sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Espelho da Perfeição - Capítulos XLI a L.


Capítulo 41. Renunciou ao oficio de superior por causa dos maus superiores.

1 Uma vez, interrogado por um frade por que afastara os fra­des de seus cuidados e os confiara a outras mãos, como se não tivesse nada a ver com eles, respondeu: 2 “Meu filho, amo os frades como posso, mas se eles seguissem os meus passos (cf. 1Pd 2,21), amá-los-ia mais ainda e não ficaria alheio a eles. 3 Pois há alguns prelados que os arrastam para outras coisas, propondo-lhes os exemplos dos antigos e fazendo pouco das minhas admoestações; mas o que e como eles fazem agora aparecerá claramente no fim”.

4 Pouco depois, atacado por grave doença, ergueu-se na cama com veemência de espírito (cf. Sl 47,8) e, gritando, disse: “Quem são estes que roubaram de minhas mãos (cf. Jo 10,28) a minha religião e os meus frades? 5 Se eu for ao Capítulo geral, mos­trar-lhes-ei qual é minha vontade!”

Capítulo 42. Com humildade, conseguia carne para os doentes e os admoestava a serem humildes e pacientes.

1 O bem-aventurado Francisco não se envergonhava de ir pelas praças públi­cas das cidades para pedir carne para um frade doente. Mas exortava os sofredores a suportar com paciência o que fazia falta e não fazer um escândalo quando não eram plenamente satis­feitos em tudo.

2 Por isso, mandou escrever assim na primeira Regra: Peço a meus irmãos doentes que, nas suas enfermidades, não se irri­tem ou se revoltem contra o Senhor ou contra os irmãos, nem exijam remédios com muita insistência, nem desejem demasia­damente libertar a carne, que logo morrerá e é inimiga da alma; 3 mas rendam graças por tudo (cf. 1Ts 5,18) para desejarem ser o Deus quer que sejam; pois aos que o Senhor predesti­nou para a vida eterna (cf. At 13,48), ele instrui com os açoites dos flagelos e das doenças, como ele próprio diz: “Eu repreendo e castigo os que eu amo” (Hb 12,6; Ap 3,19).

Capítulo 43. A humilde resposta de São Francisco e São Domingos, quando, juntos, foram interrogados se queriam que seus frades fossem prelados na Igreja.

1 Na cidade de Roma, quando os dois claros astros do universo, o bem-aventurado Francisco e o bem-aventurado Domingos, estavam diante do senhor de Óstia, que depois foi sumo pontífice, 2 contavam um ao outro coisas melífluas sobre Deus. Por fim o senhor de Óstia lhes disse: “Na Igreja primitiva, os pastores e os prelados eram pobres e ho­mens ardentes de caridade e não de ambição. 3 Portanto, por que não fazemos de vossos frades bispos e prelados, que se distingam de todos os outros pelo testemunho e pelo exemplo?” (cf. Tt 2,7).

4Estabeleceu-se entre os santos uma humilde e devota contenda (cf. Lc 22,24) sobre a resposta, não para se adiantar, mas para um ceder ao outro e levá-lo a responder. 5 Por fim, ven­ceu a humildade de Francisco em não ser o primeiro a responder, e venceu também Domingos que, respondendo por primeiro, obedeceu com humildade..

6 Assim, respondendo, São Domingos disse: “Senhor, meus frades estão elevados a bom grau, se querem reconhecê-lo; en­quanto eu puder, jamais permitirei que atinjam outro tipo de dig­nidade”.

7 Depois, inclinando-se diante do referido senhor, o bem-aventurado Fran­cisco disse: “Senhor, meus frades chamam~se menores para que não presumam tornar-se maiores (cf. Mt 20,26). 8 Sua vocação lhes ensina a ficar no chão e a seguir os passos da humil­dade de Cristo, para que, no fim, sejam exalta­dos mais que os outros aos olhos dos santos (cf. Sb 3,13). 9 Se quiserdes que produzam fruto na Igreja de Deus (cf. Fl 3,6), mantende-os e conservai-os no estado de sua vocação; e, se subirem a postos mais elevados, fazei-os voltar à força para baixo e não permitais que subam a uma prelatura”.

10 Estas foram as respostas dos santos. Assim que termina­ram, o senhor de Óstia ficou muito edificado com as res­postas dos dois e deu imensas graças a Deus (cf. At 27,35).

11 Afastando-se os dois juntos, o bem-aventurado Domingos pe­diu ao bem-aventurado Francisco que se dignasse dar-lhe a corda com a qual se cingia. O bem-aventurado Francisco recusou por humildade, como o bem-aventurado Domin­gos pedia por caridade. 12 Mas venceu a feliz devoção do pedinte e, recebida a corda do bem-aventurado Francisco pela violência da ca­ridade, o bem-aventurado Domingos cingiu-a sob a túnica interior e, daí por di­ante, usou-a com devoção.

13 Por fim, um pôs suas mãos entre as mãos do outro e, doce­mente, um se recomendou ao outro. O bem-aventurado Domingos disse ao bem-aventurado Francisco: “Frei Francisco, eu desejaria que a tua e a minha Ordem formassem uma só, e vivêssemos na Igreja de igual forma”.

14 Finalmente, quando se separavam um do outro, o bem-aventurado Domingos disse a muitos que estavam presentes: “Em verdade vos digo (cf. Lc 4,25) que todos os religiosos deveriam imitar este santo ho­mem Francisco, tal é a perfeição de sua santidade”.

Capítulo 44. Para fundamentar a humildade,
quis que todos os frades servissem aos leprosos.

1 Desde o início de sua conversão, com a ajuda de Deus (cf. Mc 16,20) e como sábio construtor, o bem-aventurado Francisco fundamen­tou-se sobre uma rocha (cf. Mt 7,24) firme, 2 isto é, sobre a máxi­ma humildade e pobreza do Filho de Deus, chamando sua religião dos Frades Menores por causa da máxima humildade.

3 Por isso, no começo da religião, quis que os frades morassem nos hospitais dos leprosos para servi-los e ali porem o funda­mento da santa humildade. 4 Pois, quando vinham para a Ordem no­bres e plebeus, entre outras coisas que lhes eram anunciadas, di­zia-se que era necessário servir humildemente os leprosos e mo­rar em suas casas, como consta na primeira regra.

5 Não queren­do possuir nada sob o céu, senão a santa pobreza pela qual, neste século, são nutridos pelo Senhor com alimentos corporais e espirituais e, no futuro, conseguirão a herança do céu. 6 Assim, funda­mentou a si e aos outros sobre a maior humildade e pobreza; por­que, embora fosse um grande prelado na Igreja de Deus, esco­lheu e quis ser desprezado não só na Igreja, mas também entre seus frades,7 ainda que este desprezo, na sua opinião e desejo, fosse sua maior honra aos olhos de Deus e dos homens.

Capítulo 45. Desejava atribuir somente a Deus a glória e a honra por todas as suas boas palavras e obras.

1 Quando esteve pregando ao povo de Terni, na praça da cidade, logo que terminou a pregação, levantou-se o bispo da mesma cidade, um homem discreto e espiritual, 2 e disse ao povo: “Desde o dia em que plantou e construiu sua Igreja, o Senhor sempre a ilumi­nou com homens santos que a honraram com a palavra e com o exemplo. 3 Agora, porém, nesta última hora (cf. 1Jo 2,18), ilus­trou-a com este homem pobrezinho, desprezado e iletrado, Fran­cisco. 4 Por isso, sois obrigados a amar e honrar o Senhor e abster­-vos dos pecados, pois não agiu assim com nenhuma outra na­ção” (cf. Sl 147,20).

5 Quando acabou de dizer isso, o bispo desceu do lugar de onde havia pregado e entrou na catedral. Aproximando-se dele, São Francisco inclinou-se diante dele e, caindo a seus pés (Ap 10,25), 6 disse: “Senhor bispo, em verdade vos digo que jamais um homem me prestou tão grande honra neste mundo, como me fizestes hoje; 7 pois os outros homens dizem: é um homem santo, atribuindo a glória e a santidade a mim e não ao Criador; mas vós, como sois discreto, separastes o precioso do vil” (cf. Jr 15,19).

8 Quando era louvado e chamado de santo, a tais palavras o bem-aventurado Francisco respondia, dizendo: “Ainda não estou seguro de que não vou ter filhos e filhas; 9 pois, em qualquer momento que o Senhor reti­rar de mim o tesouro que me confiou, que me restará senão o corpo e a alma, que também os infiéis possuem? 10 E até, devo crer que, se o Senhor tivesse concedido a um ladrão e a um infiel tantos bens quantos concedeu a mim, eles seriam mais fiéis ao Senhor do que eu. 11 Assim como num quadro do Senhor e da Santa Virgem, pin­tado sobre madeira, se honram o Senhor e a Santa Virgem, mas a ma­deira e a pintura nada atribuem a si, da mesma forma o servo de Deus é uma pintura de Deus, na qual Deus é honrado por causa de seu beneficio; 12 mas ele nada deve atribuir a si, porque, em relação a Deus é menos do que a madeira e a pintura: chega a ser um puro nada e, por isso, a honra e a glória (cf. Ap 5,13) só devem ser dadas a Deus; a si mesmo, porém, somente vergonha e tribulação, enquan­to viver entre as misérias deste mundo”.

Capítulo 46. Até a morte quis ter como guardião
um de seus companheiros e viver subordinado.

1 Querendo viver até a morte na perfeita humildade e sujeição, muito tempo antes de sua morte disse ao ministro geral; “Que­ro que transmitas tua autoridade a um dos meus com­panheiros, a quem obedecerei em teu lugar; pois, devido ao bem da obediência, quero que na vida e na morte permaneças sempre comigo”.

2 Desde então, até.a morte, teve como guardião um de seus companheiros, a quem obedecia em lugar do ministro geral. 3 Um dia, chegou mesmo a dizer a seus companheiros: 4 Entre outras, o Senhor me deu a graça de obedecer diligentemente tanto a um no­viço que entrou hoje na Ordem, se ele me fosse indicado como guardião, quanto ao que é o primeiro e mais idoso na religião. 4 De fato, o súdito não deve considerar seu superior como homem, mas como Deus, pelo amor do qual se submete a ele”. 5 Depois dis­se: “Não existe prelado em todo o mundo que seja tão reverencia­do pelos seus súditos quanto o Senhor faria que eu fosse temido pelos meus irmãos, se eu o quisesse; mas o Senhor me deu a graça de contentar-me com tudo, como se na Ordem fosse o menor”.

6 Nós que com ele vivemos (cf. 2Pd 1,18), vimos com nossos olhos (cf. 1Jo 1,1), como também ele atesta, isto é, que quando alguns frades não o satisfaziam em suas necessidades 7 ou lhe diziam alguma palavra pela qual costumamos nos magoar, ele logo ia rezar e, ao voltar, não queria lembrar-se de nada nem ja­mais dizia: “Fulano não me satisfez, ou fulano me disse tal palavra”.

8 Permanecendo nesse espírito, quanto mais se aproximava da morte, mais procurava pensar em como poderia viver e morrer em toda a humildade e pobreza e na perfeição de todas as virtudes.

Capítulo 47. O modo perfeito de obedecer ensinado por ele.

1 O santíssimo pai dizia a seus frades: “Irmãos caríssimos, cumpri a ordem à primeira palavra, não espereis que vos seja dito novamente; 2 não alegueis que é impossível, mesmo que vos pareça ser a ordem impossível; porque, se eu vos ordenar algo acima de vossas forças, não faltará a santa obediência com a sua força”.

Capítulo 48. Como comparou o perfeito obediente a um cadáver.

1 Mas uma vez, estando sentado com seus compa­nheiros, suspirou: “Dificilmente há no mundo um religioso que obedeça bem a seu superior!”

2 Logo .os companheiros lhe disseram: “Dize-nos, pai, qual seja a perfeita e melhor obediência?” Respondendo, descreveu o verdadeiro e perfeito obediente sob a figura de um corpo morto: 3 “Toma um corpo inanimado e coloca-o onde quiseres. Verás que não lhe desagradará o movimento, não se queixará do lugar, não reclamará por o terem largado. 4 Se o puseres numa cátedra, não olhará para cima, mas para baixo; se o vestires de púrpura, empalidecerá duas vezes mais. Verdadeiro obediente é aquele que não pergunta por que é transferido, não se importa onde é colo­cado, não insiste em ser mudado de lugar. 5 Promovido a um car­go, mantém a costumeira humildade; quanto mais é honrado, tanto mais indigno se julga”.

6 Chamava de santas as obediências pura e simplesmente eram impostas e não solicitadas. 7 Achava que a maior obediência, em que a carne e o sangue (cf. Mt 16,17) nada têm, era a de, por inspiração divina, ir para o meio dos infiéis, seja para o bem do próximo, seja por desejo do martírio. Julgava que pedir isso era muito agradável a Deus.

Capítulo 49. É perigoso ordenar muito rapidamente em nome da obediência e não obedecer à ordem da obediência.

1 Por isso, o bem-aventurado pai entendia que raramente se deveria man­dar em nome da obediência, nem se deveria lançar no começo o dardo que deve ser o último: “Não se deve pôr logo a mão na espada”, dizia. 2 Quem, porém, não obedece rapidamente à ordem da obediência, dizia que não temia a Deus nem respeita­va o homem (cf. Lc 18,2-4), a menos que não tenha um motivo forte para retardar.
3 Nada mais verdadeiro, pois que é a autoridade de mando num su­perior temerário, senão uma espada na mão de um louco? E o que há de mais desesperador do que um religioso que negli­gencia e despreza a obediência?

Capítulo 50. Como respondeu aos frades que queriam persua­di-lo
a solicitar o privilégio de poder pregar livremente.

1 Alguns frades disseram ao bem-aventurado Francisco: “Pai, não vês que às vezes os bispos não nos permitem pregar e nos fazem ficar muitos dias ociosos numa terra, antes de podermos anunciar a pa­lavra do Senhor? 2 Melhor seria se pedisses ao senhor papa um privilégio sobre isso, pois se trata da salvação das almas” (cf. 1Pd 1,9).
3 Ele lhes respondeu com muita dureza, dizendo: “Vós, frades menores, não conheceis a vontade de Deus e não me permi­tis salvar o mundo inteiro como. Deus quer; 4 pois, pela santa humil­dade e reverência, quero converter primeiramente os prelados. Estes, quando virem nossa vida santa e humilde reverência para com eles, pedir-vos-ão que pregueis e convertais o povo e o cha­marão à pregação, melhor do que os vossos privilégios, que vos le­varão à soberba. 5 E se estiverdes apartados de toda avareza (cf. Lc 12,15) e levardes o povo a, devolver seus direitos às igrejas, pe­dir-vos-ão que ouçais as confissões do seu povo, embora não de­vais preocupar-vos com isso, pois, se tiverem sido convertidos, fa­cilmente encontrarão confessores. 6 Para mim, quero que o Senhor me dê o privilégio de nunca receber do homem algum privilégio, a não ser de reverenciar a todos e, pela obediência à santa regra, converter a todos mais pelo exemplo do que pela palavra”.

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