sexta-feira, 9 de julho de 2010

A Verdade e o Erro.


Amor à verdade, ódio ao erro
Julho 22, 2009 escrito por adminSob este título, publicamos aqui a intervenção feita pelo revm. Pe. Pierre Marie, diretor da revista francesa, Le sel de la terre (Convento de La Haye – aux – Bonshommes F. 49.240, Avrillé), por ocasião do congresso comemorativo do 10° aniversário de morte do Pe. Francisco Putti e do 20° da fundação do Si Si No No. http://permanencia.org.br/drupal/node/558


A pouca vontade de condenar o erro

“Est est. Non non” (sim sim, não não). A propósito diz Santo Tomás: quando vemos que uma coisa é, torna-se preciso dizer que é; mas quando não é, devemos dizer que não é1. Os liberais aceitam bem a primeira parte, mas não a segunda. Dizem que é preciso sermos positivos e que nós sempre condenamos.

Esse espírito tornou-se até mesmo a linha oficial da “Igreja conciliar” após a famosa alocução de João XXIII sobre os profetas de desgraças, pronunciadas na abertura do Concílio:

“No exercício quotidiano do nosso ministério pastoral ferem às vezes os nossos ouvidos sugestões de pessoas, sem dúvida, ardentes de zelo mas não dotadas de superabundante sentido de discrição e de medida.

Esses tais não vêem nos tempos modernos senão prevaricação e ruína; dizem que o nosso tempo, em confronto com o passado, vai piorando; comportam-se como se de nenhum modo tivessem aprendido a história que também é mestra da vida, e como se, no tempo dos concílios ecumênicos precedentes, tudo sucedesse na plenitude do triunfo da idéia e da vida cristã e da justa liberdade religiosa.

Parece-nos dever discordar destes profetas de desgraças que anunciam sempre acontecimentos catastróficos, como se estivesse iminente o fim do mundo.

No presente momento histórico, a Providência está nos conduzindo a uma nova ordem de relações humanas que, por obra dos homens e, as mais das vezes, além da sua própria expectativa, se voltam para o cumprimento de desígnios superiores e inesperados; e tudo, mesmo as adversidades humanas, Ela dispõe para o maior bem da Igreja [...]. Ao iniciar-se o Concílio Vaticano II é mais evidente do que nunca que a verdade do Senhor permanece eternamente.

Vemos, de fato, no suceder-se das épocas, que as opiniões dos homens se seguem alternadamente e os erros, logo que aparecem, freqüentemente se desvanecem como neblina diante do sol.

A Igreja sempre se opos a estes erros; repetidas vezes ela até os condenou com a maior severidade. Agora, todavia, a Esposa de Cristo prefere usar do remédio da misericórdia ao da severidade. Ela acredita poder vir ao encontro das necessidades de hoje, mostrando a validade da sua doutrina mais do que renovando as condenações. Não porque faltam doutrinas enganadoras, opiniões e conceitos perigosos contra os quais se deve premunir e que é preciso dissipar; mas eles estão em contraste tão evidente com a reta norma da honestidade e deram frutos tão funestos que parece que, de agora em diante, os próprios homens estão propensos a condená-los”2.

Poder-se-ia ainda citar o fato contado por D. Lefebvre: quando queria condenar o Jamá, movimento carismático de inspiração satânica e erótica, que se desenvolvia naquela época na África, o então cardeal Montini respondeu-lhe: “Mas o senhor quer fazer que a Igreja se assemelhe a uma madrasta!”.

Parece que esta pouco vontade de condenar o erro, que nasce da covardia e da falta de convicções, é típica do liberalismo.

Se a Igreja se arruína hoje em dia, é porque não se quer condenar o erro e o mal.

Frente a uma situação generalizada — e ainda para poder continuar na obra necessária da condenação dos erros — Deus suscitou nesta segunda metade do século vinte galhardos defensores da fé. Neste congresso prestamos homenagem ao Pe. Putti e a sua revista Si Si No No, instrumentos enviados pela Providência para esta batalha.

Propomo-nos aqui mostrar quanto é conforme ao pensamento católico, o combate contra o mal e o erro: vê-lo-emos na Sagrada Escritura, na doutrina de Santo Tomás e nos escritos de outros Santos e de diversos autores.
Por pouco que se ame a Deus...
Comecemos com a Sagrada Escritura. Visto que Deus ama o bem, que é Ele mesmo, odeia tudo o que Lhe é contrário e sobretudo o pecado e o erro.
"Não habite perto de ti o maligno, nem os justos permanecerão diante dos teus olhos. Aborreces todos os que praticam a iniqüidade; o Senhor abomina o homem sanguinário e fraudulento"3

"O Senhor odeia toda a abominação e ela não será amada pelos que O temem"4.

"Tens ódio aos adoradores de coisas vãs e de mentiras"5.

"Amas a justiça e odeias a iniqüidade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo da alegria de preferência a todos os teus companheiros" (citado na Ep. aos Hebreus, com referência a Nosso Senhor Jesus Cristo)6.

"E isto não vale somente para o Antigo Testamento; na Epístola aos Romanos São Paulo usa as seguintes palavras: "Detratores, odiados por Deus"7.

Por conseguinte, deve o cristão imitar a Deus e odiar, por sua vez, o mal e o erro.

"Ó vós que amais o Senhor, odiai o mal!"8.

"Ó Senhor, não odiarei os que Te odeiam? E não me consumirei contra os teus inimigos? Com ódio perfeito eu os odiei e tornaram-se meus inimigos"9.

"Odeio a assembléia dos malvados e não me sentarei com os ímpios"10.

Aí estão, portanto, as imprecações nos Salmos que tanto desagradam aos modernos (que as suprimiram dos textos do breviário).

A esse respeito deram-se diversas explicações. Vejamos por exemplo Filion:

"Trata-se do Antigo Testamento e não se pode exigir uma práxis da caridade tal qual a praticou Nosso Senhor."11.

"Alguns anátemas são condicionados".12

"É uma linguagem poética, linguagem oriental"13

A nosso parecer, duas são as explicações mais plausíveis:

1) Os males invocados para os hebreus pecadores ou para os pagãos que fazem sofrer o povo eleito têm freqüentemente como fim último a conversão do pecador e do pagão: "Enche a tua face de ignomínia, de modo a procurarem o Teu nome, ó Senhor"14.

2) Quanto ao mais, grande parte das maldições contidas nos Salmos e noutros trechos da Sagrada Escritura contém a chave deste pequeno problema.

Por exemplo, uma é formulada como segue: "Julgai-os (e puni-os) ó Deus: pois te provocam a indignação, ó Senhor" 15 e um outro: "Não odiarei os que te odeiam, Senhor, e não me consumirei [de indignação] contra os teus inimigos?". Ao lançar o anátema contra os inimigos, os poetas sagrados consideravam mais a Deus do que a própria pessoa. Os próprios inimigos eram, ao mesmo tempo, ímpios, que ultrajavam abertamente o Senhor, os Seus mandamentos, as Suas instituições, (a teocracia, a monarquia, a ordem social etc) e por causa disto era impossível, para os hebreus, não se indignarem, por pouco que amassem a Deus e as Suas coisas.

Ora, se era impossível para os hebreus não se indignarem, é impossível igualmente para os cristãos não se indignarem com certas impiedades e certos ultrajes patentes contra o Senhor, os Seus mandamentos, as Suas instituições, por pouco que O amem.

Odiar o pecado no irmão é amor e, às vezes, justiça.

Assim, Santo Tomás nos explica os trechos da Sagrada Escritura que nos falam do ódio que Deus experimenta pelo mal e pelos pecadores: "Odeias todos os que praticam a iniqüidade" (Sl 5, 7).

"Deus ama os pecadores enquanto são seres; sob este aspecto, de fato, eles existem e d´Ele recebem o seu ser. Enquanto pecadores, porém, não existem, mas têm uma subtração no ser: e isto não vem de Deus. Portanto, sob este aspecto, Deus os odeia" 16.

"Detratores, odiados por Deus" (Rm 1, 30).

"Nos detratores Deus odeia a culpa, não a natureza" 17.

Do mesmo modo também nós devemos odiar o pecado que está em nosso irmão; mas não a sua natureza que vem de Deus.

"Nos pecadores podem considerar-se duas coisas: a natureza e a culpa. Pela natureza, que provém de Deus, os pecadores são capazes da bem-aventurança, sobre cuja participação se funda a caridade. É por isso que, por sua natureza, eles devem ser amados com amor de caridade. Por outro lado, sua culpa é contrária a Deus e é um obstáculo à bem-aventurança. Por isso, pela culpa que se opõe a Deus, todos os pecadores merecem ódio, mesmo se forem o pai, a mãe e os parentes, como diz o Evangelho. Realmente, nos pecadores devemos odiar o fato de o serem e amar o fato de que são homens capazes da bem-aventurança. Isto quer dizer amá-los verdadeiramente por causa de Deus com amor de caridade" 18.

"Deve-se amar o próximo pelo que ele tem de Deus, isto é, pela natureza e pela graça, mas não se lhe deve amar pelo que tem de si mesmo ou do demônio, ou seja, pelo pecado e pela falta de honestidade. Por isso é lícito odiar no irmão o pecado e tudo aquilo que é uma falta de respeito para com a justiça divina [...] Pelo contrário, o fato de odiar no irmão o pecado e a falta de bem faz parte do amor pelo irmão: com efeito, querer o bem de uma pessoa e odiar o seu mal é a mesma coisa" 19.

"Nos nossos parentes não devemos odiar o fato de que são nossos parentes, mas somente o fato de se afastarem de Deus. nisto não são nossos parentes, mas nossos inimigos" 20.

Às vezes se diz que é preciso odiar o pecado e amar o pecador. Este adágio está certo, contanto que se compreenda o seu verdadeiro sentido; isto não deve fazer-nos esquecer o dever de combater o erro e o mal e, portanto, às vezes também a pessoa que o comente. Eis porque Santo Tomás diz que devemos até mesmo odiar o pecador, enquanto pecador, retomando as palavras de Nosso Senhor que disse: "Se alguém vem a mim e não odeia pai, mãe etc".

"Pela natureza e afinidade que têm conosco, Deus nos manda honrar os progenitores como nos mostra o Êxodo 20, 12. Mas devemos odiá-los enquanto nos são obstáculos à consecução dos bens sobrenaturais" 21.

"Os homens não nos são contrários pelos bens que recebem de Deus: por isso devem ser amados sob este ponto de vista. Pelo contrário, eles nos são contrários, enquanto nutrem inimizade contra nós, o que constitui uma culpa e por este lado são dignos de ódio. Devemos, com efeito, odiar neles o fato de que são nossos inimigos" 22 .

Tratando das paixões, Santo Tomás explica que o ódio ao erro nasce do amor pelo bem 23. E é por este motivo que o ódio pode, às vezes, nascer da caridade:

"O profeta odiava os iníquos, enquanto iníquos, odiando a sua iniqüidade que é o seu mal. E é este o ódio extremo que se diz: "Odiá-lo-ei com um ódio perfeito" 24. "Ora, odiar o mal de alguém e querer o seu bem, é a mesma coisa. O ódio extremo é, portanto, um aspecto da caridade". 25.

Em outro lugar, Santo Tomás nos diz que a correção do pecador nasce, às vezes, da caridade e às vezes, da justiça: se se corrige porque o pecado é o mal do pecador, é um ato de caridade fraterna, superior à libertação duma doença corporal; se, ao contrário, corrige-se o pecador porque o seu pecado prejudica os outros, sobretudo quando prejudica o bem comum, é um ato de justiça 26.

Na mesma questão, Santo Tomás indaga se é lícito corrigir os superiores. Diz ele que, neste caso, não se deve aplicar a coerção, ato de justiça, mas a correção fraterna, que é um ato de caridade, desde que aplicada com os devidos requisitos. Além disso, precisa Santo Tomás quando esta correção deve ser praticada publicamente:

"Note-se, porém, quando houvesse um perigo para a fé, os súditos seriam obrigados a censurar os seus superiores, mesmo publicamente. Por este motivo São Paulo, que era todavia súdito de São Pedro, pelo perigo de escândalo da fé, reprovou-o publicamente. E Santo Agostinho comenta: "O próprio Pedro deu aos superiores o exemplo de não se dedignarem de ser corrigidos pelos súditos, quando se dá o caso de se afastarem do caminho justo" 27.

Contra aqueles que objetam que não se deve repreender um superior ou um prelado, Santo Tomás diz (ibidem ad 3) que não se devem repreender os superiores de modo absoluto (simpliciter), mas é lícito fazê-lo em alguma coisa (quantum ad aliquid) visto que nesta terra ninguém existe sem defeito. E em sentido mais lato, a correção fraterna é uma ajuda que não implica em nada que nós nos tenhamos por melhores. O dever da correção fraterna é mais urgente no caso dum pecado mais grave e, já que o pecado da infidelidade é o mais grave de todos, aí sobretudo devemos procurar ajudar o irmão ou, se for o caso, também o superior.

Como conseqüência de tudo o que temos há pouco expostos, Santo Tomás explica os deveres daqueles que ensinam a verdade e estes valem de modo particular para uma revista como Sì Sì No No:

"Os pregadores da verdade têm um duplo encargo, a saber, exortar na doutrina sagrada e derrotar os seus opositores. Isto se faz de dois modos: vencem-se os hereges com a disputa e vencem-se os perseguidores com a paciência." 28.

Alhures, diz Santo Tomás que a Fé infusa pode ser útil não só para ajudar-nos a aderir à verdade, mas também para repelir e combater o erro, fazendo uma observação importantíssima para os nossos dias:

"A Fé infusa é útil para dois fins: para crer em todas as coisas em que é preciso crer e para repelir aquelas em que não devemos crer. A primeira coisa o homem pode mesmo fazer por própria avaliação, sem a ajuda da Fé infusa; mas a segunda, ou seja, tender a uma coisa e não à outra, pode nascer somente da Fé infusa: visto que o herege não tem tal discernimento, verifica-se que não tem mais Fé infusa. Se acredita em alguma coisa em que deve acreditar, é por via da razão humana. Se a isto fosse inclinado por via da Fé infusa, repeliria tudo o que lhe é contrário" 29

Santo Tomás pregou também com o exemplo

Santo Tomás era um verdadeiro filho de São Domingos e a ele se pode aplicar o encargo que Honório III deu aos Frades Pregadores quando lhes aprovou a Regra pedindo que fossem "pugiles fidei et vera mundi lumina" (combatentes da Fé e verdadeiros luminares do mundo).

Se se toma uma obra como a Summa Theologiae, aí se discerne que a exposição dos erros e a sua refutação (objeções e respostas) ocupam quase mais espaço do que a exposição da verdade (existem realmente 10.000 objeções na Summa). A exposição, em seguida, é sistemática: parece que, para Santo Tomás, a descrição dos erros e a sua refutação é uma espécie de contraste, que realça o esplendor da verdade, segundo a aplicação que se pode dar à seguinte estrofe do "Lauda Sion": Umbram fugat veritas, noctem lux eliminat. Por outro lado, nas suas objeções encontram-se verdadeiras pérolas de precisões e distinções utilíssimas.

Na sua polêmica, Santo Tomás permanece calmíssimo, mas às vezes lhe sucede levantar a voz. Assim na sua famosa disputa com Suger de Brabante (citamos aqui o livro de Chesterton sobre Santo Tomás, no fim do capítulo sobre o "batismo" de Aristóteles):

"Desta vez o Boi manso se lançou à arena como um touro furioso: aquele que nunca se enfurecia contra os que o tinham contradito, explodia então contra aqueles que queriam servir-se dele. O estilo da sua prosa fica transfigurado: é um outro tom de voz e como se fosse um outro homem que falasse.

(...) Neste último combate, Tomás bate-se fortemente. Em sua linguagem não fica nada daquela paciência quase impessoal que tinha nas suas numerosíssimas discussões. "Eis como refutamos o erro. Não nos fundando em artigos de fé mas nas argumentações e afirmações dos mesmos filósofos. Se existe alguém que, orgulhando-se com a sua pretensa sabedoria, deseja refutar o que escrevemos, não o faça às escondidas nem diante de crianças, incapazes de agir com destreza num raciocínio semelhante. Responda abertamente, se tem coragem. Encontrar-me-á diante dele. E não só a minha pessoa, que nada vale, mas um grande número daqueles que sabem que coisa é a verdade. Combateremos os seus erros e daremos remédio à sua ignorância".

O Boi manso, desta vez, muge como se fosse até o limite, mas foi terrível e subjugou toda a turba que o circundava (...) é a única vez que vemos Tomás apaixonado, se excluímos os exemplos de cólera juvenil. Também nesta ocasião teve de brandir um tição ardente contra o inimigo".

Também contra os inimigos da vida religiosa, Santo Tomás entra numa polêmica violentíssima:

"O pacífico Santo Tomás esquece a calma dos seus frios silogismos para lançar violentas apóstrofes contra o seu adversário Guilherme do Santo Amor e seus discípulos: Inimigos de Deus! Ministros do demônio! Membros do anticristo! Ignorantes! Perversos! Réprobos!"

Nem mesmo o ilustre Louis Veuillot jamais chegou a tanto!

Concluamos o comentário sobre o espírito polêmico de Santo Tomás com a seguinte frase tirada do opúsculo Contra Pestiferam Doctrinam Retrahentem Homines a Religionis Ingressu: "De nenhum modo se manifesta melhor a verdade e se refuta o erro do que resistindo aos opositores".

Exemplos e escritos de outros santos

― Santo Agostinho.
"É preciso amar os homens de modo a não amar os seus erros"; (citado por S. Tomás em 4 Sent. D. 15, q. 2, a. 6, q. 2).

― São Jerônimo.
Na encíclica "Spiritus Paraclitus" Bento XV escreve: "Um zelo tão ardente em salvaguardar a integridade da fé o arrastava a polêmicas muito agitadas contra os filhos rebeldes da Igreja os quais ele considerava como inimigos pessoais: "Bastar-me-á responder que jamais poupei os hereges e empreguei todo o meu zelo para fazer dos inimigos da Igreja os meus inimigos pessoais" (Dial. c. Pelag. Prolog. 2) e numa carta a Rufino escreve: "Aqui está um ponto sobre o qual não posso estar em acordo contigo: poupar os hereges e não me mostrar católico" (Contra Ruf. III, 43). Contudo, entristecido pela defecção deles, suplicava-lhes que voltassem à sua Mãe dolorosa, fonte única de salvação. (Miq. 1, 20 e ss) e em favor daqueles que tinham saído da Igreja e abandonado a doutrina do Espírito Santo para seguirem o próprio critério, rogava que retornassem a Deus" 30.

― São Vicente de Paulo.
"Ai de mim! que ouço, meus senhores? Há tanto perigo para os pregadores que se firmam em belos conceitos, nas conjecturas de seus pensamentos e no uso das palavras da moda sem considerar quais são as certas. Ah! Temo por esses! E o que mais motivo me dá de temer é a Sagrada Escritura. Vós conheceis todas as suas palavras; eu não, mas conheço o seu sentido, e eis o que acontece: um profeta roga pragas ao pastor que, do lugar alto, vê o lobo causar estragos no rebanho e, embora veja o inimigo, não grita com todas as forças: "Salvai-vos, salvai-vos". Desgraçado dele se não grita quanto pode: "Salvai-vos". Mas assim procedem aqueles pregadores que não consideram, antes de tudo, o proveito do seu auditório; mesmo quando avistam o perigo mortal, não dizem nenhuma palavra. Contam as árias da sua verbosidade em vez de soar a trombeta e vociferar: "Estamos perdidos! Eis aí! Eis o inimigo! Salvemo-nos! Salvemo-nos!"31

― São Luís Maria Grignon de Montfort.
"É principalmente a essas últimas e cruéis perseguições do demônio, que se multiplicarão todos os dias até ao reino do anticristo, que se refere àquela primeira e célebre predição e maldição que Deus lançou contra a serpente no paraíso terrestre. Vem a propósito explicá-la aqui, para glória da Santíssima Virgem, salvação de seus filhos e confusão do demônio: "Inimicitias ponam inter te et mulierem, et semen tuum et semen illius; ipsa conteret caput tuum, et tu insidiaberis calcaneo ejus" (Gn 3, 15). "Porei inimizades entre ti e a mulher, e entre a tua posteridade e a posteridade dela. Ela te pisará a cabeça, e tu armarás traições ao teu calcanhar".

Uma única inimizade Deus promoveu e estabeleceu, inimizade irreconciliável, que não só há de durar, mas aumentar até o fim: a inimizade entre Maria, sua digna Mãe, e o demônio; entre os filhos e servos da Santíssima Virgem e os filhos e sequazes de Lúcifer; de modo que Maria é a mais terrível inimiga que Deus armou contra o demônio. Ele lhe deu até, desde o paraíso, tanto ódio a esse amaldiçoado inimigo de Deus, tanta clarividência para descobrir a malícia dessa velha serpente, tanta força para vencer, esmagar e aniquilar esse ímpio orgulhoso, que o temor que Maria inspira ao demônio é maior que o que lhe inspiram todos os anjos e homens e, em certo sentido, o próprio Deus...

Deus não pôs somente inimizade, mas inimizades, e não somente entre Maria e o demônio, mas também entre a posteridade da Santíssima Virgem e a posteridade de demônio. Quer dizer, Deus estabeleceu inimizades, antipatias e ódios secretos entre os verdadeiros filhos e servos da Santíssima Virgem e os filhos e escravos do demônio. Não há entre eles a menor sombra de amor, nem correspondência íntima existe entre uns e outros. Os filhos de Belial, os escravos de Satã, os amigos do mundo (pois é a mesma coisa) sempre perseguiram até hoje e perseguirão no futuro aqueles que pertencem à Santíssima Virgem, como outrora Caim perseguiu seu irmão Abel, e Esaú, seu irmão Jacó, figurando os réprobos e os predestinados. Mas a humilde Maria será sempre vitoriosa na luta contra esse orgulhoso, e tão grande será a vitória final que ela chegará ao ponto de esmagar-lhe a cabeça, sede de todo orgulho. Ela descobrirá sempre sua malícia de serpente, desvendará suas tramas infernais, desfará seus conselhos diabólicos, e até ao fim dos tempos garantirá seus fiéis servidores contra as garras de tão cruel inimigo.

Mas o poder de Maria sobre todos os demônios há de patentear-se com mais intensidade nos últimos tempos, quando Satanás começar a armas insídias ao seu calcanhar, isto é, aos seus humildes servos, aos seus pobres filhos, os quais ela suscitará para combater o príncipe das trevas. Eles serão pequenos e pobres aos olhos do mundo, e rebaixados diante de todos como o calcanhar, calcados e perseguidos como o calcanhar em comparação com os outros membros do corpo. Mas, em troca, eles serão ricos em graças de Deus, graças que Maria lhes distribuirá abundantemente. Serão grandes e notáveis em santidade diante de Deus, superiores a toda criatura por seu zelo ativo, e tão fortemente amparados pelo poder divino, que, com a humildade de seu calcanhar e em união com Maria, esmagarão a cabeça do demônio e promoverão o triunfo de Jesus Cristo...
Mas quem serão esses servidores, esses escravos e filhos de Maria?

Serão ministros do Senhor, ardendo em chamas abrasadoras, que lançarão por toda parte o fogo do divino amor.

Serão "sicut sagittae in manu potentis" (Sl 126, 4) -- flechas agudas nas mãos de Maria todo-poderosa, pronta a traspassar seus inimigos...

Serão nuvens trovejantes esvoaçando pelo ar ao menor sopro do Espírito Santo, que, sem apegar-se a coisa alguma nem admirar-se de nada, nem preocupar-se, derramarão a chuva da palavra de Deus e da vida eterna. Trovejarão contra o pecado, e lançarão brados contra o mundo, fustigarão o demônio e seus asseclas, e, para a vida ou para a morte, traspassarão lado a lado, com a espada de dois gumes da palavra de Deus (cf. Ef 6, 17), todos aqueles a quem forem enviados da parte do Altíssimo" 32

E ainda: "É verdade, grande Deus, que o demônio há de armar, como predissestes, grandes ciladas ao calcanhar dessa Mulher misteriosa, isto é, à pequena Companhia de seus filhos que hão de surgir perto do fim do mundo; é verdade que há de haver grandes inimizades entre essa bendita posteridade de Maria Santíssima e a raça maldita de satanás: mas é essa uma inimizade toda divina, a única de que sejais autor: Inimicitias ponam. Porém, esses combates e essas perseguições dos filhos da raça de Belial contra a raça de vossa Mãe Santíssima só servirão para melhor fazer resplandecer o poder de vossa graça, a coragem da virtude de vossos servos, e a autoridade de vossa Mãe, pois que lhes destes, desde o começo do mundo, a missão de esmagar esse soberbo pela humildade de seu coração: Ipsa conteret caput tuum. 33

Escritos de outros autores católicos

― Jacques Benigne Bossuet.
"E que dizer da condescendência? Porventura não se lê nos Evangelhos que é preciso acomodar-se às fraquezas dos outros? Sim, realmente: não tenhais dúvida a respeito, caros fiéis! Mas digamos qual é o verdadeiro espírito da condescendência cristã. Deve estar na caridade, não na verdade; quero dizer que devemos desculpar com a caridade, mas não relaxar a verdade. É preciso suportar a doença, mas não escusá-la nem nela se comprazer. É preciso imitar São Cipriano, do qual Santo Agostinho disse: "Considerando os pecadores, ele os tolerava na Igreja por paciência e caridade". Eis aí a condescendência cristã. Mas os repreendia com todas as forças da verdade. Eis o vigor apostólico" 34.

― Cardeal Pie.
"Deve-se preferir seguramente a calma exposição dos dogmas à discussão: os nossos ilustres predecessores disseram-no com freqüência, e seria muito fácil fazer apenas uma coleção dos seus escritos em que o dizem. Porém as exigências do tempo colocavam-nos também a eles em meio a polêmicas, e quando se lêem as suas obras, se compreende que a polêmica ocupa talvez mesmo a maior parte delas. Mas não devemos lamentar-nos disto! Foi para que se vissem brotar daqueles golpes as mais brilhantes centelhas do seu gênio, os traços mais luminosos do seu espírito. Não sei se a tradição católica seria irreparavelmente prejudicada mais com a perda dos livros de apologética e dos tratados de polêmica do que com os de catequese e com as homilias pastorais. Dizem, eu sei, que a contradição pode dar demasiado peso ao agressor, que lhe pode conciliar o favor popular, enquanto que o silêncio e o desprezo o deixam afundar na obscuridade e no silêncio. Respondo logo que a Igreja, sem supervalorizar ou engrandecer propositalmente nenhum adversário, tem o costume de não subestimar nenhum e, portanto, se qualquer um se sentir honrado, a culpa não será da Igreja. Acrescentemos que a teoria do silêncio é um pouco cômoda demais para não ser suspeita e verificamos que, relativamente ao passado não pode contar a seu favor nem o sucesso nem a autoridade nem o exemplo. Uma vez que se insiste tanto na dificuldade de observar a caridade nas discussões religiosas, respondo que os grandes Doutores nos dão exemplos muito claros e regras bem precisas a este propósito. Em textos que todos conhecemos, aconselham o comedimento, a moderação, a indulgência para com os próprios inimigos de Deus e da verdade, o que não os impede de usar, sem contradizer estes princípios, a arma da indignação, às vezes também do ridículo, com uma vivacidade e liberdade de linguagem que incomodariam os nossos ouvidos delicados. A caridade, com efeito, encerra antes de tudo o amor de Deus e da verdade. Não teme, por isso, desembainhar a espada ao tratar-se dos interesses da causa sagrada, sabendo que mais de um inimigo pode ser refutado e curado somente com golpes ousados e talhos salutares" 35

― O Rev. Pe. F. Faber, do Oratório.
"Amemos as almas por amor de Jesus e não Jesus por amor das almas. Ao invés, há ocasiões nas quais passamos deste instinto de amor divino para um outro, do amor às almas ao ódio da heresia. Este último sentimento ofende o mundo de modo todo particular; pois é tão contrário ao espírito do mundo que, mesmo no coração do bom fiel, o pouco de mundano que ele ainda conserva se levanta contra o ódio da heresia. É um fermento que irrita mesmo os caracteres mais doces e que corrompe mais de uma obra da graça. Muitos convertidos, com os quais Deus queria fazer grandes coisas, caminham para o túmulo como um exemplo de aborto espiritual, visto que não quiseram odiar a heresia. O coração que hesita em odiar a heresia, ainda não se converteu. Nele Deus ainda não reina com uma soberania indivisa, e os caminhos que levam à mais elevada santidade estão fechados àquele coração. Conforme o parecer do mundo e dos cristãos mundanos, o ódio à heresia é exagero, aspereza, indiscrição, está fora de moda, absurdo, carola, estreito, estúpido, imoral. Que podemos dizer em sua defesa? Nada que esses possam compreender! O melhor que podemos fazer, portanto, é calar-nos. Se entendemos a Deus e Ele nos compreende, não é assim tão difícil percorrer a estrada, suspeitos, incompreendidos e até odiados. A opinião adocicada de certa gente boa, sem discernimento espiritual, adota mesmo as vistas do mundo e nos condena, porque a bondade tímida tem uma segurança e uma aparência de doçura que estão longe de Deus e os seus instintos de caridade inclinam-se de preferência para aqueles que são menos corajosos por Deus, enquanto que a sua timidez é bastante ousada para censurar sem piedade. Não se pode, se se está na plena posse das próprias faculdades, pôr-se a demonstrar ao mundo, a este inimigo de Deus, que um ódio completo e católico da heresia é próprio de um espírito reto. Poderíamos talvez obrigar um cego a escolher entre diversas cores? O amor divino põe-nos num outro nível de vida, de motivos, de princípios que não apenas não são deste mundo, mas inimigos jurados dele" 36.

― Ernest Hello
"Todo aquele que ama a verdade odeia o erro. Falar assim parece tanto uma ingenuidade como um paradoxo. Mas o ódio ao erro é a pedra de toque para reconhecer se uma pessoa ama a verdade. Se alguém não ama a verdade, pode -- até certo ponto -- dizer que a ama e talvez até fazer-se acreditar. Mas fique tranqüilo que cedo ou tarde dará sinais de não odiar o erro e com isto se entenderá que não ama a verdade.

Quando um homem que costumava amar a verdade não mais a ama, não declara logo a sua defecção: começa a odiar sempre menos o erro. Com isto se trai.
As complacências secretas fazem parte de uma das histórias menos conhecidas pelo mundo.

Quando um homem perde o amor pela doutrina que professava até ontem, seja boa ou má, conserva o símbolo da doutrina. Mas sente morrer em si a aversão a todas as doutrinas contrárias" 37.

"Pelo mesmo fato de ser a caridade uma coisa sublime, a realidade por excelência e a medula dos ossos da criatura, por isso também o abuso da caridade e o mau uso do seu nome devem ser, especialmente e de modo singular, perigosos. "Optimi corruptio pessima". Quanto mais belo for o nome, tanto mais é terrível. Portanto, se se revolta contra a verdade armado com o poder que recebeu para a vida, que serviços não prestará à morte?

Ora, volta-se contra a luz o nome de caridade, todas as vezes em que, em lugar de atacar o erro, se chega a um acordo com este, sob o pretexto de poupar o homem. Volta-se contra a luz o nome da caridade, todas as vezes em que se serve deste para ceder na execração do mal. Habitualmente, o homem gosta de ceder. A fraqueza é uma coisa agradável à natureza decaída; além disso, a falta de horror ao erro, ao mal, ao inferno, ao demônio, esta falta parece quase uma desculpa pelo mal em nós mesmos, e aí se prepara um pretexto para escusar aquilo que acariciamos em nossa alma. Em geral, a atenuação se localiza e o homem se amansa no confronto da debilidade que o quer invadir, quando começa a chama "caridade" à acomodação universal com todas as fraquezas, ainda que distantes.

Aqui está um dito de Davi que nunca se escuta: "Qui diligitis Dominum, odite malum". "Vós que amais o Senhor, odiai o mal".

Quando o mal entrou no mundo, nasceu alguma coisa de irreconciliável. A caridade, o amor para com Deus, supõe, implica, ordena o ódio contra os inimigos de Deus. Mesmo a nível humano, a amizade não se mede pela vivacidade da ternura, mas antes pela comiseração no sofrimento. Se o amigo está contente, pode-se mesmo faltar à ternura por um momento e permanecem amigos. Se o amigo sofre na sua pessoa ou na sua honra, devido a um acidente, a uma ofensa qualquer e se se ressente apenas fracamente com o seu mal, já não se é mais amigo.

O grande Josafá, cujas dimensões espantam, foi reprovado pelo Senhor; tinha-se aliado com o rei de Israel. Aliar-se com o inimigo é o crime escondido, o delito profundo. Existem crimes evidentes, crimes aparentes. Mas a intimidade que possui tudo, tem um crime contra si, que é aliar-se com o inimigo. A medida do amor consiste em execrar o inimigo comum. O rei de Israel era inimigo de Deus mas Josafá tinha esquecido do que Deus execrava.

A aliança, a aproximação, a vizinhança espiritual do inimigo são crimes contra a intimidade! Ora, esta é glória quando se trata de Deus e é mais íntimo de Deus aquele que tem a maior reverência à Sua majestade. Eis porque o pecado contra o Santo Nome faz os santos estremecerem de horror! Aqueles que sentiram o sopro da glória não se podem reconciliar com os crimes contra a glória. A caridade os impele; eis porque são intratáveis, uma vez que ela os obriga, como uma nobreza superior, a não consentir nas obras do ódio. Quem pactua com o erro não pode conhecer o amor na sua plenitude nem na sua força soberana.

Depois duma longa guerra, quando não se pode mais com ela, quando o cansaço pode causar a vontade de acalmar-se, os reis foram vistos, fatigados pelos combates, cederem esta ou aquela fortaleza. São concessões que fazem acabar a guerra sem disparar os canhões. Mas as verdades não se tratam como fortalezas. Quando se quer fazer a paz, em espírito e verdade, deseja-se a conversão e não a acomodação. A justiça é inteiramente aquilo que é.

Nas relações entre os homens, quando uma aproximação parece realizar-se sem que o culpado tenha mudado em coisa nenhuma, quando se crê que um aperto de mão possa substituir o arrependimento e o sentimento de culpa, esta aproximação falaz acaba por revelar as dificuldades que traz consigo. É uma segunda separação, muito mais profunda que a precedente. E acontece o mesmo com a doutrina. A paz aparente, que a complacência compra e paga, é contrária tanto à caridade como à justiça, porque cava um abismo onde antes havia um pequeno fosso. A caridade requer sempre a luz e a luz evita também as sombras do compromisso. Toda a beleza é uma coisa inteira. A paz é talvez, no final das contas, a vitória mais segura sobre si mesma.

Que se diria de um médico que, por caridade, poupasse a doença dum seu cliente? O médico poderia dizer ao doente: "Depois de tudo, senhor, é preciso ter caridade. O câncer que o corrói interiormente talvez o faça de boa fé. Vamos! Seja mais gentil; não se deve ser tão duro. Ponha-se no lugar do câncer; nele talvez está um animal que tem necessidade de consumir-lhe a carne e o sangue e o senhor terá a coragem de negar-lhe aquilo que lhe aproveita? O pobrezinho poderia morrer de fome! Por outro lado, sou inclinado a crer que o câncer esteja em boa fé e o aconselho a ter um comportamento mais caridoso".

É o crime do século dezoito: não odiar o mal e fazer-lhe propostas. Mas há uma única proposta para fazer ao mal: a de sumir. Qualquer compromisso com ele não é uma vitória parcial, mas a vitória total do mal, porque ele não quer expulsar o bem, mas coabitar com ele. Um instinto secreto adverte-o de que, cedendo alguma coisa, cede-se tudo. E, desde o momento em que não é mais odiado, sente-se adorado.
A paz, como se disse, é a vitória segura de si mesma. É uma eliminação. Uma eliminação tão completa que não se tem mais de lutar". 38.

― Pe. V. A. Berto.
"Começarei pelo ponto que mais lhe desagradou em meu artigo: a rudeza do tom, segundo o senhor, pouco caridoso. Sobre esse ponto não concedo nada. Se a caridade é o que o senhor diz, é preciso rasgar páginas inteiras do Evangelho, desde a palha e o pó dos “hipócritas”, até a chave da ciência que os “duces cæci et stulti” guardam em seus bolsos, para acabar com as serpentes, “genimina viperarum”. Ou será que o senhor usa dois pesos e duas medidas? Era caridade para São Jerônimo tratar Santo Agostinho de “abóbora”, “cucurbitarius”, Rufino de “asno de duas patas”, “asinus bipes”, enquanto que seria falta de caridade de minha parte alegrar meus leitores evocando o “bípede implume” de Platão, expressão que aplico tanto a mim quanto a meus adversários, já que sou homem como eles, ao passo que São Jerônimo não aplica a si, com certeza, “o asno de duas patas” que ele lançou a Rufino. A menos que o senhor prefira dizer que São Jerônimo também faltou à caridade, o que o faria contra toda a Igreja, e contra a evidência, pois a Igreja e a evidência proclamam que esse vulcão de invectivas ardia de caridade.

Ele e não eu? Infelizmente é a pura verdade, mas para dizê-lo, é preciso escrutar minhas intenções, o que também não é evangélico, e ir além do meu comportamento literário, já que minhas expressões não são mais fortes do que “sepulcros caiados” que está no Evangelho, e que “borrou-se nas calças” que está na carta para Eustochium.

O senhor se escandaliza por encontrar a invectiva numa publicação que se intitula católica. É, simplesmente, porque a invectiva é católica, como prova o Evangelho; como provam não só os onze volumes de São Jerônimo em Migne como cem outros tomos de Patrologia. Ela não é, por si mesma, em todos os casos contrária à caridade. A caridade transcende a invectiva e a mansidão das palavras, ela “impera” sobre uma e outra, conforme as circunstâncias. Verdadeiramente, “o Evangelho só fala de caridade?” Muito bem, estou de acordo; no entanto ele contém invectivas, portanto as invectivas não são, por si mesmas, contrárias à caridade do Evangelho. E quanto a uma caridade que não é a do Evangelho, pouco me importa faltar-lhe.

Mantenho, pois, absolutamente, meu direito à invectiva; repilo absolutamente a censura de falta de caridade fundada unicamente sobre o uso da invectiva; digo que essa censura procede de um erro sobre a própria natureza da caridade. Pode-se, é verdade, faltar à caridade na invectiva, e eu posso ter tido essa infelicidade; mas pode-se também faltar à caridade na mansidão, e condenar a invectiva em nome da caridade não está de acordo com a noção de caridade que o Evangelho do dulcíssimo e terrível Senhor Jesus no dá e da qual nos mostra a prática.

Veuillot é cheio de invectivas e se pode dizer que São Pio X canonizou não a sua pessoa mas o seu modo de ser. O Breve de 1913 é minha carta magna e a ela me atenho.

Mas Veuillot era leigo! Sim e daí? Interdizer ao padre, porque é padre, a invectiva é aceitar uma imagem convencional e artificial do padre, que tem sua origem em outro lugar que não é o Evangelho nem a Igreja, sendo a imagem mundana do padre, ou melhor, sua caricatura, benevolente, untuosa, efeminada. Não quero me parecer com essa caricatura degradante; quero ter ao alcance de minha mão o chicote de que se serviu o Soberano Padre, único modelo verdadeiro dos padres ministeriais. Posso ter usado pouco caridosamente esse chicote de caridade, pouco evangelicamente esse chicote evangélico, pouco sacerdotalmente esse chicote sacerdotal; mas ele é o chicote de caridade, é evangélico, é sacerdotal, e eu tenho duplamente como padre, o dever de conservá-lo em uso, porque duas vezes, como padre, tenho o dever de revestir-me com a semelhança de Jesus.

É verdade que são padres, religiosos os que encontro, em meu caminho. Mas se eles fazem uma obra nefasta, a caridade me ordena deixá-los realizá-la porque são padres ou religiosos? Ao contrário, me ordena impedir que o seu caráter religioso proteja seus empreendimentos. Ao mesmo tempo, me ordena, é verdade, respeitar neles aquilo que permanece respeitável, suas vidas privadas, das quais não trato nunca, suas intenções, que não presumo nunca perversas, a pureza de sua fé que não me arrogo nunca o direito de contestar.

Quanto ao mais, a caridade que me obriga a amá-los como meu próximo, me impõe como um dever odiá-los “perfecto odio” como publicistas, se pregam uma teologia inexata, se têm uma pastoral funesta, se têm um estilo ridículo, se seu juízo é falso, se têm o gosto sofisticado, e raciocinam contra o bom senso, se confundem o unívoco e o análogo, a geometria e a finura, o essencial e o existencial, sobretudo se, enfim, conseguiram uma audiência bastante grande para semear a desordem em muitos espíritos, para atrapalhar uma grande quantidade de cabeças fracas. É lastimável, é doloroso que padres e religiosos que se metem a escrever dêem o espetáculo de uma ou de outra dessas deformidades ou de várias ao mesmo tempo; mas se o dão, a caridade impõe uma indignação tanto maior quanto maior a indecência da parte deles, e tanto mais saudável quanto mais urgente tirar-lhes o crédito." 39

― Revmo Pe. Jacques Michel
"E a polêmica? Não se quer mais. Sabe-se que, há uns decênios, se pretende bani-la das nossas discussões, das nossas conversas, da imprensa católica, das pregações e do ensino. É uma forma mais espiritual, mais elaborada de "pacifismo".

Não mais polêmica, portanto. E pobre daquele que (ao dizê-lo) pensa diversamente.

Dizem: "Podeis exprimir um parecer qualquer, mas nada de polêmica!" Repetem: "Podeis externar um parecer diverso, mas sem polêmica!" Tornam a dizer: "Podeis procurar apresentar um outro ponto de vista, mas não com a polêmica!"

Que coisa é, então, a polêmica?

Ninguém sabe dizê-lo. Talvez ninguém o saiba. O que se sabe, o que querem dizer é que não se deve fazer polêmica. E é muito cômodo, assim se nos permite, como já se permite há bastante tempo, matar sem receber golpes, sufocar as almas no erro sem as fazer gritar. Foi-lhes dito: "Nada de polêmica... defendei-vos, mas não golpeeis, não griteis, não vos movais e, sobretudo, nada de armas: nada de polêmica."

E pensar que, depois da verdade, a polêmica é a coisa mais bela do mundo. É uma luta espiritual contra o erro e a mentira, somente com as armas do espírito no dom inteiro de si mesmo... Combater pela verdade com toda a alma.

Jesus se encarnou para inaugurar a polêmica cristã contra o mundo e o demônio.

São Paulo, patrono dos polemistas... "argúi, obsecra, increpa"... "refuta, suplica, admoesta", "combati o bom combate".

"Mas a polêmica divide as almas". Não, senhor! Pois não é o combate que divide, mas o erro. E se não estivessem já divididos, não se combateria. E quando se está dividido, nada resta senão combater... ou fingir estar de acordo... salvo se se golpeia na primeira ocasião... sem polêmica.

Enfim, a polêmica é o único modo para compreender onde está a divisão, entre quem e por que motivo existe. A luta aberta e leal vale muito mais do que a subversão. São tantos, em nossos tempos, os que gritam pela paz e contra a guerra e que não cessaram de sublevar uns contra os outros, todos os seres humanos da terra... Não querem a guerra, mas fazem revolução. Não querem que se combata pelas idéias, mas querem suprimir tudo e todos os que (tão timidamente, é verdade) se opõem à sua ideologia: abatamos tudo, mas nada de guerra!

E as "boas almas", às quais se ensinou a respeitar as formas, repetem sempre "basta com a guerra" até que não morram eles e os seus filhos. "Mas nós, os cristãos, não temos inimigos."

Mas então, por que Jesus nos exige que amemos os inimigos? E por que nos predisse que o mundo inteiro se desencadearia contra nós? Mas devemos convencer o inimigo com a doçura e a paciência...

É verdade. E é a tal ponto verdade que o próprio Jesus chamou bem-aventurados os mansos, dizendo que haveriam de possuir a terra. Mas de que doçura falava Ele? Logo depois disse: "Vós sois o sal da terra." 40, da terra que é prometida aos mansos. Prova que sal e doçura vão muito bem juntos e que a mansidão cristã nada perde com um pouco de sal...

Quando expulsa os vendilhões do Templo e os fariseus, Jesus usa ainda de doçura, mas aquela doçura salgada que conserva os bons, tratando os outros como se deve. Na Sagrada Escritura, lê-se de Moisés que não houve um homem manso como ele: "Erat Moyses vir mitissimus super omnes homines qui morabantur in terra" 41. É para considerar atentamente... talvez não seja tão adocicado o conceito que a Vulgata exprimiu com a palavra "mansidão".

Existe uma mansidão convincente e forte, que está muito de acordo com a polêmica. Pode-se combater muito bem um inimigo falso e implacável com as armas de uma impiedosa mansidão. Tudo consiste em não atribuir às palavras mais (ou menos) do que elas querem dizer" 42.

― Louis Veuillot
"O liberalismo é uma doença que se manifesta com uma falta de horror pela heresia, com uma complacência para com o erro, com um certo gosto pelas armadilhas que ele arma, e, mesmo, com uma certa solicitude em deixar-se prender" 43.

― Humbert Clérissac, O. P.
"Nos períodos de liberalismo, é a plenitude de espírito que falta. Esta falta de integridade do espírito [...] explica-se pelo lado psicológico com duas características: os liberais são receptivos e febricitantes. São receptivos no sentido que aceitam com demasiada prontidão o espírito dos seus contemporâneos; e febricitantes porque, com medo de ofender os diversos espíritos, estão numa perpétua inquietude apologética. Parecem sofrer pessoalmente com as dúvidas que combatem: não têm suficiente confiança na verdade; querem demonstrar demais, justificar demais, adaptar demais ou até desculpar demais. Este nervosismo e esta febre não são uma homenagem à verdade: indicam um comércio com esta que é, afinal, muito imperfeito; diminuem a fé na missão recebida e debilitam a Graça" 44.

― Dom Félix Sardá y Salvany
"Mas o liberalismo não põe a questão neste terreno [da caridade e da polêmica], sabendo bem que, no tocante aos princípios, ele levaria irreparavelmente a pior. Em vez disso, acusam freqüentemente os católicos de pouca caridade no modo da sua propaganda e é este o ponto no qual, como dissemos, certos católicos ficam implicados, bons no fundo, mas tingidos com esta fuligem liberal [...]

Que se consultem as coleções dos escritores eclesiásticos [...] como os Apóstolos trataram os primeiros heresiarcas e como continuaram a tratá-los os Santos Padres e como os tratam os modernos autores de controvérsias e a própria Igreja na linguagem canônica. Não há, portanto, falta de caridade em chamar de réu a quem o é; malvados, os autores, fautores e sequazes do mal, e de iniqüidade, maldade, perversidade, o complexo de todos os seus atos, palavras e escritos. O lobo sempre foi chamado simplesmente lobo e jamais passou pela cabeça de alguém fazer mal ao rebanho e ao pastor chamando-lhe assim.

Se a propaganda do bem e a necessidade de destruir o mal exigem o uso de frases duras contra os erros e contra quem se faz corifeu deles, estas atitudes se tomam sem faltar à caridade 45.

Mas, dirá alguém: Assim se faça com as doutrinas consideradas abstratamente. Mas é conveniente, no combate ao erro, por despropositado que seja, desafogar-se e enfurecer-se contra quem o defende?

Respondemos que muitíssimas vezes convém fazer assim e não só convém mas até se torna indispensável e meritório diante de Deus e da sociedade" 46.

Conclusão

Temos consciência de nos ter alongado demais e todavia estamos bem longe de ter exaurido o assunto. Por exemplo, seria interessante interrogar a história para dar-se conta da importância de uma luta sem tréguas ao erro e ao mal. Ai de mim, quantos exemplos históricos de compromissos com o mal deram frutos tão amargos! Pensamos nos semi-arianos que prolongaram o arianismo nos séculos, nos semipelagianos que envenenaram a vida espiritual, em Clemente XIV que, com a supressão dos jesuítas, deixou caminho livre à revolução. Ou então se poderia ainda interrogar sobre outros exemplos, suscetíveis de explicações diversas: a concordata de Pio VII não salvou a Revolução Francesa, no dizer do próprio Napoleão? O "ralliement" de Leão XIII não desarmou a resistência católica na França? E que pensar destes dois atos tão cheios de conseqüência: a condenação da "Action française" e os "Arreglos" mexicanos, que levaram ao massacre dos Cristeros? Não são todos a conseqüência duma vontade de compromisso pouco prudente?

Cada um destes fatos históricos mereceria um estudo histórico aprofundado e sem dúvida qualquer outra coisa seria mais fácil do que dar um julgamento definitivo. Contudo, não obstante isto, pode-se, sem temor de engano, inferir um princípio geral: todo compromisso com o erro conduz à ruína. Se é fruto da imprudência, mas a alma permanece reta, causará inquietações, perda de forças, prejuízos que serão avisos de Deus para que se volte à tranqüila afirmação da verdade.

O compromisso com o erro é mesmo um pecado, sempre seguido de uma justa lição47. A verdade nunca pode comprometer-se com o erro: Cristo e Belial nada têm em comum. Est, est, non, non: que o vosso sim seja sim e o vosso não, um não. O papel dos defensores da verdade consiste sempre em manter irredutível este contraste. Por este motivo se vêem os Santos incansáveis em perseguir o erro nos seus mais recônditos entricheiramentos: pense-se em São Domingos, que percorre a terra dos cátaros, que se intala em Fanjeaux, a capital da heresia e aí funda um exército de pugiles fidei. E aqui se poderia passar todos os Santos em resenha!

A verdade, para um cristão, não é uma abstração: é uma Pessoa. Ou se está com o Senhor ou se é contra Ele. O erro, para um cristão, não é uma bagatela: é um insulto Àquele que disse: Ego sum Veritas. É também uma ameaça para a fé, o bem mais importante que um homem possa ter48.

Peçamos à Mãe Santíssima do Senhor que nos ajude na luta pela verdade:

O porta lucis fulgida
O Mater Verbi inclita
Nos, tuos fideles servos
Verbi quaerentes semitas.
Defende a mentis hostibus.
Ab umbra erroris libera
Tuaque luce dirige
Ad veritatis gaudia. Amen.

Ó fúlgida porta de luz.
Ó Mãe ínclita do Verbo.
A nós, teus fiéis servos.
Que buscamos os caminhos do Verbo.
Defendei dos inimigos da alma,
Livrai-nos da sombra do erro
E dirigi-nos com Vossa luz,
Às alegrias da verdade. Amém.

Militando debaixo da guia de Maria, possamos apressar a vitória de seu Coração Imaculado e, após o triunfo completo sobre o modernismo e todas as heresias contemporâneas, cantar:

"Gaude, Virgo Maria, cunctas haereses sola interemisti in universo mundo" ("Alegrai-vos, Virgem Maria! Somente Vós destruístes todas as heresias do mundo inteiro").


1. Comentário sobre São Mateus 5, 37.
2. Aloc. de abertura do Concílio.
3. Sl 5, 6-7
4. Eccl 15, 13.
5. Sl 30, 7.
6. Sl 44, 8.
7. Ad Romanos 1, 30.
8. Sl 96, 10.
9. Sl 138, 21-22.
10. Sl 25, 5.
11. [N. do A.]Está bem, mas é, apesar disso, Palavra de Deus e por isso poderá ainda ser menos perfeita, mas nunca será má.
12. [N. do A.]Certamente, mas nem todos o são.
13. [N. do A.]Pode dar-se, mas é também um aspecto universal nas Sagradas Escrituras. O estilo poderá atenuar certas expressões, mas permanece o fato de que o salmista anuncia ou prediz males atrozes aos seus inimigos.
14. Sl 132, 17.
15. Sl 5, 11.
16. ST I q 20 a 2 ad quartum.
17. Ibidem, II, II q. 34, a. 3 ad secundum.
18. Ibidem, II, II, q. 25 a 6.
19. Ibidem, II, II q. 25 a. 6.
20. Ibidem II, II, q. 26 a. 7 ad primum.
21. Ibidem II, II, q. 34 a. 3 ad primum.
22. Ibidem II, II, q. 34 a. 3 ad tertium.
23. Ibidem, I, II, q. 29, a. 2.
24. Sl 138, 22.
25. ST II, II, q. 25, a. 6 ad primum.
26. Ibidem, II, II, q. 33, a. 1
27. Ibidem, II, II, q. 33 a. 4 ad secundum.
28. Comentário a 2 Cor 2, 4.
29. Sent. 3, d 3 q 3 a 3 qla 2.
30. SS. Bento XV, Enc. Spiritus Paraclitus, 1920, citada em todas as Encíclicas dos Sumos Pontífices, IV edição, casa edit. Dall´Oglio, Milão, 1964.
31. São Vicente de Paulo, Conferência, Cf. Ex. 3, 17 e Jr 48, 6.
32. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, 51-57.
33. Oração Abrasada.
34. Terceira pregação para o 1o. domingo da Paixão, 3a. parte.
35. Card. Pie - Opera Omnia, ed. Celier.
36. Pe. Faber do Oratório, Aos pés da Cruz.
37. Ernest Hello, O Homem, XL edição Perrin, 1941.
38. Ibidem.
39. Artigo publicado em “Le Chardonnet”, dezembro de 1988.
40. Secundum Mathaeum, 5, 13.
41. Nm 12, 3.
42. Artigo publicado em “Le Chardonnet”, jan-fev 1989.
43. Mélanges III série 1,3.
44. O Mistério da Igreja, 1917, ed. Cerf.
45. O liberalismo é pecado, cap. XXII.
46. Ibidem, cap. XXIII.
47. É permitido um cessar fogo, quando o inimigo é mais forte, como o próprio N. Senhor ensina no Evangelho? É preciso responder que a Igreja por si nunca tem que pedir a cessação de hostilidades. Por outro lado, o cristão em particular não se deve meter em situações nas quais está insuficientemente armado. Às vezes é mais prudente abster-se sem que isto possa ser interpretado como uma aprovação do erro.
48. Eis porque a Igreja normalmente se opõe ao erro e favorece à propagação da fé: Sagrada Congregação do Santo Ofício (Da Inquisição, pela defesa da Fé). Sagrada Congregação do Índice, Sagrada Congregação da Propaganda da Fé (para a propagação da Fé), etc...

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