sexta-feira, 13 de maio de 2016

Doutrina Monástica e a Vivência das Virtudes [continuação e última parte].


CAPÍTULO III: A vida monástica
1. - O OPUS DEI
“São Bento chama “Opus Dei” - “Obra de Deus”[41] - a celebração do louvor divino.”
“O fundo íntimo do estado religioso é a prática contínua e a mais perfeita possível do primeiro mandamento: “Adorar a Deus e amá-Lo de todo o coração.” É a razão pela qual São Bento escreve em sua regra que “NADA SE ANTEPONHA AO OFÍCIO DIVINO”, “NIHIL OPERI DEI  PRAEPONATUR”[42]. São Bento traduz simplesmente a vontade de Deus e da Igreja quando coloca o Ofício Divino acima de tudo. Tudo, no plano divino, se relaciona com a celebração da glória de Deus.”
O mundo esqueceu essa verdade. É por isso que o Pe. Muard escreveu em suas Constituições“Neste século que não reza, é preciso homens que, como outros Moisés, elevem as mãos na montanha”[43]. “Portanto, antes de tudo, o Ofício Divino.”
“A homenagem do louvor é uma necessidade social. Toda a razão de ser da vida monástica é a celebração do Ofício Divino.”
“Todos os detalhes de nosso dia são preparação ao Ofício Divino. Assim, longe de sacrificá-lo por causa de nossas outras obrigações, nós estabeleceremos a ordem e a prática delas de tal maneira que todas se relacionem para facilitá-lo, melhorá-lo, deixar-lhe as horas determinadas desde a antigüidade e dar-lhe o maior  esplendor.”
Contudo, existem as necessidades da vida... - “O Ofício Divino não será nunca um obstáculo nem um entrave às obrigações secundárias indispensáveis, seja para a vida da comunidade, seja para o bem do próximo. É a razão pela qual São Bento, quando ordena o ofício da noite durante o verão, sem tocar nos salmos, simplifica e abrevia todos os outros detalhes, “POR CAUSA, diz ele, DA BREVIDADE DA NOITE”. [44]Essas obrigações secundárias não poderiam invadir o dia do monge e tomar, pouco a pouco, o primeiro lugar? Por exemplo, as obras sociais... - “Obras de caridade, humanitárias, sociais, familiares de todo tipo: sim, mas com a condição de que em seu cume brilhe, para vivificá-las e mantê-las em equilíbrio, a grande Obra primordial, a Mãe de todas, a “OBRA DE DEUS”.
E se a comunidade não for suficientemente numerosa? - “Que toda fundação monástica seja projetada, desde o início, de maneira a poder-se estabelecer aí, o mais cedo possível, a celebração, com toda a solenidade, do Ofício Divino. Como é triste ver monges agrupados em minúsculas brigadas, ou, o que é pior, condenados ao isolamento: eles estão privados da alma de sua vida.”
“O ponto culminante da vida monástica é o serviço, a intimidade e o gozo de Deus através da oração multisecular da Igreja.”
O monge penetrado desses pensamentos deve, alegremente, se apressar ao toque do sino que o chama ao coro...“O coro é o encontro misterioso de Deus e de sua Igreja”. Como chegar atrasado a tal encontro? - “A falta de pontualidade se dirige aqui à majestade divina”. - Deus se encontra no coro... “Na estação[45], nossa reunião em nome de Nosso Senhor torna-O presente no meio de nós”. Porém mais ainda no coro... “Deus está na sua Obra.”
O Ofício Divino é fácil? - “Nossa pobre alma, pelo peso que lhe é natural, tende a descer. Ela não se eleva facilmente para Deus. Mas quando ela é ajudada durante o Ofício, por todos os símbolos exteriores, pelo canto, pelas palavras, é menos difícil. Se então ela se aplica, ainda que pouco, ela sobe com as palavras da oração, ela sobe até Deus.”
O demônio não atrapalha? - “Quando tomamos lugar no coro, os demônios nos observam, eles nos combatem com todas as suas forças... Se nos colocamos do ponto de vista infernal, o Ofício é uma provocação. Satanás odeia a oração, ele nos estrangularia se Deus não o detivesse.”
“O Ofício Divino não é um repouso, mas um combate, e um combate vitorioso. O culto que prestamos a Deus tem por conseqüência imediata o combate da fé, o combate da esperança, o combate do espírito contra o poder das trevas. Nós somos os soldados de Deus, seu exército em linha de batalha.”
Nossos Anjos, felizmente, não nos abandonam. - “Eles velam mais do que nunca, e Deus nos concede sua graça, seu socorro, a fim de que possamos celebrar o Ofício com o fervor conveniente. “CONSIDEREMOS, diz São Bento,  DE QUE MANEIRA CUMPRE ESTAR NA PRESENÇA DA DIVINDADE E DE SEUS ANJOS...”[46] Nossa postura no coro é modelada na dos anjos diante do trono do Eterno, e eles cantam de uma extremidade do paraíso à outra.”
Por que celebramos o Ofício na igreja? - “É no templo e em torno do altar que a Igreja coloca seus cantores do louvor divino, porque Jesus é Eucaristia, e o Ofício Divino só pode ser dignamente celebrado com Jesus, em Jesus, por Jesus. Jesus Cristo, presente na igreja na Eucaristia, quer ser a alma, o centro, o móvel, a chave, o tudo do Ofício Divino.”
“E sendo a Eucaristia primeiramente um sacrifício, é o ato sagrado da Missa que constitui o coroamento quotidiano do Ofício Divino. Com a Missa se relacionam, portanto, todos os detalhes do Ofício do dia e da noite, textos, notas, cerimônias, determinação e escolha das horas. Assim, de acordo com sua natureza e tudo aquilo que lhe dá sua fisionomia exterior, o Ofício Divino é o culto eucarístico ao mesmo tempo o mais antigo, o mais racional e o mais completo. Quando falamos do Ofício, falamos da Missa, uma vez que o Ofício se relaciona com a celebração do divino sacrifício.” - É dela que ele tira o seu poder . - “A oração litúrgica concerne a toda extensão da crucificação de Nosso Senhor e da Redenção.”
Separado de Jesus, nosso louvor não seria nada. - “Deus eterno sendo o único que se conhece a si mesmo, só Ele próprio pode dignamente dar-se glória. A geração do Verbo, tal é o cântico por excelência do Ofício. O Ofício Divino é Deus mesmo celebrando sua glória pelo ministério de seu Verbo encarnado e da Igreja, sua esposa... O Ofício Divino é a compenetração mútua do Esposo e da Esposa (“Vox sponsi et sponsae”)[47] para dizer a Deus sempre e em toda parte, aqui em baixo e no céu, o hino da glória: Sanctus, Sanctus, Sanctus.”[48]
Deus não é pois indiferente a nenhum detalhe do Ofício Divino - “Não somente Ele inspira em segredo a oração, mas a dita, com as fórmulas, as modulações e as cerimônias de sua escolha.”
A .  A salmodia
“O texto sagrado dos salmos é um ditado de Deus. Nós salmodiamos sob o ditado de Deus. Nossa alma não precisa senão se conformar a ele. Nós temos a certeza de dizer a Deus aquilo que Ele quer ouvir. Na  oração particular não podemos ter a mesma garantia.”
“Que honra para o homem cuja boca se abre dessa maneira para apregoar a palavra de Deus! Quando recitamos os salmos, o que dizemos é infinitamente superior àquilo que pensamos. Nunca, fora da salmodia, chegaríamos a compor um semelhante discurso. Deus nos eleva acima de nós mesmos fazendo-nos cantores de sua glória.”
Mas ficamos muito abaixo dessas palavras divinas. - “Há de um lado a palavra de Deus que, pronunciada por Ele, é magnífica, grande como Ele mesmo, e do outro lado, nossas pobres e pequenas inteligências cuja visão é limitada e cuja maneira de ver as coisas é muito imperfeita. Apesar das repetições, apesar do poder da inspiração divina, os salmos não podem deixar em nossa alma senão uma imagem muito incompleta das realidades que somos destinados a contemplar.”
São Bento a este respeito não recomenda menos que “SALMODIAR DE MODO QUE NOSSA MENTE CONCORDE COM NOSSA VOZ”[49]. “Como? Pela união com Nosso Senhor que vive no verdadeiro cristão, de maneira que, rezando este, é Jesus Cristo que reza nele e por ele.” - Santo Agostinho afirma com efeito que, “nos salmos, é Cristo que fala”[50]. - “Nossa voz só exprime uma coisa, Cristo, chave de todos os salmos, de todas as profecias, de todos os hinos: ela só exprime Cristo, porque Cristo é o único mensageiro de Deus, o único intermediário entre as criaturas e Deus.” - Santo Agostinho diz também: “Sempre, ou quase sempre, é preciso ouvir num salmo a voz de Cristo inteiro, a cabeça e o corpo”[51]. - “O salmo é uma reprodução da vida de Cristo e da vida das almas. Seu texto se relaciona sempre com Cristo, a Igreja, ou com as almas que compõem seu corpo, pois os salmos são feitos para a alma.” - Acha-se sempre aí, portanto, alguma coisa para nós? - “Mesmo para um iniciante, há um sentido.”
Que é necessário fazer para descobrí-lo? - “São Bento indica o único meio: a fé profunda e atual na presença de Deus, e é tudo. “CONSIDEREMOS, POIS, DE QUE MANEIRA CUMPRE ESTAR NA PRESENÇA DA DIVINDADE”[52], escreve São Bento. Esse meio é suficiente para produzir todas as outras disposições da oração íntima, com suas variadas nuances.” - Como é isso? - “Quando cantamos um salmo na presença de Deus, nossa alma fica atenta; então somos assistidos pelo Espírito Santo que nos comunica os dons de Sabedoria e de Entendimento.” -Por isso São Bento recomenda: “SALMODIAI SABIAMENTE”, “PSALLITE SAPIENTER”[53] - “Este pequeno advérbio, “SABIAMENTE”, indica de que maneira é necessário celebrar o Ofício Divino. Cantamos o Verbo Eterno. Cantemo-lo com sua nota, com o seu timbre. A nota do Verbo é a Sabedoria do Verbo. Portanto, a salmodia é a obra mais elevada de todas, aquela à qual se deve levar mais sabedoria. E esta sabedoria consiste no que diz Nosso Pai São Bento: “SIC STEMUS AD PSALLENDUM UT MENS NOSTRA CONCORDET VOCI  NOSTRAE”[54]. Importa que a inteligência tome parte, que ela se aplique a conhecer o sentido do texto sagrado. Nosso amor deve saborear os salmos. Nossa piedade deve nutrir-se deles. Se é verdade que não podemos nos demorar meditando cada versículo, é também verdade que uma só idéia bem penetrada pode nos ser suficiente para meditar todo tempo do Ofício.”
O senhor distingue o trabalho da inteligência e o trabalho do coração? - “Eles devem efetuar-se ao mesmo tempo. A inteligência deve se aplicar a conhecer o sentido do texto sagrado. Não poderíamos deixar de seguir as verdades que irradiam das palavras pronunciadas pelos lábios. Isso se faz com maior ou menor profundidade, mas o dever é de se exercitar nisso com método e perseverança. Esse trabalho preserva do vago e dos desvios. Para cada um dos textos, mesmo os mais elevados, encontra-se uma grande variedade de interpretações. Pode-se escolher a seu gosto. É necessário adotar o sentido que dá satisfação à verdade, às inspirações da alma. Que não se tenha preocupação, além da medida, com as circunstâncias exteriores às quais eles fazem alusão.”
Qual deve ser a parte do coração? - “É necessário meditar com o coração, quer dizer, com afeição. O texto do Opus Dei é estimulante para a consciência e para a vontade se a alma procura a Deus com retidão. Como as centelhas do amor sagrado não jorrariam com abundância, se Nosso Senhor só veio a este mundo e só canta nele sua Obra para inflamar os corações nobres? “Ignem veni mittere in terram, et quid volo nisi ut accendatur?”[55] Para cantar dignamente os louvores divinos, é preciso a plenitude do coração humano santificado pela graça, com todo o poder que ele tem de amar, de admirar e de agradecer ao Senhor.”
Então a salmodia é uma prece? - “Ela torna-se um diálogo com Deus. É a oração. Deixe-se envolver; é a substância da oração, da alma verdadeiramente fundida em Deus. É a oração mais completa, mais substancial, mais luminosa, mais concludente. A oração jorra das entranhas do Ofício Divino.”
“O Ofício Divino não consiste em articular sílabas, nem em um cerimonial: essas coisas exteriores são condutoras da alma às coisas interiores. A alma do Ofício é a contemplação, a vida mística, a substituição da nossa vida pela vida de Nosso Senhor. É Jesus vivendo em nós.”
B.  O canto
“Executado sem canto ou mal cantado, o Opus Dei fica incompleto para nós e não temos o direito de dizer que ele está da maneira que Deus quis. “Cantate Deo”[56], “Psallite in cithara”[57]. Deus destinou nossa voz para cantá-Lo na eternidade. Deus quer que se O cante.”
Por isso os monges cantam. - “Se os monges amam, se cultivam com um zelo cuidadoso o canto gregoriano, é primeiramente para se conformar à Regra: “SICUT PSALLIT ECCLESIA ROMANA”[58]. É também porque cada vez mais a experiência lhes demonstra que o canto litúrgico é parte integrante do culto que eles devem a Deus.”
Eles sempre cantaram... “Foi um Papa, filho de São Bento, São Gregório Magno, quem redigiu de uma maneira definitiva a notação dos hinos e da salmodia para a Igreja Romana. Ele foi obedecido admiravelmente, mas em nenhuma parte com tanta fidelidade como nos mosteiros.”
“Em nossos dias, Dom Guéranger e os monges de sua Congregação de França restabeleceram a versão e a execução do canto de São Gregório. Pio X o impôs a toda a Igreja.”
O que o canto acrescenta à palavra? - “O canto é como uma palavra acrescentada à palavra para exprimir as mais altas verdades. Pelas modulações da voz, exprime-se não somente o sentido substancial dos textos, mas as nuances do pensamento, a variedade dos sentimentos, todos os acentos da alma em comunicação com o céu. Há acentos íntimos da alma que, traduzidos pelo texto, só se exprimem completamente pelas modulações da voz. Os neumas completam o sentido das palavras.” - Não é o sentido objetivo de uma palavra que o canto traduz.... “O que o canto deve dizer é a nota íntima da alma. Nosso Pai São Bento escreve no sétimo grau da humildade que “DEVEMOS CRER NO ÍNTIMO PULSAR DO CORAÇÃO”[59]. Esta palavra, aplicamo-la ao canto. É necessário que nossa voz exprima o que vem do mais íntimo de nossas almas, é necessário que estejamos penetrados pelo sentimento de Deus. Então, um sopro leva nossa alma até Deus.”
“A salmodia é a exigência da mais pura vida interior e da união adquirida.”
O canto gregoriano responde bem a essa exigência? - “A arte gregoriana procede de Deus e de sua contemplação.” - É uma arte difícil! - “Na vida monástica, há lugar para aulas de canto, às quais se dá uma atenção particular.” - Não há um risco de que se veja somente o lado estético? - “Monges e monjas, que Deus vos preserve sempre de ser executantes, quando deveis ser somente orantes. Se não houver o lado sobrenatural, o canto não dirá o principal que ele deveria dizer.” - O estudo do canto não favorece uma atenção exclusiva à forma externa do canto? - “O estudo, a teoria lógica demonstram com uma perfeita evidência o acordo que reina entre o sentido dos textos e os movimentos da notação gregoriana. Então, a execução torna-se fácil, simples, como que natural, e as almas que contemplam e rezam pelas palavras, cantam através dos neumas e do ritmo tudo que elas saboreiam e experimentam de mais íntimo.”
C.  As cerimônias
“Eu desejo o restabelecimento das melhores tradições concernentes a todos os detalhes do culto.”
“As cerimônias e os ritos inspirados pelo Espírito Santo e conservados em seguida pela Igreja intervêm para acompanhar, com a atitude do corpo, toda a celebração do Opus Dei. Pelos seus gestos na cerimônia e por seu canto, o monge exerce o ministério exterior e a tradução visível do culto divino, enquanto que, em sua alma, ele oferece ao Senhor a homenagem de todas suas faculdades presididas pelo Espírito Santo, recolhidas, prosternadas e vibrantes em uníssono com os salmos e cânticos. As cerimônias feitas com perfeição acabam de dar à Missa e ao Ofício Divino toda sua fisionomia e assim ajudam a alma a perceber e transmitir o sentido íntimo das palavras.”
É o homem inteiro, interior e exterior, que celebra o louvor divino... “Todo o seu ser se expande e vibra na oração. É necessário para nós, e Deus o quer para sua glória.”
D.  O ofício da noite
“A noite não é feita principalmente para o sono, mas sobretudo para favorecer as misteriosas relações de Deus com as almas e das almas com Deus, e para a procura da verdade sob todos os seus aspectos. Suas trevas, seu silêncio, um encanto puro e secreto que vem do alto, convidam a alma e a levam às ascensões interiores, luminosas e santificantes.” -É o momento mais favorável para recitar o ofício.
“Entre as observâncias que caracterizam o estado monástico, o Ofício da noite é, sem dúvida, a mais digna, a mais augusta e a mais importante. Depois da Missa, é a parte do Opus Dei mais solene e mais sagrada. É preciso estabelecê-la com firmeza e ser-lhe fiel. Os monges se sacrificarão, se necessário, para manter sua celebração durante a noite; ou se, para manter esta observância, for preciso amenizar as outras, é melhor fazê-lo, seja em favor da comunidade, seja em favor de certos particulares.”
“O Ofício da noite é a primeira e a mais essencial das grandes observâncias.”
E.  Pensamentos esparsos
“É preciso celebrar o Ofício Divino de maneira a ser ouvido por Deus...”
“É preciso ter bem claras no espírito as intenções que nos são mais caras; nós rezamos pela Santa Igreja inteira, pelo gênero humano, por cada um de seus membros, por nós mesmos.”
“Quando colocamos uma intenção na oração, não é para limitá-la, mas para estimular nosso zelo e também para atrair mais eficazmente a misericórdia de Deus sobre tal ou tal pessoa.”
“Quer-se obter uma graça especial: o melhor momento para implorá-la é o do Ofício Divino. O melhor meio, a celebração da Obra de Deus.”
“Às vezes fazemos novenas; a melhor novena porém é a celebração do Ofício Divino.”
“Deus está disposto a nos visitar no íntimo de nossos corações. Ele vem. Mas, e se Ele nos encontra ausentes?”
“Um simples olhar para o lado dos fiéis prova que não se pensa em Deus nesse momento.”
“No Ofício Divino só há três coisas a olhar: o altar, seu livro e, para seguir os movimentos do coro, aqueles que estão a seu lado.”
“A postura ajuda muito a atenção.”
“A mortificação exterior e interior, em todos os detalhes da vida, é o melhor remédio contra as distrações.”
“As faltas mais duramente castigadas no Purgatório para os monges serão as faltas cometidas durante o Ofício. Ver-se-á então o que é o primeiro mandamento!”
2. - A ORAÇÃO
“É uma grande aberração pensar que o Opus Dei termina. Ele não termina. Mesmo quando nossos lábios estão imóveis, uma palavra interior ressoa, e é essa que Deus ama. O Ofício deve nos pôr em oração.”
São Bento recomenda a oração no capítulo quatro: “Entregar-se freqüentemente à oração”[60]. - “O fundo da vida monástica é a oração. Nós devemos considerar a oração segundo a Regra, não como um exercício que começa e acaba em momentos determinados, mas como algo que não se interrompe nunca. O que Deus quer de nós é a freqüência que faz da oração a ocupação habitual e, de certa maneira, a respiração de nossa alma.”
O Pe. Muard fala da mesma forma: “Segundo o preceito de Nosso Senhor, a oração do monge beneditino deve ser contínua. Ele deve rezar em todo tempo e em todo lugar, de dia, de noite, durante seu trabalho; mesmo no meio do mundo, quando ele for obrigado a estar aí, seu espírito e seu coração devem estar aplicados em Deus por uma contínua e amorosa oração, pois é nisso sobretudo que consiste o espírito de oração tão recomendado pelos santos.”[61] - “Não há oração verdadeira nem frutuosa se ela não for assídua. As riquezas e a força da oração estão prometidas à assiduidade perseverante.”
Como se faz oração? - “Quando eu faço oração mental, dirá alguém, fico com a cabeça cansada! - Você não fez oração, você não sabe fazê-la! Faz-se oração com a cabeça? Especula-se na oração como nos cálculos matemáticos?”
“Também não se trata de ir sonhar, dormir diante do Santíssimo Sacramento. É preciso, ao contrário, que a alma esteja bem desperta, que ela tenha um assunto determinado, que ela escute Deus.”
“Fazer oração mental é procurar Deus no santuário íntimo de nossa alma. Pouco importa a maneira pela qual procedemos. Pouco importa a forma. Na vida espiritual, a oração é o que há de mais subjetivo[62] É como o temperamento, o caráter. Se se pudesse tornar visíveis as orações, compará-las, o fundo seria idêntico, mas a fisionomia muito variada. A oração vem do alto, mas ela se individualiza, se adapta e toma necessariamente características subjetivas em cada um de nós.”
“O segredo da oração é bem simples: “Gustate et videte”[63], “Provai e vede”. A oração só é complicada quando os homens querem intrometer-se nela. Eles fazem tratados sobre cada um dos pontos que a tocam. Hoje todo o mundo quer escrever. Há revistas ascéticas, místicas. Na antigüidade e até o século XVI, só havia um método de oração: o método de Deus. No século XVI aparece o método do homem. Este último dominou tudo e, pode-se acrescentar, desfigurou o ascetismo beneditino. Cabe a nós voltar a ele de velas soltas. Madame Cécile Bruyère não fez senão demonstrar isso no seu livro ‘Oraison’.”
Mas é necessário um método?[64] - “A Regra monástica é toda ela, no seu conjunto e nos seus detalhes, um método de oração, o primeiro e o melhor de todos os métodos de oração. Examinada em seus detalhes com relação à oração e à vida interior, ela aparece como uma via luminosa, arrebatadora e fácil, que leva unicamente a esse encontro da alma com Deus.” - Como assim? - “Aqueles que cumprem seus preceitos e tomam seu espírito, adquirem a PUREZA DO CORAÇÃO, A COMPUNÇÃO DAS LÁGRIMAS E A HUMILDADE indicadas pelo Santo Patriarca como fontes íntimas e fecundas da oração.”[65]
São Bento descreve na sua Regra o monge em oração: “SE TAMBÉM OUTRO, PORVENTURA, QUISER REZAR EM SILÊNCIO, ENTRE SIMPLESMENTE E ORE, NÃO COM VOZ CLAMOROSA, MAS COM LÁGRIMAS E APLICAÇÃO DO CORAÇÃO”[66]A que ele aplica seu coração? - “AUSCULTA, O FILI.”[67]“Escute Jesus. Onde? Como? Quando? No seu próprio coração, num coração onde reina o silêncio interior, na oração. Como é raro o silêncio, a atenção verdadeira e contínua! Nós costumamos nos dispersar com aquilo que está em torno de nós e, dentro de nós, guardamos simpatias por todo o tipo de ruído. Muito depressa fazemos em nós eco das coisas exteriores. É preciso voltar suavemente desse exterior, de todo esse barulho, de todo esse ruído ao silêncio interior.” -Como afastar nossas distrações? - “Sirvamo-nos de nossas distrações para fazer oração. Se não for um pensamento ruim, nós sempre podemos encontrar aí um primeiro grau de colóquio com Deus. De ordinário, aliás, a alma não está impedida pelas distrações, mas está, antes, sob o peso do torpor, da preguiça espiritual. É preciso despertá-la.”
“AUSCULTA, O FILI”. Jesus só pode fazer suas confidências à alma atenta, à alma mergulhada no recolhimento da oração. O que é preciso fazer, o que a Regra pode fazer é, pois, purificar nossos corações. Assim que o coração estiver suficientemente purificado para ver a Deus, a inteligência fica iluminada. Então a oração é bem simples. Tão simples assim? Perfeitamente: “Provai... e esquecei todo o resto.”
Qual é o tema da oração? - “A oração tal como a concebe São Bento tem por tema o próprio texto do Ofício Divino. Ela brota das entranhas do Ofício Divino. Ela deve ser simplesmente a degustação e a digestão da liturgia.”
“O Ofício Divino é, portanto, a fonte inesgotável, o alimento sempre renovado da oração. A Regra é o modelo dela. O Missal e o Breviário são os verdadeiros livros de meditação e de oração. Que diferença! Tomar um tema de oração na própria palavra de Deus ou dos santos aprovados pela Igreja, ou tomá-lo numa palavra piedosa, mas que, por seu lado humano, é só um comentário enfraquecido, um eco bem longínquo do pensamento divino. Nossa oração deve, pois, primeiramente tirar toda sua substância dos esplendores espirituais do Missal e do Breviário e, em segundo lugar, fazer saborear à alma consagrada as delícias escondidas que aí estão.”
“Durante o Ofício, deixe-se envolver por ele. Em seguida, continue a saborear o que foi recolhido durante o Ofício e no silêncio, interrogue as idéias assim semeadas. A oração, que é a nota íntima do Ofício Divino, torna-se em seguida o seu eco prolongado, o perfume precioso, o fruto pessoal apropriado às disposições e às necessidades de cada um segundo a conduta do Espírito Santo.”
“Como o Ofício Divino recomeça sete vezes ao dia e uma à noite, o rio da oração corre sem cessar entre os filhos de São Bento, e a alma que sempre permanece à sua margem abençoada pode aí se dessedentar abundantemente de maneira a sentir seu frescor salutar da manhã à tarde e da tarde à manhã.”
“Emanando de todos os detalhes da vida monástica, a oração dos monges é uma oração que impregna progressivamente toda a alma do monge fiel. Ela não é uma oração de teoria metódica e raciocinada, mas de prática, colhida sem cessar nas inúmeras e divinamente perfumadas flores da Liturgia. Ela circula nas nossas fileiras, guarda os corações, alegra os semblantes, afasta toda sombra, ornamenta o claustro, é o contato perpétuo das almas com Jesus e entre elas.”
“No fundo, a oração dos monges consiste em se manter, como faziam os santos, constantemente na presença de Deus.”
Como saber se a oração tem sido bem feita? - “A única marca da boa oração é a obediência com humildade, o culto do dever e o sacrifício de si mesmo.”
Quais são os efeitos da oração? - “Se a alma regulasse todo seu interior pela influência da oração, ela se divinizaria, ela se simplificaria e tornar-se-ia um verdadeiro soldado da Regra e de Cristo. Conheço pessoas que ganhariam em argumentar e raciocinar um pouco menos, economizando tempo e trabalho e que veriam mais claro e mais certo.”
“Uma alma de oração adivinha a verdade. Ela tem o instinto da verdade. Por que se espantar? Ela está em contato com a própria verdade. A oração dá o senso das verdades práticas. A mais contemplativa das almas é ao mesmo tempo a mais prática e eficaz na vida ativa, a mais fecunda.”
“Uma alma de oração é uma alma de Deus, ela pertence a Deus e só existe para Deus.”
3. - A LEITURA
“Nosso Pai São Bento estabelece a leitura nos intervalos dos ofícios.”[68]
É um exercício importante? - “Sem dúvida a alma vive de Deus, através da comunicação direta que Ele se digna nos fazer dEle mesmo pelo Sacramento da Eucaristia. Mas é preciso que ela viva de Deus do ponto de vista da verdade.” -Poucas almas vivem assim dEle! - “Só há um infortúnio nesta terra, é o de estar fora da verdade. O mundo está doente por causa da diminuição das verdades e do medo do sobrenatural.”
Qual é a causa dessa diminuição das verdades? - “Desde a invenção da imprensa, o palavrório tornou-se um flagelo. Uma olhada nos jornais mostra que todas as inteligências foram mais ou menos atingidas. Em todas as esferas sente-se a oscilação e a incerteza. Desconfie de todas as publicações novas, mesmo das que se dizem piedosas e católicas, mesmo que muito recomendadas. O liberalismo, o racionalismo, o naturalismo, o modernismo, essas várias deformações do espírito cristão se infiltram em toda parte. É como uma vertigem universal e contagiosa.”
Como escapar do contágio? - “Nosso Senhor suscita e quer reservar para si novos mosteiros não somente para dar a idéia da santidade, mas como campos entrincheirados de ortodoxia pura e de santa razão. Ainda que não sejamos gênios, quero que sejamos de uma ortodoxia imaculada.”
O que se deve ler? - “O que é necessário não é a quantidade nem o volume, mas a qualidade. Pouco, bom, seguro.
1. de preferência, a palavra de Deus;
2. em seguida, os livros santos escritos pelos santos, indicando os meios de adquirir a santidade;
3. a vida dos Apóstolos, dos Mártires, dos Confessores e das Virgens e
4. livros que mostrem de que maneira é preciso praticar a vida interior, a vida ascética, a vida espiritual.”
“Aí estão os livros de preferência. Se pensarmos bem, são os únicos que devem ser lidos nos mosteiros.”
A.  Sagrada Escritura
“Acima de todas as leituras está a leitura da Sagrada Escritura. A Bíblia está acima das elucubrações humanas, como o céu está acima da terra. Ela deve ser a matéria do trabalho intelectual dos monges e das monjas. A Sagrada Escritura, Verbum Dei, é o centro de nosso movimento intelectual. Os exemplos que nos dá toda a antigüidade, que nos dão sobretudo os monges, se resumem nisto: o recurso à Sagrada Escritura, o estudo insaciável da Sagrada Escritura, a busca de Cristo na Sagrada Escritura.”
Como ela deve ser lida? - “Há duas maneiras de ler a Escritura:
1. Ler a Sagrada Escritura materialmente e compreendê-la de uma maneira muito limitada, o que é o caso dos que criticam e esmiúçam o texto sagrado. Esmiuçar: sim. Mas não como modo de conhecer bem o pensamento de Deus, porque em vez de se penetrar no âmago da sua palavra, fica-se no exterior, perde-se tempo a considerar opiniões diferentes do ponto de vista acessório dessa palavra divina, da perspectiva pela qual ela se liga ao tempo decorrido e até à literatura.”
2. Ou então ler a Sagrada Escritura de modo a compreender o sentido que Deus quis realmente colocar nela para cada um de nós. Os Livros Santos têm um sentido universal que se dirige à multidão e um sentido particular que se dirige à cada alma. Há aí alguma coisa para nós. Lemos uma carta de Deus endereçada a nós. Uma simples palavra saída dos lábios divinos visa inumeráveis almas, as almas de todos os que passam nesta terra de geração em geração. Deus se dirige a cada um de nós como se fôssemos únicos no mundo. É por isso que é raro que um texto da Sagrada Escritura não seja resposta a um pensamento de nossa alma, a um desejo de nosso coração. Se nós procuramos Deus, é ainda mais verdadeiro que Deus nos procura; se nossa alma estiver voltada para Ele, há um encontro: o olhar de Deus e o olhar da criatura, o movimento da alma e o movimento do Senhor se encontram.”
“É uma temeridade pegar os Livros Santos e lê-los como se leria uma obra qualquer; é, do ponto de vista espiritual, uma grande inépcia: decifraríamos os caracteres, soletraríamos as sílabas e não compreenderíamos o que Deus nos concede compreender. Se, ao contrário, rezamos com humildade, Ele fará a nossa alma recolher por meio do texto algo que lhe foi destinado desde toda eternidade. Nossa leitura torna-se bem pessoal, absolutamente como a oração. Ela se adapta ao nosso estado atual de alma, à nossa capacidade de compreensão, às disposições de nosso coração, e nos coloca em oração.”
Como ela faz isso? - “A própria vida de Deus circula nessa palavra. As palavras humanas são cadáveres de palavras. As palavras divinas são palavras vivas; elas são vivas da vida de Deus, pois Deus quer se esconder sob a letra para se comunicar à nossa alma. Se ela nos comove, é Deus que, na sua bondade, se esconde sob a casca da letra a fim de nos falar.”
“Nada é comparável à palavra divina! Ela dá um impulso para o bem. Ela nos inebria da santidade infinita, nos dá a idéia do que pode nos fazer adquirir a santidade, ela tem um grande poder de persuasão, de atração pelas virtudes mais difíceis.”
B.  Evangelho
“O Evangelho! Eis o livro dos livros! Ele é por excelência o livro dos padres e das almas que aspiram à perfeição, das almas consagradas. Todas as questões que interessam à nossa salvação, ao bem dos nossos irmãos, à nossa vida pessoal, se encontram resolvidas no Evangelho. Antes de procurar neste ou naquele livro, ou nas academias a solução dos problemas que se relacionam com nossa perfeição, recorramos ao Evangelho. Que a sua leitura seja uma leitura atenta, assídua, refletida, continuamente recomeçada. Com a leitura do Evangelho, quanto tempo ganho, quanto proveito para a reflexão pessoal, para a oração, para a glória de Deus! Que grande campo para a ação divina! Deixemos tudo e vamos ao Evangelho, interroguemos o Evangelho! O Evangelho não é menos que o Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo. O Senhor nos espera nele. Ele está aí, bem perto de nós, ao longo de todos os textos do Evangelho, a cada proposição, a cada palavra; Ele está vivo, presente, pronto a nos conduzir, a nos manifestar cada vez mais sua bondade, sua misericórdia e seu amor!”
Em 1917 Dom Romain dá como leitura de Quaresma para todos os seus monges “o Evangelho integral de São João, em reparação das iniqüidades de Loisy e para conhecer mais intimamente Nosso Senhor. Essa leitura deve ser feita não de uma maneira exegética e sob forma de estudo, esclarecia ele , mas com a fé simples de Abraão e em oração.”
Ele queria que seus monges se tornassem “encarnações do Evangelho, almas evangélicas”.
C.  Documentos da Santa Sé
“É preciso ler assiduamente os documentos da Santa Sé. No mundo não há mais verdade senão em Nosso Senhor, em seu Vigário e nas almas que aderem íntima e incondicionalmente a esse sol e a esse refletor estabelecido por Ele mesmo.”
Como se deve lê-los? - “Para entender o Papa, é preciso desembaraçar sua palavra das variadas combinações pelas quais cada um se esforça por interpretá-la segundo seu sentido privado.”
“Que pelo menos no claustro se compreenda o que é ser verdadeiramente filho da Igreja, sem variante, inteiramente, ou então não seremos dignos de São Bento. Procurem-se as concessões que Nosso Pai São Bento fez ao espírito do mundo! Ou se é católico ou não se é! Tudo ou nada! É preciso não ser católico sob condição, mas católico ao pé da letra: católico com a Santa Sé, com o Soberano Pontífice, com os Bispos, os padres que estão encarregados de nos dirigir; católico em toda parte, em toda circunstância. Inútil tentar escapar: a palavra de Deus não suporta o contrário. Tudo ou nada na Santa Igreja. Se comprometemos alguma de suas leis, comprometemos tudo.”
D.  Santo Tomás
“É preciso colocar todo nosso ensino, tudo, tudo, sob a proteção do Doutor Angélico. Pio IX, Leão XIII, Pio X tanto o recomendaram! E em certo Seminário Maior se tem um tão perfeito desdém pelo príncipe da filosofia católica e da teologia! Como é lamentável! Aqui, somos cada vez mais tomistas.”
Que pensa o senhor de Santo Tomás? - “É um espírito de tal modo correto, de tal modo razoável! Ele esclareceu tanto a doutrina da Igreja e também a doutrina da vida monástica! Nós devemos, no íntimo de nossa alma, ter uma lembrança bem especial, permanente, desse grande santo; devemos merecer receber dele auxílios preciosos. Que ele nos conserve na virgindade da ortodoxia da fé católica. “Casta veritatis virginitas”[69], em linguagem católica é a ortodoxia, isto é, a inflexibilidade da verdade.”
E.  Estudos
“Só há uma ciência, a que vem diretamente de Deus. O objeto da ciência é Ele. Trata-se de conhecer a Deus, depois nós mesmos e nosso destino. Deus não quer que se prejudique a integridade da verdade que Ele revelou. Ele é extremamente cioso dela.”
Por quê? - “Deus se identifica com sua doutrina.”
Fora da Sagrada Escritura, dos documentos da Santa Sé e de Santo Tomás, onde encontraremos essa doutrina?- “Na Patrologia.” - Em nenhuma outra parte? - “Sim, mas a segurança só se encontra nos livros escritos pelos santos.”
O senhor quer a ciência para os seus monges? - “Creio que eu seria capaz de fazer grandes sacrifícios para adquiri-la e transmiti-la à comunidade. Mas o que ambiciono não é o brilho, nem a fama, nem o renome, nem obras publicadas, mas a doutrina bem ortodoxa, uma medida razoável de erudição, uma literatura antiga, sobretudo latina e francesa, não decadente, mas do autêntico século XVII, o culto e o amor do trabalho por Deus. Tudo isso acompanhado da mais sincera humildade. Que se vá ao fundo das questões. Os princípios continuam princípios. Se nós os acolhemos em sua plenitude, somos discípulos da verdade.”
Como se deve estudar? - “Em forma de oração. Ler-se-á muito mais com o íntimo da alma do que com a cabeça.” - O que o senhor quer dizer? - “É preciso que sejamos sensatos, calmos, fiéis às nossas obrigações, almas interiores. Então Jesus-Verdade falará no segredo de nossos corações. A verdade não faz barulho. Ela não é turbulenta. Ela não se prodigaliza. É preciso procurá-la no fundo do coração, controlá-la com a ajuda das virtudes. O estudo é uma ocasião que se dá ao Senhor de falar à alma. É uma audiência que Deus nos dá. É uma oração que nós fazemos.”
“Se não se ler assim os livros espirituais, não se encontrará nada, não se tirará daí nenhum proveito.”
O estudo assim feito é saboroso. - “Aquele que é de Deus põe suas delícias em ouvir a palavra de Deus. Os doutores e a experiência mostram que é assim. Essa solicitude se mostra em tudo quando a conversão é sincera e consumada. O afastamento e o desdém das santas leituras indicam, com certeza, uma decadência da alma ou um obstáculo secreto à graça. Saber é incômodo quando não se quer conformar sua conduta ao que se sabe.”
O senhor quer, portanto, que se seja assíduo ao estudo? - “A ciência que não é mantida pela assiduidade se desvanece rapidamente. Ao contrário, quanto mais se demora no estudo, mais se é cativado por ele, porque Deus se revela e se dá pela virtude escondida das santas leituras.”
4. - O TRABALHO MANUAL
“A OCIOSIDADE É INIMIGA DA ALMA”, diz São Bento [70]. “A ociosidade é um pântano para nossa natureza; quando a natureza cai nesse pântano, apodrece. Nossa alma foi criada para agir, ela tem necessidade de ocupação.”
“POR ISSO, EM CERTAS HORAS, DEVEM OCUPAR-SE OS IRMÃOS COM O TRABALHO MANUAL E, EM OUTRAS HORAS, COM A LEITURA ESPIRITUAL.”[71]
“A comunidade é uma sociedade de trabalhadores que fazem não um trabalho qualquer e de amador, mas esse trabalho a que recorrem os bons pobres para ganhar, com o suor de seu rosto, o pão de cada dia.” São Bento quer que o mosteiro produza “TODO O NECESSÁRIO”; ele prevê “MOINHO, HORTA E OS DIVERSOS OFÍCIOS QUE SE POSSAM EXERCER DENTRO DO MOSTEIRO, PARA QUE NÃO HAJA NECESSIDADE DOS MONGES VAGUEAREM FORA”[72]. “SERÃO VERDADEIROS MONGES, diz ele, SE VIVEM DO TRABALHO DE SUAS MÃOS.”[73] O Pe. Muard queria igualmente que “o trabalho dos membros da comunidade servisse para sua manutenção[74].
“O exemplo de Nosso Senhor pobre e vivendo do trabalho de suas mãos - as mãos do Salvador do mundo eram mãos calejadas! - nos impõe essa grande lei do trabalho. O trabalho é uma parte da pobreza... O trabalho, a ferramenta e o ofício são os mais nobres e os mais verdadeiros instrumentos de penitência... O abandono e, com mais forte razão, o desdém do trabalho manual é um prejuízo para a Regra e para a observância monástica.”
“Conduzido com discrição, o trabalho agrícola e da horta de toda a comunidade fortificará os fracos, saneará os cérebros e dará excelentes resultados. Se for útil, nada se opõe a uma mudança temporária das horas, à supressão de conferências ou leituras de menos importância, num caso de necessidade urgente.”
“O trabalho e a piedade estão intimamente ligados. O trabalho serve para ver o que vale a piedade. Não tenho confiança numa piedade que, sob pretexto de devoção, se afasta do trabalho. O trabalho é uma excelente preparação à vida interior. Quanto mais nos entregarmos à vida interior, mais teremos a compreensão da lei do trabalho.”
Como se deve escolher seu trabalho? Primeiro princípio: “Em comunidade é indispensável que o trabalho seja indicado somente pela obediência. Que vale um trabalho fora da obediência? Ele merece o castigo. Ele o terá segundo esta palavra de São Bento no capítulo VII: “A VONTADE MERECE O CASTIGO.”
Segundo princípio: “Não escolhamos nosso trabalho. Que não me consultem, que não cuidem dos meus gostos.” O Pe. Muard diz com efeito: “O monge não será livre para escolher o gênero de ocupação que lhe agrada mais. Cabe ao superior indicar a cada religioso o gênero de trabalho ao qual ele deve se aplicar.”[75]
Terceiro princípio: “Sejamos constantes. Não nos contentemos de tentar. Permaneçamos na tarefa até vir a ordem de parar... Como é raro o verdadeiro devotamento! O devotamento que consiste em se dar continuamente, apesar das dificuldades, do desgosto, com o sentimento de que se é o servidor dos outros.” O Pe. Muard recomenda também rejeitar “todo pensamento de desgosto, de preguiça ou de amor próprio” e se consagrar ao trabalho de “todo seu coração.”75
O que o senhor chama um encargo? “O encargo é um trabalho confiado a um monge de modo permanente. É uma bela maneira de se renunciar. Encontrei pessoas bastante singulares para dizer: “Ah! Enfim! Agora eu tenho um encargo, vou fazer o que bem me entende!” Falar dessa maneira é uma estupidez. Na realidade, ter um encargo é pertencer à comunidade. Há dois lados no encargo: o lado de Deus e o lado pessoal. Ora, os tolos, e eles são muitos, voltam-se para o lado deles mesmos e, então, ficam presos como moscas no mel; quando elas pousam suas patas nele, não podem mais voar. Seria preciso, ao contrário, abandonar tudo o que é pessoal, sobretudo quando se é chefe de encargo. Pois, ser chefe de encargo é ser servidor do encargo e de todos aqueles que fazem parte dele.” “Ele se proporá como fim único de seu trabalho, diz o Pe. Muard, a glória de Deus, a salvação das almas e sua própria santificação.”[76] “O trabalho não é senão um meio de salvação e de perfeição, um meio de santificação.”
5. - A ESCOLA MONÁSTICA
O senhor quis, desde o começo da fundação de En-Calcat, que seus monges, a exemplo de São Bento, educassem crianças, e o senhor abriu uma pequena escola monástica. “Uma escola de santidade!”
Quantos alunos os senhores têm? - “Nós só admitimos um número restrito de meninos a fim de poder escolhê-los com mais severidade e cuidar melhor deles.”
O que o senhor recomenda aos seus professores? - “Que eles façam convergir para Deus, a religião e a piedade todo o trabalho intelectual das crianças. Tanto quanto possível, a fim de atingir esse objetivo, eles tirarão dos livros santos e dos escritores eclesiásticos a matéria das lições e das tarefas.”
Os meninos cantam nos ofícios do domingo. - “Que se cultivem suas vozes, que lhes ensinem o canto gregoriano.”
O senhor está satisfeito com os resultados obtidos? - “Nem em um colégio, nem em casa seria possível obter o que nos dão as crianças aqui. Menos brio vão e fútil, com o qual o mundo se contenta e se inebria e mais seriedade, solidez, perenidade. Quem sabe se o desmoronamento moderno não chamará os monges para reconstruir pela base a educação antiga? Fazer homens que sejam homens e que, então, possam tornar-se cristãos completos. Seja como for, a Regra formou a cavalaria, seus guerreiros de ferro e suas grandes damas, mães do espírito francês. Os sistemas modernos engendraram os operários da revolução e as damas da frivolidade universal com uma lamentável diminuição da fé, da razão, do caráter e da robustez corporal por toda a parte.”
6. - AS MISSÕES
A obra inspirada por Nosso Senhor ao Pe. Muard tinha por fim “a pregação da penitência”[77]Mas nem todos os monges pregam: eles são “distribuídos cada um segundo sua aptidão, uns na pregação, outros na oração e no estudo, outros no trabalho manual.” Se alguns “saem de seu deserto como outro João Batista”[78]a maior parte permanece no mosteiro “para fazer descer graças de conversão sobre os pecadores pelo fervor de sua oração, enquanto os missionários se esforçam por trazê-los de volta a Deus por suas instruções”[79]. Pois,“neste século que não reza, que só sabe maldizer e blasfemar, os homens de oração não são menos necessários que os pregadores”[80].
A que gênero de apostolado se destinam seus monges? - “O monge deve preferir os ministérios humildes e obscuros que se exercem no campo ou junto aos pobres. Sem excluir nenhum gênero de apostolado autorizado pela Igreja, devemos nos ater, ordinariamente, às missões populares e aos retiros dados seja nas paróquias, seja nas comunidades religiosas.”
Como os monges se preparam para a pregação? - “Eles devem se aplicar, principalmente, ao estudo da Sagrada Escritura, da Teologia dogmática, moral e mística, dos Padres e da História da Igreja, dos autores sagrados, sobretudo os mais antigos e mais ortodoxos. Quanto mais eles se concentrarem no círculo da lei divina, mais estarão em condições de dar à sua pregação a qualidade primordial que é o ensino da doutrina católica. Quanto à liturgia, ela é o pão de sua piedade e, freqüentemente, dará a seu discurso um sabor todo divino.”
O que eles devem pregar? - “Se todos os pregadores só fizessem ouvir o Evangelho, as trevas da ignorância estariam menos profundas, a fé estaria menos ameaçada. Mas lhes repugna dar a palavra de Deus na sua simplicidade.”
Como voltarão a essa simplicidade? - “Que eles tenham fé na sua missão. Eles devem estar bem convencidos de que, quando falam, Deus está com eles e vivifica sua palavra.”
Durante seus ministérios, devem continuar sua vida de oração. - “No dia em que viverem mais do exterior que do interior eles estarão em perigo.” O monge deve procurar a santidade no exterior tanto quanto no mosteiro... “O monge em missão está obrigado à santidade por causa do socorro extraordinário que o povo e o clero esperam dele.”Para isso basta continuar monge. “Os monges missionários só serão abençoados na proporção em que continuarem monges.”
7. - O REFEITÓRIO
“Nos mais antigos mosteiros, a arquitetura do refeitório imita fielmente a arquitetura tão imponente e religiosa da igreja. Para que essa imponência, se o refeitório só servisse para aí se tomar os alimentos tão pobres da austeridade monástica? Não é por causa da palavra de Deus e das orações especiais que precedem e seguem as refeições? Eu penso que sim.”
No princípio da refeição se canta, solenemente, uma passagem da Sagrada Escritura. - “Sem dúvida, por essa leitura pública, fazemos um ato de grande reverência para com a Sagrada Escritura. É preciso, entretanto, ser realmente senhor de si mesmo para, num momento como esse, apreender não digo toda a leitura, mas mesmo alguma coisa da leitura, algo que se recolhe e que permanece. Que se conseguisse uma frase, já estaria bom! Se fôssemos atentos, não digo com uma atenção de contemplação (não é possível durante a refeição), mas com uma atenção suficientemente desperta - “O que se lê? Qual o sentido do texto?” - se fôssemos atentos o suficiente para recolher a cada leitura da Sagrada Escritura uma migalha, uma frase, Deus o veria bem. Ele veria que nós O procuramos, que queremos encontrá-Lo, que desejamos receber dEle uma luz. Ele não deixaria de corresponder à nossa disposição interior.”     
Em seguida, faz-se uma leitura durante toda a refeição. “ÀS MESAS DOS IRMÃOS NÃO DEVE FALTAR A LEITURA”, diz São Bento[81]Quais livros escolher?
1º Eliminar tudo o que for medíocre, simplesmente curioso ou moderno demais;
2º Ater-se rigorosamente aos bons livros, de preferência aos antigos, de uma ortodoxia virginal, referindo-se à Igreja, ao nosso santo estado e capazes de se impor por estas quatro características: instrução, edificação, interesse, valor literário;
3º Certos artigos de jornal não estarão deslocados, desde que:
1) sejam de interesse geral;
2) essa leitura não seja freqüente;
3) o jornal seja de um catolicismo realmente puro e romano.
Como se deve ler no refeitório? - “É preciso edificar os ouvintes, que devem entender o que está sendo lido. Nada fica audível sem uma articulação bem clara. A condição para que a leitura interesse é que ela penetre no espírito e que ela leve a ele o sentido que lhe é próprio. Somente a articulação dá às palavras o tom que lhes convém.”
De que modo come o monge? - “A vontade eficaz de se mortificar em alguma coisa, juntamente com a oração, formam a condição indispensável para que um monge não deixe de ser monge cada vez que é obrigado a tomar seu alimento.” -A que horas toma sua refeição? - “O horário do claustro para as refeições se aproxima bastante do horário do mundo.” Antigamente, durante a Quaresma, os monges ficavam em jejum até a tarde. Até os próprios trapistas tiveram que renunciar a esse jejum. “Há muito tempo já, apesar de seu zelo pela observância, eles não podiam mais, exceto em número muito pequeno, observar completamente o horário antigo. Chamado várias vezes para lhes pregar retiros, tive a felicidade de ver os últimos que mantinham um horário de jejum que, ao que parece, não deverá voltar, estando as forças hoje em dia tão diminuídas. De certa forma, com meios diferentes mas equivalentes, os discípulos da Regra encontram e praticam o jejum. O espírito da Regra impõe e faz aceitar, de bom grado, a privação de muitas coisas supérfluas e a refeição em horas bem determinadas.”
São Bento estabeleceu que todos seus monges “ABSTENHAM-SE COMPLETAMENTE DE CARNES DE QUADRÚPEDES, EXCETO OS DOENTES DEMASIADAMENTE FRACOS”[82]. “Na vida monástica, esse preceito de abstinência é fundamental.” O Pe. Muard assegurava que é o “mais possante meio de conservar o espírito de sua congregação”. Mas ele levava a abstinência mais longe que São Bento, decidindo que seus filhos se contentariam com “legumes, verduras ou hortaliças e frutas”, excluindo “todo tipo de carne, peixe, ovos, manteiga, queijos e laticínios, óleo, açúcar e mel”83 . “Pio IX pediu que os Beneditinos de La Pierre-Qui-Vire se contentassem com o texto da Regra.” - Os senhores mantêm a abstinência dessa forma? - “Nós proclamamos e queremos, para sempre, em nosso mosteiro, a lei da abstinência tão claramente e tão discretamente instituída por Nosso Glorioso Pai, sempre renovada pelos santos reformadores, tão amada pelo nosso Pe. Muard, enfim, conservada em nossos dias, com a bênção da Igreja, no seio de todas as ordens que retomaram a observância antiga. Seria uma falta capital tocar no princípio da abstinência e estabelecer que a comunidade comeria carne “tantas vezes” por semana. Não se poderia criticar as comunidades que, em razão da debilidade bastante evidente do temperamento atual, praticam a dispensa geral durante uma parte do ano. Mas é preferível manter o princípio da abstinência tal qual ele está formulado na Regra.”
Entretanto, em suas cartas, percebe-se que o senhor estava preocupado em melhorar o regime de sua comunidade. - “Para facilitar a prática da abstinência, a fim de que um número maior possa mantê-la.”
8. - A CELA
São Bento fazia dormir seus monges, “NUM MESMO LUGAR”,[83] em dormitório[84]. “Ele queria que os irmãos de armas não se separassem nem mesmo durante as horas de sono.” Atualmente o dormitório é dividido em celas. “É uma mitigação da austeridade primitiva, mas também um meio de favorecer o silêncio e a contemplação.”
Como são mobiliadas as celas? - “Que o mobiliário das celas respire a mais estrita pobreza: uma pequena mesa para escrever, um banco ou uma cadeira comum, uma bacia e um jarro para água e, como ornamento, uma cruz sem imagem, pintada de vermelho. Três tábuas sobre cavaletes ou numa armação de cama de ferro, com um acolchoado fino, um travesseiro de palha, lençóis e cobertores de acordo com o clima, tal é o leito composto segundo o texto da Regra.” É uma cama dura! - “É preciso que um monge possa dormir. Mas é preciso que o seu sono seja o de um trabalhador e de um combatente, não o de um preguiçoso e de um sensual. É preciso que o monge, se tiver inspiração e força para isso, possa se imolar até no seu sono. A noite deve ser marcada por essa nota de penitência e de imolação quanto à maneira de tomar a medida indispensável de sono.”
Quem cuida das celas? - “Cada um limpa a sua. Isso se faz corretamente, sem lentidão, sem cuidado excessivo. Uma vez adquirida a experiência desse pequeno movimento, é preciso que em dois ou três tempos esteja feito e bem feito.”
Não se fala nas celas... “Quando tiverem necessidade e permissãol de conversar, os monges o farão exclusivamente nos lugares designados para tal.”
“Devemos considerar nossa cela como um santuário.”
“Todas as vezes que a obediência e nossas ocupações nos derem a liberdade para isso, devemos fazer nossas delícias em permanecer nas nossas celas sob o olhar de Deus. É preciso estarmos aí com uma grande dignidade. Não há ninguém? Há Deus. A cela é o vestíbulo do céu, é um segundo santuário.”
CAPÍTULO IV :O espírito monástico
“O espírito monástico? É o espírito de Deus, o puro espírito católico; um espírito de oração, de humildade, de solidão e de silêncio, de dileção fraterna no interior e de zelo no exterior! Aí está nossa verdadeira fortuna, nossa vida, nossa força do presente e do futuro.”
“Ele é principalmente a perfeição do espírito cristão, sem nada acrescentar e sem nada retirar, tal qual Jesus no-lo deu, tal qual a Igreja no-lo ensina. Amplo, largo e simples como Deus mesmo, ele não destrói nada do que a natureza fez, somente o toma, o eleva e o sobrenaturaliza.”
“A característica mais relevante do espírito de São Bento é o “Christi Amor”[85]. Isso brota da Regra, como da vida de nosso Pai São Bento e também da vida do Pe. Muard.”
“Nos seus atos e em seu pensamento, nosso Pe. Muard se considerou como o último de todos. Ele quis que estivéssemos nessa posição e, como nosso Santo Patriarca, ele se consumiu de oração, de amor divino, de penitência, de pobreza. Ele viveu e morreu com Jesus crucificado. Tenhamos atenção! Aí está o que Jesus nos pediu em 1883: algo de muito humilde, de muito interior, de muito imolado, de muito pobre também, sem afetação é verdade, mas sem mistura. Reservemos o melhor de nossas forças para Jesus crucificado. Eu lhes asseguro que a maioria raramente pensa nisso. Quanto a nós, é nossa vocação especial.”
1. - ESPÍRITO DE HUMILDADE
O Pe. Muard escreveu em suas Constituições: “Nós estabelecemos a divina e santíssima humildade como fundamento de nossa sociedade, como princípio constitutivo de nosso espírito e queremos que ela seja o caráter distintivo de nossa Congregação, cujo fim principal é combater o orgulho, vício dominante deste século, pela prática dessa virtude.”[86] São Bento estabelece com efeito a humildade, à qual consagra um longo capítulo, como fundamento de sua Regra[87] . “Este capítulo é o sumário sucinto e o desenvolvimento total da Regra. O mosteiro é uma verdadeira academia de humildade. Falar, agir e se mostrar com ares de grandeza: eis a peste e o antípoda do espírito beneditino.” Queria também o Pe. Muard que seus monges se considerassem “como os últimos dos religiosos, tendo sempre pouca estima por eles mesmos, como miseráveis pecadores dignos de todos os opróbrios, e sua sociedade como a última de todas as sociedades religiosas. Da mesma maneira que é para os lugares mais baixos que vão as águas dos esgotos, dizia ele, nós devemos estar tão baixo que todos os desprezos do mundo venham cair sobre nós.”[88] Essas palavras são um eco desta de São Bento: “CRER NO ÍNTIMO DO CORAÇÃO QUE SE É INFERIOR A TODOS E O MAIS VIL”.[89]
“A humildade é o esplendor da verdade. Se vós sois mediocremente humildes, sereis mediocremente verdadeiros.”
Mas a humildade verdadeira é rara... “Cada vez mais constato como é rara essa virtude entre as almas consagradas a Deus. Como, ao contrário, o amor próprio se desenvolve livremente, estraga as melhores virtudes, interrompe todo progresso sério e origina até, aqui e ali, verdadeiros pequenos escândalos.” É porque não é fácil tornar-se humilde!“Em razão de nossa queda original, a humildade é a mais difícil de todas as virtudes. Cada um de nós só pensa em si. “Eu! eu!” é nossa suprema atividade; “eu!” nós estamos presos a isso por todos os lados. No entanto, Deus não pode fazer nada de grande a não ser sobre o fundamento da humildade.”
É preciso que sejamos humildes... “Sem a humildade forte e profundamente estabelecida não faremos nada de bom, tornaremos estéril a fundação.” Por quê? - “O que é preciso para conhecer os caminhos de Deus? É preciso a humildade, a verdadeira humildade. A humildade nos desapega cada vez mais, nos desprende da terra. Ela equilibra e pacifica a alma. Ela dá um maravilhoso instinto da verdade, dissipa as ilusões e, enfim, dita palavras justas e medidas. A humildade dá constância, continuidade. O orgulho gera a instabilidade, a agitação, a incoerência. Um monge verdadeiramente humilde está contente com tudo o que é vil e extremo. A humildade e a confiança andam juntas. A humildade dilata nossa alma. O orgulho a contrai. Diz-se inchar de orgulho? Dê uma espetada no balão e ele se torna um trapo! Quando cessamos de pensar em nós mesmos, é então que cuidamos melhor de nossos interesses. Quando não pensamos em nós mesmos, Deus pensa em nós. Quanto mais nos afastamos de nós, mais Ele cuida de nossos interesses. Deus não pode resistir ao encanto da humildade. A humildade atrai suas graças.”
Como adquirir a humildade? - “Deus nunca deu gratuitamente a humildade. Se a desejamos seriamente, procuremos as humilhações, esperemos as humilhações - Por acaso existe humildade sem humilhação? - e quando vierem, façamos-lhes bom acolhimento. Do contrário, Deus nos poupará.” É suficiente aceitar bem as humilhações? - “É preciso amá-las. Se somos humildes amemos, amemos as humilhações! Indispensáveis quando as merecemos, elas são também excelentes e desejáveis quando não as merecemos.” - Como se chega a amá-las? “O orgulho só é possível no esquecimento ou desprezo de Deus. Deus conhecido, meditado, procurado é o orgulho enfraquecido, exterminado.”
“Apliquemo-nos à humildade verdadeira e sólida. Sejamos humildes de espírito, de coração, de vontade e de conduta. É principalmente por um grande cuidado e culto da humildade que devemos nos distinguir na Ordem.”
2. - ESPÍRITO INTERIOR
“Deus, no programa de 29 de janeiro de 1883, nos pede uma casa cuja característica fundamental, o ponto de partida e a forma primeira sejam o espírito interior com tudo o que se lhe relaciona.”
“O instinto secreto da natureza é a vida selvagem, é fugir de Deus, viver fora de Deus, na independência que permite ir para onde se quer. A vida interior, ao contrário, é a vida do espírito, segundo o espírito. Ela se relaciona com a obediência e resulta necessariamente dela. A obediência é até mesmo a pedra de toque com a ajuda da qual se reconhece o valor da vida interior numa alma: ela vive somente nas profundezas da renúncia; onde a renúncia é completa, aí se encontra a vida interior. A vida interior vale o que vale nossa renúncia. Ela é Jesus se reproduzindo em nós. Nossa vida interior é Jesus, é o Verbo que se comunica. A vida interior é o amor, o amor santificante, vivificante, o amor que transforma. Somente chegam ao martírio as almas que viveram e vivem de vida interior. O sangue que corre, então, é a abundância da vitalidade divina escondida nelas.”
“Instituindo as ordens religiosas após a era dos mártires, Deus se propôs um objetivo: conservar em sua Igreja até o fim dos séculos o tesouro da vida interior. É verdade que Deus pode conservar esse tesouro mesmo no tumulto do século, mas em via ordinária, Ele precisa para isso separar as almas da multidão, atraí-las à solidão e ao silêncio para lhes falar ao coração.”
“Ela não deve ser tomada como meio secundário na economia monástica, nem na economia cristã. Ela deve dominar todo resto: ela é soberana. Todo o resto deve ser colocado, hierarquizado sob sua dependência.”
E se o mosteiro não é fiel à vida interior... “ele não é mais útil, ele desaparece. A causa que determinou a queda, o desaparecimento de certas ordens e de certos mosteiros: o exterior tomou a frente; relaxou-se insensivelmente o interior. Como se procedeu à reforma? Retornou-se ao ponto de partida, à vida interior. Uma comunidade que quer se manter, se firmar, garantir seu futuro, que meio deve tomar? A vida interior.”
Espírito de silêncio
“Tudo o que há de mais nobre no homem é interior: o pensamento, o julgamento, a sabedoria, a vontade... A língua, os lábios, são os únicos instrumentos capazes de dar uma vida aparente, externa, a esses segredos que só Deus pode penetrar e que nossa consciência revela, os segredos do pensamento, do sentimento... Mas a tendência de todas as almas dominadas pela influência da vida interior é se calar. “Sedebit solitarius et tacebit”[90].
Elas desconfiam da língua... “É o instrumento mais ativo do bem, mas também do mal, do progresso no bem e do progresso no mal. A língua, esse pequeno instrumento pérfido, numa pequena volta rápida, nos faz cometer numerosas faltas. Procure e verá que ela é sempre o grande instrumento do mal: ela excita a todos os crimes. Todos os caminhos das paixões que carregamos em nós chegam na língua. Se fosse possível isolá-la... mas ela se relaciona com todo o resto! Todas as paixões têm licença de tomá-la para seu serviço.” São Bento põe na boca de seu discípulo, “A FIM DE QUE ELE NÃO PEQUE PELA LÍNGUA”, uma guarda, uma sentinela, “CUSTODIAM”[91]e o torna mudo como o salmista[92] . “Desde a primeira até a última linha da Regra, São Bento é desconfiado contra os abusos, os estardalhaços da língua. A Regra tem por objetivo nos estabelecer no silêncio. No seu capítulo seis, ele dá uma dupla volta de chave na língua. Ele tem toda razão.”
Ele impõe um silêncio perpétuo? - “Alguns pretendem que nosso Pai São Bento prescreveu a prática do silêncio absoluto, outros acham que o Santo Legislador concedeu atenuações. A verdade não está nem de um lado, nem de outro; ele ficou num meio termo. Ele não prescreve o silêncio como é entendido nos trapistas, não impõe o mutismo. Ele deseja somente fazer compreender que temos a obrigação de saber o que nós queremos dizer e a que momento devemos dizê-lo, a obrigação de prever, de escolher os termos com que nos serviremos ao invés de deixar o acaso e as circunstâncias no-los ditar.”
“Nosso Pe. Muard estudou longamente a questão. E, depois de orações, de penitências, de jejuns, com a autoridade da qual dispunha, ele compreendeu que era preciso, fora do Ofício Divino, da confissão, das aulas, o silêncio perpétuo. Ele o estabeleceu e era assim que se o observava em nossa primeira Comunidade de La Pierre-qui-Vire. Se não o tivesse experimentado, eu acreditaria como todo mundo que é impossível. Mas o experimentei e direi sempre que é um regime admirável. Não há nada de melancólico, nada que leve à tristeza. Ele mantém o contato da alma com Deus.”
“Os membros da comunidade”, por meio “de conferências”, “de passeios” semanais e da reunião da noite antes de Completas que é “verdadeiramente de família”, “se conhecem, compreendem e se entretêm numa doce caridade, ao mesmo tempo que conservam as vantagens tão preciosas do silêncio beneditino.”
Como os monges se comunicam entre si? - “Eles pedem por meio de sinais as coisas necessárias. Os que necessitam de conversar pedem permissão e só o fazem em voz baixa, cuidando de não sair do assunto que têm a tratar. Os chefes de oficio terão o maior cuidado de não sair de suas atribuições, falando somente nos lugares de seu trabalho, a respeito das coisas do trabalho e a seus subalternos. Se se pega o costume de falar muito nas celas e em toda parte, é impossível que a comunidade não acabe por se dissolver. Não se remedia a perda de uma observância dessa natureza.”
O silêncio é penoso? - “O silêncio não é uma prisão, nem um aborrecimento, quando é guardado para Deus e sob seu olhar. Ele acalma, harmoniza, eleva, faz rezar, ele atrai Deus para a alma e a alma para Deus, que é seu centro.”
Entretanto, poucos são fiéis a isso... “É coisa rara, muito rara, achar um homem dizendo somente o que é preciso, o necessário e o útil.” Pois é difícil se calar... “Não se consegue o silêncio sem um esforço, sem observar-se a si mesmo com a maior atenção. Para evitar as faltas da língua, são necessários uma grande mortificação adquirida, uma verdadeira humildade, o sentimento íntimo e constante da presença de Deus e a dependência das faculdades da alma e das paixões em relação a Deus. Enfim, o domínio completo da língua só se encontra na humildade”.Como fazer para guardar o silêncio? - “ESPERE QUE VOS INTERROGUEM”[93], nos diz Nosso Pai São Bento. Se permanecermos em silêncio, teremos ao menos a aparência de sábios.”
“Obrigado ao silêncio pela sua Regra, todo beneditino deve ser tão sóbrio em cartas como em palavras. É realmente lamentável gastar tempo e trabalho escrevendo, para agradar, cartas que são lidas num piscar de olhos e que não produzem, ordinariamente, outro efeito que o de distrair por um momento o leitor, e que são em seguida atiradas ao fogo ou encerradas para sempre numa gaveta qualquer. É preciso que nos façamos antigos nesse ponto e deixar que nossos amigos reclamem dos nossos atrasos e do nosso laconismo.”
“Duas palavras que nunca podem ser colocadas uma ao lado da outra: conversador e beneditino.”
3. - ESPÍRITO DE IMOLAÇÃO
O Pe. Muard queria que seus filhos se considerassem como “homens votados por estado à prática da penitência, encarregados de satisfazer a justiça de Deus por suas próprias iniqüidades e pelas de seus irmãos, por conseguinte, cuja vida seja uma contínua imolação de sua vontade, de seu julgamento, de seu corpo e de todas as satisfações dos sentidos pelo duplo gládio da mortificação interior e exterior”[94].
“É preciso que na Obra nós sejamos todos hóstias vivas inteiramente consagradas. O mosteiro é uma casa de penitência. As observâncias, os artigos fundamentais da Regra têm por base a penitência. A Regra é uma regra de mortificação e penitência: ela doma a nossa natureza com uma destreza, com uma ordem, uma suave e inexorável perseverança. Em vão se procurará num dia beneditino o que a nossa natureza ferida pelo pecado original pode encontrar de satisfação para as suas vis inclinações.”
“Mas nenhum detalhe da penitência regular ultrapassa a medida das forças ordinárias. Os atos de penitência devem ser regrados pela discrição. Nosso Pai São Bento foi mais admirável nesse ponto do que São Bernardo. Este só se tornou imitável, porque se aproximou pouco a pouco da moderação do grande Patriarca. Quando os santos não fazem o que é preciso, o espírito de Deus a isso os conduz pouco a pouco com o tempo.” - Sob pretexto de discrição não se introduziria o relaxamento? - “Devemos temer menos a alteração e a perda de nossa saúde do que o relaxamento da austeridade e da penitência. Devemos nos exercitar mais a nos mortificar do que a cuidar de nós mesmos. Poupar-se é prejudicar-se. Sem penitência, nada de vida interior, nem de perfeição, nem de santidade. Nosso Senhor não mudou o molde da santidade; esse molde é a Cruz sobre a qual se imolou por nós.” O estado monástico é um estado de penitência “pelo fato de seguir mais de perto Nosso Senhor Jesus Cristo carregando sua Cruz.”
Como falar, depois disso, de discrição? - “Há o espírito de penitência e os atos de penitência.” O Pe. Muard diz que“o espírito de penitência é constituído pela mortificação interior que consiste em combater nossas inclinações, nosso amor próprio, nosso humor, todos nossos defeitos e, acima de tudo, a nossa paixão dominante. Sem esse espírito não se saberia ser verdadeiramente religioso. A mortificação corporal é, sem dúvida, muito útil para nos manter no fervor; ela é mesmo obrigatória para todos. Mas ela é pouca coisa, ou melhor, não é nada, se não for vivificada pela mortificação interior que é sua alma. É o sacrifício que agrada ao Senhor, o holocausto de suave odor que Ele ama receber da criatura.”[95] “Jesus nos pede, sobretudo, uma imolação íntima nas pequenas virtudes quotidianas, o martírio de uma vida sem mancha e inteiramente devotada. Numa tal vida, o sofrimento se acha seguramente na medida em que determine a sábia vontade de Deus, e pode acontecer que o martírio da vida quotidiana seja mais difícil e mais doloroso do que o martírio da morte.”
A Regra tende a nos dar esse espírito de penitência... “A vida monástica é estabelecida de maneira a provocar a espontaneidade da penitência. Sem a espontaneidade, nós oferecemos a Deus uma penitência sem brilho. Ele não pode ficar satisfeito. A penitência espontânea, cheia de ânimo, de ardor, é essa que se oferece convenientemente a Deus.”
4. - ESPÍRITO DE POBREZA
“Beneditino” e “pobre”, são termos que se atraem mutuamente e nunca deveriam ficar separados.”
“Não se pode conceber a pobreza prática com mais rigor do que o faz São Bento[96]. Com sua costumeira discrição, ele não impõe nenhuma prática singular nos detalhes aparentes dessa virtude, e várias passagens mostram que os monges devem evitar ostentá-la. Mas ele quer todos os seus santos rigores, e o gênio da Regra a imprime em todos os detalhes materiais relacionados à comunidade ou às pessoas. Em algumas palavras inspiradas, ele desapega o monge de todo bem visível, seja ele qual for, e o põe num estado de dependência que lembra de maneira tocante o estado em ficou o divino crucificado. Quando Deus suscitou na Igreja a ordem franciscana, esta só teria que imitar São Bento, se seus discípulos tivessem querido observar o capítulo trinta e três da Regra.”
Por que essa pobreza? - “Os bens deste mundo quando possuídos, possuem também. A virtude de pobreza é o sacrifício de todos os bens exteriores feito com o desapego do coração e da vontade. O que há nesta terra que seja digno da alma humana? Nada que aparece, nada que é criado, nada que pertence à ordem sensível é digno da alma, mas unicamente e acima de tudo Deus, Deus conhecido, amado, possuído pela esperança até que seja possuído na beatitude. A pobreza cristã é o desprendimento de tudo o que não é Deus.” Se nos apegamos a uma criatura, fazemos injúria a Deus... “Não há nada pequeno em matéria de pobreza, como não há nada pequeno em matéria de castidade.”
“O Pe. Muard queria que a pobreza em espírito e interior fosse uma das características marcantes de sua família religiosa. Sejamos pobres:
1. “Pobres em nossa maneira de apreciar, de julgar, de administrar a si mesmo. O que pede a pobreza? O sacrifício do supérfluo, a restrição do útil; ela tende a se limitar ao necessário e indispensável. Aí está o espírito de pobreza. Impossível carregar o peso da pobreza procurando as comodidades da vida. Quando nos encontramos diante de uma privação, que nosso primeiro movimento seja: “Em boa hora! Deo gratias!”[97] É Deus que no-la dá para sua glória. Se Ele quer que careçamos de tudo, ainda melhor! Os bons monges devem amar a pobreza especialmente quando ela vem acompanhada de privações e de desconforto. Onde está o mérito de um pobre a quem não falta nada?”
2. “Pobres em nossas relações com as pessoas da comunidade encarregadas de prover as nossas necessidades. O domínio do pobre, segundo São Bento, se reduz somente à esperança em Deus e em seu Abade. Um pobre só tem direito à sua pobreza. “TODAS AS COISAS NECESSÁRIAS DEVEM ESPERAR DO PAI DO MOSTEIRO, lê-se na Regra. NÃO SEJA LÍCITO A NINGUÉM POSSUIR O QUE O ABADE NÃO TIVER DADO OU PERMITIDO”[98]. “Esperar, aguardar da autoridade o que é indispensável: alimentação, vestuário, alojamento... mas como convém a pobres. Esperar o necessário daquele que é o pai do mosteiro não exclui absolutamente o pedido; ao contrário, pois o pedido é um ato de indigência, de dependência e de humildade.” - Pode-se pedir tudo o que se deseja? - “Sob pretexto de permissões obtidas pode-se ter a seu uso muitas coisas; ao útil segue o agradável, o supérfluo leva ao luxo. Isso não é espírito de pobreza!...”
“Mostrar-se delicado, difícil, é isso a pobreza? São exigentes, logo não são pobres. O verdadeiro pobre está sempre contente com o que lhe é dado. Dão-lhe tal coisa: muito bem! Perfeito! Não é novo? Que importa! Não está bom? Coma sempre com a bênção de Deus! Aí está o espírito de pobreza.”
“É preciso lembrar que somos pobres e querer ser tratados como pobres.”
“É graças a uma multidão de pequenas circunstâncias que se reconhecem os verdadeiros pobres. É fácil discerni-los!”
O Pe. Muard dizia que a santa pobreza seria “o verdadeiro tesouro dos beneditinos do Sagrado Coração”, que ela devia “brilhar por toda parte”[99].
“Todo o edifício religioso repousa sobre a pobreza. Os Padres da Igreja, os Doutores diziam que a pobreza alimenta a vida religiosa, porque a vida interior se apóia necessariamente sobre a penitência, e a penitência não poderia subsistir sem a pobreza.”
5. - O SAGRADO CORAÇÃO
O Pe. Muard escreveu em suas Constituições: “As virtudes que devem constituir o espírito de nossa Sociedade são as virtudes por excelência do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de sua Mãe.” É o motivo pelo qual ele coloca sua sociedade “sob o patronato do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria”[100]. “É preciso que nos lembremos como de algo essencial que fomos consagrados pelo nosso fundador ao Sagrado Coração de Jesus, sob a proteção de Santa Margarida Maria. Somos filhos do Sagrado Coração de uma maneira muito especial, por sua vontade, pela vontade de nosso santo fundador. Nós lhe pertencemos para sempre e temos, assim, direito às suas riquezas. Devemos usufruir delas.”
Para o senhor, o que é o Sagrado Coração? - “O Sagrado Coração? Mas é Nosso Senhor Jesus Cristo! Digo Sagrado Coração, porque desde minha entrada em religião tomo sempre como referência o Pe. Muard e Santa Margarida Maria... Mas é a devoção a Nosso Senhor Jesus Cristo! La Pierre-qui-Vire foi fundada sob a proteção obrigatória do Sagrado Coração de Jesus. É realmente Nosso Senhor Jesus Cristo, é seu Coração. E para nós, filhos do Pe. Muard, não há em que hesitar.”
As duas comunidades de En-Calcat e de Santa Escolástica são especialmente consagradas ao Sagrado Coração... “Foi num movimento de seu Coração, por um apelo bem distinto, que Ele fez surgir as duas comunidades. Sim, nós somos do Sagrado Coração. Foi Ele quem dirigiu as duas fundações. Ele quem, até hoje, nos protegeu sem cessar, como Ele sabe fazer. Sem a sua assistência, não somente não teríamos podido começar, mas seríamos incapazes de continuar. E, a esta altura, o que nos teríamos tornado?”
“Somos mesmo os filhos do Coração de Nosso Senhor, sob a Regra de São Bento. Quando se é chamado, como o fomos, à honra de professar a Regra de São Bento numa casa que o próprio Sagrado Coração edificou, é preciso não negligenciar nada para manter-se nas fileiras desta falange dos verdadeiros amigos do Coração de Jesus. Oh! que o Coração de Jesus dê a cada um de nós o dom mais precioso que Ele pode dar, o dom do amor verdadeiro. Compreender o que é o amor, nos dispor a amar. Que Ele nos conceda concentrar neste amor por Ele toda nossa vida espiritual. A vida espiritual se subdivide, se distingue em virtudes, ela tem inúmeros graus, mas é tirada do amor que Nosso Senhor nos tem e do amor que Ele espera de nós. Que bela vocação, meus caros filhos, e que meio Deus nos dá de corresponder a ela pela Regra de São Bento e por toda ordenação de nosso estado monástico! Não é de se admirar que as primeiras manifestações do Sagrado Coração de Jesus, as menos conhecidas talvez, mas as mais antigas e as mais autênticas se tenham operado à sombra do claustro beneditino. Não é de se admirar que Nosso Senhor tenha escolhido um dos seus servidores mais obscuros e mais desprezados ainda, para colocar sob a Regra e na Ordem de São Bento toda uma falange de beneditinos e de beneditinas. O Coração de Jesus quer manifestar seu amor até a consumação dos séculos. Consagremo-nos a Ele, cada um em particular e de todo o coração. Mas este não deve ser um ato passageiro de nossa piedade; é preciso que em nossa consagração haja uma espécie de contrato entre o Coração de Jesus e os nossos corações.”
Que recebemos neste contato permanente com o Coração de Jesus? - “O amor... O amor quer o amor. O amor procura o amor!” Então tornamo-nos um perfeito beneditino, um monge vivendo sua Regra. “O coração se lança vigorosamente para seu amor principal, as aspirações e as esperanças vêm em seguida... Deus não põe limites às graças que Ele quer nos dar. Por que colocamos limites às nossas esperanças, aos nossos desejos? Somos pequenos, pequenos por essência, mas grandes por pertencer à Igreja, pelo batismo, pela confirmação, pelos sacramentos, pelas graças recebidas, e é preciso fazer o que diz o profeta: “Dilata os tuum et implebo illud”[101]. “Dilatai vosso coração!” Que ele não seja trêmulo, pusilânime, mas que exulte de esperança sobrenatural por causa dos méritos infinitos de Nosso Senhor. Mais uma vez, Nosso Senhor nos impõe limites? Absolutamente. Ele nos impele a receber.”
“Nossa vocação é a santidade. A santidade adquirida, resposta necessária ao Amor divino, é isso o que nos foi pedido e que devemos dar sem limites. É a lição quotidiana de Jesus às nossas almas. Ele nos espera no Cenáculo da vida interior que é “Ele em nós e nós n’Ele”, noite e dia, em companhia e na solidão, no meio das ocupações ou no vagar, através das palavras ou no bem-aventurado silêncio. Se Ele permanece conosco e nós com Ele, isto basta. O Amor está presente, Ele reina e comunica sua vida, e esta vida é de Deus e se eleva sem cessar para Deus. Ela permanece e se comunica. A vida interior é Jesus presente, conhecido, amado e nunca suficientemente servido, na calma, na paz, numa morte aparente e numa vida muito intensa.”
“Mas, se a vida de Jesus quer realmente se esconder nas aparências da nossa, ela não quer ser limitada, nem desfigurada, nem alterada, nem constrangida, nem interrompida, nem condicionada. Essa vida divina e humana quer pouco a pouco absorver, elevar e divinizar a nossa.” - Como fazer para não atrapalhá-la? - “Peçamo-la e deixemos Jesus realmente livre para nos conduzir. Ele sabe que por nossas próprias forças não poderíamos nos dar a santidade, e Ele se encarrega disso.”
Ele quer que sejamos santos... “Nosso Senhor necessita de santos e de santas para renovar o mundo e divinizar a terra.” - É por isso que Ele chama certas almas à vida monástica... “É preciso santos e santas entre nós, ou então a Obra não durará. Há uma proporção entre a santidade e a duração dos mosteiros. Vi muitas fundações. Quando não há o puro espírito de Deus e a santidade, não há êxito. O que conduziu tantos mosteiros ao fundo do abismo foi a predominância do natural em relação ao sobrenatural, da sabedoria humana sobre a divina.”
“Nossos mosteiros devem ser casas de santidade. Jesus quer a santidade para as duas famílias. Ele só as abençoará na proporção dos esforços nesse sentido. Nossa divisa é:
“sint sancti aut non sint.”[102]


[1] Alusão à expressão que S. Francisco de Assis usava ao se referir ao corpo (N. do T.).
[2] “Guia e mestre divinamente instruido”.
[3] Gên. XII, 1.
[4] Gên. XII, 1.
[5] Pe. Muard. Constituições. Introdução.
[6] Pe. Muard. Constituições, Introdução.
[7] Regra. Prólogo
[8] Regra. Capítulo I. “Dos gêneros de monges”
[9] Regra. Capítulo 58. “Da maneira de proceder à recepção dos irmãos” (“Apresentando-se alguém para a conversão dos costumes.”)
[10] Regra. Prólogo
[11] Regra. Capítulo 7. “Da humildade”
[12] Regra. Capítulo 4. “Quais são os instrumentos das boas obras”
[13] Regra. Prólogo
[14] Regra. Prólogo
[15] Regra. Capítulo II. “Como deve ser o Abade”
[16] Seqüência da Missa de Corpus Christi
[17] "Da obediência”
[18] Luc. X, 16
[19] Jo. XXI, 16: “Apascenta meus cordeiros, apascenta minhas ovelhas”.
[20] Pe. Muard. Constituições. Capítulo 2.
[21] Pe. Muard. Constituições. Capítulo II
[22] Regra. Capítulo VII. “Da humildade”
[23] Subdivisão de província, entre religiosos (N. do T.).
[24] Regra.Capítulo LVIII. “Da maneira de proceder à recepção dos irmãos.”
[25] Ibidem
[26] Regra. Capítulo LVIII.
[27] Regra. Capítulo LVIII.Ibidem
[28] III Livro dos Reis 19, 11: “Deus não se encontra na perturbação”.
[29] Imitação de Cristo. Livro I Cap.XVII.
[30] Salmo XVIII, 6: “Dá saltos como gigante a percorrer o seu caminho”.
[31] Regra, Capítulo VII “Da Humildade”.
[32] Isaías, LXII, 4: “Serás chamada: Minha vontade está nela”.
[33] Regra, Capítulo V“Da obediência”
[34] Provérbios, XXIII, 26
[35] S. Mateus, XIX, 21: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo e dá o seu valor aos pobres”.
[36] Regra. Capítulo XXXIII. “Se os monges devem possuir alguma coisa de próprio”: “absolutamente nada”.
[37] Ver adiante, capítulo IV, 4. “O espírito de pobreza”, p.
[38] Regra. Capítulo IV. “Quais são os instrumentos das boas obras”. 63º instrumento: “amar a castidade”.
[39] I S. Pedro, I, 22.
[40] Idem à nota 38
[41] Regra. Capítulo XLIII. “Dos que chegam tarde ao Ofício Divino ou à mesa”.
[42] Ibidem
[43] Père Muard. Constituições. Introdução, p. 6. - Alusão ao episódio em que Moisés orava sobre a montanha enquanto os hebreus lutavam na planície. Quando Moisés abaixava os braços, os hebreus começavam a perder a batalha e quando Moisés os mantinha elevados, os hebreus levavam a melhor sobre os seus inimigos (N. do T.).
[44] Regra. Capítulo X. “Como será celebrado no verão o louvor divino”.
[45] Estação - reunião dos monges em formação de procissão antes de entrar no coro para os ofícios (N. do T.).
[46] Regra. Capítulo XIX. “Da maneira de salmodiar.”
[47] Jeremias, XXXIII, 11
[48] Isaías, VI, 3.
[49] Regra. Capítulo 19. “Da maneira de salmodiar”
[50] Santo Agostinho. Enarrationes. P. L. XXXVII. 1817.
[51] Santo Agostinho. En. P. L. XXXVI. 693. Trata-se aqui da Igreja, Corpo Místico de Cristo (N. do T.).
[52] Regra. Capítulo 19. “Da maneira de salmodiar”
[53] Ibidem. Salmo XLVI, 8.
[54] Ibidem: “Tal seja a nossa presença na salmodia, que nossa mente concorde com nossa voz”.
[55] Lucas, XII, 49: “Eu vim trazer fogo à terra; e o que quero eu, senão que ele se acenda?”.
[56] Salmo LXVII, 33: “Cantai a Deus”.
[57] Salmo XCVII, 5: “Cantai salmos com cítara”.
[58] Regra. Capítulo XIII. “Como serão realizadas as Matinas...”: “Como canta a Igreja Romana”.
[59] Regra. Capítulo VII. “Da humildade”.
[60] Regra. Capítulo IV. “Quais são os instrumentos das boas obras”.
[61] Pe. Muard. Constituições. Capítulo XII, p. 74.
[62] Subjetivo aqui não se opõe a objetivo ou a realista, mas significa “o que pertence ao sujeito”. É sinônimo de pessoal (N. do T.).
[63] Salmo XXXIII, 9.
[64] Os métodos dizem respeito sobretudo ao primeiro grau da oração, que é a meditação. Em seguida é necessário deixá-los pouco a pouco, na medida em que a alma chega a uma maior simplicidade. Seria um erro obrigar os contemplativos a nunca deixarem a meditação e os métodos. Isto iria de encontro à ação de Deus nas almas (N. do T.).
[65] Regra. Capítulo XX. “Da reverência na oração”.
[66] Regra Capítulo LII “Do Oratório do Mosteiro”
[67] Regra. Prólogo: “Escuta, filho”.
[68] Regra. Capítulo XLVIII. “Do trabalho manual cotidiano”.
[69] Casta virgindade da verdade.
[70] Regra. Capítulo XLVIII. “Do trabalho manual cotidiano”.
[71] Ibidem.
[72] Regra. Capítulo LXVI. “Do porteiro do mosteiro”.
[73] Regra. Capítulo XLVIII.
[74] Pe. Muard. Constituições. Capítulo VI.
[75] Pe. Muard. Constituições. Capítulo IX, p. 52
[76] Ibidem, p. 53
[77] Pe. Muard. Constituições. Introdução, p.4.
[78] Ibidem, p.5.
[79] Ibidem, p.6.
[80] Ibidem, p.5.
[81] Regra. Capítulo XXXVIII. “Do leitor semanário”.
[82] Regra. Capítulo XXXIX. “Da medida da comida”.
[83] Pe. Muard. Constituições. Capítulo VIII, p.50
[84] Regra. Capítulo XXII. “Como devem dormir os monges“.
[85] Amor de Cristo
[86] Pe. Muard. Constituições. Capítulo IV.
[87] Regra. Capítulo VII. “Da humildade”.
[88] Pe. Muard. Constituições. Capítulo IV.
[89] Regra. Capítulo VII. “Da humildade”.
[90] Lamentações de Jeremias III, 28: “Sentar-se-á solitário e ficará em silêncio”.
[91] Regra. Capítulo VI. “Do silêncio”.
[92] Salmo XXXVIII,2.
[93].Capítulo VII. “Da humildade”.
[94] Pe. Muard. Constituições. Capítulo VII.
[95] Pe. Muard. Constituições. Capítulo VII.
[96] Regra. Capítulo XXXIII. “Se os monges devem possuir alguma coisa de próprio”.
[97] Demos graças a Deus.
[98] Regra. Capítulo XXXIII. “Se os monges devem possuir alguma coisa de próprio”.
[99] Pe. Muard. Constituições. Capítulo VI.
[100] Pe. Muard. Constituições. Introdução.
[101] Salmo LXXX ,11.
[102] “Ou sejam santos ou não sejam monges”.


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