sábado, 8 de maio de 2010

Parvenu, de Leão XIII. Denúncia contra os "revolucionários" (iluministas, comunistas, protestantes, maçons, etc.).


Sobre a Igreja Católica (Parvenu) - Encíclica de Leão XIII
http://www.revolucao-contrarevolucao.com/verartigo.asp?id=50
Ao que nos parece, é a primeira vez que esta encíclica aparece em língua portuguesa na internet. Não temos nenhum direito autoral sobre esta encíclica, os que desejarem copiá-la para sites pessoais podem fazer desde que citem a Editora Vozes; apenas pedimos que lembrem do trabalho e tempo dispensados que tivemos em digitá-la e, se desejarem, como forma de agradecimento, indiquem nosso site. Nesta Encíclica, ensina o grande Pontífice que todo o progresso do Ocidente cristão jamais teria existido sem a ação sobrenatural da Igreja. Foi Ela que elevou a humanidade ao alto nível moral que atingiu na Idade Media; foi Ela que ensinou aos povos os princípios da sabedoria política e social de que decorreu o aparecimento da civilização justamente dita cristã; foi em Seu regaço que a teologia, a filosofia, as artes e a vida de sociedade floresceram. Ensina ainda Leão XII que a História é, a partir do Protestantismo, uma série de revoluções em que se foi decompondo e desarticulando sucessivamente o corpo harmônico e orgânico da Cristandade Medieval. O Protestantismo foi a revolta niveladora e anti-sacral na Religião. A Revolução Francesa foi a mesma revolta na política. O Comunismo é ainda a mesma revolta na economia e na organização social. Três catástrofes, três degraus ao fim dos quais nos espera a dissolução da civilização, se o mundo se obstinar em não ouvir o chamado do Bom Pastor.

DOCUMENTOS PONTIFÍCIOS SOBRE A IGREJA CATÓLICA
Leão XIII
(Parvenu á la vingt-cinquième amnée)

IMPRIMATUR. Por Comissão especial do Exmo. e Revmo. Sr.Dom Manuel Pedro da
Cunha Cintra, Bispo de Petrópolis. Frei Lauro Ostermann, OFM, Petrópolis, 27-3-1952
Tradução de J. de Freitas Guimarães Ablas. Editora Vozes LTDA., Petrópolis, RJ, 1952
Carta Encíclica
A todos os Patriarcas, Primazes, Arcebispos e Bispos do mundo católico: sobre a Igreja Católica.
Leão XIII, PAPA
Veneráveis Irmãos, saúde e Benção Apostólica.
Introdução

Sentimento de gratidão para com Deus

1. Chegados ao vigésimo quinto ano de nosso ministério apostólico, e maravilhando-Nos à vista do árduo caminho percorrido, sentimo-Nos naturalmente impelidos a erguer o pensamento ao Deus Benigno, que nos quis conceder tantos benefícios, e uma duração de Pontificado como poucos se encontram na História. Ao Pai de todos, Aquele que tem em suas mãos o segredo da vida, brota espontaneamente, como viva necessidade do coração, o hino do agradecimento. Certamente não pode o olhar humano penetrar os desígnios divinos sobre tão extraordinária e inesperada longevidade, e Nós os devemos adorar em silêncio; uma coisa, porém, bem sabemos, e é que, se lhe aprove e ainda apraz conservar a nossa existência, incumbe-Nos a altíssima obrigação de viver para o bem e trabalhar para o incremento de sua imaculada esposa, a Igreja, e de não esmorecer na solicitude e na dedicação, consagrando a esse fim o último impulso de nossas forças.

Palavras de reconhecimento ao Episcopado

2. Cumprido esse dever de reconhecimento para com nosso Pai que está no céu, a quem sejam dadas honra e glória eternas, torna-se mui grato dirigirmos o pensamento e a palavra até vós, Veneráveis Irmãos, que fostes chamados pelo Espírito Santo a guiar porções eleitas da Igreja de Jesus Cristo, e que por isso participastes das Nossas lutas e triunfos, das dores e alegrias do ministério pastoral. Não, jamais se separarão de nossa memória as preclaras e múltiplas provas de religioso obséquio, que nos tendes dado durante o longo percurso de nosso Pontificado, repetidas com maior carinho na presente conjuntura. Unidos a vós intimamente, por dever de ofício e pastoral afeto, sobremodo grato nos confessamos aos vosso devotos testemunhos, não tanto pelo que concerne a nossa pessoa quanto pelo alto significado que assumem de adesão a esta Sé Apostólica, centro e sustentáculo de todas as mais no mundo católico. Se sempre foi necessário a toda a hierarquia da Igreja, conservar-se zelosamente unida na caridade recíproca, na comunhão das idéias e propósitos, formando um só coração e uma só alma, mais necessário ainda se torna nos tempos que correm. Quem pode, com efeito, ignorar a imensa conspiração de forças hostis que hoje visa abalar e arruinar a grande obra de Jesus Cristo, tentando, com uma pertinácia que não conhece limites, destruir na ordem intelectual o tesouro da doutrina celeste, e subverter na ordem social as mais salutares instituições cristãs? Mas vós já conheceis de perto essas coisas, pois muitas vezes tendes manifestado vossa preocupação e angústia, lamentando a avalanche de preconceitos, de falsos sistemas e de erros, que se vão propagando a mancheias, no seio da multidão. Quantas ciladas se armam em torno das almas crentes! Com quantas dificuldades se procura diariamente enfraquecer e tornar, se possível, nula a ação benéfica da Igreja! E, na expectativa disso, agravando ainda mais a injustiça, lança-se irrisoriamente contra a mesma Igreja a acusação de não saber recuperar a virtude antiga e impedir a invasão de paixões torpes, que ameaçam tudo levar à extrema ruína.

Tema desta carta Apostólica

3. Bem quiséramos entreter-vos, Veneráveis irmãos, com assunto menos triste e que melhor harmonizasse com a feliz ocasião que nos leva a vos falar. Mas semelhantes expressões não o permitem nem as graves provações da Igreja, que instantemente reclamam socorro, nem as condições da sociedade contemporânea, a qual, já fortemente abalada moral e materialmente, marcha para destinos ainda mais tristes, pelo abandono das grandes tradições cristãs, seguindo uma lei da providência, confirmada pela História, de que não é possível calcar aos pés os grandes princípios religiosos, sem solapar consequentemente as bases da ordem e da prosperidade social. Nestas circunstâncias, para facultar às almas que recuperem alento, para restabelecê-las de fé e coragem, parece-Nos oportuno e útil considerar, sem sua origem, em suas causas, em suas múltiplas formas, a guerra implacável que se move à Igreja, e, denunciando suas funestas conseqüências, assinalar-lhes o remédio. Soem, portanto, bem alto quanto possível, as Nossas palavras, e não apenas ao devotos filhos da unidade católica, mas também aos dissidentes e infelizes incrédulos, já que são todos filhos do mesmo Pai celeste, e criados para o bem supremo. E é quase como um testamento que, pouco distante como estarmos da porta da eternidade, queremos deixar aos povos nosso desejo e augúrio de comum salvação.

I AS PERSEGUIÇÕES DA IGREJA
Nos séculos anteriores à pseudo-reforma

4. A Santa Igreja de Cristo teve que combater e sofrer, em todos os tempos, contradições e perseguições pela verdade e pela justiça. Instituída por Ele próprio a fim de estender ao mundo o reino de Deus, e por meio da luminosa lei evangélica conduzir a humanidade decaída a um destino sobrenatural, isto é, à aquisição dos bens imortais por Deus prometidos, mas superiores às nossas forças, lutou necessariamente contra as paixões que pululam aos pés da antiga decadência e corrupção, isto é, contra o orgulho, a cupidez e o amor desenfreado dos gozos terrenos, e contra os vícios e desordens que daí procederam, os quais sempre encontravam na Igreja a mais poderosa barreira.

5. Não é, porém, o fato dessas perseguições motivo de espanto, se foram pelo Divino Mestre preditas e sabemos que durarão tanto quanto o mundo. Que disse Ele, com efeito, aos seus discípulos, enviando-os a espalharem o tesouro de sua doutrina a todos os povos? Ninguém o ignora: “Sereis perseguidos de cidade em cidade, sereis odiados e vilipendiados pelo meu nome, sereis arrastados aos tribunais e condenados ao suplicio”. E, querendo encoraja-los à prova, apresentou-se como exemplo: “ Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro que a vós, me odiou a mim: si mundus vos odit, scitote quia me priorem vobis ódio habuit” (Jô 15, 18). Eis a alegria, eis a recompensa que lhes prometeu.

6. Ninguém, por certo, que possua o critério de uma justa e honesta estimação das coisas, saberá explicar o motivo desse ódio implacável. Que mal fez ou em que desmereceu o Divino Redentor? Descendo até aos homens pelo impulso de uma caridade infinita, ensinou uma doutrina imaculada, confortadora, eficacíssima para irmanar os homens na paz e no amor; não desejou grandezas terrenas nem honrarias, não usurpou o direito de ninguém; foi, ao contrário, infinitamente compassivo para os fracos, os doentes, os pobres, os pecadores e oprimidos, tendo passado a sua vida a espalhar, por entre os homens, prodigamente, os benefícios divinos. Desnecessário se torna dizer que, pela excessiva malícia humana, tanto mais deplorável quanto mais injusta, tornou-se Ele, como o profetizara o velho Simeão, um verdadeiro sinal de contradição: signum cui contradicetur (Lc 2, 34).

7. Não admira, portanto, que a Igreja Católica, continuadora de sua missão divina, e depositária incorruptível de sua verdade, tenha encontrado a mesma sorte de seu Mestre. O mundo é sempre o mesmo; estão constantemente contra os filhos de Deus os satélites desse grande inimigo do gênero humano que, rebelde ao Altíssimo desde o início, é designado no Evangelho como o príncipe deste mundo. Por isso, em face da lei e daquele que a apresenta em nome de Deus, sente o mundo revoltar-se, em desmedido orgulho, o espírito de uma independência a que não tem direito. Ah! Quantas vezes em tempos mais procelosos, coligaram-se, com inaudita crueldade e autêntica injustiça, seus inimigos, afim de loucamente destruir a obra divina, com evidente prejuízo para a comunhão social.

8. E não o conseguindo com uma forma de perseguição, tentavam logo outra. O Império Romano, por três longos séculos, abusando da força brutal, multiplicou mártires, que com seu sangue banharam toda esta Roma sagrada. Logo após, a heresia, ora dissimulada, ora impudente, por meio do sofisma e da insídia, procurava ao menos romper-lhe a harmonia e a unidade. Desencadeou-se, depois, como devastador vendaval, a invasão setentrional dos Bárbaros, e meridional do Islamismo, deixando após si a ruína e o deserto. E deste modo, extravasando-se de século em século a triste herança do ódio contra da Esposa de Cristo, sucede um cesarismo que, suspeitoso e prepotente, invejoso da grandeza alheia, embora nenhuma se lhe avantajasse, renova sem tréguas os assaltos para conculcar a liberdade e usurpar o direito. Sangra-nos o coração ao vê-la assim oprimida, tantas vezes, por angústias e dores inenarráveis. Todavia, triunfando de todos os obstáculos, violências e opressões, dilatando sempre mais sua pacífica tenda, salvando o glorioso patrimônio da arte, da ciência, das letras, e fazendo penetrar profundamente na sociedade humana o espírito do Evangelho, formou esta civilização que foi chamada cristã, que trouxe às nações, que não lhe impediram a benéfica influência, a equidade das leis, a elevação dos costumes, a proteção aos fracos, a compaixão para os pobres e infelizes, o respeito ao direito e à dignidade de todos, e ainda, quanto é possível dentro da humana inconstância, a paz na vida civil, que deriva da perfeita harmonia entre a liberdade e a justiça.

A Pseudo-reforma

9. Essas provas da bondade intrínseca da Igreja são tão brilhantes e sublimes quanto perenes. Vemos, no entanto, como na Idade Média e nos primeiros séculos, nos tempos presentes esta Igreja assaltada e até certo ponto mais dura e dolorosamente que nunca.. Em conseqüência de uma série de causas históricas, bem conhecidas, a pseudo-Reforma ergue no século XVI o estandarte da revolta e, resolvida a ferir a Igreja no coração, atirou-se audaciosamente contra o Papado. Rompendo o vínculo da antiga unidade de jurisdição e de fé, que reunia o povo sob uma só proteção materna em um só redil, aumentando-lhe, sem cessar, pela harmonia das idéias, a força, o prestígio e a glória, introduziu nas fileiras cristãs uma desagregação lamentável e perniciosa.

10. Não queremos dizer com isso que desde o inicio se planejasse banir do seio da sociedade os princípios do cristianismo; mas, recusando, de um lado, a reconhecer a supremacia do Sólio Romano, causa efetiva e conservadora da unidade, e proclamando, do outro, o princípio do livre exame, ficou abalado, em seus alicerces, o edifício divino, dando-se margem a variações infinitas, a dúvidas e negações, mesmo em matéria da capital importância, a ponto de exceder a perspectiva dos próprios inovadores.

O Filosofismo do século XVIII

11. Aberto assim o caminho, sobrevém o filosofismo orgulhoso e escarnecedor do século XIII, que vai mais além. Ridicularizando o código sagrado das Escrituras, repudia simultaneamente as verdades por Deus reveladas, com o intuito de extinguir totalmente na consciência das nações a fé religiosa e apagar até mesmo o vestígio de espírito cristão. Brotaram desta fonte os funestos e deletérios sistemas do racionalismo e do panteísmo, do naturalismo, que instauraram os antigos erros já vitoriosamente confutados pelos Padres e apologistas dos primeiros tempos cristãos. Deste modo, querendo os soberbos de nossa época compreender demais por si sós, extraviaram-se, disparatando com o paganismo acerca dos atributos da própria alma e do destino imortal que constituem seu glorioso privilégio.

O Ateísmo Moderno

12. A guerra à Igreja assumiu, portanto, um aspecto de maior gravidade que no passado, não menos pela veemência que pela universalidade do assalto. Pois que a incredulidade hodierna não se limita à dúvida ou a negação desta ou daquela verdade da fé, mais impugna o conjunto dos princípios sagrados da revelação, apoiados pela sã filosofia: daqueles princípios sacrossantos e fundamentais que, ensinando ao homem o escopo de sua existência, o retêm no dever, infundido-lhe coragem e resignação e lhe prometendo a justiça incorruptível, e a perfeita bem-aventurança no além-túmulo, nele inculcam a subordinação do tempo à eternidade, da terra ao céu. E com que se substituíram esses ditames, esse incomparável conforto da fé? Com um cepticismo pavoroso, que enregela o coração e sufoca todas as nobres aspirações da consciência.
13. Essas funestas doutrinas passaram, além disso, como vedes, Veneráveis irmãos, da esfera das idéias para a vida exterior e ordem pública. Grandes e fortes Estados vão, de contínuo, pondo-as em prática, pretendendo, desta forma, favorecer o progresso da sociedade. Como se não devesse o poder público escolher e respeitar o que há de mais são na vida moral, supõem-se isentos do dever de honrar publicamente a Deus; e muitas vezes sucede que, embora jactando-se de indiferentes a todas as religiões, movem, entretanto, guerra à única religião que nele assenta sua estabilidade.

II. FUNESTAS CONSEQÜÊNCIAS

Profunda perturbação da ordem moral

14. Desse sistema de ateísmo prático devia necessariamente resultar, e resultou, uma profunda perturbação da ordem moral, por ser religião o precípuo fundamento da justiça e da honestidade, como bem o entreviram famosos sábios da antiguidade pagã. Quando se rompe o vínculo que une o homem a Deus absoluto e universal legislador, não resta senão a miséria moral puramente civil, ou seja, independente, a qual, prescindindo da razão eterna e dos divinos preceitos, leva, inevitavelmente, pelo próprio declive, à última e fatal conseqüência de constituir-se o homem lei de si próprio. Torna-se, então, incapaz de elevar-se nas asas da esperança cristã aos bens supremos, procurando apenas um pasto terreno na soma de gozos e de bens desta vida, aumentando a sede de prazeres, a cupidez das riquezas, a avidez de rápidos e excessivos lucros, sem respeito à justiça; inflamando a ambição de satisfazê-las, ainda que ilegitimamente; gerando, enfim, além do desprezo da lei e da autoridade pública, uma geral licença de costumes que consigo acarreta a verdadeira decadência da civilização.
15. Exageramos, acaso, as tristes conseqüências dessa lamentável perturbação? Mas a realidade que tocamos com as mãos, bem confirma as nossas deduções, e é evidente que, se não se repara a tempo, vacilarão as bases da própria sociedade, arrastando na sua queda também os soberbos princípios do direito e da moral externa.
Prejuízos para a família

16. Daí procedem todos os graves prejuízos que têm sofrido todas as partes do corpo social, começando pela família. Porque o Estado leigo, sem guardar nem os limites, nem o escopo essencial de seu poder, estende a mão para romper o vínculo conjugal, despoja-o de seu caráter sagrado, invade, quanto possível, os direitos naturais dos progenitores sobre a educação da prole, e subverte, igualmente, a estabilidade do matrimônio, sancionando com a lei a mal-falada licença do divórcio. Percebe-se facilmente quais sejam os frutos desses casamentos que se multiplicam, baseados exclusivamente em paixões ignóbeis, que logo se desfazem ou degeneram em trágicas lutas, se não em escandalosa infidelidade. E que dizer da prole inocente, abandonada ou pervertida pelos maus exemplos dos próprios pais, ainda envenenada pelo Estado oficialmente leigo?

Prejuízos para a ordem social e política

17. Não menos que a família, sofre a ordem social e política, sobretudo pelas novas idéias que alteram o conceito do justo poder soberano, falseando-lhe a origem. Com efeito, desde que a autoridade soberana derive formalmente do consenso do povo e não de Deus, principio supremo e eterno de todo o poder, perde o respeito dos que lhe são subordinados, privando-se de seu augusto caráter, e degenera em uma soberania artificial, baseada em fundamentos frágeis e movediços como a vontade do homem. E não se vê, porventura, o que daí resulta na própria legislação pública? Mui frequentemente representa ela, bem mais que o direito, a vontade predominante de um partido político. Deste modo animam-se os apetites licenciosos da multidão, larga-se o freio às paixões populares, embora perturbe a operosa tranqüilidade civil, salvo em casos extremos, quando, então, se recorre às repressões violentas e sanguinárias.

Prejuízos para a ordem internacional

18. Repudiados os princípios cristãos, nos quais reside a virtude de irmanar os homens e uni-los como em uma grande família, prevalece, a pouco e pouco, na ordem internacional, um sistema de egoísmo e de inveja, pelo qual as nações se observam reciprocamente, se não com rancor, certamente com desconfianças e competições. E em suas empresas levianamente votam ao esquecimento o alto conceito da moralidade e da justiça, a proteção aos fracos e oprimidos, procurando, apenas, no desejo de aumentar ilimitadamente as riquezas nacionais, a utilidade de êxito e a sorte dos fatos consumados, a fim de se assegurarem contra as reclamações a certa do direito. Critério funesto, que consagra a força material e dela quase faz a lei suprema do mundo; daí o aumento progressivo e desmedido do aparelhamento militar, ou seja, essa paz armada, comparável, pelos múltiplas precauções, aos mais desastrosos efeitos da guerra.

Anarquia geral

19. Tão lamentável perturbação no terreno dos princípios fez germinar na classe popular a inquietação, o mal-estar e o espírito de rebelião, causando agitações e desordens freqüentes, que são o prelúdio de mais graves tempestades. A condição miserável da maioria do povo, muito merecedora de salvação e alívio, serve admiravelmente aos desígnios de espertos agitadores, assinaladamente aos socialistas, que, por meio de loucas promessas à plebe, prosseguem na execução de seus temíveis propósitos.
20. Assim como quem se lança ao precipício necessariamente tocará ao fundo, eis que a lógica vingadora dos princípios terminou na formação de uma verdadeira associação de delinqüentes, com instintos totalmente selvagens, que logo aos primeiros golpes causaram indizível terror. Constituída solidamente e com liames internacionais, já está prestes a erguer por toda parte sua mão criminosa, sem temer obstáculos, nem recuar antes os piores crimes. Seus filiados, rompendo todos os vínculos com a sociedade, com as leis, com a religião, com a moral, tomam o nome de “anarquistas”, propondo-se a destruir, com todos os meios que pode sugerir uma paixão cega e violenta, a organização social de cima a baixo. E como esta recebe a unidade e a vida da autoridade imperante, contra ela, principalmente, voltam seus ataques. Quem não terá estremecido, num misto de piedade e indignação, vendo, no espaço de poucos anos, serem agredidos e trucidados imperadores, imperatrizes, reis, presidentes de poderosas repúblicas, e sem outra razão que a de estarem investidos da autoridade soberana?
III OS REMÉDIOS

21. Diante de tantos males e perigos que enxergamos, é Nosso dever admitir novamente e exortar, como o fazemos, todos os homens de boa vontade, e sobretudo os que ocupam cargos elevados, a refletirem sobre os remédios adequados, e a agirem com presteza e energia.

Remédios ineficazes: falsa liberdade

22. Urge, porém, em primeiro lugar, reconhecer esse remédios e ponderar-lhes o valor. Ouvimos já exaltar os benefícios da liberdade e engrandecê-la como meio soberano e instrumento incomparável de paz operosa e de prosperidade. Mas os fatos demonstraram sua ineficácia para esse fim. Pois como todos podem testemunhar, a liberdade, tal como hoje a entendem, aceitando simultaneamente o verdadeiro e o falso, o bem o mal, não faz mais que rebaixar o que já de nobre, de santo e generoso, abrindo caminho ao crime, ao suicídio e às paixões vulgares.

Instrução destituída de educação religiosa e moral

23. Foi dito, que o aperfeiçoamento da instrução, tornando mais culto e esclarecido o povo, tê-lo-ia premunido suficientemente contra as más tendências e conservado nos limites da honestidade e da retidão. Entretanto, a dura realidade torna evidentes os resultados da instrução destituída de uma sólida educação religiosa e moral. As inteligências jovens, em sua inexperiência e no arrebatamento das paixões, deixam-se fascinar pelas máximas perversas, particularmente pelas que o jornalismo indisciplinado não hesita e, semear com largueza, e que, pervertendo a mente e a vontade, alimentam o espírito de orgulho e insubordinação, que perturba frequentemente a paz da família e da sociedade.

Progresso da Ciência emancipada de Deus

24. Muito se confiou no progressivo incremento científico e, de fato, grandes e inesperados progressos maravilharam o último século. Mas será verdade que tenhamos, efetivamente, alcançado aquela fertilidade de frutos, pela e renovadora, que tantos desejavam e esperavam? O vôo da ciência descobriu, certamente, novos horizontes ao intelecto, alargou o domínio sobre a natureza física, e melhorou a vida terrena. Não obstante isso, sente-se e confessa-se que os resultados obtidos estão muito aquém das esperanças alimentadas. Não se pode deixar de reconhecer essa verdade, ao ver o estado em que se acham os ânimos e os costumes, ao verificar as estatísticas de delinqüência, a agitação geral, o predomínio da força sobre o direito. Não se falando da miséria do povo, basta uma vista de olhos superficial para verificar que uma tristeza indefinida pesa nas almas, e um vácuo profundo se faz sentir nos corações. O homem endeusou a matéria, mas esta não lhe pôde dar aquilo que não possui; e as grandes questões, que se referem aos seus mais altos interesses, a ciência humana não as resolveu. A sede da verdade, de virtude, de infinito, tornou-se ainda mais viva, e nem a terra, enriquecida de tesouros e alegrias, nem a vida com suas crescentes comodidades, conseguiram diminuir a inquietação moral. Deveremos, por isso, desprezar ou desinteressar-nos da cultura, da civilização, e de uma liberdade moderada e razoável? Não, por certo; devemos, ao contrário, prestigia-las e tê-las em grande conta, como precioso capital, visto serem outros tantos meios, bens em sua natureza, queridos e ordenados pelo próprio Deus em benefício da família humana. Usando-os, porém, devemos ter em vista o pensamento do Criador, a fim de impedirmos que lhe falte o elemento religioso, no qual reside a virtude que os valoriza e os faz dignamente frutificar. Aqui se encontra o segredo do problema. Quando um ser orgânico se enfraquece e decai, isso resulta de cessar o influxo das causas que lhe davam forma e consistência; e não resta dúvida que, para torna-lo de novo são e florescente, é necessário restituir-lhe o influxo vital dessas mesmas causas. Pois bem, na louca tentativa de emancipar-se de Deus, a sociedade humana rejeitou o sobrenatural e a revelação divina, subtraindo-se, por este modo, à vivificante eficácia do Cristianismo, isto é, à mais sólida garantia da ordem, ao mais poderoso vínculo de fraternidade, à fonte inexaurível individual e pública.
Remédios eficazes: volta ao Cristianismo
25. De tal apostasia sacrílega derivou a desorganização da vida prática. Ao seio do Cristianismo deve, portanto, retornar a transviada sociedade, se quiser o bem-estar, o repouso e a salvação. Assim como o Cristianismo torna as almas melhores, penetrando na vida pública de um Estado, também o revigora na ordem; com a idéia de um Deus que a tudo provê, infinitamente bom e justo, infunde na consciência o sentimento do dever, suaviza os sofrimentos, acalma os rancores, inspira o heroísmo. Se conseguiu transformar os pagãos, o que foi uma verdadeira ressurreição, pois que cessava a barbárie onde surgia o Cristianismo, do mesmo modo vencerá o terrível abalo da incredulidade, endireitando e recolocando na ordem os Estados e a sociedade humana hodierna.

Retorno sincero à Igreja Católica

26. Mas ainda não é tudo; o retorno ao Cristianismo não será remédio verdadeiro e eficaz, se não significar retorno e amor á Igreja uma, santa, católica, apostólica. Sim, por que o Cristianismo atua e se identifica com a Igreja Católica, sociedade soberanamente espiritual e perfeita, que é o Corpo místico de Jesus Cristo, e tem por chefe visível o Pontífice Romano, sucessor do Príncipe dos Apóstolos. É ela a continuadora da missão do Salvador, filha e herdeira da sua Redenção; foi Ela que propagou o Evangelho sobre a Terra, difundiu-o com o preço do seu sangue; e é ainda Ela que, conforme a promessa da assistência divina e da imortalidade, jamais pactuando com o erro, realiza a missão de conservar na íntegra a doutrina de Cristo até o fim dos séculos.

27. Mestra legítima da moral evangélica, não só se tornou a consoladora e salvadora das almas, a fonte perene de justiça e caridade, como também a propagadora e tutora da verdadeira liberdade e da única liberdade possível. Aplicando a doutrina de seu divino Fundador. Mantém com ponderado equilíbrio os justos limites em todos os direitos e em todas as prerrogativas da coletividade social. A igualdade que proclama conserva intactas as distinções das várias classes sociais, evidentemente requeridas pela natureza; a liberdade que apregoa, a fim de impedir a anarquia da razão emancipada da fé e abandonada a si própria, não lesa os direitos da justiça, que são superiores aos no número e da força, nem os direitos do Deus, que são superiores ao do homem.

28. E não é menos fecunda em bons efeitos da ordem doméstica. Porque não só resiste aos atentados licenciosos da incredulidade contra a família, mas prepara e conserva a união e a estabilidade conjugal, nela protegendo e promovendo a honestidade, a fidelidade, a santidade. Ao mesmo tempo sustenta e consolida a ordem civil e política, de um lado ajudando eficazmente a autoridade, e de outro, colocando-se a favor das sábias reformas, das justas aspirações do povo, impondo respeito e obediência aos governantes, e sempre defendendo os direitos imprescritíveis da consciência humana. Deste modo, os povos obedientes à Igreja se mantiveram, graças a Ela, igualmente distantes da servidão e do despotismo.

Esforços de Leão XIII para o bem da sociedade

29. Cientes dessa virtude divina, logo no início de Nosso Pontificado, aplicamo-Nos a pôr em relevo os benéficos conceitos da Igreja, e a estender o mais possível, com o tesouro da sua doutrina, a sua salutar ação. Para este fim convergiram os principais atos de Nosso Pontificado, assinaladamente as Encíclicas sobre a Filosofia Cristã, a Liberdade Humana, o Matrimônio Cristão, a Seita Maçônica, o Poder Público, A Constituição Cristã dos Estados, o Socialismo, a Questão Operária, os Principais deveres dos Cidadãos Cristãos, e sobre assuntos análogos. Mas o desejo ardente de nosso coração não foi apenas de iluminar os espíritos, mas também mover e purificar os corações, procurando com nossos esforços fazer refluir no seio do povo a virtude cristã. Não cessamos, mesmo, com exortações e conselhos, de elevar as almas aos bens que não são caducos, subordinando o corpo à alma, o homem a Deus, o peregrinar terrestre à vida celeste.
30. Abençoada pelo Senhor, pôde a nossa palavra contribuir para reforçar as convicções, para melhor esclarecer os espíritos nas árduas questões presentes, estimulados, em zelo, a promover várias obras, que surgiram e continuam a surgir em todos os países, particularmente em benefício das classes deserdadas, reavivando a caridade cristã, que no meio do povo encontra seu campo predileto. Se a colheita da messe, Veneráveis Irmãos, não foi mais abundante, adoramos a Deus misteriosamente justo, suplicando-lhe, ao mesmo tempo, que se compadeça da cegueira de tantos, aos quais é desgraçadamente aplicável o assustador lamento do Apóstolo: “Deus huius saeculi excaecavit mentes infidelium, ut non fulgeat illis illuminatio evangelii gloriae Christi (2 Cor 4, 4).

Refutação de algumas objeções

31. Quanto mais a Igreja emprega o seu zelo no bem moral e material dos povos, tanto é maior o ódio que lhe voltam esses filhos das trevas que por todos os meios tentam ofuscar-lhe a divina beleza, e entravar-lhe a obra vital e redentora. De quantos sofismas lançam mão, que quantas calúnias! Uma de suas maiores perfídias consiste em representar a Igreja às massas ignorantes e aos governos ambiciosos, como sendo avessa ao progresso da ciência, inimiga da liberdade, usurpadora dos direitos do Estado e invasora do terreno político. Tolas acusações, mil vezes repetidas e outras mil destruídas pela razão, pela história e bom-senso dos homens honestos e amigos da verdade.

32. A Igreja, inimiga da ciência, da cultura? Sendo, como é certo, guarda vigilante do dogma revelado, essa vigilância não a torna senão benemérita e fautora da ciência e autora de toda boa cultura. Não, abrindo as inteligências às revelações do Verbo, verdade suprema e princípio original de toda verdade, não se prejudicarão, de modo algum, os conhecimentos racionais; mas, ao contrário, as irradiações do mundo divino acrescerão sempre ao intelecto humano a força e a clareza necessárias para preservá-lo das incertezas angustiosas e dos erros em questões de maior importância. De resto, dezenove séculos de glória conquistada pelo catolicismo, em todos os ramos do saber, bastam amplamente para destruir essa mentirosa asserção. À Igreja Católica deve-se, com efeito, atribuir o mérito de haver propagado e difundido a sabedoria cristã, sem a qual o mundo jazeria ainda nas trevas das superstições pagãs e no estado abjeto da barbárie; de haver conservado e transmitido os preciosos tesouros das letras e da ciência antiga; de ter aberto a primeira escola do povo e criado Universidades que ainda em nossos dias existem e são célebres; de haver abrigado, enfim, sob suas asas protetoras os artistas mais insignes, e inspirado a literatura mais elevada, pura e gloriosa.

33. A Igreja inimiga da liberdade? Somente quando, falseando-lhe o verdadeiro sentido, em nome desse precioso dom de Deus se procura o abuso e a licença. Se por liberdade quer-se entender o andar-se isento de toda lei e todo freio, para fazer o que mais agrada, naturalmente a Igreja terá que reprová-la, o mesmo fazendo as almas honestas; mas se por liberdade se compreende a faculdade racional de praticar decidida e largamente o bem segundo as normas da lei eterna, na qual justamente reside a liberdade digna do homem profícua à sociedade, ninguém mais que a Igreja a favorece, estimula e protege. Foi Ela, efetivamente, que com sua doutrina e ação apostólica libertou a humanidade dos grilhões que a escravizavam, anunciando a grande lei da igualdade e da fraternidade humana; em todos os tempos assumiu o patrocínio dos fracos e oprimidos contra a prepotência dos fortes; reivindicou, com o sangue de seus mártires, a liberdade da consciência cristã, restituiu à criança e à mulher a dignidade de sua nobre natureza, fazendo-as participar do direito ao respeito e à justiça, concorrendo grandemente para introduzir e manter a liberdade civil e política dos povos.
34. A Igreja usurpa os Direitos do Estado e invade o campo político? Mas a Igreja sabe e ensina que seu Divino Fundador mandou dar a César o que é de César, a Deus o que é de Deus, sancionando deste modo a distinção imutável e perpétua dos dois poderes, ambos supremos em sua respectiva ordem, distinção fecunda que teve enorme influência no desenvolvimento da Civilização Cristã. Mantendo-se alheia, em seu espírito de caridade, a todo e qualquer partidarismo, procura apenas coordenar-se ao flanco do poder político para atuar sobre o mesmo sujeito, que é o homem, e sobre a sociedade, mas com os meios de elevação de vista conformes à sua divina missão. Onde sua obra foi aceita sem desconfianças, facilitou as inumeráveis vantagens supracitadas. A suposição de intenções ambiciosas na Igreja não passa de velha calúnia, da qual seus poderosos inimigos se serviram como de pretexto para coonestar a sua opressão; e a história, meditada com imparcialidade, testemunha amplamente que a Igreja, ao invés de predominar, foi, isso, sim, qual imagem fiel de seu divino Fundador, vítima, muitas vezes, de opressões e injustiças; porque seu poder reside na força do pensamento e da verdade, e não na força das armas.

A obra tenebrosa da Maçonaria

35. Tais acusações, portanto, constituem autêntica perversidade. E nesta obra perniciosa e desleal distingui-se uma seita tenebrosa, que a sociedade traz de há longos anos no seu seio, como uma doença mortal que lhe contamina a saúde, a fecundidade e a vida. Personificação permanente de revolução, constitui uma espécie de sociedade às avessas, cujo escopo é um predomínio oculto sobre a sociedade, e cuja razão de ser consiste na guerra a Deus e à Igreja. Desnecessário se torna nomeá-la, pois todos reconhecem, por estes sinais, a maçonaria, da qual já falamos, propositadamente, na nossa Encíclica “Humanum Genus”, de 20 de Abril de 1884, denunciando-lhe as maléficas tendências, a falsa doutrina, a obra nefasta. Esta seita, que abrange em sua rede imensa quase todas as nações, se associa a outras seitas que move com fios ocultos, alimentando os seus filiados com o engodo das vantagens que lhes procura, curva os dirigentes aos seus desígnios, com promessas ou com ameaças, chegando a infiltrar-se em todas as classes sociais e a formar quase um Estado invisível e irresponsável no Estado legítimo. Cheia do espírito de Satã, como disse o Apóstolo, sabe a propósito transformar-se em anjo de luz (2 Cor 11, 14) afeta fins humanitários, mas tudo aproveita aos fins sectários; e embora declare não ter vistas políticas, exerce larga ação no movimento legislativo e administrativo do Estado; enquanto professa respeito à autoridade constituída e à religião, tem por fim supremo (conforme o atesta seu regulamento) o extermínio do governo e do sacerdócio, por considera-los inimigos da liberdade.

36. Ora, torna-se sempre mais manifesto que às sugestões e cumplicidade desta seita podem-se atribuir em grande parte as contínuas vexações contra a Igreja, como ainda a recrudescência dos recentes ataques. E, em verdade, a perseguição contemporânea, que estalou como procela em céu sereno, isto é, sem causa adequada ao efeito; a uniformidade dos meios postos em ação para preparar esta perseguição, campanha de imprensa, com anúncios públicos e produções teatrais; o emprego, além de tudo, da mesma arma de calúnia e do excitamento popular, mostram a identidade dos propósitos e a palavra de ordem oriunda do mesmo centro de direção. Simples episódio, aliás, que se associa a este plano preestabelecido, e que se vai amplamente traduzindo em atos, multiplicando os danos que já enumeramos, e sobretudo restringindo, até total exclusão, o ensino religioso, formando assim gerações de indiferentes e incrédulos; impugnando, com a imprensa, a moral da Igreja; ridicularizando-lhe, finalmente, a prática e profanando-lhe as festas.

Perseguição dos Sacerdotes

37. Daí resulta que o sacerdócio católico, chamado a difundir praticamente a religião e a ministrar seus sacramentos, seja visado com maior pertinácia.Aumenta a audácia, dia a dia, interpretando-lhe sinistramente os atos, dando vulto às suspeitas, lançando-lhe as mais vulgares acusações, e aumenta em proporção a impunidade que lhe serve de garantia. Assim, novos preconceitos são acrescidos àqueles que já atingem o clero atualmente, tanto pelo tributo que é obrigado a pagar ao exército, grande obstáculo à sua preparação sacerdotal, como pela espoliação do patrimônio eclesiástico, constituído livremente pela piedade e generosidade dos fiéis.

Perseguição dos Religiosos

38. As Ordens e Congregações religiosas, que na prática dos conselhos evangélicos se tornaram a glória, não apenas da religião mas também da sociedade, encontraram igual sorte diante dos inimigos da Igreja, sendo implacavelmente votados ao desprezo. E nós lamentamos o ter que lembrar como ainda recentemente forma alvo de odiosas e injustas medidas, as quais devem ter sido fortemente reprovadas por todos os espíritos retos. Não se lhes pode negar a integridade da vida, contra a qual nem mesmo os seus inimigos conseguiram fazer-lhes imputações sérias e fundamentadas, nem o direito de natureza que permite a associação para fins honestos, nem a lei constitucional que a sanciona; nem tão pouco o favor do povo, reconhecido aos preciosos serviços por eles prestados à ciência, à arte, à agricultura, e sobretudo pela caridade que dispensam às classes mais numerosas e aos membros mais pobres da sociedade. Entretanto, homens e mulheres, filhos do povo, que haviam renunciado espontaneamente às alegrias da família, consagrando ao bem do próximo, em pacíficas agremiações, a juventude, o talento, a atividade, a vida, foram, qual bando de malfeitores, em época em que por toda parte se prega a liberdade, votados ao ostracismo.

Perseguição do Sumo Pontífice

39. Que admira sejam assim perseguidos os filhos mais caros, se não é melhor tratado o Pai, isto é, o próprio chefe da catolicidade, o Pontífice Romano? Os fatos são bastante conhecidos. Despojado pelo poderio civil da independência que lhe é necessária para a sua missão universal e divina, forçado, mesmo dentro de Roma, a fechar-se em sua morada, porque oprimido pela força inimiga, foi reduzido, não obstante às irrisórias garantias de respeito e às precárias promessas de liberdade, a situações anormais, injustas e indignas de seu excelso ministério. Conhecemos perfeitamente os obstáculos que se criaram em torno, truncando frequentemente as suas intenções e ultrajando-lhe a dignidade. Tornar-se, portanto, sempre mais evidente que a usurpação da soberania civil que tem por fim diminuir, a pouco e pouco, a força espiritual do Chefe da Igreja. E isto claramente o confessaram aqueles que foram os seus verdadeiros autores.

40. Se ponderarmos os efeitos de tais fatos, veremos que não são apenas impolíticos, mas ainda anti-sociais, porque os golpes infligidos contra à religião são como outras tantas feridas abertas no coração da sociedade. E Deus, com efeito, que dotou o homem de qualidades essencialmente sociais, em sua providência fundou igualmente a Igreja e a colocou, segundo as palavras bíblicas, sobre o Monte Sião, a fim que de que servisse de luz, e com seus raios fecundos desenvolvesse o princípio da vida dos múltiplos aspectos da sociedade humana, comunicando-lhe normas sábias e celestes, com as quais se organizasse mais convenientemente. A sociedade, pois, que se subtrai à Igreja, que é parte considerável de sua força, decai ou se arruína, separando aquilo que Deus quer unido. Não cessamos de inculcar em toda ocasião oportuna semelhante verdade, e o quisemos fazer novamente, de propósito, nesta extraordinária conjuntura. Permita o Senhor que os fiéis, cheios de entusiasmo, coordene a sua ação mais eficazmente ao bem comum, e consigam esclarecer os adversários, a fim de que eles compreendam a injustiça que praticam perseguindo a mais amorosa das mães, a mais fiel benfeitora da humanidade.

O triunfo final será da Igreja

41. Não queremos que o quadro da dolorosa condição presente venha abalar no ânimo dos fiéis a fé no auxilio divino; pois Deus proverá, a seu tempo, e por vias misteriosas, a vitória final. Sentimo-nos contristados nos corações, mas não duvidamos, em absoluto, dos imortais destinos da Igreja. A perseguição, como dissemos a princípio, é sua herança, porque Deus lhe prepara bens mais altos e preciosos, provando e purificando seus filhos. Mas, permitindo as vexações e contrariedades, manifesta a sua divina assistência que lhe fornece novos e imprevistos meios de subsistir, dilatando-lhe a obra e impedindo que prevaleçam as forças conjuradas em seu dano. Dezenove séculos de vida, através das vicissitudes humanas, atestam que as tempestades passam e não lhe abalam os fundamentos.

42. Bem podemos animar-vos, pois que o momento presente traz consigo outros sinais que mantém inalterada a nossa fé. As dificuldades são formidáveis e extraordinárias, sem dúvida, mas os fatos que se desenrolam aos nossos olhos vêm atestar, ainda uma vez, que Deus cumpre suas promessas com bondade e sabedoria admiráveis. Não obstante as forças que contra ela conspiram, continua a Igreja, destituída de todo auxílio e apoio humano, a estender sua ação aos mais diversos ambientes. Não, o antigo príncipe deste mundo não mais poderá dominar com antes, pois foi expulso por Jesus Cristo, e as tentativas de Satã, embora cause muitos males, jamais conseguiram o triunfo supremo. É de se notar a tranqüilidade sobrenatural, fruto da ação do Espírito Santo, na Igreja, que ora reina não só nas almas boas, mas no conjunto da catolicidade, paz que se tornou profunda, mediante a união, mais intima do que nunca, do Episcopado com esta Cátedra Apostólica, formando um maravilhoso contraste com as agitações, os dissídios e o contínuo pulular das seitas que perturbam a tranqüilidade social. União harmoniosa existe também, fecunda de variadíssimas obras de zelo e de caridade, entre os Bispos e o Clero, entre este e o laicato católico, o qual, mais numero e livre do respeito humano, se vai disciplinando à ação, despertando para defender, em generosa porfia, a causa santa da Religião. Oh! Esta é a união que temos inculcado, que novamente inculcamos e abençoamos, a fim de que se desenvolva e se oponha, como invencível barreira, aos inimigos do Nome Divino.
43. É, com efeito óbvio, o renascimento e a reorganização de tantas associações que ora alegram a Igreja, semelhantes aos renovos que brotam do tronco da árvore. Nenhuma forma de piedade cristã por Ela é esquecida, quer para Jesus e os santíssimos mistérios da fé, quer em louvor de Sua Mãe Imaculada, quer ainda em honra dos santos que mais brilharam por suas insignes virtudes. Ao mesmo tempo, nenhuma obra de beneficência é esquecida, pois de maneiras diversas se procura a educação religiosa da juventude, a assistência aos enfermos, a moralização do povo e o socorro às classes deserdadas. E com que rapidez se ampliaria este movimento, quão mais útil e fecundo haveria de ser, se lhe não opusessem, frequentemente, injustos obstáculos e imposições hostis!
44. E o Senhor, que mantém a vitalidade da Igreja nas regiões em que Ela existe há muito tempo, e que se tornaram civilizadas, vem-na consolando ainda com novas esperanças, graças ao zelo de seus missionários, os quais não recuam ante os perigos, as privações e os sacrifícios de toda espécie, e em número sempre crescente prosseguem difundindo em países inteiros o Evangelho e a Civilização, e permanecem constantes, embora se lhes apaguem o bem que fazem com detrações e calúnias, à semelhança do divino Mestre.

45. As amarguras, portanto, são bastante suavizadas, e em meio do renhido combate muito temos com que nos alentar e esperar. Fato esse, em verdade, que deveria sugerir úteis reflexões ao observador inteligente e desapaixonado, levando-o a entender que assim como Deus não abandonou o homem às suas próprias considerações a respeito do fim último da vida, e lhe falou, assim ainda o faz em nossos dias, falando por sua Igreja, visivelmente amparada pelo auxílio divino, e por ele indicando onde se encontram a verdade e a salvação. Essa perene assistência deve infundir em nossos corações a invencível esperança de que no momento marcado pela Providência serão dissipadas as nuvens com que se procura encobrir a verdade, a qual resplandecerá mais ainda, em futuro não mui distante, e o Espírito do Evangelho reanimará os membros lassos e corrompidos dessa sociedade transviada.
CONCLUSÃO

Palavras de encorajamento ao Clero

46. Quanto a nós, não cessamos de procurar, Veneráveis Irmãos, que se apresse o dia da misericórdia de Deus, cooperando energicamente, como é Nosso dever, na defesa e incremento do seu reino na terra. Quanto a Vós, conhecemos tão bem a vossa solicitude pastoral, que não havemos exortações a fazer. Possa a chama que arde em vosso coração transfundir-se sempre mais em todos os ministros do Senhor que colaboram convosco, os quais se acham em contato imediato com o povo, conhecendo-lhe plenamente as aspirações, necessidades e sofrimentos, bem como as insídias e seduções que o cercam. Se, inflamados do espírito de Jesus Cristo, e mantendo-se numa esfera superior às paixões políticas, coordenaram sua ação à vossa, conseguirão, com as bênçãos de Deus, operar maravilhas, iluminado o povo com a palavra, atraindo os corações pela suavidade dos meios, coadjuvando caritativamente as classes necessitadas no melhoramento progressivo de sua condição.

Colaboração inteligente dos leigos.

47. E o clero será corroborado pela ação inteligente e incansável de todos os fiéis de boa vontade; assim, os filhos que saborearem as ternuras maternas da Igreja, pagá-la-ão dignamente, acorrendo em defesa de sua honra e de sua glória. Todos podem cooperar nem tarefa imperiosa e sumamente meritória: os doutos e os literatos com a apologia e a imprensa cotidiana, instrumento poderoso, do qual tanto abusam os nossos adversários; os pais de famílias e os mestres, educando cristãmente a infância e a juventude; os magistrados e os representantes do povo, com a firmeza dos bons princípios e a integridade de caráter; todos, com o professar da própria fé, sem respeito humano. Os tempos exigem elevação de sentimentos, generosidade de propósitos, regularidade de disciplina. Esta deverá sobretudo demonstrar-se pela submissão confiante e perfeita às normas e diretivas da Santa Sé, meio precípuo para impedir ou atenuar os danos ocasionados pelas opiniões que desagregam, e coordenar todos os esforços para um objetivo superior, que é o triunfo de Jesus Cristo em sua Igreja.

48. Eis o dever dos católicos; quanto ao sucesso final, depende daquele que vela amorosa e sabiamente pela sua imaculada Esposa, e de quem está escrito: “Jesus Christus heri, et hodie; ipse et in saecula” (Heb 13, 8). A ele, ainda, neste momento, erguemos a nossa humilde e fervorosa oração, a Ele, que, amando com amor infinito a humanidade extraviada, fez-se vítima expiatória na sublimidade do martírio. A Ele que, embora invisível, sentado na mística nave de sua Igreja, pode acalmar a procela, imperando às vagas e aos ventos em revolta.

49. E Vós, sem dúvida, Veneráveis Irmãos, suplicar-lhe-eis, de bom grado, juntamente Conosco, a fim de que diminuam os males que pesam sobre a nossa sociedade, esclarecendo-se, com os esplendores da luz divina, aqueles que, certamente mais por ignorância do que por maldade, odeiam e perseguem a religião de Cristo, e para que todos os homens de bem se unam estreita e santamente para agir. Sim! Que se apresse o triunfo da justiça, e sorriam á família humana das melhores, dias de paz e de tranqüilidade.
50. Desça, portanto, sobre Vós e sobre todos os fiéis a Vós confiados, como penhor das graças divinas mais preciosas, a Benção Apostólica, de que todo o coração repartimos.
Dada em Roma, junto a São Pedro, aos 19 de Março de 1902, no ano 25º de Nosso Pontificado.
LEÃO PP. XIII

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