quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Espelho da Perfeição - Capítulos I a X.


Esquema do Espelho da Perfeição





1. A perfeição da pobreza (ns. 2-26)

2. A caridade, compaixão e condescendência para com o próximo (ns. 27-38)

3. A perfeição da santa humildade e da obediência em si mesmo e em seus irmãos (ns. 39-75)

4. Seu zelo pela profissão da regra e por toda a religião (ns. 76-84)

5. Seu zelo pela perfeição dos irmãos (ns. 85-90)

6. O contínuo fervor do amor e da compaixão pela paixão de Cristo (ns. 91-93)

7. Seu zelo pela oração e pelo ofício divino e para conservar a alegria espiritual em si e nos outros (ns. 94-97)

8. Algumas tentações que Deus lhe permitiu (ns. 98-100)

9. O espírito de profecia (ns. 101-109)

10. A providência divina sobre ele em coisas exteriores (ns. 110-112)

11. Seu amor pelas criaturas e das criaturas por ele (ns. 113-120)

12. Sua morte e a alegria que demonstrou quando teve certeza de estar perto da morte (ns. 121-124).

Começa o Espelho da Perfeição do estado do Frade menor.

Capítulo 1

1 Depois que foi perdida a segunda Regra que o bem-aventurado Francisco tinha feito, ele subiu a um monte (cf. Ex 24,18; Mt 5,1) com Frei Leão de Assis e Frei Bonício de Bolonha para redigir outra Re­gra, que mandou escrever com o ensino de Cristo.
2 Reunidos ao mesmo tempo com Frei Elias, que era vigário do bem-aventurado Francisco, muitos ministros lhe disseram: “Soubemos que esse Frei Francisco está compondo uma nova Regra; tememos que a faça tão áspera que não possamos obser­vá-la. 3 Queremos, pois, que vás a ele e lhe digas que não quere­mos ser obrigados a essa Regra. Que a faça para si e não para nós”.

4 Frei Elias respondeu-lhes que não queria ir, temendo uma re­preensão de São Francisco. Então eles insistiram que fosse e ele disse que não queria ir sem eles. 5 Chegando perto do lugar onde estava São Francisco, Frei Elias o chamou. São Francisco respondeu e, vendo os preditos mi­nistros, disse: “O que querem estes frades”?

6 E Frei Elias respondeu: “Estes são ministros, que ouviram falar que estás fazendo uma Regra nova e, temendo que a faças demasiado áspera, dizem e protestam que não querem ser obrigados a ela; que a faças para ti e não para eles”.

7 Então, São Francisco voltou o rosto para o céu e assim falou a Cristo: “Senhor, eu não te disse bem que eles não acreditariam em mim?”

8 Então, ouviram todos a voz de Cristo, que respondia no ar: “Francisco, nada há na Regra de teu, mas tudo o que aí está, é meu; e quero que a Regra seja observada ao pé da letra, ao pé da letra, ao pé da letra, sem comentários, sem comentários, sem comentários”. 9 E acrescentou: “Sei quanto pode a fraqueza humana e quanto quero ajudá-los. Portanto, os que não querem observá-la, que saiam da Ordem”.

10 Então São Francisco voltou-se para os frades e lhes dis­se: “Ouvistes! Ouvistes! Quereis que vo-lo faça repetir?” E os ministros, reconhecendo sua falta, afastaram-se confusos e atemorizados.

CAPÍTULO I (II) - A PERFEIÇÃO DA POBREZA.

Capítulo 2. Primeiro, como São Francisco declarou a vontade e a intenção que teve desde o princípio até o fim sobre a observância da pobreza.

1 Frei Ricério da Marca, nobre de nascimento e mais nobre em santidade, a quem o bem-aventurado Francisco amava com grande afeto, foi um dia visitar o bem-aventurado Francisco no palácio do bispo de Assis e, entre outras coisas que conversou com ele sobre a situação da Ordem e a ob­servância da Regra, interrogou-o especialmente sobre isto, dizendo: 2 “Conta-me, pai, a intenção que tiveste quando, no princí­pio, começaste a receber frades, a intenção que tens agora e crês que terás até o dia de tua morte; 3 para que eu tenha certeza de tua primeira e última intenção e vontade: será que nós, frades clérigos, que temos tantos livros, podemos conservá-los, embora digamos que pertencem à religião?”

4 Disse-lhe o bem-aventurado Francisco: “Irmão, digo-te que esta foi e é mi­nha primeira e última intenção e vontade, se os frades tivessem acreditado em mim, que nenhum dos frades deveria ter senão o hábito, com o cíngulo e os calções, conforme nos concede a nossa Regra”.

5 Mas, se algum frade quiser dizer: Por que o bem-aventurado Francisco não fez com que os frades observassem a estrita po­breza, como disse a Frei Ricério, nem ordenou que assim fosse observada, 6 nós, que com ele estivemos (cf. 2Pd 1,18), responde­mos conforme ouvimos de sua boca, porque ele disse aos frades estas e muitas outras coisas; e até mandou escrever muitas coisas na regra 7 que, com assídua oração e meditação, pedia ao Senhor para a utilidade da Ordem, afirmando que eram totalmente con­formes à vontade do Senhor. 8 Mas, depois que as propunha aos fra­des, pareciam-lhes demasiado pesadas e insuportáveis (cf. Mt 23,4), já que, então, ignoravam o que aconteceria na religião depois de sua morte.

9 E porque temia muito o escândalo em si e nos frades, não queria discutir com eles, mas, contra a vontade, condescendia com a vontade deles e desculpava-se diante do Senhor. 10 Mas para que a palavra que colocava em sua boca (cf. Ex 4,15) para a utilidade dos frades não voltasse vazia (cf. Is 55,11) ao Senhor, queria que primeiramente se realizasse nele, a fim de receber a mercê do Senhor. E, finalmente, nisso seu espírito se aquietava e se consolava.

Capítulo 3. Como respondeu ao ministro que queria possuir li­vros com sua permissão e como os ministros, sem que ele o sou­besse, mandaram tirar da Regra o capítulo referente às proibi­ções do Evangelho.

1 Certa ocasião, quando o bem-aventurado Francisco havia regressado do ultramar, um ministro conversava com ele sobre o capí­tulo da pobreza, querendo conhecer sua vontade e maneira de ver, 2 principalmente porque havia, então, na Regra um capítulo escrito sobre as proi­bições do santo Evangelho, a saber: Nada leveis pelo caminho (Lc 9,3) etc.

3 São Francisco respondeu-lhe: “Eu entendo que os frades nada devem possuir a não ser o hábito com a corda e os calções, conforme diz a Regra. E os que forem obrigados pela necessida­de, podem usar calçados”. 4 E o ministro disse-lhe: “Que farei eu, que tenho muitos li­vros que valem mais de cinqüenta libras?” Ele disse isso, porque queria conservá-los com a consciência tranqüila, pois tinha tantos livros com remorso, sabendo que São Francis­co interpretava tão estritamente o capítulo da pobreza. 5 São Francisco respondeu-lhe: “Não quero, não devo nem posso ir contra minha consciência e a profissão do santo Evangelho, que prometemos observar”. Ouvindo isso, o ministro ficou tris­te (cf. Mt 19,22).

6 Vendo-o tão perturbado, com grande fervor de espírito, disse-lhe São Francisco, na pessoa de todos os irmãos: “Vós quereis ser vistos pelos homens (cf. Mt 23,5.7) como Frades Menores e ser chamados observantes do santo Evangelho, mas desejais ter bolsas (cf. Jo 12,6) para as obras!”

7 Na verdade, embora os ministros soubessem que segundo a Regra os frades eram obrigados a observar o santo Evangelho, fi­zeram remover da Regra o capítulo onde se diz: “Nada leveis pelo caminho” (Lc 9,3), etc., acreditando que com isto não seriam obrigados a observar a perfeição do Evangelho. 8 Por isso, o bem-aventurado Francisco, iluminado pelo Espírito Santo, disse na presença de alguns frades: “Os irmãos ministros pensam que enganam ao Senhor e a mim. Mais, para que todos os frades saibam que são obrigados a observar a perfeição do santo Evangelho, quero que no princípio e .no fim da Regra esteja escrito que os frades são obrigados a observar firmemente o santo Evangelho de nosso Se­nhor Jesus Cristo, 9 e para que os frades nunca tenham desculpas (cf. Rm 1,20), porque eu lhes anunciei e continuo a anun­ciar o que o Senhor pôs na minha boca (cf. Ex 4,15; Is 51,16) para a minha e a sua salvação, quero mostrá-lo em obras diante de Deus e, com sua ajuda, observá-lo para sempre”.

10 Por isso, ele observou ao pé da letra todo o santo Evange­lho, desde o princípio, quando começou a ter irmãos, até o dia de sua morte.

Capítulo 4. O noviço que queria ter um saltério com sua per­missão.

1 Em outra ocasião, um noviço que sabia ler o saltério, embo­ra não bem, obteve do ministro geral a licença de tê-lo. 2 Mas, como tinha ouvido que o bem-aventurado Francisco não queria que seus frades fossem ávidos de ciência e de livros, não se contentava em possuí-lo sem a licença do bem-aventurado São Francisco.

3 Por isso, quando o bem-aventurado Francisco foi ao lugar onde estava o noviço, ele lhe disse: “Pai, seria uma grande consolação para mim ter um saltério mas, embora o ministro geral me te­nha concedido isso, gostaria de tê-lo com o teu conhecimento”.
4 São Francisco respondeu: “O Imperador Carlos, Orlan­do, Olivério e todos os paladinos e homens valorosos, que foram poderosos no combate perseguindo os infiéis com muito suor e fadi­ga até a morte, alcançaram memorável vitória sobre eles; 5 e, por fim, os próprios santos mártires morreram na luta pela fé de Cristo. Mas ago­ra, há muitos que, só pela narração do que os santos fizeram, querem receber honra e louvor humano”.

6 Do mesmo jeito, também entre nós há muitos que só recitando e pregando as obras que os santos fizeram querem receber honra e glória. 7 Como se dissesse: “Não devemos cuidar de livros e ciência, mas das obras virtuosas, pois a ciência incha, e a caridade edifica” (cf. 1Cor 8,1).

8 Alguns dias mais tarde, estando o bem-aventurado Francisco sentado jun­to ao fogo, o mesmo noviço falou-lhe novamente do salté­rio. 9 E o bem-aventurado Francisco disse-lhe: “Depois que tiveres o saltério, desejarás e quererás ter um breviário. E depois que tiveres o bre­viário, sentarás na cátedra como um grande prelado e dirás a teu irmão: Traze-me o breviário”.

10 Dizendo isso, com grande fervor de espírito, o bem-aventurado Francisco pegou cinza com a mão, colocou-a sobre sua cabeça e girando a mão em círculo; como quem lava a cabeça, dizia: “Eu [quero] o breviário! Eu [quero] o breviário!” E passou a mão pela cabeça, muitas vezes. O frade ficou estupefato e envergonhado.

11 Mais tarde, o bem-aventurado Francisco lhe disse: “Irmão, também eu fui tentado a ter livros, mas, para conhecer a vontade do Senhor so­bre isso, tomei o livro onde estavam escritos os Evangelhos do Senhor e supliquei ao Senhor que, na primeira abertura do livro, me mostrasse a sua vontade sobre isso. 12 Terminada a oração, na primeira abertura do livro apareceu-me a palavra do Santo Evangelho: A vós foi dado conhecer os mistérios do reino de Deus; aos outros, só em parábolas (Lc 8, 10). 13 E acrescentou: “São tantos os que se elevam com gosto à ciência que será feliz quem se fizer ignorante por amor do Senhor Deus”.

14 Passados muitos meses, estando o bem-aventurado Francisco no lugar de Santa Maria da Porciúncula, perto da cela, atrás da casa, no cami­nho, o predito frade falou-lhe outra vez do saltério. 15 São Francisco disse-lhe: “Vai e faze como te disser teu ministro”. Ou­vindo isso, o frade começou a voltar pelo caminho de onde viera.
16 Mas São Francisco, ficando na estrada, começou a pensar no que tinha dito ao frade. De repente, gritou atrás dele dizendo: “Espera-me, irmão, espera!” 17 Foi até ele e dis­se: “Irmão, volta comigo e mostra-me o lugar onde te disse que fizesses com o saltério como te diria teu ministro”.

18 Quando chegaram ao lugar, o bem-aventurado Francisco ajoelhou-se diante do frade e disse: “Minha culpa, irmão, minha culpa. 19 Pois, quem quiser ser frade menor não deve possuir, como lhe concede a Regra, senão a túnica a corda e os calções; e quem for obrigado por manifesta necessidade, os calçados”.

20 Desde então, sempre que os frades vinham a ele para ter seu conselho sobre esse assunto, respondia-lhes da mesma maneira. 21 Por isso, dizia muitas vezes: “O homem tem tanta ciência quanto faz, e o religioso é bom pregador na medida em que pratica; pois a árvore se conhece somente pelos frutos” (cf. Mt 12,33; Lc 6,44).

Capítulo 5. A observância da pobreza nos livros e nos leitos, nos edifícios e nos utensílios.

1 O muito bem-aventurado pai ensinava os frades a não buscar-nos livros o preço mas o testemunho do Senhor (cf. Sl 18,8), não a beleza, mas a edificação. Queria que tivessem poucos livros e em comum (cf. At 2,44; 4,32), pronto para o uso dos frades que deles precisassem. 2 Era tão grande a pobreza nos enxergões e nos leitos que, se alguém tivesse trapos sobre as palhas, achava que tinha uma cama de noivos. 3 Além disso, ensinava seus frades a construírem habitações pobrezinhas, cabanas de madeira e não de pedra, e queria que fossem edificadas de forma humilde. E não só odiava a arrogância das casas, mas detestava também a excessiva abundância e o requin­te dos utensílios. 4 Queria que nas mesas e nas louças nada parecesse mundano ou lembrasse algo do mundo, para que tudo proclamasse a pobre­za e tudo cantasse a peregrinação e o exílio.

Capítulo 6. Como obrigou todos os frades a sair de uma casa
que diziam ser casa dos frades.

1 Ao passar por Bolonha, soube que recentemente fora ali construída uma casa dos frades. Logo que ouviu dizer que aquela casa pertencia aos frades, voltou atrás, saiu da cidade e ordenou energicamente que todos os frades saíssem rapidamente e de maneira alguma ali morassem.

2 Então, todos saíram, de forma que nem os doentes ficaram lá mas foram postos para fora com os outros; até que o senhor Hugolino, bispo de Óstia e legado na Lombardia, afirmou publicamente que aquela casa era dele.

3 E um frade enfermo, que foi expulso daquela casa, deu tes­temunho destas coisas e as escreveu (cf. Jo 21,24).



Capítulo 7. Como quis demolir uma casa que o povo de Assis construíra em Santa Maria da Porciúncula.

1 Aproximando-se o tempo do Capítulo geral, que se realizava todos os anos em Santa Maria da Porciúncula, vendo que os frades se multiplicavam a cada dia e que anualmente todos se reuniam ali — e não tinham senão uma pequena cabana, coberta de palhas, cu­jas paredes eram de ramos e barro, 2 O povo de Assis reuniu seu conselho e, em poucos dias, com muita pressa e devoção, levanta­ram ali uma grande casa, construída de pedra e cal, sem o consenso de São Francisco e na sua ausência.

3 Ao regressar de certa província para vir ao capítulo, São Francisco admirou-se muito com a casa ali construída. Temendo que, a pretexto daquela casa, os outros frades também mandassem edificar grandes habitações nos lugares onde moravam ou haveri­am de morar 4 e porque desejava que aquele lugar sempre fosse o modelo e o exemplo para todos os outros lugares da Ordem, antes de terminar o capítulo, subiu ao telhado (cf. Lc 5,19) daquela casa e mandou que os frades subissem. 5 E, junto com os frades, come­çou a lançar para a terra as telhas que cobriam a casa, querendo destruí-Ia até os fundamentos.

6 Mas alguns soldados de Assis, que estavam ali para guardar o local por causa da multidão de forasteiros que se reuniram para ver o Capítulo dos frades, 7 vendo que, com os demais frades, o bem-aventurado Francisco queria demolir a casa, imediatamente foram até ele e disseram-lhe: “Irmão, esta casa pertence à comuna de Assis, e nós estamos aqui em nome dela. Por isso, proibimos-te de des­truir a nossa casa”. 8 Ouvindo isso, São Francisco disse-lhes: “Então, se a casa é vossa, não quero tocá-la”. E imediatamente ele e os outros frades desceram dela.
9 Por isso, o povo da cidade de Assis resolveu que, para o fu­turo, quem fosse o podestà da cidade, teria a obrigação de mandar repará-la. E essa norma foi observada todos os anos, por muito tempo.

Capítulo 8. Como repreendeu seu vigário por ter mandado
construir ali uma pequena casa para rezar o oficio.

1 Em outra ocasião, o vigário de São Francisco mandou começar a construir, no mesmo lugar, uma pequena casa, onde os frades pudessem repousar e rezar suas horas; 2 porque, devido à multidão de frades que vinham àquele lugar, os frades não ti­nham onde pudessem rezar o oficio. 3 Pois todos os frades da Ordem acorriam ali e ninguém era recebido à Ordem senão ali.

4 Quando a casa estava quase pronta, o bem-aventurado Francisco voltou àquele lugar e, estando na cela, ouviu o ruído dos que ali traba­lhavam; chamando seu companheiro, perguntou-lhe o que esta­vam fazendo aqueles frades. Ele contou como era tudo.

5 Mandou chamar seu vigário na mesma hora e lhe disse: “Ir­mão, este lugar é modelo e exemplo para toda a religião; por isso, prefiro que os frades deste lugar suportem as privações e os incômodos por amor a Deus, 6 e os outros frades que vêm aqui levem o bom exemplo da pobreza para seus luga­res. Pois, se os que moram aqui satisfazem plenamente suas co­modidades, também os outros seguirão o exemplo de construir em seus lugares, 7 dizendo: Em Santa Maria da Porciúncula, que é o primeiro lugar da Ordem, constroem-se tais e tantos edifícios; também nós podemos construí-los em nossos lugares”.

Capítulo 9. Não queria ficar numa cela bonita ou que diziam ser sua.

1 Certo frade, muito espiritual e muito amigo do bem-aventurado Francisco, mandou construir, no eremitério em que permanecia, uma cela um pouco afastada, em que o bem-aventurado São Francisco pudesse ficar em oração, quando lá fosse.

2 Quando o bem-aventurado Francisco chegou àquele lugar, o frade condu­ziu-o à cela. O bem-aventurado Francisco disse-lhe: “Esta cela é bonita demais!” 3 De fato, o piso era feito de madeira trabalhada com machado e enxó. “Portanto, se quiseres que eu permaneça ali, manda reves­ti-Ia por dentro e por fora com samambaias e ramos de árvores”. 4 pois, quanto mais pobrezinhas eram as casas e as celas, com tanto mais prazer morava nelas. Tendo o frade feito assim, o bem-aventurado Francis­co permaneceu ali por alguns dias.

5 Certo dia, porém, tendo ele saído da cela, um fra­de foi vê-la e, depois, foi para onde o bem-aventurado Francisco estava. 6 Vendo-o, o bem-aventurado Francisco disse: “De onde vens, irmão?” — Disse ele: “Venho de tua cela”. E o bem-aventurado Francisco dis­se-lhe: “Porque disseste que ela é minha, doravante outro vai estar lá, não eu”.

7 Nós que estivemos com ele (cf. 2Pd 1,18), muitas vezes o ouvimos dizer a palavra: As raposas têm tocas, e os pássaros do céu, ninhos, mas o Filho do homem não tem onde repousar sua cabeça (Mt 8,20; Lc 9,58).

8 E dizia também: “Quando o Senhor esteve no deserto, onde orou e jejuou quarenta dias e quarenta noites (cf. Mt 4,2), não mandou construir ali cela ou casa, mas ficou sob o rochedo do monte”.

9 E assim, a seu exemplo, nunca quis ter casa ou cela que dis­sesse ser sua nem jamais mandou construir. 10 E até, se alguma vez acontecia que ele dissesse aos frades: “Ide e preparai aquela cela”, depois não queria permanecer nela por causa da palavra do santo Evangelho: Não vos preocupeis (Mt 6,24; Lc 12,22) etc. 11 Por isso, perto de sua morte, quis escrever no seu testamento que todas as celas e casas dos frades fossem somente de madeira e barro, para melhor conservar a pobreza e a humildade.

Capítulo 10. A maneira de escolher os lugares nas cidades e ne­les construir, segundo a intenção de São Francisco.

1 Certa vez, quando se estava em Sena por causa da doença dos olhos, o senhor Boaventura, que dera aos frades o terreno onde foi construído o lugar, perguntou-lhe: “O que achas deste local, pai?” 2 São Francisco disse-lhe.: “Queres que eu te diga como de­vem ser construídas as casas dos frades?” Respondeu-lhe: “Quero, pai”.

3 E o bem-aventurado Francisco disse: “Quando os frades chegam a uma ci­dade onde não têm casa e ali encontram alguém que queira dar-lhes a terra necessária para poderem edificar um lugar, ter uma horta e todo o necessário, 4 primeiramente devem verificar quanta terra lhes é suficiente, levando sempre em consideração a santa pobreza e o bom exemplo, que em tudo devemos dar”.

5 Dizia isso porque, de forma alguma, queria que os frades se excedessem à maneira dos pobres nas casas, igrejas, hortas ou outras coi­sas que usassem, 6 nem que possuíssem lugares por direito de pro­priedade, mas sempre morassem neles como peregrinos e forasteiros (cf. 1Pd 2,11). 7 Por isso, queria que não colocassem frades em grande quantidade nos lugares, porque lhe parecia difícil ob­servar a pobreza em uma grande multidão. 8 E, essa foi sua intenção desde o início de sua conversão até o fim: que a pobreza fosse rigorosamente observada em tudo.
“Portanto, depois de verificarem a terra necessária aos fra­des para o lugar, deveriam ir ao bispo da cidade e di­zer-lhe: Senhor, por amor de Deus e para a salvação de sua alma, tal pessoa quer nos doar tanta terra para que possamos construir ali um lugar. 10 Por isso, recorremos primeiramente a vós, que sois pai e senhor das almas de todo o rebanho que vos foi confia­do, das nossas e de todos os frades que vão morar neste lugar. Por isso, queremos aí edificar, com a bênção de Deus e a vossa” .

11 Dizia isso porque o bem das almas que os frades querem re­alizar, melhor o obtêm vivendo em paz com os clérigos, granje­ando sua amizade e a do povo, do que escandalizando-os, mesmo conquistando o povo. 12 E dizia: “O Senhor chamou-nos para ajudar a sua fé e dos prelados e clérigos da santa Igre­ja. 13 Por isso, somos sempre obrigados a amá-los, honrá-los e ve­nerá-los quanto pudermos. Pois, se chamam frades menores por­que, tanto pelo nome quanto pelo exemplo e pelas obras, devem ser mais humildes do que as outras pessoas deste mundo. 14 E porque, desde o início de minha conversão, o Senhor pôs sua palavra na boca (cf. Ex 4,15; Is 51,16) do bispo de Assis, para que ele sabia­mente me aconselhasse e confirmasse no serviço de Cristo.

15 Por isso e por muitas outras qualidades que vejo nos prelados, quero amar, venerar e considerar como meus senhores não só os bispos, mas também os mais pobres sacerdotes.

16 A seguir, recebida a bênção do bispo, vão e façam cavar um grande fosso em torno do terreno que tiverem recebido para a construção do lugar e plantem ali uma boa sebe em lugar de um muro, como sinal da santa pobreza e da humildade. 17 Depois façam construir casas pobrezinhas de barro e madeira e algumas celas, nas quais os frades possam de vez em quando orar e trabalhar para maior edificação e evitar a ociosidade.

18 Façam construir também pequenas igre­jas; pois não devem mandar construir grandes igrejas, a pretexto de pregar ao povo, ou por outra razão, pois é sinal de maior hu­mildade e melhor exemplo, se forem pregar em outras igrejas. 19 E se alguma vez os prelados e os clérigos, os religiosos e os secula­res vierem a seus lugares, as casas pobrezinhas, as celas e as igrejas pequenas deles pregar-lhes-ão por si, e eles ficarão edifi­cados mais por elas do que pelas palavras”.

20 E disse: “Muitas vezes, os frades mandam construir grandes edifícios, rompendo nossa santa pobreza, para murmuração e mau exemplo ao próximo; 21 e algumas vezes, a pretexto de terem lugares melhores, mais santos ou para abri­gar uma ocorrência maior de povo, por cobiça e avareza abandonam aqueles lugares e edifícios ou os destroem para construí-los grandes e excessivos, 22 e daí os que deram as esmolas e os outros que vêem isso se escandalizam muito e se perturbam. 23 Por conseguinte, é melhor que os frades construam edifícios pequenos e pobrezi­nhos, observando sua profissão e dando bom exemplo ao próxi­mo, do que ajam contra sua profissão, dando mau exemplo aos outros. 24 Pois se, alguma vez, os frades abandonarem lugares po­brezinhos por outro.mais conveniente, o escândalo será maior”.

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