domingo, 13 de julho de 2014

Nietzsche, o falso profeta.

Nietzsche
Por José Lino Currás Nieto

Filósofo cuja influência é marcante em nossos dias, Friedrich Nietzsche é conhecido por sua crítica à moral e à religião, por sua furiosa rebeldia contra os usos estabelecidos, e por sua exaltação do homem que quer valer-se por si mesmo. Aqui oferecemos um breve resumo de sua vida e das suas principais obras e uma curta análise da sua crítica à religião
NASCIMENTO E PRIMEIROS ESTUDOS

Friedrich Wilhelm Nietzsche nasce em 15 de outubro de 1844 em Rõcken, lugarejo da Saxônia perto de Leipzig. É importante assinalar desde já a tradição eclesiástica dos seus antepassados: não somente o seu pai foi pastor luterano, mas também os seus dois avôs, vários tios e alguns dos seus bisavós.

Quando o pai de Nietzsche morreu, a mãe, a irmã mais velha, Elisabeth, e ele, criança de poucos anos, deixaram Rõcken e mudaram-se para Naumburg. Não longe dessa cidade, na localidade de Pforta, o rapaz conseguiu uma bolsa para fazer os estudos de segundo grau. Na rígida escola daquela cidade, adquiriu os fundamentos da sua formação científica, a base do seu saber humanista e o domínio do latim e do grego. Apaixonou-se pela música, aprendeu a tocar piano e aprimorou a sua grande sensibilidade musical.

Mas ali despertou também o seu espírito rebelde, contestador dos valores recebidos, atitude que não abandonaria nunca. Criticava os métodos pedagógicos porque – pensava – não contribuíam para formar personalidades individuais, mas apenas homens-massa.

Sobretudo, porém, foi nessa época que nasceu nele a repulsa pela religião. Como veremos, o único cristianismo que Nietzsche conheceu foi o luteranismo do norte da Alemanha, ou seja, um cristianismo fortemente protestante nos seus postulados dogmáticos fundamentais: interpretação individual da Sagrada Escritura, desconfiança da razão e forte apelo aos aspectos emocionais como garantia da fé (que seria a única atitude humana capaz de ocasionar a salvação por parte de Deus), desconfiança radical da liberdade humana e conseqüente descrédito de todos os atos humanos, etc.

Na época do Nietzsche estudante, estava em voga no seio do luteranismo alemão a corrente chamada “protestantismo liberal” que, sob a influência da crítica iluminista do século anterior, chegava na prática a negar a divindade de Cristo e a transformar a religião cristã num conjunto de “bons sentimentos”. Essa atitude religiosa levou muitos pastores a perder a fé ou, pelo menos, a perder de vista a noção de um Deus pessoal. Nos meios populares, menos cultos, vigorava ainda o pietismo tradicional que, sem atacar as verdades básicas – a divindade de Cristo, a Redenção, a Santíssima Trindade –, identificava a fé com o sentimentalismo. Seja como for, o luteranismo em qualquer das suas vertentes será firmemente rejeitado por Nietzsche desde o início e com todas as suas forças.


ESTUDOS EM LEIPZEIG E ENCONTRO COM A FILOSOFIA

Numa confissão biográfica publicada no Ecce Homo, Nietzsche declara que nunca dedicou atenção aos problemas de Deus, da imortalidade da alma, etc. Diz:

“Deus, a imortalidade da alma, a salvação, o além, são puros conceitos aos quais eu não dediquei atenção nem tempo, nem sequer na minha mais tenra juventude, talvez por não ser suficientemente infantil para fazê-lo. Não considerava o ateísmo como um resultado, e menos ainda como um fato; para mim, o ateísmo é uma coisa instintiva. Sou demasiado curioso lt;...gt;, demasiado orgulhoso para contentar-me com uma resposta simplória. Deus é uma resposta simplória lt;...gt; para nós, os pensadores”(1).

Estas palavras surpreendem se recordarmos o ambiente permeado de religiosidade que rodeou os seus anos de infância e adolescência e o desejo que manifestou inicialmente de ser pastor. Parece que o nosso autor, para dizer o mínimo, interpreta de forma torcida o seu passado. Seja como for, o texto define o seu caráter, não já ateu, mas antiteísta (Nietzsche jamais tenta demonstrar que Deus não existe; quer que não exista, obriga-se a prescindir dEle forçando muitas expressões). Em todo o caso, se a sua recusa de Deus e do cristianismo se consuma na época dos estudos universitários, pode-se duvidar de que alguma vez tenha tido uma autêntica fé em Deus.

Concluídos os estudos em Pforta, abandona a escola para ingressar na Universidade. Conduzido pelo seu amigo Deussen, futuro filósofo e orientalista, dirige-se a Bonn e, em 1864, começa os estudos de Filologia clássica e de Teologia (esta última, mais por desejo da mãe, que desejava que continuasse a tradição eclesiástica familiar, do que por inclinação pessoal). No fim do primeiro semestre, abandona a Teologia e tem por isso o primeiro grande enfrentamento com a mãe.

Em 1865, muda-se para a Universidade de Leipzig, seguindo o professor e amigo Ritschl, nomeado catedrático desse instituto. Sob a sua orientação, entrega-se ao estudo da Antigüidade clássica através da Filologia. Nesse período, teve de incorporar-se ao exército quando rebentou a guerra entre a Prússia e a Áustria (1866), mas sofreu uma queda de cavalo durante a instrução militar e teve de ficar quase imobilizado por seis meses. Só em 1868 pôde prosseguir os estudos.

A dedicação à Filologia não o satisfazia plenamente. A inclinação pela Filosofia nasceu nele como vocação própria por ocasião da descoberta de Schopenhauer, quando num sebo de Leipzig comprou a obra O mundo como vontade e como representação. Leu com tal ardor o filósofo pessimista que este chegou a ser para o jovem estudante o mestre que o conduziu pelos caminhos de um radicalismo negativista e ateu, embora mais tarde viesse a separar-se dele e a criticar duramente muitos dos seus pontos de vista. Juntamente com Schopenhauer, também a obra de Lange, História do materialismo, influiu muito nele; e, sobretudo, as obras de Kant, que o convenceu de que a constituição íntima das coisas é uma ilusão e de que o tempo da metafísica, como conhecimento de uma verdade supra-sensível ou absoluta, teria passado.


PROFESSOR EM BASILÉIA. A AMIZADE COM WAGNER

Aos vinte e quatro anos de idade, e sem ter obtido o título de Doutor, foi nomeado professor de Filologia na Universidade de Basiléia, em boa parte devido à ajuda do amigo e professor Ritschl. A Faculdade de Filosofia de Leipzig concedeu-lhe o título de Doutor com base nos trabalhos já publicados, e Nietzsche começou a dar aulas e orientar alunos, apesar de se sentir profundamente insatisfeito naquele ambiente intelectual. Desejava mudar de cátedra e não o conseguia, e viu-se obrigado a converter a Filologia em meio e instrumento para as suas reflexões filosóficas. Os seus cursos nunca chegaram a ter grande aceitação: teve no máximo uma dúzia de alunos, e por vezes apenas dois ouvintes. Em breve, acabou por enxergar claramente que a sua obra pessoal não estava na Filologia, e menos ainda no ensino.

Durante os dez anos que passou em Basiléia, as relações com os colegas não foram demasiado estreitas, em boa parte devido ao seu temperamento solitário e polêmico. Apesar disso, cultivou algumas amizades duradouras com sábios e artistas, principalmente com o teólogo Friedrich Overbeck (1837-1905), professor de História da Igreja em Basiléia, personalidade estranha e complicada, com quem conviveu na mesma casa durante cinco anos e de quem foi amigo e confidente até o fim da vida.

Também foi muito amigo de Richard Wagner (1813-1883), que tinha conhecido em Leipzig em 1868 e por quem logo se sentira atraído. Quando chegou a Basiléia, Wagner vivia retirado na sua casa de campo de Tribschen, junto do lago de Lucerna. Nietzsche ia visitá-lo quase todos os fins de semana, mantendo com o compositor longas conversas sobre filosofia e arte. Ambos coincidiam no desejo de um novo ideal artístico e, sobretudo, de uma total renovação da cultura e da concepção da vida. Nos primeiros tempos dessa amizade, Wagner era rebelde e radical, seguia o panteísmo ateu de Schopenhauer e mantinha contacto com as tendências revolucionárias da esquerda hegeliana, principalmente com Feuerbach(2).

Mas os atritos com Wagner não demoraram. Quando o compositor, já famoso em toda a Alemanha, se transferiu para Bayreuth e inaugurou os festivais musicais, Nietzsche assistiu à audição do Parsifal, mas não a pôde suportar. Wagner, recém-convertido, fazia nessa obra a apologia da fé cristã, abandonando o radicalismo pagão da sua primeira época e aproximando-se do catolicismo. O pensador nunca lhe perdoou que se tivesse “prostrado diante da cruz cristã”, trocando o conceito pagão-clássico da vida pelo ideal de uma cultura cristã-germânica. Assim Wagner, que fora para ele o ideal do super-homem da nova cultura, transformou-se, após a conversão, num “comediante nato”, o representante da decadência alemã. E com a mesma paixão com que antes o elogiava, passou a combatê-lo.


ESCRITOS INICIAIS E CRISES DE SAÚDE

Os escritos iniciais de Nietzsche procedem da sua atividade docente. O primeiro, A origem da tragédia e o espírito da música (1871), foi concebido como uma grande obra sobre a estética dos clássicos gregos, abordando uma multiplicidade de aspectos. Trata-se de um livro inacabado, mas que contém já o esboço de muitas das idéias que desenvolverá posteriormente. Alguns filólogos famosos o atacaram duramente.

Do mesmo período é Considerações intempestivas ou inatuais, publicada por partes entre 1873 e 1876. Também é uma obra incompleta acerca de temas esparsos e polêmicos. Compreende um ataque ao teólogo contemporâneo David Strauss, bem como elogios à última obra de Schopenhauer, A antiga e a nova fé, e a Wagner, então ainda amigo dedicado.

No fim do período de Basiléia, escreve Humano, demasiado humano (1878), qualificado por ele mesmo como “um livro para espíritos livres” e dedicado à memória de Voltaire. É, com efeito, uma obra tipicamente nietzscheana, escrita em fragmentos, pensamentos ou aforismos que têm alguma relação entre si e recebem um título comum. As figuras de referência não são já Schopenhauer e Wagner, mas Descartes e Voltaire. O autor tenta libertar-se de todos os dogmatismos e de todos os preconceitos, e demonstra um profundo desprezo pela metafísica.

Em 1879, é obrigado a renunciar à cátedra de Basiléia por doença. Não se tratava de uma enfermidade nova, mas do agravamento dos sintomas que já experimentava nos tempos dos seus estudos em Pforta: reumatismo e fortes dores de cabeça com crises de cegueira. Pode-se dizer que Nietzsche é um doente crônico desde 1873, porque na sua correspondência queixa-se freqüentemente de vômitos, dores de cabeça e de estômago, depressões e náuseas que o obrigam a ficar de cama. Conta ter sofrido cento e oitenta crises graves só em 1879, o que o levou à beira do desespero.


A VIDA ERRANTE PELA EUROPA. NOVOS ESCRITOS

Ao demitir-se da Universidade na qualidade de catedrático, passa a receber da cidade de Basiléia uma pensão anual que será a base do seu sustento econômico nos anos vindouros e lhe permitirá dedicar-se unicamente a refletir e escrever. Começa então uma vida errante de uma cidade para outra, à procura de um clima benéfico para a sua saúde delicada. A partir desse momento, dividirá o seu tempo entre a riviera italiana ou francesa no inverno, Veneza na primavera e as montanhas da Suíça no verão, sobretudo a região do Alto Engadin, e curtas estadias com a família, em Naumburg.

Em Gênova termina Aurora (1881), amontoado de 574 aforismos sobre temas díspares, ligados por um fundo comum: a sua revolta contra a moral e o cristianismo que sustenta essa moral.

No verão do mesmo ano, caminhando à beira de um lago suíço, experimenta o que considera a “grande revelação”: a inspiração do “Zaratustra” e a idéia do “eterno retorno”, motivos dos livros posteriores. Em 1882, publica A gaia ciência, como continuação de Aurora, também em forma de aforismos, com um fundo radical e destrutivo de todos os valores vigentes. Nesta obra iniciam-se os temas da “morte de Deus” e do eterno retorno, que desenvolverá mais em Assim falou Zaratustra.

Prosseguindo nessa vida solitária, errante e doente, em abril de 1882 conhece Lou Andreas Salomé em Roma. Lou Salomé era uma jovem judia russa, ex-amante do poeta Rilke, atéia, discípula apaixonada de Freud e autora de várias obras. A sintonia entre ambos entusiasma Nietzsche, que, sem pensar muito, a pede em casamento. Surpreendida, Lou recusa amavelmente. Seguem-se diversos encontros com ela e com o amigo comum, Paul Rée, ao longo de viagens pela Suíça e Alemanha, e um novo pedido de casamento. A jovem russa recusa de novo (acabará por casar-se com Paul Rée), e separa-se definitivamente de Nietzsche em Leipzig. Depois dessa ruptura, Nietzsche tem fortes períodos de depressão e de desejos suicidas. São desse tempo alguns breves escritos fortemente antifeministas.

A primeira grande obra deste último período é Assim falou Zaratustra, que se vale do nome e da figura do profeta persa. Consta de quatro partes, escritas ao longo dos anos 1883 e 1885 entre a Itália e a Suíça. Trata-se de uma obra enigmática, composta de uma série de discursos do “profeta” acerca de temas muito variados, justapostos em confusa desordem e invariavelmente terminados com a fórmula “assim falou Zaratustra”. Nietzsche põe na boca de Zaratustra a proclamação da “morte de Deus”, do “eterno retorno de todas as coisas” e da aparição do super-homem, com a destruição de todos os valores sociais e morais vigentes até então.

Ninguém põe em dúvida a originalidade e a força poética desta obra, ou a energia expressiva de muitos dos seus pensamentos. Mas também é inegável que estamos diante de um Zaratustra bufão e histriônico, que delata o desequilíbrio mental do autor. Nietzsche exaltou este livro como uma obra-cume da literatura universal, chamada a substituir a Bíblia; em 1884, escrevia por exemplo a um amigo:

“Com este Zaratustra, acredito ter levado à perfeição o idioma alemão. Depois de Lutero e de Goethe, era preciso dar um terceiro passo”(3).

Quanto ao fundo filosófico, a obra segue a mesma linha de pensamento dos trabalhos anteriores, embora cada vez mais radical e explícita.

Nos anos seguintes, Nietzsche procura oferecer a sua filosofia ao mundo, pois considerava o Zaratustra apenas como “o vestíbulo” das suas idéias. No inverno de 1886, conclui em Nice Para além do bem e do mal. Prelúdio de uma filosofia do porvir, uma obra sombria, hipercrítica, pensada como um segundo volume para o Humano, demasiado humano. Nela prossegue com a sua crítica da religião, da filosofia, da política e, sobretudo, da moral.

No ano seguinte, 1887, conclui A genealogia da moral. Um escrito polêmico, que compreende três breves dissertações nas quais desenvolve a teoria, iniciada na obra anterior, da “moral dos escravos” e da “moral dos senhores”.

À medida que passam os anos, a sua paixão crítica torna-se mais violenta. Escreve e lucubra sem cessar, febrilmente, antecipando já o fim da sua vida lúcida. Em 1888, escreve O caso Wagner, O ocaso dos ídolos, Nietzsche contra Wagner e, principalmente, O Anticristo, ensaio de uma crítica do cristianismo, obra panfletária, para concluir com o Ecce Homo, um relato autobiográfico e confissão ao contrário, ou seja, uma defesa e exaltação de si próprio.

Os meses do outono de 1888 são também os últimos da sua vida consciente. Vivendo em Turim, esgotado e com crises nervosas, decide redigir uma suposta obra definitiva em quatro volumes, ordenando as anotações que vinha fazendo desde 1885. Se nunca fora capaz de escrever uma obra sistemática, menos ainda agora, em pleno período de prostração física e mental. Apenas deixou uma volumosa coleção de 1066 aforismos que intitulou A vontade de poder. Ensaio de uma transmutação de todos os valores, que seria publicada depois da sua morte.

A vida consciente de Nietzsche termina em 1889, após claros sintomas de desvario mental: esquece o seu domicílio, redige curtos bilhetes assinados como “Dionisos” ou “O Crucificado”, e a sua personalidade esfacela-se. No dia 3 de janeiro de 1889, cai sem sentidos numa rua de Turim; é trasladado semi-inconsciente para Basiléia e, na clínica psiquiátrica da Universidade, diagnosticam-lhe uma “paralisia mental progressiva” (sic), causa de loucura. Passa uns tempos na casa da mãe, em Naumburg, e quando ela morre, em 1897, é levado para Weimar, para perto da irmã. Morre a 25 de agosto de 1900 sem ter recuperado a razão, e é sepultado em Rõcken, a cidade onde nasceu.


A CRÍTICA À RELIGIÃO

A violenta crítica de Nietzsche à religião procede das suas leituras e reflexões sobre a situação cultural da Europa que ele conheceu, e, fundamentalmente – embora ele mesmo não o reconheça –, das suas raízes luteranas. Muitos autores assinalam que é precisamente a fúria dos seus ataques o que revela um autêntico pânico diante do que ele sabe ser realidade, mas que se recusa a priori a admitir(4).

Em A genealogia da moral(5), sugere que a idéia de Deus teria sido originada pelo medo: o medo primitivo dos antepassados e do seu poder teria levado gradualmente à transfiguração desses antepassados em deuses. Porém, o que verdadeiramente não tolera não é um deus qualquer, mas a noção do Deus cristão:

“Um Deus onisciente e onipotente que não se empenha em que as suas intenções sejam compreendidas pelas suas criaturas – poderá por acaso ser um Deus de bondade? Um Deus que, durante milhares de anos, tem permitido que continuem à solta inumeráveis dúvidas e escrúpulos, como se não tivessem importância para a salvação da humanidade, e que, no entanto, anuncia as mais terríveis conseqüências para todo aquele que interprete mal a sua verdade – não seria um Deus cruel?”(6).

Este texto, ao qual seria fácil acrescentar muitos outros do mesmo teor, deixa à mostra a raiz religiosa protestante de Nietzsche. Prescindindo do fato de que Deus sempre dá aos homens os meios de conhecerem a verdade, a sua alusão a “terríveis conseqüências” é tudo, menos católica.

Nietzsche não conheceu o conteúdo pleno da Revelação tal como é transmitida pela Igreja Católica, e, pelos seus escritos, fica claro que o seu estudo das religiões foi muito superficial. A severidade luterana, a sua desconfiança da liberdade, o temor servil de um Deus que tanto pode salvar como condenar, sempre arbitrariamente, subjaz com força nessas afirmações indignadas. Aqui não há o menor sinal da frutuosa interligação entre a fé e a razão que João Paulo II pôs de relevo com tanta profundidade e oportunidade na Encíclica Fides et ratio (7); aqui o homem lida com um Deus que não é considerado Pai, um Deus em quem não se confia, um Deus temido, não amado. Ora, não são poucos os sofrimentos que derivam, para Nietzsche como para qualquer homem, de uma noção equivocada de Deus.


A MORTE DE DEUS

Mas a principal objeção do pensador contra Deus é que seria contrário à vida como afirmação de si própria, como vontade de poder. Essa é a razão mais profunda, a verdadeira causa: para o homem poder afirmar a sua vida em todo o seu poder e liberdade, para ser capaz de elaborar valores e de vivê-los, é, segundo Nietzsche, absolutamente necessário suprimir Deus do horizonte, de forma a garantir que não mais influa nessa vida que é absolutamente nossa.

Para que a vida seja nossa, Deus não pode agir. Por isso, trata-se não apenas de esquecê-lo, mas de aniquilá-lo, de matá-lo. Já em A gaia ciência o escritor fala dos horizontes abertos pela notícia:

“Deus está morto; os nossos corações transbordam de gratidão, de admiração, de pressentimento e de expectativa. O horizonte aparece, finalmente, mais uma vez aberto, mesmo que tenhamos de admitir que não é brilhante; os nossos navios podem, por fim, sair para o mar, enfrentando qualquer perigo; todo o risco está agora ao alcance daquele que for prudente; o mar, o nosso mar, está novamente aberto diante de nós, e talvez nunca tenha existido um mar aberto dessa natureza” (8).

A notícia de que “Deus está morto” significa para Nietzsche, sem dúvida, que a vida está desprovida de um sentido claramente determinado. Daí a sua satisfação: podemos inventar os nossos próprios valores, podemos exercer ao máximo a vontade de poder, estamos a sós com o nosso risco e a nossa liberdade; somos, finalmente, homens.

Os que acreditam em Deus desprezam a vida, são decadentes e blasfemos da terra:

“Aconselho-vos, meus irmãos, a manter-vos fiéis à terra e a não acreditar naqueles que vos falam em esperanças para além da terra. Esses homens são envenenadores, quer o saibam, quer não”(9).

A afirmação de que Deus “morreu”, de que “foi assassinado” pelos homens, traz como conseqüência o desabamento de todos os valores nos quais a Europa se tinha baseado até então, e o pensador tem consciência disso. Zaratustra-Nietzsche anuncia uma revolução como jamais houve na História, uma terrível convulsão nos espíritos que abrirá passagem a uma nova ordem no mundo, comandada pelo fim das religiões e especialmente do cristianismo, criador de escravos e daquilo que ele chama “a moral do rebanho” (satisfeita, tranqüila e saciada na sua mediocridade). A morte de Deus, embora provoque esse apocalipse total, anuncia também o advento dos homens superiores, criadores eles mesmos dos seus valores, simbolizados na figura do super-homem.

Como já dissemos, é inútil tentar encontrar uma sistematização nestes pensamentos; até certo ponto, é possível falar de um fio que os une, mas apenas fragmentariamente, inserido aqui e ali nas suas obras. Esse fio é precisamente, mais do que o ateísmo, o antiteísmo de Nietzsche, radical e indiscutido desde os anos da Universidade: crer em Deus significa permitir que Outro me guie, me diga o que devo fazer, dite as leis da minha vida, marque o rumo dos meus passos. O nosso pensador dirá que isso me anula como pessoa, que me impede de viver a minha vida, de tomar as minhas próprias decisões e de criar os meus próprios valores.

A influência da única filosofia que ele conheceu, o racionalismo que vai de Descartes a Schopenhauer, passando por Kant e Hegel, aparece aqui em todo o seu vigor e reflete o problema mais profundo que Nietzsche enfrenta: se sou eu quem cria os valores, se, para viver dignamente, sou eu que devo decidir o que é verdadeiro e o que é falso, sem recorrer a nenhuma referência exterior nem superior a mim, isto é, se não podemos falar de transcendência (conceito que lhe provocava arrepios de indignação), então Deus torna-se inimigo da minha vida, de qualquer vida, e deve ser, não apenas esquecido, mas morto. Matar Deus é afirmar a minha vida, vida que eu perderia se acreditasse nEle.

Não há um único argumento nos escritos do pensador alemão dedicado a tentar demonstrar que Deus não exista. Para ele, trata-se de um axioma, e um axioma certamente arbitrário: tornado deus para si próprio, Nietzsche-Zaratustra “revela” o dogma da inexistência de Deus com autoridade autoconferida.


REFERÊNCIAS

(1) Ecce Homo, Edições de Ouro, São Paulo, s.d., “Por que sou tão discreto”, II, 1.
(2) Ludwig Feuerbach (1804-1872), filósofo, escreveu A essência do cristianismo e Lições sobre a essência da religião. Nessas obras, afirma que as realidades fundamentais e originárias são a natureza e o homem concreto; um dos seus aforismos prediletos era: “O homem é o que come” (em alemão: Der Mensch ist lt;égt; was er isst ). Qualquer realidade espiritual, Deus incluído, não seria senão uma pálida imagem, um reflexo apagado da natureza. Algumas idéias de Feuerbach foram copiadas e posteriormente desenvolvidas por Marx.
(3) Cit. em Frederick Copleston, Nietzsche, filósofo da cultura, Tavares Martins, Porto, 1972, pág. 186.
(4) Cfr., entre outros, Frederick Copleston, op. cit., e Rüdiger Safranski, Nietzsche, biografia de uma tragédia, Geração Editorial, São Paulo, 2001, passim.
(5) A genealogia da moral, Publicações Europa-América, Lisboa, 1978, págs. 106-108.
(6) Aurora, Publicações Europa-América, Lisboa, 1978, afor. 91.
(7) Cfr. João Paulo II, Carta Encíclica Fides et ratio, 14.09.1998.
(8) A gaia ciência, Abril, São Paulo, 1983, afor. 343.
(9) Assim falou Zaratustra, Abril, São Paulo, 1983, pág. 7.


Fonte: A Vontade de Poder. Nietzsche, hoje, Quadrante, 2004, pp. 14-31.

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