sexta-feira, 30 de março de 2012

Espelho da Perfeição: capítulos LXXV a C.




QUARTA PARTE
Do zelo de Francisco pela observância da Regra e pelo bem da Ordem

CAPÍTULO 76
Como louvava a observância da Regra e desejava que os frades
a conhecessem e morressem professando-a

Perfeito zelador da observância do santo Evangelho, São Francisco desejava ardorosamente que todos observassem nossa Regra que, no seu entender, era o livro da vida, a. medula do Evangelho, e concedeu uma bênção especial aos que a cumprissem fielmente.

Dizia, com efeito, a seus discípulos que a Regra que professamos é o livro da vida, a esperança da salvação, a escada da glória, a medula do Evangelho, a senda da cruz, o estado da perfeição, a chave do paraíso e o pacto da eterna aliança. Desejava que a compreendessem e a conhecessem e que nas conversações discutissem sobre ela, a fim de reanimar os desencorajados, e que para trazer à memória os votos proferidos meditasse cada um sobre ela, atenta e freqüentemente.

Ensinou-lhes também que a tivessem sempre diante dos olhos como testemunho da vida que deviam levar e de sua observância. Mais ainda, ensinava e aconselhava seus frades a conservarem-na consigo até a morte.

CAPÍTULO 77
Como um santo Irmão leigo foi martirizado
com a Regra na mão

Certo irmão leigo, que acreditamos sem dúvida alguma ter sido admitido no coro dos mártires, não esqueceu este santo ensinamento e as admoestações de nosso santo pai. Tendo sido enviado aos infiéis, pois consumia-o o desejo do martírio, foi finalmente conduzido ao suplicio pelos sarracenos. Chegando ao lugar da execução, ajoelhou-se humildemente e, segurando a Regra com as duas mãos, disse com grande ardor a seu companheiro: "Caríssimo irmão, confesso-me culpado, na presença da divina majestade e diante de ti, de tudo que fiz contra nossa Regra". Apenas terminada esta breve e tocante confissão, a espada do verdugo pôs fim à sua existência e ele obteve a coroa do martírio. Este religioso entrou na Ordem quase criança; por isso suportava com ingente sacrifício os jejuns prescritos pela Regra.

CAPÍTULO 78
Como desejava que a Ordem permanecesse sempre sob a proteção
e a disciplina da Igreja

São Francisco costumava dizer: "Um dia terei de ir-me deste mundo, por isso confio a Ordem dos Frades Menores à santa Igreja Romana. Os malévolos serão amedrontados e repreendidos pelo azorrague de sua autoridade e os filhos de Deus fruirão por toda parte de inteira liberdade, para ganhar a salvação eterna. Que os filhos conheçam os doces benefícios de sua mãe e que sigam as suas pegadas veneráveis com particular devoção.

Sob esta proteção nenhum mal advirá à Ordem. Nenhum filho de Belial atravessará impunemente a vinha do Senhor. Pois até mesmo nossa santa Mãe (a Igreja) desejará imitar a glória de nossa pobreza e não permitirá que nossos votos de humildade sejam obscurecidos pela sombra do orgulho. Conservará intatos, entre nós, os bens da caridade e da paz e repreenderá severamente os que se afastarem de nossa forma de vida.

A santa observância da pureza evangélica será sempre florescente e a santa Igreja não permitirá que o perfume de nossa boa fama se perca, nem por urna hora sequer".

CAPÍTULO 79
Dos quatro privilégios que o Senhor concedeu à Ordem,
os quais foram revelados a São Francisco

O Seráfico Pai afirmava ter obtido do Senhor os quatro seguintes privilégios que lhe haviam sido revelados por um anjo:
A Ordem e o estado de frade menor não desapareceriam até o dia do juízo final; ninguém que perseguisse de modo proposital e deliberado a Ordem viveria longo tempo; ninguém que deliberadamente quisesse viver mal permaneceria na Ordem por muito tempo; quem amasse a Ordem de todo o coração, embora pecador, obteria a mi sericórdia final.

CAPÍTULO 80
Das qualidades que julgava necessárias ao ministro geral
e a seus companheiros

O zelo pela perfeição da Ordem era tão grande e a perfeita observância da Regra lhe parecia tão importante, que indagava sempre a si mesmo quem, após a sua morte, conviria para governar toda a Ordem e mantê-la, com a ajuda de Deus, na perfeita observância da Regra. Não encontrava ninguém idôneo para isto.

Ora, pouco antes de sua morte, certo religioso lhe disse: "Pai, brevemente irás para o Senhor e esta família que te seguiu vai ficar neste vale de lágrimas. Indica pois, se tu o conheces na Ordem, aquele em quem teu espírito possa confiar e seja digno de ocupar o cargo de ministro geral".

O Seráfico Pai respondeu-lhe, acentuando cada palavra com um suspiro: "Meu filho, não vislumbro ninguém que seja capaz de ser o chefe de um exército tão grande e tão diverso, o pastor de um rebanho tão vasto e tão espalhado. Mas vou te descrever como deverá ser o chefe e o pastor desta família.

Tal homem deverá ter uma vida muito recatada, grande discrição, uma excelente reputação; não devera' ter nenhuma afeição pessoal para evitar escândalo; deverá ser muito inclinado à oração e, no entanto, distribuirá seu tempo entre o cuidado de sua alma e o de seu rebanho. Ao romper d'alva deverá celebrar, antes de tudo, o santíssimo sacrifício da missa e, por uma longa oração, recomendar-se-á fervorosamente, com seu rebanho, à proteção divina. Após a oração, postar-se-á no meio de seus frades para ai escutar suas petições. Responderá a todos e proverá às necessidades de todos com caridade, paciência e bondade.

Não deverá fazer acepção de pessoas, ocupar-se-á mais dos simples e Ignorantes do que dos sábios e prudentes. Se o dom da ciência lhe foi concedido deverá, pelo seu modo de agir, ser Igualmente modelo de piedade, simplicidade, paciência e humildade. Cultivará a virtude tanto em si mesmo como nos outros: exercitar-se-á praticando-a continuamente e estimulará os outros, mais com exemplos que com palavras, a praticá-la. odeie o dinheiro, grande corruptor de nosso estado e de nossa perfeição. Cabeça e exemplo que todos devem imitar, não disporá jamais de cofres. O hábito e alguns opúsculos lhe sejam suficientes, mas para atender aos outros disponha do necessário para escrever, incluindo o selo. Não acumule livros, e não se absorva demasiado no estudo, a fim de não roubar ao seu ministério o tempo consagrado a essas atividades. Console piedosamente os aflitos. Seja o último consolo em suas tribulações, a fim de que os enfermos não sejam tomados de desespero, quando não puderem conseguir remédios para sua saúde. Humilhe-se, ele próprio, e abandone um pouco seus direitos para domar os mais violentos e levá-los à doçura de coração. Dê sempre testemunho de imensa indulgência com aqueles que fugiram da Ordem como ovelhas tresmalhadas e não lhes negue jamais a sua misericórdia, considerando quão fortes devem ter sido as tentações que os impeliram e que talvez ele tivesse caído num abismo mais profundo se o Senhor tivesse permitido que fosse exposto a tais tentações. Desejo que, como vigário de Cristo, seja honrado por todos, com respeito e devoção, e todos o ajudem em tudo, segundo suas necessidades e o que convém a nosso estado.

Não deve, todavia, rejubilar-se com as honrarias nem comprazer-se mais com as deferências do que com as injúrias. Estas honras e deferências não mudem em nada seu modo de vida a não ser para torná-lo melhor e mais perfeito. Se por acaso tiver necessidade de um alimento mais delicado, que não o tome nunca às ocultas, mas em público, a fim de que os doentes e os de frágil compleição não tenham vergonha de fazer o mesmo, quando se virem obrigados a isso por causa de suas enfermidades e achaques.

Convém-lhe sondar na medida do possível o interior dos corações a fim de pesar e distinguir a verdade nas intenções ocultas de cada um. Tenha por duvidosas todas as acusações até que a verdade comece a se revelar depois de conscienciosas investigações. Não dê ouvido a tagarelas e suspeite de suas bisbilhotices e acusações. Não acredite neles facilmente.

Enfim, que, sob pretexto de conservar seu cargo ou honrarias, não aja contra a justiça, a eqüidade, nem transija com os que violam nossa santa Regra. Tenha cuidado para nunca perder uma alma por excesso de rigor ou de autoridade; a tibieza não resulte de uma excessiva condescendência, nem a disciplina seja quebrada por demasiada indulgência. Seja temido por todos e amado pelos que o temem. Considere e exerça sempre o oficio de superior mais como um serviço do que como uma honra. Tenha como colaboradores bons companheiros de comprovada honestidade. Seja severo contra os prazeres, corajoso nas dificuldades, piedoso e complacente com os culpados, demonstrando por todos igual afeição. Não receba nada em troca de seu trabalho além do que lhe for necessário ao corpo. Não almeje a nada além do louvor de Deus e do progresso de nossa Ordem, o bem da sua alma e a salvação de todos os irmãos. Seja, por conseguinte, amável para com todos, acolha com santa alegria todos os que se dirigirem a ele e se mostre para com eles, pela pureza e simplicidade, modelo e exemplo de observância do Evangelho, conforme a Regra que professa. Eis o que deve ser o ministro geral desta Ordem e de seus companheiros".

CAPÍTULO 81
Como o Senhor lhe falou, por estar ele, Francisco,
multo aflito por causa dos frades que se afastavam da perfeição evangélica

Francisco, zeloso defensor da perfeição da Ordem, entristecia-se profundamente quando percebia ou constatava alguma imperfeição. Assim, notando que certos frades davam maus exemplos à Ordem e que alguns já começavam mesmo a se afastar de sua profissão, experimentou no seu coração intensíssima dor, e, um dia, enquanto orava, suplicou ao Senhor: "Senhor, recomendo-te a família que me deste".

Imediatamente o Senhor lhe disse: "Homenzinho simples e ignorante, dize-me por que te afliges tanto quando um frade sai de tua Ordem ou quando não segue o caminho que te indiquei? Ademais, dize-me quem estabeleceu a Ordem dos Frades? Quem arrasta o homem à penitência? Quem lhe dá a coragem de nela perseverar? Não sou eu? Não te escolhi e coloquei à frente de minha família por seres tu um homem instruído e eloqüente, pois não quero que tu, nem os que forem verdadeiros frades e fiéis observantes da Regra que te dei, sigam o caminho da ciência e da eloquência. Escolhi-te, simples e ignorante, para que tu, e os outros, saibam que velarei por meu rebanho. Escolhi-te como modelo para que teus frades realizem por teu exemplo as obras que realizei em ti. Os que seguirem o caminho que te indiquei me possuem e me possuirão plenamente, mas aos que preferirem seguir outro caminho, ser-lhes-á tirado o que possuem. Eis por que te exorto a não te afligires tanto, mas a agir como tens agido, a trabalhar como tens trabalhado, pois estabeleci a Ordem dos Frades no amor eterno. Sabe que a amo tanto, que mesmo se algum frade 'retornar ao seu vômito' e morrer fora da Ordem, enviarei outro que, em seu lugar, tomará a coroa e, se por acaso não tiver nascido ainda, fá-lo-ei nascer. E para que saibas quão grande é o meu amor e a minha complacência para com ela declaro-te que ainda que restassem apenas três frades esta será sempre a minha Ordem e eu não a abandonarei jamais, por toda a eternidade".

Ao ouvir estas palavras o seu espírito encheu-se de suave e maravilhosa consolação. E embora, por causa do grande empenho que tinha em fazer a Ordem progredir, não pudesse deixar de muito se afligir quando percebia alguma imperfeição nos frades que poderia constituir motivo de mau exemplo ou de escândalo, depois que o Senhor o reconfortou, vinham-lhe sempre a memória estas palavras do Salmo: "'Jurei observar e cumprir a justiça do Senhor', como também observar a Regra que o Senhor me deu, a mim e a todos os que me quiserem imitar. Todos os frades estão, assim como eu, obrigados a observá-la. No presente, depois que renunciei à direção dos frades em virtude de minhas enfermidades e de outras causas razoáveis, não estou obrigado a outra coisa senão rezar pela Ordem e dar o bom exemplo aos frades. Com efeito, o Senhor me revelou e eu sei com certeza que, se as muitas enfermidades não me obrigassem a renunciar ao cargo que tinha à frente da Ordem, a maior ajuda que poderia dar-lhe seria rezar para que o Senhor a governe, proteja e guarde. Por isso estou obrigado para com o Senhor a prestar-lhe contas se algum frade se perder por meu mau exemplo".

Estas eram as palavras que repetia a si mesmo para tranqüilizar o seu espírito e que expunha aos frades com freqüência, em conversa ou no capítulo.

Se acontecia vir algum frade dizer-lhe que deveria ocupar-se do governo da Ordem, respondia-lhe com estas palavras: "Os frades têm a Regra que prometeram observar, e não podem eximir-se de observá-la, pois quando suplicaram ao Senhor me fizesse seu superior, jurei diante deles observá-la da mesma maneira. Assim, se bem que os frades saibam o que devem fazer como também o que devem evitar, cumpre-me ser um exemplo para eles, pois para isto lhes fui dado na vida e depois da morte".

CAPÍTULO 82
Do zelo particular que tinha por Santa Maria da Porciúncula
e das prescrições que fez contra as palavras ociosas

Enquanto viveu, o Seráfico Pai teve sempre particular e excepcional empenho em manter a perfeição da vida religiosa em Santa Maria da Porciúncula, cabeça e mãe de toda a Ordem, de preferência às outras casas.

Desejava que ela fosse modelo e exemplo de humildade e de todas as perfeições evangélicas para todas as outras casas e que os frades que aí residissem fossem em todas as suas ações mais atentos à perfeita observância da Regra que os outros.

Assim, um dia, para evitar a ociosidade, que é a raiz de todos os males, máx:ime na vida religiosa, ordenou que todos os dias, após as refeições, os frades se dedicassem a qualquer trabalho, temeroso de que perdessem, por palavras inúteis ou ociosas, a que o homem é particularmente inclinado após as refeições, os frutos espirituais que houvessem lucrado na oração.

Em outra ocasião ordenou e prescreveu rigorosamente que, se um frade, no lazer e no trabalho, viesse a proferir palavras ociosas, fosse obrigado a dizer um pai-nosso, louvando ao Senhor tanto no começo como no fim.

Se, consciente de sua falta, se tivesse acusado antes, devia dizer, para salvação de sua alma, o pai-nosso com os louvores ao Senhor, como já foi dito acima. E se, antes de confessar sua culpa, houvesse sido repreendido por um irmão, deveria rezar o pai-nosso, da maneira indicada, pela alma deste irmão.

Mas se, tendo sido repreendido, recusasse dizer o pai-nosso, ficaria obrigado a rezar dois na forma anterior, pela alma do irmão que o havia repreendido. Se, conforme testemunho deste irmão ou de outro, ficasse provado que ele proferiu palavras ociosas, diria também os louvores a Deus, no começo e no fim da oração, em voz alta e de modo a ser ouvido por todos os frades presentes. Enquanto estiver falando, os frades presentes devem ficar calados e escutá-lo. Se acontecer que um frade, tendo ouvido outro dizer palavras ociosas, não o repreendeu, estará da mesma maneira obrigado a recitar um pai-nosso com os louvores pela alma deste frade.

Quando um frade entrar numa cela, casa ou qualquer lugar onde se encontrar um ou mais irmãos deverá imediatamente bendizer e louvar piedosamente ao Senhor. O Seráfico Pai tinha grande cuidado em dizer sempre os louvores ao Senhor e ensinava os outros frades a dizê-los com unção e piedade.

CAPÍTULO 83
Como exortou os frades a jamais abandonarem
Santa Maria dos Anjos

Embora o Seráfico Pai soubesse que o reino dos céus é estabelecido em todos os lugares da terra e acreditasse firmemente que a graça divina pode ser concedida aos eleitos onde quer que se encontrem, sabia, no entanto, por experiência, que Santa Maria dos Anjos havia sido contemplada com bênçãos especiais e recebia com mais freqüência a visita de espíritos celestiais.

Por isso recomendava sempre aos frades: "Meus filhos, tende cuidado de jamais abandonar este lugar. Se vos expulsarem por uma porta, entrai pela outra. Este lugar é sagrado, morada de Cristo e da Virgem Maria, sua bendita Mãe. Aqui, quando éramos apenas um pequeno número, o bom Deus nos multiplicou. Aqui Ele iluminou a alma destes pequeninos com a luz de sua sabedoria, abrasou a nossa alma do fogo de seu amor. Finalmente, aqui, os que rezarem com o coração sincero obterão tudo o que pedirem, e as ofensas que lhes forem feitas serão duramente punidas. Por isto, meus filhos, tende este lugar como digno de toda honra e de todo vosso respeito, como habitação temporária de Deus, particularmente amada por Ele e sua santa Mãe. E, aqui, de todo vosso coração, glorificai a Deus Pai e a seu Filho o Senhor Jesus na unidade do Espírito Santo, por meio de louvores e ação de graças".

CAPÍTULO 84
Dos favores que o Senhor concedeu a Santa Maria dos Anjos

Este “santo dos santos”, lugar entre os lugares, é considerado por isso mesmo digno das maiores honras. Célebre por seu sobrenome, o é ainda mais pelo seu nome, e seu qualificativo é presságio de bênção.

A poderosa munificência dos anjos o circunda de luz. Costuma-se passar ai a noite a cantar hinos em alta voz. Francisco a reconstruiu, quando ela foi totalmente destruída. Esta foi, com efeito, uma das três igrejas que o nosso pai restaurou pessoalmente. Escolheu-a quando domava sua carne com cilício, e pela mortificação forçou o seu corpo a submeter-se ao espírito.

Neste tempo nasceu a Ordem dos Frades Menores, multidão de homens que, então, começou a seguir o exemplo do Seráfico Pai. Clara, esposa de Cristo, recebeu nesta igreja a tonsura, despojando-se das pompas do mundo para seguir a Cristo.

Aqui, para Cristo, a Santa Virgem Maria gerou os frades e as Pobres Damas, e, por meio deles, deu Cristo ao mundo. Aqui, a estrada larga do mundo antigo tornou-se estreita e a coragem dos que foram chamados tornou-se maior.

Aqui foi composta a Regra, a santa pobreza foi reabilitada, a vaidade humilhada e a cruz alçada às alturas. Se algumas vezes o Seráfico Pai sentiu-se conturbado e aflito, neste lugar reanimou-se, e o seu espírito recuperou a paz interior. Aqui desaparece toda a dúvida. Por fim, aqui se concede aos homens tudo que o pai pediu por eles.

QUINTA PARTE
Do zelo testemunhado por São Francisco pela perfeição dos frades



CAPÍTULO 85
Como descreveu o frade perfeito

Tendo o Seráfico Pai, de algum modo, transformado os frades em santos pelo ardor do seu amor e pelo zelo fervoroso que nutria pela perfeição, examinava em si mesmo as qualidades e as virtudes de que deveria ser dotado o bom frade menor. E dizia que seria um bom frade menor o que reunisse em si a vida e os méritos destes santos frades: "A fé de Frei Bernardo, que a tinha tão perfeita quanto seu amor à pobreza; a simplicidade e a pureza de Frei Angelo que foi o primeiro cavaleiro a entrar na Ordem e foi dotado de grande cortesia e gentileza; a distinção e o bom senso natural de Frei Masseo com sua bela e piedosa eloquência; o espírito elevado à contemplação que Frei Gil teve em toda perfeição; a prece virtuosa e constante de Frei Rufino que rezava constantemente, sem parar: fosse dormindo ou trabalhando seu espírito estava sempre com o Senhor; a paciência de Frei Junípero que alcançou um estado de paciência perfeita, porque tinha constantemente na consciência a evidente realidade de sua própria vileza e um ardente desejo de imitar a Cristo, seguindo a via da cruz; o vigor corporal e espiritual de Frei João das laudes que no seu tempo suplantava em força corporal os outros homens; a caridade de Frei Rogério cuja vida inteira e a conversão foram inspiradas por uma fervente caridade; enfim, a inquietação de Frei Lúcio que estava sempre muito preocupado, não querendo ficar em um mesmo lugar mais que um mês, pois quando começava a gostar de um lugar punha-se de novo a caminho, dizendo: 'Não temos morada aqui, mas no céu"'.

CAPÍTULO 86
Como descreveu os olhares impudicos a fim de exortar os frades à caridade

Entre todas as virtudes que São Francisco amava e desejava encontrar entre seus frades, depois da santa humildade, que considerava a virtude por excelência da santidade, estimava sobretudo a bela e pura castidade. Desejando ensinar aos frades a terem olhares reservados, descrevia-lhes habitualmente os olhares impudicos por esta parábola: "Certo rei, homem de grande devoção e mui poderoso, enviou sucessivamente dois mensageiros à rainha. O primeiro foi e relatou simplesmente sua mensagem sem nada mais dizer à rainha, pois havia sabiamente contido o seu olhar no intimo de seu coração, não pousando de modo algum sobre a pessoa da rainha olhares indiscretos; o outro foi e, após algumas respostas, descreveu longamente a beleza da soberana. 'Em verdade, senhor, disse ele, eu vi a mais bela das mulheres. Feliz o homem que a possui'. Ouvindo isto, o rei retrucou-lhe: 'Servo mau, lançaste olhares impudicos sobre a minha mulher. E evidente que desejaste possuir o que viste'.

E, chamando à sua presença o primeiro mensageiro, perguntou-lhe: 'Que te parece a rainha?' 'Parece-me dotada de grande bondade e distinção, respondeu sabiamente, pois me ouviu com agrado e paciência'. O rei disse então: 'Não é realmente encantadora?' 'Senhor, a vós compete averiguar isto. A mim competia apenas desincumbir-me da missão que me confiastes'.

Ao ouvi-lo, o rei proferiu estas palavras: 'Tens os olhos castos, és mais casto ainda de corpo, entra nos meus aposentos e compartilha de meus bens. Quanto ao impudico, que saia imediatamente de meu palácio, para que não venha a profanar minha câmara nupcial"'. E concluía: "Quem não temeria lançar um olhar indiscreto sobre uma esposa de Cristo?"

CAPÍTULO 87
Das três máximas que legou aos frades
para que perseverassem na perfeição

Um dia, estando doente do estômago, fez tamanho esforço para vomitar que teve uma hemorragia, que durou a noite toda. De tal modo ficou fraco e abatido que seus companheiros, supondo ter chegado a hora de sua morte, perguntaram-lhe com grande dor e efusão de lágrimas: "Pai, que faremos nós sem ti? A quem deixas os teus órfãos? Tens sido para nós um pai e uma mãe, engendrando-nos e criando-nos para Cristo. Tu foste nosso guia e nosso pastor, nosso mestre e nosso censor, ensinando-nos e corrigindo-nos, mais por exemplos do que por palavras. Aonde iremos nós, ovelhas sem pastor, órfãos sem pai, ignorantes e simples sem guia? Onde iremos encontrar a glória da pobreza, louvor da simplicidade, honra de nossa humilde condição? Quem nos mostrará, a nós pobres cegos, o caminh6 da verdade? Onde estará a boca que nos falará, a lingua que nos aconselhará? Onde estará tua alma fervorosa que nos dirigirá no caminho da cruz e nos fortalecerá na perfeição evangélica? Onde estarás para que recorramos a ti, luz de nossos olhos, para que te busquemos, consolador de nossas almas? Vais nos deixar, pai, aproxima-se a hora de tua morte! Vais, pois, nos deixar tristes, desolados e cheios de amargura! Eis que é chegado o dia sobre o qual não ousávamos nem pensar! E não é para menos, pois tu tens sido para nós uma luz perene e tuas palavras, como tochas ardentes, nos iluminam sem cessar na estrada da perfeição evangélica, do amor e da imitação do dulcíssimo Crucificado.

Ao menos, pai, dá-nos a tua bênção, a nós e aos outros frades, filhos que engendraste em Cristo, e deixanos a expressão de tua última vontade, para que os frades a tenham sempre na memória e possam dizer: 'Eis as palavras que nosso pai deixou a seus frades e seus filhos na hora de sua morte"'.

Então o Seráfico Pai dirigiu o olhar paternal a seus filhos e lhes disse: "Trazei à minha presença Frei Bento de Pirato". Este frade era um sacerdote santo e discreto que celebrava para São Francisco, quando este estava de cama, pois o santo, embora estivesse enfermo, ouvia a missa sempre que podia.

Quando o frade chegou, o Seráfico Pai lhe disse: "Escreve que eu dou a bênção a todos os meus frades aqui presentes, não só aos que estão na Ordem, mas também aos que vierem a pertencer a ela até o fim do mundo. E como não posso por causa de minha fraqueza, dos sofrimentos provenientes da doença, desejo manifestar simplesmente, em três palavras, minha vontade e intenção aos frades presentes e futuros. Que eles, em minha memória, de minha bênção e de meu testamento, se amem sempre uns aos outros, como eu os amei e amo. Que respeitem e amem sempre a nossa Senhora Pobreza, que se mostrem sempre fiéis e obedientes aos bispos e padres da nossa santa Mãe Igreja".

No fim dos capítulos, nosso pai costumava, com efeito, abençoar e absolver todos os frades presentes e futuros e muitas vezes, no fervor de sua caridade, procedia da mesma forma fora do capítulo. Exortava os frades a temerem os maus exemplos e a fugirem deles, e amaldiçoava todos os que levavam os homens a dizerem mal da Ordem e da vida dos frades por causa de seus maus exemplos, causando ainda, com sua conduta reprovável, vergonha e aflição aos bons frades.

CAPÍTULO 88
Como ao aproximar-se a morte demonstrou seu amor aos frades
dando-lhes um bocado de pão, a exemplo de Cristo

Uma noite, o santo sofria tanto de seus achaques que não pôde repousar nem dormir durante toda a noite. Ao amanhecer, como as dores arrefecessem um pouco, mandou chamar todos os frades do convento e fá-los sentarem-se em volta de si e os olhava como se eles representassem todos os frades.

Pousando a mão direita sobre a cabeça de cada um deles, abençoou-os a todos, presentes e ausentes, e ainda todos quantos no futuro ingressassem na Ordem, até o fim do mundo. Parecia-lhes que o Seráfico Pai sofria muito por não poder ver a todos os seus frades e filhos antes de sua morte.

Todavia, querendo imitar na morte seu Senhor e Mestre, como o havia feito tão perfeitamente em vida, mandou trazer-lhe alguns pães, benzeu-os e fê-los partir em vários pedacinhos, pois não podia parti-los ele mesmo, por causa de sua grande fraqueza. Depois, tomando-os, deu um pedaço a cada frade, ordenando-lhe que o comesse todo.

Assim como o Senhor antes de sua morte quis tomar uma refeição com os apóstolos, na Quinta-feira Santa, em sinal de seu amor, o Seráfico Pai, seu fiel imitador, quis dar aos frades a mesma mostra de amor.

Assim procedeu à semelhança de Cristo, pois perguntou em seguida se era quinta-feira. E, como fosse outro dia, respondeu que pensava ser quinta-feira. Um de seus frades conservou um pedacinho deste pão. Depois da morte 1dó santo, vários enfermos que o experimentaram foram curados imediatamente.

CAPÍTULO 89
Como temia que os frades se aborrecessem
por causa de seus achaques e enfermidades

Como, por causa de suas enfermidades, não pudesse repousar e visse os frades por sua causa distrair-se de suas ocupações ou muito fatigados e como amasse as suas almas mais do que seu próprio corpo, começou a temer que eles, no seu acúmulo de trabalho, cometessem, por impaciência, leves ofensas a Deus.

Por isso, um dia disse com piedade e compaixão a seus companheiros: "Irmãos caríssimos, meus filhinhos, que os trabalhos provocados por minhas enfermidades não sejam motivo de fadigas para vós, pois o Senhor vos pagará por mim, seu humilde - servidor, todo o fruto de vossas obras, neste mundo e no outro, e ainda das que não tiverdes podido fazer por causa dos cuidados de minha doença. Além do mais tereis maior lucro do que se trabalhardes para vós mesmos, pois quem me ajuda a toda a Ordem e a vida dos frades. De resto, podeis redargüir-me: 'Fizemos despesas por ti e o Senhor será nosso devedor em teu lugar.

O Seráfico Pai, no seu ardente zelo pela perfeição de suas almas, falava assim para elevar e reanimar seus espíritos arrefecidos. Temia, com efeito, que alguns, tentados por causa desse trabalho, dissessem: "Não podemos rezar porque estamos demasiado atarefados". E que assim, tornando-se impacientes e ociosos, perdessem o grande proveito espiritual deste pequeno trabalho.

CAPÍTULO 90
Como exortou as Irmãs de Santa Clara

Depois que São Francisco compôs o Cântico das Criaturas, compôs também alguns cânticos para consolação e edificação das Pobres Damas, pois sabia-as muito aflitas com suas enfermidades. Como não podia ir vê-las pessoalmente, enviou-lhes tais palavras por intermédio de seus companheiros. Desejava deste modo manifestar-lhes seu desejo de que elas vivessem e se conduzissem com humildade, sendo unânimes na caridade. Na verdade, sua conversão e santa forma de vida constituíam não somente um motivo de afeição para a Ordem, mas também de edificação para toda a Igreja.

Informado de que após a sua conversão elas levavam uma vida muito austera e de extrema pobreza, sentiu por elas grande piedade e compaixão. E como o Senhor as tivesse reunido de toda parte para viverem em comunidade a santa caridade, a santa pobreza e a santa obediência, suplicava-lhes por estas palavras que vivessem e morressem observando-as.

Exortava-as especialmente a proverem discretamente às suas necessidades na alegria e na ação de graças, servindo-se das esmolas que o Senhor lhes enviava. E lhes recomendava particularmente socorrerem suas irmãs enfermas, ajudando-as a suportar com paciência suas enfermidades.



SEXTA PARTE
De seu ardente e contínuo amor à paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo



CAPÍTULO 91
Como negligenciava as suas próprias enfermidades por amor à paixão de Cristo

O Seráfico Pai tinha tão grande e fervoroso amor à paixão de Cristo e às suas dores, experimentandoas em si mesmo, e de tal modo se afligia interior e exteriormente com os mistérios de tão dolorosa paixão, que descurava de suas próprias enfermidades. Embora sofresse já há muito tempo, e até à sua morte, do estômago, do fígado e do baço e, depois que regressou do Oriente, sofresse também dos olhos, que estavam constantemente enfermos, não se tratava de modo algum.

Por isso, vendo o Senhor de Óstia quanto o santo era austero para seu próprio corpo e vendo, sobretudo, que começava a perder a vista por não permitir que tratassem dela, admoestou-o com muita compaixão, dizendo-lhe: "Irmão, não ages bem quando não te deixas tratar, pois teu corpo e tua saúde são úteis aos frades, aos leigos e à Igreja inteira; se tiveste compaixão de teus frades enfermos, se te mostraste sempre compassivo e misericordioso para com eles, não deverás agora, que te encontras em grande necessidade, ser cruel contigo mesmo. Ordeno-te, pois, que te faças socorrer e medicar para ver se recuperas a saúde".

Mas nosso santo pai tinha como doçura todas as amarguras, pois encontrava grande consolação em imitar o humilde Filho de Deus e em seguir-lhe as pegadas.

CAPÍTULO 92
Como o encontraram várias vezes lamentando com grandes gemidos a paixão de Cristo

Pouco depois de sua conversão e enquanto caminhava pela estrada, não longe de Santa Maria da Porciúncula, ele chorava e gemia em alta voz. Um homem de grande espiritualidade o encontrou neste estado e, temendo que padecesse de alguma enfermidade, interpelou-o: "Que tens, irmão?" "Eu devia percorrer assim, sem envergonhar-me disso, o mundo inteiro, chorando a paixão de meu Senhor". Ouvindo estas palavras aquele homem começou a chorar com ele e a derramar copiosas lágrimas.

CAPÍTULO 93
Como suas recreações se transformavam, às vezes,
em lágrimas de compaixão por Cristo

Ébrio de amor e compaixão por Cristo, o santo muitas vezes agia assim: de sua alma brotavam as mais doces melodias que se exprimiam em francês; a poesia dos murmúrios divinos ouvidos por ele em segredo explodia em cantos, nessa mesma lingua.

As vezes apanhava da terra um pedaço de pau, colocando-o no braço esquerdo, apanhava com a mão direita uma vara à maneira de arco e esfregava sobre o pau, como uma viola ou outro instrumento de corda. Fazendo gestos apropriados, cantava em francês ao Senhor Jesus Cristo. Toda essa alegria terminava, enfim, em lágrimas e se convertia em piedade pela paixão de Cristo.

Soltava, então, compungidos suspiros e redobrava os gemidos esquecendo o que tinha nas mãos. E seu espírito se elevava ao céu.



SÉTIMA PARTE
De seu zelo pela oração e ofício divino e como preservava
a alegria do espírito nele e em seus companheiros



CAPÍTULO 94
Da oração e do ofício divino

Embora agravado por numerosas enfermidades, como já dissemos, o santo continuava tão piedoso e assíduo na oração e no ofício divino, que orava ou recitava as Horas Canônicas sem se apoiar jamais à parede ou a um pilar. Mantinha-se sempre de pé, cabeça descoberta e, às vezes, de joelhos. Além disso passava grande parte da noite em oração.

Mesmo quando percorria o mundo a pé, suspendia sempre suas andanças quando queria dizer as Horas.

Se ia a cavalo, por causa de uma enfermidade qualquer, apeava sempre para recitar as Horas.

Um dia em que viajava a cavalo, coagido pela enfermidade e por uma premente necessidade, quis descer do animal para recitar o ofício, se bem que chovesse torrencialmente. Recitou o ofício em plena chuva, com tanto fervor e unção, como se estivesse na igreja ou em sua cela. Nesta ocasião disse a seu companheiro estas palavras: "Se o corpo tem necessidade de comer em paz e sossego seu alimento, com que respeito e devoção a alma deverá receber seu alimento, isto é, seu próprio Deus?"

CAPÍTULO 95
Como estimava a alegria de espírito -
interior e exterior - nele e nos outros

São Francisco se empenhava de modo particular em possuir, fora da oração e do oficio divino, a alegria interior e exterior. E ainda gostava de vê-la nos outros frades, repreendendo-os sempre que revelavam tristeza e mau humor.

Costumava dizer: "Se o servo de Deus se dispõe a alcançar e conservar interior e exteriormente a alegria de espírito, que provém da pureza do coração e se obtém pela piedade na oração, os demônios não poderão causar-lhe mal algum e hão de dizer: 'Porque o servo de Deus possui a alegria, tanto na adversidade como na prosperidade, não encontram meios de penetrar nele e molestá-lo'. Todavia alegram-se muito quando conseguem, de qualquer maneira, arrefecer e impedir-lhe a piedade e a alegria que emanam da oração fervorosa e de outras santas obras. Pois se o diabo pode alcançar alguma coisa para si do servo de Deus e se este não sabe nem procura, quanto antes, destruí-lo e aniquilar-lhe a influência por meio da santa oração, da contrição e da confissão, o demônio fará em pouco tempo do fio do cabelo uma corda que engrossará continuamente. Pois, meus irmãos, esta alegria de espírito brotará da limpidez do coração e da pureza da oração continua. Urge, pois, que vos empenheis, antes de tudo, por adquirir e conservar estas duas virtudes, para poderdes possuir, interior e exteriormente, esta mesma alegria que amo com toda minha alma e desejo firmemente encontrar em vós e em mim, para a edificação do próximo e confusão do inimigo. A este e a seu cortejo infernal cabe a tristeza, a nós a alegria e o regozijo de estarmos no Senhor".

CAPÍTULO 96
Como repreendeu um de seus frades em cujo rosto transparecia a tristeza

São Francisco costumava dizer: "Eu sei que o demônio inveja os dons que o Senhor me deu, sei também e percebo que, não podendo me fazer mal, ele se esforça para fazê-lo a meus companheiros. Todavia, não podendo prejudicar nem a mim nem a meus companheiros, ele se afasta grandemente confuso. Ademais quando sou tentado ou molestado, considero a alegria do meu companheiro e passo desta tentação e desfalecimento para a alegria interior e exterior".

Por esta razão, o Seráfico Pai repreendia vivamente os que mostravam tristeza ou desânimo. Certo dia repreendeu um companheiro que apresentava um ar de tristeza, dizendo-lhe: "Por que mostras cá fora a dor e a tristeza de teus pecados? Guarda esta tristeza entre ti e Deus e roga-lhe que se compadeça de ti e devolva à tua alma a alegria de tua salvação de que foi privada por teus pecados. Diante dos outros e de mim esforça-te para conservar a alegria, pois não convém que um servo de Deus mostre a seus irmãos ou a outrem um semblante triste e conturbado".

Mas isso não quer dizer, nem se deve presumir, que o Seráfico Pai, amante da perfeição e da modéstia, quisesse testemunhar esta alegria por risos ou abundância de vás palavras. Isto não significa alegria interior, senão vaidade e insensatez. Detestava de modo particular no servo de Deus o motejo e as palavras inúteis. Este não devia zombar nem oferecer aos outros a menor ocasião de fazê-lo. Assim, definiu claramente em uma admoestação o que devia ser a alegria do servo de Deus, dizendo: "Feliz o religioso que não encontra prazer e alegria senão nas palavras e nas santas obras do Senhor, e se serve delas para levar os homens ao amor de Deus, com toda a alegria. Maldito o religioso que se compraz com histórias fúteis e frívolas e se serve delas para levar os homens ao riso".

Pela alegria do rosto ele percebia o fervor, o desvelo, a disposição e preparação do espírito e do corpo para fazer de boa vontade o bem, pois este fervor e disposição induzem melhor os outros ao bem do que a própria boa ação. De resto, uma boa ação que não foi feita de boa vontade e com zelo provoca antes o desgosto do que o desejo do bem.

Eis por que não queria ver nos rostos a tristeza exterior, pois ela reflete sempre a indiferença e a má disposição do espírito e a preguiça do corpo a toda boa obra.

Amava de modo particular, nele e nos outros, a gravidade e austeridade do semblante e dos sentidos; e sempre que podia dava exemplo aos outros.

Sabia por experiência que esta gravidade e modéstia são como um muro e uma sólida armadura contra "as flechas"; sem sua proteção a alma é como um soldado desarmado entre inimigos poderosos, bem armados e encarniçadamente empenhados na sua morte.

CAPÍTULO 97
Como ensinava aos frades a manterem o corpo ocupado
para que os benefícios da oração não fossem desperdiçados

Considerando e compreendendo que o corpo foi criado para servir a alma e que os atos materiais devem ser praticados com fins espirituais, o Seráfico Pai dizia sempre: "O servo de Deus deve satisfazer, razoavelmente, seu corpo com alimentação, repouso e outras necessidades, a fim de que o irmão Corpo não se queixe dizendo: 'Não posso mais ficar de pé e assim permanecer durante a oração, nem me fortalecer na adversidade, nem fazer qualquer boa obra, pois não me propicias o de que necessito'.

Mas se o servo de Deus prover razoavelmente o seu corpo dos bens de que necessita, e ele ainda se mostrar negligente, preguiçoso e sonolento na oração, nas vigílias e em outras boas obras, deverá castigá-lo como a um animal ruim e preguiçoso que quer comer, mas recusa-se ao mérito de 'carregar o fardo'. Mas se em razão da indigência e da pobreza não pode ter o que necessita na saúde ou na enfermidade, se pediu ao seu irmão ou superior, humilde e honestamente, por amor de Deus e não lhe foi dado, que suporte pacientemente por amor de Deus que suportou também o mesmo, procurou quem o aliviasse e não encontrou. Se ele suporta com paciência, o Senhor contá-lo-a entre os mártires. E porque fez o que pôde, isto é, porque pediu humildemente que fosse provido daquilo de que necessitava, será absolvido de tudo, mesmo que o seu corpo tenha sofrido gravemente"



OITAVA PARTE
Algumas tentações com que o Senhor quis prová-lo

CAPÍTULO 98
Como o demônio entrou num travesseiro que o santo usava sob a cabeça

Como São Francisco permanecesse no eremitério de Greccio e se entregasse à oração na última cela, que ficava próxima à maior do convento, uma noite, ao primeiro sono, ele despertou seu companheiro que repousava perto dele. Tendo ouvido a voz de São Francisco, o irmão levantou-se e veio até à porta da cela onde se encontrava o santo. Ao vê-lo, o Seráfico Pai lhe disse: "Irmão, não pude dormir esta noite, nem ficar de pé para rezar, pois a cabeça e as pernas estão trêmulas como se eu tivesse comido pão feito de joio».

Tendo o irmão proferido algumas palavras compassivas, o santo lhe disse: "Estou certo de que o demônio está neste travesseiro que tenho sob a cabeça". Embora nunca quisesse, desde que deixou o mundo, deitar-se em colchão de plumas, nem usar travesseiros, os frades persuadiram-no, com grande esforço, a servir-se deste travesseiro por causa da doença dos olhos.

Entregou, pois, o travesseiro a seu companheiro que o pegou com a mão e colocou-o no ombro esquerdo. Ora, quando atravessava a porta da cela, não podendo nem se desvencilhar do travesseiro, nem mover os braços, permaneceu de pé sem poder mover-se, como que privado dos sentidos. Picou assim por algum tempo até que, pela graça de Deus, São Francisco o chamou. Imediatamente voltou a si e deixou cair dos ombros o travesseiro. Voltando para junto de São Francisco narrou-lhe o que lhe havia acontecido. Ao ouvi-lo, o Seráfico Pai lhe disse: "Esta noite, enquanto rezava as Completas, senti que o diabo entrava na cela. Sei que ele é demasiado astucioso, pois, não podendo causar mal a minha alma, queria apoderar-se do que era necessário ao meu corpo e me impedir de dormir e ficar em pé para rezar; e ainda perturbar a minha devoção, alegria de meu coração, e me fazer murmurar contra minha enfermidade".

CAPÍTULO 99
Como foi atormentado dois anos por forte tentação

Demorando-se em Santa Maria dos Anjos, foi-lhe enviada fortíssima tentação para proveito de sua alma. Afligia-se tanto, da alma e do corpo, que freqüentemente se retirava da companhia dos irmãos, por não poder mostrar a alegria habitual. Todavia mortificava-se abstendo-se de comer, beber e falar, e rogava com assiduidade e insistência, derramando copiosas lágrimas, para que o Senhor se dignasse enviar um remédio eficaz a tamanha provação.

Após dois anos de aflições, um dia em que rezava na igreja de Santa Maria, pareceu-lhe ouvir em espírito estas palavras do Evangelho: "Se tiveres fé do tamanho de um grão de mostarda, poderás dizer a esta montanha: desloca-te daqui, e ela se deslocará".

Ao que o santo respondeu imediatamente: "Senhor, o que é esta montanha?" - "E a tentação" - "Neste caso, Senhor, que me seja feito como disseste". Sentiu-se imediatamente tão livre das tentações como se não tivesse sido tentado.

Do mesmo modo, quando recebeu em seu corpo os estigmas do Senhor, no santo monte Alverne, padeceu tantas tentações e tormentos que não podia mostrar sua alegria habitual. Com efeito, dizia com freqüência a seus companheiros: "Se os frades soubessem quantos tormentos e provações me faz sofrer o demônio, não haveria um só que não se sentisse arrebatado de compaixão e piedade para comigo".

CAPÍTULO 100
Da tentação que lhe foi infligida pelos ratos e de como o Senhor
o consolou e o assegurou de que tomaria parte no seu reino

Dois anos antes de sua morte, quando residia em São Damião, numa cela feita de esteira, padeceu tanto dos olhos a ponto de não poder ver a luz do dia nem a do fogo, durante mais de cinqüenta dias.

Aconteceu, por permissão de Deus, que para aumentar suas provações e seus méritos, os ratos invadiram sua cela. Corriam durante a noite em torno dele e por cima dele, não o deixando nem repousar nem rezar. Ademais, quando tomava suas refeições, subiam na mesa e o atormentavam tanto que se tornou evidente a ele, como a seus companheiros, tratar-se de uma tentação diabólica.

Vendo-se atormentado por tantas provações, uma noite o Seráfico Pai teve piedade de si mesmo e disse: "Senhor, vem em meu socorro e vê minhas enfermidades para que as suporte com paciência".

Imediatamente lhe foi dito em espírito: "Dize, irmão, se alguém, por causa de tuas moléstias e provações, te desse um grande e precioso tesouro, em que a terra fosse toda ouro, as pedras todas preciosas, a água bálsamo, não considerarias como nada tuas provações em comparação com estas riquezas? Não te alegrarias com tal dádiva?" Ouviu ainda que lhe diziam: "Então, irmão, alegra-te e rejubila-te no meio de tuas moléstias e provações, pois asseguro-te que já entraste na posse do meu reino".

Levantando-se de madrugada, ele confessou a seus companheiros: "Se o imperador desse um reino inteiro a um de seus companheiros, não deveria este alegrar-se muito com isto? E se lhe desse todo o seu reino não se alegraria ainda mais? Devo desde agora alegrar-me grandemente nas provações e moléstias, encontrar repouso no Senhor e render graças a Deus e a seu Filho único, Jesus Cristo, e ao Espírito Santo, por tal graça que me foi concedida pelo Senhor, que se dignou garantir-me a posse do seu reino, eu, seu indigno servidor, preso ainda a este corpo. Para a sua glória e para a nossa consolação e edificação do próximo, quero compor um novo cântico de louvor às criaturas do Senhor, de quem nos servimos todos os dias e sem as quais não poderíamos viver e com quem o gênero humano ofende sempre a seu Criador. Somos sempre ingratos, em virtude de recebermos tantas graças e benefícios e não louvarmos ao Senhor Criador de todos estes dons, como devíamos".

Sentou-se e refletiu durante algum tempo. Depois pôs-se a cantar: "Altíssimo, poderoso e bom Senhor, etc." Compôs a melodia deste cântico e ensinou a seus companheiros para que o recitassem cantando.

Sua alma encontrou nisto tanta doçura e refrigério que quis enviá-lo a Frei Pacifico, o qual no mundo fora chamado "o rei dos versos" e havia sido mestre de canto de uma corte. Desejou confiar-lhe alguns frades bons, de profunda espiritualidade, para que percorressem o mundo com ele, pregando e cantando os louvores do Senhor. Com efeito, costumava dizer que o que dentre eles soubesse pregar melhor ao povo, que o fizesse; após o sermão todos cantariam os louvores do Senhor, como jograis de Deus.

Terminados os louvores, desejava que o pregador dissesse ao povo: "Nós somos jograis de Deus e, como tais, queremos ser remunerados por estes cantos, isto é, que vivais na verdadeira penitência". E acrescentava: "Que são, com efeito, os servos do Senhor, senão jograis que devem elevar o coração dos homens e levá-los à alegria espiritual?"

Dizia sempre que os frades menores, de modo particular, haviam sido dados ao povo de Deus para sua salvação.

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