sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Ao papa Eugenio, Da Consideração (1149-1152) [1] São Bernardo de Claraval

Ao papa Eugenio, Da Consideração (1149-1152) [1]
São Bernardo de Claraval (1090-1153)
Trad.: Prof. Dr. Ricardo da Costa (Ufes)





Prefácio

Irrompe em meu interior, beatíssimo papa Eugênio [2], um desejo incontido de ditar algo que te edifique, te deleite, te console. Mas vacilo entre fazê-lo ou não, pois duvido que possa sair de mim uma exortação livre e ao mesmo tempo moderada, já que me encontro como que envolto em uma luta entre duas forças contrárias: impulsionado pelo meu amor e contido pela tua majestade. Esta me inibe, aquela me urge.

Mas intervêm tua dignidade e tu não me ordenas simplesmente, mas te rebaixas para pedir-me quando deverias ordenar-me. Como meus pudores poderão ainda resistir, se tua própria majestade é tão deferente comigo? Não me coage o fato de ter ascendido à cátedra pontifícia, pois ainda que avance com grandes asas ao vento, não te faltará meu afeto. Pois o amor desconhece o domínio [3] e reconhece o filho, mesmo sob a tiara; o amor é submisso por natureza, obedece espontaneamente, concorda desinteressadamente, respeita generosamente.

Mas nem todos são assim, nem todos. Muitos se deixam levar pela cobiça ou pelo temor. Esses são os móveis que aparentemente te louvam, mas em seus corações lateja a maldade. Adulam-te com tuas blandícias, mas te abandonam na necessidade. E a caridade, essa nunca desaparecerá.

Eu, para te dizer a verdade, estou liberado dos meus ofícios maternais contigo, mas eles não me privaram o afeto, pois há muito te carrego em minhas vísceras, já que não é tão fácil me arrancarem um afeto tão íntimo. Tu podes ascender aos céus ou descer aos abismos, que nunca se separarás de mim: seguir-te-ei onde quer que vás. Amei o que era pobre em seu espírito; amarei o que é pai dos pobres e dos ricos. Conheci-te bem, e sei que não deixou de ser pobre no espírito, embora te tenham feito pai dos pobres. Confio que em ti se tenha realizado essa mudança, não [394] à tua custa. Tua promoção não conseguiu mudar tua condição anterior, mas somente sobrepor-se a ela. Assim, te admoestarei não como um mestre, mas como uma mãe, como quem ama. Talvez pareça loucura, mas será somente para aquele que não ama, nem sente a força do amor.

Livro I – Minhas condolências por tuas imensas ocupações

I.1. Por onde principio? Decido-me fazê-lo por tuas ocupações, pois são elas que maximamente me movem a condoer-me contigo. Digo condoer-me no caso de a ti também te doerem. Se não é assim, te diria que me doem, pois não posso falar de condolência quando o outro não sente a mesma dor. Portanto, se te doem, me condôo, se não, sinto maior pena ainda, porque um membro insensibilizado dificilmente poderá se recuperar, já que não há enfermidade mais perigosa que aquela que não se sente enfermo. Mas não sei se me ocorre suspeitar isso de ti.

Bem sei com que gosto até bem pouco tempo tu saboreavas as delícias de tua doce quietude. Não podes prescindir tão rapidamente delas; é impossível que não lamentes tua tão recente perda. Uma ferida recente dói muitíssimo, e não é possível que tenha criado um calo tão rápido, nem te creio capaz de ter ficado insensível em tão pouco tempo. Pelo contrário, se não dissimulas, te sobram razões para sofrer justificadamente as fadigas que o cotidiano te reserva. Não me engano se te digo que te arrancaram violentamente dos braços de tua querida Raquel [4], e que necessariamente tens que renovar essa dor quantas vezes tiver que suportá-la.

E quando te acontece isso? Sempre que tentas algo inutilmente sem poder terminar. Quantos esforços sem sucesso! Quantas dores de parto sem parir! Quantos afãs frustrados! Quantas coisas tu tens de abandonar, mal iniciadas! Quantos planos caem por terra depois de concebidos! “Chegaram os filhos até o colo do útero”, disse o profeta [5], [395] “e não há força suficiente para fazê-los nascer”. Já não o experimentastes? Ninguém sabe melhor que tu. Tuas faculdades mentais deveriam ter-se debilitado, ou deverias ser como a novilha de Efraim, que trilhava com gosto [6], se é que te acomodastes à tua situação sem qualquer preocupação. Desejo-te sinceramente a paz, mas não uma paz que nasça de teu conformismo. Seria muito alarmante para mim que tu gozasses dessa paz. Estranhar-te-ias chegar a esse extremo? Asseguro-te que é possível; ordinariamente a força do costume leva à despreocupação.

Os perigos das ocupações excessivas

II.2. Não confie demasiadamente no desgosto que agora sentes. Não há nada tão arraigado no ânimo que não perca sua força com a negligência e o tempo. A calosidade termina encobrindo uma velha ferida já esquecida. Por isso, o insanável é o insensível, a dor mais aguda e contínua cede de intensidade e, mesmo que os remédios não a amorteçam, ela cede por si, desaparece com as medicinas, ou adormece por sua própria agudeza. Há algo que a assiduidade não mude? A rotina nos relaxa, pois nada resiste à contínua repetição. Quantos, devido à inércia do hábito, conseguiram encontrar doçura no que antes parecia amargo?

Assim confessava o justo, que lamentava: “O que minha alma se negava a tocar, veio a ser o alimento em minha enfermidade”. [7] No princípio, algumas coisas podem parecer insuportáveis, mas com o passar do tempo, se te acostumas a elas, não as julgarás tão pesadas; pouco depois, já te serão suportáveis; em seguida, não as notarás e, no fim, terminarão deleitáveis. Assim, paulatinamente, se chega à dureza do coração e, dela, à aversão. Dessa maneira, como te dizia, a dor mais grave e contínua extinguir-se-á, recobrando-se a saúde ou tornando-se insensível.

II.3. [396] Em outras palavras, isso é o que sempre temi de ti e o temo agora: que por ter diferido o remédio ao não poder suportar mais a dor, chegues a te abandonar irrevogável e desesperadamente ao perigo. Tenho medo, te confesso, que, em meio às tuas ocupações, que são tantas, por não poder esperar que nunca cheguem ao fim, tu acabes por endurecer a ti mesmo e, lentamente, percas a sensibilidade por uma dor tão justificada e saudável.

É muito prudente que pelo menos um tempo tu te subtraias das ocupações. Faça qualquer coisa, menos permitir que te arrastem e te levem para onde não queiras. Queres saber para onde? Para a dureza do coração – e não me perguntes o que é essa dureza de coração: se já não estremecestes, é porque já chegastes nela. Coração duro é aquele que não se espanta mais consigo mesmo, porque nem o adverte. Quem me interroga? Interroga o faraó. [8] Nunca um coração duro se salvou, a não ser que Deus, em Sua misericórdia, como disse o profeta, o converta em um coração de carne.

E quando é duro um coração? Quando não se rompe pela compunção, nem se abranda com a compaixão, nem se comove na oração; não cede ante as ameaças, nem se encrespa com os flagelos; é ingrato com os bens que recebe, desconfiado com os conselhos, cruel nos julgamentos, cínico diante do indecoroso, impávido ante os perigos, desumano com os homens, e temerário com o divino; dá as costas a tudo, o presente não lhe importa, não teme o futuro. É de coração duro o homem que, do passado, só recorda as injúrias que lhe fizeram; não se aproveita do presente e, do futuro, só imagina a maquinação da vingança. Em outras palavras: é de coração duro aquele que nem teme a Deus, nem respeita o homem.

Essas malditas ocupações podem te levar até esse extremo se, tal como iniciastes, continuarem absorvendo-te totalmente sem reservar-te nada para ti mesmo. Perdes o tempo e, se me permites ser para ti outro Jetro [9], te diria que te consomes em um trabalho estulto [397], com ocupações que são aflição para o espírito, enervamento da mente e perda da graça. O fruto de tantos afãs não se reduzirá a teias de aranha?

A infinitude e a indignidade de tuas ocupações

III.4. O que é estar desde a manhã até a véspera [10] presidindo litígios e escutando litigantes? Que cada dia lhe baste sua malícia! [11] Mas não te restam nem as noites livres. Apenas descansastes um pouco para que teu pobre corpo logo se recupere, e já tens que te levantar de novo para acudir a juízos. Um dia passa a outro seus pleitos e a noite traz à noite sua maldade. [12] Assim te falta tempo para respirar a bondade ou mesclar o trabalho com o descanso, e menos ainda um intervalo de ócio, mesmo que seja curto. Sei que tu também o deploras, mas inutilmente, se não fazes todo o possível para remediá-lo. Quisera que pelo menos o lamentasses, para que tão absorvente ocupação não te endureça. “Os feri e não sentiram dor”, diz Deus. [13] Que tu não sejas como eles! Identifique bem o que diz o justo e suas afeições: “Que forças me restam para resistir? Que destino eu espero para ter paciência? Sou tão resistente como a pedra? Por acaso minha carne é de bronze?” [14]

A paciência é uma magna virtude. Mas, neste caso, eu não gostaria que tu a tivesses. Há ocasiões em que é preferível saber impacientar-se. Não creio que aproves a paciência que Paulo se referia: “Com gosto suportai os insensatos, vós que sois sensatos”. [15] Se não me equivoco, há aqui uma claríssima ironia, não louvor, mas uma repreensão mordaz da mansuetude de alguns que, entregando-se aos pseudo-apóstolos e seduzidos por eles, toleram com falsa paciência que lhes arrastem a seus estranhos e depravados dogmas. Por isso acrescenta: “Suportais que vos escravizem”. [16]

A boa paciência não consiste [398] em consentir que te degradem até a escravidão, quando podes manter-te livre. Eu não gostaria que dissimulasses essa servidão que dia-a-dia te está oprimindo. Não sentir a própria e contínua vexação é um sintoma de um coração que se encontra embotado. “Os açoites te servirão de lição”, diz a Escritura [17], o que é verdade, mas somente se não são excessivos. Quando o são, nada ensinam, porque provocam repugnância. [18] Quando o ímpio chega ao fundo do mal, tudo despreza. [19] Desperta e fica alerta: que te horrorize o jugo que te cai por cima e te oprime com sua odiosa escravidão. [20]

Por acaso crês que, por servir a todos e não a um só, não és escravo? Não existe mais torpe nem mais grave servidão que a escravidão dos judeus, pois aonde vão eles a levam consigo, e em todas as partes ofendem seus senhores. Confessa também tu, por favor: onde te sentes livre? Onde te vês seguro? Onde és tu mesmo? Por todas as partes a confusão te segue, o tumulto te invade e o jugo de tua escravidão te oprime. [21]

IV.5. Não me respondas agora com as palavras do Apóstolo, que diz: “Sendo eu livre de todos, a todos me escravizei” [22], pois não podes aplicá-las a ti mesmo. Ele não servia aos homens como escravo para conseguir torpes aquisições. [23] Por acaso confluíam a ele de toda a orbe os ambiciosos, os avaros, os simoníacos, os sacrílegos, os concubinários, os incestuosos e outros monstros do gênero humano para conseguir ou conservar mediante sua autoridade apostólica honras eclesiásticas?

Fez-se servo de todos aquele homem cuja vida era Cristo, e para quem morrer era um lucro. [24] Assim, ele queria ganhar muitos para Cristo, mas não pretendia amontoar tesouros com sua avareza. Portanto, não podes tomar como modelo de tua servil conduta a Paulo pela sagacidade de seu zelo, nem por sua caridade tão livre quanto generosa. Seria muito mais digno para teu apostolado, mais saudável para a tua consciência, e mais frutuoso para a Igreja de Deus, se escutasses o mesmo Paulo quando diz: “Haveis sido resgatado por um preço muito elevado; não vos façais agora escravos dos homens”. [25]

Pode haver algo mais servil ou indigno de um sumo pontífice que [399] morrer por esses negócios e pessoas, e nem digo a cada dia, mas a toda hora? Assim, qual tempo nos resta para orar? Quantas horas reservamos para doutrinar os povos? [26] Como edificamos a Igreja? [27] O quanto meditamos a Lei? [28] É justo que trates diariamente no palácio as leis de Justiniano e não as do Senhor? Veja tu. A Lei do Senhor é imaculada e converte as almas. [29] Essas outras não são propriamente leis, mas pleitos e cavilações que subvertem o juízo. [30] E tu, pastor e bispo das almas, com qual mente podes tolerar que a lei seja sufocada pelo bulício dos litígios?

Estou certo que os escrúpulos te mordem por tanta perversidade. Até imagino que mais de uma vez serás obrigado a clamar ao Senhor, como o profeta: “Os iníquos me narraram suas fabulações, e não seguem a tua lei”. [31] E vens agora a atreve-te a dizer-me que gozas de liberdade sob deformante volume de tantos iniludíveis inconvenientes que não podes evitar. Porque se podes e não queres, estarias muito mais escravizado, por ser servo de uma vontade tão perversa como a tua. Ou será que não é escravo aquele dominado pela iniqüidade? É o maior de todos, mesmo que seja para ti uma indignidade maior ser dominado por outro homem que ser escravo de um vício. E o que é que mais importa: ser escravo por tua vontade ou forçosamente? A escravidão coagida é miserável, mas ainda mais miserável é a escravidão desejada. E tu me perguntas: “O que posso fazer?”. [32] Abster-te dessas ocupações. Tu responderás que é impossível, que mais fácil seria renunciar à posse da catedral. Isso seria o mais acertado se eu te exortasse a romper com elas, não a interrompê-las. [33]

Uma exortação bastante meticulosa

V.6. Escuta minha repreensão e meus conselhos. Se tu dedicas toda a tua vida e todo o teu saber às ações e não reservas nada à consideração, poderia eu felicitar-te? É por isso que não te felicito. [34] E ninguém que tenha escutado o que Salomão disse – “Aquele que modera sua atividade [400] se tornará sábio” [35] – pode fazê-lo, pois até as mesmas ocupações sairão ganhando se forem acompanhadas por um tempo dedicado à consideração.

E se tens a ilusão de ser tudo para todos, imitando aquele que se fez tudo para todos [36], louvo tua humanidade, se é plena. Mas como pode ser plena se te excluis dela? Tu és homem. [37] Assim, para que tua humanidade seja plena e integral, seu seio, que abarca a todos os homens, também deve acolher-te. Do contrário, de que serve – conforme a palavra do Senhor – ganhar a todos se te perdes a ti mesmo? [38] Então, já que todos te possuem, seja um dos que dispõem de ti.

Por que tens de ser o único que não se beneficia de teu próprio ofício? Até quando tu serás um alento fugaz que não retorna? [39] Quando darás audiência a ti mesmo entre tantos a quem acolhes? Tu deves a sábios e néscios [40] e só rechaças a ti? O estulto e o sábio [41], o escravo e o liberto [42], o rico e o pobre [43], o homem e a mulher [44], o velho e o jovem [45], o clérigo e o laico, o justo e o ímpio [46], todos dispõem de ti igualmente, todos bebem em teu coração como uma fonte pública, e só tu ficas com sede? Se é maldito aquele que dilapida sua herança, que será daquele que fica sem ele próprio? Rega as ruas com teu manancial [47], para que bebam nele homens, jumentos e animais [48], sem sequer excluir os camelos do criado de Abraão [49], mas que tu também bebas com eles do caudal de tua fonte. [50] E não a dividas com estranhos. [51] Ou será que tu és um estranho?

Para quem não és um estranho se o és para ti mesmo? Para quem é bom aquele que é cruel consigo mesmo? [52] Não te digo para que sejas sempre, nem te digo para que sejas pouco, mas pelo menos alguma vez que tu te voltes para ti mesmo. Mesmo que sejais como os demais, ou depois dos demais, sirva-te a ti mesmo. Qual indulgência é maior? Digo isso mais por exigência da indulgência [53] que da justiça, e acredito que sou mais indulgente contigo que o próprio Apóstolo. “É mais que conveniente” [54], tu dirás. Mas isso não me preocupa; o que mais dá se assim convém? Confio que tu não te conformarás com a minha meticulosa exortação, mas [401] a superarás. Melhor seria que tua generosidade superasse a minha audácia. Eu prefiro equivocar-me por timidez diante de tua majestade que por temeridade, e creio que é preferível admoestar o sábio, como o fiz, conforme o que está escrito: “ofereça ocasião ao sábio e serás ainda mais sábio”. [55]

O que parece perfeito

VI.7. Além disso, ouça o que o Apóstolo pensa a respeito: “Não há entre vós sábios alguém para poder julgar irmão e irmão?”. [56] E conclui: “Digo isso para ignonímia vossa. [57] Nos pleitos, tomai por juízes a essa gente que na Igreja é desprezada”. [58] Portanto, segundo o Apóstolo, usurpas indignamente para ti, Apostólico, um ofício vil, grau dos mais desprezíveis. E por isso, um bispo, instruindo a outro bispo, lhe dizia: “Ninguém que milita por Deus trata de negócios seculares”. [59] Mas eu sou mais condescendente contigo [60]; não te exijo tanto, unicamente o que na realidade está ao teu alcance.

Creio que, nesses tempos, os homens que litigam pelos bens materiais e que pedem justiça, não tolerariam que tu respondesses com uma reação parecida à do Senhor: “Oh, homem, quem me constituiu juiz entre vós?” [61] O que julgariam imediatamente de ti? Diriam: “Fala como se fosse um rústico e um imperito, ignorante que se esquece do que é o primado; desonra a suma e excelsa Sede, e detrata a dignidade apostólica.” Sim, o diriam, mas jamais poderiam demonstrar que algum apóstolo se havia constituído em juiz dos homens, especializado em pleitos sobre fronteiras ou divisão de heranças. [402]

O que li é que os apóstolos compareceram para serem julgados [62], mas nunca pude comprovar que se sentaram para atuar como juízes. [63] Isso eles farão um dia, que ainda não chegou. Ou por acaso o servo não se rebaixa em sua dignidade quando tenta ser maior que seu senhor? [64] Ou o discípulo, se deseja ser superior ao seu mestre? Ou mesmo o filho, se deseja transgredir os termos que lhe impuseram seus pais? [65] Quem me constituiu juiz? [66] Isso o disse Ele, Senhor e Mestre. [67] E pode agora sentir-se ofendido o servo ou o discípulo que não se erige em juiz universal?

Tampouco creio que possua um bom critério quem pensa que é indigno dos apóstolos e de seus sucessores carecer de competência para serem juízes em todo tipo de causas, quando somente receberam poder para as mais transcendentais. Por que não podem depreciar os juízos sobre míseras posses terrenas humanas aqueles que um dia julgarão os próprios anjos celestes? [68] Tu tens jurisdição sobre os crimes, não sobre as possessões; tu recebeste as chaves do reino dos céus [69] para excluir os prevaricadores, não aos possuidores de terras, para que saibais – afirma – que o Filho do Homem tem poder na terra para perdoar os pecados. [70]

Qual poder e dignidade te parece maior: perdoar os pecados [71] ou dividir as terras? Não há comparação. Já há juízes para esses assuntos ínfimos e terrenos, os reis e príncipes terrestres. Por que invades competências alheias? Como te atreves a colocar tua foice no trigo que não é teu? Não é porque tu sejas indigno, mas porque és indigno de ingerir-te em causas semelhantes, quando deves ocupar-te de realidades superiores. E se alguma vez assim o requerer um caso especial, convém que ouças não a mim, mas ao Apóstolo: “Se vós julgareis o mundo, sereis indigno das mínimas causas?”. [72]

VII.8. Mas uma coisa é cair acidentalmente nessas causas urgentes quando lhe premiam com razões, outra é entregar-se totalmente a elas, como se tratassem dos assuntos mais importantes e que requeressem toda a nossa dedicação. Eu deveria recordar-te muitas outras razões, se expusesse todos os argumentos mais convincentes com os conselhos mais retos [403] e sinceros. Mas para que? Correm os dias maus [73] e, nesse ínterim, eu já o admoestei para que não te dês todo à ação, mas reserves algo de ti para a consideração, de teu coração e de teu tempo. E te digo isso pensando mais na necessidade que na eqüidade, embora não seja contra a eqüidade ceder ao que é necessário.

Da necessidade da consideração

Se é lícito fazer para si o que cremos mais conveniente, sempre e maximamente se deve preferir a piedade como um valor máximo [74], porque ela é útil para tudo. Assim irrefragavelmente mostra nossa razão. Perguntais-me o que é a piedade? Entregar-se à consideração. Talvez repliques que aqui discordo de quem define a piedade como o culto que se tributa a Deus. [75] Não rechaço essa posição. Se considerares bem, meu sentido, em parte, coincide com essa expressão verbal. Porque o mais pertinente ao culto de Deus é aquilo que nos pede o Salmo: “Cessai de trabalhar e vejais que eu sou Deus.” [76] E por acaso não é nisso que precisamente consiste a consideração?

Além disso, será que há algo mais útil para tudo, que saber antecipar-se benigmamente à própria ação, ordenando de antemão o que se deve fazer mediante uma eficaz previsão? [77] Isso é necessário. Do contrário, coisas que poderiam ter sido previstas e premeditadas com vantajosa antecipação, são levadas a cabo com muito risco por serem feitas com precipitação. E eu não duvido que isso tenha ocorrido com freqüência contigo; recordais, caso negativo, os processos dos pleitos, os assuntos mais importantes e as decisões mais comprometidas.

O que primeiro purifica a consideração é sua própria fonte, isto é, a mente, da qual se origina. Além disso, ela rege os afetos, dirige os atos, corrige os excessos, modera a conduta, ordena e torna honesta a vida, além de dar ciência do conhecimento humano e dos mistérios divinos.

É a consideração quem põe ordem no que está confuso, concilia o incompatível, reúne o disperso, penetra no secreto, encontra a verdade, examina a similitude de verdade e explora o fingimento dissimulado. A consideração prevê o que deve ser feito, e reflete sobre o que foi feito. Assim, não fica na mente nenhum resíduo de incorreção, nem nada que deva ser corrigido. Pela consideração se pressente a adversidade na prosperidade, tal como dita a prudência, e, graças à fortaleza, quase não são sentidos os infortúnios.

VIII.9. Deveis também observar a suavíssima harmonia, a conexão que existe entre as virtudes e sua mútua interdependência. Agora mesmo acabas de contemplar a prudência como mãe da fortaleza. E o que não nasce da prudência será uma ousadia da temeridade, não um impulso da fortaleza. É também a prudência quem, fazendo-se de mediadora entre a voluptuosidade e a necessidade, as arbitra dentro de seus próprios limites, porque determina e proporciona o que basta para satisfazer à necessidade, e corta todo o excesso ao deleite. Assim, nasce uma terceira virtude, que chamamos temperança.

E é precisamente a consideração quem nos permite descobrir a destemperança, tanto se nos empenhamos em nos privarmos do necessário, quanto se nos indulgenciamos com a superfluidade. Pois a temperança não consiste unicamente em nos abstermos do supérfluo, mas também em admitirmos o necessário. O Apóstolo, além de secundar essa idéia, é seu próprio autor, quando sentencia a não andarmos solícitos para que a carne cumpra seus desejos. Ao pedir-nos para que “não andemos solícitos pela carne” [78], nos proíbe apetecer o supérfluo, e, ao acrescentar, “ao cumprir seus desejos”, não exclui o necessário. Por isso, penso que não será absurdo definir a temperança como a virtude que não fica aquém nem além da necessidade, conforme o filósofo: sem excessos. [79]

VIII.10. Passando para a virtude da justiça, uma das quatro cardeais, sabemos que antes de a mente formar-se nela, a consideração previamente a possuiu. Porque é necessário que primeiro se reúna em si para extrair de seu interior essa norma da justiça que consiste em não fazer ao outro o que não se deseja para si [80], e não negar aos demais o que um quer que lhe dêem. Sobre estes dois pólos gira toda a virtude da justiça. Mas ela nunca vai só.

A conveniência das quatro virtudes

Examina agora comigo a bela conexão e coerência da justiça com a temperança, e o que ambas têm com as outras duas virtudes superiores já mencionadas, a prudência e a fortaleza. Porque se a justiça é não fazer aos demais aquilo que não gostaríamos que nos fizessem, sua perfeição culmina no que nos diz o Senhor: “Tudo o que quereis que os outros fizessem por vós, fazei vós por eles”. [81] Mas não praticaremos nem um nem o outro se a própria vontade, onde se forja sua forma, não se dispor a rechaçar o supérfluo e a separá-lo do necessário com verdadeiro escrúpulo. Essa disposição é precisamente o que é específico da temperança. Inclusive a própria justiça, caso não queira deixar de ser justa, deverá ser regulada pela moderação dessa virtude. “Não exageres tua honradez”, diz o sábio [82], para indicar-nos que nunca devemos dar por bom o sentido do justo se ele não for moderado pelo freio da temperança. Nem a própria sabedoria desdenha este controle, pois não diz Paulo com o saber que Deus lhe deu “Não saber de si mais elevadamente do que convém saber, mas um saber com sobriedade”? [83]

Pelo contrário, a temperança igualmente necessita da justiça. O Senhor nos ensina isso no Evangelho [406], ao condenar a temperança dos que só jejuavam para ostentar diante das gentes seu jejum. [84] Observavam temperança no comer, mas não eram justos em sua alma, porque não tentavam ser prazerosos a Deus, mas aos homens [85].

E como possuir essa virtude ou a outra sem a fortaleza? Necessita-se de fortaleza, mas não de uma medíocre, para pretender coibir e rechaçar rigidamente a si mesmo, sem ficar aquém ou além, e assim coibir sua angústia interna, para que a vontade se mantenha no preciso termo médio, puro, só, constante, no próprio centro precisamente circunscrito. Não é nisso que consiste a fortaleza?

VIII.11. Diga-me, se podes, qual dessas três potentíssimas virtudes marcarias como esse termo médio. Não crês que é tão singular das três que parece ser exclusivo de cada uma? Não dirias que nesse termo médio, e nada mais, consiste toda a virtude? Mas então não haveria multiplicidade de virtudes, pois todas seriam uma. Mas não. O que ocorre é que não pode dar-se uma virtude que careça desse termo médio, que é o íntimo dinamismo e a medula de todas. Para ela todas revertem tão estreitamente que é como se parecessem uma singular virtude. Não porque a compartam repartindo-a, mas porque cada uma, prescindindo das demais, a possui inteiramente.

Darei um exemplo: não é a moderação o que é mais típico da justiça? Se algo escapa de seu controle, ela seria incapaz de atribuir a cada um tudo o que lhe corresponde, tal como o exige sua própria natureza. E, por sua vez, não se chama assim a temperança por não admitir o imoderado? O mesmo ocorre com a fortaleza. E é precisamente a propriedade dessa virtude salvar a temperança dos vícios que lhe assaltam por todas as partes para sufocá-la, defendendo-a com todas as suas forças até fortificá-la, como estável fundamento do bem e assento de todas as virtudes. Portanto, justiça, fortaleza e temperança têm esse meio justo.

Mas nem por isso elas carecem de diferenças: a justiça tem afeto, a fortaleza eficácia, a temperança modera a posse. Resta demonstrar como a prudência não se exclui dessa comunhão. [407] Ela é a primeira que descobre e reconhece esse justo meio, durante tanto tempo proposto por negligência da alma, recluso no mais recôndito pela inveja dos vícios, e encoberto pelas trevas do esquecimento. Por isso, te advirto que são pouquíssimos os que descobrem a prudência, pois poucos a possuem.

Portanto, a justiça busca o justo meio. A prudência o encontra, a fortaleza o defende, e a temperança o possui. Mas não era meu propósito tratar das virtudes. Se nisso me estendi, foi para exortar-te a te entregar à consideração, pois assim nos beneficiaremos com essas coisas, além de outras semelhantes. Pois não perderia a vida aquele que nunca se ocupasse desse santo ofício, tão religioso quanto benéfico?

A malícia de nossos dias

IX.12. Que sucederia se repentinamente te rendesses totalmente a essa filosofia? Teus predecessores não o fizeram. Para muitos lhe seria uma moléstia; seria como se, subitamente, te desviasses dos vestígios de teus pais e insultasses sua recordação. Aplicariam-te aquele vulgar provérbio: “Faz o que ninguém faz e todos te mirarão”, como se cobiçasses a admiração dos outros. Naturalmente não poderias subitamente corrigir todos os erros, nem moderar todos os excessos. Contudo, com o tempo [86] e a sabedoria que Deus te concedeu [87], conseguirás paulatinamente, se buscares as oportunidades. Sempre te será factível tirar partido de um mal alheio.

Se tomarmos o exemplo dos bons, não os mais recentes, encontraremos sumos exemplos de pontífices romanos que foram capazes de descobrir espaço para o ócio santo, embora estivessem imersos nos assuntos mais delicados. Era iminente o assédio da urbe, e a espada dos bárbaros caía sobre o pescoço de seus habitantes quando o beato papa Gregório não interrompeu seu ócio para redigir seus sábios comentários. [88] E foi justamente nessa obscura circunstância, como se deduz do Prefácio, [408] que ele diligente e elegantemente redigiu a última parte de seu tratado sobre Ezequiel.

X.13. De acordo. É certo que outras formas de vida fincaram raízes, e os tempos e os homens mudaram radicalmente. Não que novos perigos nos ameacem, pois já são uma realidade presente. A fraude, o engano e a violência se apoderaram da terra. Multiplicam-se os caluniadores, rareiam os defensores, e por todas as partes os poderosos oprimem os pobres. Não podemos desentender-nos com os oprimidos, nem negar-lhes o juízo da injúria pacientemente sofrida. [89] Mas como é possível fazer-lhes justiça se não se tramitam as causas e não se ouvem as partes litigantes?

Os advogados

Sim, as causas devem tramitar, mas como é devido, pois é execrável como os litígios são freqüentemente conduzidos, e nem digo dos fóruns eclesiais, e sim dos civis. Pasmo como teus religiosos ouvidos podem escutar as pugnas verbais e as disputas dos advogados, que mais servem para subverter a verdade que para descobri-la. [90]

Corrige a depravação, corta a língua vã e fecha os lábios dolosos [91], porque apuram sua eloqüência para servir ao engano [92], dissertar contra a justiça, e usar a erudição em favor da falsidade. São sábios em fazer o mal e eloqüentes em impugnar a verdade; instruem a quem deveria instruir-lhes, e não se baseiam na evidência, mas em suas invenções; caluniam o inocente, destroem a simplicidade da verdade, e obstruem o caminho da justiça.

Nada pode manifestar tão facilmente a verdade como uma narrativa breve e clara. Eu quero que tu te habitues a decidir com brevidade e diligência todas as causas que devem ser vistas por ti, que não precisam ser todas. E finda toda dilação fraudulenta e venal. Conduz tu pessoalmente as causas das viúvas [93] [409], do pobre e do insolvente. Muitas outras tu poderias passar para outros, e outras, não deves sequer considerá-las dignas de audiência. Pois para que perder tempo em escutar pessoas cujos pecados já se conhecem antes do juízo?

Os ambiciosos

Tamanho é o despudor de alguns, que conduzem aos tribunais suas ânsias de ambição, e manifestam seus pleitos com todas as luzes. Ousam apelar à consciência pública, quando bastava a sua própria para confundirem seus juízos. Não houve quem humilhasse suas frontes altivas [94] e, por isso, se multiplicaram, e se fizeram ainda mais soberbos. O que não sei é como estes homens de consciência corrompida não temem ser descobertos pelos que são tão depravados como eles. É que onde todos fedem, ninguém percebe seu fedor. Por exemplo: sente algum rubor o avaro diante do avaro, o imundo diante do imundo, o luxurioso diante do luxurioso? A Igreja está cheia de ambiciosos. Por isso, tu não podes nem mais horrorizar-te com as intrigas e os apetites dos ambiciosos, pois estás como em uma espelunca de ladrões [95], onde se contempla os espólios dos viajantes.

XI.14. Se és discípulo de Cristo, deveria consumir-te em zelo, e levantar-te com toda a tua autoridade contra semelhante impudência e peste geral. Contempla o mestre e escuta-o: “Se alguém quer servir-me, siga-me”. [96]

Ele não predispôs Seus ouvidos para escutá-los, mas fez um flagelo para golpeá-los; não deixou pronunciarem discursos, nem os admitiu; não se sentou no tribunal [97], mas os puniu. E não ocultou o motivo: converteram a casa de oração em uma de negociação. [98] Faz tu semelhante. [99] Que enrubesçam esses negociantes se for possível; caso contrário [410], que te temam, pois tu também tens o flagelo. Que temam os numerários, e que, ao invés de confiarem no dinheiro, que percam sua confiança; que escondam seu dinheiro de tua vista, cientes que preferes tirá-lo que recebê-lo.

Caso obres assim, com constância e dedicação, terás muitos lucros [100], conseguirás que vivam de ofícios mais honestos, e muitos não se atreverão a conceber negócios semelhantes.

Acrescento que tu ainda poderás dispor melhor desses tempos de férias que te aconselho. Encontrarás muitos momentos livres [101] para dedicá-los à consideração, se fores capaz de não conceder audiências para certos pleitos, remeter outros a outras pessoas, e resolver os que tu julgas dignos de tua intervenção com um informe breve, fiel, e apropriado à causa.

Sobre essa consideração penso extender-me mais, embora o faça em outro livro, para já concluir esse e não te resultar duplamente pesado por sua excessiva extensão e pela aspereza de meu estilo.

- Fim do Livro I -

Notas

[1] Tradução a partir da edição bilíngüe (latim-espanhol) Obras completas de San Bernardo II. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, MCMXCIV, p. 52-185. Em latim, consideratio é a ação de observar, refletir; considerare, o agir com reflexão; consideratus, ser prudente, atento, circunspecto, ter bom senso.

[2] Eugênio III, papa (1145-1153), discípulo de Bernardo de Claraval (1090-1153). Pier Bernardo Pignatelli nasceu em Montemagno, próximo a Pisa, de rica e nobre família cristã. Em 1135 ingressou na Ordem de Cister e, mais tarde, foi designado para abrir um mosteiro em Farfa (diocese de Viterbo). Como papa, enfrentou a difícil situação política italiana, em parte provocada por Arnaldo de Bréscia (c. 1105-1155), conhecido opositor papal. Após tomar conhecimento da queda de Edessa (1145), Eugênio III escreveu uma carta a Luís VII da França (1120-1180), convidando-o a tomar a cruz. Na Dieta de Speyer (1146), o imperador Conrado III (1093-1152), além de muitos nobres, também foram convencidos à peregrinação armada. Eugênio III governou a Igreja somente oito anos e cinco meses, e foi beatificado em 1872.

[3] Bernardo faz uma alusão aqui ao senhorio, centro territorial do poder feudal.

[4] Gn 29, 6ss.

[5] 4Reis (Vulgata), 19, 3.

[6] Os 10, 11.

[7] Jó 6, 7.

[8] Ex 7, 13.

[9] Ex 18, 18. Trata-se do sogro de Moisés.

[10] Isto é, seis da tarde.

[11] Mt 6, 34.

[12] Sl 19 (18), 3.

[13] Jr 5, 3.

[14] Jo 6, 11-12.

[15] 2Cor 11, 19.

[16] 2Cor 11, 20.

[17] Is 28, 19.

[18] Sl 118, 130.

[19] Pr 18, 3

[20] Gl 5, 1.

[21] Gl 5, 1.

[22] 1Cor 9, 19.

[23] Tt 1, 7.

[24] Fl 1, 21.

[25] 1Cor 7, 23 (“Alguém pagou alto preço pelo vosso resgate; não vos torneis escravos dos homens”).

[26] Lc 20, 1.

[27] 1Cor 14, 4.

[28] Sl 1, 2

[29] Sl 18, 8.

[30] Jo 34, 5.

[31] Sl 118, 85.

[32] At 9, 6.

[33] “Eugênio é exortado a não suportar que o escravizem. O papa deve resistir à maldade destas estultas ocupações através do clamor sincero a Deus. Bernardo o impele a reagir, pois a força do costume leva à despreocupação, e conseqüentemente à dureza de coração, ao pecado. Deve-se querer rechaçar o mal, fazê-lo retroceder, opondo-lhe tenazmente força contrária. Em ambiente tão nefasto, destaca-se a exortação de Bernardo à resistência. Nesse cenário, compreendemos o significado para o abade de Claraval do livre-arbítrio: ser coagido pela iniqüidade é menos miserável do que deixar-se dominar por ela. O permitir pressupõe escolha. E, mais do que isso, escolha consciente. Isso porque a decisão da vontade deve ser precedida de uma reflexão sobre se algo deve ser feito ou não, na ponderação dos motivos; a decisão final procede de um ato livre da vontade. Assim, o livre-arbítrio não é meramente autodeterminação, mas também auto-julgamento.”, SEPULCRI, Nayhara, e COSTA, Ricardo da. “Querer o bem para nós é próprio de Deus. Querer o mal só depende de nosso querer. Não querer o bem é totalmente diabólico: São Bernardo de Claraval (1090-1153) e o mal na Idade Média”. In: Anais do II Simpósio Internacional de Teologia e Ciências da Religião (ISSN 1981-285x - cd-rom), Belo Horizonte, ISTA/PUC Minas, 2007.

[34] 1Cor 11, 22.

[35] Ecl 38, 25.

[36] 1Cor 9, 22.

[37] Jo 10, 33.

[38] Mt 16, 26.

[39] Sl 77, 39.

[40] Rm 1, 14.

[41] Ecl 6, 8.

[42] Ef 6, 8.

[43] Pr 22, 2.

[44] Gn 1, 27.

[45] Ier 31, 13.

[46] Gn 18, 25.

[47] Pr 5, 16.

[48] Ion 3, 7.

[49] Gn 24, 14.

[50] Pr 5, 15.

[51] Pr 5, 17.

[52] Ecl 14, 5.

[53] 1Cor 7, 6.

[54] Rm 12, 3.

[55] Pr 9, 9.

[56] 1Cor 6, 5.

[57] 1Cor 6, 5.

[58] 1Cor 6, 4.

[59] 2Tm 2, 4.

[60] 1Cor 7, 28.

[61] Lc 12, 14.

[62] At 5, 27.

[63] Mt 19, 28.

[64] Jo 13, 16.

[65] Prov 22, 28.

[66] Lc 12, 14.

[67] Jo 13, 14.

[68] 1Cor 6, 3.

[69] Mt 16, 19.

[70] Mt 9, 6.

[71] Mt 9, 6.

[72] 1Cor 6, 2.

[73] Ef 5, 16.

[74] 1Tm 4, 8.

[75] Jo 28, 28.

[76] Sl 45, 11 (“Traqüilizai-vos e reconhecei: Eu sou Deus, mais alto que os povos, mais alto que a terra!”).

[77] 1Tm 4, 8 (“A pouco serve o exercício corporal, ao passo que a piedade é proveitosa a tudo, pois contém a promessa da vida presente e futura”).

[78] Rm 13, 14.

[79] ARISTÓTELES, Retórica, II, 12, 1389b. Nessa passagem, Aristóteles trata do caráter do jovem, e diz: “Em tudo pecam por excesso, e violência, contrariamente à máxima de Quílon: tudo fazem em excesso; amam em excesso, odeiam em excesso e em tudo o resto são excessivos; acham que sabem tudo e são obstinados (isto é a causa do seu excesso em tudo)”. O Estagirita cita Quílon (ou Quilão), o Lacedemônio, lendário personagem da história grega, um dos Sete Sábios, talvez vivido no século VI a.C. A máxima “nada em demasia”, atribuída a Quílon, segundo a tradição, figurava no Santuário de Delfos. Naturalmente Bernardo a cita como um bom exemplo de Aristóteles (chamado por ele e por todos os medievais de “O Filósofo”) a respeito da virtude da temperança.

Outro aspecto interessante dessa citação de Bernardo é o fato de a Retórica de Aristóteles só ter sido traduzida no ocidente medieval no século XIII: por Bartolomeu de Messina (da corte de Manfredo da Sicília), Guilherme de Moerbeke (1215-1286), arcebispo de Corinto e membro da ordem dos pregadores, e Herman, o Alemão (1266-1272), tradutor da Escola de Toledo, o que significa que muito provavelmente Bernardo fez sua citação a partir da leitura de outro autor que, por sua vez, citou a passagem de Aristóteles (talvez Cícero).

[80] Mt 7, 12 (“A regra de ouro – Tudo aquilo, portanto, que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles, pois esta é a Lei e os Profetas”). Na verdade, a passagem bíblica é positiva, pois Jesus inverte essa máxima de comportamento conhecida desde a Antigüidade, especialmente no Judaísmo (Tb, 4, 14-15 “Sê vigilante, meu filho, em todas as tuas ações e mostra-te educado em todo o teu comportamento. Não faças a ninguém o que não queres que te façam”), e a torna uma regra positiva, bem mais exigente que a máxima judaica. Por isso, Bernardo faz aqui, para sermos mais exatos, a citação da tradição vetero-testamentária, e só a seguir, e diz que a perfeição culmina com a sentença do Senhor.

Portanto, a tradição judaico-cristã está de acordo com a tradição platônica – Platão coloca a justiça como uma condição sine qua non para a boa convivência entre os homens (Protágoras, 322 b-c) – ao contrário de Aristóteles, que a circunscreve na adequação à Lei, e como aquela que propicia e mantêm a felicidade (Ética a Nicômano V, 1, 1129).

[81] Mt 7, 12.

[82] Ecl 7, 17.

[83] Rm 12, 3 (“Eu peço a cada um de vós que não tenha de si mesmo um conceito mais elevado do que convém, mas uma justa estima, ditada pela sabedoria, de acordo com a medida da fé que Deus dispensou a cada um.”).

[84] Mt 6, 16.

[85] Gl 1, 10.

[86] “No momento que eu tiver decidido, eu próprio vou julgar com retidão.”, Sl 74, 3.

[87] 2Pet 3, 15.

[88] Ecl 38, 25.

[89] Sl 102, 6; 145, 7.

[90] 1Tm 6, 4.

[91] Sl 11, 4.

[92] Jr 9, 5; Is 59, 3.

[93] Is 1, 23; Jr 5, 28.

[94] Hebr 7, 23.

[95] “Então Jesus entrou no Templo e expulsou todos os vendedores e compradores que lá estavam. Virou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas. E disse-lhes: ‘Está escrito: Minha casa será chamada casa de oração. Vós, porém, fazeis dela um covil de ladrões!’”, Mt 21, 12-13.

[96] Jo 12, 26.

[97] Is 16, 5.

[98] Mt 21, 13.

[99] Lc 10, 37.

[100] 1Cor 9, 19.

[101] Ef 5, 16; Col 4, 5.


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