sexta-feira, 5 de julho de 2013

Quarta consideração dos sagrados santos Estigmas.

Quarta consideração dos sagrados santos Estigmas.

Quanto à quarta consideração, devemos saber que, depois que o verdadeiro amor de Cristo transformou perfeitamente São Francisco em Deus e na verdadeira imagem de Cristo crucificado, e tendo cumprido a quaresma de quarenta dias em honra de São Miguel Arcanjo no santo monte do Alverne, depois da solenidade de São Miguel desceu do monte o angélico homem São Francisco, com Frei Leão e um devoto aldeão, sobre cujo asno ele ia montado porque, por causa dos cravos dos pés, não podia andar bem a pé.

Então, tendo São Francisco descido do monte santo, como a fama de sua santidade tinha sido divulgada pela região e pelos pastores tinha sido espalhado como tinham visto o monte Alverne todo em chamas, o que era sinal de que algum grande milagre Deus tinha feito a São Francisco.

Quando o povo da região ouviu dizer que ele ia passando, todos vinham vê-lo, homens e mulheres, pequenos e grandes, os quais, todos com grande devoção e desejo, esforçavam-se por toca-lo e beijar-lhe as mãos. Como ele não podia negar-se à devoção do povo, embora tivesse as mãos enfaixadas, para ocultar melhor os sagrados santos estigmas enfaixava-os melhor e os cobria com as mangas, dando-lhes a beijar só os dedos descobertos.

Mas, ainda que ele procurasse esconder e ocultar o sacramento dos gloriosos Estigmas para fugir a toda ocasião de glória mundana, aprouve a Deus para a sua glória mostrar muitos milagres por virtude dos sagrados santos e gloriosos Estigmas, e especialmente naquela viagem do Alverne a Santa Maria dos Anjos, e depois muitíssimos em diversas partes do mundo, durante a sua vida e depois da sua morte, para que a sua oculta e maravilhosa virtude e a enorme caridade e misericórdia de Cristo para com ele, a quem as tinha dado maravilhosamente, se manifestasse ao mundo por claros e evidentes milagres, alguns dos quais vamos expor aqui.

Daí, aproximando-se São Francisco de uma vila que estava nos confins do condado de Arezzo, parou diante dele uma mulher chorando muito e tendo nos braços um filho que tinha oito anos, durante quatro dos quais tinha sido hidrópico. Ele estava deforme com o ventre tão inchado que, em pé, não podia ver os pés. Como a mulher pusesse o filho na sua frente, pedindo que orasse a Deus por ele, São Francisco colocou-se primeiro em oração e depois, feita a oração, pôs suas santas mãos sobre o ventre do menino. Todo inchaço se dissolveu de repente e ele ficou perfeitamente curado. Devolveu-o à sua mãe que, recebendo-o com enorme alegria e o levou para casa. Agradeceu a Deus e ao seu santo, e mostrava de boa vontade o filho curado a toda a região, que vinha à sua casa para vê-lo.

No mesmo dia São Francisco passou pelo burgo de San Sepolcro e, antes que se aproximasse do castelo, as turbas do castelo e das vilas foram ao seu encontro. Muitos deles andavam à sua frente com ramos de oliveira na mão, gritando forte: “Eis o santo, eis o santo!”. Pela devoção e a vontade que as pessoas tinham de toca-lo faziam grande tropel e aperto em cima dele. Mas ele, andando com a mente elevada e arrebatada em Deus pela contemplação, embora fosse tocado, segurado ou puxado, como uma pessoa insensível não sentiu nada do que se fazia ou dizia ao seu redor, nem percebeu que tinha passado por aquele castelo ou por aquela região.

Quando tinham passado o burgo e as pessoas tinham voltado para suas casas, tendo ele chegado a uma casa de leprosos para lá do burgo bem uma milha, voltando a si como se viesse de outro mundo, o contemplador perguntou ao companheiro: “Quando estaremos perto do burgo?”. Na verdade, a sua alma, fixa e arrebatada na contemplação das coisas celestiais, não tinha percebido nenhuma coisa terrena, nem a diversidade dos lugares e dos tempos, nem das pessoas que acorreram. E isso aconteceu outras vezes, como provaram por clara experiência os seus companheiros.

Naquela tarde São Francisco chegou ao lugar dos frades de Monte Casale, onde havia um frade tão cruelmente doente e tão horrivelmente atormentado pela doença, que o seu mal mais parecia tribulação e tormento do demônio que doença natural. Pois algumas vezes ele se jogava todo no chão com um enorme tremor e com espuma na boca, ora se lhe encolhiam todos os nervos dos membros do corpo, ora se estendiam, ora se dobravam; ora se retorcia. Ora a nuca se encostava nos calcanhares, jogava-se no alto e caía de repente de costas. Estando São Francisco à mesa e ouvindo os frades falarem sobre esse irmão tão miseravelmente doente e sem remédio, ficou com compaixão dele, pegou uma fatia do pão que estava comendo, fez em cima do sinal da santíssima cruz com suas santas mãos estigmatizadas e mandou-a ao frade doente. Quando ele a comeu ficou perfeitamente curado e nunca mais sofreu daquela doença.
Chegou a manhã seguinte, e São Francisco mandou dois dos frades que estavam no lugar para ficarem no Alverne. E mandou de volta com eles o aldeão que tinha vindo com ele atrás do asno, que lhe havia emprestado, querendo que voltasse com eles para sua casa.

Os frades foram com o dito aldeão e, entrando no condado de Arezzo, algumas pessoas da região viram-nos de longe e tiveram uma grande alegria pensando que fosse São Francisco, que tinha passado dois dias antes, pois uma de suas mulheres, que estava havia três dias dando à luz, e não podia parir, estava morrendo, e eles achavam que a teriam sã e salva se São Francisco pusesse sobre ela suas santas mãos.

Mas, quando os frades se aproximaram e eles viram que não era São Francisco, ficaram numa grande melancolia. Mas onde não estava o santo corporalmente, não faltou a sua fé. Coisa admirável! A mulher estava morrendo e já tinha os traços da morte. Eles perguntaram aos frades se tinham alguma coisa tocada pelas mãos santíssimas de São Francisco. Os frades pensaram, procuraram diligentemente e logo não encontraram nada que São Francisco tivesse tocado com suas aos mãos a não ser o cabresto do asno sobre o qual ele tinha vindo. Eles pegaram o cabresto com grande reverência e devoção e o puseram sobre o corpo da mulher. A mulher gritou chamando devotamente o nome de São Francisco e recomendando-se fielmente a ele. Para que mais? Assim que a mulher teve sobre ela o cabresto, foi subitamente libertada de todo perigo e deu à luz facilmente com grande gáudio e com alegria.

São Francisco, depois de ter ficado alguns dias no referido lugar, partiu e foi para Città di Castello: e eis que muitos cidadãos levaram para diante dele uma mulher endemoninhada havia muito tempo, e lhe rogaram humildemente pela sua libertação, pois ela, ora com urros dolorosos, ora com gritos cruéis, ora com um ladrar de cão, perturbava toda a região. Então São Francisco, tendo feito antes uma oração e fazendo sobre ela o sinal da santíssima cruz, mandou ao demônio que fosse embora dela. Ele saiu subitamente e deixou-a sã do corpo e do intelecto.

Como esse milagre foi divulgado no meio do povo, uma outra mulher, com grande fé, levou-lhe seu menino, doente grave de um cruel chaga e pediu-lhe devotamente que lhe aprouvesse fazer-lhe o sinal com suas mãos. Então São Francisco, aceitando a sua devoção, tomou o menino, tirou a faixa da chaga e o abençoou, fazendo três vezes o sinal da santíssima cruz sobre a chaga. Depois refez a faixa com suas mãos e o entregou à mãe. Como já era de noite, ela o colocou logo na cama para dormir. De manhã ela foi tirar o filho da cama e o encontrou sem a faixa, olhou e o achou tão perfeitamente curado como se nunca tivesse tido mal nenhum, a não ser que no lugar da chaga havia crescido a carne como se fosse uma rosa vermelha. E isso mais para o testemunho do milagre do que para sinal da chaga, pois a referida rosa, durando todo o tempo de sua vida, levava-o muitas vezes à devoção por São Francisco.
São Francisco demorou um mês naquela cidade, a pedido devoto dos cidadãos. Nesse tempo, fez muitos outros milagres. Depois partiu daí para ir a Santa Maria dos Anjos com Frei Leão e com um bom homem, que lhe emprestava o seu burrinho, sobre o qual São Francisco andava.

Aconteceu que, pelas más estradas e pelo grande frio, caminhando todo o dia eles não puderam chegar a lugar nenhum em que pudessem se albergar. Por isso, obrigados pela noite e pelo mau tempo, eles se abrigaram sob uma rocha escavada, para escapar da neve e da noite que estava chegando. Estando assim mal abrigado e mal coberto, o bom homem a quem pertencia o asno, e não podendo dormir por causa do frio (e não havia nenhum jeito de acender fogo), começou a queixar-se baixinho consigo mesmo e a chorar, e quase se queixava de São Francisco, que o havia levado a tal lugar.
Então São Francisco, ouvindo isso, ficou com pena dele. Em fervor de espírito, estendeu sua mão sobre ele e o tocou. Que admirável! Logo que o tocou com a mão acesa e furada pelo fogo do Serafim, desapareceu todo o frio e entrou nele tanto calor por dentro e por fora que lhe parecia estar perto da boca de uma fornalha ardente: por isso, confortado imediatamente na alma e no corpo, adormeceu e, como disse, dormiu mais suavemente naquela noite até a manhã, no meio das pedras e da neve, como nunca tinha dormido em sua própria cama.

No outro dia, continuaram a caminhar e chegaram a Santa Maria dos Anjos. Quando estavam perto, Frei Leão levantou os olhos para o alto, olhou para o santo lugar de Santa Maria dos Anjos e viu uma cruz belíssima, em que havia a figura do Crucificado, andando na frente de São Francisco, que a seguia. E assim, conforme a dita cruz andava diante do rosto de São Francisco que, quando ele parava, ela parava, e quando ele andava, ela também andava. E aquela cruz era de tamanho esplendor que não só resplandecia no rosto de São Francisco, mas até todo o caminho ao redor ficava iluminado, e durou até que São Francisco entrou no lugar de Santa Maria dos Anjos.

Quando São Francisco chegou com Frei Leão, foram recebidos pelos frades com a maior alegria e caridade. E daí em diante São Francisco morou a maior parte do tempo naquele lugar de Santa Maria dos Anjos até a morte. A fama de sua santidade e dos seus milagres se expandia continuamente, cada vez mais, pela Ordem e pelo mundo, embora ele, por sua grandíssima humildade, escondesse como podia os dons e as graças de Deus, chamando-se de grandíssimo pecador.

Uma vez Frei Leão ficou admirado com isso e pensou bobamente consigo mesmo: “Olha, esse daí se chama de grandíssimo pecador em público mas torna-se grande na Ordem, é honrado por Deus e em oculto nunca se confessa de pecado carnal. Será que ele é virgem?”. E começou a ficar com uma vontade muito grande de saber a verdade sobre isso, mas não ousava perguntar a São Francisco. Por isso, recorreu a Deus e, rogando-lhe insistentemente que o certificasse daquilo que queria saber, por muita oração mereceu ser ouvido, e foi certificado por uma visão de que São Francisco era virgem verdadeiramente no corpo. Pois viu na visão que São Francisco estava em um lugar alto e excelente, ao qual ninguém podia ir nem juntar-se a ele, e foi-lhe dito em espírito que aquele lugar tão alto e excelente significava em São Francisco a excelência da castidade virginal, que com razão convinha à carne que devia ser adornada pelos sagrados santos Estigmas de Cristo.

Como São Francisco percebeu que, por causa dos Estigmas, a força de seu corpo estava diminuindo cada vez mais, e não podia mais cuidar do governo da Ordem, apressou o Capítulo geral. Quando o Capítulo estava todo reunido, ele se desculpou humildemente diante dos frades pela impotência que não o deixava mais atender ao cuidado da Ordem, quanto à execução do generalato, embora não renunciasse ao cargo do generalato, pois não podia, uma vez que tinha sido feito geral pelo Papa, e por isso não podia deixar o cargo nem substituir sucessor sem expressa licença do Papa. Mas instituiu vigário seu Frei Pedro Cattani, recomendando-lhe, e aos ministros provinciais da Ordem afetuosamente, o mais que ele podia.

Feito isso, São Francisco, confortado em espírito, levantou os olhos e as mãos para o céu e disse assim: “A ti, Senhor meu Deus, eu te recomendo a tua família, que até agora confiaste a mim, e agora, pelas minhas enfermidades, não posso mais cuidar. Também a recomendo aos ministros provinciais: que eles tenham que te prestar contas no dia do juízo se algum frade perecer por sua negligência, por seu mau exemplo, ou por uma correção muito áspera”. Nessas palavras, como aprouve a Deus, todos os frades do Capítulo entenderam que estava falando dos estigmas quando se escusava pelas enfermidades. Por devoção, nenhum deles pôde deixar de chorar.
Daí em diante, deixou todo o cuidado e o governo da Ordem nas mãos do seu Vigário e dos ministros provinciais. E dizia: “Agora, desde que eu deixei o cuidado da Ordem por minhas doenças, não sou mais obrigado senão a orar a Deus pela nossa religião, e dar bom exemplo aos frades. E bem sei na verdade que, se ela me deixasse, o maior auxílio que eu podia dar à religião seria orar continuamente a Deus por ela, para que a defenda, governe e conserve”.

Ora, acontecia que São Francisco, como dissemos acima, se esforçava o mais que podia por esconder os sagrados santos estigmas e, depois que os recebeu, andava sempre e ficava com as mãos enfaixadas e com os pés calçados, mas não conseguiu fazer com que muitos irmãos não os vissem e tocassem, especialmente a do peito, que ele procurava esconder com mais diligência. Por isso um frade que o servia induziu-o com devota cautela a tirar a túnica para sacudir o pó.
Quando a tirou na frente dele, o frade viu claramente a chaga do lado e, pondo-lhe a mão no peito rapidamente, tocou-a com três dedos e percebeu sua quantidade e grandeza. De modo semelhante, seu Vigário viu-a naquele tempo. Mas quem se certificou mais claramente foi Frei Rufino, que era homem de grandíssima contemplação. Do qual São Francisco disse algumas vezes que não havia homem mais santo do que ele no mundo, e por sua santidade ele o amava intimamente e o satisfazia no que quisesse.

Esse Frei Rufino certificou de três modos a si mesmo e aos outros sobre os estigmas, e especialmente sobre o do peito. O primeiro foi que, devendo lavar suas bragas, que o santo usava tão grandes que, puxando-as bem para cima, cobria com elas a chaga do lado direito, o dito Frei Rufino as olhava e considerava diligentemente, e todas as vezes encontrava-as ensangüentadas do lado direito. Por isso ele percebia com certeza que era sangue que lhe saía da referida chaga. São Francisco repreendia-o por isso quando percebia que ele desenrolava a roupa para ver o referido sinal.
O segundo modo foi que o dito Frei Rufino, uma vez, esfregando os rins de São Francisco, escorregou a mão de propósito e colocou os dedos na chaga do peito. Pela grande dor que sentiu, São Francisco gritou forte: “Deus te perdoe, ó Frei Rufino. Por que fizeste isso?”.

O terceiro modo que, uma vez, ele pediu com muita insistência a São Francisco, por uma graça grandíssima, que lhe desse o seu hábito e pegasse o dele, por amor da caridade. Embora condescendendo de má vontade, o pai caridoso consentiu, deu-lhe o seu e pegou o dele. Então, ao tirar e pôr de novo, Frei Rufino viu com clareza a dita chaga.

De maneira semelhante, Frei Leão e muitos outros frades viram os ditos sagrados santos estigmas de São Francisco enquanto ele viveu. Embora esses frades, por sua santidade, fossem homens dignos de fé e de serem acreditados com uma só palavra, para afastar toda dúvida dos corações, juraram sobre o livro santo que as tinham visto claramente. Viram-nas também alguns Cardeais, que tinham com ele grande familiaridade, e por reverência dos ditos estigmas de São Francisco compuseram e fizeram belos e devotos hinos, antífonas e prosas. O sumo pontífice Alexandre papa, pregando ao povo, quando estavam presentes todos os cardeais (entre os quais o santo Frei Boaventura, que era cardeal), disse e afirmou que ele tinha visto com os seus olhos os sagrados santos estigmas de São Francisco, quando ele ainda estava vivo.
E dona Jacoba de Settesoli, de Roma, que era a maior senhora de Roma no seu tempo e era devotíssima de São Francisco, viu-os antes que ele morresse e, morto que foi, viu-os e os beijou muitas vezes com suma reverência, pois veio de Roma a Assis para a morte de São Francisco por divina revelação.

E foi deste modo. São Francisco, alguns dias antes de sua morte, esteve doente em Assis no palácio do Bispo, com alguns de seus companheiros. Apesar de toda a sua doença, ele cantava muitas vezes certos louvores de Cristo. Um dia, disse-lhe um de seus companheiros: “Pai, tu sabes que estes cidadãos têm grande fé em ti e te julgam um santo homem. Por isso podem pensar que, se tu és quem eles crêem, deverias, nesta enfermidade, pensar na morte e antes chorar que cantar, pois estás tão doente. E acha que o teu cantar e o nosso, que nos fazes fazer, é ouvido por muita gente do palácio e de fora, porque por ti este palácio está cercado por muitos homens armados que, com isso, poderiam ter um mau exemplo. Por isso eu acho, disse o frade, “que tu farias bem sair daqui e que nós voltássemos todos para Santa Maria dos Anjos, pois não estamos bem aqui, entre seculares”.

São Francisco respondeu: “Caríssimo frade, tu sabes que dois anos trás, quando estávamos em Foligno, Deus te revelou o termo de minha vida, e também o revelou a mim que, daqui a poucos dias, nesta doença, vai chegar esse termo. Na revelação Deus me fez certo da remissão de todos os meus pecados e da bem-aventurança do paraíso.Até ter a revelação, eu chorei a morte e meus pecados. Mas, depois que eu tive a revelação, estou tão cheio de alegria que já não posso chorar. Por isso, eu canto e vou cantar a Deus que me deu o bem da sua graça e me fez certo dos bens da glória do paraíso. Sobre a nossa partida daqui, eu estou de acordo e me agrada, mas deveis encontrar um jeito de me levar, porque, pela doença, eu não posso andar”. Então os frades tomaram-no nos braços e o levaram, acompanhados por muitos cidadãos.
Quando chegaram a um hospital que havia no caminho, São Francisco disse aos que o carregavam: “Ponde-me no chão e virai-me para a cidade”. Quando foi posto com o rosto virado para Assis, ele abençoou a cidade com muitas bênçãos, dizendo: “Que sejas abençoada por Deus, cidade santa, pois por ti muitas almas se salvarão e em ti vão morar muitos servos de Deus e muitos de ti serão escolhidos para o reino da vida eterna”. Ditas essas palavras, fez que o levassem adiante, a Santa Maria dos Anjos.
Quando chegaram a Santa Maria, levaram-no para a enfermaria e ali o puseram a repousar. Então São Francisco chamou um dos companheiros e lhe disse: “Caríssimo frade, Deus me revelou que desta enfermidade até tal dia eu vou passar desta vida. E tu sabes que dona Jacoba de Settesoli, devota caríssima da nossa Ordem ia ficar muito triste se soubesse da minha morte e não estivesse presente. Por isso, faze-a saber que, se quiser me ver vivo, venha aqui imediatamente”. O frade respondeu: “Muito bem, pai, porque, pela grande devoção que ela tem para contigo, seria muito inconveniente que ela não estivesse na tua morte”. São Francisco disse: “Então vai e traz tinteiro, pena e papel, e escreve como eu te disser”. Quando os trouxeram, São Francisco ditou a carta desta forma:

À senhora Jacoba, serva de Deus, Frei Francisco pobrezinho de Cristo saúda e deseja a companhia do Espírito Santo em nosso Senhor Jesus Cristo. Sabe, caríssima, que Cristo bendito, por sua santa graça, me revelou o fim de minha vida, que será em breve. Por isso, se me queres encontrar vivo, quando vires esta carta, move-te e vem para Santa Maria dos Anjos. Porque, se não vieres até tal dia, não poderás encontrar-me vivo. E traz contigo pano de cilício em que meu corpo seja envolvido, e a cera que é necessária para o sepultamento. Peço-te ainda que me tragas daquelas coisas para comer que costumavas dar-me quando eu estava doente em Roma.
Enquanto essa carta estava sendo escrita, foi revelado por Deus a São Francisco que dona Jacoba vinha a ele, já estava perto do lugar e trazia consigo todas aquelas coisas que ele mandara pedir pela carta. Quando teve essa revelação, São Francisco disse ao frade que escrevia a carta que não continuasse a escrever, porque não precisava, mas abandonasse a carta.

Os frades ficaram muito admirados com isso, porque nem acabou a carta nem queria que fosse mandada. Passado um pouco de tempo, bateram com força à porta do lugar e São Francisco mandou o porteiro ir abrir. Abrindo a porta, lá estava dona Jacoba, nobilíssima senhora de Roma, com dois de seus filhos senadores e com uma grande companhia de homens a cavalo. E foram para dentro.

E dona Jacoba foi direto à enfermaria e encontrou São Francisco. São Francisco teve muita alegria e consolação por sua vinda, e ela também quando o viu vivo e falando com ela. Então ela lhe contou como Deus lhe havia revelado em Roma, quando ela estava em oração, o termo breve de sua vida, e como ele devia mandar vê-la e pedir as coisas que ela disse que tinha trazido todas consigo. Mandou traze-las para São Francisco e as deu para que ele comesse. Quando ele comeu e ficou muito confortado, a senhora Jacoba ajoelhou-se aos pés de São Francisco, pegou aqueles santíssimos pés, marcados e ornados pelas chagas de Cristo e com um enorme excesso de devoção beijava-os e os banhava de lágrimas, de modo que aos frades que estavam ao redor parecia que estavam mesmo vendo a Madalena aos pés de Jesus Cristo, e de modo algum podiam separa-la.

Finalmente, depois de um bom tempo, levaram-na dali e lhe perguntaram como tinha vindo tão a tempo e trazendo todas as coisas que eram necessárias para a vida e o sepultamento de São Francisco. Dona Jacoba respondeu que, estando uma noite a orar em Roma, ouviu uma voz do céu que lhe disse: “Se queres encontrar São Francisco vivo, vai sem demora a Assis e leva contigo as coisas que costumas dar-lhe quando está doente e as coisas que lhe serão necessárias para o sepultamento”. “E eu fiz isso”, disse ela.

Então a dita senhora Jacoba ficou lá até que São Francisco passou desta vida e foi sepultado. No sepultamento prestou-lhe uma grandíssima honra, ela com toda a companhia, e fez todas as despesas do que foi preciso. Depois, voltando a Roma, daí a pouco tempo essa gentil senhora morreu santamente. Por devoção a São Francisco julgou-se e quis ser levada para ser sepultada em Santa Maria dos Anjos. E assim foi.
Para louvor de Jesus Cristo e do pobrezinho Francisco. Amém.

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