terça-feira, 25 de maio de 2010

Credo, por São Tomás de Aquino, parte III.


ARTIGO QUINTO


— Desceu aos infernos, ao terceiro dia
ressurgiu dos mortos —


77 — Como dissemos acima, a morte de Cristo consistiu na
separação da alma e do corpo, como na morte dos outros homens.
Mas a divindade estava de tal modo ligada ao homem Cristo, que,
apesar de a alma e o corpo terem se separado entre si, a própria
Deidade 30 sempre esteve unida ao corpo e à alma de um modo
perfeitíssimo. Eis por que no sepulcro estava presente o Filho de
Deus, o qual desceu também com a alma aos infernos 31.


30 Usa São Tomás na mesma frase as palavras “divindade” (divinitas) e deidade
(deitas), que, de certo modo, podem ter o mesmo significado. Mas “deitas” precisa
de maneira mais perfeita o conteúdo da essência divina.

“Quer dizer que a perfeição divina, a Deitas, creia acima, não apenas de tudo o que
existe, mas de tudo que podemos conceber: [...] ela é uma outra perfeição, que
não é nem a sabedoria, nem a bondade, nem a intelectualidade, nem nada do que
são essas coisas, mas a Deidade, perfeição singular e transcendente, infinitamente
simples” (H. Nicolas — “Dieu connu comme inconnu” — Desiclée — Paris, 1966,
pág. 138).

A palavra divindade é usada para exprimir a essência divina enquanto conhecida
pela razão abstrativa, ao passo que os teólogos usam mais “Deitas” para exprimir a
essência divina enquanto conhecida pela fé: o conhecimento da fé atinge a vida
íntima de Deus, que só se tornará perfeito na visão beatífica. (cfr. Garrigou-
Lagrange, “De Deo Uno” Paris, 1937, pág. 245).

31 A questão da descida de Cristo aos infernos é longa e claramente tratada
principalmente na Suma Teológica (III, q. 52).

“Na morte de Cristo apesar de a alma ter sido separada do corpo, nenhum dos dois
foi separado da Pessoa do Filho de Deus. Por isso deve-se dizer que, no tríduo da
morte, todo o Cristo estava no sepulcro, porque toda a sua Pessoa estava aí pelo
corpo a ela unido; semelhantemente esteve todo no inferno, porque toda a Pessoa
de Cristo estava aí devido à alma a ela unida, e também (se pode dizer) que todo o
Cristo estava em toda parte devido à sua natureza divina” (III, 52, 3, c).

de como Cristo esteve presente e atuou nas diversas partes do inferno, assim nos
esclarece São Tomás:

“De duas maneiras pode estar uma coisa em algum lugar: de uma maneira, pelo
seu efeito (e dessa maneira Cristo desceu em qualquer dos infernos, mas
diversamente; no inferno dos condenados produziu o efeito de argüi-los da sua
incredulidade e malícia: aos que estavam detidos no purgatório, deu a esperança
de alcançarem a vida eterna; aos Santos Patriarcas, que apenas devido ao pecado
original, entravam no inferno, infundiu-lhes o lumem da glória eterna). De outra
maneira uma coisa é dita estar em algum lugar pela sua essência: e deste modo a
alma de Cristo desceu somente ao lugar do inferno, no qual estavam detidos os

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78 — Por quatro razões Cristo desceu com a alma aos infernos. A
primeira, para que suportasse toda a pena do pecado, e, assim,
expiar toda a culpa. A pena do pecado do homem não foi somente
a morte do corpo, mas também uma punição na alma. Por que o
pecado era também da alma, esta deveria ser punida pela
privação da visão divina.

Ora, não se tinha ainda apresentado uma satisfação para que esta
privação fosse afastada. Por isso, antes do advento de Cristo,
todos desciam aos infernos, até os Santos Patriarcas.

Para Cristo carregar sobre si toda a punição devida aos pecadores,
quis não somente morrer, bem como descer com a alma aos
infernos. Lê-se nos Salmos: “Fui considerado como um homem
caído na fossa; fiquei como um homem sem auxílio, livre no meio
dos mortos” (Sl 87, 5-6).

79 — A segunda razão da descida de Cristo aos infernos foi ir em
socorro de todos os seus amigos. Tinha Ele os seus amigos não só
no mundo, mas também nos infernos. Manifestam-se alguns como
amigos de Cristo, nisto: têm caridade. Muitos estavam nos
infernos que para lá desceram possuindo caridade e fé no
Esperado, como Abraão, Issac, Jacó, David, muitos outros homens
justos e perfeitos.

Como Cristo visitava os seus amigos no mundo, e os socorrera
pela própria morte, quis também visitar aqueles amigos que
estavam no inferno, e socorre-los, indo também a eles. Lê-se no
Livro do Eclesiástico: “Penetrarei em todas as partes interiores da
terra, e verei todos os que aí dormem, e iluminarei todos os que
esperam no Senhor”. (Ecl 24, 45).


justos, para que aos que Ele visitava segundo a divindade e interiormente pela
graça, visitasse-os também segundo a alma e localmente. Desse modo estando em
uma parte do inferno, estendeu o seu efeito a todas as partes do inferno, como
tendo também sofrido em um só lugar da terra, libertou todo o mundo pela sua
paixão” (III, 52, 2 c).


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80 — A terceira razão, foi para que Cristo tivesse uma vitória
perfeita contra o diabo. Alguém somente tem um perfeito triunfo
sobre outrem, não apenas quando o vence no campo de batalha,
mas até quando ainda lhe invade a própria casa, e se apodera da
sede do reino e do palácio.

Cristo já havia triunfado do diabo e já o vencera na Cruz, pois se
lê em São João: “Agora é o julgamento do mundo, agora o
príncipe deste mundo (isto é, o diabo) será lançado fora” (Jo 12,
31).

Para que Cristo triunfasse sobre o diabo de um modo completo,
quis tirar-lhe a sede do reino, e prende-lo na sua própria casa,
que é o inferno. Por isso aí desceu, tirou-lhe todos os bens,
aprisionou-o e apoderou-se da sua presa. Lê-se: “Despojando os
principados e as sociedades, exibiu-os publicamente, triunfando
deles na Cruz” (Cl 2, 15).

Devemos considerar que, como Cristo recebera o poder e a posse
do céu e da terra, deveria também ter a posse do inferno, como
se lê na Carta aos Filipenses: “Ao nome de Jesus dobre-se todo o
joelho, dos que estão nos céus, na terra e nos infernos” (Fp 2,
10). O próprio Jesus dissera: “Em meu nome expulsarão os
demônios” (Mt 16, 17).

81 — A quarta e última razão, foi para libertar os santos que
estavam nos infernos. Assim como Cristo quis submeter-se à
morte para libertar os vivos da morte, quis também descer aos
infernos, para libertar os que aí se encontravam: Lê-se: “Vós
também (Senhor), pelo Sangue do vosso testamento, tirastes os
Seus que estavam presos na fossa, onde não havia água” (Zc 9,
11). — “Ó morte, serei a tua morte, ó inferno, serei para ti como
uma mordida” (Os 13, 14) 32 .


32 São Tomás cita neste local o texto latino da Vulgata (“erro mortua, o mors
morsus tuus erro, inferne” — Os. 13, 14) e o traduzimos literalmente para dar
sentido à explicação que o segue. Todavia a tradução literal do texto hebraico é a

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Bem que Cristo tivesse totalmente destruído a morte, não destruiu
completamente o inferno, mas como que o mordeu, por que não
libertou todos os que nele estavam, mas somente os que não
tinham pecado mortal, nem o pecado original. Deste, foram
libertados, enquanto pessoas indivíduos, pela circuncisão, e, antes
da instituição da circuncisão, as crianças privadas do uso da razão,
pela fé dos pais fiéis; os adultos, pelos sacrifícios e pela fé no
Cristo que esperavam.

Estavam no inferno devido ao pecado original causado por Adão,
do qual não poderiam ser libertados, enquanto pecado que era da
natureza humana, senão por Cristo.

Deixou então os que aí desceram com pecado mortal, e as
crianças incircuncisas 33. Por isso disse ao descer ao inferno: “serei
para ti como uma mordida” (Os 13, 14).

82 — Do exposto, podemos tirar quatro ensinamentos para nossa
instrução. Primeiro, uma firme esperança em Deus, pois quando
quer que o homem esteja em aflição, deve sempre esperar do
auxílio divino e nele confiar. Nada há de mais sério do que cair no
inferno. Se portanto Cristo libertou os que estavam nos infernos,


seguinte: “Onde estão, ó morte, as tuas epidemias? Onde está o teu contágio, ó
abismo?”.

São Paulo aplica este versículo de Oséias, cujo sentido original é a respeito da
vitória do povo israelita, à vitória de Cristo. A citação de São Paulo (I Cor. 15, 55),
é em sentido livre (ver, “La Sainte Bible, traduite em français sous la direction de
l’École Biblique de Jérusalem”, pgs. 1221, 1525).

33 Sobre a morte das crianças não batizadas e o seu destino eterno, ver o
excelente livro de Charles Journet — “La vonlonté divine salvifique sur les petits
enfants” — Desclée de Brower, Friburgo, 1958.

É sentença comum entre os teólogos que as almas das crianças mortas sem
batismo, antes do uso da razão são privadas da visão de Deus, mas não sofrem
nem por estarem privadas dessa visão, nem as penas dos sentidos.

São Tomás sempre negou que as crianças mortas em estado de pecado original
sofressem qualquer pena, bem que tivesse primeiro afirmado que elas
conhecessem a privação da visão (Sent. 2, 33, 2 a 2) e, mais tarde, o tivesse
negado (De malo, 5, 3) “estarem privadas de tal bem (visão beatífica) as almas
das crianças não sabem, e por essa razão não sofrem, mas o que possuem pela
natureza, possuem sem dor”. São Roberto Belarmino admite um certo sofrimento
nessas crianças. (cfr. Catechismus Catholics, q. 359 págs. 197, 479).

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cada um, se é de fato amigo de Deus, deve muito confiar para que
Ele o liberte de qualquer angústia. Lê-se: “Esta (isto e, a
sabedoria) não abandonou o justo que foi vencido (...) desceu
com ele na fossa, e na prisão o não abandonou” (Sab. 10, 13-14).
Como Deus auxilia aos seus servos de um modo todo especial,
aquele que O serve deve estar sempre muito seguro. Lê-se: “O
que teme ao Senhor por nada trepidará e nada temerá por que Ele
é a sua esperança” (Ecl 39, 16).

83 — Segundo, devemos despertar em nós o temor, e de nós
afastar a presunção. Pois, apesar de Cristo ter suportado a paixão
pelos pecadores, e ter descido aos infernos, não libertou a todos,
mas somente àqueles que estavam sem pecado mortal, como
acima foi dito.

Aqueles que morreram em pecado mortal, deixou-os
abandonados.

Por isso, ninguém que desça de lá com pecado mortal espere
perdão.

Mas ficarão no inferno o tempo em que os Santos Patriarcas
estiverem no Paraíso, isto é, para toda a eternidade. Lê-se em São
Mateus: “Irão os malditos para o suplício eterno, os justos, porém,
para o Paraíso” (Mt 25, 46) 34.



34 O “Cathecismus Catholicus” elaborado pelo Cardeal Gaspani com a participação
de respeitáveis teólogos, aprovado pela Santa Sé, assim define, em apêndice, a
doutrina a respeito do inferno e do purgatório:

“Com relação ao inferno deve-se crer com fé divina:

1° — Que existe o inferno constituído pelos demônios e pelos que morreram em
pecado mortal, mesmo que fosse um só.

2° — Que no inferno os condenados são atormentados por dupla pena: a de dano e
a pena dos sentidos, sendo esta principalmente de fogo.

3° — Que as penas que os condenados do inferno cumprem são eternas, e jamais
terão fim, nem serão atenuadas.

4° — Que não são as mesmas penas para todos, mas diversa, conforme o número
e a gravidade dos pecados, que mereceram a condenação eterna.


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84 — Terceiro, devemos viver atentos, porque se Cristo desceu
aos infernos para a nossa salvação, também nós devemos com
solicitude lá descer em espírito, meditando sobre às penas nele
existentes, imitando o Santo Ezequias, que dizia: “Irão os malditos
para o suplício eterno, os justos, porém, para o Paraíso” (Is. 38,
10).

Desse modo, aquele que em vida vai lá pela meditação, não
descerá facilmente para o inferno na morte, porque essa
meditação afasta do pecado.

Aos vermos como os homens deste mundo evitam as más ações
por temor das penas infernais, como não deveriam eles muito
mais se resguardarem do pecado por causa das penas do inferno,
que são muito mais longas, mais cruéis e mais numerosas? Eis
porque lê-se nas Escrituras: “Lembra-te dos teus últimos dias, e
não pecarás para sempre” (Ecl 7, 40).



É teologicamente certo, bem que não de fé, que o fogo, com o qual os condenados
do inferno são atormentados é um fogo real ou corpóreo, não metafórico. (...).

É disputado ainda livremente entre os teólogos: de que maneira o fogo real pode
atormentar os espíritos puros, como o dos demônios, e as almas dos condenados
antes da ressurreição dos corpos; qual a natureza do fogo do inferno; onde se
encontra o inferno, se acima, ou abaixo da terra, se é um lugar, se é um estado...

Com relação ao Purgatório, é de fé:

1°) Que existe o purgatório, onde são detidas as almas dos que morrem sem
pecado mortal, mas que devem ainda cumprir por algum tempo algo devido às
penas.

2°) Que no purgatório as almas são punidas pela pena de dano e pela pena dos
sentidos, isto é, pela privação temporal da visão beatífica e por outras graves
penas.

3°) Que as penas das almas no purgatório, quanto à duração e a dureza devida à
pena de cada um, são dissemelhantes entre si.

4°) Que as penas dos que aí estão podem se tornar mais breves e mais leves pelos
sufrágios realizados pelas suas almas.

Não é de fé que as almas são atormentadas no Purgatório por fogo real ou
corpóreo, não metafórico. (...).

Livremente se disputa: se há o fogo do Purgatório e se a sua natureza é a mesma
que a do fogo do inferno, bem que tenha menor força atormentadora; como esse
fogo atinge as almas separadas dos corpos; em que lugar está o Purgatório; se é
lugar, ou estado” (págs. 484 e 486).

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85 — O quarto ensinamento tirado da descida de Cristo aos
infernos, é nos ter Ele oferecido um exemplo de amor. Cristo
desceu aos infernos para libertar os seus. Devemos também nós lá
descer pela meditação, para auxiliar os nossos. Eles, por si
mesmos, nada podem conseguir. Nós é que devemos ir em
socorro dos que estão no purgatório. Se alguém não quisesse
socorrer um ente querido que estivesse na prisão, como isso nos
pareceria cruel! No entanto, seria muito mais cruel aquele que não
viesse em socorro do amigo que está no purgatório, pois não há
comparação entre as penas deste mundo e aquelas. Lê-se a esse
respeito: “Tende piedade de mim, tende piedade de mim, pelo
menos vós, ó meus amigos, porque a mão de Deus me socorre”
(Jo 19, 21). — “É santo e salutar o pensamento de orar pelos
defuntos para que sejam livres dos pecados” (Mc 19, 46).

86 — São auxiliados os que estão no purgatório principalmente
por três atos, conforme disse Agostinho: pelas Missas, pelas
orações e pelas esmolas. Gregório acrescenta um quarto: o jejum.
Não deve causar admiração que assim seja, porque também neste
mundo o amigo pode satisfazer pelo amigo. A mesma coisa
acontece com os que estão no purgatório.

87 — É necessário que o homem conheça duas coisas: a glória de
Deus e a pena do inferno. Elevados pela glória de Deus, e
aterrorizados pela pena do inferno, os homens cuidam melhor das
suas ações e afastam-se do pecado. Mas é muitíssimo difícil para o
homem conhecer essas duas coisas. Com relação à glória, lê-se:
“Quem poderá conhecer as coisas do céu?” (Sb 9, 16). Isso é
realmente muito difícil para os habitantes da terra, porque se lê
em São João: “O que é da terra, fala das coisas da terra” (Jo 3,
31). Para os espirituais, porém, não o é, porque “o que veio do
céu, está acima de todos”, conforme continua aquele texto. Por
conseguinte, Deus desceu do céu e se encarnou, para nos ensinar
as coisas do céu.




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Com relação à pena do inferno, era também muito difícil conhece-
la. Lê-se no Livro da Sabedoria: “Não se conhece quem tenha
voltado dos infernos” (Sb 2, 1). Essa passagem da Escritura
refere-se às pessoas dos ímpios. Mas agora isso não mais pode
ser dito, porque, como Ele desceu do céu para ensinar as coisas
do céu, também ressurgiu dos infernos para esclarecer-nos sobre
as coisas do inferno.

É necessário, pois, que creiamos não apenas que Ele se fez
homem e que morreu, bem como que ressurgiu dos mortos. Por
esse motivo é professado no Credo: “Ao terceiro dia ressurgiu dos
mortos” 35.

88 — Lemos nos Evangelhos que muitos ressuscitaram dos
mortos, como Lázaro, o filho da viúva e o filho do chefe da
Sinagoga.

Mas a Ressurreição de Cristo difere daquelas e de outras, em
quatro aspectos.

Primeiro, devido à causa da ressurreição, porque os outros que
ressuscitaram, não ressuscitaram por próprio poder, mas pelo


35 São Tomás aplica a doutrina hilemórfica para explicar a reunião da alma ao
corpo de Cristo na Ressurreição. O corpo de Cristo conservou, após a morte, a sua
unidade devido à Pessoa do Verbo à qual estava unido, e, por isso não se
corrompeu (cfr. S. T. III, 50, 5). Sendo a alma a sua forma substancial e princípio
da vida humana, refez-se a natureza humana de Cristo pela re-união da alma com
o corpo. Não havia uma forma intermediária entre o corpo e a alma de Cristo
assumiu (informou, vivificou) o seu corpo.

“O corpo de Cristo tombou pela morte, enquanto foi separado da alma, que era a
sua perfeição formal. Para que houvesse verdadeira Ressurreição de Cristo, era
conveniente que o mesmo corpo de Cristo pela segunda vez re-unisse à mesma
alma. E porque a verdadeira natureza do corpo vem da forma, deve-se concluir
que depois da Ressurreição o corpo de Cristo era o verdadeiro, e da mesma
natureza do primeiro. Se o seu corpo fosse fantástico, não teria havido verdadeira
Ressurreição, mas apenas aparente”. (S.T. III, 54, 1 c).

“O corpo de Cristo na Ressurreição foi da mesma natureza, mas de diferente glória.
Portanto tudo o que pertence à natureza do corpo humano estava totalmente no
corpo de Cristo Ressuscitado. É evidente que pertencem à natureza do corpo
humano, as carnes, os ossos, o sangue, etc. Por isso todas estas coisas estavam
no corpo de Cristo Ressuscitado, integralmente e sem diminuição alguma. De outro
modo, não haveria perfeita Ressurreição se não fosse reintegrado tudo o que se
separou pela morte”. (S. T. III, 54, 2 c).

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poder de Cristo ou, das orações de algum santo. Cristo ressuscitou
por próprio poder, porque não era apenas homem, mas também
Deus, e a divindade do Verbo jamais se separou nem da sua alma,
nem do seu corpo. Por isso, o corpo reassumiu a alma e a alma o
corpo, quando queria. Lê-se: “Tenho poder para entregar a minha
alma, bem como para a reassumir” (Jo 10, 18).

Bem que tenha sido morto, não o foi por fraqueza ou por
necessidade, mas, espontaneamente. Isto é verdade, porque
quando Cristo entregou o seu espírito, deu um grito. Os outros,
porém, que morrem, não o podem dar, porque morrem por
fraqueza. O centurião exclamou no Calvário: “Ele era
verdadeiramente o Filho de Deus” (Mt 87,54).

Como Cristo por sua própria força entregou a alma, reassumiu-a
também por própria força. Por isso é dito no Credo — ressuscitou
e não — foi ressuscitado, como se o fosse por outro. Lê-se nos
Salmos: “Dormi, cai em profundo sono e ressurgi” (Sl 29, 10). Não
há, porém, contradição entre este texto e o dos Atos dos
Apóstolos: “Este Jesus, ressuscitou-O Deus” (At 2, 32), porque o
Pai O ressuscitou, e o Filho também o ressuscitou, já que a virtude
do Pai e do Filho são a mesma virtude.

89 — Difere, em segundo lugar, devido à vida que fora
ressuscitada. Cristo ressuscitou para a vida gloriosa e
incorruptível, conforme se lê na Carta aos Romanos: “Cristo
ressuscitou dos mortos pela glória do Pai” (Cor 6, 4). Os outros,
para a mesma vida que antes possuíam, como se verificou em
Lázaro e nos outros ressuscitados.

90 — Difere ainda a Ressurreição de Cristo da dos outros quanto à
sua eficácia e quanto ao seu fruto, porque foi em virtude daquela
que todos ressuscitaram. Lê-se: “Muitos corpos dos Santos que
dormiam ressuscitaram” (Mt 2, 7, 52) — “Cristo ressurgiu dos
mortos, primícia dos que dormem” (Cor 15, 20).




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Vede bem que Cristo pela Paixão chegou à glória, conforme está
escrito em São Lucas: “Não foi conveniente que Cristo assim
padecesse, para poder entrar na sua glória?” (Is 24, 26) — para
nos ensinar como podemos chegar à glória: “Por muitas
tributações devemos passar para entrar no reino de Deus” (Mt 14,
21).

91 — A quarta diferença é relativa ao tempo, porque a
ressurreição dos outros foi retardada para o fim dos tempos, a não
ser que tenha sido concedida por privilégio, como a da Virgem
Santa, e, conforme se crê piedosamente, a de São João
Evangelista.

Cristo, porém, ressuscitou ao terceiro dia porque a sua
Ressurreição e a sua Morte realizaram-se para a nossa salvação, e
Ele, portanto, só quis ressurgir quando fosse isso vantajoso para a
nossa salvação.

Ora, se ressuscitasse imediatamente após a morte, não se
acreditaria que Ele tivesse morrido. Se fosse demasiadamente
protelada a ressurreição, os discípulos não perseverariam na fé, e
nenhuma utilidade teria a sua Paixão. Lê-se nos Salmos: “Que
utilidade haveria em ter eu derramado o sangue, se desci ao lugar
da corrupção?” (Sl 29, 10). Ressuscitou no terceiro dia para que
se acreditasse na sua morte e para que os discípulos não
perdessem a fé.

92 — Sobre o que acabamos de expor, podemos fazer quatro
considerações para nossa instrução.

Primeiro, que devemos nos esforçar para ressurgirmos
espiritualmente da morte da alma, contraída pelo pecado, para a
vida da justificação que se obtêm pela penitência. Escreve o
Apóstolo: “Surge, tu que dormes, ressurge dos mortos, e Cristo te
iluminará” (Ef 5, 14).

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Esta é a primeira ressurreição da qual nos fala o Apocalipse: “Feliz
o que teve parte na primeira ressurreição” (Ap 20, 6).

93 — Segundo, que não devemos protelar a nossa ressurreição da
morte, mas realiza-la já, porque Cristo ressuscitou no terceiro dia.

Lê-se: “Não tardes na conversão para o Senhor, e não a
delongues dia por dia” (Ecl 5, 8).

Por que estás agravado pela fraqueza, não podes pensar nas
coisas da salvação, e porque perdes parte de todos os bens que te
são concedidos pela Igreja, incorres em muitos males
perseverando no pecado.

Como disse o Venerável Beda, o diabo quando mais tempo possui
uma pessoa, tanto mais dificilmente a deixa.

94 — Terceiro, que devemos também ressurgir para a vida
incorruptível, de modo que não mais morramos, isto é, que
devemos perseverar no propósito de não mais pecar. Lê-se na
Carta aos Romanos: “Assim também vós vos considereis mortos
para o pecado, vivendo para Deus em Cristo Jesus. Não reine,
portanto, o pecado em vosso corpo, obedecendo-lhes as
concupiscências; não exibais os vossos membros como armas de
maldade para o pecado, mas deveis vos exibir a vós mesmos para
Deus como vivos que saíram da morte” (Rm 6, 9; 11-13).

95 — Quarto, que devemos ressurgir para uma vida nova e
gloriosa evitando tudo o que antes nos foram ocasião e causa de
morte e de pecado. Lê-se na Carta aos Romanos: “Como Cristo
ressuscitou de entre os mortos pela glória do Pai, também nós
devemos andar na novidade de vida” (Rm 5, 4). Esta vida nova é
a vida de justiça, que renova a alma e a conduz para a glória.
Amém.


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ARTIGO SEXTO


— Subiu aos céus está sentado à direita de
Deus Pai Todo Poderoso —


96 — Depois de se afirmar a Ressurreição de Cristo, convém crer
na sua Ascensão, pois Ele subiu para o céu após quarenta dias de
ressuscitado. Eis porque se diz no Credo: “Subiu aos céus”.

Devemos considerar as três características principais deste
acontecimentos, isto é, que ele foi sublime, racional e útil.

97 — Foi sublime, porque Ele subiu para os céus. Explica-se isto
por três maneiras:

Primeiro, porque Ele subiu acima de todos os céus corpóreos 36,
conforme se lê em São Paulo: “Subiu acima de todos os céus” (Ef
4, 10).

Tal ascensão foi realizada pela primeira vez por Cristo, porque até
então o corpo terreno estivera somente na terra, sendo o paraíso,
onde esteve Adão, situado também na terra.

Segundo, porque subiu sobre todos os céus espirituais, isto é,
acima das naturezas espirituais, como se lê também em São
Paulo: “Colocando (o Pai) Jesus à sua direita nos céus, sobre todo


36 “São Tomás fala conforme o sistema dos antigos que distinguiam muitos céus
materiais, como nós distinguimos troposfera, estratosfera, ionosfera... A Ascensão
de Cristo — acima de todos os céus materiais — significa que Ele saiu do cosmos”
(Le Credo, Saint Thomas d’Aquin, Introduction, traduction et notes par un moine
de Fontgombault, Nov. Ed. Latines, Paris, 1969, pág. 230) .

Na “Suma Teológica” São Tomás explica o que seja “subir acima de todos os céus”:
“quanto mais alguns corpos participam da divina bondade, tanto mais estão acima
da ordem corporal, que é a ordem local (...) Mais participa da bondade divina um
corpo pela glória, que qualquer corpo natural pela forma da sua natureza. Ora,
entre os demais corpos gloriosos, é evidente que o corpo de Cristo refulge por
maior glória. Portanto foi convenientíssimo a Ele que fosse constituído sobre todos
os corpos no alto. Comentando a carta aos Efésios, capítulo IV, — ‘Subindo ao alto’
—, assim lê-se na glossa: ‘Isto é, pelo lugar e pela dignidade’” (S. T. III, 57, 4 ,c).

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Principado, Potestade, Virtude, Dominação e acima de todo nome
que se pronuncia não só neste século, mas também nos futuros, e
tudo colocou sob os seus pés” (Ef 1, 20).

Terceiro, porque subiu até ao trono do Pai. Lê-se nas Escrituras:
“Eis que vinha sobre as nuvens do céu como o Filho de Homem;
Ele dirigiu-se para o Ancião, e foi conduzido à sua presença” (Dn
7, 13). Lê-se também em São Marcos: “E o Senhor Jesus, depois
de lhes ter falado subiu ao céu, e sentou-se à direita de Deus” (Mc
16, 19).

98 — A expressão direita de Deus não deve ser entendida no
sentido corporal, mas em sentido metafórico. Enquanto Deus, diz-
se que Cristo está sentado à direita de Deus, porque é igual ao
Pai; enquanto homem, diz-se que Cristo está sentado à direita do
Pai, porque goza dos melhores bens. O diabo aspirou também
semelhante elevação, como se lê em Isaías: “Subirei ao céu,
acima dos astros de Deus colocarei o meu trono; sentar-me-ei no
Monte da Promessa, que está do lado do Aquilão; subirei acima da
elevação das nuvens, serei semelhante ao Altíssimo” (Is 14, 13)
37.

Mas a semelhante altura não se elevou senão Cristo, razão pela
qual se diz no Credo: “Subiu aos céus está sentado à direita do
Pai”, o que é confirmado no Livro dos Salmos: “Disse o Senhor ao
meu Senhor, senta-te a minha direita” (Sl 109, 1).

99 — A Ascensão de Cristo foi racional por três motivos 38.
Primeiro, porque o céu era devido a Cristo por exigência da sua



37 Assim precisa S. Tomás na “Suma Teológica” o sentido da expressão direita de
Deus:

“Sentar-se à direita de Deus não significa estar simplesmente na bem-aventurança
eterna, mas possuir a bem-aventurança com certo poder dominativo, quase
próprio e natural. Esse poder só a Cristo convém, não a nenhuma outra criatura”
(S.T. III. 58, 4, ad2).

38 Apesar de toda a exposição do Credo feita aqui por São Tomás ser no sentido de
um trabalho teológico, no qual ele usa argumentos muito simples acessíveis ao
senso comum, quis ressaltar mais, neste ponto, a conveniência da Ascensão de

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natureza. É, com efeito, natural que cada coisa retorne à sua
origem. Cristo tem sua origem em Deus, que está acima de todas
as coisas, conforme Ele mesmo disse: “Saí do Pai, e vim ao
mundo; deixo agora o mundo e voto para o Pai” (Jo 16, 18).

Disse também: “ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do
céu, o Filho do Homem que está no céu” (Jo 3, 13).

Apesar de os Santos irem para o céu, todavia não o fazem como
Cristo: porque Cristo o fez por seu próprio poder; os santos,
porém, levados por Cristo. Lê-se no Livro dos Cânticos: “Leva-me
na Vossa seqüência” (Ct 1, 3).

Pode-se explicar de outra maneira porque se diz que ninguém
subiu ao céu a não ser Cristo: os santos não sobem senão
enquanto membros de Cristo, que é a cabeça da Igreja, conforme
está escrito em São Mateus: “Onde estiver o corpo, aí as águias se
congregarão” (Mt 24, 28) 39 .

Em segundo lugar, a Ascensão de Cristo foi racional devido à sua
vitória. Sabemos que Cristo veio ao mundo para lutar contra o
diabo, e o venceu. Por isso mereceu ser exaltado sobre todas as
coisas. Confirma-o o Apóstolo: “Eu venci, e sentei-me com o Pai
no seu trono” (Ap 3, 21).


Cristo, demonstrada por motivos racionais. Esses motivos procuram sempre
explicar um texto da Sagrada Escritura. A teologia não é apenas uma explicação
filológica ou histórica da Revelação, mas é principalmente o esforço da inteligência
humana para penetrar no sentido racional da Palavra de Deus revelada. Como a
inteligência humana procura a verdade pelo raciocínio lógico e certo, a teologia é
uma ciência especulativa coerente e racional. Objeto da ciência teológica refere-se
“a Deus principalmente; às criaturas conforme referem-se a Deus como princípio e
fim” (S. T. I. 1, 3 ad 1).

A teologia é ciência superior a todas as outras, quer às ciências especulativas, quer
às ciências práticas, quanto à certeza das suas conclusões e quanto à dignidade do
seu objeto (S. T. I. 1, 5).

Porque a teologia apresenta a última e satisfatória explicação das coisas na última
causa, que é Deus, é chamada de Sabedoria.

“Esta doutrina (i. é. a teologia) é máxime a sabedoria entre todas as sabedorias
humanas, não apenas em uma determinada ordem, mas de um modo absoluto”.
(S. T. I. 1, 6c).

39 O mesmo texto escriturístico (Mt. 24, 28) é interpretado por São Tomás,
anteriormente, com pequena diferença.

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A Ascensão de Cristo foi racional, em terceiro lugar por causa da
humildade de Cristo, que, sendo Deus, quis fazer-se homem;
sendo Senhor, quis suportar a condição de escravo, fazendo-se
obediente até à morte, segundo se lê na Carta aos Filipenses, (2,
1), descendo ainda até o inferno. Por isso mereceu ser exaltado
até ao céu e sentar-se à direita de Deus. A humildade é, com
efeito, o caminho da exaltação, como se lê em São Lucas: “Quem
se humilha, será exaltado” (Lc 14, 11). Escreveu também São
Paulo: “O que desceu do céu, este é o que subiu acima de todos
os céus” (Ef 4, 10).

100 — A Ascensão de Cristo foi além de sublime e racional,
também útil.

Essa afirmação pode ser esclarecida em três dos seus aspectos:

O primeiro, refere-se ao fim da Ascensão, pois Cristo foi para o
céu para nos conduzir até lá. Desconhecíamos o caminho, mas Ele
no-lo ensinou. Lê-se: “Subiu abrindo o caminho na frente deles”
(Mq 2, 13).

Subiu ao céu também para nos fazer seguros da posse do reino
celeste, conforme se lê em São Paulo: “Vou preparar-vos o lugar”
(Jo 14, 2).

O segundo, refere-se à segurança que a Ascensão nos trouxe, pois
subiu aos céus para interceder por nós. Lê-se: “Subiu por si
mesmo ao Deus sempre vivo para interceder por nós” (Heb 7, 25).
Lê-se também: “Temos um advogado junto ao Pai, Jesus Cristo”
(1 Jo 21).

O terceiro para atrair a si os nossos corações, segundo está escrito
em São Mateus: “Onde está o teu coração está o teu tesouro” (Mt
6, 21), e para que desprezemos as coisas temporais, como nos
exorta o Apóstolo São Paulo: “Se ressuscitastes com Cristo, buscai

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as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus;
saboreai as coisas do alto e não as da terra” (Col 3, 1).



































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ARTIGO SÉTIMO


— Donde há de vir julgar os vivos
e os mortos —


101 — Julgar é função do rei: “O rei, que está sentado no trono da
justiça, pelo seu olhar dissipa todo o mal”. (Pr 20, 8). Porque
Cristo subiu ao céu e sentou-se à direita de Deus como Senhor de
todos, evidentemente compete-lhe o juízo. Por isso pela Regra da
Fé Católica confessamos que virá julgar os vivos e os mortos. Isto
também foi dito pelo Anjo: “Este Jesus, que do meio de vós foi
elevado aos céus, virá também assim como o vistes subir par aos
céus” (Mt. 1, 11).

102 — Devemos considerar nesse Juízo três coisas: primeiro, a
sua forma; segundo, que ele deve ser temido, e, terceiro, como
para ele devemos nos preparar.

103 — No juízo devemos ainda distinguir três elementos
concorrentes: quem é o juiz, quem deve ser julgado e qual a
matéria do julgamento.

104 — Cristo é o Juiz, conforme se lê no Livro dos Atos: “Ele que
foi constituído por Deus Juiz dos vivos e dos mortos” (Mt 10, 42).
Pode este texto ser interpretado, ou chamando de mortos os
pecadores e, de vivos, os que vivem retamente, ou designando
vivos, por interpretação literal, os que agora vivem, e mortos,
todos os que morreram. Ele é Juiz não só enquanto Deus, mas
também como homem, por três motivos 40.


40 Conforme São Tomás, o poder de julgamento compete só a Deus, de modo
comum à Santíssima Trindade, por apropriação (isto é, atribuição de uma ação
comum das Três Pessoas a uma só, por motivos razoáveis) ao Filho (cfr. S.T. III,
59, 1c). A Cristo, enquanto homem, o poder judicativo compete-lhe por comissão
de Deus, enquanto Cristo é a cabeça do corpo da Igreja e tem os membros desse
corpo sob a sua jurisdição (cfr. S.T. III, 59, 2c).


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Primeiro, porque é necessário, aos que vão ser julgados, verem o
juiz. Como a Divindade é de tal modo deleitável que ninguém a
pode ver sem se deleitar, e nenhum condenado poderia vê-la sem
que não sentisse logo alegria, foi necessário que Cristo aparecesse
só em forma de homem, para que fosse visto por todos. Lê-se em
S. João: “Deu-lhe o poder de julgar, porque é Filho do Homem”
(Jo 5, 27).

Segundo, porque Ele mereceu este ofício como homem. Ele,
enquanto homem, foi injustamente julgado e, por isso, Deus O fez
Juiz de todos. Lê-se: “A tua causa foi julgada como a de um
ímpio; receberás o julgamento das causas” (Jo 36, 17).

Terceiro, para que os homens não mais desesperem, vendo-se
julgados por um homem. Se somente Deus julgasse, os homens
ficariam desesperados, devido ao temor. (Mas todos verão um
homem julgar), pois se lê em São Lucas: “Verão o Filho do
Homem vindo na nuvem” (Lc 21, 27). Serão julgados os que
existiram, os que existem e existirão, conforme ensina São Paulo:
“Convém que todos nós sejamos apresentados diante do tribunal
de Cristo, para que cada um manifeste o que fez de bom e de mal
enquanto estava neste corpo” (2 Cor 5, 10).

105 — Há quatro diferenças, segundo São Gregório, entre os que
devem ser julgados. Estes, ou são bons, ou são maus.

Entre os maus, alguns serão condenados, mas não julgados, como
os infiéis, cujas ações não serão discutidas, por que, como está
escrito, “o que não crer já está julgado” (Jo 3, 18). Outros, porém,
serão condenados e julgados, como os fiéis que morreram em
estado de pecado mortal. Disse o Apóstolo: “o salário do pecado é
a morte” (Rm 6, 23). Estes não serão excluídos do Julgamento por
causa da fé que tiveram.


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Entre os bons também haverá os que serão salvos sem o
Julgamento, os pobres de espírito por amor de Deus. lê-se em São
Mateus: “vós que me seguistes, na regeneração, quando o Filho
do Homem estiver sentado em seu trono majestoso, sentar-vos-
eis também sobre doze tronos, julgando as doze tribos de Israel”
(Mt 19, 28).

Estas palavras não se dirigem só aos discípulos, mas a todos os
pobres de espírito. Caso assim não fosse, São Paulo que trabalhou
mais que todos, não estaria nesse número.

Este texto deve, portanto, ser aplicado a todos os que seguiram os
Apóstolos, e aos varões apostólicos. Eis porque São Paulo escreve:
“Não sabeis que julgamos os Anjos?” (1 Cor 6, 3). Lê-se ainda em
Isaías: “O Senhor virá com seniores e com os príncipes do seu
povo” (Is 3, 14).

Outros serão salvos e julgados, isto é, aqueles que morreram em
estado de justificação. Bem que tivessem morrido neste estado,
erraram todavia em alguma coisa durante a vida terrestre. Serão,
por isso, julgados, mas receberão a salvação.

106 — Todos serão julgados pelos atos bons e maus que
praticaram. Lê-se na Escritura: “Segue os caminhos do teu
coração... mas fica certo de que Deus te levará ao julgamento por
causa deles” (Ecle 11, 9); “Deus citará no julgamento todas as
tuas ações, até as ocultas, quer sejam boas, quer sejam más”
(Ecle 13 ,14).

Serão julgados também pelas palavras inúteis: “Toda palavra inútil
pronunciada por alguém, este dará conta dela no dia do juízo” (Mt
12, 36).

Serão julgados, por fim, pelos pensamentos que tiveram. Lê-se no
Livro da Sabedoria: “Os ímpios serão argüidos a respeito dos seus
pensamentos” (Sb 1, 9).

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Fica assim esclarecida qual a matéria do julgamento.

107 — Por quatro motivos deve ser aquele Juízo temido.

Primeiro, devido à sabedoria do Juiz, porque Ele conhece todas as
coisas, os pensamentos, as palavra e as ações, já que, como se lê
na Carta aos Hebreus, “todas as coisas estão nuas e descobertas
aos seus olhos” (Heb 4, 13). Lê-se ainda na Escritura: “Todos os
caminhos dos homens estão diante dos seus olhos” (Pr 16, 1).

Conhece Ele as nossas palavras: “Os seus ouvidos atentos ouvem
tudo” (Sb 1, 10).

Conhece os nossos pensamentos: “O coração do homem é
depravado e impenetrável. Quem o pode conhecer? Eu, o Senhor,
penetro nos corações e sondo os rins, retribuo a cada um
conforme o seu caminho e conforme os pontos dos seus
pensamentos” (Jr 17, 9).

Haverá também neste Juízo testemunhas infalíveis, isto é, as
próprias consciências dos homens, segundo se lê em São Paulo:
“A consciência deles servirá de testemunho no dia em que o
Senhor julgar as coisas ocultas dos homens, enquanto pelos
pensamentos se acusam ou se defendem” (Rm 2, 15-16).

108 — Segundo, devido ao poder do Juiz, porque Ele é em si
mesmo todo poderoso. Lê-se: “Eis que o Senhor virá com
fortaleza” (Is 11, 10).

É poderoso também sobre os outros, porque toda criatura estava
com Ele. Lê-se: “O universo inteiro combaterá com ele contra os
insensatos” (Sb 5, 2); “Ninguém há que possa livrar-se da Vossa
mão” (Jo 10, 7); e ainda: “Se subo aos céus, Vós ali estais; se
desço aos infernos, estais lá também” (Sl 138, 8).


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109 — Terceiro, devido à justiça inflexível do Juiz. Agora é o
tempo da misericórdia. Mas o tempo futuro é tempo só de justiça.
Por isso, o tempo de agora é nosso; mas o tempo futuro será só
de Deus.

Lê-se: “No tempo que eu determinar, farei justiça” (Sl. 134, 3). “O
varão furioso de ciúmes não lhe perdoará no dia da vingança, não
atenderá às suas súplicas, nem receberá como satisfação
presentes, por maiores que sejam” (Pr 6, 34).

110 — Quarto, devido à ira do Juiz. Aparecerá aos justos doce e
deleitável, porque, conforme diz Isaías: “Verão o rei na sua
beleza” (Is 33, 17). Aos maus, porém, aparecerá tão irado e cruel,
que eles dirão aos montes: “Cai sobre nós, e escondei-nos da ira
do cordeiro” (Ap 6, 16).

Esta ira em Deus não significa uma comoção do espírito, mas
significa o efeito da ira, a pena infligida aos pecados, isto é, a
pena eterna. A propósito disso escreveu Orígenes: “Como serão
estreitos os caminhos no juízo! No fim estará o Juiz irado”.

111 — Contra este temor devemos aplicar quatro remédios.

O primeiro remédio é a boa ação. Lê-se em São Paulo: “Queres
não temer a autoridade? Faz o bem e receberás dela o louvor”
(Rm 13, 3).

O segundo, é a confissão dos pecados cometidos e a penitência
feita por eles. Na confissão deve haver três coisas: a dor interior,
a vergonha da confissão dos pecados e o rigor da satisfação por
eles. São essas três coisas que redimem a pena eterna.

O terceiro remédio é a esmola que torna tudo puro, segundo as
palavras do Senhor: “Conquistai amigos com dinheiro da

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iniquidade, para que, quando cairdes, eles vos recebam nas
tendas eternas” (Lc 26, 9) 41.

O quarto remédio é a caridade, quer dizer, o amor de Deus e do
próximo, pois, conforme a Escritura: “A caridade cobre uma
multidão de pecados” (1 Pd 4, 8; Pr 10, 12) 42.








41 Conforme São Tomás, a esmola é um ato externo da virtude teologal da
caridade, imperado pela virtude interior (efeito também da caridade) da
misericórdia. Somente informada pela caridade a esmola realiza-se plenamente,
isto é, por amor de Deus, prontamente, com prazer e adequada (cfr. S T. II. II, 32
c e ad 1). É obrigação para o cristão dar esmola para aos que estão em extrema
necessidade; para os outros, é aconselhável (cfr. I, c. art. 5 c). Quer dada por
obrigação, quer apenas por respeito ao conselho, a esmola manifesta a caridade
que vai no coração do cristão.

Mesmo que o cristão esteja dando a esmola como satisfação dos pecados, que é
ato de justiça; ou como a oferta a Deus, que é ato de religião, ela não deixa de ser
imperada pela caridade (cfr. I. c. art. 1 ad 2).

Ainda em nossos dias, quando as obras de justiça social e de beneficência realizam
aquilo que pertenceria à esmola, o amor de caridade faz com que o cristão execute
aquelas obras com sentimento interior de misericórdia, e, que não deixe de dar
esmola, quando se apresenta uma situação que a requer.

42 A caridade é uma virtude sobrenatural e somente a possuem aqueles que a
receberam como um dom gratuito de Deus. não é apenas uma amizade efetiva ou
compassiva ao próximo. Aos que assim a entendem, São Tomás responde:

“Essa razão seria certa, se Deus e o próximo fossem objeto da caridade no mesmo
nível. Mas isso não é verdadeiro. Deus é o principal objeto da caridade; o próximo
é amado com caridade por causa de Deus” (II. II. 23, 5 ad 1).

Deus deve ser mais amado que o próximo (aliás é doutrina evangélica), conforme
o argumento de São Tomás:

“Qualquer amizade dirige-se em primeiro lugar para aquilo em que se encontra
principalmente o bem sobre o qual se fundamenta a comunicação. [...]

A amizade de caridade fundamenta-se sobre a comunicação da felicidade, que
consiste essencialmente em Deus, como no primeiro princípio do qual ela deriva
para todos os que são capazes de alcançar a felicidade.

Por isso, em primeiro lugar, e máxime, Deus deve ser amado com caridade; o
próximo, porém, como aquele que conosco juntamente participa da felicidade” (II.
II, 26, 2c).


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ARTIGO OITAVO


— Creio no Espírito Santo —


112 — Como foi dito, o Verbo de Deus é o Filho de Deus, como o
verbo (mental) do homem é concebido pela inteligência. Mas
algumas vezes o verbo (mental) do homem fica como morto,
quando alguém pensa em realizar alguma coisa, mas a vontade de
executa-la não se manifesta. Assim também quando alguém crê e
não faz as obras, a sua fé pode ser chamada de morta, conforme
se lê na carta de São Tiago: “Como o corpo sem alma é morto, a
fé sem as obras é morta” (Tiag. 2, 26).

A carta aos Hebreus afirma que o Verbo de Deus é vivo, lendo-se
nela: “é viva a palavra de Deus” (Heb. 4, 12). Por essa razão é
necessário que haja em Deus vontade e amor 4 3. Escreve Santo
Agostinho no seu livro De Trinitate: “O verbo sobre o qual
pretendemos dar uma noção é um conhecimento com amor”.



43 São Tomás, neste Sermão, refere-se à processão do Espírito, conforme a sua
última tese sobre tão atraente assunto teológico.

Nas primeiras obras. S. Tomás explicava a processão do Espírito Santo em analogia
com o amor mútuo de duas pessoas: a Terceira Pessoa seria o fruto do amor
mútuo entre o Pai e o Filho. É uma analogia tirada da vida social humana e prende-
se aos chamados atos nocionais das Pessoas Divinas. Como essa tese pode dar
margem a antropomorfismo, o Doutor Angélico substituiu-a por outra
fundamentada na psicologia individual: o Espírito Santo procede do Pai e do Filho
enquanto Deus se ama. Assim como o Filho procede do conhecimento de Deus, o
Espírito Santo do amor de Deus. (“Cum igitur in Deo seipsum intelligente et
amante, Verbum sit Filius, is autem cuius est Verbum, sit Verbi Pater, necesse est
quod Spiritus Sanctus qui pertinet ad amorem secundum quod Deus in seipso est
ut amatum in amante, ex Patre procedat et Filio — Sicut igitur in divinis modus ille
quo Deus est in Deo ut intellectum in intellegente exprimitur per hoc quod dicitur
Filium qui est Verbum Dei, ita modum quo Deus est in Deo sicut amatum in amante
exprimimus per hoc, quod ponimus ibi Spiritum qui est amor Dei” — COMPENDIUM
THEOLOGIÆ, caps. 49, 46).

O assunto foi magistralmente tratado pelo nosso Pe. Maurilo Penido em diversas
das suas obras, principalmente no trabalho Gloses sur la procesion d’amour dans la
Trinité (Ephemerides Theologicæ Lovaniensis, fev. 1937, págs. 33 ss.).



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Como o Verbo de Deus é o Filho de Deus, assim também o amor
de Deus é o Espírito Santo. Por isso, quando o homem ama a
Deus, possui o Espírito Santo. São Paulo escreve: “A caridade de
Deus foi difundida em nossos corações pelo Espírito Santo, que
nos foi dado” (Rm 5, 5).

113 — Houve pessoas que mal compreendendo a doutrina sobre o
Espírito Santo, afirmaram ser Ele criatura, que era menor que o
Pai e que o Filho, que era ainda servo e ministro de Deus 44. Por
isso os Santos Padres, para que tais erros fossem rejeitados,
acrescentaram cinco palavras qualificativas do Espírito Santo, no
Símbolo 45.

(Analisemos esses cinco termos e vejamos porque o Espírito Santo
não é uma criatura, mas Deus).

114 — Primeiro. Apesar de existirem outros espíritos, os anjos,
são contudo todos eles ministros de Deus, conforme a palavra do
Apóstolo: “Todos são (os Anjos) ministros que servem” (Heb 1,
14). Mas o Espírito Santo é Senhor, conforme se lê em São João:
“O Espírito é Deus” (Jo 4, 24), o que é confirmado por São Paulo:
“O Senhor é Espírito” (2 Cor 3, 17), que acrescenta logo em
conclusão: “Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade”. Eis


44 A heresia do arianismo (ver nota 8) negava a divindade do Filho. Logicamente
deveria negar também a divindade da Terceira Pessoa. Como nas lutas dogmáticas
contra o arianismo as atenções dirigiram-se para a pessoa do Filho, só mais tarde a
Igreja condenou o erro dos que consideravam o Espírito Santo uma criatura,
baseando-se estes, para tal afirmação, no texto da Escritura (Hebreus, 1, 14) que
fala dos espíritos servidores de Deus. O Espírito Santo seria apenas um Anjo mais
perfeito.

Santo Atanásio imediatamente levantou-se contra a heresia e no Sínodo de
Alexandria (362) ela foi condenada. O bispo de Constantinopla Macedônio
propalava essa heresia, sendo por isso deposto em 360. Os seguidores desse erro
foram então chamados de macedonianos ou de pneumatômacos. O Concílio
Ecumênico de Constantinopla, de 381, condenou definitivamente, para a Igreja
Universal, esta heresia.

45 Trata-se do Símbolo Niceno-Constantinopolitano (ver nota 6) no qual foram
acrescentados cinco qualificativos ao Espírito Santo, em formulação anti-
macedoniana:

Et in Spiritum Sanctum, Dominum et vivificantem, qui ex Patre Filioque procedit;
lá, qui ex Patre per Fillium procedit. Ambas as redações afirmam a divindade de
uma só processão do Espírito Santo. Contudo, essa divergência foi motivo de muita
controvérsia entre as Igrejas do Oriente e do Ocidente.

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porque o Espírito nos faz amar a Deus e liberta-nos do amor ao
mundo.

115 — Segundo. No Espírito está a vida da alma que se une a
Deus. Deus é então a vida da alma, como a alma é a vida do
corpo. O Espírito Santo nos une a Deus por amor, porque Ele é o
amor de Deus, e, consequentemente, nos vivifica 46. Lê-se em São
João: “O Espírito é que vivifica” (Jo. 6, 64).

116 — Terceiro. Devemos considerar que o Espírito Santo é da
mesma natureza que o Pai e o Filho: como o Filho é o Verbo do
Pai, assim também o Espírito Santo é o Amor do Pai e do Filho.
Por essa razão, procede de ambos; e como o Verbo de Deus é da
mesma natureza do Pai, assim também o Amor do pai e do Filho.
Por isso diz-se: “Que procede do Pai e do Filho”. Vê-se daí
claramente que não é criatura.

117 — Quarto. O Espírito Santo é igual ao Pai e ao Filho quanto ao
culto que recebe. Lê-se nos Evangelhos: “Os verdadeiros
adoradores adorarão ao Pai em Espírito e verdade” (Jo 4, 23);
“Ensinai a todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho
e do Espírito Santo” (Mt 19). Foi por esse motivo acrescentado ao
Símbolo: “Que com o Pai e o Filho é juntamente adorado”.

118 — Quinto. O Espírito Santo é igual a Deus, porque os santos
profetas falaram por Deus. Ora, é evidente que se o Espírito Santo
não fosse Deus, não se teria dito que os profetas falaram por Ele.
Mas São Pedro o disse: “Inspirados pelo Espírito Santo, falaram os
santos homens de Deus” (2 Pd 1, 21). Isaías, que foi profeta,



46 “O nome amor, em Deus, pode ser tomado essencialmente ou pessoalmente.
Sendo tomado na acepção pessoal, é o nome próprio do Espírito Santo, como
Verbo é o nome próprio do Filho (S.T. I. 37, 1 c.).

“Como nas coisas divinas aquele modo pelo qual Deus está em Deus, como a coisa
intelecta na inteligência, é expresso pelas palavras — o Filho é o Verbo de Deus,
assim também o modo pelo qual Deus está em Deus como o amado no amante, é
expresso quando dizemos que o Espírito é o amor de Deus” (Compendium
Theologiæ. cap. 46).

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assim fala: “O Senhor meu Deus e seu Espírito me enviaram” (Is
48, 16).

119 — Por esta última afirmação, dois erros são destruídos: o erro
do Maniqueus 47, que afirmavam não ter vindo de Deus o Velho
Testamento, o que é falso, pois o Espírito Santo falou pelos
Profetas; e o erro de Priscila e Montano 48, que afirmavam que os
Profetas não falavam por inspiração do Espírito Santo, mas como
se fossem homens alucinados.

120 — Muitos frutos provêm para nós do Espírito Santo.

Primeiro, porque Ele nos purifica do pecado. Ora, compete a quem
criou uma coisa, refaze-la. A nossa alma foi criada pelo Espírito
Santo, porque Deus fez todas as coisas por meio d’Ele, pois é
amando a sua própria bondade que Deus faz tudo. Lê-se: “Amais
todas as coisas que existem e nada odiastes do que fizestes” (Sb
11, 25).

Lê-se também no livro “Sobre os homens Divinos”, do Pseudo
Dionísio: “O divino amor não se podia permitir ficar sem geração”
(Cap. IV).

Convém pois que os corações dos homens destruídos pelo pecado
fossem refeitos pelo Espírito Santo. Lê-se: “Enviai o Vosso Espírito
e tudo será criado e renovareis a face da terra” (Sl. 103, 30).

Nem é motivo de admiração que o Espírito Santo purifique, porque
todos os pecados são perdoados pelo amor, conforme se lê nas
Escrituras: “Foram-lhe perdoados muitos pecados, porque muito


47 Sobre o Maniqueísmo ver nota 2.

48 Pelo ano de 179 grassou na Ásia Menor a heresia de Montano, que pregava o fim
do mundo, grandes austeridades, apresentando-se como profeta. Seguido de duas
visionárias, Maximila e Priscila, fez difundir a sua heresia até às Gálias. O grande
escritor da primitiva Igreja, Tertuliano, aderiu, no fim da vida, aos erros de
Montano.


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amou” (Is. 7, 47); “A caridade cobre todos os delitos” (Pr 10, 12);
“A caridade cobre uma multidão de pecados” (1 Pd 4, 8).

121 — Segundo, porque ilumina a inteligência, já que tudo que
sabemos, o sabemos pelo Espírito Santo 49 . Confirmaram-no os
seguintes textos da Escritura: “O Paráclito, o Espírito Santo, que o
Pai enviará em meu nome, ensinar-vos-á todas as coisas sugerir-
vos-á tudo o que vos disse” (Jo 24 ,26); “A sua unção ensinar-
vos-á tudo” (1 Jo 2, 27).

122 — Terceiro, porque o Espírito Santo nos ensina a observar os
mandamentos, e, até de certo modo, no-lo obriga.

Ninguém pode seguir os mandamentos de Deus, se não amar a
Deus, pois: “Se alguém me amar, observará os meus
mandamentos” (Jo 24, 23). Ora, o Espírito Santo nos faz amar a
Deus, e nos auxilia nesse sentido. Lê-se no Profeta Ezequiel: “Dar-
vos-ei um novo coração, e colocarei no meio de vós um novo
espírito; tirarei o coração de pedra da vossa carne; dar-vos-ei um
coração de carne, e colocarei o meu espírito no meio de vós; e
farei que guardeis os meus mandamentos e os pratiqueis” (Ez 36,
26).

123 — Quarto, por que Ele confirmará em nós a sua esperança da
Vida Eterna, já que o Espírito Santo é o penhor da sua herança,
conforme estas palavras do Apóstolo aos Efésios: “Fostes
assinalados com o Espírito da promessa, que é o penhor da nossa
herança” (Ef 1, 14). Ele é, com efeito, a garantia da Vida Eterna.

A razão disto está em que a Vida Eterna é devida ao homem,
enquanto este é filho de Deus, e o é feito, enquanto se assemelha
a Cristo. Assemelha-se alguém a Cristo pelo fato de possuir o
Espírito de Cristo, que é o Espírito Santo. Lê-se na carta aos


49 Subentende-se: tudo o que sabemos no plano sobrenatural, porque a própria
inteligência, pela sua capacidade natural, sem a atuação do Espírito Santo, pode
conhecer a verdade natural; bem que com dificuldade, mais lenta e parcialmente.


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Romanos: “Não recebestes o espírito de servidão para recairdes
no temor, mas recebestes o Espírito de adoção dos filhos, no qual
chamamos Abba, Pai. O próprio Espírito certifica ao nosso espírito
que somos filhos de Deus” (Rm 8, 15-16). Lê-se também em
outra carta do Apóstolo: “Porque sois filhos de Deus, enviou Deus
o espírito do seu Filho nos nossos corações, chamando — Abba,
Pai”. (Gl 4, 46).

124 — Quinto, porque o Espírito Santo nos aconselha em nossas
dúvidas e nos ensina qual seja a vontade de Deus. Lê-se: “Quem
tem ouvidos para ouvir, ouça o que o Espírito diz às Igrejas” (Ap
2, 7); “Escutá-lo-ei como um Mestre” (Is 50, 4).

























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ARTIGO NONO


— Creio na Santa Igreja Católica —


125 — Observamos que em cada homem há uma só alma e um só
corpo, mas muitos membros. Assim também a Igreja Católica é
um só corpo com muitos membros. A alma que vivifica este corpo
é o Espírito Santo 50. Por isso, após a profissão de fé no Espírito
Santo é determinado que creiamos na Santa Igreja Católica.
Donde este artigo do Símbolo — Creio na Santa Igreja Católica.

A respeito desse assunto, deve-se considerar que a palavra Igreja
significa Congregação. Igreja Santa, pois, é o mesmo que
congregação dos fiéis. Cada cristão é como um membro desta
Igreja, conforme se lê: “Aproximai-vos de mim, ó ignorantes, e
congregai-vos na casa da instrução” (Ecl 51, 31).


50 Está aqui esboçada a doutrina do Corpo Místico de Cristo, expressão que define a
Igreja de modo mais perfeito. Assim escreve Pio XII na monumental Encíclica
“Mystici Corporis Christi”:

“Para definir e descrever esta verdadeira Igreja de Cristo... nada há mais nobre,
nem mais excelente, nem mais divino do que o conceito expresso na denominação
“Corpo Místico de Cristo”; conceito que imediatamente resulta de quanto nas
Sagradas Letras e nos escritos dos Santos Padres freqüentemente se ensina”

Nesta Encíclica, conforme o Pe. Maurilio Penido (“O Corpo Místico”, Vozes, 1944,
pág. 147), o Papa, ao definir a Igreja como Corpo Místico de Cristo, o faz,
infalivelmente, sendo, portanto, essa definição de Igreja dogma de fé.

Neste texto de S. Tomás não usa o termo místico como qualificativo de corpo. O
termo não estava ainda consagrado pela teologia. Se-lo-á definitivamente pela
Bula Unam Sanctam, de Bonifácio VIII (cfr. Maurilio Penido, o.c., pg. 95)

Contudo, o Doutor Angélico na Suma Teológica (em parte escrita
contemporaneamente a este Sermão) já apresenta o essencial da doutrina do
Corpo Místico.

“Os membros do corpo natural coexistem todos ao mesmo tempo, mas não assim
os membros do Corpo Místico, e esta é a diferença que existe entre o corpo natural
e o Corpo Místico da Igreja. Podemos considerar a não coexistência simultânea,
quer com relação ao ser natural (a Igreja, com efeito, é constituída pelos homens
que existiram desde o princípio do mundo até ao fim), quer com relação ao ser da
graça (pois entre os membros da Igreja que vivem no mesmo tempo, há os que
não possuem a graça, mas a possuirão, e há os que estão privados da graça, mas
já a possuíram. Assim deve ser considerados como membros do Corpo Místico não
só os que o são em ato, mas também os que o são em potência” (S.T. III, 8, 3 c).


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Essa Igreja Santa tem quatro características: ela é una, é santa,
é católica, isto é, universal, e é forte e firme.

126 — Com relação à primeira característica, deve-se esclarecer
que muitos hereges criaram diversas seitas, mas eles não
pertencem à Igreja porque estão divididos em partes. A Igreja,
porém, é una. Lê-se nos Cânticos: “Una é a minha pomba, a
minha perfeita” (Ct 6, 8).

A unidade da Igreja é resultante de três causas.

127 — Primeiro, da unidade da fé. Todos os cristãos que estão no
corpo da Igreja crêem nas mesmas verdades. Lê-se: “Dizei a
todos a mesma coisa, e não haja cisões entre vós” (1 Cor 1, 10);
“Um Deus, uma só fé, um só batismo” (Ef 4, 4).

128 — Segundo, da unidade de esperança, porque todos firmam-
se numa só esperança de alcançar a Vida Eterna. Diz o Apóstolo:
“Um só corpo e um só espírito, porque fostes chamados na
esperança da vossa vocação” (Ef 4, 4).

129 — Terceiro, da unidade de caridade, porque todos estão
congregados no amor de Deus, e, entre si, pelo mútuo amor. Lê-
se: “A caridade que me destes, eu lhes dei, para que sejam um,
como nós somos um”. (Jo 17, 22).

Este amor, se é verdadeiro, manifesta-se também quando os
membros são solícitos e compassivos uns para os outros. Lê-se:
“Cresceremos em todas as coisas pela caridade d’Aquele que é a
Cabeça, o Cristo. É por Ele que o corpo inteiro, coordenado e
unido, em todas as suas junturas, opera o seu crescimento
orgânico, segundo a atividade de cada uma das partes a fim de se
edificar na caridade” (Ef 4, 15-16).


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Assim, cada um, conforme a graça recebida de Deus, deve servir
ao próximo.

130 — Por esse motivo, ninguém tenha por coisa desprezível ser
rejeitado por esta Igreja, ou permitir que seja dela afastado.
Realmente, não há senão uma Igreja na qual todos os homens se
salvam, como também, antigamente, ninguém podia salvar-se
fora da arca de Noé 51.

131 — Com relação à segunda característica, deve-se observar
que há uma congregação, mas dos maus, conforme se lê nos
Salmos: “Odiei a Igreja dos Malfeitores” (Sl 25, 5). Mas esta é má,
enquanto a Igreja de Cristo é Santa.

Lê-se: “O templo de Deus, que sois vós, é santo” (1 Cor 3, 17).
Por isso o Símbolo acrescenta: Santa Igreja.

Por três motivos os fiéis são santificados na Igreja.

132 — Primeiro porque, assim como a Igreja é consagrada e
materialmente lavada, os fiéis são também purificados pelo
sangue de Cristo, conforme se lê: “Amou-vos e lavou-vos dos
pecados no seu sangue” (Ap 1, 5); e, “Jesus, para santificar pelo
seu sangue o seu povo, sofreu fora da porta da cidade” (Heb 13,
12).

133 — Segundo, devido à unção. Assim como a Igreja é ungida,
os fiéis são também ungidos pela unção espiritual, para serem
santificados. Se não tivessem sido ungidos, não poderiam ser
chamados de cristãos, porque Cristo quer dizer ungido. Esta unção
é a graça do Espírito Santo. Lê-se: “Deus que nos ungiu” (2 Cor 1,
21); e, “sois santificados no nome de Nosso Senhor Jesus Cristo”
(1 Cor 6, 11).


51 A falsa compreensão da doutrina da salvação dos infiéis pode levar a práticas
impróprias do ecumenismo, abandonando-se o apostolado por se considerar que as
outras religiões são meios determinados por Deus para a salvação dos que a elas
pertencem.


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134 — Terceiro, devido à habitação da Trindade 52, porque onde
quer que Deus habite, este lugar é santo. Lê-se:
“Verdadeiramente este lugar é santo” (Gn 28, 10); e, “A vossa
casa é de santificação” (Sl 42, 5).

135 — Deve-se acrescentar um outro motivo, isto é, a invocação
de Deus. Lê-se: “Senhor, habitais entre nós, e o Teu nome foi
invocado sobre nós” (Jr 14, 5).

136 — Devemos ter todo o cuidado para que, após esta
santificação, não manchemos nossa alma pelo pecado, pois ela é o
templo de Deus. Lê-se: “Se alguém violar o templo de Deus, Deus
o perderá” (1 Cor 3, 17).

137 — Acerca da terceira característica da Igreja, devemos saber
que ela é católica, isto é, universal, por três motivos: o primeiro,
refere-se ao lugar, porque ela está espalhada por todo o mundo,
mas os donatistas afirmam o contrário 53. Lê-se na Carta aos


52 Há na alma do cristão em estado de graça uma presença especial de Deus que
se chama “habitação”. Essa nova presença é assim explicada por S. Tomás:

“Há um modo comum segundo o qual Deus está em todas as coisas por essência,
presença e potência, como a causa está nos efeitos que participam de sua
bondade. Além desse modo comum, há um outro especial que convém à criatura
racional no qual se diz que se encontra Deus como o objeto conhecido naquele que
o conhece, e o amado, no que ama. Como a criatura racional, conhecendo e
amando, alcança por sua operação ao próprio Deus, conforme este modo especial
não só se rediz que Deus está na criatura racional, mas também que nela habita
como no seu templo. Por conseguinte, nenhum outro efeito que não seja a graça
santificante pode ser razão de que a Pessoa Divina esteja de um modo novo na
criatura racional” (S.T. I. 43, 3 c.).

João de S. Tomás completa a doutrina tomista, nestes termos:

“Esta presença de Deus, como possuído, não é só afetiva; mas também real e
física, enquanto o próprio Deus pessoalmente é dado ou enviado, para que habite e
esteja na alma; não apenas como na causa ativa, mas também como um amigo
que convive com a alma, e por ela possuído. Esta união, porém, não é como a
união pela espécie na visão da glória, mas tende para ela, como uma começada e
imperfeita fruição e posse de Deus” (In. q. VIII, VI, 11).

53 A seita dos Donatistas surgiu na África no século IV, tendo como principal
promotor Donato, anti-bispo de Cartago, eleito em 315. A seita, que surgira das
desavenças havidas durante as eleições de Celiano para Bispo daquela cidade
(311), espalhou-se em breve pelas cidades africanas, chegando a congregar 300
bispos, e ensinava que a validade dos sacramentos dependia da dignidade do
ministro. Só os seus adeptos, porque não eram traidores, podiam administrar
validamente os sacramentos do batismo e da ordem. Condenados pelos bispos
católicos da África, pelo Papa, combatida pelos imperadores, encontraram os

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Romanos: “A vossa fé é proclamada por todo o universo” (Rom. 1,
8), e, em S. Marcos, “Ide por todo o universo e pregai o
Evangelho a toda criatura” (Mc 16, 15). Anteriormente Deus era
conhecido só na Judéia, agora, porém em todo o mundo.

A Igreja é constituída de três partes: uma, na terra; outra, no céu,
e a terceira no purgatório.

138 — A Igreja é Universal, em segundo lugar, devido à condição
dos homens que dela fazem parte, porque nenhum deles é
rejeitado: nem senhor, nem servo, nem homem, nem mulher. Lê-
se: “Não há agora... nem judeu, nem gentio; nem escravo, nem
homem livre; nem homem, nem mulher, mas não sois senão um
só em Jesus Cristo” (Gl 3, 28).

139 — Finalmente a Igreja é universal com relação ao tempo.
Alguns disseram que a Igreja deveria perdurar por determinado
tempo somente. Mas isso é falso. Esta Igreja começou no tempo
de Abel e durará até o fim dos séculos. Disse Cristo: “Estarei
convosco todos os dias até a consumação dos séculos” (Mt 28, 20)
54.

140 — Quanto à quarta característica, sabemos que a Igreja é
firme. Uma casa é chamada de firme quando, antes de tudo, está
sobre bons alicerces. Ora, o principal fundamento da Igreja é
Cristo, conforme afirma o Apóstolo: “Ninguém poderá por outro
fundamento senão o que já foi posto, que é Jesus Cristo” (1 Cor 3,
11). O fundamento secundário são os Apóstolos e a doutrina
deles. Por esse motivo ela é também firme. Está escrito no livro


donatistas em Santo Agostinho um forte opositor, que por muitos anos de sua vida
em sermões e tratados os combateu, afirmando que a eficácia dos sacramentos
derivava da validade objetiva dos mesmos. Nas lutas anti-donatistas, porque o
braço secular, desde Constantino a Honório, viera em auxílio da Igreja, a doutrina
sobre o recurso ao poder civil em questão religiosa foi também firmada, devido
ainda aos esclarecimentos trazidos por Santo Agostinho. A seita desapareceu
somente com as invasões árabes no norte da África.

54 A mesma Igreja passou e passará por diversas fases na sua vida pelos séculos, e
encontrará a sua definitiva e integral perfeição no fim dos tempos, na visão
beatífica de todos os justos.


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dos Apocalipse que a cidade tem doze fundamentos, e que neles
estavam escritos os nomes dos doze Apóstolos (cf. Ap 21, 14). Eis
porque também se diz que a Igreja é apostólica. Para mais bem
significar a firmeza da Igreja, S. Pedro foi chamado o seu chefe.

141 — Verifica-se, em segundo lugar, a firmeza da Igreja, porque
se ela for abalada, não poderá ser destruída. A Igreja jamais
poderá ser destruída. Não a destruíram os perseguidores. Pelo
contrário, ela cresceu ainda mais durante as perseguições, e os
que a perseguiram, bem como os que ela combatia é que
tombaram. Lê-se: “O que cair sobre esta pedra, quebrar-se-á;
sobre quem ela cair, será esmagado” (Mt 21, 44).

Os erros não a destruíram. Pelo contrário: quanto mais os erros
proliferavam, tanto mais era a verdade manifestada. Lê-se: “Os
homens de espírito corrompido, pervertidos na fé, mas não irão
além” (2 Tm 2, 8).

Nem as tentações do demônio a destruíram. A Igreja é como uma
torre na qual se refugia todo o que luta contra o diabo. Lê-se: “É
uma torre fortíssima, a casa do Senhor” (Pr 18, 10). Por isso,
acima de tudo, o diabo se esforça para destruí-la, mas não
prevalecerá, porque está escrito: “E as portas do inferno não
prevalecerão contra ela” (Mt 16, 8). É a repetição do que já foi
falado por Jeremias: “Lutarão contra si, mas não prevalecerão” (Jr
15, 20).

Eis porque só a Igreja de Pedro (a quem couber pregar o
Evangelho por toda a Itália) sempre foi firme na fé. Enquanto em
outros lugares não existe a fé, ou existe misturada com muitos
erros, a Igreja de Pedro permanece na fé, e está purificada dos
erros. Isso não pode ser motivo de admiração, porque o Senhor
mesmo disse a Pedro: “Roguei por ti, para que tua fé não
desfaleça” (Lc 22, 32) 55.


55 Nos primitivos Símbolos de fé as notas que acompanhavam o nome da Igreja
eram santa e católica. Acrescentaram-se, após, apostólica e romana.


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Sto. Tomás não fala de modo explícito neste sermão, da qualidade romana da
Igreja Católica, mas pelo contexto se vê que ele não deixa de considerar esse
aspecto. A Igreja é romana pelo fato de ter sido Roma a Sé diretamente
subordinada a Pedro, além da Igreja Universal também a ele subordinada. Neste
lugar, Sto. Tomás ressalta o primado da Igreja Romana sobre as outras e a sua
indefectibilidade na fé. O primado e a infalibilidade são próprios do sucessor de
Pedro na Sé Romana. O Papa tem o primado de jurisdição (governo) e de
magistério (ensino) sobre toda a Igreja.

Assim define o Concílio Vaticano I (1870) a origem e a extensão do Primado do
Papa:

“O qual (S. Pedro) vive, governa e julga através dos seus sucessores, os Bispos da
Santa Sé Romana, fundada por ele e consagrada com o seu sangue. Por isso, todo
aquele que suceder nesta Cátedra de Pedro, recebe, por instituição do próprio
Cristo, o primado de Pedro sobre toda a Igreja” (Const. Dogmática Pastor
Aeternus, 1824).

“A Santa Sé Apostólica e o Pontífice Romano têm o primado sobre todo o mundo, e
o mesmo Pontífice Romano é o sucessor de S. Pedro, é o verdadeiro Vigário de
Cristo, o chefe de toda a Igreja e o Pai e Doutor de todos os cristãos; e a ele
entregou Nosso Senhor Jesus Cristo todo o poder de apascentar, reger e governar
a Igreja Universal” (1. c. 1826).

“Este poder de jurisdição do Romano Pontífice, poder verdadeiramente episcopal, é
imediato. E a ela (à Igreja Romana) devem sujeitar-se, por dever de subordinação
hierárquica e verdadeira obediência, os pastores e fiéis de qualquer rito e
dignidade, tanto cada um em particular, como todos em conjunto, não só às coisas
referentes à fé e aos costumes, mas também, nas que se referem às disciplinas e
ao regime da Igreja, espalhada por todo o mundo” (1 c. 1828).

“No próprio primado Apostólico que o Romano Pontífice tem sobre toda a Igreja,
está também incluído o supremo poder do Magistério (...) na Sé Apostólica sempre
se conservou imaculada a religião católica e santa a doutrina. (...) O Romano
Pontífice quando fala ex catedra, (...) quando define com sua suprema autoridade
alguma doutrina referente à fé, e à moral para toda a Igreja, em virtude da
assistência divina prometida a ele na pessoa de Pedro, goza daquela infalibilidade
com a qual Cristo quis munir a sua Igreja quando define alguma doutrina sobre fé
e moral” (1. c. 1832-1833-1839).

Essa doutrina tradicional, o Doutor Angélico já havia formulado no Suma Teológica,
onde se expressa nos seguintes termos:

“A promulgação de um Símbolo compete à autoridade a cuja autoridade pertence
determinar finalmente as coisas da fé, para que sejam por todos aceitas por ato de
fé indiscutível. Isto pertence à autoridade do Sumo Pontífice, a quem se referem as
principais e mais difíceis questões da Igreja. (...) Por isso pertence a ela
exclusivamente a nova promulgação de um símbolo, como todas as coisas que
pertencem a toda a Igreja, como convocar um sínodo geral, etc” (S.T. II, II, 1, 10
c).

As definições dogmáticas podem ser também promulgadas por um Concílio
Ecumênico, mas só têm eficácia se aprovadas pelo Papa. É interessante de se notar
que o Doutor Angélico já no século XIII formulou de modo preciso a doutrina do
primado jurisdicional e doutrinário do Papa, quando nos séculos seguintes (XIV e
XV) surgiram sérias controvérsias a respeito desse primado, afirmando muitos
teólogos (Guilherme Occam, Gerson etc.) e concílios (Constança, Baziléia etc.) o
chamado conciliarismo que subordinava o poder papal à autoridade dos Concílios
Ecumênicos.









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