fortaleza da alma crescem e confirmam-se com trabalhos e paciência.

5. Quem quiser estar sozinho, sem ajuda de mestre ou guia, assemelha-se à árvore do campo, sozinha e sem dono: por muito fruto que dê, os caminhantes sempre a colherão antes do tempo.

6. A árvore cultivada e resguardada pelo seu dono dá o fruto no tempo que dela se espera.

7. A alma virtuosa, sozinha e sem mestre, é como o carvão aceso que fica só: mais se vai esfriando que acendendo.

8. Quem cai sozinho, sozinho fica no chão, e pouco apreço tem pela sua alma, pois só a escora em si.

9. Se não temes cair sozinho, como presumes em levantar-te sozinho? Olha que podem mais dois juntos do que um sozinho.

10. Quem cai carregado, dificilmente se levantará.

11. Quem cai cego, não se levantará sozinho. E, se se levantar, encaminhar-se-á por onde não convém.

12. Deus antes quer de ti o mais pequeno grau de pureza de consciência do que todas as obras que possas fazer.

13. Deus antes quer de ti o mais pequeno grau de obediência e humildade do que todos esses serviços que Lhe pensas oferecer.

14. Deus estima mais em ti a disposição para a aridez e o sofrimento por Seu amor do que todas as consolações, visões espirituais e meditações que possas ter.

15. Nega os teus desejos e encontrarás o que o teu coração deseja. Sabes, por acaso, se o teu apetite é do agrado de Deus?

16. Ó dulcíssimo amor de Deus, tão mal conhecido! Descansado fica quem encontrou a sua fonte.

17. Se hás-de receber redobrada amargura por fazeres a tua vontade, então não a faças, apesar de te amargurares.

18. A alma que se encaminha para Deus, se tiver em si o mais pequeno apetite por qualquer coisa do mundo, vai mais desonesta e impura do que se carregasse todas as indecorosas e molestas tentações e trevas que se possam imaginar, desde que a vontade racional não as aceite. Nessa ocasião até se pode aproximar com mais confiança de Deus, porque está a fazer a vontade de Sua Majestade que diz: Vinde a Mim todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu vos aliviarei (Mt 11,28).

19. Agrada mais a Deus a alma que, na aridez e provações, se sujeita à razão do que aquela que, sem dela fazer caso, tudo faz a seu bel-prazer.

20. Uma obra feita às escondidas e sem querer que se saiba, por pequena que seja, agrada mais a Deus do que mil feitas com vontade de que os homens as vejam. Quem faz as coisas por Deus no amor mais puro, pouco se importa que os homens as vejam, pois nem as faz para que o próprio Deus as conheça. E ainda que Ele nunca as viesse a conhecer, não deixaria de Lhe prestar os mesmos serviços com a mesma alegria e pureza de amor.

21. A obra feita por Deus em total pureza, transforma o coração puro em reino inteiro para o seu senhor.

22. Duplo trabalho tem o pássaro que poisou no visco: soltar-se e limpar-se. Também de duas maneiras pena quem satisfaz o seu apetite: em primeiro lugar libertar-se dele e, depois, limpar-se do se lhe apegou.

23. Quem não se deixa levar pelos apetites, voará ligeiro no espírito, como acontece à ave que tem penas.

24. A mosca que poisa no mel interrompe o seu voo. A alma que queira manter-se atida ao sabor do espírito interrompe a sua liberdade e contemplação.

25. Se quiseres guardar a imagem pura e simples do rosto de Deus na tua alma, não te mistures com as criaturas; ao contrário, esvazia e afasta muito delas o teu espírito e andarás na luz divina, porque Deus não se parece com elas.

26. Oração da ala enamorada Senhor Deus, Amado da minha alma!

* Se ainda Vos recordais dos meus pecados para não me fazeres o que Vos tenho andado a pedir, fazei meles, meu Deus, a Vossa vontade, pois é o que eu mais quero; fazei sentir a Vossa bondade e misericórdia e neles sereis conhecido.

* E se estais à espera das minhas obras para atenderdes o meu pedido, dai-mas Vós e realizai-as por mim, bem como as penas que quiserdes aceitar, e faça-se.

* Mas se pelas minhas obras não esperais, então porque esperais, meu clementíssimo Senhor? Porque tardais?

* E já que, enfim, há-de ser graça e misericórdia o que em vosso Filho Vos peço, recebei o meu nada, já que o quereis, e concedei-me este bem, que também é o que quereis.

* Quem se poderá livrar destes modos e baixos termos se não sois Vós, meu Deus, a erguê-lo para Vós, em pureza de amor? Como se elevará até Vós o homem gerado e criado em baixezas, se não sois Vós, Senhor, a deitar-lhe a mão com que o fizestes?

* Meu Deus, não me ireis roubar o que me destes um dia no vosso único Filho, Jesus Cristo, no qual me destes tudo quanto quero; por isso, espero e confio em que não tardarás.

* E porquê tanta demora, se já podes a Deus no teu coração?

* Os céus são meus e a terra é minha. Os povos são meus; meus são os justos e os pecadores. Os anjos são meus, a Mãe de Deus é minha, e minhas são todas as coisas. O próprio Deus é meu e para mim, porque Cristo é meu e todo para mim. Então, que pedes e procuras alma minha? Tudo isto é teu e para ti. Não te rebaixes nem olhes às migalhas que caem da mesa do teu Pai.

* Sai para fora e gloria-te na tua glória; esconde-te nela e goza, pois alcançarás o que o teu coração deseja.

27. O espírito bem purificado não se mistura com estranhas advertências nem respeitos humanos, mas apenas se comunica interiormente com Deus, na solidão de todas as formas, em ameno sossego, porque o seu conhecimento é em silêncio divino.

28. A alma enamorada é suave, mansa, humilde e paciente.

29. A alma rude endurece-se no seu amor-próprio.

30. Se Vós, ó bom Jesus, não suavizais a alma no Vosso amor, ela continuará sempre na sua rudeza natural.

31. Quem perde a ocasião é como quem deixou fugir o pássaro da mão: não o voltará a apanhar.

32. Eu não Vos conhecia, meu Senhor, porque desejava ainda conhecer e saborear coisas.

33. Senhor Deus, que tudo mude em boa hora para repousarmos em Vós.

34. Um só pensamento do homem vale mais que o mundo inteiro. Portanto, só Deus é digno dele.

35. O que não sentes é insensível; o que sentes é sensível; o pensamento é espírito de Deus.

36. Olha que o teu anjo da guarda nem sempre move o apetite a agir, se bem que ilumine sempre a razão. Portanto, não estejas à espera do gosto para praticar a virtude, pois basta a razão e o entendimento.

37. Quando o apetite está posto noutra coisa, não dá lugar a que o anjo o mova.

38. O meu espírito secou, porque se esqueceu de apascentar-se em Vós.

39. O que pretendes e o que mais desejas não o encontrarás no caminho que levas, nem na alta contemplação, mas só com muita humildade e docilidade de coração.

40. Não te canses, pois não gozarás da suavidade do espírito se não te entregares à mortificação de tudo quanto desejas.

41. Lembra-te que a flor mais delicada é a que murcha mais depressa e perde o seu perfume; livra-te, portanto, de caminhar pelo espírito do sabor, pois serás inconstante; procura antes um espírito robusto, desapegado de tudo, e encontrarás suavidade e paz em abundância, porque a fruta mais saborosa e duradoira apanhase nas terras frias e secas.

42. Pensa que a tua carne é fraca e que nenhuma coisa deste mundo pode trazer fortaleza e consolação ao teu espírito, porque o que nasce do mundo é do mundo, e o bom espírito só nasce do espírito de Deus, que não se comunica nem pelo mundo nem pela carne (cf. Jo 3,6).

43. Presta atenção à razão para fazeres o que ela te indicar no caminho para Deus. Valer-te-á mais isso diante de Deus do que todas as obras feitas sem essa atenção e todos os gostos espirituais que desejas.

44. Feliz aquele que, tendo posto de lado o seu gosto e afeição, vê as coisas na razão e na justiça para as fazer.

45. Quem se guia pela razão é como quem se nutre de substancia; quem se guia pelo gosto da sua vontade é como quem come fruta mole.

46. Senhor, com alegria e amor, levantais de novo quem Vos ofende, enquanto que eu não volto a levantar nem honrar a quem me aborrece.

47. Ó Senhor todo-poderoso, se uma centelha do império da Vossa justiça tem tanta influência no príncipe mortal que governa e guia as nações, o que não fará a Vossa omnipotente justiça no justo e no pecador?

48. Se purificares a tua alma dos estranhos gozos e apetites, entenderás as coisas em espírito; e, se nelas negares o apetite, gozarás da sua verdade, entendendo nelas o que é certo.

49. Senhor, meu Deus, Vós não sois estranho a quem não se esquiva de Vós. Porque dizem, então, que Vós vos ausentais?

50. Verdadeiramente venceu todas as coisas aquele a quem nem o gosto delas o move ao prazer nem a sua insipidez lhe causa tristeza.

51. Se quiseres chegar ao santo recolhimento, mais do que consentindo hás-de ir negando.

52. Meu Deus, indo convosco, seja para onde for, em toda a parte me há-de acontecer aquilo que para Vós desejo.

53. Não poderá chegar à perfeição quem não procura satisfazer-se com tão pouco, de modo que a concupiscência natural e espiritual estejam satisfeitas mesmo sem nada; aliás, é o que se pede para gozar da suma tranquilidade e paz de espírito. É assim que o amor de Deus, na alma pura e simples, está quase permanente em acto.

54. Lembra-te que Deus é inacessível e, por isso, não te deves concentrar no que as tuas potências podem compreender e os teus sentidos sentir, a fim de não te satisfazeres com o mais inferior nem a tua alma perder a necessária ligeireza no caminho para Ele.

55. Como quem puxa um carro encosta acima, assim caminha para Deus a alma que não se liberta de cuidados nem apaga o apetite.

56. Não é da vontade de Deus que a alma se perturbe com coisa alguma nem que sofra amarguras; e se as sofre com as contrariedades do mundo isso deve-se à sua pouca virtude, porque a alma perfeita alegra-se naquilo em que a imperfeita se atormenta.

57. O caminho da vida é de muito pouco barulho e pretensão, e requer mais mortificação da vontade do que muito saber. Quem menos se agarrar às coisas a aos gostos, mais avançará por ele.

58. Não penses que trabalhar muito agrada mais a Deus do que fazê-lo com boa vontade, sem apegos e respeitos humanos.

59. No entardecer examinar-te-ão no amor. Aprende a amar como Deus quer ser amado e não olhes à tua condição.

60. Procura não te misturares em coisas alheias, nem sequer te lembres delas, porque quiçá não poderás cumprir o que tens a fazer.

61. Não julgues que, por não luzirem no outro as virtudes que tu pensas, não será ele precioso aos olhos de Deus pelo que tu não pensas.

62. O homem não sabe alegrar-se nem condoer-se muito bem, porque desconhece a distância entre o bem e o mal.

63. Procura não te entristeceres tão depressa com as contrariedades do mundo, pois não sabes o bem que acarretam consigo, nem como está ordenado nos juízos de Deus para a alegria sempiterna dos eleitos.

64. Não te delicies com as riquezas temporais, pois não sabes ao certo se elas te asseguram a vida eterna.

65. Na tribulação recorre imediatamente a Deus com toda a confiança e serás fortalecido, iluminado e ensinado.

66. Na consolação e na alegria recorre imediatamente a Deus com temor e verdade, e não serás enganado nem envolvido pela vaidade.

67. Considera a Deus como o esposo e o amigo que te acompanha sempre, e, assim, não pecarás, saberás amar, e conhecerás a prosperidade das coisas que necessitas.

68. Conquistarás as pessoas sem grande esforço e as coisas ser-te-ão servidas, se delas e de ti mesmo te esqueceres.

69. Tranquiliza-te, evitando freimas e não te preocupando com o que acontece; assim servirás a Deus a seu gosto e n’Ele gozarás.

70. Lembra-te que Deus só reina numa alma pacífica e livre.

71. Podes fazer muitas coisas, mas se não aprendes a negar a tua vontade e a dominar-te, não te preocupando contigo e com as tuas coisas, não avançarás na perfeição.

72. Que adianta dares a Deus uma coisa se Ele te pede outra? Pensa no que Deus poderá querer e fá-lo, porque assim satisfarás melhor o teu coração do que com aquilo que gostas.

73. Como te atreves a folgar sem nenhum temor, se tens de comparecer diante de Deus para prestar contas da mais pequena palavra e pensamento?

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