segunda-feira, 14 de julho de 2014

REVOLUÇÃO FRANCESA - PARTE 6.

A Revolução Francesa e a Igreja - PARTE 6.
Por Quadrante

É comum afirmar que a Igreja Católica, imbuída de uma mentalidade obscurantista e autoritária, opôs-se aos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade pregados pela Revolução Francesa. Entretanto, um estudo mais aprofundado dos acontecimentos ocorridos na França durante esse conturbado período mostra que a realidade é bem mais complexa do que parece.
QUARTA ETAPA: A DIFÍCIL CONVIVÊNCIA

A nova Convenção eleita em 1795 espelhava claramente o descontentamento popular: 95% dos antigos deputados não conseguiram reeleger-se. No entanto, não chegava nem de longe a ser pró-católica, em parte por medo de se ver obrigada a devolver as propriedades eclesiásticas alienadas; sem muita margem de manobra quanto à religião, adotou a política de “vigiar o que não se pode reprimir”. Manteve as festas cívicas e a educação laica , e voltou a exigir um novo juramento de submissão e obediência às leis da República – “era uma mania!”, comenta Daniel-Rops –, desta vez de todos os cidadãos.



A guerra revolucionária na Bélgica
No entanto, se na França a perseguição estava refreada pela opinião pública vigilante, não acontecia o mesmo no exterior, por toda a parte aonde tinham chegado os exércitos franceses. Na Bélgica recém-anexada, renovaram-se entre 1796 e 1798 todas as medidas que já conhecemos: o cardeal Frankenberg foi deportado, a Universidade de Lovaina fechada, o culto católico proibido e as Ordens e Congregações religiosas suprimidas. Na Itália, o general Bonaparte infligia derrota sobre derrota aos Estados Pontifícios e à Áustria, sua coligada; pelo armistício de Bolonha, em 1796, e pelo posterior tratado de Tolentino, o papa Pio VI foi forçado a pagar cerca de cinqüenta milhões de ducados ao governo francês, além de se ver obrigado a ceder obras de arte, jóias e o antigo feudo de Avinhão. Por fim, pressionado pela Convenção, que queria descarregar no Papado a sua raiva contra o cristianismo, Napoleão tomou e saqueou Roma, mandou proclamar a república romana e levou Pio VI para o exílio em Florença e, mais tarde, na França. A Convenção, agora dividida em dois corpos, o Conselho “dos Quinhentos” (mais ou menos equivalente à Câmara dos Deputados) e o “dos Antigos” (mais ou menos equivalente ao Senado), tinha delegado o poder executivo a uma junta de cinco membros, o Diretório . Nas eleições de 1797, os monarquistas triunfaram, mas o Diretório deu um golpe de Estado a 4 de setembro e expulsou os deputados “brancos”. Impôs ainda um novo juramento, de “ódio à monarquia e à anarquia” – tratava-se decididamente de uma mania! –, que muitos sacerdotes não quiseram prestar porque exigia explicitamente o ódio. Em represália, renovaram-se todas as velhas leis anticatólicas: 1.500 sacerdotes franceses e 8.200 belgas foram deportados para a Guiana, de onde poucos voltariam; perseguiram-se os operários e camponeses que observavam o repouso dominical; e chegou-se ao requinte de proibir a venda de peixe nos dias de abstinência... Mas, desta vez, a “alegria” não foi longe, pois o Diretório carecia totalmente de respaldo popular. No ano seguinte, a Bélgica levantou-se em armas, e a 9 de novembro de 1799 um novo golpe desfez o Diretório, confiando o governo a uma “comissão consular executiva”: Sièyes, Roger Ducos e Napoleão Bonaparte. Era, enfim, o encerramento de um pesadelo que, para os católicos, durara quase dez anos. Quanto à Igreja, apesar dos horrores a que a tinha submetido, o vendaval da perseguição teve efeitos extremamente positivos. A Igreja Católica francesa ressurgiu purificada e renovada no seu fervor. As antigas tendências do galicanismo e do jansenismo praticamente desapareceram. A vinculação entre catolicismo e monarquia, tanto pela teoria do direito divino dos reis como pelo intervencionismo dos monarcas em assuntos da Igreja, desfez-se pouco a pouco nas consciências e na vida social. A freqüência dos sacramentos cresceu notavelmente entre o povo, de 1795 em diante, e as vicissitudes do século seguinte foram incapazes de neutralizar essa revitalização da fé. O Papa, cuja autoridade fora durante séculos contestada pela hierarquia eclesiástica francesa, se não explicitamente, ao menos na prática, surgiu como núcleo indubitável da fidelidade católica. Quando Pio VI foi conduzido através da França como prisioneiro, enormes multidões se agrupavam ao longo das estradas, rezando o terço e cantando, em desagravo pelo ultraje que lhe era feito. E o semi-cativeiro que teve de suportar até a sua morte, em 1802, foi suavizado e alegrado pelo carinho e pela devoção dos fiéis de todo o país.



À esquerda, no alto, Sièyes, e, logo abaixo, Roger Ducos, no centro Napoleão Bonaparte e à direita o Papa Pio VI

Fonte: A última ao Cadafalso, Gertrud von le Fort, Quadrante.
Tradução: Quadrante

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