quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Espelho da Perfeição - cap. LXII - LXV


Capítulo 62. Ele queria que todos soubessem do conforto que seu corpo recebia.

1 De maneira semelhante, numa outra vez, como comeu pratos temperados com toucinho em um eremitério na quaresma de São Martinho, porque o óleo lhe fazia mal por causa de suas doenças, 2 ter­minada a quaresma, quando pregava a uma grande multidão, disse logo no começo do sermão: “Vós viestes a mim com grande devoção, crendo que eu sou um homem santo; mas con­fesso a Deus e a vós que, nesta quaresma, comi alimentos tempe­rados com toucinho”.

3 E até quase sempre, quando comia com alguns seculares ou quando os frades, por causa de suas enfermidades, lhe preparavam algu­ma consolação corporal, 4 imediatamente, em casa e fora de casa, diante dos frades e dos seculares que ignoravam o fato, dizia claramente: “Comi tal alimento”. Pois não queria ocultar aos homens o que era manifesto ao Senhor. 5 Da mesma forma, todas as vezes que, diante de algum religioso ou secular, seu espírito tinha impulsos de soberba ou de vanglória ou outro vício, imediatamente confessava o fato diante deles com clareza e sem esconder nada. 6 Por isso, disse uma vez a seus companhei­ros: “Quero viver nos eremitérios ou em outros lugares onde estiver, como se todas as pessoas me vissem. Pois, se julgam que sou um homem santo e eu não levar uma vida como convém a um homem santo, eu seria hipócrita”.

7 Assim, por causa do frio e da doença do baço e do frio do es­tômago, quando um dos companheiros, que era guardião, quis costurar sob sua túnica um pedaço de pele de raposa perto do baço e do estômago, sobretudo porque na ocasião fazia grande frio, 8 o bem-aventurado Francisco lhe respondeu: “Se queres que eu tenha uma pele de raposa sob a túnica, manda que seja colocado um pedaço de pele também do lado de fora, sobre a túnica, para que assim to­das as pessoas saibam que também do lado de dentro tenho uma pele de raposa”. 9 E assim mandou que fosse feito, mas usou-a por pouco tempo, embora lhe fosse muito necessária.

Capítulo 63. Como imediatamente se acusou da vanglória que teve ao dar esmola.

1 Quando andava pela cidade de Assis, uma pobre velhinha pediu-lhe esmola por amor de Deus. Imediatamente ele lhe deu o manto que trazia sobre os ombros. 2 Mas logo, sem demora, con­fessou diante daqueles que o seguiam que teve um sentimento de vanglória.
3 E nós que vivemos com ele (cf. 2Pd 1,18), vimos e ouvimos (cf. 1Jo 1,1) muitos outros exemplos semelhantes a estes a res­peito de sua grande humildade, que não podemos relatar nem por pala­vras nem por escrito.
4 Mas foi nisto que o bem-aventurado Francisco colocou principalmente o maior esforço: não ser hipócrita diante de Deus. 5 E ainda que, muitas vezes, por causa de suas doenças, tivesse necessidade de um prato melhor, julga­va-se no dever de dar bom exemplo aos frades e aos ou­tros. Por isso, suportava pacientemente qualquer necessidade, para não dar a ninguém motivo de murmurar.

Capítulo 64. Como descreveu em si mesmo o estado da perfeita humildade.

1 Aproximando-se o tempo do capítulo, o bem-aventurado Francisco disse a seu companheiro: “Não creio que eu seja um frade menor se não estiver na condição que te vou dizer: 2 Com grande re­verência e devoção, os frades me convidam para o capítulo, e eu, mo­vido por essa devoção, vou ao capítulo com eles. Quando estão reunidos, pedem-me que anuncie a palavra de Deus e lhes pre­gue. Levantando-me, prego a eles conforme o Espírito Santo me inspirar (cf. Lc 12,12).

3 Terminada a pregação, suponhamos que todos gritem contra mim: Não queremos que tu reines sobre nós (cf. Lc 19,14), pois não és eloqüente como se requer e és demasiado simples e incul­to. 4 Ficamos muito envergonhados por ter um supe­rior tão simples e desprezível. Por isso, para o futuro, não tenhas a pretensão de ser chamado nosso prelado! E assim me expulsam com ignomínia e desprezo. 5 Pois não me parece que seria frade menor, .se não me alegrasse do mesmo modo quando me hu­milham e, vergonhosamente, me expulsam, por não querer que eu seja seu prelado, como quando me veneram e honram, sendo o proveito deles igual em ambos os casos. 6 Pois, se me alegro quan­do me exaltam e honram por causa de seu proveito e devoção, o que pode ser um perigo para minha alma, muito mais devo ale­grar-me e rejubilar-me com o proveito e a salvação de minha alma, quando me humilham, pois então há um lucro certo para a alma”.

Capítulo 65. Como quis ir humildemente para terras distantes, como enviara outros frades; e como ensinou os frades a ir humilde e devotamente pelo mundo.

1 Terminado esse capítulo, no qual muitos frades foram enviados a algumas regiões ultramarinas, ficando com alguns frades, o bem-aventurado Francisco lhes disse: 2 “Irmãos caríssimos, é preciso que eu seja o modelo e o exemplo de todos os frades. Portanto, se en­viei os frades a regiões longínquas para suportar trabalhos, humi­lhações, fome, sede e outras necessidades, 3 é justo, e a santa hu­mildade exige, que também eu vá a alguma região distante, para que, vendo que eu tolero as mesmas coisas, os frades supor­tem com mais paciência as adversidades. 4 Ide, pois, e orai ao Se­nhor, para que me faça escolher a província que melhor convier à sua glória, ao proveito das almas e ao bom exemplo de nossa Ordem”.

5 Com efeito, o santíssimo pai tinha o costume de, quando queria ir a alguma província, primeiro orar ao Senhor e manda­r que os frades orassem, para que o Senhor dirigisse (cf. Jt 12,8) seu coração para ir ao lugar que mais lhe agradasse. 6 Então os frades foram rezar e, terminada a oração, voltaram até ele. Cheio de alegria, logo lhes disse: “Em nome de nosso Senhor Jesus Cristo (cf. At 3,6) e da Virgem, sua gloriosa mãe, e de todos os santos, escolho a província da França, onde há um povo católico, 7 sobretudo porque, entre os demais católicos, mostram grande reverência ap Corpo de Cristo, o que me agrada muito e, por isso, de muito boa vontade viverei com eles”.

8 Pois o bem-aventurado Francisco tinha tanta reverência e devoção pelo Corpo de Cristo que quis escrever na Regra que, nas provín­cias onde morassem, os frades tivessem grande cuidado e solici­tude por este sacramento 9 e exortassem os clérigos e os sacerdo­tes a colocar o Corpo de Cristo num lugar bom e digno e, se eles negligenciassem, os próprios frades o fizessem.

10 Desejou também colocar na regra que, se os frades encon­trassem os nomes do Senhor e as palavras pelas quais se consagra o Corpo do Senhor colocadas em lugar pouco conveniente, eles as re­colhessem e guardassem com dignidade, honrando o Senhor nas suas palavras. 11 E embora não tenha escrito isso na Regra, porque aos ministros não pareceu bom que os frades tivessem isto como mandato, em seu testamento e em outros escritos seus, porém, quis deixar aos frades sua vontade sobre isso.

12 E até, uma vez, quis enviar alguns frades por todas as pro­víncias, para levarem muitas píxides, bonitas e limpas, e onde encontrassem o Corpo do Senhor indignamente guardado, o colocassem naqueles píxides de maneira honrosa. 13 Quis também enviar alguns outros frades por todas as províncias com bons e belos ferros para fazer hóstias boas e limpas.

14 Por isso, quando o bem-aventurado Francisco escolheu os frades que queria levar consigo, disse-lhes: “Em nome do Senhor, ide pelo caminho dois a dois (cf. Mc 6,7), com humildade e modéstia e, sobre­tudo, em estrito silêncio desde o amanhecer até depois da Terça, orando ao Senhor em vossos corações (cf. Cl 3,16) e sem pro­nunciar palavras ociosas (cf. Mt 12,36) e inúteis entre vós (cf. Ef 5,3). 15 Embora estejais a caminho, vosso comportamento seja hu­milde e digno, como se estivésseis no eremitério ou na cela. 16 Com efeito, onde quer que estejamos ou andemos, temos sem­pre a cela conosco: pois o irmão corpo é nossa cela, e a alma é o eremita que mora lá dentro, na cela, para rezar ao Senhor e meditar sobre ele. 17 Afinal, se a alma não permanecer tranqüila em sua cela, pouco valerá ao religioso a cela construída com as mãos” .

18 Quando chegou a Florença, encontrou ali o senhor Hugoli­no, bispo de Óstia, que depois foi o Papa Gregório. 19 Este, ao ou­vir do bem-aventurado Francisco que desejava ir para a França, proibiu-o de ir, dizendo: “Irmão, não quero que vás além dos montes, pois há muitos prelados que teriam o prazer de impedir os bens de tua religião na cúria romana. 20 Mas eu e outros cardeais que amamos tua religião, de boa vontade a protegeremos e ajudaremos, se perma­neceres nos limites desta província”.

21 E o bem-aventurado Francisco respondeu-lhe: “Senhor, é uma grande vergonha para mim se, após enviar meus outros frades a regiões distantes, eu permanecer nestas províncias e não for participante das tribulações (cf. Ap 1,9) que eles hão de suportar pelo Senhor!”

22 Disse-lhe o senhor bispo, como se o repreendesse: “Por que envi­aste teus frades tão longe, para morrer de fome e para suportar ou­tras tribulações?”
23 O bem-aventurado Francisco, com grande fervor e espírito de profecia (cf. Ap 19,10), respondeu-lhe, dizendo: “Senhor, julgais, porventura, que o Senhor enviou os frades somente para estas pro­víncias? 24 Na verdade vos digo que o Senhor escolheu e en­viou os frades para proveito e salvação das almas de todas as pessoas deste mundo; e serão recebidos não só nas terras dos fiéis, mas também nas terras dos infiéis e conquistarão muitas almas!”

25 Admirado com suas palavras, o senhor bispo de Óstia afirmou que ele dizia a verdade. Ainda assim não lhe permi­tiu ir para a França; mas o bem-aventurado Francisco enviou para lá Frei Pacífi­co com muitos outros irmãos. Ele, porém, regressou ao Vale de Espoleto.

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