sábado, 23 de outubro de 2010

Carta Ascética de Santo Antônio Maria Claret: lições de vida cristã.


CARTA ASCÉTICA

A partir do atentado de Holguín, que aconteceu no dia 1 de fevereiro de 1856, o Padre Claret idealizou e levou adiante a fundação da Academia de São Miguel, uma associação apostólica, composta de escritores, artistas e colaboradores, cuja finalidade era renovar as estruturas da sociedade, consagrando o mundo por meio das letras e das artes. A extraordinária iniciativa claretiana teve um desenvolvimento notável em Madri e nas principais cidades espanholas. As reuniões dos coros tinham um caráter organizativo e espiritual. Em uma das reuniões um dos membros da Academia teve a idéia de fazer perguntas ao fundador. O Padre Claret, impelido sempre pelo zelo vivo da glória de Deus e do bem dos seus irmãos, respondeu às perguntas principais e publicou esta Carta ascética para utilidade dos membros da associação que havia fundado. Mas já na primeira página se apressa a dizer: “Esta carta pode também servir para todas aquelas pessoas que procuram amar deveras a Deus e ao próximo”.
Este opúsculo -escrevia o Padre Jaime Clotet- tem preciosos documentos práticos sobre o santo temor e amor de Deus, a correção, o egoísmo e o amor próprio, a paciência em sofrer os males que provém de si mesmo, sobre a mortificação, o silêncio e o retiro, a comunhão, a santa missa, a devoção a Maria Santíssima, as leituras piedosas e a necessidade da doutrina de Jesus Cristo.
A Carta Ascética é um breve compêndio de espiritualidade secular, com uma série de conselhos simples, mas muito úteis ainda hoje, pelo menos na substância evangélica que contém.
Este opúsculo foi publicado pela primeira vez em 1862, na Livraria Religiosa, de Barcelona, No ano seguinte ouve uma segunda edição de 20.000 exemplares.

***
Meu senhor, a quem considero e aprecio: acabo de receber sua carta (1), e, embora não tenha tempo para responder a cada uma das perguntas que me faz, responderei as principais (2).


1. O santo temor de Deus

Em primeiro lugar, devo dizer-lhe que convém muitíssimo que andemos com um santo temor de Deus, recordando que uma grande parte dos anjos caiu (3), que caíram nossos pais Adão e Eva (4), que caíram Sansão (5), Davi (6) e Salomão (7), que caíram São Pedro (8), Tertuliano (9), Orígenes (10) e outros muitos, por terem contado com suas próprias forças e que também podemos cair nós e, sem dúvida, cairemos se nos apoiamos em nós mesmos; mas se, conhecendo nossa inconstância, fragilidade e miséria, desconfiamos de nós, nos apoiamos em Deus e em Deus colocamos nossa confiança, estaremos certos de que não cairemos e tudo poderemos n’Ele e com Ele (11).
Por isso, você deve andar sempre com este santo temor, e lhe digo que nunca faça coisa alguma, por pequena que seja, que seja ofensa a Deus ou contraria a sua santa lei, os conselhos evangélicos e as inspirações interiores com as quais lhe dê a conhecer sua santa vontade. Uma vez conhecida esta vontade de Deus, deverá cumpri-la com a maior perfeição possível, mesmo sem ter que esperar pelo céu; nem deixar de cumprir, mesmo sem ter que temer o inferno (12). Já que a Deus chama de Pai, e o é, comporte-se como bom filho; evite dar qualquer desgosto, por pequeno que seja e esmere-se em agradá-Lo em todas as coisas, como nos ensinou Jesus Cristo (13).


2. O amor de Deus

Em segundo lugar, ame a Deus com todo seu coração, com toda sua alma, com todas suas forças e com todo seu entendimento (14).
Ama-se a Deus com todo coração quando não se ama coisa que seja ofensa a Deus, nem se diz, nem se faz coisa proibida por Deus. Ama-se a Deus com todo coração quando Deus é amado com todo sentimento, sem misturar outro amor, ou, se se ama também outra coisa, é unicamente por Deus, quer seja porque Ele mesmo o manda, quer porque aquilo é um meio que nos conduz e ajuda a amar a Deus.
Ama-se a Deus com toda a alma quando o homem se vale da alma para mais amar, pois como a alma tem três potências, memória, entendimento e vontade, com a memória recorda os males temporais e eternos de que Deus a tem livrado ou preservado; recorda ainda os bens que Deus lhe tem dispensado; bens corporais e espirituais, bens temporais e eternos que espera. Por isso, cheia de gratidão, não pode deixar de amar o Benfeitor; com o entendimento medita quem é Deus e quem é o homem, quais os benefícios que tem recebido e os que ainda espera receber e nesta meditação se acende o fogo do amor de Deus, como diz o profeta rei (15).
Meditando e contemplando o entendimento, recordando e apresentando à memória o quadro dos benefícios que tem recebido de Deus, não pode a vontade, ilustrada com estes conhecimentos, senão amar a Deus com todo coração.
Movida a vontade para amar a Deus, como senhora que coordena todas as suas forças internas e externas, forças empregadas para amar e servir a Deus, de modo que todos os sentidos corporais e as paixões bem ordenadas, tudo dirige ao amor de Deus; de maneira que, se os olhos olham ou se fecham, é por amor de Deus; se a língua fala ou se cala, é por amor de Deus; se os pés andam ou ficam parados e recolhidos, é por amor de Deus; tudo quanto se faz ou se abstém de fazer é unicamente por amor de Deus: e não só isto, mas como o amor é tão engenhoso, não se contenta com amar e servir a Deus com o que conhece, mas o entendimento também, como diz o preceito: amarás a Deus com o entendimento (16), inventa maneiras de amar e servir a Deus, como o vemos nos amantes do mundo, que sempre estão descobrindo modos e inventando maneiras para ganhar dinheiro, para obter honras e para gozar prazeres. Sim, quem ama deveras a Deus, dia e noite, está procurando modos e achando meios para que Deus não seja ofendido, mas conhecido, amado e servido por todas as criaturas e nisto está discorrendo continuamente (17).
Esta é cabalmente a vontade de Deus transmitida por Moisés a seu povo e a cada pessoa em particular. “Estas palavras do amor de Deus, lhes diz, que hoje eu vos mandei, devereis tê-las sempre fixas em vosso coração e as referireis e ensinareis a vossos filhos e as meditareis quando estejais sentados em vossa casa e quando andeis em viagem; o mesmo fareis quando vos levantardes de manhã e quando ides deitar de noite; e para que não esqueçais jamais delas as tereis atadas como um sinal em vossa mão; e a fim de que sempre as tenhais presentes, as trareis penduradas sobre a fronte, de maneira que estejam continuamente diante dos vossos olhos; quero mais, que as escrevais nos umbrais e portas da vossa casa” (18).
Não só deverá recordar este preceito do amor a Deus, mas também andar sempre em sua presença (19). Felizmente, todas as coisas nos ajudam; sim, todas as coisas, até as mais pequenas, estão falando do poder de Deus, sua sabedoria, sua bondade e demais tributos. Ao contemplar todas estas maravilhas e obras de Deus, não poderá deixar de exclamar com Santo Agostinho: “Senhor, o céu, a terra e todas as coisas me dizem que eu vos ame, meu Deus... “ (20).
Amando a Deus deveras e andando continuamente em sua divina presença, dirigirá à sua maior honra e glória tudo quanto fará e dirá; como a um amigo, se dirigirá a Deus com toda confiança e como um fiel servo, tudo fará em seu favor. Não o aconselho que aumente o número de coisas que já está fazendo por Deus; nem tudo podem fazer, nem Deus pede o impossível. Deus quer de você que faça bem o que está fazendo com paz interior, com silêncio, sem queixas nem lamentos do próximo nem das coisas, mas que tudo faça com constância e suavidade, crescendo cada dia na pureza e retidão de intenção em seu coração. Com estes dois pés terá sempre de caminhar para a perfeição na presença de Deus, pensando que Deus o olha continuamente e que se compraz em tudo o que está fazendo, dizendo e pensando (21).
Em terceiro lugar, ame seu próximo como a si mesmo; ame-o não para sua utilidade e proveito, mas em Deus e por Deus e para o bem do mesmo próximo. Amar é querer bem; querer e procurar todo bem possível: o amor ou caridade é paciente (22), e assim deve sofrer com paciência suas moléstias e impertinências.
Amar os que nos favorecem, servem e consolam é coisa fácil e não requer virtude alguma; mas amar, servir e acariciar os que nos ofendem e são molestos, sem outro motivo que ser agradável a Deus, é amor verdadeiramente sobrenatural; isto é amá-los em Deus e só por Deus, diz São Francisco de Sales (23).
É uma grande virtude, dizia o já citado santo (24), sofrer com doçura e modéstia as importunações do próximo, seus humores, suas rusticidades, suas descortesias e, sobretudo, suas importunações quando nos faz gastar o tempo em coisas, talvez, levianas e inúteis, quando não podemos cortar a conversa sem ser grosseiros ou sem desconsolo seu. Aquele que é paciente, sofre, cala ou fala com doçura e oferece tudo a Deus, à imitação de Jesus, que sofria com seus discípulos e com as multidões; mas aquele que não tem virtude se desculpa dizendo que é por não perder tempo; e não é assim, mas por falta de paciência, pois poucas vezes este mesmo gasta o seu tempo em coisas que na presença de Deus valem muitíssimo menos que o sofrer pelo nosso próximo.
As demonstrações de benevolência e carinho que se fazem com as pessoas a quem temos aversão e sentimos antipatia são muito agradáveis a Deus, porque para isto a alma usa sua parte superior, contra a aversão, que reside na porção inferior da mesma alma.
Um dos maiores atos de caridade para com o próximo é amar e suportar os que são molestos, caprichosos, cabeça dura, ignorantes, fúteis, orgulhosos, etc. Esta é a pedra de toque da verdadeira caridade, dizia São Francisco de Sales (25).


3. A correção

Quando você precisar corrigir alguém, leve consigo a doçura, para isto ela é muito eficaz. É a doçura a grande serva da caridade e sua companheira inseparável. A repreensão, por sua própria natureza, é amarga; mas, temperada com a doçura e cozida no fogo da caridade, é cordial, amável e deliciosa. Não se esqueça daquele provérbio que diz: “mais moscas se colhem com uma gota de mel que com um barril de vinagre” (26).
Você deverá subir quatro degraus para chegar à doçura:
1. Evite muito manifestar desgosto exteriormente em atos, palavras ou olhares, embora lá dentro do seu interior tenha pena.
2. Procure sufocar logo a pena interior que sente: não entretenha o pensamento sobre aquele ressentimento, antes, expulse-o imediatamente como coisa má e prejudicial. E em seu lugar pense que é um presente que lhe faz Jesus Cristo por meio das mãos daquele fulano, o cálice da sua paixão.
3. Alegre-se ao ver que Jesus lhe proporciona trabalho, que é paciência, para ganhar tesouros para o céu; pensando e dizendo: Para que serviria saber um ofício se ninguém lhe dá trabalho? Assim, para que serviria possuir a virtude da paciência se ninguém lhe der possibilidade de exercitá-la?
4. Cada dia você deve desejar ter ocasiões para exercitar esta virtude e alegrar-se quando aparecer a oportunidade para colocá-la em prática. Um bom trabalhador, amigo do trabalho, nunca se queixa pelos afazeres que lhe confiam; pelo contrário, alegra-se e demonstra satisfação; o mesmo você deve fazer com quem o faz sofrer, já que lhe proporciona merecimentos para o céu.
Finalmente, com respeito ao próximo, quero lhe dar quatro documentos gerais:
1. Nunca queira falar mal do próximo, por mais que lhe tenha ofendido, nem escute com prazer quando alguém fala mal dele, antes, manifeste desgosto e mude, se possível, de conversa, pois diz Jesus Cristo que da abundância do coração fala a boca (27) e quem tem língua má, tem mau coração, não ama o próximo como a si mesmo (28).
2. Nunca faça mal ao próximo, uma vez que as coisas más revelam a maldade do coração. Diz o mesmo Jesus Cristo que do coração mau saem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios e demais coisas torpes, os roubos, os falsos testemunhos, as blasfêmias e todas as coisas más que podem ser feitas contra Deus e contra o próximo (29).
3. Faça e procure para o seu próximo todo bem possível, espiritual e corporal, temporal e eterno: e, quando for mais possível proporcionar-lhe ajuda, deseja a ele tudo isto, pelo menos, encomenda-o a Deus e compadeça-se dele. Quiçá poderá agradecer-lhe; não importa, certamente Deus o recompensará; Talvez será desprezado, perseguido e maltratado por aqueles que receberam de suas mãos o bem; não importa; pense que são enfermos que não sabem o que fazem; rogue a Deus por eles e diga como Jesus desde a cruz: “Pai, perdoa-os, porque não sabem o que fazem” (30). Assim como o enfermo não pode ser abandonado, você não pode abandonar aquele infeliz.
4. Sofra suas debilidades e moléstias; em nenhuma coisa dê a conhecer o bom coração que tem para com seu próximo, como na paciência durante os sofrimentos; Por que uma mãe sofre tanto com as preocupações e impertinências de seus filhos? Porque os ama. Ama, pois, seu próximo e tenha com ele paciência, exercite a mansidão e trate-o com doçura.


4. O egoísmo ou amor próprio

A caridade tem um inimigo que é indispensável conhecer bem por mais que se disfarce; se nos descuidamos, destruirá a caridade e tudo poderá ir água a baixo, porque é a traça, é a ferrugem, o câncer, a peste que acaba com ela. A caridade é a rainha das virtudes, é com o sol entre os astros, é como o ouro entre os metais, é a que dá vida a todas as virtudes; mas, se faltar a caridade, tudo faltará, nada terá valor, como diz o Apóstolo (31).
O inimigo da caridade é o egoísmo ou amor próprio desordenado, que consiste em uma certa soberba, ambição e inveja (32). Este inimigo da caridade se mete no coração soberbo, que ambiciona e deseja para si todas as coisas: riquezas, honras, etc., e daí passa para a inveja, que é uma espécie de tristeza e pena que aparece quando vê que alguém tem riqueza, honras, etc., e com palavras e atos trata de acabar com esta pessoa. Do mesmo modo que uma balança, quando baixa um prato, sobe o outro, assim o soberbo e ambicioso fala mal do seu próximo, acredita que, rebaixando o próximo, ele subirá.
Portanto, fale sempre bem do seu próximo ou guarde silêncio. Não há coisa que mais inflama a caridade que saber que o outro fala bem dele (33). Sêneca, tão convencido estava desta verdade, que dizia: Si vis amari, ama (se queres ser amado, ama) (34). E verdadeiramente não há meio mais eficaz para fazer-se amar que amar antes, porque o amor não pode ser pago senão com amor (35).
Para conservar e aumentar este amor ou caridade você deve ver em cada próximo seu o mesmo Jesus Cristo, de tal modo que, quando nos é oferecido algo a fazer, devemos recordar aquelas palavras que nos dirá Jesus Cristo: Em verdade, em verdade, vos digo que, o que fizestes ao menor dos vossos irmãos, a mim o fizestes (36).
Façamos, pois, as coisas como quem serve a Jesus Cristo e não aos homens e desta maneira as faremos bem, bem feitas e com boas maneiras. E quando o próximo fizer a nós algum serviço, também devemos ver nele Jesus Cristo, como São Pedro, quando viu Jesus Cristo aos seus pés para lavá-los, espantado, disse: Domine, tu mihi lavas pedes? (Senhor, vós me lavais os pés?).
Desta maneira se conservará, por uma parte, a humildade tanto em um como no outro, porque nem um deixará de servir a seu irmão, olhando-o como Jesus Cristo, nem o outro se lamentará de que todos o sirvam, antes, se humilhará ainda mais por isso, considerando que não é por ele o serviço que lhe prestam, mas porque representa Jesus Cristo, e dirá lá no seu interior: Non nobis, Domine, non nobis, sed nomini tuo da gloriam: (não a mim, Senhor, mas em vosso nome se faz este obséquio) (38); e, por outra parte, se conservará e aumentará a caridade de uns para com outros pela mesma razão (39).
Quando seu próximo lhe pedir algum favor, algum serviço, ou alguma esmola, etc., faça-o de bom grado, com alegria e prontidão; e, se não puder fazer, dirá: “Gostaria muito de fazer o que me pede, mas não posso e sinto muito por não poder ajuda-lo”. Não devemos imitar aqueles que não sabem fazer um favor nem dar uma esmola sem fazer cara feia, confundindo seu próximo. Deste modo perdem eles muitíssimo, diante de Deus e dos homens, por seu mau gênio e falta de caridade. Não faça assim, lebre-se do que disse o Espírito Santo: Filho, não junte com o benefício que fizer a repreensão, nem acompanhe seus dons com a aspereza de más palavras. Não é verdade que o orvalho tempera o calor? Pois, assim também as boas palavras valem mais que a dádiva. Não sabe você que as palavras doces valem mais que o dom? O néscio explode asperamente com impropérios e a dádiva do homem malcriado e durão entristece o próximo e faz sair lágrimas dos olhos? (40).
Se alguma vez, por seu gênio ou por falta de paciência, vier a faltar com a celestial doutrina, deverá arrepender-se e pedir perdão a Deus e ao próximo, dizendo: Ignosce, frater, et ora pro me: (Perdão, irmão, e roque a Deus por mim)(41).


5. A paciência para consigo mesmo

Até aqui disse algo sobre a paciência que você deve ter para com seu próximo, agora lhe digo algo sobre a paciência que deve ter para consigo mesmo, por causa dos próprios defeitos, como acontece com quem verdadeiramente deseja amar e servir a Deus; Portanto, quando tiver a fragilidade de cometer alguma falta, não obstante os firmes propósitos que tiver feito na oração e o cuidado com que deve andar, não deve desmaiar nem perder a paz, nem martirizar o coração com reflexões inúteis, mas deverá humilhar-se diante de Deus, arrepender-se deveras, confessar-se bem quanto antes, e caminhar adiante com confiança.
Não só deve ter paciência com os próprios defeitos, mas também com as dores corporais e securas de espírito. Embora São Pedro quisesse ficar no Tabor (42) e fugisse do Calvário (43), este monte não deixa de ser mais útil e proveitoso que aquele. Melhor, dizia São Francisco de Sales, é comer o pão sem açúcar que o açúcar sem pão (44).
O verdadeiro servo de Deus raramente se queixa do que padece, e menos ainda deseja que outros se compadeçam de seus trabalhos. Todas suas penas desaparecem quando são comparadas com as de Jesus, assim como desaparecem as estrelas com a presença do sol.
A paciência nas dores e enfermidades deve ser não só animadora, mas também amorosa e humilde, semelhante ao bálsamo fino, que com seu peso baixa ao profundo da água.
A humildade consiste principalmente em amar as humilhações, desejá-las e praticá-las, recebendo com alegria as que nos vêm sem que as queiramos e estas, recebidas assim, são as melhores, ou procurando-as para exercitar-se nelas.
São Francisco de Sales estimava, e muito, a humildade. Queria que não se fizesse coisa alguma pelo motivo ridículo da vaidade, e que não se omitissem as obras boas por temor dos louvores. Vituperar-se e louvar-se a si mesmo, dizia, pode nascer de uma mesma raiz da vaidade. E as palavras humildes, quando não têm sua origem em um interior desprezo de si mesmo, são as flores mais finas do orgulho (45).


6. A mortificação

Sobre a mortificação, como você me pergunta, digo que a mortificação sem oração é como um corpo sem alma e oração sem mortificação é alma sem corpo. Sempre devem andar juntas estas duas coisas. As rosas da oração não crescem senão em meio aos espinhos da mortificação. Ainda mais, devo dizer que a mortificação exterior, animada pela mortificação interior, é um meio muito eficaz para conseguir os favores do céu; mas deve ser com discrição, porque as austeridades indiscretas costumam ser o escolho em que se batem os que as praticam, e fazem mal à saúde para os que começam o caminho da perfeição, tornando-se inúteis para tudo; por isto, devo dizer-lhe que as mortificações interiores são incomparavelmente mais preciosas que as exteriores e as que acontecem por disposição ou permissão de Deus, abraçadas com gosto, são muito mais úteis. Esta verdade não é entendida pelos que, por capricho, se entregam indiscretamente a jejuns, disciplinas, cilícios e outras austeridades e com a menor palavra que venha a ferir sua reputação se inquietam, se perturbam e se deixam levar a excessos escandalosos.


7. O silêncio e o retiro

Também quero dizer uma palavra sobre o silêncio e o retiro, já que sobre isto você me pergunta. Digo-lhe, pois, que há tempo de calar e tempo de falar (46) e, por isto mesmo, o silêncio é virtude só para as circunstâncias do tempo, moderação e prudência. São Francisco de Sales dizia que há alguns que calam por gênio, por estupidez, ignorância ou soberba (47).
O mesmo lhe digo sobre o retiro, pois, alguns procuram inutilmente a paz no retiro.
A verdadeira paz do coração não se acha no retiro ou abstração das preocupações em que Deus quer empregar os seus servos.
São, certamente, dignos de compaixão os que se queixam quando estão ocupados em ofícios que, a seu parecer, os distraiam. Quando as ocupações vêm por meio da obediência ou do dever, não há por que temer; elas mesmas nos conduzem a Deus (48). Quantas pessoas conheço que, em meio ao barulho das ruas e praças, sabem encontrar em seu coração, onde Deus fala, uma solidão que dificilmente se encontraria igual em Tebaida! (49). O espírito do Senhor sopra onde quer (50), quando quer e a quem quer. O que importa é conhecer a vontade de Deus e cumpri-la bem, de nossa parte, pois Ele não falhará em nos oferecer auxílios e graças de que necessitamos.


8. A comunhão

Para praticar estas e demais virtudes você precisará receber com freqüência a sagrada comunhão, já que para isto o Senhor ficou no Santíssimo Sacramento do altar (51). Estas são suas terminantes palavras: Eis que estarei convosco até o fim dos tempos (52). Vinde a mim todos vós que estais cansados e eu vos aliviarei (53). Eu sou o caminho a verdade e a vida (54). Ele nos mostra o caminho, indo adiante com a prática das virtudes, fazendo e ensinando (55); e nós, se deveras somos cristãos, não podemos senão segui-lo e imitá-lo. Ele é a mesma verdade e isto nos ensina o Evangelho. Finalmente, é a vida que nos faz viver na vida da graça se observarmos sua doutrina, porque suas palavras são para nós espírito e vida (56); e se recebermos os santos sacramentos, particularmente a Eucaristia, em que está o pão da vida. O mesmo Jesus Cristo disse: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá para a vida eterna e o pão que eu darei é minha carne, que darei para a vida ou salvação do mundo. Em verdade, em verdade, vos digo que, se não comerdes da carne do Filho do homem e não beberdes do seu sangue, não tereis vida em vós. Quem comer minha carne e beber meu sangue terá a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia. Porque minha carne é verdadeiramente comida e meu sangue é verdadeiramente bebida. Quem comer minha carne e beber meu sangue, está em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, assim quem me come, também viverá por mim e da minha própria vida” (57). Explicarei um pouco esta celestial doutrina.
O homem, fisicamente considerado, é um composto de alma e corpo. O corpo não subsiste senão mediante sua união com a alma; este é o princípio vivificador que mantém juntas entre si as diversas partes do nosso organismo e lhes imprime os movimentos necessários à sua conservação. Fazendo-se débil pelo pecado, esta união das duas substâncias que formam nossa natureza, ativa-se o princípio de dissolução, que se manifesta primeiramente com a perda incessante de nossas moléculas orgânicas, depois com a enfermidade e, finalmente, com a morte.
A alma, avisada do apuro do corpo pela voz da necessidade, apressa-se em reparar as perdas do organismo com a alimentação. Escolhe, entre os corpos que o rodeiam, os mais próprios para manter a vida, isto é, as substâncias vegetais e animais, introduzindo-as no corpo, onde, por meio de um mecanismo admirável, estes corpos estranhos se assimilam e o fortificam durante algumas horas, não mais; por isto, se deve voltar a repetir esta mesma operação pelo menos uma vez cada dia.
Assim como o corpo tem sua comida, a alma também tem a sua, que é a Eucaristia, chamada pão dos anjos (58) per serem os anjos espíritos com nossas almas e têm o mesmo alimento.
A vida dos espíritos criados, assim como a vida do Espírito não criado, de que são imagem, consiste toda ela no conhecimento e amor. A vida de Deus é soberana, porque a compreensão perfeita do seu ser infinito lhe dá a alegria completa; satisfaz todos os seus desejos; não deixa, por assim dizer, vazio ninguém em sua inteligência e amor.
A vida do nosso espírito é, por necessidade, incompleta, porque está privada da vista do único ser capaz de preencher nossas faculdades de conhecer e amar.
Neste estado, necessário para nosso prova, as criaturas têm licença para disputar com Deus a possessão da nossa alma.
Estas criaturas são as duas classes: os espíritos e os corpos.
Os espíritos orgulhosos que, à imitação de Satanás, querem ser a luz para si mesmos, se esforçam para subjugar nosso espírito e substituir a palavra de Deus com sua palavra, falsa e enganosa. Estão repetindo de mil maneiras aquele linguagem que usou Lúcifer com Eva: “Desprezai a lei de Deus e escutai-nos; nós vos ensinaremos a arte de ser grandes e felizes” (59). Sim, como Eva, fazemos a loucura de preferir sua palavra ao ensinamento divino, caímos há heresia, que é a idolatria espiritual, a adoração do espírito criado. Não sendo iluminada e inflamada nossa alma pela palavra vivificadora da fé que sai da boca de Deus (60), vai descendo pelo caminho do erro, até, que renegando toda verdade, não acredita senão na matéria.
Os corpos, com o brilho da beleza que neles resplandece, com as sensações agradáveis que proporcionam aos sentidos, são outro manancial de perdição.
A alma, que com a meditação, não se levanta com as asas da fé até o Criador destas coisas, que é mais belo que todas elas, como se lê no sagrado livro da Sabedoria (61); a alma a quem a oração não lhe proporcionou nunca os deleites infinitos do céu, está indefesa contra os atrativos das belezas terrenas; passando de um ídolo a outro ídolo, e acaba por adorar tudo, menos Deus. O culto da carne, quando não é o princípio dos extravios do entendimento, é sempre sua conseqüência, como consta por experiência e se lê nas histórias. Para libertar nossas almas tanto das bocas mentirosas, que lhes dão morte (62), como dos deleites carnais, que as rebaixam até os brutos, o que é que fez Jesus Cristo? Às trevas ele colocou o sol da fé católica, o Santíssimo Sacramento, que por excelência se chama mistério da fé, onde está real e verdadeiramente Jesus Cristo, luz verdadeira que ilumina todo homem (63) de boa vontade para levantar-se mais alto que as vãs idéias do mundo e fazer progressos no conhecimento e no amor do supremo Bem.
À degradante embriaguez dos prazeres da carne e do sangue colocou o delicioso banquete da sua carne e do seu sangue no Santíssimo Sacramento, que nos eleva até o manancial da vida divina.
A verdadeira vida, a que não tem fim, não se encontra senão em Deus, que é o ser vivo por excelência. Esta vida que o Verbo recebeu do Pai em sua plenitude pela geração eterna, a comunicou sem custo à alma e ao corpo que uniu a si no seio da Virgem. E, dando-nos pela comunhão sua humanidade, unida indissoluvelmente à sua divindade, impregna de sua vida divina todo o nosso ser, deixa nele o germe e a prenda da eternidade bem-aventurada. Este princípio de vida perfeita, verdade que fica latente e não é percebido em nosso corpo durante o tempo da prova e o sono do sepulcro, como trigo semeado na terra, mas desenvolverá todo seu poder no dia da ressurreição: Et resuscitabo eum in novissimo die (64). Então aparecerá uma prodigiosa diferença entre os corpos dos que comeram os frutos da terra, do qual aquele não era mais que figura, e os corpos dos que por sua participação da carne sacratíssima do Verbo se fizeram membros vivos dele; porque todos, diz São Paulo, ressuscitaremos, mas nem todos seremos transformados (66). Os corpos que não tenham assimilado mais que elementos terrenos e corruptíveis ficarão sujeitos à corrupção, mas os corpos vivificados pela carne e sangue de Jesus Cristo serão espiritualizados e viverão uma vida inteiramente celestial.
Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento é nossa vida moral e física. Moral, que consiste em conhecer e amar, e o objeto e alimento do entendimento é a verdade e Jesus Cristo é a mesma verdade essencial e o objeto e alimento da vontade é a bondade e Jesus Cristo é a bondade e caridade por essência.
Vida física que consiste na união da alma e corpo e, como disse, Jesus Cristo não só é a vida da alma, mas também do corpo; porque é verdade que o corpo há de morrer, porque há de pagar o tributo pelo pecado, mas Jesus Cristo o restaurará e o ressuscitará (67). Daí a necessidade de comungar e de comungar com freqüência. Pelo que vemos no corpo, podemos conhecer o que devemos fazer para alma; o corpo há de comer cada dia, se quer ter vida e saúde; o mesmo deve fazer a alma. Com desejo ou realmente, há de comungar com freqüência. Quando Jesus Cristo ensinou a fazer oração, disse que pedíssemos o cão corporal e espiritual de cada dia (68), juntamente um e outro; assim o entenderam e praticaram os primitivos cristãos, que cada dia davam ao corpo e à alma sua própria refeição, isto é, cada dia comungavam e comiam.
O corpo que está sadio e forte, come com freqüência e bem, o enfermo como pouco e o morto não come nada. Assim, o cristão que está espiritualmente sadio e forte, comunga com freqüência e bem, isto é, com fervor e devoção; o que está enfermo espiritualmente, comunga poucas vezes, com falta de vontade e tibieza e o que habitualmente está em pecado mortal ou morto na vida da graça, não comunga.
A capela do Santíssimo Sacramento de cada paróquia é o termômetro para conhecer os graus de caridade ou calor de amor e devoção do povo. Quando o termômetro está um grau sobre zero, o tempo está frio; quando está a doze graus, já é primavera e quando está a vinte e quatro, trinta, etc., já faz calor. Assim, quando as pessoas não comungam mais que uma vez ao ano, há muita frieza; quando comunga doze vezes ao ano, já vai melhor, e uma primavera que floresce em virtude e dá esperanças de produzir bons frutos; mas quando comunga duas vezes ao mês, cada semana ou mais frequentemente, então há muito calor, já arde aquele fogo que Jesus Cristo baixou do céu à terra e sua vontade é que arda (69).
Quando Satanás tentou nossos pais Adão e Eva, lhes disse: Comam, e serão como deuses (70). Foi um engano do pai da mentira; não foram deuses, mas escravos de Satanás e réus do inferno.
Mas como Jesus Cristo se valeu dos mesmos meios para fazer-nos o bem que Satanás empregou para fazer o mal, instituiu o augusto sacramento sob as espécies de comestíveis e nos diz em verdade: Comam, e sereis como deuses. Sereis como Eu, que sou Deus e homem. Com efeito, ao que comunga bem lhe acontece o que acontece com a barra de ferro que se coloca na forja, onde se converte em fogo; sim, assim fica endeusada a alma que comunga bem; o fogo ao ferro lhe tira a escória, a frieza natural, a dureza, e o faz tão brando que chega a derreter e se amolda ao gosto do artífice. O mesmo faz o fogo do amor divino na forja da comunhão à alma que comunga bem e com freqüência: lhe tira a escória das imperfeições, a frieza natural, a dureza do seu amor próprio e a faz tenra e branda, que se amolda completamente à vontade de Deus em tudo e por tudo, e assim diz, como Jesus ao eterno Pai: “Faça-se tua vontade e não a minha” (71).
Aos que se aproximam da sagrada comunhão Jesus lhes diz: Tomai e comei, este é meu corpo, entregue por vós. Tomai e bebei, este é o meu sangue, derramado por vós (72). Tomai e comei, e aprendei de mim a aniquilar-vos pela glória de Deus e pelo amor de vossos irmãos, como eu me aniquilei (73). Tomai e bebei, e aprendei de mim, que fui obediente até à morte e mais além da morte de cruz (74), pois cada dia obedeço com a maior prontidão e alegria possível as palavras da consagração e obedecerei até à consumação dos séculos. Tomai e comei, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração (75), olhai como estou humilhado no sacramento. Sou um Deus escondido (76), oculto a divindade, a humanidade..., a fim de ensinar-vos esta tão necessária virtude. Imitai minha mansidão, olhai como sofro por vosso amor as irreverências, os sacrilégios, as profanações, os desprezos e injúrias.
Tomai e comei e aprendei de mim a amar-vos uns aos outros ocmo eu vos amei(77). Eu por vós fiz muito, sofri muito, e me entreguei inteiramente, de modo que não pude fazer mais; imitai-me. Estas vozes ouvem os que se aproximam com fervor e devoção da sagrada comunhão. Assim foi como se converteu o mundo; com efeito, o mundo se converteu pela pregação de Jesus crucificado e pela recepção freqüente da sagrada comunhão. Os pagãos, ao ver os fervorosos cristãos, diziam a si mesmos: “Vede como se amam” (78). Que paz!, Que serenidade! Que doçura! Que castidade! Que caridade! Que conjunto de virtudes! E este espetáculo os movia a abraçar a religião do Crucificado (79).
Quando comungamos, todos nós recebemos o mesmo Senhor Jesus Cristo, mas nem todos recebem as mesmas graças nem em todos se produzem os mesmos efeitos. Isto depende da nossa maior ou menor disposição. Para explicar este fenômeno me valerei de uma comparação natural e será o modo de enxertar as árvores: por experiência sabemos que uma árvore silvestre pouco dá frutos e este pouco nem sempre é bom; no entanto, se nesta árvore silvestre se enxerta broto de boa qualidade, dá muito fruto e bom; o mesmo acontece no cristão fraco e descuidado, que produz poucas boas obras e as poucas obras boas estão cheias de imperfeições. Mas, se comungo bem, acontecerá com ele o que acontece com a árvore enxertada com broto de boa qualidade e dá frutos admiráveis; por isso dizia Santa Maria Madalena dei Pazzi que uma comunhão bem feita é capaz de fazer uma grande santa (80). Prosseguindo com a comparação, explicarei o modo. Os que manejam árvores dizem que para o enxerto surtir bom efeito é preciso que haja analogia entre o broto e a árvore onde se enxerta o broto e quanto mais se assemelharem, melhor será; assim quanto mais semelhança houver de humildade, mansidão, caridade e demais virtudes entre Jesus Cristo e o que comunga, maiores serão os resultados que dará a sagrada comunhão. As árvores que se enxertam se dividem em azeitosas, gomosas e aquosas, e os brotos devem ser da mesma família, de tal maneira que o broto da árvore azeitosa não pega na árvore gomosa, nem aquosa, nem vice-versa. Assim se poderá entender porque Jesus, que é um menino azeitoso, porque seu nome é como o azeite derramado (81), a comunhão, que é o broto precioso, não pega naqueles cristãos que por sua cobiça são como árvores gomosas, nem naqueles outros que por luxúria são como as árvores aquosas. Portanto, é indispensável que sejam azeitosas pela mansidão, misericórdia, caridade e demais virtudes (82).
Mas assim como não basta que haja analogia entre o broto e a árvore que se enxerta, mas são necessários cuidados e outras condições do enxertador, assim também digo que não basta que o que comunga habitualmente tenha as disposições necessárias para comungar; é ainda indispensável, para que a sagrada comunhão produza nele aquelas graças grandes, que sempre que se aproximar da sagrada mesa se apresente cada vez com mais atenção e cuidado, com mais humildade, com mais vivo desejo, como um cervo sedento (83), com mais fome e com mais sede, com mais amor. Ditosa a alma que comunga com freqüência e cada vez com nova disposição! Ah! Ela será como uma árvore plantada perto da corrente de água, que dará o fruto a seu tempo (84). Poderá dizer com o Apóstolo: “Vivo eu, mas não eu, quem vive em mim é Cristo” (85). Do mesmo modo que a árvore enxertada, se ela pudesse falar, nos diria: “Vivo eu, porque no tronco sou o que era antes; mas já não sou eu, em mim vive o enxerto, o broto que me foi colocado e este vive em mim e o fruto que dou não é conforme a árvore velha, mas conforme a nova”. Assim, pois, o cristão que comunga bem e com freqüência pode dizer: “Vivo eu, porque sou homem como antes; mas já não sou eu o que era antes, sou conforme o novo homem que entrou em mim pela comunhão, sou o que está em mim”. Como diz Jesus: “Quem come minha carne e bebe meu sangue, permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou está vivo e eu vivo pelo Pai, assim também o que me come viverá por mim” (86). Portanto, o que comunga bem e com freqüência, pode dizer com o Apóstolo que ninguém, nem nada, será capaz de separá-lo da caridade de Jesus Cristo (87), e tudo pode naquele que o conforta (88).


9. A santa missa

Nossos pais, Adão e Eva, desobedeceram o preceito de Deus, se rebelaram enganados por Satanás, que lhe disse: “Tomai e comei e sereis como deuses” (89).
O homem, quando peca, se rebela contra Deus e diz com as obras: Non serviam (agora não, não quero te servir) (90). Despreza a Deus, que é seu Senhor e seu Pai. Deste desprezo se queixa muito sentidamente este bom Pai, dizendo por um profeta: criei filhos e os fiz crescer e eles me desprezaram (91).
O homem, por soberba e vaidade, faz-se superior ao que lhe põe resistência, como a água, que se choca e salta por cima do que se opõe à sua corrente, já que o homem é comparado à água: tamquam aquae dilabimur (92). E somos inclinados ao mal desde um princípio (93).
Por pecado ou rebelião, o gênero humano, ou o homem, merece a pena de morte, segundo a ameaça do mesmo Deus, quem disse: Quando comeres dele morrerás, infalivelmente morrerás (94) e como o homem é um composto de alma e corpo, morre nos dois: a alma morre no instante que peca e o corpo, logo que nasce, começa a morrer.
O corpo, mais ou menos cedo, morrerá, mas depois ressuscitará por Cristo, que ressuscitará tudo (95). A alma daquele que peca mortalmente sofre duas mortes: a primeira é a privação da graça e a segunda a privação da glória do céu, a condenação da pena e sepultura eterna do inferno; da primeira morte se pode ressuscitar pelos méritos de Jesus Cristo, mas da segunda não, porque in inferno nulla est redemptio (96)
Como Deus é tão bom, não quer a morte do pecador, mas que ressuscite da primeira morte (97); para isto e para que não caia na segunda (98) está o sacrifício.
Quem oferece sacrifício coloca seus pecados sobre a vítima e esta deve morrer ou ficar destruída por eles e depois o oferente deve comer da vítima para participar dos seus méritos: eis aqui o porquê da missa e comunhão. E o concílio de Trento deseja que em todas as missas os fiéis que assistem comunguem nelas (99).
O pecado é de uma malícia infinita pela razão do objeto ofendido, que é Deus e, por isso, só um Deus feito homem podia dar uma digna satisfação à divina justiça.
Esta digna satisfação a deu Jesus Cristo uma vez no Calvário, morrendo em uma cruz por todos; mas depois é preciso que se faça em particular esta aplicação (100), como se faz na santa missa, segundo mandato de Jesus Cristo, dizendo: Hoc facite in meam commemorationem.(fazei isto em minha memória) (101). E como as pessoas irão se sucedendo e continuando até a consumação dos séculos, assim também continuará este sacrifício até a consumação dos séculos, segundo a promessa do mesmo Jesus Cristo com estas palavras: Eis que estarei convosco até a consumação dos séculos (102).
Por meio do que disse até aqui, você já quais as razões pelas quais se deve continuar este santo sacrifício da missa até o fim do mundo e a obrigação que têm os cristãos de assistir a ele a fim de participar dos seus méritos. Mas como de algum tempo para cá vejo que alguns cristãos facilmente se dispensam de assistir a missa, não obstante o preceito terminante da Igreja, nossa Mãe, me vejo na obrigação de explicar-lhe a razão; e o motivo é que o vírus protestante infiltrou no coração destas pessoas (103). Você deve saber que no princípio do século XVI o doutor Martinho Lutero disse que deveria ser tirada a missa; e em prova disto citou o testemunho de Satanás, que em uma conferência noturna lhe disse que lhe havia sido demonstrado isto com argumentos irrebatíveis.
Carlostadio, que se gloriava de ter sido professor de Lutero por ter-lhe dado o título de doutor, também tirou a missa.
O suíço Zwinglio ensina também que se deve omitir a missa e diz que assim aprendeu de um fantasma que lhe havia aparecido a ele em sonhos. Calvino ensinou o mesmo e assim todos os seguidores do protestantismo (104).
Realmente não se é de estranhar isto, porque o protestantismo não foi nem é atualmente outra coisa que uma violenta explosão de todas as paixões rancorosas contra a Igreja católica, apostólica, romana (105); e como os mistérios do amor não podem associar-se com os sistemas inventados pelo ódio, do mesmo o homem carnal não pode perceber nem entender as coisas espirituais (106), eis aqui por que razão os protestantes não têm missa nem os filósofos carnais têm apreço por ela, e finalmente, alguns cristãos já não assistem a santa missa porque são cristão carnais e contagiados pelos protestantes.
Ah! Se alguém dos primeiros cristãos se levantasse do sepulcro, ao ver o que acontece entre os cristãos de hoje, diria: Video christianos, christianorum mores non vídeo (vejo os cristãos, mas não vejo os costumes dos cristãos). Naquele tempo, todos os cristãos assistiam cada dia com devoção a santa missa e todos comungavam nela com grande fervor. E agora? Ai! Que vejo! Volto a esconder-me debaixo da pedra sepulcral para não ver o que acontece entre os cristãos. Temo que lhes seja dito que lhes será tirado o reino de Deus e será dado a outros que produzam frutos de boas obras (107).
Assistamos nós o santo sacrifício da missa, não só nos domingos e festas e dias de preceito, por ser um dever, mas também nos demais dias por devoção (108). Devemos oferecer este santo sacrifício a Deus não só para dar-lhe satisfação de nossas faltas, culpas e pecados, mas também em reconhecimento do seu supremo domínio sobre nós e em testemunho dos benefícios e graças que Ele nos dispensa continuamente, pois tudo o que temos dele recebemos; e em agradecimento por tantas graças recebidas, isto é, devemos assistir este sacrifício que o mesmo Jesus Cristo oferece ao eterno Pai por nós. Ele é a principal oferenda e a vítima oferecida. Jesus Cristo é o advogado que temos no céu com Deus Pai, que intercede por nós, como diz São João (109). E, além disso, o temos sobre o altar, que sempre intercede por nós, como assegura São Paulo (110).
Certamente que não basta, nem é suficiente, cumprirmos, como bons cristãos, o mandato da assistência à santa missa e da comunhão nela para fazer-nos mais participantes dos méritos de Jesus Cristo; é, além disso, indispensável que sejamos sacerdotes ou sacrificadores, não só na missa, juntamente com Jesus Cristo, sacrificador invisível e o sacerdote, sacrificador visível, devemos oferecer-nos também a nós mesmos como vítimas para a glória de Deus e em satisfação das nossas culpas e pecados (111). Os maus não são contados por Deus como sacerdotes, nem seu sacrifício pode ser aceito e agradável, por não ser sacrifício de justiça, que é o único aceito.
Este sacrifício que fazem de si os bons é muito agradável aos olhos de Deus e muito satisfatório por suas faltas e as da nação inteira, como se lê na sagrada Escritura (112).
Disse um dos mártires macabeus: “Eu entrego meu corpo e minha vida à morte. Sobre mim e meus irmãos se acalmará a justa indignação do Onipotente, que está irritado contra nossa nação” (113). E com efeito, assim foi; por meio do sacrifício destes mártires, a ira se mudou em misericórdia: : Ira enim Domini in misericordiam conversa est (114).
Sobre aquelas palavras do Apóstolo aos Colossenses: “Eu que no presente me alegro por saber que padeço por vós e por saber que estou sofrendo em minha carne o que falta na paixão de Cristo em seus membros, sofrendo trabalhos em prol do seu corpo místico, que é a Igreja” (115), dizem os expositores que os méritos de Jesus Cristo são de infinito valor em si mesmos e suficientes para redimir milhares de mundos; mas o eterno Pai não os aceitou senão com a condição de que os adultos façam sua parte nesta paixão para poder gozar do seu fruto; isto é, devemos cooperar ouvindo a santa missa, recebendo a sagrada comunhão, fazendo oração, sofrendo com mansidão e paciência as calúnias, penas e trabalhos, mortificando as paixões e sentidos e oferecer tudo a Deus.
Mas singularmente nas públicas calamidades, nas que padecem os inocentes o mesmo que os culpados, e talvez mais, se cumpre assim a condição e vontade do Pai celestial. Os culpados padecem como réus, e se depois deste castigo não se convertem, é para eles motivo de maior ruína e condenação. Mas os bons, sofrendo com paciência e resignação, se purificam ainda mais de suas imperfeições e crescem na virtude, de modo que se fazem mais agradáveis aos olhos de Deus e com suas penas bem sofridas dão cumprimento ao que por decreto divino faltava à paixão de Jesus Cristo, como foi dito. Assim é como se acalma a divina justiça e se alcançam as divinas misericórdias. Em prova desta verdade basta ler as sagradas Escrituras e a história eclesiástica. Quantas vezes nações inteiras foram perdoadas pela penitência, paciência e oração dos bons! Quantos bens, graças e conversões não alcançaram as penas e o sangue dos mártires!
Na verdade, não seria contra a razão dizer que o inocente, o santo por excelência, padeça e morra para salvar os pecadores e que a multidão dos pecadores não sofra nada? Desta multidão de pecadores, uns são maus, perdidos e obstinados e outros são pecadores justificados ou que devem ser purificados. Padecer dos males não serve para acalmar e satisfazer a divina justiça, antes, a provocam mais com as maldições e blasfêmias que os pecadores vomitam e com os pecados de toda sorte que cometem; mas os pecadores justificados, como pela graça estão unidos com Deus, seus sofrimentos e méritos estão unidos com os de Jesus Cristo. Por isso, todos os bons são chamados às penas e sofrimentos, como diz São Paulo: que todos aqueles que querem viver piamente em Cristo Jesus padecerão perseguições, mais ou menos segundo seus progressos na perfeição (116). Isto diz Cornélio a Lápide, quando fala das penas de Maria Santíssima ao pé da cruz, que quanto mais santa é uma alma e mais perto de Cristo está, tanto mais Jesus Cristo lhe oferece o cálice da sua paixão (117).
Mas devemos nos animar muito por pensar que se com Cristo padecemos sobre a terra, com Ele mesmo reinaremos no céu (118); e devem ser para nós de grande consolo aquelas palavras que o Arcângelo São Rafael disse a Tobias: “Porque és agradável aos olhos de Deus, foi necessário que a tentação te provasse” (119). Alegremo-nos, pois, em meio a penas, ao ver que somos dignos de sofrer algo por seu amor (120), por nossos defeitos, para juntar méritos para o céu e para satisfazer pelas faltas, culpas e pecados de nossos irmãos e poder assim alcançar para eles a misericórdia, a graça e a glória. Este é o sacrifício que de nós mesmos devemos oferecer ao eterno Pai, juntamente com os méritos de Jesus Cristo, de Maria Santíssima, santos do céu e justos da terra.


10. A devoção a Maria Santíssima
A devoção a Maria Santíssima é outra das nossas principais obrigações. É a Mãe de Deus e a Mãe dos homens; sobre estes dois pontos cardeais gira toda a devoção. Como Mãe de Deus, pode tudo; como Mãe dos homens, nos amparará e nos concederá todas as graças. Lutero dizia que o que mais o irritava era ver que o povo honre o Santíssimo Sacramento e Maria (121). Ninguém estranhará, pois, que os protestantes se ponham furiosos ao falar destes dois assuntos, que são as delícias dos bons católicos.
Honremos, pois, Maria Santíssima, nossa terníssima Mãe; imitemos suas virtudes, tributemos-lhe continuamente nossas homenagens, recebamos em sua honra os santos sacramentos e não nos esqueçamos que o rosário é uma das devoções de que mais gosta, já que ela mesma foi a que o ensinou ao nosso conterrâneo São Domingos (122), e assim como o Santo, por meio desta devoção, converteu os hereges e demais pecadores e combateu as blasfêmias que os albigenses proferiam contra Deus e os santos, assim também nós conseguiremos o mesmo se, como São Domingos, o rezamos cada dia e o ensinamos a rezar aos demais com devoção e fervor (123).


11. Leituras piedosas

A leitura mais piedosa que podemos fazer é a do santo Evangelho. Segundo meu propósito, devo ler um capítulo por dia (124). Devemos meditar e acomodar nossa conduta à regra de moralidade que nele nos dá Jesus Cristo; ali está a verdade limpa de todo erro (125); também devemos ler Kempis, pois homem nenhum escreveu coisas boas igual a ele (126); existem outros escritos muito bons que devemos ler e propagar, pois precisamente esta é nossa principal missão. Sempre é de grande utilidade e proveito fazer circular livros úteis e proveitosos, e hoje em dia há uma grande necessidade (127); parece que nos encontramos naqueles dias desgraçados que previa o Apóstolo quando escrevendo a seu amado discípulo Timóteo lhe dizia: “Virá tempos em que os homens não ouvirão a sã doutrina, mas, tendo vontade de ouvir doutrinas que lisonjeiam suas paixões, recorrerão a uma caterva de doutores para satisfazer seus desordenados desejos e fecharão seus ouvidos à verdade e os abrirão às fábulas” (128).
Até quando devem ser mais prudentes, zelosos e ativos os filhos das trevas que os da luz? (129). Pois se os protestantes e ímpios não se cansam de espalhar livros maus, folhetos e toda espécie de escritos perniciosos e estampas obscenas, por que não faremos outro tanto nós no bom sentido?


12. Necessidade da doutrina de Jesus Cristo
Jesus Cristo e sua doutrina são o único meio para curar os males que sofre a sociedade, porque só Jesus Cristo e sua doutrina podem remediar e curar as aberrações intelectuais, as debilidades morais e as ruínas sociais da nossa época.
Quando se despreza Jesus Cristo e sua doutrina, se despreza a vida na ordem da inteligência moral e social. O princípio da vida intelectual para um povo consiste em ter crenças e a primeira condição para ter crenças é ter um símbolo e um símbolo não se tem sem Jesus Cristo e sem Jesus Cristo as inteligências não afirmam, duvidam, negam e, pela dúvida e negação, as inteligências perdem a vida, estão mortas. Perdendo Jesus Cristo, que é a verdade e a vida (130), dão com Satanás, que é o pai da mentira e o autor da morte (131).
Jesus Cristo é a vida moral. O princípio da vida moral é ter um código de costumes inteligível e imutável. Quando a lei dos costumes se escurece, torna-se incerta, ou é ignorada, a ordem moral se descompõe e todas as virtudes recebem um golpe de morte. Quando os sábios filósofos e legisladores ditam leis sem contar com Jesus Cristo e às vezes contra Jesus Cristo, em nada melhoram a vida do povo, como consta na história da humanidade. Devemos todos saber que não há outro código verdadeiro, não há outra lei propriamente dita para os homens que a lei de Deus; este mesmo Deus que a todos os corpos do universo deu a lei da gravidade e com ela se conservam e sem ela se destroem, assim também deu a todos os homens do mundo sua santa lei, que escreveu naturalmente em cada homem (132), que no Sinai escreveu em tábuas de pedra (133); esta lei tão simples e tão grande é a lei que Jesus Cristo veio não abolir, mas aperfeiçoar com seu exemplo (134), com seus conselhos e com a graça que nos dá para cumpri-la com perfeição. Todas as demais leis, se não se apóiam nesta, nem merecem o nome de lei, nem são outra coisa que editos tirânicos despóticos e subversivos da ordem estabelecida pelo Autor da natureza.
O vício é a morte da vida social e a observância do código da lei de Deus é a vida. Fora do código da lei de Deus não há nenhum código certo, inteligível e imutável para o gênero humano. Uns afirmam o que os outros negam; estes dizem e mandam uma coisa que aqueles desprezam e proíbem. Leia o código dos chineses, dos indianos, dos persas, dos babilônios, dos caldeus, dos egípcios, dos gregos e dos romanos..., e depois de ter lido quanto disseram, ensinaram e escreveram os Licurgos, Confúcios e demais legisladores saberá claramente que só a lei de Deus é o código simples, certo, seguro, claro e imutável e o apropriado para a natureza humana e que lhe é tão apropriado como o é a lei da gravidade aos corpos, como dissemos anteriormente.
Assim como a vida intelectual se funda no símbolo e a vida moral em um código, a vida social deve fundamentar-se na autoridade e esta autoridade merece respeito, honra, obediência, fidelidade, serviço e tributos. Jesus Cristo o tem ensinado com eu exemplo e doutrina; disse: dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus (135). Ele mesmo pagou o tributo (136) e respeitou e se sujeitou às autoridades; A Pilatos disse: “Não terias autoridade sobre mim se não te fosse concedida desde o alto” (137). Quando à autoridade não é lhe é concedida esta autorização que vem do alto, segundo doutrina e exemplo de Jesus Cristo, os súditos não se consideram súditos, mas iguais. Que acontece então? O mesmo que em uma casa de muitos irmãos sem autoridade do pai ou como em uma escola com meninos traquinas, sem a autoridade do professor, assim acontece em uma nação que não tem respeito nem obediência à autoridade: tudo nela é confusão, tudo é anarquia, e esta é a morte da sociedade (138).
Satanás derramou seu último veneno sobre a sociedade; por isto vemos que as pessoas e a sociedade inteira se perdem por falta de luzes e de virtudes; e nós temos a obrigação de aplicar o eficaz e único remédio: Jesus Cristo, sua doutrina, seus sacramentos e seu sacrifício que é a missa, já que Jesus é a luz que ilumina todo homem que vem a este mundo, como diz São João (139). À falta de virtudes e à corrupção de costumes, devemos opor a verdadeira devoção a Maria Santíssima.
Parece-me que tenho respondido às principais perguntas que você me tem feito e assim coloco fim à presente carta colocando-me à sua disposição.
Q. S. M. B.

A. C. 140

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NOTAS

* O título do opúsculo é: Carta ascética que el Excmo. e Ilmo. Sr. Arzobispo Claret escribió al presidente de uno de los coros de la Academia de San Miguel (LR, Barcelona 1862) 52 págs.

1 Infelizmente não conhecemos a carta que o presidente de um dos coros da Academia de São Miguel escreveu ao Padre Claret. Teria sido interessante conhece-la para saber que perguntas fazia ao Santo e, na impossibilidade de responde a todas, que critério seletivo seguiu o auto da Carta Ascética.

2 Sabemos, através de sua biografia, de seus planos de vida, de seus propósitos e de numerosas testemunhas que o conheceram, a alta estima em que o Padre Claret sempre teve com o tempo, pois aproveitava com avidez quase obsessiva, sobretudo para escrever livros, opúsculos e folhas soltas e para pregar e confessar.
Seu amigo íntimo Sr. Vicente de la Fuente escrevia: “Disse-me um dia que, calculando as cartas que recebia por dia, vinham a ser quase cem. No fim teve que reduzir a abrir somente algumas especiais, pois teria necessitado todo o dia para lê-las e era impossível materialmente responde-las” (Aguilar, F., Vida... p. 290).
Em 1862, além das ocupações próprias de seus cargos, confessor da rainha, presidente do Escorial e do hospital de Montserrat, e do seu apostolado incessante, estava escrevendo sua Autobiografía, que havia começado nos últimos meses do ano anterior.
Anos antes, em 1868, escreverá um opúsculo de 30 páginas intitulado Aprecio del tiempo y modo de ocuparlo bien para ajudar os demais a estimar este valor tão importante na vida humana.

3 Cf. Ap 12, 7 9.

4 Cf. Gén 3, 1 19.

5 Jue 16, 4 31.

6 Cf. 2Sam c. 11 12.

7 Cf. 1Re 11, 1 13.

8 Cf. Mt 26, 69 75; Mc 14, 66 72; Lc 22, 54 62; Jn 18, 15 27.

9 Tertuliano «hacia el año 207 pasó abiertamente al montanismo, y llegó a ser jefe de una de sus sectas, llamada de los tertulianistas, que perduró en Cartago hasta la época de San Agustín» (Quasten, J., Patrología [BAC, Madrid 1978] 3.ª ed., t. l p. 546).

10 Sobre Orígenes (n. en Alejandría hacia el año 185 y m. en Tiro el año 253) cf. ib., pp. 351 410.

11 Cf. Flp 4, 13.

12 Alude al famoso soneto anónimo que empieza: «No me mueve, mi Dios, para quererte, / el cielo que me tienes prometido». Los versos a los que se refiere el Santo son: «Muéveme, en fin, tu amor, y en tal manera / que, aunque no hubiera cielo, yo te amara / y, aunque no hubiera infierno, te temiera».

13 Cf Jn 8, 29.

14 Cf. Mt 22, 37 39; Mc 12, 29 31, Lc 10, 27.

15 Cf. Sal 39, 4.

16 Cf. Mt 22, 37; Mc 12, 30; Lc 10, 27.

17 Del amor apasionado a Dios nace el fuego del celo apostólico. Así sucedió en Claret a lo largo de su vida, ya desde sus primeros años de sacerdocio, tal como nos dice él mismo en su Autobiografía (n. 113).

18 Dt 6, 6 9.

19 La presencia de Dios fue objeto de los propósitos del P. Claret durante muchos años, desde que comenzó su vida misionera (1843) hasta un año antes de su muerte (1869) (cf. San Antonio María Claret, Escritos autobiográ¬ficos [BAC, Madrid 1981] pp. 523 533 544 551 555 568 571 574 578 579 580.

20 San Agustín, Confesiones l. 10 c. 6 n. 8 Confesiones de San Agustín; trad. por el P Eugenio Zeballos (LR, Barcelona 1868) t. 2 p. 227.

21 San Antonio María Claret cultivó siempre la rectitud de intención, tan necesaria al misionero apostólico (cf. Aut. n. 197-199). La rectitud de intención aparece en todas sus obras (cf. Aut. n. 515, 549), y de ella hace propósito continuo (cf. Aut. n. 648747.790; San Antonio María Claret, Escritos autobiográficos [BAC, Madrid 1981] pp. 564 567 574 577 580 587 588). De un modo especial propone esta actitud en la comida, en el descanso y en el estudio (cf. ib., pp. 561 564 567 569 570 572).

22 Cf. 1Cor 13, 4.

23 Cf. Anónimo, El espíritu de San Francisco de Sales (LR, Barcelona 1856) p. 218. Ex libris.

24 Cf. San Francisco de Sales, Directorio de religiosas p. 16: Obras (Madrid 1771) t. 1 p. 312.

25 Cf. Anónimo, El espíritu de San Francisco de Sales, ed cit., p. 388: «Amar un objeto ingrato, impertinente y enfadoso es una cosa tan desagrada¬ble como mascar píldoras de acíbar; mas, sin embargo, ésta es la piedra de toque de la verdadera caridad para con el prójimo».

26 Cf. ib. p. 39.

27 Mt 1 2, 31.

28 Cf. Mt 22, 39; Mc 12, 31; Lc 10, 27.

29 Cf. Mt 15, 19.

30 Lc 23, 34.

31 Cf. 1Cor 13, 2.

32 En una nota suelta del Santo encontramos estas palabras: «El amor de Dios y el egoísmo son dos amores contrarios que se resisten mutuamente; son como el agua y el fuego. El agua sucia del vaso del herrero. Apágase en él el hierro encendido. Así queda apagado el amor divino» (Mss. Claret, XIII, 697).
33 Esta frase la copia del P. Alonso Rodríguez, Ejercicio de perfección y virtudes cristianas (LR, Barcelona 1861) t. 1 p. 168.

34 Séneca, Epistola IX ad Lucillam (cf. Rodríguez, A., o. c., p. 168).

35 Rodríguez, A., o. c., ib.

36 Mt 25, 40.

37 Jn 13, 6.

38 Sal 115, 1.

39 Cf. Rodríguez, A., o. c., p. 180.

40 Ecli 18, 15-18.

41 Cf. Rodríguez, A., o. c., p. 181.

42 Cf. Mt 17, 4; Mc 9, 6; Lc 9, 33.

43 En realidad, San Pedro no huyó del Calvario, sino que, como los demás apóstoles, a excepción de San Juan, abandonó al Maestro después dei prendimiento y huyó (cf. Mt 26, 56), aunque luego san Pedro le siguió de lejos hasta el atrio del pontífice, donde le negó.

44 cf. Cartas espirituales l. 5 ep. 33: Obras (Madrid 1770) p. 57; Anónimo, El espíritu de San Francisco de Sales (LR, Barcelona 1856) p. 349. Ex libris.

45 Lo leyó en Anónimo, El espíritu de San Francisco de Sales (LR, Barcelona 1856) p. 49. Ex libris. He aquí las frases del autor: «No quería (San Francisco de Sales) que en su presencia se dijesen palabras de propia humillación, como no procediesen de un verdadero y sincero sentimiento de humildad, porque decía que semejantes palabras eran la flor, la nata y quintaesencia del orgullo más refinado. El verdadero humilde no quiere parecerlo, sino serlo» (cf. ib., p. 237).

46 Ecli 3, 7.

47 Cf. Anónimo, El espíritu de San Francisco de Sales, ed. cit., p. 274: «Hay gentes naturalmente taciturnas y calladas, unas por orgullo, otras por estupidez y otras por melancolía; pero hay pocos que lo sean por virtud, esto es, por juicio y por moderación».

48 Esta observación tan sabia del Santo nacía de su propia experiencia. El P. Claret fue un hombre volcado a la acción, pero guiado siempre por la obediencia, que constituía para él el valor supremo y principio valioso de santificación.

49 También aquí habla por experiencia propia. Así lo indicaba el P. Coma, que se lo había oído al P. Buenaventura Biadíu: «Decíame que sabía de cierto que dicho señor (el P. Claret) nunca estaba más solo que cuando se hallaba rodeado de gente, que le empujaba por todos lados, pues entonces se concentraba más en Dios nuestro Señor» (carta del 28 febrero 1881: Clotet, J., Resumen de la admirable vida... [Barcelona 1882] p. 252).

50 Jn 3, 8.

51 Contra la tendencia, normal en su tiempo, de no practicar la recepción de la comunión frecuente, el P. Claret exhorta a ello, convencido de que la eucaristía es el sacramento de la santificación. No es extraño que insista en este punto después de haber recibido, el 26 de agosto del año anterior, la «gracia grande» de la conservación de las especies sacramentales de una comunión a otra (cf. Aut. n. 694).

52 Mt 28, 20.

53 Mt 11, 28.

54 In 14,6.

55 Cf. Hch 1, 1.

56 Cf. Jn 6, 63.

57 Jn 6, 48 88

58 Cf. Sal 77, 25.

59 Cf. Gén 3, 5.

60 Mt 4, 4.

61 Sab 13, 3-5.

62 Cf. Sab 1, 11.

63 Cf. Jn 1, 9.

64 Y yo le resucitaré en el último día (Jn 6, 40).

65 Cf. Jn 6, 58.

66 1Cor 15, 51.

67 Cf. Rom 6, 23.

68 cf. Mt 6, 11; Lc 11, 3. En su edición del Evangelio hace esta anotación: «Pan nuestro. Pan material. Pan eucarístico. Pan de doctrina. Pan de la gracia. Pan nuestro, porque ha de ser ganado con el sudor de nuestro rostro. Hemos de prepararnos. Hemos de aplicarnos. Hemos de cooperar. Entonces nos haremos acreedores a este pan y será nuestro» (El santo evangelio de Nuestro Señor Jesucristo según San Mateo, anotado por el Excmo. e Ilmo. Sr. D. Antonio María Claret, arzobispo de Cuba [LR, Barcelona 1859] p. 47).

69 Cf, Lc 12, 49.

70 Gén 3, 5.

71 Mt 26, 39; Mc 14, 36; Lc 22, 42.

72 Mt 26, 26 28; Mc 14, 22 24; Lc 22, 19 20; 1Cor 11, 24 25. En su edición del evangelio según San Mateo, el P. Claret hace un largo comentario sobre este texto (cf. o. c., pp. 187 189).

73 Cf. Flp 2, 8.

74 Ib.

75 Mt 11, 29.

76 Cf. Is 45, 15.

77 Cf. Jn 13, 34.

78 Tertuliano, Apologeticum XXXIX 7: PL 1, 534, Tertulliani opera (Turnholti 1954) t. 1 p. 151.

79 Cf. Hch 4, 32 33.

80 Cf. Puccini, V., La vita di Santa María Maddalena de’ Pazzi, vergine e nobile fiorentina (Venezia 1739) p. 248.

81 Cf. Cant 1, 3.

82 Sobre los injertos escribió algunas páginas en su obra Las delicias del campo (LR, Barcelona 1860) 3.ª ed., pp. 131 145.

83 Cf. Sal 41, 2.

84 Cf. Sal 1, 3.

85 Gál 2, 20.

86 Jn 6, 53.57.

87 Cf. Rom 8, 38 39.

88 Cf. Flp 4, 13.

89 Gén 3, 3.

90 Jer 2, 20.

91 Is 1, 2.

92 Nos deslizamos como el agua (2 Re 14, 14).

93 Cf. Gén 8, 21.

94 Gén 3, 3.

95 cf. Ef 1, 10.

96 No existe ninguna redención en el infierno. Esta frase no pertenece a la Sagrada Escritura. Parece ser una interpretación exegética, corriente en tiempo del P. Claret, del texto de Isaías 38, 18, que traduce así el P. Scío: «El infierno no te glorificará ni la muerte te alabará; no esperarán tu verdad los que descienden al lago».

97 Cf. Ez 33, 11.

98 Cf. Ap 2, 11.

99 Concilio de Trento, ses. 22 c. 6.

100 Cf. San Anselmo, Cur Deus homo? l. 1 c. 5: Obras completas (BAC Madrid 1952) t. l pp. 753 755.

101 Lc 22, 19; cf. 1 Cor 11, 25.

102 Mt 28, 20.

103 La propaganda protestante se intensificó en España durante todo el siglo XIX debido a la tolerancia de los gobiernos liberales y a la acción de varios predicadores ingleses que propagaron la Biblia a lo largo y ancho de la Península. El mismo P. Claret fue testigo de los estragos de esa propaganda sectaria, sobre todo durante su viaje a Andalucía en el otoño de 1862 (cf. Aut. n. 717 728). Sobre este punto pueden verse Menéndez Pelayo, M., Historia de los heterodoxos españoles (BAC, Madrid 1956) t. l pp. 1020 1047; Cárcel Ortí, V., El liberalismo en el poder, en Historia de la Iglesia en España (BAC, Madrid 1979) pp. 196 198.

104 El P. Claret toma estos datos de Ráulica, V., Las delicias de la piedad. Tratado sobre el culto de la Santísima Virgen (Madrid 1859) pp. 117 118. Ex libris.

105 Estas expresiones tan marcadamente antiecuménicas hay que enten¬derlas en el contexto del tiempo del Santo, como fruto de la educación y del ambiente católico de aquella época. Hoy, la Iglesia, y con ella todos los católicos, ha cambiado su actitud hacia los hermanos separados, sobre todo a raíz de la publicación del decreto sobre el ecumenismo Unitatis redintegratio, del Concilio Vaticano II, y de los gestos de acercamiento realizados por los últimos Papas: Juan XXIII, Pablo VI y Juan Pablo II.

106 Cf. 1Cor 2, 14.

107 Mt 21, 43.

108 Así lo hacía ya desde niño nuestro santo: «Desde muy pequeño escribe - me sentí inclinado a la piedad y a la religión. Todos los días de fiesta y de precepto oía la santa misa; los demás días, siempre que podía».

109 Cf. 1Jn 2, 1.

110 Cf. Heb 7, 25.

111 Esto es precisamente lo que ha indicado con profundidad el Concilio Vaticano II en las siguientes líneas: «Participando del sacrificio eucarístico, fuente y cumbre de toda la vida cristiana, [los cristianos] ofrecen a Dios la Víctima divina y se ofrecen a sí mismos juntamente con ella» (Lumen gentium n. 11).

112 2Mac 12, 43 44.

113 2Mac 7, 37 38.

114 2Mac 8, 5.

115 Col 1, 24.

116 2Tim 3, 12.

117 Cornelio Alápide, Commentarius in Evangelium S. Lucae et S. Ioannis (Antuerpiae 1660) t. 13 p. 525. Ex libris.

118 Cf. Rom 6, 5.

119 Tob 12, 13.

120 Cf. Hch 5, 41.

121 Cf. Ráulica , v., o. c., p. 162.

122 Cf. Possadas, F., Vida del glorioso padre y patriarca Santo Domingo de Guzmán (Madrid 1721) pp. 113 114. El P. Claret señaló con tres rayas el pasaje de la aparición de la virgen a Santo Domingo y de la entrega del rosario al mismo santo.

123 Así lo practicaba en las misiones (cf. Aut. n. 266). Y al final de su vida escribe: «Lo que más inculcaré opportune et importune será enseñar y exhortar a rezar bien el santo rosario» (Propósitos de 1869: Escritos autobiográficos [BAC, Madrid 1981] p. 584).

124 Téngase en cuenta que la Carta ascética está dirigida a un socio de la Academia de San Miguel. Aquí el P. Claret hace referencia al reglamento cuyo artículo 34 dice: «Cada miembro leerá cada día, o por lo menos semanalmente, un capítulo del evangelio según San Mateo, traducido y anotado por el Excmo. Sr. Arzobispo de Cuba» (Plan de la Academia de San Miguel [LR, Barcelona 1859] p. 28).

125 Esta sencilla y hermosa frase indica, una vez más, la «pasión bíblica» que siempre tuvo San Antonio María Claret. La Sagrada Escritura le reveló su vocación misionera y alimentó su vida espiritual y su acción evangelizadora como predicador incansable y fecundo escritor.

126 Resulta un poco extraño este elogio del Kempis, que no aparece en otra parte de los escritos del P. Claret. Que sepamos, lo aconseja «para hombres» en la «lista de los mejores libros que los confesores podrán prescribir a sus penitentes», publicada al final de sus Avisos a un sacerdote (Vich 1844 p. 24). En cambio, no aparece ni en el Catálogo que ha de procurar tener un sacerdote, publicado en El colegial instruido (LR, Barcelona, 1861, t. 2 pp. 398 408), ni en el Método y avisos para aprovechar en el estudio durante la carrera, publicado como apéndice de su obra Apuntes de un plan para conservar la hermosura de la Iglesia (Madrid 1865) 2.ª ed., pp. 239 256.

127 Adoctrinado por su propia experiencia (cf. Aut. n. 42), San Antonio María Claret trabajó incansablemente con la pluma y con sus múltiples iniciativas, como la Librería Religiosa, la Academia de San Miguel, las bibliotecas populares y parroquiales, etc., para hacer circular libros buenos. «¿Hasta cuándo - escribía a unos sacerdotes en 1846 - serán más prudentes y diligentes los hijos de las tinieblas que los de la luz? Si los impíos lo hacen para pervertir, ¿por qué no haremos nosotros otro tanto para conservar y aumentar la piedad de los fieles? Desengañémonos, amigo; las gentes en el día ansían por leer, y, si no se les proporcionan cosas buenas, darán con las malas, que, por desgracia, tanto abundan en nuestros infelices días» (EC, I, p. 177). Casi con las mismas palabras se expresa en su Autobiografía (n. 311) y en otros muchos pasajes de sus obras.

128 2 Tim 4, 3 4.

129 Cf. Lc 16, 8.

130 Cf. Jn 14, 6.

131 Cf. Jn 8, 44.

132 Cf. Jer 31, 33; Heb 10,16.

133 Cf. EX 34, 28.

134 Cf. Mt 5, 17.

135 Ml 22, 21; Mc 12, 17; Lc 20, 25.

136 Cf. Mt 17, 24 27.

137 Jn 19, 11.

138 Tal vez con estas palabras alude, de forma velada, a la situación española en esa época de gobiernos liberales, abocada a revolución, que tuvo lugar [estallaría] en septiembre de 1868.

139 Jn 1, 9.

140 Son las iniciales de su nombre y apellido: Antonio Claret.

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