segunda-feira, 14 de julho de 2014

REVOLUÇÃO FRANCESA - PARTE 4.

A Revolução Francesa e a Igreja - PARTE 4.
Por Quadrante

É comum afirmar que a Igreja Católica, imbuída de uma mentalidade obscurantista e autoritária, opôs-se aos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade pregados pela Revolução Francesa. Entretanto, um estudo mais aprofundado dos acontecimentos ocorridos na França durante esse conturbado período mostra que a realidade é bem mais complexa do que parece.

“Modo de fazer um padre jurar”, desenho satírico que faz referência aos que se negaram a prestar juramento: só se conseguiria levá-los a jurar erguendo-lhes a mão direita mediante uma roldana.


Em setembro, a Assembléia Constituinte – depois de cantar o hino Veni Creator Spiritus a fim de pedir luzes ao Espírito Santo... – passou a organizar a Igreja nacional, que logo receberia a alcunha de “constitucional”. Era preciso designar nada menos que oitenta novos bispos para as dioceses reorganizadas, praticamente todas sem titular juramentado, e mais de trinta mil párocos. A escolha, evidentemente, não podia ser lá muito criteriosa, mas chegou a haver entre os recém-recrutados alguns excelentes sacerdotes e administradores; de algum bispo, pôde-se mesmo dizer “que teria sido digno do seu cargo se não o tivesse usurpado”... Por outro lado, certo bispo constitucional exclamou com toda a franqueza, quando o censuraram pela mediocridade do seu clero: “Que havemos de fazer?! Quando não se tem cavalos, trabalha-se com asnos”...

Ordenar os bispos designados pela Assembléia depois da condenação papal significava pura e simplesmente consumar o cisma; uma vez mais, Talleyrand dispôs-se a fazer o serviço sujo e, no que seria o seu último ato eclesiástico, consagrou os primeiros bispos constitucionais. A transformação da Igreja francesa num mero “ministério da religião” parecia estar completa.

Um sacerdote “refratário” resumiu perfeitamente a situação numa brochura de circulação subterrânea: “A Assembléia Nacional constituiu-se em juiz e fonte da Sagrada Doutrina. Suprimiu a Igreja de Jesus Cristo na França, e não quer mais que uma igreja humana, formada pelos seus decretos”.


A queima da efígie de Pio VI no Palais-Royal, a 16 de abril de 1791 (gravura de Prieur, Museu Carnavalet)
Segunda etapa: a perseguição tolerada

No início, os refratários foram tolerados pelo governo, ao passo que os juramentados foram unanimemente desprezados pelo povo. Em muitos lugares, o pároco não-juramentado teve de ser substituído à força, mas os fiéis continuavam a recorrer a ele fora da igreja para confessar-se e receber os sacramentos, enquanto o seu colega constitucional tinha de contentar-se com pregar às moscas... e aos anticlericais da paróquia, lá presentes por obrigação política.

Gradualmente, porém, apertou-se o cerco: quando se tornou

conhecida a condenação papal, Pio VI foi queimado em efígie pelas ruas de Paris. Proibiram-se os não-juramentados de residir a menos de dez e depois vinte milhas da sede paroquial. Romperam-se as relações com a Santa Sé e fecharam-se as grandes escolas de teologia, a Sorbonne e o Colégio de Navarra. Transmitiram-se aos grupos jacobinos instruções discretas para “castigar” os padres antigos e os fiéis que recorressem a eles, enquanto a polícia recebia ordens de manter os olhos bem fechados ante esses abusos. Mas os católicos resolveram retribuir na mesma moeda e os incidentes multiplicaram-se por toda a parte, amargando os ânimos e acirrando as oposições.

A nova Assembléia Legislativa que assumiu a 1º. de outubro de 1792 apresentava um cunho mais marcadamente progressista e anticlerical, uma vez que os Clubes republicanos e jacobinos, que haviam organizado a eleição, tinham conseguido excluir os eleitores monarquistas e moderados. Somente 27 dentre os deputados eram eclesiásticos, 10 deles bispos, evidentemente juramentados, ao passo que havia, por exemplo, 150 advogados.

Desde o início, formaram-se três grandes grupos: a “direita”, que se chamava assim por ocupar os assentos da parte direita do plenário, era integrada sobretudo pelos Feuillants, conservadores que tendiam a apoiar uma monarquia constitucional, e pela Gironde, os nobres e burgueses republicanos, entre os quais havia muitos deístas ilustrados à Voltaire e Rousseau; a “esquerda”, que agrupava desde republicanos exaltados até socialistas , era dominada pela Montagne, os membros dos clubes mais radicais: jacobinos, cordeleiros, “raivosos” ( enragés )..., muitos dos quais eram ateus ou deístas fanáticos e não admitiam sequer a Igreja constitucional; e por fim, entre os dois pólos, o Marais, o grande “pântano” dos oportunistas e indecisos. Entre os deputados, Marat, Danton, Robespierre, Desmoulins...



Camille Desmoulins, Georges Danton e Maximilien Robespierre


Logo a primeira medida marcou o endurecimento da perseguição: estendeu-se a todos os clérigos, quer exercessem funções pastorais quer não, a obrigação de prestar o juramento no prazo de oito dias. A pena passava a ser a deportação. Como o rei se negasse a ratificar essa lei, mesmo depois de os sans-culottes terem invadido as Tulherias, massacrado o pelotão de suíços que lhe serviam de guarda pessoal, e ameaçado a sua família com as piores represálias, a causa dos sacerdotes refratários pareceu identificada com a da monarquia. A esquerda aproveitou para acenar com o espectro de um “iminente complô reacionário monárquico-clerical”, e as perseguições recrudesceram. Padres e religiosos foram presos em massa e encerrados em escolas e conventos; as comunidades religiosas que tinham sobrado foram fechadas na sua maioria e os seus membros, dispersados.

Pouco depois, rebentava a guerra com a Áustria e a Prússia, o que exasperou ainda mais os ânimos. Muitos dos exilados, entre eles a maior parte dos bispos depostos, apoiavam abertamente a invasão da França pela coalizão monarquista, o que fez com que se identificasse ainda mais a Igreja Católica com a monarquia: era nada mais nada menos que “traidora da pátria”. Uma fuzilada de decretos abateu-se sobre ela: proibiram-se os trajes talares e hábitos religiosos; suprimiram-se as últimas Ordens ainda existentes, as dedicadas ao ensino e aos hospitais; deu-se um prazo de quinze dias aos não-juramentados para que deixassem o país; e decretou-se que todo o refratário denunciado por apenas seis cidadãos seria deportado para a Guiana.

A esquerda aproveitou a situação de pânico para armar os elementos mais fiéis e formar com eles as Comunas Insurrecionais, espécie de corpos paramilitares precursores dos milicianos da Guerra Civil espanhola, dos “guardas vermelhos” de Mao-Tse-Tung edas FARC. Em setembro de 1792, uma onda de massacres varreu o país, deixando 1400 mortos, dentre os quais trezentos sacerdotes: os milicianos simplesmente invadiam os conventos e escolas que serviam de prisão e executavam quem encontrassem pela frente a golpes de cutelo, lançadas ou pauladas. Os conventos de Saint-Germain-des-Prés e do Carmo, em Paris, foram invadidos e todos os presos chacinados. No Carmo, a matança durou três dias ininterruptos. Em toda a França, depredaram-se igrejas e mosteiros. Era o início da perseguição aberta.

Concomitantemente, a vaga de sacerdotes refugiados atingia o auge. Se antes era um arroio que crescia pouco a pouco, agora atingia as proporções de enchente: no total, foram cerca de 40.000 os que cruzaram as fronteiras, na maioria a pé e na calada da noite. Distribuíram-se pelos Estados Pontifícios, pela Espanha e pela Suíça; os principados católicos da Alemanha, com medo de que o seu clero sofresse uma contaminação de “republicanismo”, não lhes concederam senão o direito de passagem; em contrapartida, a Holanda e a Inglaterra protestantes abriram-lhes largamente as portas, com autêntico espírito cristão. Muitas vezes os expatriados chegavam apenas com a roupa do corpo – certo bispo desembarcou em Dover apenas com uma calça esfarrapada e um chapéu de palha –, e tinham de sujeitar-se a ser tratados com desconfiança casmurra pelas autoridades; o povo simples, em contrapartida, recebeu-os com carinho e afeto, e desviveu-se por tratá-los bem.

Um dos efeitos mais paradoxais dessa perseguição foi que a presença dos refugiados na Inglaterra, que acolheu mais de 10.000 sacerdotes e 31 bispos, contribuiu para desfazer preconceitos seculares e criar uma atitude positiva para com o catolicismo romano, o que influiria poderosamente na restauração da hierarquia eclesiástica na Inglaterra uns cinqüenta anos mais tarde. William Pitt, primeiro-ministro, dizia em 1798: “Poucas pessoas esquecerão a piedade, o comportamento irrepreensível, a dolorosa paciência destes homens respeitáveis, lançados repentinamente a uma nação estrangeira, diferente pela sua religião, pela língua e pelos costumes. Eles granjearam o respeito e a simpatia de todo o mundo pela uniformidade de uma vida caracterizada pela piedade e pela decência”.



Os massacres de setembro
Terceira etapa: a descristianização oficial

Inicialmente assustada com os massacres de setembro, a Assembléia resolveu propor uma versão atenuada do juramento, que se limitava a exigir fidelidade aos princípios de Liberdade e Igualdade. Muitos bons sacerdotes e religiosos prestaram esse juramento, pensando que era suficientemente vago para não implicar nenhuma ofensa à fé; entre eles, por exemplo, M. Emery, antigo superior do Seminário de Saint-Sulpice, que residia sozinho no imenso casarão abandonado.


Luis XVI é guilhotinado pelos revolucionários
As sucessivas derrotas sofridas pelo exército francês no norte e no oeste aprofundaram nos deputados e no povo a “psicose do complô antipatriótico”. Na nova Assembléia , sob o impacto dessa psicose, cresceu a influência dos elementos radicais girondinos e montanheses. Dominada inicialmente pelos primeiros, a Assembléia proclamou a República e processou o rei , que se encontrava detido desde a invasão das Tulherias, por traição à pátria. Luís XVI, superando nos momentos finais a irresolução que o tinha caracterizado em vida, portou-se nobremente nesse transe, e foi executado a 21 de janeiro de 1793.


Fonte: A última ao Cadafalso, Gertrud von le Fort, Quadrante.
Tradução: Quadrante

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