sexta-feira, 18 de junho de 2010

Mediator Dei condena as inovações litúrgicas (missa de Paulo VI).


Encíclica Mediator Dei - condenação por antecipação da "reforma litúrgica" de Paulo VI
Julho 26, 2009 escrito por admin
Uma "lei nociva": o "Ordo Missae" ecumênico
Há 30 anos (3 de abril de 1969), o Novus Ordo Missae de Paulo VI sucedeu ao antiqüíssimo e venerável rito romano da Santa Missa.

Pela Festa de Corpus Christi deste mesmo ano, foi apresentado a Paulo VI um Breve exame crítico do "Novus Ordo Missae", precedido duma "Carta" dos cardeais Ottaviani e Bacci, na qual se afirmava: "Os súditos, para o bem dos quais se quer estabelecer uma lei, tiveram sempre, mais do que o direito, o dever de pedir, com confiança filial, ao legislador a ab-rogação da própria lei, quando ela se demonstra ser nociva".

E como o Novus Ordo era "nocivo", a ponto de fundamentar um verdadeiro "dever" de pedir a sua ab-rogação, os dois cardeais diziam sem rodeios: o novo rito da Missa "representa, tanto no seu conjunto como nos seus pormenores, um afastamento impressionante da teologia católica da Santa Missa, tal como foi formulada na sessão XXII do Concílio de Trento".


A "Mediator Dei"
Este "afastamento da teologia católica da Santa Missa" tinha já sido apontado e reprovado por Pio XII no movimento litúrgico que precedeu o Concílio Vaticano II. Na "Mediator Dei" (1947), escrevia o Papa: "Nós notamos com muita apreensão que alguns são demasiado ávidos de novidades e se afastam do caminho da são doutrina e da prudência. Na intenção e no desejo duma renovação litúrgica, eles interpõem freqüentemente princípios que, na teoria ou na prática, comprometem esta causa santíssima, e muitas vezes até a contaminam de erros que afetam a fé e a doutrina ascética".

Com esta Encíclica, Pio XII se propunha "afastar da Igreja" "falsas opiniões... inteiramente contrárias à santa doutrina tradicional", "erros que afetam a fé católica e a doutrina ascética", "exageros e desvios da verdade que não se harmonizam com os preceitos autênticos da Igreja"... opiniões, erros, exageros, desvios, que são a alma da "reforma litúrgica" de Paulo VI e das suas múltiplas realizações que, chegando mesmo às vezes além da letra, se situam, não obstante, no "espírito do Concílio" e do Novus Ordo (como o demonstra também o fato de que eles não são objeto de nenhuma sanção disciplinar).

Uma "ruptura formal e violenta"
Na Mediator Dei Pio XII lembra antes de tudo o princípio fundamental da Liturgia: "Se queremos distinguir e determinar de modo geral e absoluto as relações que ligam unem Fé e Liturgia, pode-se afirmar com razão que a lei da fé deve estabelecer a lei da oração" (legem supplicandi lex statuat credendi): "Toda a liturgia tem, portanto, um conteúdo de fé católica, enquanto que ela atesta publicamente a fé da Igreja: ela é "uma contínua profissão de fé católica". Por conseguinte, as cerimônias, com as quais a Igreja orna o Sacrifício de Cristo "conservam a religião e distinguem os verdadeiros cristãos dos falsos cristãos e dos heterodoxos".

Mas eis que, 18 anos apenas depois da sua promulgação, a "reforma litúrgica" de Paulo VI dá à liturgia um novo "princípio e fundamento": "A oração da Igreja não deve ser um motivo de constrangimento para ninguém" e, portanto, é preciso "arredar toda a pedra que poderia constituir qualquer sombra de risco de tropeço ou de desprazer para os nossos irmãos separados" (art. do Osservatore Romano de 19 de março de 1965, com a assinatura do Pe. Aníbal Bugnini, membro eminente do "Consilium" que então elaborava o Novus Ordo Missae e a revisão de todos os ritos litúrgicos) 1. Portanto, não é mais "a lei da fé que deve estabelecer a lei da oração", mas a lei da oração deve ser estabelecida pela intenção "ecumênica"; e doravante a lei da liturgia testemunhará publicamente, não mais a fé da Igreja, mas o forte desejo "ecumênico" dos homens da Igreja.

Todo o Novus Ordo aí está para provar esta "ruptura formal e violenta contra as regras que, até o Vaticano II, tinham guiado o culto católico"2, a partir de seu princípio fundamental: "A lei da fé deve estabelecer a lei da oração". A conseqüência (é preciso dizer, pretendida?) disto foi que os novos ritos litúrgicos não "conservam a religião" nem "distinguem mais os verdadeiros dos falsos cristãos e dos heterodoxos" (Mediator Dei, cit).

Uma "trágica necessidade de optar"
Uma vez colocada na base da "nova liturgia" a intenção ecumênica, eliminaram-se cuidadosamente dos ritos litúrgicos, mesmo com o conselho de seis "observadores" protestantes, os "motivos de constrangimento", e toda "pedra" e mesmo "risco de escândalo" para os assim chamados "irmãos separados", a começar por "toda essa abominação que se chama Ofertório" (Lutero) que foi integralmente eliminado. O resultado desta "feroz amputação litúrgica que se fez passar por reforma" (Guido Ceronetti La Stampa 18 de julho de 1990) foi, inevitavelmente, um rito que não era mais católico, mas protestantizado, "uma missa recortada, reduzida a dimensões protestantes", como a definiu Julien Green, convertido do protestantismo (O que é preciso de amor ao homem).

Isto não perturbou, mas pareceu satisfazer os "reformadores" cuja preocupação -- nos atesta Bugnini -- tinha sido promover o que "teria podido ser útil espiritual e psicológicamente à união"3. "A reforma litúrgica deu um passo notável avante no domínio ecumênico e se aproximou das formas litúrgicas da Igreja luterana", informava o Osservatore Romano a 13 de outubro de 1967. Caberá aos cardeais Ottaviani e Bacci apresentar o reverso lógico da medalha: e por isto mesmo "o novo rito representa, no seu conjunto como nos seus pormenores, um afastamento impressionante da teologia católica da Santa Missa". É impossível avançar ao mesmo tempo em duas direções opostas.

Na realidade, o problema posto pelo Novus Ordo à consciência católica não é um problema de nostalgia romântica para com o antigo rito, mas um problema de fé: "É evidente que o "Novus Ordo" não quer mais representar a fé [do Concílio] de Trento. Não obstante, a consciência católica está ligada para sempre a esta fé... O verdadeiro católico está, portanto, colocado pela promulgação do "Novus Ordo", numa trágica necessidade de opção" (Breve exame crítico, cit.). A "fé de Trento", de fato, não é outra senão a "antiga fé fundada sobre o Santo Evangelho, as tradições dos Apóstolos e a doutrina dos Santos Padres" (D. 9471), e isto basta para justificar a recusa dum Novus Ordo Missae que "se aproximou das formas litúrgicas da Igreja luterana" (Osservatore Romano, cit.) e "não quer mais representar a fé de Trento" (Breve exame crítico, cit.).

A sombra de Lutero sobre a "reforma" de Paulo VI
Na Mediator Dei, Pio XII escreve: "Há, com efeito, ..., pessoas que aproximando-se de erros condenados outrora [pelo Concílio de Trento], ensinam hoje que, no Novo Testamento, a palavra "sacerdócio" designa unicamente as prerrogativas de todo aquele que foi purificado no banho sagrado do batismo... é porque eles pretendem que o povo goza dum verdadeiro poder sacerdotal, e que o sacerdote age somente como um funcionário delegado pela comunidade: por causa disto, pensam que o sacrifício eucarístico é, no sentido próprio, uma "concelebração" e que os sacerdotes deveriam "concelebrar" com o povo presente, de preferência a oferecer o sacrifício em particular sem o povo... Outros afirmam que os sacerdotes não podem oferecer a vítima divina ao mesmo tempo em diversos altares porque assim eles dissociam a comunidade e põem em perigo a sua unidade"; outros "chegam mesmo ao ponto de crer necessária a confirmação e a ratificação do Sacrifício pelo povo para que ele possa ter a sua força e sua eficácia". Contra estes erros, que foram já os de Lutero, Pio XII repete a fé católica, a "fé [do Concílio] de Trento": "o sacerdócio exterior e visível de Jesus Cristo se transmite, na Igreja, não de modo universal, geral e indeterminado, mas é conferido a indivíduos escolhidos com a geração espiritual da Ordem, um dos sete sacramentos". É por isso que o padre "vai ao altar como ministro de Cristo, inferior a Ele, mas superior ao povo". Quando "se diz que o povo apresenta a sua oferenda juntamente com o padre", quer-se dizer apenas "que ele une suas preces de louvor, súplica, expiação e agradecimento à intenção do sacerdote, digamos mesmo do próprio Sumo Sacerdote".

Pio XII opõe também à condenação das Missas "particulares" a "fé de Trento": o Santo Sacrifício da Missa "tem... da parte da sua natureza intrínseca, uma função pública e social... quer os fiéis a ele assistam, quer não, pois não se requer de modo nenhum que o povo ratifique o que faz o ministro sagrado".

É evidente que o Novus Ordo Missae com o "povo de Deus reunido [...] para celebrar [sic] o sacrifício Eucarístico" (Institutio, artigo 7o. revisto e corrigido!), com o sacerdote reduzido ao papel de "presidente" da assembléia (ibid. no. 7) e, portanto, virado para o povo (ibid. no. 271); com a consagração tornada, não simplesmente uma mera "narração", mas também uma "prece presidencial" (ibid. no. 10), consagração que, portanto, deve ser dita "em voz alta e inteligível" (ibid. no. 10 e 11); com o povo que, após a consagração, não adora mais em silêncio, mas ratifica, em voz alta, o Mysterium Fidei; com o favor concedido às concelebrações, que aumentam talvez o número de participantes da "comunidade", mas que diminuem certamente o número das "missas particulares" é evidente -- dizíamos nós -- que um tal Ordo Missae "representa... um afastamento impressionante da teologia católica da Santa Missa" (Breve exame crítico, cit.) e a aceitação destes deslizes protestantes já condenados por Pio XII na encíclica Mediator Dei.

Uma "refeição de comunidade fraterna"
Intimamente ligada à heresia do "sacerdote presidente" e do "povo celebrante" está a pretensa "absoluta necessidade que os fiéis se nutram da Refeição Eucarística ao mesmo tempo que o sacerdote".

Com este objetivo -- escreve Pio XII -- os modernistas "afirmam capciosamente que não se trata só dum Sacrifício, mas dum sacrifício e duma refeição de comunidade fraterna, e fazem da Santa Comunhão, realizada em comum, o ponto culminante de toda a celebração". Aí também -- adverte Pio XII -- está uma outra "nova e falsa doutrina de Lutero", que o Concílio de Trento, "fundando-se na doutrina conservada na tradição ininterrupta da Igreja", condena assim: "Quem diz que as missas nas quais só o sacerdote comunga sacramentalmente são ilícitas e, portanto, devem ser ab-rogadas, seja excomungado". A Santa Comunhão, com efeito, "é absolutamente necessária ao ministro sacrificador, e somente se deve recomendar vivamente aos fiéis". Na Mediator Dei não falta, igualmente, a condenação da outra pretensa "necessidade", a saber, que o povo comunga com hóstias consagradas nesta mesma missa, pretensão com a mesma raiz herética que a precedente: mesmo se "se comunga... com hóstias consagradas precedentemente [quando se comunga antes da missa]... o povo participa regularmente do Sacrifício Eucarístico". E, estas duas pretensas "necessidades" condenadas por Pio XII na base da "fé de Trento", foram acolhidas pela "reforma litúrgica" de Paulo VI, e a segunda -- a de comungar com hóstias consagradas na mesma Missa (v. art. 55 da constituição sobre a Santa Liturgia -- foi estigmatizada com ironia pelo escritor Tito Cassni, ao falar sobre o "Jesus fresco" e o "Jesus dormido" 4

O ativismo litúrgico
Da heresia do "sacerdote presidente" e do "povo celebrante" nascem também as "falsas opiniões" sobre a participação "ativa" dos fiéis à Santa Missa. Pio XII louva os que enconrajam esta participação ativa com cantos, respostas ou pondo "nas mãos do povo o ´Missal Romano´", mas ele precisa que "estas maneiras de participar do Sacrifício... não são necessárias para constituir o caráter público e comum". Ademais, adverte muito sabiamente que "o espírito, o caráter e a natureza dos homens são tão variados e diferentes que nem todos podem ser igualmente impressionados e dirigidos por preces, cantos ou ações santas realizadas em comum. Além disso, as necessidades das almas não são iguais para todos, nem permanecem as mesmas em cada indivíduo". Pode-se, portanto, participar frutuosamente do próprio Sacrifício "dum modo que parece a alguns mais fácil como, por exemplo, meditando plenamente os mistérios de Jesus Cristo ou fazendo exercícios de piedade e outras orações que, embora diferentes na forma, dos santos ritos, contudo correspondem a estes pela sua natureza [por exemplo, a meditação dos mistérios dolorosos]". Mesmo nisto a "reforma litúrgica" de Paulo VI, para a qual a "participação ativa" dos fiéis é sobretudo um fato exterior em detrimento da devoção interior que, portanto, baniu qualquer outra forma de devoção (especialmente o Santo Rosário), se coloca claramente contra a Mediator Dei, na trilha das "falsas opiniões" condenadas por Pio XII. É preciso, ademais, dizer que, diante da sabedoria pastoral do Papa Pacelli, o "caráter pastoral" da "reforma litúrgica" de Paulo VI, que arregimenta os fiéis sem ter em conta as exigências pessoais, por isto mesmo se revela o que é: um simples pretexto de fachada.

O panliturgismo
A condenação de Pio XII se estende às "novas teorias sobre a 'piedade objetiva', as quais... quereriam negligenciar ou atenuar a 'piedade subjetiva' ou pessoal pela qual alguns.. pensam que devem negligenciar as outras práticas religiosas não estritamente litúrgicas e realizadas fora do culto público". Pelo contrário "a obra da redenção [...] requer o esforço íntimo de nossa alma" e, portanto, antes de tudo, a nossa participação pessoal ou "subjetiva"; e, por isso, os "exercícios de piedade não estritamente litúrgicos... são, não apenas eminentemente louváveis, mas necessários", porque nos "dispomos a participar com as melhores disposições do augusto Sacrifício do altar, a receber com maiores frutos os Sacramentos" (aquilo em que consiste essencialmente a "participação ativa" na vida litúrgica). entre estes exercícios de piedade, Pio XII assinala e recomenda a meditação, o exame de consciência, os retiros espirituais, assim como "outros exercícios de piedade que, embora não pertencendo de estrito direito à Santa Liturgia, revestem de uma importância e dignidade particulares, de sorte que podem ser considerados como inseridos, de algum modo, na ordenação litúrgica". Tais são os meses de maio, de junho, "os tríduos e as novas, a 'Via Sacra' e outros semelhantes". Eles excitam também os cristãos à freqüência dos Sacramentos e do Santo Sacrifício e, portanto, "quem ousasse temerariamente reformar estes exercícios de piedade para os constranger a entrar somente nos esquemas litúrgicos faria, portanto, uma coisa perniciosa e totalmente errônea" (1305).

Neste ponto também, a "reforma" de Paulo VI marcou o triunfo das "novas teorias" condenadas por Pio XII com o panliturgismo e o menosprezo das "outras práticas religiosas não estritamente litúrgicas e realizadas fora do culto público"; e, portanto, esta "reforma" bem merece os qualificativos de "perniciosa" e "temerária" que lhe tinha dado Pio XII por antecipação.

Os "frutos envenenados" dos "ramos infectados"
Pio XII previu também os ataques contra o "culto eucarístico de adoração distinto do santo sacrifício", com as "visitas dos divinos tabernáculos, as bençãos do Santíssimo Sacramento, as procissões solenes nas aldeias e cidades", as "quarenta horas", a adoração noturna, etc, práticas todas questionadas, se não eliminadas com a "reforma litúrgica" de Paulo VI.

Pio XII pressentiu as ameaças contra a devoção a Maria e a prática salutar da confissão. Daí o grito de alarme lançado aos Bispos: "não permitais -- como alguns pensam sob a escusa duma renovação da Liturgia, ou falando com leviandade duma eficácia e dignidade exclusiva dos ritos litúrgicos -- que as igrejas sejam fechadas nas horas não destinadas às funções públicas, como já acontece em certas regiões; que se negligencie a adoração e a visita ao Santíssimo Sacramento; que se desaconselhe a confissão dos pecados feita somente com o fim de devoção; que se negligencie, especialmente na juventude, até o ponto de o enfraquecer, o culto da Virgem Mãe de Deus, culto que é, como dizem os Santos, um sinal de predestinação.

"São estes os frutos envenenados, inteiramente nocivos à piedade cristã, que nascem dos ramos infectados duma árvore sã; é, portanto, necessário cortar estes ramos para que a seiva da árvore possa nutrir somente frutos agradáveis e excelentes".

A "reforma litúrgica" de Paulo VI, pelo contrário, parece ter-se atribuído precisamente a tarefa de cultivar apenas os "ramos infectados" do movimento litúrgico e, há trinta anos, o povo cristão se alimenta com os seus "frutos envenenados", perdendo a fé e pervertendo a moral.

A exaltação de Cristo glorificado e o escondimento de Cristo sofredor
Na "Mediator Dei", Pio XII condena "proposições e iniciativas deploráveis" que "tendem a paralisar a ação santificadora" da Liturgia.

Entre outras, o Papa Pacelli assinala as "proposições e iniciativas deploráveis" "daqueles que utilizam a língua vulgar na celebração do Sacrifício Eucarístico" indiferentes ao fato de que "o uso da língua latina... é... um antídoto eficaz contra qualquer corrupção da pura doutrina; daqueles que transferem para outras datas, festas fixadas outrora por razões bem ponderadas. dos que querem restituir ao altar a antiga forma de mesa; dos que querem excluir dos templos [=das igrejas] as imagens de santos, dos que querem eliminar dos paramentos litúrgicos a cor preta; dos que desejam apagar, na representação do Redentor crucificado, as dores implacáveis que Ele sofreu". Não é necessário demonstrar que estes propósitos e iniciativas deploráveis foram todos postos em ação com a "reforma litúrgica" de Paulo VI.

Pio XII volta a falar longamente sobre o último ponto: o escondimento da Paixão (tema desagradável ao hedonismo moderno) e a exaltação da Ressurreição. "Ousam afirmar -- escreve -- que não se deve fixar a mente no Cristo histórico, mas no Cristo "pneumático e glorificado" e não se duvida em afirmar que se verificaria [no tempo] uma mudança na piedade dos fiéis... ocultando o Cristo glorificado" e, portanto, "se chega mesmo a querer tirar das igrejas as imagens do Divino Redentor sofrendo na Cruz". E eis a condenação: "estas falsas opiniões são totalmente contrárias à sã doutrina tradicional"; porque a Paixão é o "mistério principal donde provém a nossa salvação, é conforme às exigências da fé católica pô-lo em evidência plena, por ser ele como que o centro do Culto divino, sendo o Sacrifício Eucarístico a sua representação e renovação quotidianas, com todos os sacramentos reunidos à cruz por meio dum vínculo estreitíssimo."

A emancipação da liturgia diante da autoridade: "criatividade" e "experiências litúrgicas"
Do princípio fundamental "a lei da fé deve estabelecer a lei da oração" -- relembra Pio XII na Mediator Dei -- decorre logicamente a autoridade exclusiva da Santa Sé em matéria litúrgica. Visto que "a pureza da fé e da moral deve ser a norma característica desta disciplina", "não é possível deixar ao arbítrio de pessoas em particular, mesmo se fossem membros do clero, as coisas santas e veneráveis... o exercício do sacerdócio de Jesus Cristo e do culto divino".

"Somente o Sumo Pontífice" tem o direito de legislar em matéria litúrgica. Os Bispos têm o dever de velar pela pontual observância das leis litúrgicas. Disto, que é "seu direito em matéria litúrgica, a Igreja se serviu para proteger a santidade do culto contra os abusos temerariamente introduzidos pelas pessoas em particular e por igrejas particulares [=Dioceses]. Acontece assim que os usos e hábitos deste gênero se multiplicaram durante o século XVI e as iniciativas particulares puseram em perigo a integridade da fé e da piedade para grande vantagem dos hereges e propaganda dos seus erros [...] Sisto V instituiu em 1588 a Congregação dos Ritos, órgão ao qual cabe sempre atualmente ordenar e escrever com cuidado tudo o que concerne à Santa Liturgia".

Portanto, em conclusão, Pio XII exorta os Bispos a velarem nas suas Dioceses "porque tudo se realize com a ordem e a dignidade necessárias e que a ninguém seja permitido, mesmo a um sacerdote, de se servir dos edifícios sagrados para experiências arbitrárias".

Neste ponto também, não é necessário demonstrar que a "reforma" de Paulo VI se introduziu ousadamente no desvio condenado por Pio XII, com o resultado de que hoje, em nome da "criatividade", o culto litúrgico está ao "arbítrio" não apenas das "igrejas particulares", mas das pessoas "em particular", não só dos membros do clero, mas até dos leigos!

Deste modo o que não fez diretamente a "reforma" de Paulo Vi fizeram-no e continuam sempre a fazê-lo as "iniciativas privadas", em nome da "criatividade", introduzida por esta "reforma", pondo, ainda uma vez, "em perigo a integridade da fé e da piedade para grande vantagem dos hereges e para a propaganda dos seus erros", e, antes de tudo, do erro protestante duma "religião sem autoridade", inclusive em matéria litúrgica.

O precursor da "reforma litúrgica" de Paulo VI: o movimento litúrgico
Se, na Mediator Dei, encontramos a condenação antecipada da "reforma litúrgica" de Paulo VI, é porque esta é responsável por estas "falsas opiniões", "exagerações e deformações da verdade", estes "erros que afetam a fé católica e a doutrina ascética" que já se insinuavam no movimento litúrgico e que Pio XII, com a Mediator Dei, teria querido afastar da Igreja. O arcebispo de Friburgo-em-Brigau, D. Conrado Gröber, tinha denunciado, desde 1943, os perigos deste movimento litúrgico num "memorandum ao episcopado alemão". O movimento litúrgico -- denunciava -- abre um sulco entre progressistas e conservadores, inclusive no clero; ele desliza em direção dos erros dos protestantes; despreza a escolástica e simpatiza com as falsas filosofias modernas; critica, sob o pretexto dum retorno às origens, tudo o que nos transmitiram os séculos passados, como se o progresso secular dogmático litúrgico, sob a conduta do Espírito Santo, tivesse deformado arbitrariamente tudo; ele revela a influência dos protestantes, especialmente de Karl Barth [ídolo da "nova teologia"!]; ele se abre inconsideravelmente às seitas para "reconstruir" a unidade da Igreja [que jamais se dividiu, pela graça de Deus!]; concebe, como os protestantes, a Igreja mais como um organismo invisível [no qual se possam englobar também as seitas] que como uma sociedade hierárquica visível [da qual as seitas são claramente excluídas]; ele favorece uma nova falsa "mística" (o carismatismo); faz ressaltar o "sacerdócio comum dos fiéis" em detrimento do sacerdócio ministerial do Clero; considera a liturgia como a panacéia universal (panliturgismo); ele libera as celebrações litúrgicas de toda a norma autoritária e obrigatória, condenando estas normas e qualificando-as de "rubricismo"; exige a Missa em língua vulgar que é o fundo comum necessário de todas as heresias.

Os perigos denunciados pelo Arcebispo de Friburgo-em-Brisgau, em 1943, são hoje uma triste realidade.

De fato, no último Concílio defrontaram-se dois movimentos: o movimento litúrgico e o movimento marial, tendendo este último a "desenvolver a originalidade católica' em face do mundo protestante e, portanto, na linha do Concílio de Trento; o primeiro, o litúrgico, tendente, como todos os movimentos de "aggiornamento" (="atualização), a "acabar" com a contra-reforma para se abrir aos "irmãos separados" 5. No pós-Concílio, é um discípulo de Rahner6 que confessou ter sido o movimento litúrgico, na realidade, um dos numerosos movimentos surgidos para se libertar do jugo do "sistema romano".

A "reforma litúrgica" marcou o triunfo deste movimento litúrgico insensato com todas estas infiltrações protestantes identificadas e condenadas por D. Gröber e depois por Pio XII na Mediator Dei.

Filha da desobediência ao Magistério Romano.
Pio XII conclui sua Encíclica advertindo os promotores da renovação litúrgica a "deduzirem sua maneira de pensar e agir da doutrina cristã conforme os mandamentos da Imaculada, Esposa de Jesus Cristo e Mãe dos Santos" e fazendo-lhes um apelo a uma "obediência generosa e fiel".

De fato, a "reforma litúrgica" de Paulo VI, como todo o curso eclesial atual, é filha duma longa desobediência à Igreja e ao Magistério dos Pontífices Romanos. E que não se diga -- como o fez Paulo VI -- que o "Papa de hoje" tem a mesma autoridade que o "Papa de ontem". A contradição, na realidade, não está entre Pacelli e Montini; ela está entre a "Fé de ontem" e a "Fé de hoje", que não deveria ser, também, diferente da Fé de sempre. Os Papas têm a mesma autoridade no que concerne aos fatos puramente disciplinares, cuja oportunidade pode mudar com as circunstâncias (e também nisto os Papas não podem exercer o seu poder caprichosamente), mas, quanto à fé e no que de algum modo a afeta (e a liturgia mais que qualquer outra coisa), eles têm a mesma autoridade para defender e explicar fielmente o "depósito da Fé". E, do mesmo modo, os Papas não têm nenhuma autoridade para aprovar o que, direta ou indiretamente, o põe em perigo (o depósito da Fé): "Nós não temos nenhum poder contra a Verdade, mas ao contrário, pela Verdade" (São Paulo)

1. V. também A reforma litúrgica de Bugnini
2. A. X. da Silveira "La nouvelle Messe de Paul VI, qu´en penser?" (335)
3. A reforma litúrgica, cit.
4. T. Casini La tunica stracciata [= a túnica dilacerada]
5. E. Fouilloux. Movimentos teológicos espirituais e Concílio em "Na véspera do Vaticano II", Lovaina 1992, pp. 188 e 198; v. também Sì sì no no de 30/09/1998 p. 5.
6. H. Vormgrimler Karl Rahner verstehen (=Compreender Karl Rahner) p. 74 ss, citado em Sì sì no no de 15 de abril de 1998, p. 3.

http://permanencia.org.br/drupal/node/564

Carta ao Papa Paulo VI


+ Dom Antônio de Castro Mayer

Uma das primeiras reações contrárias à Missa Nova de Paulo VI, 12 de setembro de 1969. Carta inédita do Bispo Diocesano de Campos, Dom Antonio de Castro Mayer ao papa Paulo VI, antes da entrada em vigor do novo rito da Missa. Anexas à carta enviava também ao Papa "Considerações sobre o Novus Ordo Missae”.


Campos, 12 de setembro de 1969

Beatíssimo Padre,

Tendo examinado atentamente o “Novus Ordo Missae”, a entrar em vigor no próximo dia 30 de novembro, depois de muito rezar e refletir, julguei de meu dever, como sacerdote e como bispo, apresentar a Vossa Santidade, minha angústia de consciência, e formular, com a piedade e confiança filiais que devo ao Vigário de Jesus Cristo, uma súplica.

O “Novus Ordo Missae”, pelas omissões e mutações que introduz no Ordinário da Missa, e por muitas de suas normas gerais que indicam o conceito e a natureza do novo Missal, em pontos essenciais, não exprime, como deveria, a Teologia do Santo Sacrifício da Eucaristia, estabelecida pelo Sacrossanto Concílio de Trento, na sessão XXII. Fato que a simples catequese não consegue contrabalançar. Em anexo, junto as razões que, a meu ver, justificam esta conclusão.

Os motivos de ordem pastoral que, eventualmente, poderiam ser alegados a favor da nova estrutura da Missa, primeiro, não podem chegar ao ponto de deixar no olvido os argumentos de ordem dogmática que militam em sentido contrário; depois, não parecem procedentes. As mudanças que preparam o “Novus Ordo” não contribuíram para aumentar a Fé e a piedade dos fiéis. Pelo contrário, deixaram-nos apreensivos, apreensão que o “Novus Ordo” aumentou; porquanto, abonou a idéia de que nada há de imutável na Santa Igreja, nem mesmo o Sacrossanto Sacrifício da Missa.

Além disso, como saliento nas folhas juntas, o “Novus Ordo” não só não afervora, senão que extenua a fé nas verdades centrais da vida católica, como a presença Real de Jesus na SS. Eucaristia, a realidade do Sacrifício propiciatório, o sacerdócio hierárquico.

Cumpro, assim, um imperioso dever de consciência, suplicando, humilde e respeitosamente, a Vossa Santidade, se digne, por um ato positivo que elimine qualquer dúvida, autorizar-nos a continuar no uso do “Ordo Missae” de S. Pio V, cuja eficácia na dilatação da Santa Igreja, e no afervoramento de sacerdotes e fiéis, é lembrada, com tanta unção, por Vossa Santidade.

Estou certo que a Paterna Benevolência de Vossa Santidade não deixará de afastar as perplexidades que me angustiam o coração de sacerdote e bispo.

Prostrado aos pés de Vossa Santidade, com humilde obediência e filial piedade, imploro a Bênção Apostólica.

a) + Antonio de Castro Mayer
Bispo de Campos (Brasil)

Considerações sobre o “Novus Ordo Missae”
Documento endereçado por Dom Antonio de Castro Mayer ao Papa Paulo VI sobre a Nova Missa, junto com a carta precedente.

O novo “Ordo Missae” consta de normas gerais do texto do Ordinário da Missa. Umas e outro propõem uma nova Missa que não atende, suficientemente, às definições do Concílio de Trento a respeito, e constitui, por isso mesmo, grave perigo para a integridade e pureza da Fé Católica. Examinamos aqui, apenas, alguns pontos, que, nos parece, evidenciam o que afirmamos.

1. Noção de Misssa. - No n. 7 o Novo “Ordo” dá uma como que definição da Missa: "Coena dominica sive Missa est sacra synaxis seu congregatio populi Dei in unum convenientis, sacerdote praeside, ad memoriale Domini celebrandum. Quare de sanctae ecclesiae locali congregatione eminenter valet promissio Christi: “Ubi sunt duo vel tres congregati in nomine meo, ibi sum in medio eorum (Mat. 18)”. [A Ceia do Senhor ou Missa é a sagrada assembléia ou reunião do povo de Deus, sob a presidência do sacerdote, para celebrar o memorial do Senhor. Por isso, a respeito desta reunião da santa igreja local vale a promessa de Cristo: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estarei no meio deles” (Mat. 18).

Nesta definição, a) Insiste-se na Missa como ceia. Aliás, esta conceituação de Missa, ocorre com freqüência, em todo o decurso das normas gerais (cfr. nº 8, 48, 55d, 56, etc.). Parece mesmo que a intenção do novo “Ordo Missae” é inculcar este aspecto da Missa. O que é feito com detrimento do outro, essencial, isto é, que a Missa é um sacrifício. De fato, b) na quase definição de Missa do nº 7, não se declara o caráter de sacrifício da Missa, como, c) não se salienta o caráter sacramental do sacerdote que o distingue dos fiéis. Além disso, d) nada diz do valor intrínseco da Missa independente da presença da assembléia. Antes, faz supor que não há Missa sem a “congregatio populi” [reunião do povo], pois é a “congregatio” que define a Missa. Enfim, e) o texto deixa uma confusão entre a Presença real e a presença espiritual, porquanto aplica à Missa o texto de S. Mateus, no qual se trata apenas da presença espiritual.

O equívoco entre a Presença real e a presença espiritual, notado no nº 7, é confirmado pelo que diz o nº 8, que divide a Missa em “mesa da palavra” e “mesa do Corpo do Senhor”, e igualmente oculta o caráter de sacrifício que é principal na Missa, pois que a ceia não passa de uma conseqüência, como se pode deduzir do cân. 3 da ses. XXII do Concílio de Trento.

Observamos que os dois textos do Vaticano II, alegados na nota, não justificam a noção de Missa proposta no texto. Observamos ainda que algumas expressões, mais ou menos incidentes, nas quais ocorrem afirmações como esta que no altar “sacrificium crucis sub signis sacramentalibus praesens efficitur” (n. 259) [Torna-se presente o sacrifício da cruz sob sinais sacramentais,] não são suficientes para dissipar um conceito equívoco, inculcado ao se descrever a Missa (n. 7) e em muitos outros lugares das normas gerais.

2. Finalidade da Missa. A Missa é sacrifício de louvor à SS. Trindade. Tal finalidade não aparece de modo explícito no Novo "Ordo". Pelo contrário, o que, na Missa de S. Pio V, salientava esse fim do Sacrifício, foi supresso no Novo "Ordo". Assim, as orações: "Suscipe, Sancta Trinitas..." do Ofertório, a final "Placeat, tibi, Sancta Trinitas..."; assim, igualmente o Prefácio da SS. Trindade deixou de ser o Prefácio do Domingo, Dia do Senhor.

Além de "Sacrificium laudis SS. Trinitatis", a Missa é Sacrifício propiciatório. Sobre esse caráter, contra os erros dos protestantes, insiste muito o Tridentino (cap. I e cân 3). Tal finalidade não aparece explícita no Novo "Ordo". Aqui e acolá ocorre uma ou outra expressão que se poderia entender como envolvendo esse conceito. Jamais ele aparece sem sombra de dúvida. E ele está ausente quando as normas declaram a finalidade da Missa (n. 54). De fato, não é suficiente para atender à Teologia da Missa estabelecida pelo Tridentino, afirmar que esta colima a "santificação". Não é claro que este conceito envolva necessariamente o outro, de propiciação. Além disso, a intenção propiciatória bem indicada na Missa de São Pio V, desaparece na nova Missa. De fato, as orações do Ofertório, "Suscipe Sancte Pater...", "Offerimus, Tibi..." e a da benção da água: "Deus qui humanae substantiae... reformasti..." foram substituídas por outras que nada dizem de propiciação. Inculcam mais o sentido de banquete espiritual "panis vitae" [pão da vida], "potus spiritualis" [bebida espiritual].

3. Essência do Sacrifício. - A essência do Sacrifício da Missa está na repetição do que fez Jesus na última ceia; não na mera narração, ainda que acompanhada de gestos. Assim, advertem os moralistas que não basta relatar historicamente o que Jesus fez. É necessário pronunciar as palavras da consagração com intenção de repetir o que Jesus realizou, porquanto o sacerdote, ao celebrar, representa Jesus Cristo, opera "in persona Christi". No novo "Ordo" não se toma em consideração semelhante precisão, no entanto, essencial. Pelo contrário, ao passo que sublinha a parte narrativa, nada diz da parte propriamente sacrifical. Assim, ao expor a Prece eucarística fala de "narratio institutionis" (n. 54 d) [narração da instituição]; de maneira que as expressões "Ecclesia memoriam ipsius Christi agit" [A Igreja faz a memória do próprio Cristo] e a outra do final da consagração: "Hoc facite in meam commemorationem" [fazei isto em minha memória] têm o sentido indicado pela explanação dada anteriormente nas normas gerais (n. 54 d). Observamos que a frase final da consagração, "Haec quotiescumque feceritis, in mei memoriam facietis" [todas as vezes que fizerdes isto, fazei-o em minha memória] era muito mais expressiva para dizer que, na Missa, repetia-se a ação de Jesus Cristo. - Acresce que a introdução, entre as palavras essenciais da consagração, das expressões: "Accipite et manducate ex hoc omnes" [Tomai e comei dele todos], e "Accipite et bibite ex eo omnes" [Tomai e bebei dele todos] levam a parte narrativa dentro do mesmo ato sacrifical. De maneira que, na Missa de S. Pio V, o texto e os gestos orientavam, naturalmente, o sacerdote para a ação sacrifical propiciatória, quase impunham a intenção ao sacerdote que celebrava. E assim, a "lex supplicandi" [lei da oração] se conformava perfeitamente à "lex credendi" [lei da fé]. Não se pode dizer o mesmo do novo "Ordo Missae". No entanto, dada a gravidade da ação, e mais os tempos modernos excessivamente trepidantes, e dadas ainda as condições psicológicas das novas gerações, o "Ordo Missae" deveria facilitar o celebrante a ter presente a intenção necessária para realizar válida e condignamente o ato do Santo Sacrifício.

4. Presença Real. O Sacrifício da Missa está intimamente ligado à presença real de Jesus Cristo na SS. Eucaristia. Essa é conseqüência daquela. Na transubstanciação opera-se a mudança da substância do pão e do vinho no Corpo e Sangue do Salvador, e realiza-se o sacrifício. Como conseqüência, permanece no altar a vítima perene. A Hóstia do Sacrifício, que permanece, passado o ato sacrifical. O Novo "Ordo", desde a definição da Missa (n. 7) deixa pairar uma ambigüidade sobre a presença real, mais ou menos confundida com a presença meramente espiritual, na oração de dois ou três congregados no nome de Jesus. Depois, a supressão de quase todas as genuflexões - maneira tradicional de adorar entre os latinos - a ação de graças sentado, a possibilidade de celebração sem a pedra d'ara, em simples mesa, a equiparação do manjar eucarístico com o manjar espiritual, tudo é de molde a obscurecer a fé na Presença real. - A última consideração sobre a equiparação entre o manjar eucarístico e o manjar espiritual, deixa no ar a idéia de que a Presença de Jesus na SS. Eucaristia está no uso, como acontece com a palavra de Deus. E daí a resvalar para o erro dos luteranos não é tão difícil, especialmente numa sociedade pouco dada à reflexão de ordem transcendente. Igual conclusão é favorecida pela função do altar: é ele apenas a mesa, onde não há, normalmente, lugar para o Sacrário, onde habitualmente se conserva a Vítima do Sacrifício. Também a disciplina no sentido de levar os fiéis a comungarem da mesma hóstia que o celebrante, de si, cria a idéia de que, acabado o sacrifício, não há mais lugar para a sagrada reserva. Assim, toda a disposição do Novo “Ordo Missae” não só não afervora a fé na presença real, senão que a diminui.

5. Sacerdócio hierárquico. Define o Tridentino que Jesus instituiu os apóstolos sacerdotes para que eles e outros sacerdotes, seus sucessores, oferecessem seu Corpo e Sangue (cân, 2, ses. 22). De maneira que a realização do Sacrifício da Missa é ato que exige a consagração sacerdotal. Por outro lado, o mesmo Concílio de Trento condena a tese protestante que faz de todos os cristãos sacerdotes do Novo Testamento. Vê-se, pois que, segundo a fé, só o sacerdote hierárquico é capaz de realizar o Sacrifício da Nova Lei. Esta verdade é diluída no Novo “Ordo Missae”. Neste “Ordo” a Missa é mais do povo do que do sacerdote. É também do sacerdote, porque este faz parte da multidão. Não aparece como o mediador “ex hominibus assumptus in iis quae sunt ad Deum” [tomado dentre os homens para aquelas coisas que se referem a Deus], inferior a Jesus Cristo e superior aos fiéis, como diz S. Roberto Belarmino. Ele não é o juiz que absolve. É simplesmente o irmão que preside.

Outras observações poderíamos fazer que confirmariam o que acima dizemos. Julgamos, no entanto, que as questões apontadas bastam para mostrar que o novo “Ordo Missae” não se ajusta à Teologia da Missa, estabelecida de modo definitivo pelo Concílio de Trento, e por isso, constitui um grave perigo para a pureza da Fé.

Publicado em Jornal ONTEM HOJE SEMPRE
Campos, janeiro-março de 2000

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