domingo, 23 de maio de 2010

Credo, por São Tomás de Aquino - parte I: artigo primeiro.Tradução e Notas: D. Odilão Moura,OSB. Edição eletrônica da Ed.Permanência.


INTRODUÇÃO

— A FÉ —



Durante a Quaresma de 1273, S. Tomás, entre outros sermões,
proferiu este, que é uma das mais perfeitas exposições que
existem sobre o Credo. Pronunciado em dialeto napolitano, foi
traduzido fielmente (conforme atestam os testemunhos históricos)
para o latim, pelos discípulos do Santo. Para ouvir a palavra do
Doutor Angélico, acorriam às igrejas de Nápoles, os habitantes
dessa agitada cidade medieval e os seus alunos universitários. Por
isso o grande teólogo usava de uma linguagem mais acessível que
a das suas obras teológicas. O conteúdo, porém, dos seus
sermões, conserva a mesma profundeza doutrinária e a peculiar
ortodoxia do Doutor Comum:



1 — O primeiro bem necessário para o cristão é a fé. Sem a fé
ninguém pode ser chamado de fiel cristão.

2 — O primeiro bem é a união da alma com Deus. Pela fé realiza-
se uma espécie de matrimônio entre a alma e Deus, conforme se
lê no Profeta Oséias: “Desposar-te-ei na fé”. (Os 2, 20).

Quando o homem é batizado, deve, em primeiro lugar, confessar a
fé ao responder à pergunta — crês em Deus? — porque o batismo
é o primeiro sacramento da fé. O Senhor mesmo disse: “O que
crer e for batizado será salvo” (Mc 16, 16).

O batismo sem a fé é destituído de valor. Deve-se, portanto, ter
por certo que ninguém pode ser aceito por Deus sem a fé”. “Sem
a fé é impossível agradar a Deus”, diz S. Paulo (Heb 11, 6).

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Sto. Agostinho comentando este texto da carta aos Romanos —
“Tudo o que não procede da fé é pecado” (14, 23), assim se
expressa: “Onde não existe o conhecimento da verdade eterna e
imutável, a virtude é falsa mesmo nas pessoas retas”.

3 — O segundo bem é este: pela fé é iniciada em nós a vida
eterna. A vida eterna não consiste senão em conhecer a Deus,
conforme lê-se em S. João: “Esta é a vida eterna, que Vos
conheçam como único Deus verdadeiro”. (Jo 17, 3). Esse
conhecimento de Deus inicia-se aqui pela fé, mas é completado na
vida futura, quando O conheceremos tal como é. Por isso lê-se na
carta aos Hebreus: “A fé é a substância das coisas que se
esperam” (11, 11). Ninguém alcançará a bem-aventurança eterna,
sem que tivesse primeiramente o conhecimento de fé, pois está
escrito: “Bem-aventurados os que não viram e creram” (Jo 20,
29).

4 — A vida presente é orientada pela fé: eis o terceiro bem. Para
que o homem viva bem, convém que conheça os princípios do
bem viver. Se pelo próprio esforço devesse aprender esses
princípios, ou não chegaria a conhecê-los, ou só os poderia
conhecer após um longo tempo. Mas a fé ensina todos os
princípios do bem viver. Ora, ela ensina que há um só Deus, que
Deus recompensa os bons e pune os maus, que existe uma outra
vida, e outras verdades semelhantes. Esse conhecimento é
suficiente para nos levar a praticar o bem e evitar o mal, pois diz o
Senhor: “O meu justo vive da fé” (Hab 2, 4).

Eis porque nenhum filósofo antes da vinda de Cristo, apesar do
grande esforço intelectual que despendiam, pôde chegar ao
conhecimento de Deus e dos meios necessários para alcançar a
vida eterna, como depois do advento do Cristo, qualquer velhinha
chegou pela fé. Eis porque Isaías profetizou assim esse advento:
“Encheu-se a terra da ciência de Deus” (11, 23).


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5 — O quarto bem é que pela fé venceram as tentações, conforme
lê-se nas Escrituras: “Os santos pela fé venceram os reinos” (Heb
11, 23). As tentações procedem do diabo, do mundo, ou da carne.
O diabo tenta para que tu não obedeças nem te submetas a Deus.
Ora, é pela fé que o repelimos, porque é pela fé que conhecemos
que há um só Deus e que só a Ele devemos obedecer. Por isso
escreveu São Pedro: “O diabo, vosso adversário, está rondando
para ver se devora alguém: a ele deveis resistir pela fé” (1 Pd 5,
8).

O mundo nos tenta, seduzindo-nos na prosperidade, ou nos
atemorizando nas adversidades. Mas ambas as tentações
vencemos pela fé. Ela nos faz crer numa vida melhor, e, por isso,
desprezamos as prosperidades do mundo e não tememos as
adversidades. Eis porque está escrito: “Esta é vitória que vence o
mundo, a vossa fé” (1 Jo 5, 4). Além disso, a fé nos ensina a
acreditar que há males maiores, isto é, que existe o inferno.

A carne nos tenta, conduzindo-nos para os deleites momentâneos
da vida presente. Mas a fé nos mostra que por eles, se a eles
indevidamente aderimos, perderemos os deleites eternos. Por isso
nos aconselha o Apóstolo: “Tende sempre nas mãos o escudo da
fé” (Ef 6, 16).

Por essas razões fica provado que é muito útil ter fé.

6 — Mas pode alguém objetar: é insensatez acreditar naquilo que
não se vê: não se deve crer senão naquilo que se vê.

Respondo a essa objeção com os seguintes argumentos.

7 — Primeiro. É a própria imperfeição da nossa inteligência que
desfaz essa dúvida. Realmente, se o homem pudesse por si
mesmo conhecer perfeitamente as coisas visíveis e invisíveis seria
insensato acreditar nas coisas que não vemos. Mas o nosso

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conhecimento é tão limitado que nenhum filósofo até hoje
conseguiu perfeitamente investigar a natureza de uma só mosca.
Conta-se até que certo filósofo levou trinta anos no deserto para
conhecer a natureza das abelhas. Ora, se a nossa inteligência é
tão limitada assim, é muito maior insensatez não querer acreditar
em algo a respeito de Deus a não ser naquilo que o homem pode
conhecer por si mesmo d’Ele. Lê-se no livro de Jó: “Eis como Deus
é grande e ultrapassa a nossa ciência” (36, 26).

8 — Segundo. Consideremos, por exemplo, um mestre que
assimilou uma verdade e de um aluno pouco inteligente que a
entendeu diversamente, porque não a atingiu. Ora, esse aluno
pouco inteligente deve ser considerado como bastante tolo.
Sabemos que a inteligência dos Anjos ultrapassa a do maior
filósofo, como a deste, a inteligência dos ignorantes. Portanto,
seria tolo o filósofo que não acreditasse nas coisas ditas pelos
Anjos. Ele seria muito mais tolo se não acreditasse nas coisas
ditas por Deus. Lê-se, a esse respeito, nas Escrituras: “Foram-te
apresentadas muitas verdades que ultrapassam a inteligência do
homem” (Ec 3, 25).

9 — Terceiro. Se o homem não acreditasse senão nas coisas que
vê, nem poderia viver neste mundo. Pode alguém viver sem
acreditar em outrem? Como podes tu saber que este é teu pai? É,
pois, necessário que o homem acredite em alguém, quando se
trata de coisas que por si só não as pode conhecer. Ora, ninguém
é mais digno de fé do que Deus. Por conseguinte, os que não
acreditam nas verdades da fé não são sábios, mas tolos e
soberbos. São Paulo refere-se a esses como sendo — “soberbos e
ignorantes...” (1 Tm 6, 4). Por isso S. Paulo diz de si: “Sei em
quem acreditei e tenho certeza...” (2 Tm 1, 12). Tudo isso é
confirmado no Livro do Eclesiástico: “Vós que temeis o Senhor,
acreditai n’Ele” (2, 8).

10 — Quarto. Pode-se ainda responder dizendo que Deus
comprova as verdades da fé. Se um rei enviasse suas cartas

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seladas com o selo real, ninguém ousaria dizer que aquelas cartas
não vinham do próprio rei. É claro que as verdades nas quais os
santos acreditaram e que nos transmitiram como sendo de fé
cristã, estão seladas com o selo de Deus. Esse selo é significado
por aquelas obras que uma simples criatura não pode fazer, isto é,
pelos milagres. Pelos milagres Cristo confirmou as palavras do
Apóstolo e dos Santos.

11 — Pode, porém, replicar dizendo que ninguém viu esses
milagres. É fácil responder a essa objeção. É conhecido que toda a
humanidade prestava culto aos ídolos e que a fé cristã foi
perseguida, confirmando-o, além do mais, a história do
paganismo. Converteram-se todos, porém, em pouco tempo a
Cristo. Os sábios, os nobres, os ricos, os governos e os grandes
converteram-se pela pregação de poucos homens rudes e pobres.
Ora, de duas uma: ou se converteram por que viram milagres, ou
não. Se foi porque viram milagres que se converteram, a tua
objeção não tem sentido. Se não o foi, respondo que não poderia
haver maior milagre que esse de todos os homens converterem-se
sem terem visto milagres. Deves te dar por vencido.

12 — Eis porque ninguém pode duvidar da fé. Devemos acreditar
mais nas verdades da fé do que nas coisas que vemos, por que a
vista do homem pode falhar, mas a ciência de Deus é sempre
infalível.












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ARTIGO PRIMEIRO


— Creio em Deus, Pai todo poderoso,
criador do céu e da terra —


13 — Entre todas as verdades nas quais os fiéis devem acreditar,
em primeiro lugar devem acreditar que Deus existe 1 .

Convém, além disso, considerar o que significa este nome —
Deus.

Significa precisamente Aquele que governa e cuida de todas as
coisas.

Acredita, por conseguinte, na existência de Deus, quem acredita
que todas as coisas deste mundo são por Ele governadas, e estão
subordinadas à sua Providência.



1 O leitor deve estar sempre atento ao estilo de São Tomás, claro, conciso e lógico.
Não há palavras supérfluas. As palavras, no estilo do Doutor Angélico, têm o
significado preciso e manifestam os conceitos de uma inteligência lúcida. Essa
simplicidade despida de artifícios é adequada à comunicação da verdade pura.
Nota-se que São Tomás jamais apela para a emotividade ou para os recursos
oratórios de sugestionamento. Ele quer que se aceite a verdade pela clarividência
da verdade. Aceita a verdade pela inteligência, naturalmente a vontade inflamar-
se-á de amor por ela. Esse método comunicativo de São Tomás é essencialmente
humano. Para o homem de hoje, condicionado pelos processos comunicativos
audiovisuais, pela propaganda subliminal e pelos recursos emocionantes, torna-se
um tanto difícil, e por isso exige um esforço de atenção, seguir a tranqüila e pura
apresentação da verdade feita por São Tomás. O seu estilo literário assemelha-se à
pureza musical do estilo de Bach. O vocabulário de São Tomás por essa razão, não
é muito rico, naturalmente dificultando a tradução, podendo parecer o seu estilo
monótono. Mas se o leitor esforçar-se por penetrar na limpidez das suas frases, na
rica repetição dos conceitos sempre com novas modalidades, sentir-se-á logo
atraído pela beleza do estilo do Doutor Angélico e admirado pelas verdades que
expõe. São Tomás é simbolizado pelo sol. O seu estilo tem os encantos da luz.

Atenta-se também neste sermão de São Tomás, que, provavelmente, seria mais de
um sermão, o modo como a Sagrada Escritura é citada, ajustando-se
espontaneamente, ao contexto e, fundamentando a doutrina exposta. Sem que se
perceba, São Tomás aqui realiza uma atividade teológica inicial, quando a
inteligência, usando apenas dos primeiros esforços do senso comum procura, sem
argumentação metafísica e sem terminologia científica, penetrar no conteúdo das
verdades reveladas.

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Mas quem pensa que todas as coisas originam-se do acaso, não
acredita na existência de Deus.

Não há ninguém tão insensato que não creia que a natureza seja
governada, que esteja submetida a uma providência e que tivesse
sido ordenada por alguém, vendo que tudo se processa a seu
tempo, com ordem. Vemos o sol, a lua e as estrelas, e muitos
outros elementos da natureza obedecerem a um determinado
curso. Ora, isso não aconteceria se tudo viesse do acaso.

Eis porque seria um insensato o que não acreditasse na existência
de Deus. tal asserção é confirmada pelo salmista: “O insensato diz
em seu coração: não há Deus” (Sl 13, 1).

14 — Alguns há que acreditam que Deus governa e ordena as
coisas naturais, mas não acreditam que Deus atinja, pela sua
Providência, os atos humanos. Evidentemente pensam que os atos
humanos não são ordenados por Deus. porque vêem no mundo os
bons sofrerem e os maus prosperarem, concluem que a
Providência Divina não atinge os homens.

Por eles falou Jó: “Deus anda pelos caminhos do céu, mas não
cuida de nós” (22, 14).

Afirmar tal coisa, é grande insensatez. Acontece com os que assim
pensam, o que acontece àqueles que vendo o médico bom
conhecedor da medicina dar a um doente água e a outro vinho,
julgassem, no seu desconhecimento da medicina, que o médico
estava curando por acaso, e não, por motivo ponderado.

15 — Deus também age como médico. Por motivo justo e pela sua
Providência dispõe Ele as coisas necessárias para os homens,
quando aflige alguns bons e permite que alguns maus prosperem.

Quem acreditasse que isso fosse obra do acaso, evidentemente
deveria ser um insensato, como de fato o é. Assim pensa, porque

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desconhece a maneira de Deus agir, e a razão pela qual dispõe as
coisas. Lê-se também em Jó: “Oxalá Ele te revele os segredos da
sua sabedoria e a multiplicidade dos seus planos” (11, 6). Por
conseguinte deve-se crer firmemente que Deus governa e ordena
as coisas naturais e também os atos humanos. Lê-se no Livro dos
Salmos: “Disseram (os maus): Deus não vê. O Deus de Jacó não
percebe as coisas. Compreendei agora, ó néscios! Ó estultos, até
quando sereis insensatos? Aquele que nos deu as orelhas, não
ouve? Aquele que nos pôs os olhos, não vê? O Senhor conhece os
pensamentos dos homens” (103, 7-10).

Deus vê todas as coisas, os pensamentos e os segredos das
vontades dos homens. Já que tudo o que pensam e fazem está
patente aos olhos de Deus, os homens, de modo muito especial,
são obrigados a praticar o bem. Escreve S. Paulo aos Hebreus:
“Tudo está nu e descoberto aos seus olhos” (4, 13).

16 — Deve-se acreditar que este Deus que dispõe todas as coisas
e as rege, é um só Deus. A razão por quê devemos acreditar
nessa verdade é a seguinte: o governo das coisas humanas é um
bom governo, quando um só as dispõe e as governa.

Uma multiplicidade de dirigentes constantemente provoca
disenções entre os súditos. Ora, como o governo divino é superior
ao humano, torna-se claro que o governo do mundo não pode ser
feito por muitos deuses, mas por um só.

17 — Os homens são levados ao politeísmo por quatro motivos:

O primeiro, é a fraqueza da inteligência humana. Há homens, cuja
fraqueza de inteligência não lhes permitiu ir além das coisas
corpóreas, e, por isso, não acreditaram na existência de alguma
natureza superior aos seres corpóreos.

Pensaram então que, entre aqueles seres corpóreos, os mais belos
e mais dignos deveriam presidir e dirigir o mundo, e prestaram a

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eles um culto divino. Consideraram como sendo os corpos mais
sublimes, os astros do céu: o sol, a lua e as estrelas. Acontece
com eles o que aconteceu com aquele homem que, desejando ver
o rei, foi à corte, e confundiu com o rei quem logo encontrou bem
vestido, ou exercendo alguma função de ministro. Refere-se a
esses o Livro do Profeta Isaías: “Levantai bem alto os olhos, e
vede a terra por baixo. Os céus evaporar-se-ão como a fumaça, a
terra envelhecer-se-á como as vestes e os seus habitantes
perecerão como ela. Mas a minha salvação será eterna, e a minha
justiça não terá fim” (51, 6).

18 — O segundo motivo, é a adulação dos homens. Muitos
desejando adular os reis e os senhores, tributaram-lhes a honra
devida a Deus. Obedeceram e se submeteram a eles. Houve quem
os endeusassem após a morte, e houve os que os endeusaram
também em vida. Lê-se na Escritura: “Todos saibam que
Nabucodonosor é deus da terra, e além dele outro deus não há”
(Jud. 5, 29).

19 — O terceiro motivo provém da afeição carnal para os filhos e
parentes. Alguns, levados por excessivo amor pelos parentes,
levantaram-lhes estátuas após a morte, e, assim foram
conduzidos a prestar culto divino àquelas estátuas. É a eles que se
refere a Escritura: “Deram os homens às pedras e à madeira um
nome incomunicável, porque submeteram-se demais a afeição aos
reis” (Sab. 14, 21).

20 — A quarta razão, pela qual os homens são levados a acreditar
na existência de muitos deuses, é a malícia do diabo. Este, desde
o início, quis ser igual a Deus: “Colocarei meu trono no Aquilão,
subirei aos céus e serei semelhante ao Altíssimo” (Is. 14, 13).

Até hoje ele não revogou essa vontade. Por isso esforça-se o mais
possível para que os homens o adorem e lhe ofereçam sacrifícios.
Não lhe satisfaz o ofertório de um cão ou de um gato, mas deleita-
se quando lhe é prestado o culto devido a Deus. Disse o demônio

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a Cristo: “Dar-te-ei tudo isto se de joelho me adorares” (Mat. 4,
9). Para que fossem adorados como deuses, os demônios
entraram nos ídolos e por meio destes davam respostas. Lê-se na
Escritura: “Todos os deuses dos povos são demônios” (Ps. 95, 5).
“Quando os gentios oferecem sacrifícios, fazem-no aos demônios,
não a Deus” (I Cor. 10,20).

21 — É muitíssimo desagradável a consideração dessas quatro
causas do politeísmo, mas representam realmente as razões pelas
quais os homens acreditam na existência de muitos deuses.
Muitas vezes eles não manifestam pelas palavras ou pelo coração
que acreditam em muitos deuses, mas pelo atos. Aqueles que
acreditam que os astros podem modificar a vontade dos homens,
que para agir esperam certas épocas, naturalmente consideram os
astros como deuses que dominam os outros seres e que fazem
prodígios. Por isso somos advertidos pela Escritura: “Não temei os
sinais dos astros que os gentios temem, porque as suas leis são
vãs” (Jer. 10, 2).

Também aqueles que obedecem aos reis, ou aos que não devem
obedecer, mais que a Deus, constituem a essas pessoas como os
seus deuses. Adverte-nos também a Escritura: “Convém mais
obedecer a Deus que aos homens” (At. 5, 29).

Assim também os que amam os filhos e os parentes mais que a
Deus, revelam pelos atos que acreditam em muitos deuses. Ou
mesmo aqueles que amam mais os alimentos que a Deus, aos
quais se refere S. Paulo com estas palavras: “Dos quais o ventre é
deus” (Tm 3, 19).

Os que praticam a feitiçaria e se entregam aos sortilégios
acreditam nos demônios como se eles fossem deuses, porque
pedem aos demônios o que só se pode pedir a Deus, como sejam
revelações e conhecimentos de coisas secretas ou futuras.


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Como tudo isso é falso, devemos acima de tudo acreditar que há
um só Deus.

22 — Como dissemos, deve-se primeiramente acreditar que há um
só Deus. Em segundo lugar, deve-se acreditar que este Deus é
criador, que fez o céu e a terra, as coisas visíveis e invisíveis.

Deixemos por ora, de lado, os argumentos sutis e, por meio de
um exemplo bem simples, esclareçamos como todas as coisas
foram criadas e feitas por Deus.

Se alguém indo a uma casa e desce a porta fosse sentindo calor e
cada vez que mais nela penetrasse mais calor sentisse,
evidentemente perceberia que havia fogo no seu interior, mesmo
que não estivesse vendo o fogo. Acontece o mesmo conosco ao
considerarmos as coisas deste mundo. Todas as coisas estão
ordenadas conforme diversos graus de beleza e de nobreza, e
quanto mais estão próximas a Deus, tanto melhores e mais belas
são. Ora, os astros são mais nobres e mais belos que os corpos
inferiores; as coisas invisíveis, que as visíveis.

Deves então acreditar que todas as coisas têm a origem num só
Deus, que lhes dá a existência e a perfeição.

Lê-se na Sagrada Escritura: “São insensatos todos os homens que
não conhecem a Deus, e que pelas coisas que viam, não
compreenderam Aquele que existe, nem vendo as obras,
conheceram o artista” (Sab. 43, 1). Lê-se no mesmo contexto:
“Pela beleza e grandeza da criatura se pode conhecer e
contemplar o seu criador” (43, 5).

Devemos, portanto, ter por certo que todas as coisas foram
criadas por Deus.

23 — Com relação a isso, três erros devem ser evitados.


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O primeiro, é o erro dos Maniqueus 2 . Para eles, as coisas visíveis
foram criadas pelo diabo, e só as invisíveis, por Deus.
Fundamentam o seu erro numa verdade, que Deus é o sumo bem
e tudo o que por ele é feito, por um ser bom, deve ser bom
também; mas não distinguindo o bem do mal, creram eles que
tudo o que de certo modo tivesse algo de mal, seria totalmente
mal. Dizem que o fogo é totalmente mal, porque queima; que a
água é má, porque afoga; e, assim, das outras coisas que
produzem um efeito mau. Ora, como nenhuma das coisas
sensíveis é simplesmente boa, mas de certo modo má e
deficiente, concluíram que todas as coisas visíveis não foram feitas
por Deus, que é bom, mas por um ser mau.

Para refuta-los Santo Agostinho apresentou o seguinte exemplo:
se alguém entrasse na casa de um operário e aí encontrasse uma
ferramenta que o ferisse, e, por esse motivo, concluísse que o
operário era mau, porque usa tais ferramentas, seria um tolo,
porque ele as usa tão somente para o trabalho. Eis porque é tolice
dizer que as criaturas são totalmente más, porque em algum
aspecto são nocivas.

Podem elas ser nocivas para uns, mas úteis, para outros.

Esse erro vai contra a fé da Igreja, pois recitamos no Credo:
“Criador das coisas visíveis e invisíveis”. Fundamenta-se essa
verdade na Escritura: “No princípio Deus criou o céu e a terra” (Gn
1, 1). “Todas as coisas foram feitas por Ele” (Jo 1, 3).


2 O Maniqueísmo é uma seita sincretista, com elementos de religião persa do
Masdeísmo, das correntes gnósticas orientais e do cristianismo. Fundou-a Maní,
persa, que viveu de 216 a 776. Ela expandiu-se pelo oriente e pelo ocidente
cristão, tomando na Espanha, no século IV, a feição priscilianista, onde
acrescentou-se à doutrina a prática de atos libidinosos, repercutindo ainda no
século XII nas heresias dos cátaros e dos albigenses. Santo Agostinho foi
maniqueu, mas antes da conversão para o catolicismo já havia abandonado o
Maniqueísmo e se passara para o neo-platonismo. Combateu os erros maniqueus
em quase todas as suas obras. Sob o aspecto doutrinário, o Maniqueísmo é um
sistema gnóstico, isto é, unia princípios filosóficos a idéias religiosas, buscando
nisso a libertação do homem. O fundamento do sistema maniqueu era o dualismo
que afirmava haver dois reinos em conflito, o da luz, presidido por Deus, e o das
trevas, pelo demônio. A vida na terra é uma repercussão desse conflito, onde Jesus
entrou como elemento purificador, e, no fim dos tempos, haverá a vitória do reino
da luz.


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24 — O segundo erro que deve ser evitado é o dos que afirmam
que o mundo é eterno 3. Coloca S. Pedro na boca dos que assim
falam, estas palavras: “Desde que nossos pais morreram, tudo
permanece como depois do começo da criação” (2 Ped. 3, 4).

Foram levados a essa convicção porque não souberam considerar
bem o início do mundo. O Rabi Moisés 4 comparou-os a uma
criança que desde o nascimento fora levada para uma ilha onde
nunca pôde ver uma mulher grávida, nem o nascimento de um
homem. Se quando crescesse lhe fosse dito com um homem é
concebido, como é carregado por nove meses no seio materno e
como nasce, ele não acreditaria no que estava ouvindo, porque lhe
pareceria ser impossível um homem ser gerado no seio materno.
Do mesmo modo comportam-se os que pensam que o mundo é
eterno, porque não lhe viram o começo. Quem pensa assim, está
também em oposição à fé da Igreja, pois recitamos no Credo a
verdade: “Creio em Deus... que fez o céu e a terra”.

Ora, se as coisas foram feitas, é claro que não poderiam ter
sempre existido. Lê-se na Escritura: “Deus disse, e as coisas
foram feitas” (Ps. 148, 5).



3 Que o mundo foi criado por Deus sem haver matéria preexistente, “ex-nihilo” é
uma verdade que só se encontra na Revelação judeu-cristã. Aristóteles afirmava a
eternidade do mundo, tese reassumida pelo filósofo árabe Averróis (1126-1198),
cuja influência nos tempos de São Tomás foi considerável.

São Tomás nega, por ser a criação verdade revelada, a eternidade do mundo, mas
admite que Deus poderia ter feito o mundo desde toda a eternidade, isto é, que
não repugna à razão admitir a possibilidade da eternidade do mundo.

São Tomás assim explica o conceito de criação: “(Deus) por sua ação produz todo
o ser subsistente, não pressupondo nenhum outro ser, pois que Ele é o princípio de
toda existência, totalmente por si mesmo. Por esse motivo pode fazer alguma coisa
do nada: essa ação chama-se criação” (De pot. 3, 1c.).

4 Dois grandes pensadores judeus tiveram influência na formação da teologia
católica: Filo, neo-platônico, que nos primeiros séculos do cristianismo trouxe farta
contribuição para a Escola de Alexandria, e o Rabi Moisés, aqui citado por São
Tomás, que viveu este em Córdova e Alexandria entre 1135 e 1204. É conhecido
na filosofia com o nome de Maimônides. É considerado o maior teólogo do
judaísmo. São Tomás refere-se a ele sempre com muito respeito.


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25 — O terceiro erro a respeito da origem do mundo é seguido por
aqueles que afirmam ter sido o mundo feito de uma matéria
preexistente. Chegaram a esse erro, porque quiseram medir o
poder de Deus pelo nosso. Como o homem nada pode fazer sem
uma matéria preexistente, assim também Deus para produzir as
coisas usou de uma matéria que já existia. Isso não é verdadeiro.
O homem nada pode fazer sem uma matéria preexistente, porque
a sua capacidade de operação é limitada, e, assim só pode dar
forma a uma matéria que já existia. O seu poder está limitado
para operar só para esta forma, e, por isso, não pode ser causa
senão dela.

Deus, porém, é a causa universal de todas as coisas, e não só cria
a forma, mas também a matéria. Por isso fez todas as coisas do
nada. Recitamos no Credo essa verdade: “Criador do céu e da
terra”.

Há diferença entre criar e fazer: criar, é tirar alguma coisa do
nada; fazer, é produzir uma coisa de outra coisa.

Se Deus criou as coisas do nada, deve-se também acreditar que
ele pode refaze-las todas, se elas forem destruídas. Pode dar vista
a um cego, ressuscitar um morto e fazer outros milagres. Diz a
Escritura: “O poder está a Vós submetido, quando quereis” (Sb
12, 18).

26 — Das verdades acima enunciadas podemos tirar cinco
conclusões práticas.

Em primeiro lugar, como devemos considerar a divina majestade.
Se o artista é superior às obras, Deus, sendo o artista criador de
todas as coisas, evidentemente é superior a tudo o que existe. Diz
a Escritura: “Se os homem atraídos pela beleza dos seres
consideraram-nos deuses, saibam eles em quanto o Senhor deles
e mais belo que eles...; ou se ficaram admirados pelo poder dos
seres e pelas obras que produzem, compreendam como é aquele

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que os fez é mais poderoso” (Sb 13, 34). Por isso tudo o que
podemos compreender ou pensar de Deus, é inferior a Ele! Diz a
Escritura: “Eis o Deus grandioso que está acima de nossa ciência”
(Jó 36, 26).

27 — Em segundo lugar, devemos dar graças a Deus. porque
Deus é o criador de todas as coisas, tudo o que somos e tudo o
que temos, nos vêm de Deus. diz o Apóstolo: “O que tens, que
não recebestes?” (1 Cor 4, 7). Lê-se no Saltério: “Do Senhor é a
terra e tudo o que a enche; o mundo e todos os seus habitantes”
(Sl 23, 1). Por isso devemos sempre render graças a Deus: “Que
retribuirei ao Senhor, por tudo o que Ele me deu?” (Sl 115, 12).

28 — Em terceiro lugar, devemos suportar as adversidades com
paciência. Pois se todas as criaturas vêm de Deus, e por isso são
boas por natureza, mesmo se em alguma coisa nos prejudicam se
nos trazem penas, devemos acreditar que essas penas foram
enviadas por Deus. A culpa nossa, porém, não pode vir de Deus,
porque nenhuma mal pode vir de Deus, a não ser que ela seja
dirigido para um bem. Ora, se toda pena que nos vem é enviada
por Deus, devemos pacientemente suporta-la. As penas nos
purificam dos pecados, humilham os réus, desafiam os bons para
o amor de Deus. lê-se no livro de Jó: “Se recebes os bens das
mãos de Deus, porque não recebemos também os males?” (Jó 2,
10).

29 — Em quarto lugar, devemos usar bem das coisas criadas. As
coisas devem ser usadas conforme as finalidades que lhes foram
dadas por Deus. As coisas foram criadas para dois fins: para a
glória de Deus, porque “todas as coisas para Si mesmo Deus as
fez” (Pr 16, 4), e para nossa utilidade, porque “Deus fez todas as
coisas para servirem aos povos” (Dt 4, 19).

Devemos usar de todas as coisas para a glória de Deus, e muito
lhe agradaremos com isso, mas também para nossa utilidade,
evitando sempre o pecado. Diz a Escritura: “De vós são todas as

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EDIÇÃO ELETRÔNICA PERMANÊNCIA
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coisas e o que recebemos das vossas mãos, vos damos” (1 Paral.
29, 14).

O que quer que possuas, seja a ciência, seja a beleza, tudo deves
usar e dirigir para a glória de Deus.

30 — Em quinto lugar, porque fomos criados por Deus, devemos
reconhecer a nossa dignidade.

Deus fez todas as coisas para o homem, como se lê na Escritura:
“Todas as coisas submetestes aos seus pés” (Sl 8, 8). O homem,
depois dos anjos, é a criatura que mais se assemelha a Deus,
como se lê no livro do Gênesis: “Façamos o homem à nossa
imagem e semelhança” (1, 16). Não se referiu Deus neste texto
nem às estrelas, nem aos céus, mas ao homem.

Não é, porém, pelo corpo, mas pela alma, que possui vontade
livre e incorruptível, que o homem mais se assemelha a Deus que
as outras criaturas.

Devemos, pois, considerar que o homem é, depois dos Anjos, o
mais digno que todas as outras criaturas, e, por conseguinte, de
maneira nenhuma queiramos diminuir essa nossa dignidade pelo
pecado ou por algum desejo desordenado de coisas corpóreas,
pois elas são inferiores a nós e foram feitas para nos servir. Que
nos comportemos de acordo com os desígnios de Deus ao nos
criar. Deus fez o homem para governar tudo o que há na terra,
mas para que o homem ficasse submetido a Ele. Devemos, por
isso, dominar e governar o mundo, mas nos submetendo a Deus,
a Ele obedecendo e servindo. Por esse caminho certamente
chegaremos à união com Deus. Amém.





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