sábado, 7 de julho de 2012

Legenda Perusina.

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O bem-aventurado Francisco, desde o tempo de sua conversão até o dia de sua morte sempre foi solícito, na saúde e na doença, por conhecer e seguir a vontade do Senhor.

[7]

Um dia um frade disse ao bem-aventurado Francisco: “Pai, tua vida e comportamento foram e são luz e espelho não só para teus frades mas para toda a Igreja de Deus, e o mesmo vai acontecer com tua morte; pois, embora para os teus frades e para muitos outros tua morte seja uma grande dor e tristeza, para ti será a maior consolação e um gozo infinito, porque passarás de muito trabalho para o maior descanso e de muitas dores e tentações para um gozo infinito, da tua maior pobreza, que sempre amaste e suportaste voluntariamente desde o começo de tua conversão até o dia de tua morte, para as maiores, verdadeiras e infinitas riqeuzas, da morte temporal para a vida sempiterna, onde verás sempre face as face o Senhor teu Deus (cfr. Gn 32,30; 1Cor 13,12), que contemplaste neste século com tanto fervor, desejo e amor”.

Dito isso, falou-lhe claramente: “Pai, saibas na verdade que, se Deus não mandar do céu o seu remédio para o teu corpo, tua doença é incurável e deves viver pouco, como também os médicos já disseram. Mas eu disse isso para confortar o teu espírito, para te alegrares sempre no Senhor interior e exteriormente, e principalmente para que teus frades e outros, que vêm te visitar te encontrem alegre no Senhor (cfr. Fp 4,4), porque sabem e crêem que vais morrer logo, que para eles que estão vendo isso e para os outros que ouvirem depois de tua morte, fique a tua morte como lembrança, como foram para todos tua vida e comportamento”. O bem-aventurado Francisco, mesmo sofrendo muito pelas enfermidades, louvou ao Senhor com grande fervor do espírito e alegria do corpo e da alma, e lhe disse: “Então, se devo morrer logo, chamai-me Frei Ângelo e Frei Leão, para que me cantem sobre a irmã morte”.

Esses frades se apresentaram diante dele e cantaram com muitas lágrimas o Cântico de Frei Sol e das outras criaturas ao Senhor, que o próprio santo fizera em sua doença para louvar o Senhor e para consolar sua alma e a dos outros, no qual canto colocou antes do último um verso sobre a irmã morte, a saber: Louvado sejas meu Senhor, por nossa irmã a morte corporal da qual nenhum homem vivo pode escapar. Ai de quem morrer em pecado mortal. Felizes os que ela encontrar em tuas santíssimas vontades, porque a morte segunda não lhes fará mal.

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Um dia o bem-aventurado Francisco chamou seus companheiros: “Vós sabeis como dona Jacoba de Settesoli foi e é para mim e para nossa Religião muito fiel e devota; por isso eu acho que, se a fizerdes saber meu estado, vai ter isso como uma grande graça e consolação; mas de maneira especial fazei saber que vos mande fazenda para uma túnica de pano religioso, que tenha côr de cinza, e é como o pano feito pelos monges cistercienses nos países ultramontanos; também mande daquela comida que fez para mim muitas vezes quando estive em Roma”. A tal comida é chamada pelos romanos de “mortariolum” (mostaciolo), feita de amêndoas e açucar ou mel e outras coisas.

Essa mulher espiritual era uma santa viúva dedicada a Deus, das mais nobres e ricas de toda Roma, que tinha recebido tamanha graça de Deus pelos méritos e pela pregação do bem-aventurado Francisco, que parecia uma outra Madalena, sempre cheia de lágrimas e de devoção por amor de Deus.

Tendo escrito a carta, como dissera o santo pai, um frade estava procurando encontrar um frade que levasse a carta, e de repente bateram à porta; e quando um frade abriu a porta, viu dona Jacoba, que viera depressa de Roma para visitar o bem-aventurado Francisco, e imediatamente o frade foi anunciar ao bem-aventurado Francisco, com a maior alegria, como dona Jacoba com seu filho e muitos outros viera para vistá-lo, e disse: “Que fazemos, pai? Deixamos que entre e venha a ti”? Pois por vontade do bem-aventurado Francisco tinha sido estabelecido naquele lugar, no tempo antigo, que nenhuma mulher devia entrar no recinto, pela honestidade e devoção daquele lugar. E o bem-aventurado Francisco disse: “Não devemos observar esse estatuto com essa senhora, que foi trazida até aqui lá de longe por tão grande fé e devoção”. E assim ela entrou onde estava o bem-aventurado Francisco, derramando diante dele muitas lágrimas. E foi admirável que ela trouxe consigo o pano mortuário, isto é, de côr cinzenta, para a túnica, e tudo que estava escrito na carta que era para mandar. Os frades ficaram muito admirados com isso, considerando a santidade do bem-aventurado Francisco.

A referida dona Jacoba até disse aos frades: “Irmãos, foi-me dito em espírito, quando estava rezando: Vá visitar teu pai, o bem-aventurado Francisco, depressa, sem tardar, porque se demorares muito não vais encontrá-lo vivo. Além disso, levarás tal pano para sua túncia e tais coisas, para que lhes faças uma comida; do mesmo jeito, leve também bastante cera para as velas e também incenso”.

O bem-aventurado Francisco não tinha mandado falar de incenso na carta; mas o Senhor quis inspirar aquela senhora para mercê e consolação de sua alma e para que nós conheçamos melhor como foi grande a santidade deste santo, que o Pai celeste quis honrar o pobre com tanta honra nos dias de sua morte. Aquele que inspirou os reis para irem com presentes para honrar seu dileto Filho nos dias de seu nascimento e de sua pobreza, quis inspirar aquela senhora nobre, em lugar afastado, para ir com presentes para venerar e honrar o glorioso e santo corpo de seu santo servo, que com tanto amor e fervor amou e seguiu a pobreza de seu dileto Filho na vida e na morte.

A senhora reparou um dia para o santo pai aquela comida que ele desejava comer; mas ele só comeu um pouquinho, porque a cada dia seu corpo estava definhando pela grave doença e estava ficando mais perto da morte. Da mesma forma, mandou fazer muitas velas, para ficarem ardendo diante de seu santo corpo depois de sua migração; e, com o pano que ela tinha trazido, os frades fizeram-lhe uma túnica, com a qual foi sepultado. E ele mesmo mandou que os frades costurassem saco sobre ela como sinal e exemplo da santíssima humildade e pobreza. E foi feito como agradou a Deus, pois naquela semana em que veio dona Jacoba, o bem-aventurado Francisco migrou para o Senhor.

[9]

O bem-aventurado Francisco, desde o começo de sua conversão, com a colaboração do Senhor, como um sábio colocou o fundamento de si mesmo e de sua casa sobre a pedra firme (cfr. Mt 7,24), isto é, sobre a máxima humildade e pobreza do Filho de Deus, chamando-a de Religião dos Frades Menores.

Sobre a máxima humildade: por isso, desde o começo da Religião, depois que os frades começaram a se multiplicar, quis que os frades permanecessem nos hospitais dos leprosos para servi-los; por isso, naquele tempo em que vinham para a Religião pobres e plebeus, entre outras coisas que lhes eram propostas dizia-se que tinham que servir aos leprosos e ficar em suas casas.

Sobre a máxima pobreza: como se diz na Regra, que os frades como forasteiros e peregrinos (cfr. 1Pd 2,11) fiquem nas casas em que moram, não queiram Ter nada embaixo do céu, a não ser a santa pobreza, pela qual são alimentados pelo Senhor neste século com alimentos corporais e com as virtudes, e no futuro vão conseguir a herança celeste.

Fundamentou a si mesmo sobre a máxima pobreza e humildade: porque, sendo um grande prelado na Igreja de Deus, quis e escolheu ser abjeto não só na Igreja de Deus mas também entre os seus irmãos.

[10]

Certa vez, quando estava pregando ao povo em Terni, na praça na frente do palácio do bispo, estava assistindo a esse sermão o bispo da cidade, homem discreto e espiritual. Daí, quando acabou a pregação, o bispo levantou-se e, entre outras palavras de Deus, também disse: “O Senhor, desde o começo, quando plantou e edificou a sua Igreja (cfr. Mt 16,18) sempre a fez brilhar por santos homens, que a cultivassem pela palavra e pelo exemplo. Mas agora, nesta última hora (cfr. 1Jo 2,18) ilustrou-a com este homem pobrezinho, desprezado e iletrado - apontando com o dedo o bem-aventurado Francisco para todo o povo -e por causa disso tendes que amar e honrar o Senhor, e tomar cuidado com os pecados, pois não fez assim com todas as nações (cfr. Sl 149,20)”.

Quando acabou a pregação, descendo do lugar onde tinha falado, [o senhor] bispo e o bem-aventurado Francisco entraram na igreja do palácio episcopal; então o bem-aventurado Francisco inclinou-se diante do senhor bispo e se prostrou aos seus pés (cfr. Mr 5,22) dizendo: “Na verdade eu te digo, senhor bispo, que homem algum jamais me deu tanto honra neste século quanto me fizeste hoje, porque as outras pessoas dizem: esse homem é santo! atribuindo a glória e a santidade à criatura e não ao Criador. Mas tu separaste o precioso do vil (cfr. Jr 15,19), como um homem discreto”.

Pois, muitas vezes, quando o bem-aventurado Francisco era honrado e diziam que ele era um santo homem, respondia essas palavras dizendo: “Ainda não estou seguro se não vou Ter filhos e filhas”. E dizia: “Pois, em qualquer hora que Deus quisesse me tirar o seu tesouro, que me emprestou, que é que me sobraria a não ser o corpo e alma, que também os infiéis possuem? Até devo crer que, se o Senhor desse a um ladrão e também a um homem infiel tantos bens quantos me deu, eles eriam mais fiéis ao Senhor”. E disse: “Como num quadro do Senhor e da bem-aventurada Virgem honram-se Deus e a bem-aventurada Virgem, e nos lembramos de Deus e da bem-aventurada Virgem: a tábua e a pintura não se atribuem nada, porque são apenas tábua e pintura, assim o servo de Deus é uma espécie de pintura, isto é, uma criatura de Deus, em que Deus é honrado por causa de um seu benefício, mas ele não se deve arrogar nada, como a tábua e pintura, mas só a Deus se deve dar honra e glória (cfr. 1Tm 1,17); a si mesmo vergonha e tribulação, enquanto vive, porque sempre, enquanto vive, a carne é contrária aos benefícios de Deus

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