segunda-feira, 15 de abril de 2013

Pobreza e Riqueza na Igreja.


A IGREJA DOS POBRES

Dom Fernando Arêas Rifan*

O nosso Papa Francisco disse que escolheu o nome do “pobrezinho de Assis”, inspirado no conselho de Dom Cláudio Hummes: “Não se esqueça dos pobres!” “Ah, como eu queria uma Igreja pobre e para os pobres!”, disse ele aos jornalistas. Aliás, foi assim que São Francisco de Assis recuperou a credibilidade da Igreja.

Realmente, a mensagem evangélica é paradigmática: “O Reino (de Deus) pertence aos pobres e aos pequenos, isto é, aos que o acolheram com um coração humilde. Jesus é enviado para "evangelizar os pobres" (Lc 4,18). Declara-os bem-aventurados, pois "o Reino dos Céus é deles" (Mt 5,3); foi aos "pequenos" que o Pai se dignou revelar o que permanece escondido aos sábios e aos entendidos. Jesus compartilha a vida dos pobres desde a manjedoura até a cruz; conhece a fome, a sede e a indigência. Mais ainda: identifica-se com os pobres de todos os tipos e faz do amor ativo para com eles a condição para se entrar em seu Reino” (C. I. C. 544).

“Quando envergamos a nossa casula humilde pode fazer-nos bem sentir sobre os ombros e no coração o peso e o rosto do nosso povo fiel, dos nossos santos e dos nossos mártires, que são tantos neste tempo. fixemos agora o olhar na ação. O óleo precioso, que unge a cabeça de Aarão, não se limita a perfumá-lo a ele, mas espalha-se e atinge «as periferias». O Senhor dirá claramente que a sua unção é para os pobres, os presos, os doentes e quantos estão tristes e abandonados. A unção, amados irmãos, não é para nos perfumar a nós mesmos, e menos ainda para que a conservemos num frasco, pois o óleo tornar-se-ia rançoso... e o coração amargo” (Papa Francisco, Homilia da Missa Crismal, 28/3/2013).

A Igreja, seguindo o exemplo de Jesus, faz na sua evangelização a opção preferencial pelos pobres. Opção preferencial, mas não exclusiva, pois todos são chamados à salvação. A Igreja não despreza ninguém, os pobres, por serem os mais abandonados pela sociedade, e os ricos, os empresários, os que possuem bens e influência nesse mundo são sempre acolhidos: muitas vezes eles são até mais pobres e necessitados do que os que não têm bens materiais. Ademais, o dinheiro pode ser bem empregado, sobretudo em se tratando das coisas de Deus.Narra o Evangelho a passagem de Jesus na casa de Lázaro, quando Maria tomou um perfume precioso e caro e com ele ungiu os pés de Jesus. Judas se indignou e, diante do que julgava um desperdício, tomou a defesa dos pobres. Jesus, porém, defendeu o gesto de Maria: “Pobres, sempre os tereis entre vós. Mas a mim nem sempre me tereis!” (Jo 12, 3-8).

Jesus, nascendo e vivendo pobre, não discrimina ninguém: no seu presépio vemos pobres e ricos, pastores e reis. Todos são bem-vindos ao berço do “príncipe da paz”. Com seu exemplo, ele prega a humildade e não a soberba, a caridade e não a inveja, o desapego e não a ambição, a paz e não a luta de classes. A desigualdade, quando não é injusta, é natural e normal, podendo ser suavizada e superada pela prática das virtudes cristãs. Amemos e consolemos os pobres, os preferidos de Deus, sem lançarmos no coração deles a amargura da inveja e ambição.

A RIQUEZA DOS POBRES

Dom Fernando Arêas Rifan*
Em nosso último artigo falamos sobre a Igreja dos pobres. Agora falemos da sua riqueza. A riqueza dos pobres é a Igreja, sua rica doutrina e sua liturgia. As igrejas, os templos sagrados, são a casa dos pobres. Lá eles podem entrar sem serem impedidos. Lá eles podem se sentir bem, contemplar belas pinturas e arquiteturas, vasos sagrados, esplêndidas imagens, como não poderiam fazer em nenhuma outra casa ou palácio. Ali eles podem, pois é a casa deles.

A pobreza pessoal, que devemos cultivar, não significa que devemos empobrecer a liturgia. Pelo contrário, a beleza exterior da liturgia deve refletir a glória de Deus, como nos ensina o Papa Francisco: “As vestes sagradas do Sumo Sacerdote são ricas de simbolismos; um deles é o dos nomes dos filhos de Israel gravados nas pedras de ónix que adornavam as ombreiras do efod, do qual provém a nossa casula atual...” “beleza de tudo o que é litúrgico, que não se reduz ao adorno e bom gosto dos paramentos, mas é presença da glória do nosso Deus que resplandece no seu povo vivo e consolado”. (Hom. Missa Crismal, 28/3/2013).

O Santo Cura d’Ars, São João Maria Vianney, exemplo para todos os padres, amava a pobreza pessoal e os pobres. “Uma batina velha fica muito bem debaixo duma casula bonita”, dizia ele. Ao lado da sua pobreza individual, não media esforços em adquirir o que havia de mais rico e suntuoso para a casa de Deus e as cerimônias litúrgicas. Ele dizia que se os palácios dos reis são embelezados pela magnificência, com maior razão as Igrejas.

Quando Cardeal, o Papa Bento XVI, lamentando a atual crise litúrgica, comentava: “Depois do Concílio, muitos padres deliberadamente erigiram a dessacralização como um programa de ação, argumentando que o novo testamento aboliu o culto do templo; o véu do templo, que se rasgou de alto a baixo no momento da morte de Cristo sobre a cruz, seria, para alguns, o sinal do fim do sagrado... Animados por tais ideias, eles rejeitaram as vestes sagradas; tanto quanto puderam, eles despojaram as igrejas dos seus resplendores que lembram o sagrado; e eles reduziram a liturgia à linguagem e aos gestos da vida de todos os dias, por meio de saudações, de sinais de amizade e outros elementos” (Conferência aos Bispos chilenos, Santiago, 13/7/1988).

Falando sobre essa beleza da liturgia e respondendo às “acusações de ‘triunfalismo’, em nome das quais se jogou fora, com excessiva facilidade, muito da antiga solenidade litúrgica”, o então Cardeal Ratzinger explicava: “Não é triunfalismo, de forma alguma, a solenidade do culto com que a Igreja exprime a beleza de Deus, a alegria da fé, a vitória da verdade e da luz sobre o erro e as trevas. A riqueza litúrgica não é riqueza de uma casta sacerdotal; é riqueza de todos, também dos pobres, que, com efeito, a desejam e não se escandalizam absolutamente com ela. Toda a história da piedade popular mostra que mesmo os mais desprovidos sempre estiveram dispostos instintiva e espontaneamente a privar-se até mesmo do necessário, a fim de honrar, com a beleza, sem nenhuma avareza, ao seu Senhor e Deus” (Rapporto sulla Fede, 1985).


*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney.

http://domfernandorifan.blogspot.com.br/

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