sábado, 25 de setembro de 2010

Caridade: graus de consumação.

Ricardo de S. Vitor
TRATADO SOBRE OS QUATRO GRAUS DE CONSUMAÇÃO DA CARIDADE
Iª PARTE

"Ferida estou pela caridade".
A caridade obriga a falar da caridade. Entrego-me prontamente ao pedido da caridade, doce e plenamente deleitável, de falar do amor. Feliz matéria, e muito copiosa, que de nenhum modo pode produzir seja o tédio no escritor, seja o fastio no leitor. O que a caridade prepara possui sabor sem medida para o paladar do coração,
"ainda que um homem dê todas as riquezas de sua casa pelo amor, ele as desprezará como um nada".
Cant. 8, 7
Grande é a força do amor, admirável é a virtude da caridade. Nela há muitos graus, e neles há uma grande diferença. E quem os poderá distinguir ou mesmo enumerá-los dignamente? Nela estão os afetos da convivência, da afinidade, da consangüinidade e da fraternidade da humanoidade e neste mundo ainda há muitos outros. Acima de todos estes graus do amor, porém, há aquele amor ardente e fervoroso que penetra o coração e inflama o afeto e que transpassa a própria alma até a medula, de modo que possa verdadeiramente dizer:
"Ferida estou pela caridade".
Investiguemos, portanto, o que seja aquela supereminente caridade de Cristo que transcende ou extingue o amor dos pais, dos filhos e da esposa e, mais ainda, transforma em ódio o amor pela sua própria alma. Ó veemência do amor, ó violência da caridade, ó excelência, ó supereminência da caridade de Cristo!
É isto, irmãos, o que agora pretendemos, é disto que queremos falar, sobre a veemência da caridade, sobre a supereminência da perfeita emulação. Já sabeis suficientemente que uma coisa é falar da própria caridade, outra falar da sua consumação. Uma coisa é falar sobre ela, outra de sua violência.
Quando considero a obra da violenta caridade, encontro qual seja a veemência da perfeita emulação. Vejo, pois, alguns feridos, outros atados, outros desfalecidos, outros carentes, não, todavia, da caridade. A caridade fere, a caridade ata, a caridade faz desfalecer, a caridade produz carência. Qual destas coisas não é admirável, qual delas não é violenta? Estes são os graus pelos quais deveis todos aproximar-vos daquela que tanto cobiçais. Ouvi sobre ela, e anelai-a, a ela para quem se volta com tanta veemência a vossa ambição.
Desejais ouvir da caridade que fere? Lede no Cântico:
"Tu feriste o meu coração, irmã minha esposa, tu feriste o meu coração com um só de teus olhares, e com um cabelo de teu pescoço".
Cant. 4, 9
Quereis ouvir sobra a caridade que ata? Lede em Oséias:
"Haverei de trazê-los nos laços de Adão, nos laços da caridade".
Os. 11, 4
Quereis ouvir sobre a caridade que desfalece? Lede no Cântico:
"Eu vos conjuro, filhas de Jerusalém, que, se encontrardes o meu amado, lhe façais saber que desfaleço de amor".
Cant. 5, 8
Quereis ouvir sobre a caridade carente e conduzindo à carência?
"Carece a minha alma",
diz o Salmista,
"na tua salvação, e sobre espera na tua palavra".
Salmo 118, 81
A caridade, portanto, produz a carência, conduz ao desfalecimento. A caridade possui laços, a caridade produz ferimento.
Mas o que são estes laços de Adão, nosso primeiro pai, senão os dons de Deus? O que são estes laços de caridade, senão os benefícios de Deus? Os bens da natureza, da graça e da glória. Estes laços de beneficiência o ataram e constutuiram-no em devedor da benevolência. Criou a natureza, concedeu a graça, prometeu a glória. Eis os três laços, os dons do coração, os bens da justificação e os prêmios da glorificação. Sabemos que um laço tríplice dificilmente é rompido; rompeu-se, todavia. Pelo mundo o homem esfriou o seu jugo e rompeu os seus laços. Usou então ainda o Senhor de sua mão forte para multiplicar sobre nós seus laços de caridade, para que assim nos pudesse abraçar mais estreitamente e nos enredasse para o alto. Concedeu-nos os seus bens, por nós carregou os nossos males, para que assim fossemos atados por ambos, tanto pelos bens que nos concedeu como pelos males que por nós carregou. Deste modo os laços da caridade fizeram cativa à catividade, generosamente concedendo seus dons aos homens e por eles sustentando seus males. Quão pessimamente forte és tu, a quem tantos laços de caridade não conseguem prender, quão pessimamente livre és, a quem não se consegue romper os direitos desta catividade!
Mas eis que voltamos àquele grau de amor que colocamos em primeiro lugar, ao qual o chamamos de vulnerante. Não te parece que és atingido em teu coração quando aquele aguilhão de fogo de amor penetra medularmente na mente do homem, atravessando o afeto de lado a lado, de tal modo que o torna inoperante de coibir ou dissimular o calor de seu desejo? Arde em seu desejo, ferve em seu afeto, aquece-se, anela, geme profundamente e com longos suspiros, são estes para ti sinais certos da alma ferida, os gemidos e os suspiros, o vulto pálido e consumido. Este grau, porém, possui intervalos e cede pelos cuidados dos afazeres que lhe são incumbidos. Os febricitantes acometidos por este figura, costumam ora queimar mais fortemente, ora descansar de alguma forma por ocasião de suas ocupações. Porém, depois de um pequeno intervalo, queimam novamente, o ardor retorna mais fervente e o ânimo, já recobrado, incendeia-se mais fortemente e queima com maior veemência. Freqüentemente assim afastando-se e sempre retornando maior do que si mesmo, gradativamente abranda o ânimo, quebra e exaure as forças até que subjuga e sujeita completamente a alma a si, e pela memória ao seu jugo a ocupa toda, a envolve toda, a obriga toda, de modo que não possa esquecê-la ou pensar em outro, e já passa do primeiro ao segundo grau.
Dissemos que o primeiro grau fere, que o segundo ata. Porventura não está verdadeiramente e sem nenhuma contradição a alma atada quando não pode esquecer-se desta única coisa ou não pode meditar em outra? O que quer que ela faça, o que quer que ela diga, ela sempre revolve o mesmo em sua mente, e retém o mesmo por uma memória perene. Dormindo, sonha; acordada, retorna a isto a toda hora. Fácil será considerar aqui, conforme penso, como este grau superior transcende o anterior, que não permite a mente do homem repousar em nenhum momento. Corretamente dissemos, portanto, que o grau anterior é o que fere, enquanto que o segundo grau ata.
Freqüentemente também ferir é menos do que atar. Quem desconhece o quão freqüentemente ocorre que o soldado envolvido no conflito da batalha, atingido e ferido, foge da mão de quem o persegue e, mesmo com a ferida que lhe foi infligida, escapa, todavia, em liberdade? Mas depois que no tumulto da batalha o soldado atingido é tombado, assim tombado é preso e preso é conduzido, e conduzido é encarcerado. Encarcerado são-lhe postas cadeias e é atado e então passa a ser mantido inteiramente cativo.
Qual destas coisas, pergunto, é maior, ou qual é mais molesta? Não é mais tolerável que, embora ferido, possa fugir e, portanto, seja livre, do que cativo e atado seja mantido em cativeiro? Este grau, portanto, não é como o outro que recebe intervalos, mas segundo o costume da febre aguda a alma queima por um contínuo ardor e pelo jugo de seu desejo queima por um calor que nem de dia nem de noite permite que a alma repouse. Deste modo, assim como aquele que está deitado em um leito ou que está preso por cadeias não podem afastar-se daquele lugar a que estão confinados, assim também quem está absorvido por este segundo grau da violenta caridade o que quer que faça ou para onde quer que se volte não pode desviar-se daquela única e íntima solicitude de seu cuidado.
No primeiro grau podemos e devemos repelir o ímpeto dos maus desejos não resistindo, mas declinando, não tanto lutando quanto fugindo, se formos sempre solícitos em refugiarmo-nos por uma mente precavida a meditações ou ocupações úteis e honestas, para que cumpramos o que está escrito:
"Fugi da fornicação".
1 Cor 6, 18
A violência do primeiro grau pode ser declinada, não superada, mas a violência do segundo grau não pode ser vencida nem pela luta nem declinada pela fuga. Lemos, de fato, nos salmos, a voz do homem cativo e gemente, desesperado da fuga:
"Não há mais fuga para mim, e não há mais quem peça a minha alma".
Salmo 141, 5
Mas freqüentemente, como vemos, os que não podem fugir podem redimir-se, comprando a sua liberdade. Quando, portanto, não podemos repelir a tentação pela virtude, ou declinar dela pela prudência, devemos pela obra da misericórdia e da obediência redimir-nos a nós mesmos, e romper o jugo da servidão. Estas são as riquezas verdadeiras e próprias das quais está escrito:
"A redenção da alma do homem são as suas riquezas".
Prov. 13, 8
Mas quando o amor tiver crescido a este segundo grau de veemência, o que é, pergunto, ao que ele possa mais se estender? O que pode ser mais veemente do que essa veemência, se não pode ser superada, se não pode ser declinada? Se é inteiramente insuperável, se é inteiramente inseparável, o que pode ser mais veemente do que essa veemência? Se não pode ser superada por outro afeto, é o sumo, e se inere inseparavelmente, é sempiterno, e o que pode ser mais violente do que a sua violência, se é sumo e sempiterno?
Mas uma coisa é ser sumo e outra é ser único, assim como uma coisa é estar sempre presente e outra é não admitir de nenhum modo outro consorte. Podemos, de fato, estar presentes e ter muitos sócios, e entre todos ter inclusive algum lugar superior. Vês, portanto, quanta quantidade de supereminência ainda lhe falta para crescer para que, já sendo sumo, possa também ser único?
O amor, deste modo, sobe ao terceiro grau de violência quando exclui todo outro afeto, quando nada ama além de que uma só coisa ou por causa de uma só coisa. Neste terceiro grau da violenta caridade nada pode satisfazer além de uma só coisa, assim como nada lhe pode causar sabor senão por causa de uma só coisa. Uma só coisa ama, uma só coisa anseia, uma só coisa cobiça. A esta anela, nesta suspira, por ela se abrasa, nela repousa. Um só é aquilo em que se refrigera, um só é aquilo em que se sacia. Nada lhe é doce, nada lhe é saboroso se não for temperado por esta única coisa. Qualquer coisa que se lhe ofereça além, tudo o que lhe ocorrer espontaneamente, é imediatamente rejeitado, prontamente é conculcado tudo o que não concorre para o seu afeto, ou que não sirva ao seu desejo.
Quem, porém descreverá dignamente a tirania deste afeto? Como expulsa todo desejo, como exclui toda preocupação, como oprime violentamente todo exército que não vê servir à sua concupiscência? O que quer que aja, o que quer que faça lhe parece inútil, aliás, intolerável, a não ser que conduza e concorra ao único fim de seu desejo. Podendo fruir do que ama, parece igualmente possuir a tudo. Sem ele todas as coisas lhe são horríveis, tudo lhe é sórdido. Se dele não puder fruir o corpo desfalece e o coração se consome. Não recebe conselho, não concorda com a razão, não admite nenhuma consolação.
No segundo grau pode ainda ocupar-se dos negócios alheios pela ação, mas não o pode pelo pensamento, porque de nenhum modo pode esquecer-se daquele a quem ama. Neste grau, porém, a mente consumida e desfalecida pela grandeza do amor, assim como não pode meditar em outra coisa, assim também nem pode operar outras coisas. O grau anterior envolveu os pensamentos, este também dissolve as ações. Aquele ata o pensamento, este enfraquece a ação. Naquele grau ainda temos as mãos e os pés livres, e segundo o costume dos febricitantes podemos estender ou mover isto ou aquilo, porque pelo arbítrio do discernimento ainda podemos e devemos estendê-los e exercê-los na boa obra. Porém neste grau a grandeza do amor, à semelhança do cansaço, enfraquece mãos e pés, para que dali em diante a mente nada mais faça arbitrariamente. A mente, neste estado, permanece quase imóvel, e nunca se move nem pelo pensamento nem pela ação, a não ser ao que o desejo a conduz ou o afeto a impele.
Nos maus desejos ainda no primeiro grau, como antes foi dito, pode-se fugir pelo estudo da circunspecção. No segundo grau não há para onde fugir de modo algum, mas pelas boas obras ainda podemos nos redimir. No terceiro grau, porém, quem pode algo contra esta cidadela, que gênero de remédio poderá haver, quando já não é possível meditar no necessário, nem se pode operar o útil? Lemos desfalecerem tanto o coração como o corpo, o corpo consumido e o coração turbado:
"Meu coração está conturbado, abandonou-me a minha força".
Salmo 37, 11
Sob este artigo de necessidade não encontro nenhum outro gênero de remédio do que voltar-se para a clemência divina e implorar a sua misericórdia. Se estás totalmente desfalecido, se não tens mãos e pés livres, certamente ainda tens língua e podes mover os lábios. Se, portanto, não foi deixado nenhum lugar de fuga para o teu engenho, clama Àquele que tudo pode.
Vês, como suponho, o quanto já cresceu aquela força do amor, quando pelo exercício subiu à veemência deste terceiro grau. Admirável será se houver ainda algo ao qual possa subir ainda mais. No primeiro grau transpassou o afeto, no segundo atou o pensamento, no terceiro dissolveu a ação. O afeto é cativado no primeiro, o pensamento no segundo e a ação no terceiro. Nisto está todo o homem, e o que pode haver mais do que isso? Se, portanto, foi cativado tudo o que é o homem, o que mais pode ser-lhe feito? Se aquela força do amor a tudo possui, se a grandeza do amor tudo absorve, em que, pergunto, poderá dilatar-se ainda mais? Se tudo obteve, não há o que mais possa pretender.
Mas o que diremos se tudo obteve, mas tudo não lhe é suficiente? Que diremos se tudo está em seu poder, mas este tudo não pode satisfazer ao desejo? Certamente é incomparavelmente maior o que o homem não pode do que o que o homem pode. Ambas estas coisas podem ser desejadas, o que o homem pode e o que o homem não pode. Vês, portanto, quão infinito é aquilo em que o desejo pode se estender, mesmo depois de ter alcançado este terceiro grau.
O quarto grau da violenta caridade é, portanto, quando o desejo da alma fervorosa já não pode ser satisfeito de nenhum modo. Este grau, por já ter excedido os limites da possibilidade humana, não conhece, como os demais, términos para o seu crescimento, porque sempre encontra o que ainda possa cobiçar. O que quer que haja, o que quer que faça, não satisfaz o desejo da alma ardente. Tem sede e bebe, e no entanto, bebendo não extingue a sua sede, mas quanto mais bebe, mais ainda tem sede. A sede e a fome da alma ávida, ou melhor, insaciável, não é satisfeita, mas provocada quando seu desejo é alimentado pelo desejo. Neste estado o olho não se sacia pela vista, nem o ouvido se satisfaz com o ouvir, (na medida em que fala a um ausente ou vê um presente). Mas quem poderá explicar dignamente a violência deste grau supremo ou dignamente considerar a sua supereminência? O que poderá penetrar mais profundamente o coração do homem e atormentá-lo mais fortemente e molestá-lo mais veementemente? O que poderá ser mais molesto ou mais cruel quando pode moderar sua sede resistindo ou extinguir inebriando? Admirável e miserável voracidade, que por nenhuma diligência é expulsa, nem sedada por nenhuma satisfação. Doença irremediável e inteiramente desesperada, onde sempre se busca o remédio e nunca se o encontra e onde, ao contrário, tudo o que se presume ser remédio da saúde, se transforma em aumento do furor.
Este é aquele grau que conduz à carência, e que já faz desesperar o remédio. E assim como o doente desenganado, que já como que jaz entre os mortos, não tem mais o que fazer ou o que esperar do outro, retirado todo cuidado médico e abandonado a si mesmo, somente ainda anela pelo espírito e a cada momento como que se aproxima do desenlace. Já exala o último suspiro, e ao que faz consigo ou ao que lhe é feito não presta atenção nem adverte. Assim também quem anela pelo ardor deste fervoroso desejo o que quer que faça não lhe pode trazer remédio ou servir de consolação. Quando qualquer consolação que se use não atinge a alma, está de certa forma entre os mortos os quais não sentem de nenhum modo aquilo que se lhe fazem.
Nos maus desejos, porém, quando a mente humana é violentamente atirada a este estado, nada mais resta senão que outros orem por ela, para que talvez o Senhor, considerando a fé deles, restituindo-o à vida, o entregue à sua mãe, o qual é poderoso até para suscitar das pedras filhos de Abraão e quantas vezes o desejar conduz ao inferno e traz de volta. Neste estado o amor freqüentemente se transforma como que em uma insanidade, a não ser que uma admirável prudência e uma igual constância refreie o seu ímpeto. Neste estado freqüentemente surgem iras entre os amantes, freqüentemente cometem-se rixas, e como não há verdadeiras causas de inimizade, fingem falsos e freqüentemente sequer verossímeis. Neste estado o amor freqüentemente se transforma em ódio, quando nada pode satisfazer ao desejo mútuo. Daqui vem o que freqüentemente vemos em alguns, que aquilo pelo qual se parecem mais ardentemente se amarem, por isto mesmo se perseguem depois com o ódio mais veemente; ao contrário, o que é mais admirável, freqüentemente em um só e mesmo tempo se odeiam de um tal modo que, todavia, não deixam de arderem pelo desejo, e se amam de tal modo que, todavia, não desistem de se perseguirem como que pelo ódio. Assim amando odeiam, e odiando amam e de um modo admirável, ou antes miserável, do desejo cresce o ódio e do ódio o desejo. E o fogo e o granizo misturados são conduzidos por igual, quando nem o ardor do desejo pode dissolver ao gelo do ódio, nem o granizo da detestação pode extinguir o fogo da concupiscência ardente. Acima de seu modo, antes, acima de sua natureza, o fogo cria força na água, porque o incêndio do amor mais cresce pela contradição do outro do que poderia enfraquecer-se pela mútua paz.
TRATADO SOBRE OS QUATRO GRAUS
DA CONSUMAÇÃO DA CARIDADE
IIª PARTE

Eis que já temos no amor ardente quatro graus de violência, que foram colocados acima.
O primeiro grau de violência é quando a mente não pode resistir ao seu desejo.
O segundo grau é quando ele não pode ser esquecido.
O terceiro grau é quando ela não pode saborear outra coisa.
O quarto grau, que é o último, quando nem ele pode satisfazê-la.
No primeiro grau o amor é insuperável, no segundo inseparável, no terceiro singular, no quarto insaciável. Insuperável é o que não cede a outro afeto; inseparável o que nunca se afasta da memória; singular o que não aceita sócio; insaciável, quando a ele não pode satisfazer. E embora em cada grau podem ser notadas cada uma destas coisas, de modo especial, todavia, no primeiro grau pode notar-se a excelência do amor, no segundo a sua veemência, no terceiro a sua excelência, no quarto a sua supereminência. Quanta é a excelência do amor que excede todo outro afeto! Quanta é a veemência de dileção que não deixa a mente repousar! Quanta é a violência da caridade que todo outro afeto expulsa violentamente! Quanta é a supereminência da emulação à qual nada satisfaz! Ó excelência do amor! Ó veemência da dileção! Ó violência da caridade! Ó supereminência da emulação!
Estes quatro graus do amor encontram-se em graus diversos nos afetos divinos e nos afetos humanos e de modo inteiramente diverso se encontram nos desejos espirituais e nos desejos carnais. Nos desejos espirituais, quanto maior, tanto melhor. Nos desejos carnais, quanto for maior, tanto será pior. Nos afetos divinos, aquele que é o sumo, este mesmo é o melhor. Nos afetos humanos, aquele que é o sumo, este é o péssimo. Nos afetos humanos o primeiro pode ser bom, o segundo sem dúvida é maus, todavia o terceiro é pior, o quarto, porém, é péssimo.
Sabemos que nos afetos humanos o amor conjugal deve ter o primeiro lugar, e por isso no leito nupcial pode ser bom aquele grau de amor que costuma dominar todos os demais afetos. O afeto mútuo de um íntimo amor entre os consortes estreita os vínculos da paz e torna indissolúvel, grato e feliz aquela perpétua união,
Nas coisas humanas, portanto, o primeiro grau, conforme dissemos, pode ser bom, mas o segundo, sem dúvida, é mau. Obrigando indissoluvelmente a mente, não permite que ela transite a outra solicitude, freqüentemente remove tanto o cuidado dos que devem ser previstos como a providência dos que devem ser dispostos.
Já o terceiro grau do amor, que exclui todo outro afeto, não somente é maus, como também, ao contrário, começa a ser amargo, pois o seu desejo não pode ser sempre satisfeito, e ao mesmo tempo não pode receber consolação de outra coisa.
O quarto grau, porém, como dissemos, entre todos é péssimo. O que pode ser pior do que aquilo que não apenas torna a alma má, como também miserável? O que pode ser mais miserável do que sempre fatigar-se pelo desejo de algo por cujo gozo nunca é possível saciar-se? Antes já falamos que neste grau a mente se atormenta pelo calor e pelo gelo, quando nem o ódio se extingue pelo desejo, nem o desejo se extingue pelo ódio. E o que mais do que uma certa forma da danação futura isto parece ser, onde sempre se passa do calor do fogo ao frio da neve e do frio da neve ao calor do fogo? Assim, este último grau de amor entre todos os desejos humanos é o péssimo, enquanto que, nos afetos divinos, conforme foi dito, é o melhor de todos. No primeiro qualquer coisa que se faça não é suficiente para a alma humana, no segundo tudo o que se faz por Deus não pode satisfazer ao seu desejo. Ali a mente sempre está solícita ao que se lhe faz, não ao que ela faz. Aqui a mente tem maior solicitude sobre o que ela faz do que o que se lhe faz. Nos desejos celestes, portanto, quanto o afeto é maior, quanto o grau é superior, tanto será melhor ou mais precioso. Quão precioso é aquele primeiro grau de amor no amor divino, quando é insuperável! Muito mais precioso é o segundo, quando o afeto ardente começa a ser inseparável! Muito melhor ainda é quando em alguma outra coisa além de Deus não pode deleitar-se. O sumo e o melhor dos graus de amor é quando ao seu desejo nada mais pode satisfazer.
Lemos sobre o primeiro grau:
"As muitas águas não puderam extinguir a caridade, nem os rios a submergirão".
Cant. 8, 7
por ser insuperável.
Lemos sobre o segundo grau:
"Põe-me como um selo sobre o teu coração",
Cant. 8, 6
por não poder ser esquecido de nenhum modo. Quanto ao terceiro grau, lemos
"Se o homem der todas as riquezas de sua casa pelo amor, ele as desprezará como um nada",
Cant. 8, 7
por não poder deleitar-se em outra coisa.
Já no quarto grau lemos:
"O amor é forte como a morte, a emulação é dura como o inferno",
Cant. 8, 6
por ser pouco, para ele, tudo o que possa fazer ou sustentar para o seu Deus.
No primeiro grau o amor é dito insuperável:
"Amar-te-ei, Senhor, minha fortaleza".
Salmo 17, 2
No segundo grau o amor é dito inseparável:
"Fique apegada a minha língua às minhas faces, se não me lembrar de ti".
Salmo 136, 6
No terceiro grau o amor é dito singular:
"Minha alma recusou ser consolada, lembrei-me de Deus e alegrei-me".
Salmo 76, 3-4
No quarto grau o amor é dito insaciável:
"Que retribuirei ao Senhor por todos os bens que me concedeu?"
Salmo 115, 3
No primeiro é insuperável e se diz:
"Quem nos separará, pois, da caridade? Nem a tribulação, nem a angústia, nem a perseguição, nem a fome, nem a nudez, nem o perigo, nem a espada".
Rom. 8, 35
No segundo a caridade "nunca há de acabar" (I Cor. 13, 8), por ser inseparável, de onde que se diz:
"Minha alma aderiu a ti",
Salmo 62, 9
por não poder apartar-se dele.
No terceiro:
"Considerei a tudo como esterco, para ganhar a Cristo".
Fil. 3, 8
No quarto, diz o Apóstolo,
"para mim viver é Cristo, e morrer é lucro"
Fil. 1, 21
pelo fato dele desejar
"ser desatado e estar com Cristo".
Fil. 1, 23
No primeiro grau Deus é amado de coração, alma e mente, todavia nenhuma destas coisas se realiza de todo. No segundo ama-se de todo coração. No terceiro ama-se com toda a alma. No quarto ama-se com toda a força. O amor que é de coração é o amor que provém da deliberação; amar de alma é amar pelo afeto; ao coração pertence o conselho, à alma, porém, pertence o desejo.
Quereis saber que conselho devemos referir ao coração?
"Efraim",
diz o Profeta,
"tornou-se como uma pomba seduzida, não tendo coração".
Os. 7, 11
O que é o povo não ter coração senão estar sem conselho? O que é o povo ser uma pomba seduzida e sem coração, senão o que está escrito em outro lugar:
"É um povo sem conselho e sem prudência".
Deut. 32, 28
Portanto nada mais é ser sem coração do que carecer de conselho e prudência. Mas, assim como já foi dito, assim como o conselho pertence ao coração, assim o desejo pertence à alma:
"Quem aborrece a sua vida neste mundo",
diz o Evangelho de São João,
"guarda-la-á para a vida eterna".
Jo. 12, 25
Que é aborrecer a própria alma neste mundo, senão neste mundo (como em outro lugar é preceito),
"não seguir as suas concupiscências"?
Ecles. 18, 30
Pelo fato de alguém neste mundo mortificar seus desejos por causa de Deus, verdadeiramente dilata a sua alma para a eterna plenitude. Amar, portanto, de coração, é amar pelo conselho e pela deliberação. Amar de alma é amar pelo desejo e afeto. Aquele vem pelo estudo, este vem pela vontade. Amar de todo coração, de toda alma e de toda virtude é aplicar nisto todo estudo, todo desejo, todo exercício.
Freqüentemente somos conduzidos a amar algo pelo afeto e, todavia, relutamos pela razão. E freqüentemente amamos muitas coisas pelo propósito da deliberação, às quais, todavia, pouco nos afeiçoamos pelo apetite do desejo. Nos desejos carnais, deste modo, freqüentemente primeiro vem o amar de alma do que o amar de coração. Nas coisas espirituais, porém, sempre o amar pela deliberação vem antes do que o amar pelo afeto. De fato, nunca amamos as coisas espirituais pelo desejo a não ser que inflamemos a alma com grande aplicação ao afeto deles. Se, portanto, desejamos amar a Deus de toda alma, esforcemo-nos primeiro em amá-lo de todo coração. Esteja nisto todo o nosso pensamento, toda a nossa deliberação, sobre isto seja toda a nossa meditação, se queremos amar de todo desejo. Mas assim como nunca amamos de toda alma, a não ser que primeiro amemos com todo coração, assim também nunca amamos com toda a virtude a não ser que antes amemos com toda a alma. Se, de fato, temos afeto a algo que não amamos por causa de Deus, na verdade este afeto adulterino tanto quebra a constância da suma caridade e diminui as suas forças quanto conduz ou impele a alma a desejos alheios.
No primeiro grau, portanto, conforme foi dito, ama-se de coração, no segundo ama-se de todo coração, no terceiro com toda a alma, no quarto com todas as forças. Talvez Davi ainda estivesse no primeiro grau, mas já presumia do segundo quando, ao salmodiar, dizia:
"Confessar-te-ei, Senhor, com todo o meu coração".
Salmo 110, 1
Com isto no segundo grau pôde salmodiar com confiança:
"Busquei-te de todo o meu coração".
Salmo 118, 10
Quem alcança o terceiro grau, na verdade já pode dizer o seguinte:
"Cobiçou a minha alma, Senhor, desejar tuas justificações em todo o tempo".
Salmo 118, 20
Quem se eleva ao quarto grau, e ama a Deus com toda a virtude, pode dizer, na verdade:
"Não temerei o que me fará o homem".
Salmo 117, 6
Pelo fato de seu coração estar preparado para esperar no Senhor, seu coração está confirmado e não será abalado eternamente até que despreze seus inimigos.
No primeiro grau realizam-se os desposórios, no segundo as núpcias, no terceiro a cópula, no quarto o puerpério. No primeiro grau é dito à amada:
"Desposar-me-ei contigo para sempre e me desposarei contigo em justiça, em juízo e em misericórdia, e em miserações, e desposar-me-ei contigo na fé".
Os. 2, 19-20
No segundo grau realizam-se as núpcias em Caná de Galiléia, e lhe é dito:
"Sou vosso esposo... ... e não cessareis de andar após de mim".
Jer. 3, 14-19
Do terceiro grau se diz:
"O que está unido ao Senhor, é um só espírito com Ele".
I Cor 6, 17
Do quarto se diz:
"Nós concebemos, e como que estivemos com dores de parto, e o que demos à luz foi vento".
Is. 26, 18
No primeiro grau, portanto, a amada é visitada com freqüência; no segundo é conduzida; no terceiro une-se ao amado; no quarto é fecundada.
No primeiro grau, portanto, sempre na expectativa da volta do amado, clama e diz:
"Vem, amado meu, sê semelhante à cabra e ao filhote dos cervos sobre os montes de Beter".
Cant. 2, 17
No segundo é convidada para que venha, e lhe é dito:
"Vem do Líbano, esposa minha, vem do Líbano, e serás coroada".
Cant. 4, 8
No terceiro grau, unida ao amado, prostra-se e diz:
"A sua esquerda está debaixo da minha cabeça, e a sua direita abraça-me".
Cant. 8, 3
No quarto grau gloria-se de sua fecundidade, e diz:
"Meus filhinhos, por quem eu sinto de novo as dores de parto, até que Jesus Cristo se forme em vós".
Gal. 4, 19
De onde que se lhe diz:
"Teus dois seios são como dois filhotes de cabras que pastam entre os lírios".
Cant. 4, 5

TRATADO SOBRE OS QUATRO GRAUS
DA CONSUMAÇÃO DA CARIDADE
IIIª PARTE

Penetremos ainda mais profundamente e falemos mais abertamente.
No primeiro grau a alma tem sede de Deus, no segundo grau tem sede a Deus, no terceiro tem sede em Deus, no quarto tem sede segundo Deus.
Tem sede de Deus a alma que diz:
"A minha alma te deseja de noite, mas pelo meu espírito vigiar-te-ei de manhã em meu coração".
Is. 26, 9
Tem sede a Deus a alma quando diz:
"A minha alma teve sede a Deus forte e vivo; quando virei, a apresentar-me-ei diante da face de Deus? "
Salmo 41, 3
Tem sede em Deus a alma quando diz:
"Em ti teve sede a minha alma, deseja-te a minha carne, como terra árida e sedenta, sem água".
Salmo 62, 2
Tem sede segundo Deus a alma que diz:
"Quis a minha alma, ó Senhor, desejar as tuas justificações em todo o tempo".
Salmo 118, 20
A alma tem sede de Deus quando deseja experimentar o que é aquela interna doçura que costuma inebriar a mente do homem, quando começa a saborear e a ver quão suave é o Senhor. A alma tem sede a Deus quando pela graça da contemplação deseja elevar-se acima de si mesmo e ver a Lei em sua beleza, para que verdadeiramente ouça e diga:
"Porque vi o Senhor face a face, a minha alma foi salva".
Gen. 32, 30
A alma tem sede em Deus quando pelo excesso mental deseja ser inteiramente transportada em Deus, de tal maneira que, completamente esquecida de si, possa dizer:
"Se no corpo ou fora do corpo, não o sei, Deus o sabe".
II Cor. 12, 2
A alma tem sede segundo Deus quando de sua própria vontade, já não digo quanto às coisas carnais, mas nem mesmo nas espirituais a alma deixa algo ao seu arbítrio, mas tudo entrega a Deus, nunca pensando nas coisas que são suas, mas das que são de Jesus Cristo, de modo que também ela possa dizer:
"Não vim fazer a minha vontade, mas a vontade de meu Pai que está nos céus".
Jo. 5, 30
No primeiro grau Deus entra à alma, e a alma volta-se a si mesma. No segundo grau sobe acima de si mesmo e eleva-se a Deus. No terceiro grau a alma elevada a Deus transita toda nEle. No quarto a alma sai por causa de Deus, e desce abaixo de si mesmo.
No primeiro a alma entra a si mesmo, no segundo ultrapassa a si mesmo. No primeiro caminha para si mesmo, no terceiro caminha para o seu Deus. No primeiro entra por causa de si mesmo, no quarto sai por causa do próximo. No primeiro entra pela meditação, no segundo sobe pela contemplação, no terceiro retorna em júbilo, no quarto sai pela compaixão.
No primeiro grau aquele espírito mais doce do que o mel entra na alma e a inebria pela sua doçura, tanto que tenha mel e leite sob a sua língua, e seus lábios se tornem favos destilando o mel. Os que são assim derramam a memória da abundância da suavidade, porque a boca fala da abundância do coração. Esta é a primeira consolação que os que abandonam o século recebem primeiro, e que costuma consolidar o bom propósito. Este é o pão celestial que costuma refazer e apascentar na solidão os que saem do Egito, este é aquele maná escondido que ninguém conhecerá senão quem o recebeu. Esta é aquela doçura espiritual e interna suavidade que como que ao modo de crianças recém nascidas sempre costuma amamentar e alimentar e conduzir gradativamente à força da maturidade.
Assim, neste estado, a alma é conduzida por Deus para a solidão, e ali é amamentada, para que se inebrie pela doçura interior. Ouve o que se diz deste estado, onde o Senhor fala pelo profeta:
"Por causa disto, eis que eu a amamentarei, e a conduzirei à soledade, e falarei ao seu coração".
Os. 2, 14
Antes, porém, é necessário abandonar o Egito, antes é necessário atravessar o Mar Vermelho. Antes é necessário matar os egípcios nas águas, antes é necessário faltar os alimentos do Egito, antes que possamos apreender este alimento e esta comida espiritual. Abandone o Egito não somente com o corpo, mas também pelo coração, e deponha completamente o amor do mundo aquele que deseja estas comidas da celeste soledade. Atravesse o Mar Vermelho, estude como possa expulsar toda a tristeza e amargura do coração, quem deseja saciar-se da doçura interior. Sejam antes submetidos os egípcios e morram os de costumes perversos de que os cidadãos angélicos desprezam o convívio degenerado. É necessário antes desprezar a comida egípcia e transformar os prazeres carnais em abominação para que seja lícito experimentar o que sejam aquelas delícias internas e externas. Sem dúvida, quanto mais pleno for o amor de Deus mais ele vencerá todo outro afeto e tanto mais freqüentemente quanto mais alegremente a alma tiver se refeito pelo gozo interior. Neste estado a alma
"suga o mel da pedra, e o azeite da rocha duríssima".
Deut. 32, 13
Neste estado
"os montes destilarão doçura, e os outeiros manarão leite".
Joel 3, 18
Neste estado o Senhor visita freqüentemente a alma faminta e sedenta, freqüentemente a sacia pela suavidade interior, e inebria o espírito pela sua doçura. Neste estado freqüentemente o Senhor desce do céu, freqüentemente visita o que jaz nas trevas e na sombra da morte (Mt. 4, 16), freqüentemente a glória do Senhor preenche o tabernáculo da Aliança (Ex. 40, 32). Exibe, assim, a sua presença, de tal modo, porém, que não mostra a sua face. Infunde a sua doçura, mas não mostra a sua beleza. Infunde a suavidade, mas não mostra a claridade. Pode-se, assim, sentir a sua suavidade, mas não se vê a sua espécie. Ainda há nuvens e escuridão à sua volta. Seu trono ainda está numa coluna de nuvens. E suave e muito brando o que é sentido, mas inteiramente nublado o que é visto. De fato, ainda não apareceu em luz. E embora apareça em fogo, todavia mais no fogo que acende do que iluminante. Acende, de fato, o afeto, mas ainda não ilumina o intelecto. Inflama o desejo, mas não ilumina a inteligência. Neste estado a alma pode sentir o seu amado, mas, conforme dissemos, não pode ver. E, se vê, vê, de fato, como que de noite, vê como que sob a nuvem, vê, finalmente, pelo espelho como em enigma, não ainda face a face. De onde que diz:
"Ilumina a tua face sobre o teu servo".
Salmo 118, 135
Isto, portanto, é o que ocorre neste primeiro grau do amor, isto é, que enquanto a mente é freqüentemente visitada, freqüentemente faz refeição, freqüentemente é inebriada, às vezes é estimulada a ousar coisas maiores. Começa, portanto, finalmente, às vezes a presumir coisas maiores, e pedir coisas mais sublimes. Tanto que ousa dizer:
"Se achei graça na tua presença, mostra-me a tua face".
Ex. 33, 13
Todavia, não é imediatamente que se recebe o que é pedido, embora seja postulado pelo íntimo desejo. É necessário que seja pedido ardentemente, seja buscado diligentemente, que se bata fortemente e em todas as coisas insistir com pertinácia, se quisermos obter o desejado. Não te parece ter trabalhado há longo tempo e muito e já desfalecer completamente e como que decair da esperança aquele que diz:
"Até quando, Senhor, esquecer-te-ás de mim até o fim, até quando esconderás de mim a tua face?"
Salmo 12, 1
Mas, sabendo que todo o que pede recebe, e quem busca acha, e ao que bate será aberto, novamente e muitas vezes recebe a confiança, e retoma as suas forças, e diz:
"O meu coração fala-te, a minha face busca-te, procura, Senhor, a tua face".
Salmo 26, 8
Quando, portanto, a mente com grande estudo e ardente desejo avança à graça da divina contemplação, já como que se aproxima do segundo grau do amor, quando merece pela revelação ver aquilo que o olho não viu, nem o coração ouviu, nem passou pelo coração do homem (I Cor. 2, 9), de tal maneira que possa verdadeiramente dizer:
"A nós, porém, revelou-o Deus pelo seu Espírito".
I Cor. 2, 10
Não te parece porventura ter recebido esta graça aquele que mereceu ver os anjos subindo e descendo, e simultaneamente ao Senhor no alto do mesmo? De onde que diz:
"Vi a Deus face a face, e a minha alma foi salva".
Gen. 32, 30
Havia recebido a graça, e como que acostumado repetia, quem dizia:
"Envia a tua luz e a tua verdade, eles me levarão e me conduzirão ao teu santo monte, e aos teus tabernáculos".
Salmo 42, 3
Receberam esta graça e voavam pelas asas da contemplação aqueles aos quais o profeta via admirando e admirava vendo:
"Quem são estes",
diz ele,
"que voam como nuvens, e como pombas para os seus pombais?"
Is. 60, 8
Neste grau de contemplação são sustentados pelas asas de sua alma acima da altura das nuvens; neste grau voam com tais asas até o céu, não somente até o primeiro, mas também até o segundo, de tal maneira que possam dizer:
"Nossa conversação está nos céus".
Fil. 3, 20
Acima destes dois céus há ainda um terceiro céu, que é dito céu dos céus. A este terceiro céu de nenhuma forma podem subir mesmo aqueles que alcançaram o segundo grau do amor. O que é a terra para o primeiro céu, e o que é o primeiro céu para o segundo, isto é o segundo céu ao céu dos céus. O segundo céu, assim, se o quereis, é terra e o céu, ao contrário, é o céu dos céus. Mas o céu dos céus é para o primeiro céu, a terra porém para o céu dos céus. O profeta quis referir-se a esta terra, conforme penso, ao dizer:
"A minha porção está na terra dos viventes".
Salmo 141, 6
Esta terra, assim, tem o seu céu; tem também o seu sol. Penso que outro não é este sol do que aquele que no-lo indica o Senhor pelo profeta:
"Não se porá mais o teu sol, e a tua lua não minguará, porque o Senhor te servirá de luz eterna, e terão acabado os dias do teu pranto".
Is. 60, 20
Se, portanto, estás neste céu ou estás nesta terra podes ver aquele sol sob o qual queimam e ardem aqueles espíritos angélicos que são ditos serafins, isto é, ardentes, os quais mereceram ter este nome pelo fato de não haver entre todos eles ninguém que se esconde de seu calor. Podes, assim, ver o sol de justiça se estás nesta terra e alcançaste o segundo grau de amor, e te será dito:
"Não haverá mais para ti sol para brilhar de dia, nem o resplendor da lua te iluminará, mas o Senhor será para ti uma luz eterna. e Deus a tua glória".
Is. 60, 19
Neste estado é possível experimentar a verdade daquela sentença, a qual diz que
"Doce é a luz, e deleitável para os olhos é ver o Sol".
Ec. 11, 7
Neste estado a alma, ensinada pelo magistério da experiência, salmodia conforme a sentença:
"Na verdade é melhor um só dia nos teus átrios do que milhares fora deles".
Salmo 83, 11
Verdadeiramente quem será digno de explicar quanta é a felicidade desta visão? Esta felicidade, uma vez experimentada, uma vez saboreada, assim como quando presente não pode causar tédio, assim também quando ausente não pode ser esquecida. Quando, de fato, a alma decai daquela luz, e retorna a si mesmo, traz dali consigo alguns restos de pensamentos pelos quais se refaz a si mesma, melhor ainda, faz um dia de festa, conforme diz a Escritura quando diz:
"Pois o pensamento do homem confessar-te-á, e os pensamentos restantes farão para ti um dia de festa".
Salmo 75, 11
Considera pois qual não será a solenidade na abundância da visão, se com os pensamentos restantes realiza-se uma festa. Qual será a alegria na própria visão, se há tanta deleitação na sua lembrança? Assim, neste estado, a revelação da luz divina, a admiração pela contínua recordação da revelação, e a memória perene, atam tão indissoluvelmente a alma que ela não possa esquecer-se da alegria experimentada. E assim como no grau anterior a suavidade saboreada sacia a alma e transpassa o afeto, assim neste grau a claridade vista ata o pensamento de tal maneira que não é possível esquecer-se dela ou cogitar em outra coisa. No segundo grau, deste modo, conforme foi dito, o céu dos céus e aquela luz inacessível pode ser vista, mas não pode ser alcançada, pois outrossim não seria inacessível, se pudesse ser alcançada:
"Bem aventurado",
diz o Apóstolo,
"o Rei dos reis e Senhor dos senhores, o único que possui a imortalidade e que habita numa luz inacessível".
I Tim. 6, 15-16
Não é possível alcançar o que é inacessível.
Finalmente, o Apóstolo gloria-se de ter sido arrebatado àquela região de luz eterna:
"Conheci",
diz o Apóstolo,
"um homem em Cristo, não sei se no corpo ou fora do corpo, Deus o sabe, que foi arrebatado até o terceiro céu".
II Cor. 12,2
O terceiro grau de amor, deste modo, ocorre quando a mente do homem é arrebatada naquele abismo de luz divina de tal modo que a alma humana, neste estado, inteiramente esquecida de tudo o que é exterior, desconhece a si mesma e transita inteiramente para o seu Deus, e realiza o que está escrito:
"Subiste ao alto, (ó Senhor), cativaste a catividade, recebeste dons dos homens, até dos que não crêem habitar o Senhor Deus".
Salmo 67, 19
Neste estado está plenamente recolhida, profundamente adormecida a turba dos desejos carnais, e faz-se no céu um silêncio como que de meia hora (Apoc. 8,1). E tudo o que pode haver de molesto será absorvido pela glória. Neste estado, quando a alma é alienada de si mesma, quando naquele recôndito do divino arcano é arrebatada, quando é circundada por aquele incêndio do amor divino, intimamente penetrada por todos os lados, inflama-se a si mesma, é inteiramente despojada, reveste-se de um certo afeto divino e, configurada à beleza vista, transita inteiramente a outra glória.
Vê qual a diferença que há entre ferro e ferro, entre ferro frio e ferro ardente, isto é, entre a alma e alma, entre a alma tépida e a alma inflamada pelo divino incêndio. Quando o ferro é arremessado ao fogo, sem dúvida em primeiro lugar é visto tão frio quanto negro. Mas à medida em que permanece no incêndio do fogo, gradativamente depõe sua negritude e, incandescendo-se pouco a pouco, pouco a pouco traz para si a semelhança do fogo, até que finalmente se liquefaz todo e, desfalecendo completamente de si mesmo, transita inteiramente a outra qualidade. Assim também a alma, observada na figura do amor divino e no incêndio do íntimo amor, e circundada por toda a parte pela esquadra dos desejos eternos, primeiro se aquece, depois de incendeia, finalmente se liqüefaz toda e desfalece inteiramente de seu primitivo estado. Queres ouvir os já aquecidos por este fogo, e já ardendo pelas chamas dos desejos interiores?
"Não ardia em nós o nosso coração quando nos falava pelo caminho, e nos abria as Escrituras?"
Lc. 24, 32
Não se aqueciam eles, porventura, pela chama derramada da divindade e como que pela glória vista e, configurados à divina luz como que transitam para uma outra glória, eles que, especulando a glória do Senhor, pela revelação de sua face se transformam na mesma imagem de claridade em claridade como que pelo Espírito do Senhor? Queres ainda ouvir a alma ardendo e liqüefeita pelo fogo da lição divina?
"A minha alma liquefez-se, ao ouvir a sua voz".
Cant. 5, 6
É em si mesmo imediatamente admitido àquele interno segredo do divino arcano, pela grandeza da admiração, pela abundância da alegria. Ou melhor, é completamente reduzido naquilo que fala, quando começa a ouvir aquelas palavras secretas que não é lícito ao homem proferir, e a entender que lhe são manifestadas as coisas incertas e ocultas da sabedoria divina. Neste estado o Espírito tudo investiga, mesmo as profundidades de Deus. Neste estado, quem adere ao Senhor é um espírito com Ele. Neste estado, conforme está escrito, a alma se liqüefaz toda naquele a quem ama, e em si mesmo desfalece toda, de onde que diz:
"Confortai-me com flores, forrai-me de romãs, porque desfaleço de amor".
Cant. 2, 5
Assim como, portanto, nos líquidos ou nas coisas liqüefeitas vemos não haver nada de dureza ou de firmeza, mas que cedem a todas as coisas duras e rígidas, e assim como nos doentes vemos nada ter de vigor próprio ou de virtude nativa, mas tudo o que lhes auxilia depende do arbítrio alheio, assim também aqueles que alcançam este terceiro grau de amor nada mais fazem pela própria vontade; totalmente nada deixam ao seu arbítrio, mas entregam tudo à divina disposição; todo o seu propósito, todo o seu desejo depende do aceno divino, diz respeito ao arbítrio divino. E assim como o primeiro grau fere o afeto, e assim como o segundo ata o pensamento, assim também o terceiro enreda o agir, de tal maneira que não possa inteiramente ocupar-se acerca de nada senão daquilo ao que a divina vontade conduz ou impele.
Quando, portanto, a alma tiver sido cosida deste modo pelo fogo divino, medularmente abrandada, interiormente liqüefeita, o que se lhe acrescentará senão que se proponha qual é a boa, beneplácita e perfeita vontade de Deus, como um molde de consumada virtude à qual se conforme? Assim como os ferreiros moldam pelo arbítrio de sua vontade, segundo qualquer imagem, os metais liquefeito com moldes adequados, e produzem qualquer vaso segundo o modo e o molde para tanto destinado, assim também a alma neste estado facilmente se aplica a todo aceno da divina vontade, ou melhor, por um certo desejo espontâneo acomodam a si mesmo a todo o seu arbítrio, e segundo o modo do beneplácito divino conformam toda a sua vontade. E, assim como o metal liquefeito, qualquer que seja a via que se lhe abre, facilmente se derrama para baixo, assim também a alma neste estado humilha-se a toda obediência e se inclina de boa vontade a toda a ordem, da disposição divina. Propõe-se, neste estado, a uma alma como esta, a forma da vontade de Cristo, de onde que se lhe diz:
"Tende em vós os mesmos sentimentos que houve em Jesus Cristo, o qual, existindo na forma de Deus, não julgou que fosse uma rapina o seu ser igual a Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens e sendo reconhecido por condição humana. Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até à morte, e morte de cruz".
Fil. 2, 5-8
Esta é a forma da humildade de Cristo, à qual deve se conformar quem quer que queira alcançar o grau supremo da caridade consumada. Ninguém possui maior caridade do que aquele que entrega a sua alma pelos seus amigos. Alcançaram a suma culminância da caridade, e já estão colocados no quarto grau da caridade, aqueles que podiam colocar a sua alma pelos amigos e cumprir aquela sentença do Apóstolo:
"Sede imitadores de Deus, como filhos caríssimos, e andai no amor como também Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós a Deus, como oferenda e hóstia de suave odor".
Ef. 5,1-2
No terceiro grau a alma é glorificada em Deus, no quarto humilha-se por causa de Deus. No terceiro grau conforma-se à claridade divina, no quarto grau conforma-se à humildade cristã. E, embora no terceiro grau, de uma certa forma, como que já estava na forma de Deus, todavia no quarto grau começa a esvaziar-se, tomando a forma de servo, e novamente reveste-se dos trajes humanos. No terceiro grau, de certa forma, mortifica-se em Deus, no quarto grau como que ressuscita em Cristo. Quem, portanto, está no quarto grau, verdadeiramente pode dizer:
"Vivo, mas já não vivo eu, é Cristo que vive em mim".
Gal. 2, 20
Começa, portanto, a caminhar em novidade de vida quem é assim, aquele que para si viver é Cristo, e morrer é lucro. Está sadiamente dividido entre duas coisas, dissolver-se e estar com Cristo, o que é muito melhor, e permanecer conosco conduzindo nossas necessidades por causa de nós. A caridade de Cristo o obriga; é, portanto, uma nova criatura quem é assim; as coisas velhas passaram e eis que todas as coisas se fizeram novas. Mortificado assim no terceiro grau, como que ressuscitado dos mortos no quarto grau, já não morre, a morte sobre ele não mais domina, pois ele vive, e vive para Deus. Segundo, de fato, algum modo, a alma neste grau se torna imortal e impassível. Como, de fato, pode ser mortal se não pode morrer? Ou como pode morrer, se não pode ser separada daquele que é a vida? Sabemos bastante bem de quem é esta sentença:
"Eu sou o caminho, a verdade e a vida".
Jo. 14, 6
Como, portanto, pode morrer quem não pode ser separado destas coisas?
"Estou certo que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as virtudes, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem a força, nem a altura, nem a profundidade, nem nenhuma outra criatura poderá nos separar do amor de Deus, que está em Jesus Cristo Nosso Senhor".
Rom. 8, 38-9
Porventura não poderá, segundo algum modo, parecer impassível aquele que não sente os dons que lhe são infligidos, aquele que sempre se alegra com toda injúria, e tudo o que lhe é imposto como pena o considera tudo para a glória, conforme a sentença do Apóstolo:
"De boa vontade me gloriarei nas minhas fraquezas, para que habite em mim o poder de Cristo".
II Cor. 12, 9
Permanece, de fato, como impassível, aquele que se alegra nos sofrimentos e nas tribulações por Cristo:
"Comprazo-me, portanto, nas minhas enfermidades, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por Cristo".
II Cor. 12,10
Quem está neste grau pode dizer com confiança:
"Tudo posso naquele que me conforta",
Fil. 4, 13
por saber saciar-se e ter fome, ter abundância e padecer penúria. Neste grau a caridade tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. Neste grau a caridade é paciente, é benigna, não é ambiciosa, não busca o que é seu, não sabe devolver o mal pelo mal, nem maldição por maldição. Mas, ao contrário, abençoa. Quem sobe a este grau de caridade, sem dúvida neste grau de amor está quem pode dizer com verdade:
"Fiz-me tudo para todos, para salvar a todos".
I Cor. 9, 22
Finalmente, quem é assim deseja tornar-se anátema para Cristo por causa de seus irmãos. O que, portanto, diremos? Não parece, porventura, que este grau de amor transporta a alma do homem para a demência, não lhe permitindo, em sua emulação, possuir modo ou medida? Não parece ser coisa de suma demência rejeitar a verdadeira vida, argüir à suma sabedoria, resistir a toda potência? Não despreza a vida aquele que pelos irmãos deseja ser separado de Cristo, assim como aquele que diz:
"Perdoa-lhes esta culpa, ou risca-me de teu livro que escreveste".
Ex. 32, 31-2
Porventura não argüi a sabedoria, ou a parece querer ensinar, quem diz ao Senhor:
"Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio e o justo seja tratado como o ímpio. Não te pertence isto, tu que julgas toda a terra, nunca farás tal juízo".
Gen. 18, 25
Não tentou resistir à onipotência, não presumiu mitigar e prevalecer sobre a ira do Onipotente o homem que, quando já promulgada a sentença pelo Senhor, quando já ardia o incêndio, se interpôs entre o fogo furioso e os que temiam serem mortos, e à necessidade impôs um limite? Eis a quanta audácia de presunção a consumação da caridade costuma elevar a mente do homem, eis como faz o homem presumir além do homem. É todo mais do que humano quem presume do Senhor, quem age pelo Senhor, quem age no Senhor, quem vive no Senhor. Todo admirável, todo estupendo. Quanto presume do Senhor, tanto se afasta por Deus. Quanto sobe pela presunção, tanto desce pela humilhação. Assim como está acima do homem quem sobe pela confiança, assim também está além do homem aquele que desce pela paciência.
No primeiro grau, conforme foi dito, a alma volta-se para si mesma, no segundo sobe para Deus, no terceiro passa para Deus, no quarto desce debaixo de si mesma.
No primeiro e no segundo eleva-se, no terceiro e no quarto transfigura-se.
No primeiro sobe para si mesmo, no segundo transcende a si mesmo, no terceiro configura-se à claridade de Deus, no quarto configura-se à humildade de Cristo.
Ou no primeiro é reduzida, no segundo é transferida, no terceiro é transfigurada, no quarto ressuscita.

http://www.cristianismo.org.br/sum-rica.htm

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Infelizmente, devido ao alto grau de estupidez, hostilidade e de ignorância de tantos "comentaristas" (e nossa falta de tempo para refutar tantas imbecilidades), os comentários estão temporariamente suspensos.

Contribuições positivas com boas informações via formulário serão benvindas!

Regras para postagem de comentários:
-
1) Comentários com conteúdo e linguagem ofensivos não serão postados.
-
2) Polêmicas desnecessárias, soberba desmedida e extremos de ignorância serão solenemente ignorados.
-
3) Ataque a mensagem, não o mensageiro - utilize argumentos lógicos (observe o item 1 acima).
-
4) Aguarde a moderação quando houver (pode demorar dias ou semanas). Não espere uma resposta imediata.
-
5) Seu comentário pode ser apagado discricionariamente a qualquer momento.
-
6) Lembre-se da Caridade ao postar comentários.
-
7) Grato por sua visita!

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Gadget

Este conteúdo ainda não está disponível por conexões criptografadas.

Pesquisar: