sexta-feira, 30 de março de 2012

Espelho da Perfeição: capítulos LXVI a LXXV.


CAPÍTULO 66
Como ensinou aos frades a ganharem pela humildade
e caridade as almas de alguns ladrões

Os ladrões que se homiziavam nos bosques e assaltavam os transeuntes, vinham às vezes pedir pão aos frades em seu eremitério situado nas proximidades do Borgo San Sepolcro. Alguns frades entendiam que não era conveniente dar-lhes esmolas; outros, no entanto, davam-lhes por compaixão e os exortavam à penitência.

Ora, aconteceu que nesta ocasião São Francisco veio ao eremitério e os religiosos perguntaram-lhe se convinha dar esmolas aos salteadores. Ao que o santo respondeu: "Se fizerdes como vos disser, confio no Senhor que ganhareis para Ele as almas destes ladrões. Ide, pois, procurai bom pão e vinho, depositai-os na floresta onde eles se encontram e gritai: 'Irmãos ladrões, vinde a nós, pois somos vossos irmãos e vos trazemos bom vinho e bom pão!' Ao ouvi-lo, aqueles salteadores virão imediatamente. Estendei uma toalha sobre a terra e depositai nela o pão e o vinho e servi-os com alegria e humildade enquanto eles comerem. Depois da refeição anunciai-lhes a palavra do Senhor e fazei este primeiro pedido: que eles vos prometam não saquear os transeuntes nem fazer mal a ninguém. Com efeito, se pedirdes tudo de uma vez eles não vos escutarão, mas, porque sois humildes e caridosos, prometerão imediatamente fazer o que pedis. Por esta boa promessa, levai-lhes outra vez ovos, queijo com pão e vinho e servi-os enquanto comem. Após a refeição, dizei-lhes: 'Por que permaneceis aqui todo o dia a morrer de fome e a suportar tantas adversidades? Por que fazeis, por desejo e ação, tanto mal pelo qual perdereis vossas almas se não vos converterdes ao Senhor? Seria melhor que servísseis ao Senhor que vos dará neste mundo tudo o que for necessário a vosso corpo e, no final, salvará as vossas almas'. Então, por causa da humildade e caridade que tiverdes mostrado, o Senhor suscitará neles o arrependimento e a conversão".

Os frades fizeram exatamente como São Francisco lhes aconselhara. Os ladrões, pela graça e misericórdia de Deus, escutaram-nos e observaram ao pé da letra, ponto por ponto, tudo o que os frades lhes haviam pedido humildemente. Outros, movidos pela humildade e amizade que lhes testemunharam aqueles religiosos, puseram-se a servi-los humildemente, levando sobre os ombros a lenha de que necessitavam; e, finalmente, alguns entraram na Ordem. Outros confessaram seus pecados, fizeram penitência e prometeram, na presença dos frades, viver de seu próprio trabalho e não retornar mais ao gênero de vida que até então haviam levado.

CAPÍTULO 67
Como, atormentado pelo demônio, conheceu que agradava mais a Deus
permanecendo em lugares pobres e humildes que nos palácios

Um dia, São Francisco dirigiu-se a Roma para visitar o Senhor Bispo de Óstia. Tendo passado alguns dias com o prelado, foi igualmente visitar o Senhor Cardeal Leão por quem nutria particular afeição. Era então tempo de inverno, o vento, o frio e as chuvas tornavam muito penosas, senão impraticáveis, as viagens a pé. Por isso o cardeal pediu a São Francisco que ficasse mais alguns dias e, na qualidade de pobre, recebesse dele o sustento diário, como faziam os outros pobres. Falava assim porque sabia que o santo patriarca em qualquer lugar onde se encontrava queria ser recebido como pobre, se bem que o Santo Padre e os cardeais o recebessem com grande piedade e devoção, e o venerassem como a um santo. E acrescentou: "Dar-te-ei aposentos afastados onde poderás rezar e tomar tuas refeições quando quiseres".

Então Frei Ângelo Tancredo, um dos primeiros doze frades e que morava com o cardeal, disse a São Francisco: "Irmão, perto daqui há uma torre bastante ampla, afastada, onde poderás morar como num eremitério".

O lugar agradou a São Francisco e este depois de tê-lo visto foi à presença do cardeal e declarou-lhe: "Senhor, ficarei alguns dias convosco". O cardeal alegrou-se muito. Frei Angelo foi à torre e preparou aposentos para São Francisco e seu companheiro. Como o santo não quisesse descer de seus aposentos enquanto estivesse com o cardeal e nem permitisse a ninguém ir a eles, Frei Angelo decidiu levar-lhe todas as refeições, sua e de seu companheiro, em seu alojamento particular.

Na primeira noite, após a chegada de são Francisco e seu companheiro, como o santo se dispusesse a dormir, os demônios vieram e fustigaram-no impiedosamente. O santo então chamou o seu companheiro e lhe disse: "Irmão, os demônios me espancaram rudemente, desejo, portanto, que fiques perto de mim, pois tenho medo de sentir-me mal". Esta noite o companheiro permaneceu ao lado dele, pois São Francisco tremia como quem tivesse febre. Assim passaram a noite em claro.

São Francisco disse ao seu companheiro: "Por que os demônios me açoitaram e por que lhes deu o Senhor poder sobre mim?» E acrescentou: "Os demônios são a milícia do Senhor, isto é, assim como as autoridades enviam seus agentes para punir os que cometeram uma falta, da mesma maneira o Senhor corrige e castiga os que ama, por meio desta milícia. Com isto quero dizer que os demônios, por sua missão, estão a seu serviço. E pode acontecer que mesmo um religioso modelar peque sem o saber. Quando ele não conhece a sua falta, o diabo o pune para que reflita e examine diligentemente as coisas em que possa ter cometido algum pecado. Nesta vida o Senhor não deixa nada impune, naquele a quem ama ternamente. Pela graça e misericórdia de Deus penso não ter cometido nenhuma falta que não tenha sido apagada pela confissão e pela expiação; mas o Senhor, por sua infinita bondade, concedeu-me a graça de conhecer claramente em minhas orações em que lhe agradei ou desagradei. Embora o Senhor Cardeal me tenha dado esta demonstração de simpatia e o meu corpo necessite de um pouco de alivio, é bem possível que Deus me tenha castigado, enviando-me seus agentes infernais. Meus irmãos, percorrendo o mundo, padecem fome e inúmeras tribulações. Eles e os demais que moram nos eremitérios e míseras choupanas, quando souberem que estou hospedado no palácio do Senhor Cardeal, encontrarão motivos para se queixarem de mim e dirão: 'Nós suportamos todas as adversidades e ele desfruta de suas comodidades!' Ora, sou obrigado a dar sempre o bom exemplo, porque para isto me pôs o Senhor entre eles. Os frades ficarão mais edificados quando permaneço com eles em casinhas pobres e toscas do que quando me hospedo nos palácios. E suportarão com mais paciência suas tribulações quando souberem que também eu as padeço".

Este foi o grande e constante desejo de nosso pai: dar a todos o bom exemplo e afastar dos irmãos os motivos de murmurações.

CAPÍTULO 68
Como repreendeu os frades que queriam seguir o caminho de sua sabedoria
e de sua ciência e lhes predisse a reforma da Ordem

Achava-se São Francisco no capítulo geral celebrado em Santa Maria da Porciúncula, capítulo que se chamou das esteiras, por não haver ali mais acomodações que as construídas com esteiras, ao qual concorreram cinco mil frades. Sucedeu que alguns homens de letras e de ciências foram ter com o Senhor Cardeal de Óstia que se achava presente e lhe disseram: "Senhor, gostaríamos que persuadísseis a Francisco a seguir a opinião dos religiosos entendidos e sábios e a se deixar, de tempos em tempos, governar por eles". Invocaram a Regra de são Bento, a de Santo Agostinho e a de São Bernardo, nas quais se dispõe que se viva a vida regular segundo urna norma estabelecida.

O cardeal relatou tudo a São Francisco, como advertência. O Seráfico Pai, sem nada responder, tomou o cardeal pela mão e o conduziu à presença dos frades reunidos em assembléia capitular, falando-lhes nestes termos, com grande fervor e sob a inspiração do Espírito Santo: "Meus irmãos, meus irmãos, Deus me chamou para caminhar na senda da simplicidade e da humildade e por sua inspiração me revelou o verdadeiro caminho para mim e para os que me quiserem imitar. Por conseguinte, não quero que me citeis a Regra de são Bento ou a de Santo Agostinho ou a de São Bernardo nem qualquer outro modo ou maneira de viver senão os que o Senhor na sua misericórdia se dignou revelar-me e ensinar. O Senhor me manifestou o seu desejo de que eu seja um novo insensato no mundo e não deseja me conduzir por outro caminho que não o desta ciência. Deus vos confundirá por meio de vossa ciência e sabedoria. Confio na 'milícia' do Senhor, pois Ele a enviará para vos punir e, quer queirais, quer não, volvereis para vossa vergonha, ao estado primitivo".

Ao ouvir isto, o cardeal admirou-se grandemente, sem atrever-se a responder nada, e os frades encheram-se de grande e salutar temor.

CAPÍTULO 69
Come previu e predisse que a ciência se tornaria ocasião de ruína para a Ordem
e proibiu a um irmão se dedicar ao estudo da pregação

São Francisco ficava profundamente penalizado quando percebia que se negligenciava a virtude por causa da "vá ciência que ensoberbece", sobretudo se um dos frades não perseverasse na vocação para a qual havia sido primeiramente chamado. Nestas ocasiões costumava falar-lhes nestes termos: "Os irmãos que se deixam arrastar por um desejo exagerado de saber, nos dias das tribulações serão encontrados de mãos vazias. Eis por que preferiria que vos exercitásseis mais na prática da virtude a fim de que, quando chegar este dia, o Senhor esteja convosco na vossa agonia, porque nos dias de tribulações de nada vos servirão os livros que serão atirados pelas janelas e encerrados nos mais escuros esconderijos".

Não falava assim porque o estudo das Sagradas Escrituras lhe desagradasse, mas para os desviar de um zelo excessivo e inútil pelos estudos. Preferia vê-los progredir na mais ardente caridade a vê-los crescer nesta ciência fátua e enganadora.

Pressentia assim que em tempos vindouros, não muito remotos, a ciência "que ensoberbece" acarretaria a ruína da Ordem. Assim, um dia após a sua morte, vendo um de seus companheiros sofregamente atarefado com o estudo da pregação, apareceu-lhe, repreendeu-o e, mais ainda, proibiu que se consagrasse com tão imoderado empenho a tais estudos. E ordenou-lhe que procurasse com afã seguir o caminho da humildade e da simplicidade.

CAPÍTULO 70
Como serão abençoados os que entrarem na Ordem nos dias de tribulações
e os que tiverem sofrido maiores provações que seus precedentes

São Francisco costumava dizer: "Tempo virá em que esta Ordem amada de Deus terá tão má reputação que os frades se envergonharão de se apresentar em público. Mas os que vierem, então, revestir-se do hábito da Ordem, serão conduzidos a ela unicamente pela ação do espírito, pois a carne e o sangue não terão exercido sobre eles nenhuma ação, e eles serão abençoados pelo Senhor. Todavia nenhuma obra meritória será realizada por eles, pois o espírito de caridade que faz agir os santos arrefecer-se-á. Tentações imensas assaltá-los-ão E neste momento que os que superarem estas provas serão considerados melhores que seus antecessores. Infelizes aqueles que, não tendo senão a imagem e a aparência de vida religiosa, felicitam-se a si mesmos e se fiam de sua própria sabedoria e ciência, pois serão encontrados ociosos, isto é, infelizes os que não se exercitarem em obras virtuosas, no caminho da cruz e da penitência, na pura observância do Evangelho que eles são obrigados a seguir pura e simplesmente em virtude de sua profissão. Estes, na verdade, não resistirão firmemente às tentações que o Senhor enviar para provar os eleitos. Os que tiverem sido provados e resistirem às provas receberão a coroa da vida que a impiedade dos condenados os impediu de ganhar".

CAPÍTULO 71
Como respondeu a seu companheiro que lhe perguntou
por que não reprimia os excessos
e abusos que ocorriam na Ordem em sua época

Certo dia, um companheiro de São Francisco lhe falou assim: "Pai, perdoai-me a ousadia, mas eu gostaria de dizer o que muitos já observaram e comentam". E acrescentou: "Sabeis como outrora, pela graça de Deus, a Ordem inteira prosperava na pureza da perfeição evangélica, como todos os frades observavam acima de tudo a santa pobreza, com grande fervor e zelo, nas suas habitações pequeninas e pobres, no seu mobiliário, nos seus livros pouco numerosos e de pouco valor e nas suas vestimentas. Procuravam todos ter o mesmo espírito e o mesmo fervor no cumprimento destas prescrições e de tudo o que concorria para a nossa vocação, profissão e para o bom exemplo que somos obrigados a dar. Homens profundamente apostólicos e evangélicos, eram eles unânimes no amor a Deus e ao próximo. Ora, acontece que hoje em dia, esta pureza e perfeição começam a arrefecer; embora alguns frades procurem justificar este estado de coisas, alegando que grande número de religiosos os impedem de observar rigorosamente estas santas prescrições. Mais ainda, certos frades chegaram a tamanha cegueira que crêem poder edificar e converter com mais eficácia o povo à piedade e à penitência por este modo de vida do que pelo dos primeiros irmãos. Julgam ser esta maneira de viver mais conforme às conveniências e por isso menosprezam, ou têm em pouco ou nenhum valor o caminho da simplicidade e da pobreza que foi o primeiro princípio e fundamento de nossa Ordem. Estamos certos de que tais abusos te desagradam e admiramonos grandemente que, sendo assim, os tolereis e não os corrijais".

Depois de ouvi-lo, o Seráfico Pai retrucou-lhe: "Que o Senhor te perdoe, irmão, o ousares opor-te a mim e me envolveres nos teus negócios que não são de meu ofício nem de minhas atribuições. Em verdade te digo, durante o tempo em que exerci o cargo de superior dos irmãos, eles permaneceram fiéis à sua vocação e profissão e, embora desde o começo de minha conversão tenha estado sempre doente, minha humilde solicitude, meu exemplo e minhas exortações os satisfaziam. Mais tarde, porém, vi que o Senhor multiplicava o número dos frades e que, por tibieza e falta de zelo, estes se afastaram do caminho reto e seguro que haviam trilhado até então. Caminhavam pelo caminho largo que conduz à morte, sem levar em consideração sua vocação e profissão nem o bom exemplo que estavam obrigados a dar. Apesar de minhas prédicas, advertências e bom exemplo que continuo a lhes dar, não querem deixar o caminho perigoso e mortal por que enveredaram.

Eis por que confiei o cargo de superior da Ordem e a sua direção ao Senhor e aos ministros. Se bem que na época em que resignei o cargo de superior da Ordem me tenha escusado diante deles, no capítulo geral, de tomar conta dos irmãos por causa de minhas enfermidades, se eles quisessem agora marchar sob mi direção, não aceitaria, pois desejo, para sua salvação e para seu bem, que tenham até a minha morte outro ministro. Com efeito, quando um súdito bom e fiel conhece a vontade de seu superior e lhe obedece, este se preocupa pouco com ele. Ademais me alegraria tanto com o progresso espiritual dos irmãos, o que redundaria em proveito seu e meu, que mesmo se estivesse prostrado no leito por causa de minhas enfermidades não hesitaria em atendê-los.

Meu ofício de superior é agora um cargo exclusivamente espiritual e consiste em dominar os vícios e em corrigi-los e emendá-los espiritualmente. Todavia, se não puder corrigi-los e emendá-los com minhas exortações, observações e exemplo, não me quero tornar um carrasco que pune e fustiga como os poderosos deste mundo.

Pois tenho confiança no Senhor que os inimigos invisíveis, que são seus agentes para punir neste mundo e no outro, vingar-se-ão dos que transgrediram as ordens de Deus e a promessa de sua profissão. Serão, para sua vergonha e confusão, castigados pelos homens deste mundo, e assim retornarão ao estado de sua primeira vocação. No entanto, até o dia de minha morte não cessarei de ensinar aos frades, com meu exemplo e minhas ações, a seguir o caminho que o Senhor me revelou a fim de que não tenham desculpas diante d'Ele e eu não seja obrigado, mais tarde, a prestar contas a Deus".

INTERPOLAÇÂO

Transcrevem-se aqui as palavras que Frei Leão, companheiro e confessor de São Francisco, escreveu a Frei Conrado de Offida, dizendo-lhe que as recolhera do próprio São Francisco. Frei Conrado as transcreveu em São Damião, próximo a Assis.

Estando o Seráfico Pai em oração no coro da igreja de Santa Maria dos Anjos, erguia as mãos aos céus e suplicava a Cristo tivesse compaixão do povo nos dias das grandes tribulações que haveriam de vir. E o Senhor respondeu-lhe: "Francisco, se queres que eu me compadeça do povo cristão, faze que tua Ordem permaneça no estado em que a estabeleci, pois não tenho senão a ela em todo o mundo. Por amor de ti e da tua Ordem, prometeste que não advirão tribulações sobre o mundo, mas te asseguro que os que se afastam do caminho em que os pus provocam de tal modo a minha cólera que serei obrigado a voltar-me contra eles. Chamarei os demônios e dar-lhes-ei todo o poder que eles desejam. Causam tanto escândalo, com seu mau exemplo, a si mesmos e ao mundo que ninguém terá coragem de usar teu hábito a não ser nos bosques. Quando o mundo perder a fé, nenhuma luz subsistirá além de tua Ordem, pois os escolhi para serem a luz do mundo".

Ao ouvi-lo, o Seráfico Pai perguntou-lhe: "De que viverão os meus frades, se vivem nos bosques?" E Cristo respondeu-lhe: "Eu os alimentarei, como alimentei o povo de Israel, com o maná do deserto, e eles tornarão ao estado primitivo em que foi fundada e começou a Ordem".

CAPÍTULO 72
Como as almas que parecem convertidas pela ciência e pregação de certos frades,
e foram na verdade pelas preces dos irmãos humildes e simples

O Seráfico Pai combatia nos irmãos a avidez do saber e dos livros, mas desejava, e não se cansava de recomendar-lhes em suas orações, que se aplicassem em alcançar a santa humildade e em seguir a simplicidade, a santa oração e a Senhora Pobreza sobre as quais os santos primeiros frades edificaram a Ordem. E lhes assegurava ser este o caminho mais seguro para sua salvação e edificação do próximo, pois Cristo, a quem fomos chamados a imitar, não nos deu senão este único caminho e nos ensinou a trilhá-lo, com palavras e exemplos.

Com efeito, pressentindo os tempos futuros, o Seráfico Pai sabia, por inspiração do Espírito Santo, e o repetia muitas vezes aos frades, que muitos dentre eles, no intuito de edificar o próximo, abandonariam sua vocação, isto é, a santa humildade, a simplicidade, a oração, a devoção, bem como a nossa Senhora Pobreza. Acontecer-lhes-á pensar que estavam mais instruídos, mais cheios de fervor, mais inflamados de amor e mais iluminados no conhecimento desse mesmo Deus, por causa de sua compreensão das Santas Escrituras, embora dentro de si mesmos estivessem vazios e frios. Não teriam assim possibilidade de tornar à sua vocação, pois com estudos falsos e inúteis haviam perdido o tempo em que deviam viver segundo a sua vocação. "E tenho medo que as graças que receberam lhes sejam retiradas, porque negligenciaram completamente a missão que lhes foi confiada, isto é, de conservarem-se firmes na sua vocação e segui-la".

E acrescentava: "Muitos frades põem todo o seu zelo e todos os seus cuidados na aquisição da ciência, negligenciando sua santa vocação e afastando-se tanto com o corpo como com a mente da senda da humildade e da santa devoção. Assim, quando pregam ao povo e sentem que alguns ficaram edificados e convertidos à penitência, inflamam-se e se envaidecem de sua obra e do proveito que outros alcançaram, como se fossem seus. Mas antes pregaram para sua própria condenação sem nada alcançar, pois não foram senão instrumentos de que seu Deus se serviu para os grandes efeitos de sua divina misericórdia. Os que eles julgam ter edificado e convertido à penitência por seu saber e pregações foram tocados e convertidos pelo Senhor, por causa das orações e das preces dos irmãos pobres, humildes e simples, se bem que estes santos irmãos ignorem o que operaram suas orações. Com efeito, a vontade do Senhor é que eles não o saibam para que não se orgulhem disto.

Estes irmãos são os meus cavaleiros da Távola Redonda, que se ocultam nos lugares desertos e retirados para se aplicarem diligentemente à prece e à meditação. Choram seus próprios pecados e os dos outros, vivem simplesmente e se conduzem com humildade; sua santidade é conhecida de Deus e ignorada dos homens. Quando suas almas forem apresentadas pelos anjos ao Senhor, este mostrar-lhes-á o fruto e a recompensa de seus trabalhos, isto é, as numerosas almas que foram salvas por seu exemplo, preces e lágrimas, e lhes dirá: 'Meus amados filhos, vede quantas almas foram salvas por vossas orações, vossas lágrimas e vossos exemplos e, porque permanecestes fiéis nas pequenas coisas, eu vos constituirei sobre muitas. Os outros operaram por palavras, sabedoria e ciência, mas eu operei frutos de salvação por vossos méritos. Por conseguinte, recebei a recompensa de vossos trabalhos e o fruto de vossos merecimentos que é o reino eterno que haveis arrebatado por humildade e simplicidade à força de vossas preces e lágrimas'.

Assim, levando consigo os seus feixes, isto é, o fruto e os méritos da santa humildade e de sua simplicidade, entrarão alegres e exultantes na glória do Senhor. Mas os que não se aplicaram a outra coisa senão a adquirir a ciência, na ilusão de mostrar aos outros o caminho da salvação, sem nada terem feito para si mesmos, encontrar-se-ão despidos e de mãos vazias diante do tribunal de Cristo, sem ostentarem outros feixes além de sua confusão, vergonha e castigo.

Então, a verdade da santa humildade, simplicidade, santa oração e santa pobreza, que é a nossa vocação, será exaltada e glorificada: esta mesma verdade que os frades, envaidecidos de sua ciência, arrancaram de suas vidas pelas palavras vás de sua falsa sabedoria. Afirmaram no seu orgulho que esta verdade era falsidade, e, como cegos, perseguiram cruelmente os que trilharam a senda da verdade. Então o erro e a falsidade das crenças que praticavam e que pregavam como verdade, e nas quais precipitavam muitas almas presas nos laços de sua cegueira, se encontrarão na aflição, na confusão e na vergonha. Eles próprios e suas opiniões tenebrosas serão lançados nas trevas exteriores com os espíritos das trevas".

O Seráfico Pai comentava com freqüência estas palavras: "A mulher estéril conceberá muitas vezes, a mãe de muitos filhos tornar-se-á infecunda. A mulher estéril é o bom religioso, simples, humilde, pobre, desprezado, que edifica o próximo com suas santas orações e suas virtudes e que gera com dolorosos gemidos".

Dizia sempre estas palavras na presença dos ministros e dos outros frades e, especialmente, no capítulo geral.

CAPÍTULO 73
Como desejava e ensinava que os superiores e pregadores
deviam exercitar-se nas orações e na prática da humildade

Fiel servidor e perfeito imitador de Cristo, Francisco sentia que estava completamente transformado em Cristo pela virtude da santa humildade e desejava que esta mesma virtude resplandecesse em seus frades acima de todas as demais. E não cessava de exortar afetuosamente, pela palavra e pelo exemplo, a amar, adquirir e conservar esta virtude e exortava acima de tudo os ministros e pregadores e os estimulava a exercerem humildes tarefas.

Recomendava-lhes não menosprezar a piedosa oração, a mendicância de porta em porta, o trabalho manual e outras tarefas que os frades realizavam, sob o pretexto de que os impediam seu cargo de superior ou suas atividades de pregador, isto para dar o bom exemplo e para o bem de suas almas e da do próximo. "Os frades, vossos súditos, dizia ele, ficarão mais edificados quando virem que seus ministros e seus pregadores se dedicam de boa vontade à oração e se ocupam de tarefas humildes e vis. Caso contrário, não podereis exortar os irmãos a fazer tais coisas sem vergonha, prejuízo e condenação de vós mesmos. Convém, portanto, a exemplo de Cristo, primeiro agir e depois ensinar, ou antes agir e ensinar simultaneamente".

CAPÍTULO 74
Como, humilhando-se, quis ensinar aos frades
quando ele era servo de Deus e quando não

Certo dia São Francisco reuniu vários frades e lhes disse: "Roguei ao Senhor que se dignasse mostrarme quando sou seu servo e quando não o sou, pois não desejaria ser outra coisa senão seu servidor. Então o boníssimo Senhor se dignou responder-me: 'Es realmente meu servo quando ages e pensas santamente'. Por isso vos chamei, meus caríssimos irmãos, e vos confiei isto para que possa envergonhar-me diante de vós quando virdes que eu falhei em um ou em todos os pontos que declarei aqui".

CAPÍTULO 75
Como Francisco expressa a vontade de seus frades se ocuparem
com trabalho manual de vez em quando

O Seráfico Pai afirmava que os frades indolentes, que não se aplicavam a algum trabalho com humildade e simplicidade, serão rejeitados prontamente pela boca do Senhor. Por isso ninguém podia aparecer de mãos vazias ou ocioso diante do santo sem que este o repreendesse severamente. Ele mesmo, modelo de todas as perfeições, trabalhava humildemente com suas próprias mãos e não permitia que se desperdiçasse tempo, preciosíssimo dom de Deus.

E afirmava com freqüência: "Desejo que todos os meus frades trabalhem, aplicando-se humildemente a bons trabalhos, a fim de serem menos onerosos aos homens e para evitar que o coração ou a língua divaguem na ociosidade. Que os que não sabem trabalhar aprendam!"

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