sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Fioretti de São Francisco: capítulos 50, 51, 52, 53.

Capítulo 50
Como, dizendo missa em dia de finados,
Frei João do Alverne viu muitas almas libertadas do purgatório

Dizendo uma vez o dito Frei João a missa, no dia depois de Todos os Santos, por todas as almas dos mortos, conforme manda a Igreja, ofereceu com tanto afeto de caridade e com tanta piedade de compaixão aquele altíssimo sacramento; o qual pela sua eficácia as almas dos mortos desejam acima de todos os outros bens que por elas se possam fazer; que parecia todo ele se derreter pela doçura de piedade e de caridade fraterna. Pela qual coisa, naquela missa, levantando o corpo de Jesus Cristo e oferecendo-o a Deus Pai e rogando-lhe que, pelo amor do seu bendito filho Jesus Cristo, o qual, para resgatar as almas, fora dependurado na cruz, lhe aprouvesse libertar das penas do purgatório as almas dos mortos por ele criadas e resgatadas: imediatamente viu um número quase infinito de almas saírem do purgatório como inumeráveis faiscas de fogo que saíssem duma fogueira acesa, e viu subirem ao céu pelos méritos da paixão de Cristo, o qual todos os dias é oferecido pelos vivos e pelos mortos naquela sacratíssima hóstia digna de ser adorada in secula seculorum. Amém.

Capítulo 51
Do santo frade Tiago de Fallerone; e como, depois de morto,
apareceu a Frei João do Alverne

No tempo em que Frei Tiago de Fallerone, homem de grande santidade, estava gravemente enfermo no convento de Moliano, na custódia de Fermo, Frei João do Alverne, o qual vivia então no convento de Massa, sabendo de sua enfermidade, porque o amava como seu querido pai, pôs-se em oração por ele, pedindo devotamente a Deus com oração mental que ao dito Frei Tiago restituísse a saúde do corpo, se fosse melhor para sua alma. E estando nesta devota oração foi arrebatado em êxtase e viu no ar um grande exército de anjos e santos posto sobre a sua cela que era na floresta, com tanto esplendor, que toda a região circunvizinha estava iluminada.

E entre estes anjos viu Frei Tiago enfermo, por quem ele orava, envolto em cândidas vestes resplandecentes. Viu ainda entre eles o bem-aventurado Pai S. Francisco adornado dos sagrados estigmas de Cristo e de muita glória. Viu ainda e reconheceu a Frei Lúcido santo e a Frei Mateus, o antigo, do monte Rubiano, e mais outros frades, os quais nunca tinha visto nem conhecido nesta vida.

E olhando assim Frei João com grande satisfação aquele bendito cortejo de santos, foi-lhe revelado como certa a salvação da alma do dito frade enfermo e que daquela enfermidade devia morrer, mas não subitamente, e depois da morte devia ir ao paraíso, porque convinha um pouco purgar-se no purgatório Pela qual revelação Frei João teve tanta alegria pela salvação da alma, que da morte do corpo nada lastimava; mas com grande doçura de espírito o chamava em si mesmo dizendo: "Frei Tiago, doce pai meu; Frei Tiago, doce irmão meu; Frei Tiago, fidelíssimo servo e amigo de Deus; Frei Tiago, companheiro dos anjos e consócio dos bemaventurados"- E assim com esta certeza e gáudio tornou a si e logo partiu do convento e foi visitar o dito Frei Tiago em Moliano: e encontrando-o tão grave, que apenas podia falar, anunciou-lhe a morte do corpo e a salvação e a glória da alma, segundo a certeza que tinha pela divina revelação.

Pelo que Frei Tiago, todo alegre na alma e no semblante, o recebeu com grande letícia e riso venturoso, agradecendo-lhe a boa-nova que lhe trazia e a ele devotamente recomendando-se. Então Frei João lhe rogou instantemente que após morrer voltasse a ele para falar-lhe do seu estado; e Frei Tiago prometeu-lhe, se fosse da vontade de Deus. E ditas estas palavras, aproximando-se a hora do seu passamento, Frei Tiago começou a dizer devotamente aquele verso do Salmo: "Em paz na vida eterna adormecerei e repousarei".

E dito este verso, com venturosa e alegre face passou desta vida. E depois que ele foi enterrado, Frei João voltou ao convento de Massa e esperou a promessa de Frei Tiago de tornar a ele no dia que tinha dito. Mas orando no dito dia, apareceu-lhe Cristo com grande acompanhamento de anjos e santos, entre os quais não estava Frei Tiago. Pelo que Frei João, maravilhando-se muito, recomendou-o devotamente a Cristo. Depois, no dia seguinte, orando Frei João na floresta, apareceu-lhe Frei Tiago acompanhado daqueles anjos, todo glorioso e todo alegre, e disse-lhe Frei João: "Õ pai caríssimo, por que não voltaste a mim no dia em que me prometeste?" Respondeu Frei Tiago: "Porque tinha necessidade de alguma purgação; mas naquela mesma hora em que Cristo te apareceu e me recomendaste, Cristo te atendeu e me livrou de todas as penas.

E então eu apareci a Frei Tiago de Massa, leigo santo, o qual servia à missa e viu a hóstia consagrada, quando o padre a ergueu, convertida e mudada na forma de uma belíssima criança viva; e disse-lhe: 'Hoje com este menino me vou ao reino da vida eterna, ao qual ninguém pode ir sem ele"'.

E ditas estas palavras, Frei Tiago desapareceu e foi ao céu com toda aquela bemaventurada companhia de anjos, e Frei João ficou muito consolado. Morreu o dito Frei Tiago de Fallerone na vigília de S. Tiago apóstolo, no mês de julho, no sobredito convento de Moliano, no qual pelos seus méritos a divina bondade operou, depois de sua morte, muitos milagres.

Em louvor de Cristo. Amém.

Capítulo 52
Da visão de Frei João do Alverne, da qual conheceu toda a ordem da santa Trindade

O sobredito Frei João do Alverne, porque perfeitamente havia renunciado a todo deleite e consolação mundana e temporal, e em Deus havia posto todo o seu deleite e toda a sua esperança, a divina bondade lhe dera maravilhosas consolações e revelações, especialmente nas solenidades de Cristo.

Pelo que, aproximando-se uma vez a solenidade da Natividade de Cristo, na qual esperava de certo consolação pela doce humanidade de Jesus, o Espírito Santo pôs-lhe na alma tão grande e excessivo amor e fervor da caridade de Cristo, pela qual ele se tinha humilhado, tomando a nossa humanidade, que verdadeiramente lhe parecia ter sido tirada sua alma ao corpo e arder como uma fornalha. O qual ardor não podendo suportar se agoniava e se derretia inteiramente e gritava em altas vozes; porque, pelo ímpeto do Espírito Santo e pelo excessivo fervor do amor, ele não se podia conter de gritar.

E na hora em que aquele desmesurado fervor lhe vinha, com ele lhe vinha tão forte e certa a esperança de sua salvação, que por nada deste mundo acreditara que se então morresse devesse passar pelas penas do purgatório. E aquele amor lhe durou bem um meio ano, ainda que aquele excessivo fervor não fosse continuado, mas lhe viesse em certas horas do dia. E naquele tempo e depois recebeu maravilhosas e muitas visitas e consolações de Deus e muitas vezes foi arrebatado, como viu aquele frade o qual primeiramente escreveu estas coisas: entre as quais, uma noite ficou tão enlevado e arrebatado em Deus que viu nele, Criador, todas as coisas criadas e celestiais e terrenas com todas as suas perfeições e graus e ordens distintas.

E então conheceu claramente como cada coisa criada representava o seu Criador, e como Deus está sobre e dentro e fora e ao lado de todas as coisas criadas. E conheceu depois um Deus em três pessoas e três pessoas em um Deus, e a infinita caridade a qual fez o filho de Deus se encarnar, por obediência ao Pai.

E finalmente conheceu naquela visão como não há outra via pela qual a alma possa ir a Deus e ter a vida eterna, senão pelo Cristo bendito, o qual é caminho, verdade e vida da alma. Amém.

Capítulo 53
Como, dizendo a missa, Frei João do Alverne cai como se fosse morto

Ao dito Frei João no sobredito convento de Moliano, conforme contaram os frades que ai estavam presentes, sucedeu uma vez este caso admirável, que na primeira noite depois da oitava de S. Lourenço e dentro da Assunção de Nossa Senhora, tendo dito Matinas na igreja com os outros frades e sobrevindo nele a unção da divina graça, foi para o horto contemplar a paixão de Cristo e preparar-se com toda a devoção para celebrar a missa a qual lhe competia cantar pela manhã.

Estando na contemplação das palavras da consagração do corpo de Cristo e considerando a infinita caridade de Cristo pela qual quis não somente resgatar-nos com seu sangue precioso, mas ainda deixar-nos por cibo da nossa alma seu corpo e sangue digníssimo, começou-lhe a crescer com tanto fervor e tanta suavidade o amor do doce Jesus, que já não podia mais suportar sua alma outra doçura, mas gritava forte, e, como ébrio de espírito, não cessava de dizer consigo mesmo: "Hoc est corpus meum", porque, dizendo estas palavras, parecia-lhe ver Cristo bendito com a Virgem Maria e com uma multidão de anjos. E neste dizer o Espírito Santo esclarecia-lhe todos os profundos e altos mistérios daquele altíssimo sacramento. E aparecida que foi a aurora, ele entrou na igreja com aquele fervor de espírito, e com aquela ansiedade e com aquele dizer, sem pensar que fosse ouvido nem visto por ninguém; mas no coro estava um frade em oração, o qual via e ouvia tudo.

E não podendo naquele fervor conter-se pela abundância da divina graça, gritava em altas vozes; e assim esteve até à hora de dizer a missa; pelo que se foi preparar e subiu ao altar. E começando a missa, quanto mais prosseguia, tanto mais lhe crescia o amor de Cristo e aquele fervor da devoção com a qual lhe era dado um sentimento de Deus inefável, o qual ele mesmo não sabia nem podia depois exprimir com a lingua.

Pelo que, temendo que aquele fervor e sentimento de Deus crescesse tanto que lhe fosse preciso deixar a missa, ficou em grande perplexidade, e não sabia que partido tomar, se continuar a missa ou ficar esperando. Mas porque de outra vez lhe havia acontecido caso semelhante e o Senhor havia de tal modo temperado aquele fervor, que não lhe fora necessário deixar a missa, confiando poder assim fazer desta vez, com grande temor pôs-se a prosseguir a missa: e chegando ao Prefácio de Nossa Senhora, começou-lhe tanto a crescer a divina iluminação e a graciosa suavidade do amor de Deus, que chegando ao "Qui pridie", apenas podia suportar tanta suavidade e doçura.

Finalmente, chegando ao ato da consagração, e dita a metade das palavras sobre a hóstia, isto é, "Hoc est"; por maneira nenhuma podia ir além, mas sempre repetia essas mesmas palavras "Hoc est": e a razão por que não podia prosseguir era que sentia e via a presença de Cristo com uma multidão de anjos, cuja majestade ele não podia suportar: e via que Cristo não entraria na hóstia ou que a hóstia não se transubstanciaria no corpo de Cristo se ele não proferisse a outra metade das palavras, isto é, "corpus meum".

Pelo que estando nesta ansiedade e não podendo ir adiante, o guardião e os outros frades e também muitos seculares que estavam na igreja ouvindo a missa aproximaram-se do altar e ficaram espantados vendo e considerando os atos de Frei João e muitos dentre eles choravam por devoção.

Por fim, depois de grande espaço, isto é, quando prouve a Deus, Frei João proferiu "corpus meum" em altas vozes; e subitamente a forma do pão esvaneceu-se e na hóstia apareceu Jesus Cristo bendito coroado e glorificado; e mostrou-lhe a humildade e caridade a qual o fez encarnar-se na Virgem Maria, e a qual o faz cada dia vir às mãos do sacerdote quando consagra a hóstia, pela qual coisa foi ele mais elevado na doçura da contemplação. Pelo que tendo elevado a hóstia e o cálice consagrado, foi arrebatado e sendo sua alma suspensa dos sentimentos corporais, seu corpo caiu para trás; e se não fosse sustentado pelo guardião, o qual estava atrás dele, teria caldo de costas no chão. E assim correndo os frades e os seculares que estavam na igreja, homens e mulheres, ele foi levado para a sacristia como morto, porque seu corpo estava frio como o corpo de um morto e os dedos de suas mãos estavam contraídos tão fortemente que nem mesmo se podiam distender ou mover.

E deste modo jazeu desfalecido, ou antes arroubado, até à Terça, e era no verão. E porque eu, o qual estava presente, desejava muito saber o que Deus tinha operado nele, logo que voltou a si dirigi-me a ele e pedi-lhe pela caridade de Deus que me contasse tudo. E ele, porque se confiava muito em mim, narrou-me tudo por ordem; e entre outras coisas me disse que, consagrando o corpo e o sangue de Jesus Cristo e diante dele, seu coração estava líquido como uma cera muito mole e sua carne parecia não ter ossos, de tal modo que quase não podia levantar o braço nem a mão para fazer o sinal-da-cruz sobre a hóstia e sobre o cálice.

Disse-me ainda que antes de se fazer padre fora-lhe revelado por Deus que devia desmaiar na missa; mas porque já tinha 'dito muitas missas e aquilo não lhe acontecera, pensava que a revelação não tivesse sido de Deus.

Contudo, talvez cinqüenta dias antes da Assunção de Nossa Senhora, na qual o sobredito caso adviera, ainda lhe fora por Deus revelado que aquele caso lhe devia advir por volta da dita festa da Assunção; mas depois não se recordou da dita revelação. Amém.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Infelizmente, devido ao alto grau de estupidez, hostilidade e de ignorância de tantos "comentaristas" (e nossa falta de tempo para refutar tantas imbecilidades), os comentários estão temporariamente suspensos.

Contribuições positivas com boas informações via formulário serão benvindas!

Regras para postagem de comentários:
-
1) Comentários com conteúdo e linguagem ofensivos não serão postados.
-
2) Polêmicas desnecessárias, soberba desmedida e extremos de ignorância serão solenemente ignorados.
-
3) Ataque a mensagem, não o mensageiro - utilize argumentos lógicos (observe o item 1 acima).
-
4) Aguarde a moderação quando houver (pode demorar dias ou semanas). Não espere uma resposta imediata.
-
5) Seu comentário pode ser apagado discricionariamente a qualquer momento.
-
6) Lembre-se da Caridade ao postar comentários.
-
7) Grato por sua visita!

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Gadget

Este conteúdo ainda não está disponível por conexões criptografadas.

Pesquisar: