sábado, 8 de maio de 2010

Revolução e Contra-Revolução: origens da decadência ocidental.


Liberdade - Igualdade - Fraternidade e o Magistério da Igreja


Texto extraído da obra "O socialismo autogestionário: em vista do comunismo, barreira ou cabeça-de-ponte?" de autoria do Professor Plinio Corrêa de Oliveira e adaptado para a presente publicação.


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Plinio Corrêa de Oliveira



É próprio ao lema ser substancioso e preciso.

Não corresponde a isto a trilogia da Revolução Francesa: “Liberdade, igualdade, fraternidade”. Entre as múltiplas interpretações e modos de aplicação a que tem dado azo, algumas deixaram na História marcas de impiedade, de desvario e de sangue que jamais se apagarão.
Uma das interpretações mais radicais a que a trilogia se presta pode ser enunciada como segue. A justiça preceitua que haja uma igualdade absoluta entre os homens. Só esta, suprimindo qualquer autoridade, realiza inteiramente a liberdade e a fraternidade. A liberdade só admite um limite: o indispensável para impedir que homens mais dotados constituam em proveito próprio alguma superioridade de mando, de prestígio ou de haveres. A verdadeira fraternidade decorre do relacionamento entre os homens inteiramente iguais e livres.

De 1789 até 1794 os sucessivos líderes revolucionários se forma inspirando em interpretações da famosa trilogia, cada vez mais próximas deste enunciado radical. Já agonizante, a Revolução Francesa tão aparatosamente moderada em seus primeiros dias, teve espasmos de significado nitidamente comunista. Como que repetindo em câmara lenta o processo dessa Revolução, o mundo democrático levou – ou está acabando de levar – às suas últimas conseqüências o nivelamento político das classes, muito embora ainda conserve aspectos hierárquicos em sua cultura, como em seu regime social e econômico.

Pode-se discutir os fatos, os lugares e as datas em que, no século XIX, começaram os principais movimentos em favor do nivelamento cultural sócio-econômico. O certo é que, em meados do século, eles se tinham estendido a muitos países e haviam adquirido forte consistência em vários. A ponto de inspirarem acontecimentos como, na França, a Revolução de 1848 e a Comuna de 1871. Ademais, é patente em nosso século a presença deles entre os fatores profundos da Revolução russa de 1917, e em conseqüência a propagação do regime comunista aos países além das cortinas de ferro e de bambu (1), e outros . Sem falar de todas as revoluções e agitações comunistas que têm abalado diversas partes do mundo. Entre as quais a explosão da Sorbonne de maio de 1968.

A trilogia e o Magistéria da Igreja

Na Carta Apostólica Notre Charge Apostolique, de 25 de agosto de 1910, em que condena o movimento francês Le Sillon, de Marc Sangnier, São Pio X assim analisa a célebre trilogia:

“O Sillon tem a nobre preocupação da dignidade humana. Mas, esta dignidade é coompreendida ao modo de certos filósofos, de que a Igreja está longe de ter de se regozijar. O primeiro elemento desta dignidade é a liberdade, entendida neste sentido que, salvo em matéria de religião, cada homem é autônomo. Deste princípio fundamental, tira as seguintes conclusões: Hoje em dia, o povo está sob tutela, debaixo de uma autoridade que lhe é distinta, e da qual se deve libertar: emancipação política. Ele está sob a dependência de patrões que, detendo seus instrumentos de trabalho, o exploram, o oprimem e o rebaixam; ele deve sacudir seu jugo: emancipação econômica. Enfim, ele é dominado por uma casta chamada dirigente, à qual o desenvolvimento intelectual assegura uma preponderância indevida na direção dos negócios; ele deve subtrair-se à sua dominação: emancipação intelectual. O nivelamento das condições, deste tríplice ponto de vista, estabelecerá entre os homens a igualdade, e esta igualdade é a verdadeira justiça humana. Uma organização política e social fundada sobre esta dupla base, liberdade e igualdade (às quais logo virá acrescentar-se a fraternidade), eis o que eles chamam Democracia. ...

Em primeiro lugar, em política, o Sillon não abole a autoridade; pelo contrário, ele a considera necessária; mas ele a quer partilhar, ou para melhor dizer, ele a quer multiplicar de tal modo que cada cidadão se tornará uma espécie de rei. ...

Guardadas as proporções, acontecerá, o mesmo na ordem econômica. Subtraído a uma classe particular, o patronato será multiplicado de tal modo, que cada operário se tornará uma espécie de patrão. ...

Eis agora o elemento capital, o elemento moral. ... Arrancado à estreiteza de seus interesses privados e elevado até os interesses de sua profissão, e mais alto, até os da nação inteira e, mais alto ainda, até os da humanidade (porque o horizonte do Sillon não se detém nas fronteiras da pátria, mas se estende a todos os homens até os confins do mundo), o coração humano, alargado pelo amor do bem comum, abraçaria todos os companheiros da mesma profissão, todos os compatriotas, todos os homens. E eis aí a grandeza e a nobreza humana ideal, realizada pela célebre trilogia: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. ...

Tal é, em resumo, a teoria, poder-se-ia dizer o sonho, do Sillon”(Acta Apostolicae Sedis, Typis Polyglottis Vaticanis, Roma, 1910, vol. II, pp. 613-615).

São Pio X se insere, portanto, na esteira de seus Predecessores, que desde Pio VI condenaram os erros sugeridos pelo lema da Revolução Francesa.

Na Carta Decretal de 10 de março de 1791 ao Cardeal de la Rochefoucauld e ao Arcebispo de Aix-em-Provence, sobre os princípios da Constituição Civil do Clero, Pio XI assim se exprime:

“Decreta-se, pois, nessa assembléia [a Assembléia Nacional francesa], ser um direito estabelecido que o homem constituído em sociedade goze de omnímoda liberdade, de tal sorte que não deve ser naturalmente perturbado no que respeita à Religião, e que está no seu arbítrio opinar, falar, escrever e até publicar o que quiser sobre assunto da própria Religião. Monstruosidades essas que proclamam derivar e emanar da igualdade dos homens entre si e da liberdade da natureza. Mas o que se pode excogitar de mais insensato, do que estabelecer tal igualdade e liberdade entre todos, a ponto de em nada se levar em conta a razão, com que a natureza dotou especialmente o gênero humano, e pela qual ele se distingue dos outros animais? Quando Deus criou o homem e o colocou no Paraíso de delícias, porventura não lhe prenunciou, ao mesmo tempo, a pena de morte, se comesse da árvore da ciência do bem e do mal? Porventura não lhe restringiu desde logo a liberdade, com este primeiro preceito? Porventura, em seguida, quando o homem se tornou réu pela desobediência, não lhe impôs um maior número de preceitos, por meio de Moisés? E se bem que o “tivesse deixado em mãos de seu próprio alvedrio”, para que pudesse merecer bem ou mal, contudo acrescentou-lhe “mandamentos e preceitos, a fim de que, se os quisesse observar, estes o salvassem” (Eccli. XV, 15-16).

Onde fica, pois, a tal liberdade de pensar e de agir que os Decretos da Assembléia atribuem ao homem constituído em sociedade, como um direito imutável da própria natureza? ... Posto que o homem já desde o começo tem necessidade de sujeitar-se a seus maiores para ser por eles governado e instruído, e para poder ordenar sua vida segundo a norma da razão, da humanidade e da Religião, então é certo que desde o nascimento de cada um é nula e vã essa decantada igualdade e liberdade entre os homens. “É necessário que lhe sejais sujeitos”(Rom. XIII, 5). Por conseguinte, para que os homens pudessem reunir-se em sociedade civil, foi preciso constituir uma forma de governo, em virtude da qual os direitos da liberdade fossem circunscritos pelas leis e pelo poder supremo dos que governam. De onde se segue o que Santo Agostinho ensina com estas palavras: “É pois um pacto geral da sociedade humana obedecer a seus Reis” (Confissões, livro III, cap. VIII, op. ed. Maurin., p. 94). Eis porque a origem deste poder deve ser buscada menos em um contrato social, que no próprio Deus, autor do que é reto e justo” (Pii VI Pont. Max. Acta, Typis S. Congreg. De Propaganda Fide, Roma, 1871, vol. I, pp. 70-71).

Pio VI condenou reiteradas vezes a falsa concepção de liberdade e de igualdade. No Consistório Secreto de 17 de junho de 1793, confirmando as palavras da Encíclica Inscrutabile Divinae Sapientiae de 25 de dezembro de 1775, declarou o seguinte:

“Estes perfidíssimos filósofos acometem isto ainda: dissolvem todos aqueles vínculos pelos quais os homens se unem entre si e aos seus superiores e se mantêm no cumprimento do dever. E vão clamando e proclamando até à náusea que o homem nasce livre e não está sujeito ao império de ninguém; e que, por conseguinte, a sociedade não passa de um conjunto de homens estúpidos, cuja imbecilidade se prosterna diante dos sacerdotes (pelos quais são enganados) e diante dos reis (pelos quais são oprimidos); de tal sorte que a concórdia entre o sacerdócio e o império outra coisa não é que uma monstruosa conspiração contra a inata liberdade do homem (Encíclica Inscrutabile Divinae Sapientiae). A esta falsa e mentirosa palavra Liberdade, esses jactanciosos patronos do gênero humano atrelaram outra palavra igualmente falaz, a Igualdade. Isto é, como se entre os homens que se reuniram em sociedade civil, pelo fato de estarem sujeitos a disposições de ânimo variadas e se moverem de modo diverso e incerto, cada um segundo o impulso de seu desejo, não devesse haver alguém que, pela autoridade e ela força prevaleça, obrigue e governe, bem como chame aos deveres os que se conduzem de modo desregrado, a fim de que a própria sociedade, pelo ímpeto tão temerário e contraditório de incontáveis paixões, não caia na Anarquia e se dissolva completamente; à semelhança do que se passa com a harmonia, que se compõe da conformidade de muitos sons, e que se não consiste numa adequada combinação de cordas e vozes, esvai-se em ruídos desordenados e completamente dissonantes”. (Pii VI Pont. Max. Acta, Typis S. Congreg. De Propaganda Fide, Roma, 1871, vol. II, pp. 26-27).
http://www.revolucao-contrarevolucao.com/verartigo.asp?id=86

Em livro, bispo descreve que o processo revolucionário gera ambiente propício à ação diabólica


Em seu livro "Eu, bispo exorcista", o bispo italiano D. Andrea Gemma, descreve o processo revolucionário.


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Santiago Fernández



Em recente livro(*), o bispo de Isernia-Venafro, na Itália, D Andrea Gemma, descreve suas experiências de exorcista e as surpreendentes conclusões a que foi levado durante uma década de prática do Exorcistado.

“A maior vitória do diabo consiste em convencer os homens de que ele não existe”. Esta verdade indiscutida levou o prelado à conclusão de que o ambiente moderno serve de luva ideal para as garras infernais. A todo momento, esse ambiente sugere que não há Deus nem demônio, nem Céu nem inferno. E os espíritos malignos atacam e invadem os corpos das suas vítimas de inúmeras formas. Há cultos satânicos explícitos. Mas também implícitos, como certas técnicas de meditação e algumas terapias alternativas, superstições ou modas tipo Nova Era ou músicas tipo rock and roll.

Como é que a humanidade gerou esse ambiente enganosamente neutro e materialista, porém tão útil para os espíritos das trevas?

A Revolução gera ambiente propício à ação diabólica

D. Andrea dá uma elucidativa explicação histórica. Ela se aproxima muito da denúncia do processo revolucionário que o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira formula na sua obra magistral Revolução e Contra-Revolução. Não descartamos que o culto bispo italiano tenha tirado dela alguma inspiração: “A laicização da nossa sociedade é o fruto de um longo e complexo processo que durou cerca de cinco séculos, e que se desenvolveu em três etapas fundamentais, três revoluções no campo cultural e social, mas com lances também cruentos, que levaram à gradual transformação do mundo antigo, tradicional, para dar na sociedade atual, pós-moderna e secularizada”.

D. Andrea descreve essas sucessivas revoluções: primeiro a revolução protestante, que causou um grande desgarramento da sociedade cristã medieval; segundo o Iluminismo e a Revolução Francesa; terceiro a Revolução comunista marxista. Por fim, acrescenta, uma quarta etapa ou Revolução: a do movimento estudantil dos anos 60, que contestou a família, generalizou o uso da droga, propugnou a libertação dos vínculos morais, e sobretudo revoltou-se contra toda autoridade. Esse processo gerou uma sociedade e uma cultura que tendencialmente seduzem os homens para a idéia de que Deus e a religião são coisas absurdas (pp. 113ss).

Há os que se deixam levar por essa influência, ensina D. Andrea. Mas há também os que reagem de um modo exasperado e caem no exagero oposto: as novas e enganosas formas de religiosidade. Todas são fáceis presas de Lúcifer.



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(*) D. Andrea Gemma, Io, vescovo esorcista (Eu, bispo exorcista), Editora Mondadori, Milão, 2002, 208 pp.
http://www.revolucao-contrarevolucao.com/verartigo.asp?id=53
Pretextos da revolução protestante e sua refutação

A "questão das indulgências" foi mero pretexto para a revolta. Vários anos antes, Lutero já defendia e propagava idéias abertamente heréticas. Por detrás da questão das indulgências estava a negação de vários outros pontos doutrinários.

Pretexto - A Igreja Católica encontrava-se em uma fase de decadência. Os abusos proliferavam. A venda de cargos eclesiásticos, a vida de luxo em que vivia o alto clero, a corrupção de muitos prelados escandalizavam os fiéis. A reforma foi uma reação contra este estado de coisas, com o objetivo de restaurar a Igreja e restabelecer a sua simplicidade primitiva.

Refutação - Descontados todos os exageros apresentados por certos livros de História, lamentavelmente havia na época muitos abusos, e era grande a decadência dos costumes eclesiásticos. A par, aliás, de muita virtude e muita santidade. Entretanto, os historiadores modernos reconhecem que isto não foi verdadeiramente a causa da revolução protestante.

A verdadeira reforma católica, e que corrigiu verdadeiramente os abusos existentes, teve início antes de Lutero começar a difundir os seus erros. Portanto, quando explodiu a Pseudo-reforma, as condições da Igreja haviam melhorado sensivelmente. Os verdadeiros reformadores católicos já haviam iniciado a sua obra regeneradora.

Ademais, a vida corrupta de Lutero e de outros falsos reformadores desmente essa alegação, pois de fato eles contribuíram para aumentar a decadência dos costumes, permitindo a introdução do divórcio e até autorizando a bigamia, além de abolir o celibato eclesiástico.

Finalmente, o que os protestantes atacavam não eram os eventuais abusos, mas a própria instituição hierárquica do clero e o que a doutrina católica tinha de mais essencial. A doutrina de Lutero mostra bem que ele pregava uma nova religião, e não uma reforma na Igreja Católica.


Pretexto - A Bíblia, palavra de Deus, era desconhecida dos fiéis. Os padres escondiam a Bíblia, para impor ao povo simples uma religião que não correspondia aos verdadeiros ensinamentos de Cristo, e assim conservar os seus privilégios pessoais.

Refutação - Em qualquer época histórica, a Igreja recomenda aos fiéis cautela na leitura da Bíblia, dada a grande dificuldade de interpretação de certos textos.

Isto entretanto não significa que naquela época os fiéis não pudessem ler os Livros Sagrados. Muito antes de Lutero, com o desenvolvimento da imprensa, a Bíblia era largamente difundida pelos vários países da Europa. Desde o aparecimento da imprensa até 1520, surgiram 156 edições da Bíblia am latim. Para atender ao público que não entendia o latim, foram feitas numerosas traduções para a língua vernácula. Entre 1466 e 1520 surgiram 22 edições da Bíblia traduzida para o alemão. A primeira tradução italiana surgiu em 1471; a holandesa em 1477; a francesa em 1487; e a espanhola em 1485. A tiragem de cada edição variava de 250 a 1600 exemplares.

Portanto, a afirmação de que foram os protestantes que possibilitaram ao povo a leitura da Bíblia não passa de uma das muitas invenções criadas pelo ódio à Igreja Católica, sem qualquer fundamento histórico.


Pretexto - A Religião, como aliás toda a sociedade humana, é fruto da economia. As grandes transformações econômicas do século XVI tiveram grandes repercussões no terreno religioso, dando origem à reforma protestante.

Refutação - Essa tese corresponde à interpretação marxista da História. O materialismo histórico é que coloca a economia como sendo o eixo em torno do qual giram os acontecimentos humanos.

Se esta tese fosse verdadeira, a reforma protestante deveria ter estourado na Itália, que era sem dúvida a mais "avançada" região européia da época. A Itália prosperava enormemente, e seus homens de negócio manobravam grande parte da economia de então. Basta lembrar o exemplo dos Médicis, para se ter uma idéia do desenvolvimento econômico da Península. A burguesia italiana era uma das mais prósperas e importantes do século XVI. Pelo contrário, a revolução protestante encontrou seus primeiros sucessos na Alemanha, menos desenvolvida economicamente naquele tempo.

Convém lembrar ainda que os grandes homens de negócio, os que manobravam as grandes fortunas, até o século XVII eram em sua maioria católicos.


Pretexto - A reforma foi uma conseqüência da ambição dos príncipes alemães, que queriam apoderar-se dos bens da Igreja e subtrair-se à autoridade do Imperador.

Refutação - É certo que a ambição dos príncipes alemães contribuiu poderosamente para a consolidação e expansão do protestantismo, como também é certo que alguns deles procuraram tirar vantagens políticas e econômicas da luta religiosa. Mas é historicamente certo também que a maioria dos príncipes que apoiaram Lutero agiu por razões religiosas.

Além disso, a posição dos príncipes que apoiavam a revolução protestante não era tão cômoda como parece. Na Alemanha, por exemplo, os príncipes protestantes tiveram que travar uma guerra prolongada com o Imperador Carlos V. Portanto, apoiar os protestantes não era tão vantajoso assim. Inclusive corriam o risco de perderem os próprios bens, em caso de derrota.

Por outro lado, houve na mesma época príncipes católicos que, apesar de perseguir os protestantes, também confiscaram bens eclesiásticos, como foi o caso do Rei Francisco I, da França.


Pretexto - O protestantismo foi fruto da revolta das classes humildes contra as oligarquias eclesiásticas e civis dominantes na época.

Refutação - Esta tese pode ser refutada apenas pela demonstração de que havia protestantes em todas as classes sociais, desde os camponeses até a mais alta nobreza. A parte mais propulsora do protestantismo era precisamente a formada pelo alto clero, alta burguesia e alta nobreza. Basta citar o exemplo da Inglaterra, em que o Rei Henrique VIII, com o apoio do episcopado e da nobreza, levou toda a nação à apostasia.


Pretexto - O Papa Leão X, com o objetivo de conseguir dinheiro para a construção da Basílica de São Pedro, iludia o povo ignorante com a venda de indulgências. Lutero revoltou-se contra isso e procurou esclarecer o povo. Em conseqüência, foi excomungado e expulso da Igreja.

Refutação - Indulgência, no sentido mais amplo da palavra, significa perdão da culpa ou pena merecida. Em linguagem teológica tem sentido mais restrito, e significa o perdão da pena que se deveria sofrer no Purgatório pelos pecados já cometidos, e já perdoados quanto á culpa.

Deus, ao perdoar os pecados, pode reservar-lhe certa pena ou castigo a sofrer no Purgatório. Para evitar essa pena, temos dois modos: um é praticar boas obras na graça de Deus; o outro é alcançar indulgências. Por estas, a autoridade eclesiástica perdoa-nos no todo ou em parte essa pena, aplicando em nosso favor as satisfações de Cristo e dos santos.

Para lucrar as indulgências, além dos requisitos que prescreve quem as concede, é necessário estar na graça de Deus. A doutrina das indulgências sempre foi aceita e posta em prática na Igreja.

O Papa Leão X, para conseguir fundos para a construção da Basílica de São Pedro, concedeu uma indulgência plenária a quem, estando nas disposições necessárias para lucrar a indulgência, entregasse uma esmola para esse fim. Lutero, que não admitia a necessidade da cooperação do homem na obra da salvação, não aceitava a doutrina da Igreja sobre as indulgências. Pode ter havido abusos, mas foi contra a própria doutrina católica a respeito desse ponto que Lutero se revoltou.

Aliás, a "questão das indulgências" foi mero pretexto para a revolta. Vários anos antes, Lutero já defendia e propagava idéias abertamente heréticas. Por detrás da questão das indulgências estava a negação de vários outros pontos doutrinários.
http://www.revolucao-contrarevolucao.com/verartigo.asp?id=26

Devoção Mariana: fator decisivo no embate entre Revolução e Contra-Revolução


Qual o nexo profundo existente entre a devoção a Nossa Senhora e a temática de "Revolução e Contra-Revolução" (a "RCR", como é conhecida), obra fundamental do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira? Tal é o objeto das admiráveis considerações, que a seguir publicamos. São elas parte integrante do Prólogo que o Prof. Plinio escreveu para a edição argentina da "RCR" (Buenos Aires, 1970).


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Plinio Corrêa de Oliveira



Catolicismo, N.° 464, Agosto de 1989
extraído do site: www.pliniocorreadeoliveira.info


A conturbada situação do mundo em que vivemos, proveniente da exacerbação dos erros revolucionários, torna especialmente oportuna esta publicação. Bem como nos leva a evocar, em nossa capa, a imagem de Nossa Senhora de Fátima, a Virgem cuja celeste mensagem nos adverte precisamente contra a tenebrosa face da Revolução em nossos dias — o comunismo — e de modo especial contra uma de suas molas propulsoras, a sensualidade. Ao mesmo tempo que aponta a devoção a Seu Imaculado Coração e ao Santo Rosário como remédio eficaz contra os males da Revolução.

Ademais, a preocupação em tornar claro aos olhos dos leitores o nexo entre a devoção a Nossa Senhora e a temática "RCR" não é só nossa. Do Sr. Edward Jorge Arantes (Belo Horizonte-MG) recebemos o seguinte pedido, que vem de encontro a nosso propósito:

"Como assinante antigo, tenho observado que a revista publica pelo menos um artigo em cada edição sobre a devoção a Nossa Senhora. De outro lado, o livro Revolução e Contra-Revolução, do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, é citado freqüentemente. A devoção a Nossa Senhora e a temática de Revolução e Contra-Revolução parecem ter certo nexo, mas que não chego a ver claramente. É por isso que lhes peço, com o objetivo de orientar muitos leitores que, creio, estarão com a mesma impressão, que "Catolicismo" publique um artigo mostrando bem exatamente a relação entre esses dois temas, que parecem fundamentais na luta de "Catolicismo"."

Os subtítulos são da redação.


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COMECEMOS por expor aqui al­guns pensamentos contidos em "Re­volução e Contra-Revolução".

Orgulho e impureza na origem da Revolução

A Revolução é apresentada nessa obra como um imenso processo de ten­dências, doutrinas, transformações políticas, sociais e econômicas, derivado em última análise — eu seria tentado a dizer, em ultimissima análise — de uma deterioração moral provocada pe­los vícios fundamentais: o orgulho e a impureza, que suscitam no homem uma incompatibilidade profunda com a Doutrina Católica.

Com efeito, a Igreja Católica co­mo Ela é, a doutrina que ensina, o Universo que Deus criou e que pode­mos conhecer tão esplendidamente atra­vés de seus prismas, tudo isso excita no homem virtuoso, no homem puro e humilde, um profundo enlevo. Ele sente alegria ao considerar que a Igre­ja e o Universo são como são.

Porém, se uma pessoa cede algo ao vício do orgulho ou da impureza, começa a germinar nela uma incompa­tibilidade com vários aspectos da Igre­ja ou da ordem do Universo. Essa in­compatibilidade pode originar-se, por exemplo, de uma antipatia com o cará­ter hierárquico da Igreja, desdobrar-se em seguida e alcançar a hierarquia da sociedade temporal, para mais tar­de manifestar-se em relação à ordem hierárquica da família. E, assim, por várias formas de igualitarismo, uma pessoa pode chegar a uma posição me­tafísica de condenação de toda e qual­quer desigualdade, e do caráter hierár­quico do Universo. Seria o efeito do orgulho no campo da metafísica.

De modo análogo se podem deline­ar as conseqüências da impureza no pensamento humano. O homem impu­ro, em regra geral, começa por tender ao liberalismo: irrita-o a existência de um preceito, de um freio, de uma lei que circunscreva o desbordamento de seus sentidos. E, com isto, toda asce­se lhe parece antipática. Dessa antipa­tia, naturalmente, vem uma aversão ao próprio princípio de autoridade, e assim por diante. O anelo de um mun­do anárquico — no sentido etimológi­co da palavra — sem leis nem poderes constituídos, e no qual o próprio Esta­do não seja senão uma imensa coopera­tiva, é o ponto extremo do liberalis­mo gerado pela impureza.

Tanto do orgulho, quanto do libera­lismo, nasce o desejo de igualdade e liberdade totais, que é a medula do co­munismo.

A partir do orgulho e da impureza se vão formando os elementos constituti­vos de urna concepção diametralmen­te oposta à obra de Deus. Essa concep­ção, em seu aspecto final, já não dife­re da católica só em um ou outro pon­to. À medida que, ao longo das gera­ções esses vícios se vão aprofundando e tornando-se mais acentuados, vai-se estruturando toda uma concepção gnós­tica e revolucionária do Universo. A individuação, que para a gnose é o mal, é um princípio de desigualdade. A hierarquia — qualquer que seja — é filha da individuação. O Universo — segundo os gnósticos — resgata-se da individuação e da desigualdade num processo de destruição do "eu" que reintegra os indivíduos no grande To­do homogêneo. A realização, entre os homens, da igualdade absoluta, e de seu corolário, a liberdade completa — numa ordem de coisas anárquica — pode ser vista como uma etapa prepara­tória dessa reabsorção total.

Não é difícil perceber, nesta pers­pectiva, o nexo entre gnose e comunis­mo.

A devoção a Nossa Senhora é essencial para a Contra-Revolução

Assim, a doutrina da Revolução é a gnose, e suas causas últimas têm suas raízes no orgulho e na sensualida­de. Dado o caráter moral destas cau­sas, todo o problema da Revolução e da Contra-Revolução é, no fundo, e principalmente, um problema moral. O que se diz em "Revolução e Contra-Revolução" é que se não fosse pelo orgulho e pela sensualidade, a Revolu­ção, como movimento organizado no mundo inteiro, não existiria, não seria possível.

Ora, se no centro do problema da Revolução e da Contra-Revolução há uma questão moral, há também e emi­nentemente uma questão religiosa, por­que todas as questões morais são subs­tancialmente religiosas. Não há moral sem religião. Uma moral sem religião é o que de mais inconsistente se possa imaginar. Todo problema moral é, pois, fundamentalmente religioso. Sen­do assim, a luta entre a Revolução e a Contra-Revolução é uma luta que, em sua essência, é religiosa. Se é reli­giosa, se é uma crise moral que dá ori­gem ao espírito da Revolução, então, essa crise só pode ser evitada, só pode ser remediada com o auxílio da graça.

É um dogma da Igreja que os ho­mens não podem, somente com os re­cursos naturais, cumprir duravelmen­te, e em sua integridade, os preceitos da Moral católica, sintetizados na An­tiga e na Nova Lei. Para cumprir os Mandamentos, é necessária a existência da graça.

Por outro lado, se o homem cai em estado de pecado, acumulando-se nele as apetências pelo mal, a fortiori não conseguirá levantar-se do estado em que caiu sem o socorro da graça. Provindo da graça toda preservação moral verdadeira ou toda regeneração moral autêntica, é fácil ver o papel de Nossa Senhora na luta entre a Revolu­ção e a Contra-Revolução. A graça de­pende de Deus, mas Deus, por um ato livre de sua vontade, quis fazer depen­der de Nossa Senhora a distribuição das graças. Maria é a Medianeira Uni­versal, é o canal por onde passam to­das as graças. Portanto, seu auxílio é indispensável para que não haja Revo­lução, ou para que esta seja vencida pela Contra-Revolução. Com efeito, quem pede a graça por intermédio dE­la, a obtém. Quem tente conseguí-la sem o auxílio de Maria, não a obterá. Se os homens, recebendo a graça, cor­respondem a ela, está implícito que a Revolução desaparecerá. Pelo contrá­rio, se eles não corresponderem, é ine­vitável que a Revolução surja e triun­fe. Portanto, a devoção a Nossa Senho­ra é condição sine qua non para que a Revolução seja esmagada, para que vença a Contra-Revolução.

Insisto no que acabo de afirmar. Se uma nação for fiel às graças necessá­rias e até suficientes que recebe de Nos­sa Senhora, e se se generaliza nela a prática dos Mandamentos, é inevitável que a sociedade se estruture bem. Por­que, com a graça, vem a sabedoria, e com a sabedoria, todas as atividades do homem entrarão nos eixos.

Isso se verifica, de certo modo, com a análise do estado em que se encontra a civilização contemporânea. Construí­da sobre uma recusa da graça, alcan­çou alguns resultados estrepitosos. Es­tes, porém, devoram o homem. Na medida em que tem por base o laicis­mo e viola, sob vários aspectos, a or­dem natural ensinada pela Igreja, a ci­vilização atual é nociva ao homem.

Sempre que a devoção a Nossa Se­nhora seja ardorosa, profunda, de ri­ca substância teológica, é claro que a oração de quem pede será atendida. As graças choverão sobre a pessoa que reza a Ela devota e assiduamente. Se, pelo contrário, essa devoção for falsa ou tíbia, manchada por restrições de sabor jansenista ou protestante, há gra­ve risco de que a graça seja dada me­nos largamente, porque encontra por parte do homem nefastas resistências.

O que se diz do homem pode dizer-se, mutatis mutandis, da família, de uma região, de um país, ou de qual­quer outro grupo humano.

É costume dizer-se que na economia da graça, Nossa Senhora é o pescoço do Corpo Místico, do qual Nosso Se­nhor Jesus Cristo é a Cabeça, porque tudo passa por Ela.

A imagem é inteiramente verdadei­ra na vida espiritual. Um indivíduo que tem pouca devoção a Nossa Senhora é como alguém que tem uma corda atada ao pescoço e conserva apenas um fio de respiração. Quando não tem nenhuma devoção, se asfixia. Tendo uma grande devoção, o pescoço fica completamente livre e o ar penetra abun­dantemente no pulmão, podendo o ho­mem viver normalmente.

A esterilidade e até a nocividade de tudo quanto se faz contra a ação da graça, e a enorme fecundidade do que se faz com seu auxílio, determinam bem a posição de Nossa Senhora nes­se combate entre a Revolução e a Con­tra-Revolução, pois a intensidade das graças recebidas pelos homens depen­de da maior ou menor devoção que a Ela tiverem.

O concurso do espírito do mal

Uma visão da Revolução e da Con­tra-Revolução não pode ficar apenas nestas considerações. A Revolução não é o fruto da exclusiva maldade huma­na. Esta última abre as portas ao demô­nio, pelo qual se deixa estimular, exa­cerbar e dirigir.

É, pois, importante considerar, nes­ta matéria, a oposição entre Nossa Se­nhora e o demônio.

O papel do demônio na eclosão e nos progressos da Revolução foi enor­me. Como é lógico pensar, uma explo­são de paixões desordenadas tão pro­funda e tão geral como a que originou a Revolução não teria ocorrido sem uma ação preternatural. Além disso, seria difícil que o homem alcançasse os extremos de crueldade, de impieda­de e de cinismo, aos quais a Revolução chegou várias vezes ao longo de sua história, sem o concurso do espírito do mal.

Ora, esse fator de propulsão tão forte está inteiramente na dependência de Nossa Senhora. Basta que Ela ful­mine um ato de seu império sobre o in­ferno, para que ele estremeça, se con­funda, se encolha e desapareça da ce­na humana. Pelo contrário, basta que Ela, para castigo dos homens, deixe ao demônio um certo raio de ação, pa­ra que a ação deste progrida. Portan­to, os enormes fatores da Revolução e da Contra-Revolução, que são respec­tivamente o demônio e a graça, depen­dem de seu império e seu domínio.

Efetiva Realeza de Maria

A consideração deste soberano po­der de Nossa Senhora nos aproxima da idéia da realeza de Maria.

É preciso não ver essa realeza co­mo um título meramente decorativo. Embora submissa em tudo à vontade de Deus, a realeza de Nossa Senhora importa num poder de governo pesso­al muito autêntico.

Tive ocasião de empregar certa vez, numa conferência, uma imagem que facilita a compreensão do papel de Nossa Senhora como Rainha.

Imaginemos um diretor de colégio com alunos muito insubordinados. Ele os castiga com uma autoridade de ferro. Depois de os ter submetido à ordem, retira-se dizendo à sua mãe: "Sei que governareis este colégio de modo dife­rente do que estou fazendo agora. Vós tendes um coração materno. Tendo eu castigado esses alunos, quero agora que os governeis com doçura". Essa senhora vai dirigir o colégio como o diretor quer, porém com um método diverso daquele que usou o diretor. A atuação dela é distinta da dele; não obstante, ela faz inteiramente a vonta­de dele.

Nenhuma comparação é exata. En­tretanto, julgo que, sob certo aspecto, esta imagem nos ajuda a entender a questão.

Análogo é o papel de Nossa Senhora como Rainha do Universo. Nosso Senhor lhe deu um poder régio sobre toda a criação, cuja misericórdia, sem chegar a nenhum exagero, chega entre­tanto a todos os extremos. Ele colo­cou-A como Rainha do Universo para governá-lo e, especialmente, para go­vernar o pobre gênero humano decaí­do e pecador. E é vontade dEle que Ela faça o que Ele não quis fazer por si, mas por meio dEla, régio instrumen­to de seu Amor.

Há, pois, um regime verdadeiramente marial no governo do Universo. E as­sim se vê como é que Nossa Senhora, embora sumamente unida a Deus e de­pendente dEle, exerce sua ação ao lon­go da História.

Nossa Senhora é infinitamente infe­rior a Deus — é evidente — porém, Deus quis dar a Ela esse papel por um ato de liberalidade. É Nossa Senho­ra quem, distribuindo ora mais larga­mente a graça, ora menos, freando ora mais, ora menos, a ação do demônio, exerce sua realeza sobre o curso dos acontecimentos terrenos. Nesse senti­do, depende dEla a duração da Revolu­ção e a vitória da Contra-Revolução.

Além disso, às vezes Ela intervém diretamente nos acontecimentos huma­nos, como o fez, por exemplo, em Le­panto. Quão numerosos são os fatos da História da Igreja em que ficou cla­ra sua intervenção direta no curso das coisas! Tudo isto nos faz ver de quan­tos modos é efetiva a realeza de Nos­sa Senhora.

Quando a Igreja canta a seu respei­to: "Tu só exterminaste as heresias no mundo inteiro", diz que seu papel nes­se extermínio foi de certo modo único. Isso eqüivale a dizer que Ela dirige a História, porque quem dirige o exter­mínio das heresias dirige o triunfo da ortodoxia, e dirigindo uma e outra coi­sa, dirige a História no que ela tem de mais medular.

Haveria um trabalho de História interessante para fazer, o de demons­trar que o demônio começa a vencer quando consegue diminuir a devoção a Nossa Senhora. Isso se deu em todas as épocas de decadência da Cristanda­de, em todas as vitórias da Revolução.

Exemplo característico é o da Euro­pa antes da Revolução Francesa. A de­voção a Nossa Senhora nos países cató­licos foi prodigiosamente diminuída pelo jansenismo, e é por isso que eles ficaram como uma floresta combustível, onde uma simples chispa pôs fo­go em tudo.

Estas e outras considerações tiradas do ensinamento da Igreja abrem pers­pectivas para o Reino de Maria, isto é, uma era histórica de Fé e de virtu­de que será inaugurada com uma vitó­ria espetacular de Nossa Senhora sobre a Revolução. Nessa era, o demônio se­rá expulso e voltará aos antros infer­nais, e Nossa Senhora reinará sobre a humanidade por meio das instituições que para isso escolheu.

O Reino de Maria e a união de almas

Quanto a essa perspectiva do Rei­no de Maria, encontramos na obra de São Luís Maria Grignion de Montfort algumas alusões dignas de nota. Ele é sem dúvida um profeta que anuncia essa vinda. Disso fala claramente: "Quando virá esse dilúvio de fogo do puro amor, que deveis atear em toda terra de um modo tão suave e tão vee­mente, que todas as nações, os turcos, os idólatras, e os próprios judeus hão de arder nele e converter-se?" ("Ora­ção Abrasada" de São Luís Maria Grig­nion de Montfort, "Oeuvres Complètes", Editions du Seuil, Paris, 1966, pág. 681). Esse dilúvio, que lava­rá a Humanidade, inaugurará o Rei­no do Espírito Santo, que ele identifi­ca com o Reino de Maria. Nosso san­to afirma que vai ser uma era de flores­cimento da Igreja como até então nun­ca houve. Chega inclusive a afirmar que "o Altíssimo, com sua Santa Mãe, devem formar para si grandes santos, que sobrepujarão em santidade a maior parte dos outros santos, como os ce­dros do Líbano se avantajam aos pe­quenos arbustos" ("Tratado da Verda­deira Devoção à Santíssima Virgem" de São Luís Maria Grignion de Mont­fort, "Oeuvres Complètes", Editions du Seuil, Paris, 1966, págs. 512 e 513, N° 47.) Considerando os grandes san­tos que a Igreja já produziu, ficamos deslumbrados ante a envergadura des­ses que surgirão sob o bafejo de Nos­sa Senhora.

Nada é mais razoável do que ima­ginar um crescimento enorme da santi­dade numa era histórica em que a atua­ção de Nossa Senhora aumente também prodigiosamente. Podemos, pois, dizer que São Luís Maria Grignion de Mont­fort, com seu valor de pensador, mas sobretudo, com sua autoridade de san­to canonizado pela Igreja, dá peso, au­toridade, consistência, às esperanças que brilham em muitas revelações par­ticulares, de que virá uma época na qual Nossa Senhora verdadeiramente triunfará.

A realeza de Nossa Senhora, embo­ra tenha uma soberana eficácia em to­da a vida da Igreja e da sociedade tem­poral, realiza-se em primeiro lugar no interior das almas. Daí, do santuário interior de cada alma, é que ela se re­flete sobre a vida religiosa e civil dos povos, enquanto considerados como um todo.

O Reino de Maria será, pois, uma época em que a união das almas com Nossa Senhora alcançará uma intensi­dade sem precedentes na História (exce­ção feita, é claro, de casos individuais).

Escravidão a Nossa Senhora e Apóstolos dos Últimos Tempos

— Qual é a forma dessa união em certo sentido suprema? — Não conhe­ço meio mais perfeito para enunciar e realizar essa união do que a Sagrada Escravidão a Nossa Senhora, tal co­mo é ensinada por São Luís Maria Grig­nion de Montfort no "Tratado da Ver­dadeira Devoção".

Considerando que Nossa Senhora é o caminho pelo qual Deus veio aos homens e estes vão a Deus, tendo pre­sente a realeza universal de Maria, nos­so santo recomenda que o devoto da Santíssima Virgem se consagre inteira­mente a Ela como escravo. Essa consa­gração é de uma radicalidade admirá­vel. Ela abarca não só os deveres mate­riais do homem, como também até o mérito de suas boas obras e orações, sua vida, seu corpo e sua alma. Ela é sem limites, porque o escravo por defi­nição nada tem de seu.

Em troca dessa consagração, Nos­sa Senhora atua no interior de seu es­cravo de modo maravilhoso, estabele­cendo com ele uma união inefável.

Os frutos dessa união serão vistos nos Apóstolos dos Últimos Tempos, cujo perfil moral ele traça, a fogo, em sua famosa "Oração abrasada". Ele usa, para isso, uma linguagem de uma grandeza apocalíptica, na qual parece reviver todo o clamor de um São João Batista, todo o fogo de um São João Evangelista, todo o zelo de um São Paulo. Os varões portentosos que lutarão contra o demônio pelo Rei­no de Maria — conduzindo gloriosa­mente, até o fim dos tempos, a luta contra o demônio, o mundo e a carne — São Luís os descreve como magnífi­cos modelos que convidam desde já, à perfeita escravidão a Nossa Senhora, os que, nos tenebrosos dias de hoje, lutam nas fileiras da Contra-Revolução.

Assim, com estas considerações so­bre o papel de Nossa Senhora na luta da Revolução e da Contra-Revolução, e sobre o Reino de Maria, vistas segun­do o "Tratado da Verdadeira Devo­ção", creio ter enunciado os principais pontos de contato entre a obra prima do grande santo e meu ensaio — tão apequenado pela comparação — sobre "Revolução e Contra-Revolução".
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Atualidade perene de "Revolução e Contra-Revolução"

EM SEU NÚMERO 100, de abril de 1959, "Catolicismo" se viu honrado por estampar, pela primeira vez, o ensaio “Revolução e Contra-Revolução” do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira que posteriormente, em forma de livro, seria publicado em espanhol, francês, inglês, italiano e português. Em 1976, o autor acrescentou uma nova parte ao livro pata tratar da revolução anarquista desencadeada a partir da Sorbonne em maio de 1968. “Revolução e Contra-Revolução” descreve a crise multissecular do Ocidente, aponta-lhe as causas, mostra suas últimas perspectivas, mas indica também o caminho de salvação. O livro é o compêndio básico para a vasta família de almas que se congrega, em dezenas de países, em torno dos ideais da Contra-Revolução. Convida o homem contemporâneo a rejeitar todos os aspec­tos da revolução laicista e igualitária e a restaurar em suas bases, ao mesmo tem­po perenes e atualizadas, a ordem espiritual e a ordem temporal cristãs. No mo­mento em que a Revolução Francesa, embora velha de 200 anos, salta para a ca­pa de revistas internacionais, o livro de Plinio Corrêa de Oliveira, por causa da vastidão de horizontes com que analisa a crise contemporânea, torna-se instrumen­to imprescindível para os católicos que desejam se manter em dia, esclarecidos e sadiamente atualizados.

http://www.revolucao-contrarevolucao.com/verartigo.asp?id=10

Como se prepara uma revolução - o Jansenismo e a terceira força ( I )




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Plinio Corrêa de Oliveira



Catolicismo Nº 20 - Agosto de 1952 - extraído do site: www.pliniocorreadeoliveira.info

Como se sabe, a Revolução Francesa foi fruto de uma preparação ideológica profunda, que, desde o Renascimento e o Protestantismo, passando pelo Deísmo e o Iluminismo, chegou à impiedade completa, expressa com toda a nitidez nas realizações políticas e religiosas do surto republicano de 1792.

O Jansenismo, quinta coluna na Igreja



O Cardeal Fleury, ministro de Luiz XV, foi, por temperamento e ambição política, um instrumento ideal da terceira força. Apoiou sistematicamente os Bispos que, com aparência de ortodoxos, impediam por sua inércia a luta contra o jansenismo. O quadro de Rigaud exprime bem a mentalidade superficial e otimista de Fleury. Fisionomia inteligente, risonha, despreocupada, porte nobre mas distendido, de homem pouco afeito à luta, o Cardeal parece fruir todas as venturas desta vida no exercício das altas funções eclesiásticas e civis cuja pompa é manifestada no quadro pela riqueza dos móveis, abundância e fausto dos panejamentos.

Considerada à primeira vista, nos fins do século XVIII a luta pareceria delinear-se em termos muito claros: de um lado a Igreja, no lado oposto o conjunto de correntes e seitas declaradamente ímpias - Protestantismo, Filosofismo, Iluminismo, etc. - que se poderia chamar a anti-Igreja. Na realidade, o panorama era mais complexo. A anti-Igreja não colocara todos os seus sequazes nas hostes reconhecidamente heterodoxas; pois encontrou ela meios para instalar em grande número elementos seus dentro das próprias fileiras católicas. E estes elementos não estavam isolados uns dos outros, agindo cada qual por própria conta. Constituíam toda uma rede de atividades sabiamente executadas, visando fazer dentro da Igreja o jogo dos adversários desta, em suma o que em nossos dias se chamaria uma quinta-coluna.

O objetivo desta quinta-coluna consistia em minar a reação católica. Para isso, tinha uma dupla missão. Primeiramente, difundir, sob capa de Catolicismo genuíno, sistemas teológicos e morais errôneos, que aproximassem os fiéis das tendências ímpias, e os distanciassem dos ensinamentos de Roma. Em segundo lugar, introduzir-se quanto possível nos cargos chave: cátedras universitárias, direção espiritual de seminários e comunidades religiosas, de tronos e principados, paróquias importantes, e, acima de tudo, sólios episcopais. A heresia procurava assim infiltrar-se o mais profundamente que podia nas próprias entranhas da Igreja e das monarquias cristãs e conseguia desnortear e perder os fiéis, ensinando-lhes com autoridade quase da mesma Igreja os erros que esta condenava.

Tal foi o Jansenismo, heresia nefasta que com cínicos subterfúgios burlou as várias condenações contra ela lançadas pelo Magistério Infalível, e procurou conservar-se sempre no seio do Catolicismo, para viciar-lhe as fontes de vitalidade.

O Jansenismo minava a Fé e extinguia a piedade


A obediência e docilidade ao Santo Padre, a fidelidade à Escolástica - essa síntese admirável da Filosofia e da Revelação, - o fervor dos fiéis no hábito da Confissão e da Mesa Eucarística, e a devoção a Nossa Senhora, asseguram na Igreja a conservação dessa energia que a torna a rocha viva contra qual se quebram as armas infernais.

Os Jansenistas, inimigos da Igreja, tentam permanecer aparentemente no seu seio, para acabar com tudo isso. Seu rigorismo farisaico afasta os fiéis dos Sacramentos. A crítica sofística a que submetiam as decisões pontifícias, criou o "opinionismo", o "liberalismo católico", a liberdade de pensar cada um como queira, pois que tudo não passa de opiniões que podem ser verdadeiras, como podem ser falsas; a exaltação da Patrística e da Igreja primitiva, abalando a confiança na Escolástica, teologia mais clara, mais precisa mais definida, dá origem às incertezas da inteligência agindo em um campo ainda nebuloso, e confirma profundamente os espíritos na convicção de que tudo são opiniões igualmente respeitáveis.

Esta a intenção do Jansenismo como pode ver-se por sua história. Na realidade apresentava-se como defensor da Teologia de Santo Agostinho, interpretada em sentido protestante, como se o Doutor da Graça admitisse a dupla predestinação como fruto necessário da graça divina ou de sua ausência. Pois, para os jansenistas, há preceitos divinos para cujo cumprimento faltam ao homem as energias necessárias; e caso receba estas energias, ou seja a graça de Deus, já não é mais ele livre de realizar a boa obra: o auxílio divino impulsiona necessariamente sua vontade.

Na aparência, portanto, o Jansenismo divide os espíritos num mero campo teológico. De fato, é uma conjuração à maneira de quinta-coluna hodierna, para solapar a Igreja.

Desmascarada a quinta coluna


Percebe-se facilmente que esta seita herética realizaria sua infernal empresa com êxito se conseguisse ficar inteiramente oculta dentro dos meios católicos. Porém, tal não se deu. Vigorosamente combatida por polemistas e teólogos de valor, foi ela obrigada a defender-se. E, saindo a campo, pôs à mostra não só as garras, mas toda a musculatura. Seu objetivo essencial ficava assim, ao menos em parte, baldado. Roma, alertada, condenara o sistema. Os fiéis estavam, pois, premunidos. Os jansenistas que se diziam católicos, já não podiam agir na sombra, como uma quinta coluna. Restava-lhes constituir, conservando a aparência de católicos, uma espécie de "igreja dentro da Igreja", arregimentando os espíritos mais orgulhosos, mais temerários, mais relaxados, para, numa guerrilha incessante de chicana e sofismas com os católicos autênticos, manter em luta contínua os filhos da luz. Com isto, mais fácil se urdia a conspiração dos filhos das trevas fora dos arraiais da Igreja.

Entre jansenistas e ortodoxos, uma terceira força


Na revista "Annales" ( abril-junho de 1951 ), atualmente, como se sabe, um dos melhores órgãos especializados em História, Émile Appolis publica um artigo valioso e muito interessante, em que, reunindo fatos já conhecidos e documentos novos por ele pesquisados, chega a demonstrar, com impressionante clareza, que o jansenismo, caracterizado, condenado, perseguido, mas sempre entranhado nos meios católicos, engendrou por sua vez uma como que terceira força - terceiro partido, diz Appolis - constituída de eclesiásticos de várias categorias, que realizaram a tarefa muito delicada de dar aos jansenistas condições de existência suportáveis no seio da Igreja, apesar de toda a pressão contrária. Preliminarmente, estes eclesiásticos não se diziam jansenistas. Antes, a linha geral de seu procedimento dava a ilusão de que estavam de acordo com Roma. Na realidade, porém, não combatiam o Jansenismo, sustentavam a tese de que este normalmente desapareceria se os anti-jansenistas cessassem qualquer campanha contrária, e Santa Sé se abstivesse de toda medida de rigor que tivesse caráter pessoal.

Esta posição, que doutrinariamente nem era a dos jansenistas, nem a dos anti-jansenistas militantes, agradou a muitos espíritos eminentes, desejosos de empenhar toda a sua influência para desmoralizar a luta contra a heresia.

A partir do momento em que esta tática ardilosa triunfou, nas fileiras católicas houve três atitudes: os jansenistas, em luta aberta com os partidários de Roma; a terceira força, também em oposição aos partidários de Roma, que acusava de exagerados, intransigentes, fomentadores de lutas, inimigos da caridade; e os partidários de Roma, isolados, incompreendidos, desmoralizados porque contra eles se voltavam não só os jansenistas, mas muitas pessoas ilustres pelos seus cargos, e dignas por sua piedade e austeridade de vida, alistadas na terceira força.

O grande mérito do estudo de Appolis está em que põe em relevo que os homens da terceira posição, sob a capa de neutralidade, eram dedicados agentes da causa jansenista e que à seita prestavam o mais precioso dos serviços.

Este importante ponto da História eclesiástica recebe assim luz nova. "CATOLICISMO", em cujo programa se inscreve o fomento do interesse pela História da Igreja, oferece a seus leitores os principais tópicos do estudo de Emile Appolis. Desnecessário será lembrar a pessoas cultas que a grande interferência, então existente, do poder temporal na preconização dos Bispos, prejudicava gravemente a liberdade de movimentos da Santa Sé, bem como a seleção de Pastores verdadeiramente imbuídos do espírito de integral fidelidade a Roma.

Constitucionários, Apelantes, Moderados


Appolis toma como objeto de seu estudo a França do século XVIII. O Jansenismo estava em sua última fase de existência como seita ( pois sobreviveu a si mesmo no espírito liberal que infesta ainda hoje muitas mentalidades e movimentos católicos ). Seu grande chefe naquela época era Pasquier Quesnel, cujo livro "Réflexions morales sur le Nouveau Testament" foi, após várias peripécias, fulminado pela bula "Unigenitus" de Clemente XI ( 8 de setembro de 1713 ). Mas o Jansenismo, graças à negligência do poder secular, já tinha firmado raízes em França. Assim, embora registrada pelo Parlamento, e aceita pela Assembléia do Clero, não obteve aquela bula papal obediência pacífica de todo o país; diante dela dividiram-se os Bispos franceses em três grupos. Uma parte acatou plenamente a palavra de Roma, e aplicou com ardor todos os dispositivos da bula; chama-os Appolis "constitucionários", em virtude de sua adesão perfeita à Constituição Apostólica. Outra parte, declaradamente jansenista, recusou submeter-se à decisão da Santa Sé, e apelou da Constituição para o futuro Concílio geral: são os "apelantes", que eram quatro em 1717, e depois foram em número de vinte. Uma terceira parte escolheu posição média, subscreveu a bula, mas nada fez para sua aplicação: são os que Appolis chama de terceira força.

A arma da 3ª força: salvar a união


A razão invocada por este último grupo de Prelados é a manutenção da paz entre as ovelhas, e da caridade com todos. Assim, não tomam partido, nem se preocupam com saber se há jansenistas em suas dioceses. Tal o Bispo de Perigueux, Mons. Pedro Clemente que, ao morrer, mereceu este elogio: "M. l’Evêque avait, jusques à sa mort même, assez contribué à notre repos; personne n’avait pris de parti ( a favor ou contra a "Unigenitus" ) et on ne nous en avait point demandé" ( Carta do subdelegado de Perigueux ao intendente de Bordeaux, em 25 de abril de 1719 ).

Mesma atitude a de vários outros Prelados: do sucessor de Mons. Pedro Clemente em Perigueux; de Mons. Dionisio Alexandre Le Blanc, da diocese de Sarlat; de Mons. Luiz-Carlos des Alrys de Rousset que mantém durante quarenta anos na sua diocese uma calmaria inexistente nos bispados vizinhos; de Mons. J. A. Phélypeaux, Bispo de Lodéve, absolutamente alheio às bulas e às declarações reais. Quando uma destas últimas em 11 de julho de 1722 impunha a aceitação do Formulário anti-jansenista a quantos recebessem ordens sacras, ou fossem providos em benefícios eclesiásticos, Mons. Phélypeaux não teve a menor dúvida em conferir ordens a muitos súbditos seus que recusaram a subscrição do formulário, como também concedeu prebendas eclesiásticas sem exigir das pessoas assim favorecidas o preenchimento desta formalidade.

Não são estes propriamente a terceira força. Sua falta de zelo e uma tintura de espírito céptico fazem deles uma porção menos digna dos cargos que ocupam. Os do terceiro partido têm atitude análoga, mas são levados não por negligencia, e sim por questão doutrinária, pelo princípio de que a paz é um valor supremo, sendo pois desejável mantê-la a todo custo, ainda quando com isto se atem os pulsos aos defensores da verdade, e se abra campo aos propagadores do erro.

Mantendo, diz Appolis, uns com os outros relações muito cordiais, formam um verdadeiro partido intermediário entre os "apelantes" e seus adversários. Sem recorrer para um futuro Concílio, e afirmando sempre sua submissão à bula de Clemente XI, estes Prelados recusam, não obstante, enfileirar-se entre os "constitucionários" inteiramente dóceis a Roma. Como os jansenistas, é por "amor da paz" e "ódio ao cisma" que eles almejam o fim das discussões. Não querem considerar os "apelantes" como suspeitos de heresia, uma vez que estes afirmam condenar as cinco proposições de Jansenio e sustentar sobre a graça a doutrina de Santo Agostinho, por cujas idéias têm eles também grande veneração. Assim, o que estes Bispos querem é simplesmente pôr uma pedra sobre a questão. "Os que sustentam este terceiro partido, pois, - conclui Appolis - aspiram restaurar a unidade na Igreja, não pela retratação dos jansenistas, mas pelo estabelecimento de uma tolerância da qual estes seriam os beneficiados".

Significativa é a este respeito a pastoral de fevereiro de 1715 de Mons. Honorato de Quiperan de Beaujeu, Bispo de Castres. Depois de protestar sua deferência para com a Santa Sé, e falar em termos comovedores "do respeito e submissão que devemos a Cefas", declara ele que pretende manter a balança igual entre os dois grupos adversários: "Prelados respeitáveis por sua ciência e piedade julgaram dever apelar para o futuro Concílio... Outros Prelados a quem devemos não menor respeito acabam de condenar este apelo e declará-lo cismático". Por amor da paz, Mons. de Beaujeu se mantém à margem das disputas. E dá aos seus diocesanos mandamentos coerentes com este propósito. Ele só deseja, em sua diocese, a paz e a caridade: "... deixamos a outros o cuidado de esclarecer e defender a verdade, obscurecida ou atacada pelas discussões que viciam a caridade, na qual, só, queremos nos firmar e firmar-vos conosco".

Transborda particularmente sua caridade para com os "apelantes": "Sentimos grande pesar de ver nossos irmãos - e que irmãos, meu Deus! - sentimos pesar de vê-los acusados de rebelião, temos pesar de vê-los tratados como cismáticos e sabemos que eles aborrecem o cisma como o maior dos crimes. Temos pesar de vê-los acusados de heresia, sabemos que eles condenam as cinco proposições de Jansênio, e que sustentam, em matéria da graça, nada mais do que a doutrina de Santo Tomaz e Santo Agostinho..."

Não é, pois, para admirar que os Bispos "apelantes" mantenham grande cordialidade com os homens do partido intermediário.

O Cardeal Fleury apóia a 3ª força


Quando o Cardeal Fleury foi chamado ao posto de Ministro de Luiz XV, e teve o encargo de prover os benefícios eclesiásticos, alegrou-se com a existência do terceiro partido. Nele via o Ministro os homens da paz, que evitariam toda perturbação no reino. De maneira que, embora desejasse a submissão a Roma, considerava mais urgente manter a tranqüilidade pública. Esta preocupação orientou toda a política eclesiástica de Fleury. Não lhe agradavam os "constitucionários". Também não apoiava abertamente os "apelantes". Suas predileções eram para os da terceira força, não obstante notar neles simpatias e tendências jansenistas. Foi nas fileiras da terceira força que Fleury recrutou os candidatos ao Episcopado, e, com a prudência que o caso pedia, foi substituindo no governo das dioceses os "constitucionários" por elementos do grupo intermediário. Em Carcassone, no lugar de Mons. L. J. de Chateauneuf de Rochebonne, que entregara seu seminário aos jesuítas, Fleury coloca a Bazin de Bezons; em Chalons-sur-Marne a Mons. Tavannes, que proibira às Ursulinas jansenistas a recepção dos Sacramentos, sucede Choiseul Beaupré; em Mirepoix, Mons. Ch. Jo. de Quiperan de Beaujeu, sobrinho do outro Quiperan de Beaujeu já tido como cripto-jansenista, substitui ao Teatino Mons. Boyer, ardoroso "constitucionário", chamado para preceptor do Delfim; em Soissons, Mons. Fitz-James é o sucessor mediato de Mons. Languet de Gergy, outro ardente adepto da "Unigenitus".

Para que se aquilate o grau de ortodoxia destes elementos - e não foram os únicos; são apenas exemplos - basta lembrar que Fleury teve que vencer escrúpulos de consciência na nomeação de alguns deles, como Souillac, Bispo de Lodève, sobre quem pesavam suspeitas não infundadas de heresia.

É bem possível que esses rumores acerca da ortodoxia dos adeptos da paz a qualquer preço tenha sido uma das razões que lhes mereceram o apoio do Cardeal Ministro. Tornando-se o grande protetor desses Prelados tinha Fleury certeza de que, em qualquer eventualidade, a ele recorreriam, o que lhe dava praticamente a direção de toda a Igreja de França. E foi precisamente o que ocorreu. Quando o Jansenismo derivou para os feitos miraculosos, ou mirabolantes, as convulsões, as curas, etc., todos estes Bispos abafaram os fatos, evitando qualquer ruído, seguindo docilmente as intenções de inteira calmaria do Cardeal.

A terceira força teve um momento de pânico quando, pelo falecimento do Cardeal Fleury ( 1743 ), substituiu-o na tarefa de propor à Santa Sé, em nome do Rei, os candidatos ao episcopado, o mesmo Mons. Boyer afastado de Mirepoix pelas suas idéias ardorosamente favoráveis à bula "Unigenitus". E não tivesse Mons. Boyer morrido em 1755, em breve teria a Igreja de França ficado livre de "apelantes" e intermediários, com um Episcopado inteiramente dócil às instruções de Roma. Infelizmente seus dois sucessores, primeiro o Cardeal de La Rochefoucauld, falecido em 1757, e depois Mons. Jarente de la Bruyère, Bispo de Orléans, retomaram a política de Fleury, e se tornaram responsáveis pela nomeação de muitos Prelados da terceira força.

Os cripto-jansenistas aparentam devoção e zelo apostólico

Quão útil fosse à causa jansenista este partido intermediário, é patente a quem considera as possibilidades excepcionais que tinham os Prelados a ele filiados de difundir toda uma mentalidade de inação diante do erro e da heresia: possibilidades aumentadas pelo teor de vida destes Bispos, de exterior austero, zeloso e pio, que ainda mais os recomendava.

Todos eles apresentam, de fato, caracteres mais ou menos comuns. Se nem todos são Oratorianos ( a Congregação do Oratório, do Cardeal de Berulle, foi um grande baluarte do Jansenismo ), quase todos fizeram seus estudos em institutos confiados aos Oratorianos. Outros são ex-alunos dos Doutrinários.

Esta origem que poderia faze-los suspeitos, era contrabalançada por outras qualidades capazes de influenciar poderosamente o espírito do povo. Em geral tinham alto conceito de seus deveres episcopais. Escrupulosos observadores da lei de residência, assíduos e infatigáveis nas visitas pastorais, jamais deixavam de instruir o povo em sermões e catequeses. Mons. Souillac, em 29 de novembro de 1735, permanece no púlpito durante duas horas e um quarto para encerrar a missão de Lodève.

Outro aspecto próprio a atrair a veneração do povo, eram as práticas de caridade. Mons. La Chatre, Mons. Souillac, Mons. Beauteville e Mons. Bazin de Bezons constituem herdeiros de seus bens os hospitais das respectivas sedes episcopais.

Em matéria pecuniária, mostram-se absolutamente desinteressados. Renunciam a outros benefícios, para se contentarem exclusivamente com as entradas das próprias cúrias. Severos consigo, são igualmente com o povo. Appolis taxa-os de rigoristas. O Cabido da Catedral de Alès, anunciando aos fiéis a morte de Mons. de Beauteville, salienta que "ele tinha uma opinião muito severa sobre os deveres do homem com relação a Deus, e julgava que o caminho do Céu é estreito e difícil". Mons. Souillac, nos quatro primeiros anos de seu episcopado, recusa-se a conferir ordens sacras pelo temor de enganar-se na escolha dos candidatos. Bazin de Bezons prepara-se para as ordenações com jejuns, mortificasses e orações instantes. Este mesmo Prelado é o terror de seu Clero pelo excessivo rigor nas visitas pastorais. Esta severidade é geral entre os Bispos da corrente intermédia. Levanta-se também contra os desmandos de Luiz XV, mesmo em publicações destinadas à divulgação, como instruções pastorais.

Veremos no próximo número como esses Prelados prestaram auxílio e concurso inestimável à seita jansenista.
http://www.revolucao-contrarevolucao.com/verartigo.asp?id=5

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