terça-feira, 25 de maio de 2010

Catecismo da Oração: Credo segundo S. Tomás de Aquino - parte II.


ARTIGO SEGUNDO


— Creio em Jesus Cristo, Seu Único Filho,
Nosso Senhor —


31 — Não é somente necessário crerem os cristãos que existe um
só Deus, e que Ele é Criador do céu, da terra e de todas as coisas,
mas também é necessário crerem que Deus é Pai e que Jesus
Cristo é seu verdadeiro Filho.

Esse mistério não é um mito, mas uma verdade certa e
comprovada pela palavra de Deus no monte, conforme a
afirmação de S. Pedro: “Porque não foi baseando-nos em fábulas
engenhosas que vos demos a conhecer o poder e a presença de
Nosso Senhor Jesus Cristo, mas por termos visto a Sua Majestade
com os nossos próprios olhos. Porque Ele recebeu de Deus Pai
honra e glória, quando da magnífica glória lhe foram dirigidas
estas palavras: ‘Este é meu Filho muito amado, em quem pus as
minhas complacências’. E nós mesmos ouvimos esta voz vinda do
céu, quando estávamos com Ele no monte santo” (II Ped. 1, 16-
18).

O próprio Jesus Cristo muitas vezes chama a Deus como seu Pai,
e, também, denominava-se Filho de Deus.

Os Apóstolos e os Santos Padres colocaram entre os artigos de fé
que Jesus Cristo é Filho de Deus, quando definiram este artigo do
Credo: “E em Jesus Cristo seu Filho”, isto é, Filho de Deus.

32 — Mas existiram alguns heréticos que acreditaram de um modo
perverso nessa verdade de fé.


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Fotino 5 , um deles, declarou que Cristo não é filho de Deus senão
como os outros homens bons o são, os quais, por viverem bem,
merecem ser chamados filhos de Deus por adoção, enquanto
fazem a vontade de Deus.

Do mesmo modo, dizem eles, Cristo, que viveu bem e fez a
vontade de Deus, mereceu ser chamado de Filho de Deus.

O mesmo herético queria que Cristo não tivesse existido antes da
Virgem Maria, mas que só começasse a existir quando nela foi
concebido.

Cometeu Fotino dois erros: um, porque não disse que Ele era Filho
de Deus segundo a natureza; o outro, porque disse que Ele
começou a existir, conforme todo o seu ser, no tempo, enquanto a
nossa fé afirma que Ele é por natureza Filho de Deus e eterno.
Ora, essa duas verdades encontram-se claramente expressas na
Sagrada Escritura, opostas que são ao que ele afirma.

Contra o primeiro erro, declara a Escritura que Jesus Cristo não só
é Filho de Deus, mas também Filho Unigênito: “O Unigênito que
está no seio do Pai é que O fez conhecido” (Jo. 1, 18). Contra o
segundo, lê-se: “Antes de Abraão existir, eu já existia” (Jo. 8, 58).
Ora, é certo que Abraão existiu antes da Virgem Maria.



5 A heresia do Bispo Fotino de Sírmio ( 376) tem sua fonte próxima na do Bispo
Marcelo de Ancira ( 374) e, remota, no Monarquismo Dinâmico. Esta, propalada
em Roma pelo grego Teódoto em 190, condenada pelo Papa Vitor, ensinava que
Cristo era simples homem e, no batismo, foi revestido de poderes divinos. Marcelo
ensinava que havia uma mônada que evoluiu com o aparecimento do Filho, na
Encarnação, e do Espírito Santo, em Pentecostes. No fim dos tempos voltarão o
Filho e o Espírito para a mônada primitiva. Não há, portanto, trindade eterna.
Contra Marcelo foi acrescentado no Símbolo: “e o seu reino não terá fim”.

S. Tomás sintetiza fielmente o erro de Fotino neste sermão.

Fotino foi condenado várias vezes, destituído da Diocese de Sírmio e exilado. Os
seus asseclas perseveraram até o século VII.

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Por esse motivo, os Santos Padres acrescentaram, em outro
símbolo 6 , contra o primeiro erro: “Filho de Deus Unigênito”; e,
contra o segundo: “nascido do Pai antes de todos os séculos”.




6 Sendo a fé, por parte do homem, primeiramente um ato de conhecimento da
inteligência, devem ter sentido as palavras que exprimem as suas verdades. Por
isso a Igreja, desde os tempos Apostólicos, exigia, dos que procuravam o batismo,
inteligência das palavras da fé, que eram definidas. Para que essa finalidade fosse
alcançada, formularam-se sínteses das verdades fundamentais da fé com palavras
de sentido preciso, compreensível e tradicional. Eram os símbolos da fé. A palavra
símbolo, que primitivamente, na língua grega, significava um objeto que se dividia
em duas partes, como contra-senha para identificação posterior, na tradição
católica designava o resumo das verdades da fé que identificavam a religião de
Cristo. Como começava pela palavra Credo, esta tornou-se sinônimo de Símbolo.

Na antiguidade o Credo era unido ao ritual do catecumenato, isto é, na preparação
para o batismo: os “electi” (eleitos) acabavam a sua preparação recebendo os
ensinamentos do Símbolo da Fé (Traditio Symboli = entrega de símbolo), e depois
deviam recita-lo diante do Bispo (redditio symboli = devolução do símbolo). Com o
correr dos tempos, para maior defesa contra as heresias, passou para a Liturgia
Eucarística. A sua posição atual, após o Evangelho das Missas, foi introduzida por
Carlos Magno ( 794), para combater a heresia do adopcionismo.

Os Símbolos mais antigos e mais importantes são os seguintes:

I) Símbolo dos Apóstolos: É o mais antigo Símbolo da Igreja, chamado por
Tertuliano de “Regula Fidei”, cujas origens vêm dos tempos dos Apóstolos,
conforme a tradição. A sua mais primitiva fórmula, baseada nas Escrituras, seria a
seguinte:

“Creio no Pai Todo Poderoso; em Jesus Cristo, nosso Salvador; no Espírito Santo
Paráclito, na Santa Igreja e na remissão dos pecados”.

Como se vê, nele estavam contidos os Mistérios da Trindade, da Encarnação e da
Redenção. A fórmula atual do Símbolo Romano tem suas origens no século III.
Consta de 12 artigos.

II) Símbolo de Santo Atanásio: É uma profissão de fé mais ampla, atribuída a
Santo Atanásio, mas provavelmente foi transmitida por Santo Ambrósio (séc. IV)
que a recebera da tradição. Procura definir com bastante exatidão o Mistério da
Santíssima Trindade.

III) Símbolo de Nicéia: Elaborado e aprovado no Concílio Ecumênico de Nicéia. O
Concílio de Nicéia foi convocado pelo Imperador Constantino para pôr fim à heresia
do arianismo (nota 8). Presidiu-o o Bispo Ósio e os representantes do Papa
Silvestre. Participaram dele mais 300 Bispos. Na sessão de 19 de junho de 325 foi
aprovado o “Símbolo de Nicéia”, onde é definido que o Filho é da mesma natureza
do Pai: “Deus de Deus, luz de luz, verdadeiro Deus do verdadeiro Deus, gerado,
não criado, da idêntica natureza do Pai”.

IV) Símbolo Niceno-Constantinopolitano: Elaborado e aprovado no Concílio
Ecumênico de Cosntantinopla, reunido nesta cidade no ano de 31. Reproduz o
Símbolo de Nicéia, fazendo alguns acréscimos, principalmente com relação à
Terceira Pessoa da Trindade: “e (nós cremos) no Espírito Santo, Senhor e
vivificador, procedente do Pai, que é adorado e glorificado juntamente com o Pai e
o Filho, e que falou pelos Profetas”.

É na Igreja Oriental a fórmula única de profissão de fé.

Há outras profissões de fé na Igreja antiga, uma mais, outras menos,
desenvolvidas, mas todas concordes no sentido das palavras e nos mistérios da fé.

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33 — Sabélio 7, embora tivesse dito que Cristo existiu antes da
Virgem Maria, afirmou que a Pessoa do Pai outra não era que a do
Filho, e que o próprio Pai se encarnou. Desse modo, a Pessoa do
Pai seria a mesma que a do Filho. Mas isso é um erro, porque
destrói a trindade das Pessoas. Contra esse erro, há a autoridade
do Evangelista S. João, que nos relatou as palavras do próprio
Cristo: “Eu não sou Eu só; sou Eu e o Pai que me enviou” (Jo. 8,
16).

Ora, é evidente que ninguém pode ser enviado por si mesmo. Eis
porque Sabélio errou. Acrescentou-se por isso, no Símbolo dos
Padres: “Deus de Deus, luz de luz”; isto é, Deus Filho de Deus Pai;
Filho que é luz, luz que procede do Pai, que também é luz. É
nessas verdades que devemos crer.

34 — Ário 8 , embora tivesse afirmado que Cristo existira antes da
Virgem Maria e que era uma a Pessoa do Pai, outra, a do Filho,



7 Sabélio (século II) não aceitava a Trindade em Deus, mas confundia as Pessoas
numa só unidade em Deus. Para ele, as Pessoas são modos em que Deus se
manifesta. A sua heresia é denominada “monarquianismo modalista”, e, também,
“patripassionismo”, ou, ainda, “sabelianismo”.

Admitia três manifestações de Deus: como Pai, na criação e legislação; como Filho,
na redenção, e, como Espírito Santo, na obra de santificação.

8 O Arianismo foi a mais perigosa heresia dos primitivos tempos do cristianismo.
Foi seu criador um sacerdote de Alexandria, chamado Ario ( 336). Ensinava ele
um certo subordicianismo, heresia mais antiga, que afirmava ser o Filho
subordinado ao Pai, negando-lhe, desse modo, identidade de natureza. Para Ario, o
Filho era um ser divino de segunda ordem, o qual, por ser desprovido dos atributos
absolutos da divindade, podia realizar a criação e a redenção.

Há na doutrina de Ario dependência da mentalidade neoplatônica reinante no seu
tempo. O arianismo ensinava que “houve um tempo em que o Verbo não era”, e
“ele (o Verbo) provém do não ser”. Portanto, a Segunda Pessoa seria uma criatura.

Condenada a heresia pelo Concílio de Nicéia (nota 6), não cessou a sua obra
deletéria nos meios católicos, tomando novo alento com os dois Imperadores
arianos Constâncio (337-361) e Valente (364-378). O Imperador Teodório, o
Grande (379-395), reafirmando a ortodoxia católica, conseguiu atenuar os males
do arianismo, que por mais de 50 anos dilaceraram a Igreja. Foi definitivamente
condenado pelo Concílio de Constantinopla, de 381, após polêmicas violentas, lutas
e separações entre os católicos.

Se a Tradição ortodoxa teve a seu lado grandes doutores da Igreja como Atanásio,
Basílio, Gregório de Lauzianze e grandes Bispos, os arianos conseguiram envolver
muitos Bispos e católicos nas suas ambíguas e imprecisas fórmulas heterodoxas.

A heresia tomou tal proporções nos meios católicos que S. Jerônimo chegou a
descrever a situação com essas palavras: “Lastimou-se todo o orbe e admirou-se
porque estava ariano”.

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atribuiu, ao ser de Cristo, três erros: primeiro, que Cristo foi
criatura; segundo, que Ele foi feito por Deus como a mais nobre
das criaturas, não desde a eternidade, mas no tempo; terceiro,
que não havia uma só natureza de Deus Filho com Deus Pai, e,
por esse motivo, Cristo era verdadeiro Deus.

Tais afirmações são evidentemente errôneas por que contrárias à
autoridade da Sagrada Escritura.

Lê-se no Evangelho de S. João: “Eu e o Pai somos um” (Jo. 10,
30), isto é, pela natureza. Ora, como o Pai sempre existiu, do
mesmo modo o Filho; como o Pai é verdadeiro Deus, assim
também o Filho.

Em oposição à afirmação de Ário, isto é, que Cristo é criatura, está
declarado no Símbolo dos Padres: “gerado, não feito”.

Contra o erro propalado de que Ele não era da mesma substância
do Pai, foi acrescentado no Símbolo: “consubstancial com o Pai”.

35 — Está, pois, esclarecido porque devemos crer que Cristo é o
Filho Unigênito de Deus, e verdadeiro Filho de Deus; que sempre
existiu com o Pai; que uma é a Pessoa do Filho, outra, a do Pai;
que Ele tem uma só natureza com o Pai.

Cremos nessas verdades, aqui, pela fé; conhecê-las-emos, porém,
na vida eterna, por uma perfeita visão.

Para nossa consolação, acrescentemos algumas palavras a essas
verdades.

36 — Devemos saber que há diversos modos de geração,
conforme a diversidade dos seres 9 . A geração em Deus, é



9 Aqui S. Tomás esclarece-nos como a possessão do Verbo na Trindade é uma
geração, donde a Segunda Pessoa denominar-se também Filho. No texto latino a
palavra e o conceito são expressos pelo mesmo termo — verbum —, podendo-se
então mais de perto seguir o pensamento do Doutor Angélico.

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diferente da geração nos outros seres. Por isso, não podemos
chegar a conhecer a geração de Deus, a não ser por meio da
geração de criaturas que mais se aproximam de Deus e que mais
se assemelham a Ele. Ora, como foi dito, nada se assemelha tanto
a Deus, como a alma humana.

Há, na alma, uma espécie de geração, quando o homem conhece
alguma coisa pela própria alma, que se chama conceito intelectivo.
Esse conceito (efeito da concepção) tem a sua origem da própria
alma, como de um pai. Chama-se verbo (isto é, palavra) da
inteligência ou do homem.

A alma, portanto, gera o seu verbo, pelo conhecimento.

O Filho de Deus, também, nada mais é que o Verbo de Deus, não
como se fosse um verbo (uma palavra) já pronunciado
exteriormente, porque assim seria transitório, mas como um
verbo (uma palavra) concebido no interior. Eis porque o próprio
verbo de Deus possui uma só natureza de Deus, e é igual a Deus.

O Bem-aventurado João, quando falou do verbo de Deus, destruiu
as três heresias acima definidas: a de Fotino, quando disse: “No
princípio era o Verbo”; a de Sabélio, quando disse: “e o verbo
estava em Deus”; e a de Ário, quando disse: “e o Verbo era
Deus”.





A questão é tratada com notável clareza na Suma Teológica em linguagem
teológica, da qual neste sermão percebe-se a influência.

Define S. Tomás geração, conforme realiza-se nos seres vivos, como sendo a
“origem de um ser vivo, de um principio vivo conjunto”. Aplica a definição à
possessão da Segunda Pessoa:

“Portanto a possessão do Verbo em Deus tem a formalidade de uma geração. Ele
procede à semelhança de ação inteligível, que é uma operação vital; de um
princípio vivo conjunto, como foi dito anteriormente (isto é, da inteligência divina),
e de modo semelhante, porque o conceito intelectivo é semelhante coisa
conhecida; e na mesma natureza, porque em Deus ser e conhecer são a mesma
realidade... Por conseguinte a processão do Verbo em Deus chama-se geração, e o
próprio Verbo procedente chama-se Filho” (S. T. I. 7, 2; cf. I. 27, 1; cf. I. 34, 2).


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37 — Mas o Verbo (a palavra) existe diversamente em nós e em
Deus. Em nós, o verbo é um acidente 10; em Deus, o Verbo de
Deus mais identifica-se com o próprio Deus, pois nada há em Deus
que não seja essência de Deus.

Ninguém pode afirmar que Deus não possui um verbo, porque, se
o fizesse, estaria também afirmando que em Deus não há
absolutamente conhecimento. Como, porém, Deus sempre existiu,
assim também o seu Verbo.

38 — Como o artista executa as suas obras de acordo com o
modelo que prefigurou em sua inteligência, que é o seu verbo;
assim também Deus faz todas as coisas pelo seu Verbo, que é
como o seu pensamento artístico. Por isso lê-se em S. João:
“Todas as coisas foram feitas por Ele” (Jo. 1, 3).

39 — Se o Verbo de Deus é o Filho de Deus e todas as palavras
(os verbos) de Deus possuem alguma semelhança com esse
verbo, todos nós devemos, em primeiro lugar, ouvir com
satisfação as palavras de Deus. Se ouvirmos com prazer as
palavras de Deus, isto é sinal de que amamos a Deus.

40 — Em segundo lugar, devemos crer nas palavras de Deus,
porque é assim que o Verbo de Deus habita em nós, isto é, Cristo,
que é o Verbo de Deus. Lê-se no Apóstolo S. Paulo: “Habitar
Cristo, pela fé, em vossos corações”. (Ef. 3, 17). Lê-se também



10 S. Tomás assim precisa a noção de substância: “A substância que é sujeito tem
duas propriedades: primeiro, não ter necessidade de um fundamento extrínseco
para ser sustentada, mas sustenta-se em si mesma; segundo, ser fundamento dos
acidentes, sustentando-os, e por isso diz-se que sub-está” (Pot. 9, 1). A substância
subsiste em si mesma e sustenta os acidentes. Acidente é justamente o ser que
existe, mas não subsiste, porque está ardente à substância. “Acidente — diz S.
Tomás — é o ser cuja essência deve estar em outra coisa” (Qdc. IX, 5, ad 2)
“Convém que o ser deles (isto é, dos acidentes) seja acrescido ao ser da
substância, e dependente deste” (C. G. IV, 14).

O acidente é um ser secundário, mais imperfeito que o ser da substância e, sem a
sua substância, o acidente não pode existir (a não ser por um milagre de Deus). “A
substância, diz Aristóteles, é o simples ser e se realiza por si mesmo: todos os
outros gêneros de ser diversos da substância, são seres de certo modo e existem
pela substância. Por conseguinte, a substância é o primeiro entre os seres” (Met.,
VII, 1, 1028).


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em S. João: “Não tendes o Verbo de Deus permanecendo em vós
porque não acreditais n’Aquele que Ele enviou”. (Jo. 5, 38).

41 — Em terceiro lugar, convém que sempre tenhamos o Verbo de
Deus, que permanece em nós, como objeto das nossas
meditações. Não é conveniente apenas crer, mas é necessário
também meditar, pois de outro modo, a fé não nos seria útil. A
meditação sobre o Verbo de Deus é muito útil contra o pecado. Lê-
se nos Salmos: “Escondi no meu coração a Vossa palavra, para
não pecar contra vós” (Ps. 118, 11). Lê-se, ainda, a respeito do
homem justo: “Meditarei dia e noite na Sua Lei” (Ps. 1, 2). Por
isso sabemos que a Virgem Maria “conservava todas essas
palavras, meditando sobre elas no seu coração” (Lc. 2, 51).

42 — Em quarto lugar, convém que o homem comunique aos
outros a palavra de Deus, admoestando, pregando-a para eles e
afervorando-lhes a fé. Encontram-se nas cartas de S. Paulo os
seguintes textos: “Que nenhuma palavra má proceda da vossa
boca, mas somente as boas palavras que edificam” (Ef. 4, 29).
“Que a palavra de Cristo habite em vós abundantemente, com
toda sabedoria, culminando e admoestando uns aos outros” (Col.
3, 16); “Prega a palavra, insiste oportuna e importunamente,
repreende, pede e ameaça com toda a paciência e com toda a
doutrina” (II Tess. 4, 2).

43 — Em último lugar, devemos cumprir o que a palavra de Deus
determinou. Lê-se em S. Tiago: “Sede realizadores da palavra de
Deus e não apenas ouvintes, enganando-vos uns aos outros”
(Tiag. 1, 22).

44 — Na mesma ordem, a Bem-aventurada Virgem Maria seguiu
essas cinco recomendações, quando nela foi gerado o Verbo de
Deus. Primeiramente, ouviu: “O Espírito Santo virá sobre ti” (Lc.
1, 35). Depois, consentiu pela fé: “Eis a escrava do Senhor” (Lc.
1, 38). Em terceiro lugar, recebeu o Verbo Encarnado e O
carregou em seu seio. Em quarto lugar, ela O pronunciou quando

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a Ele deu a luz. Finalmente, nutriu-O e amamentou-o. Eis porque
a Igreja canta: “A Virgem amamentava, fortalecida do céu, o
próprio Rei dos Anjos”.






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ARTIGO TERCEIRO


— Foi concebido do Espírito Santo,
nasceu da Virgem Maria —


45 — Não é somente necessário ao cristão acreditar que Jesus é o
Filho de Deus, como acima mostramos, mas também convém crer
na Sua Encarnação. Por isso, o Bem-aventurado João, após ter
falado muitas coisas elevadas e de difícil compreensão, logo a
seguir nos insinua a Sua Encarnação, quando diz: “E o Verbo se
fez carne” (Jo. 1, 14).

Para que possamos aprender algo dessa verdade, darei dois
exemplos:

Sabe-se que nada é tão semelhante ao Filho de Deus como a
palavra concebida em nosso interior, mas não pronunciada
exteriormente. Ninguém conhece a palavra enquanto está no
interior do homem, a não ser ele, que a concebeu. Mas logo que é
proferida exteriormente, torna-se conhecida. Assim o Verbo de
Deus não era conhecido senão pelo Pai, enquanto estava no seio
do Pai. Mas logo que se revestiu da carne, como a palavra
concebida no interior, pela voz, tornou-se manifesto e conhecido.
Lê-se na Escritura: “Depois disso foi visto na terra, e conviveu
com os homens” (Bar. 3, 38). Vejamos o segundo exemplo. A
palavra, pronunciada exteriormente, é ouvida, mas não é vista,
nem se pode nela tocar. Escrita, porém, em uma folha, pode ser
vista e tocada. Assim também o Verbo de Deus tornou-se visível e
palpável, quando foi, de certo modo, escrito em nossa carne. Ora,
quando numa mensagem estão escritas as palavras do rei, ela
também é chamada de palavra do rei. Do mesmo modo, o homem
a quem está unido o Verbo de Deus numa só pessoa, deve ser
chamado do Filho de Deus. Lê-se em Isaías: “Toma o grande livro

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e escreve nele com a pena de um homem” (Is. 8, 1). Declararam
também os Apóstolos: “Que foi concebido do Espírito Santo,
nasceu da Virgem Maria”.

46 — Com relação a este artigo do Credo, muitos caíram em
erros. Por isso os Santos Padre, em outro símbolo, o de Nicéia,
acrescentaram muitos esclarecimentos que nos permitem ver
agora como esses erros foram destruídos.

47 — Orígenes11 afirmou que Cristo nasceu e que veio a este
mundo para salvar também o demônio. Disse ainda que todos os
demônios seriam salvos no fim do mundo. Afirmar tal coisa,
porém, é ir contra a Sagrada Escritura, pois se lê no Evangelho de
São Mateus: “Afastai-vos de mim, malditos, e ide para o fogo
eterno, que foi preparado para o diabo e para os seus anjos” (Mat.
25, 41). Por essa razão, foi acrescentado no Símbolo: “Que desceu
dos céus para nós, homens (não se diz: para os demônios) e para
a nossa salvação”. Essas palavras evidenciam, ainda mais, o amor
de Deus para conosco.



11 Orígenes (185 – 253) é das personalidades mais discutidas da patrística. Filho do
mártir Leônidas, cedo, pela sua notável inteligência, foi chamado para dirigir a
Escola Catequética de Alexandria. Visitou Roma e todo o oriente católico. Para
melhor seguir o Evangelho mutilou-se. Sendo ordenado sacerdote irregularmente,
por esse motivo foi excomungado. Não abandonou, contudo, a Igreja, morrendo
vítima das torturas que sofreu pela fé na perseguição de Décio. De cultura
invulgar, tendo exercido atividade de ensino em Roma, Cesária e Alexandria,
Orígenes escreveu obras de teologia em número imenso, ditando-as para diversos
taquígrafos, tendo até pagãos em suas aulas, que eram atraídos pela sua
sabedoria.

A influência de Orígenes, na teologia do Oriente antigo, equipara-se a de Santo
Agostinho, na do Ocidente. Orígenes tentou formular um sistema teológico,
fundamentando-o no neo-platonismo e, em parte, em Aristóteles. Esse ecletismo
filosófico levou Orígenes a afirmar muitas teses falsas no plano da fé, como o
traducianismo (os pais transmitem a alma aos filhos), a eternidade do mundo, a
igualdade inicial de todos os seres espirituais, a sucessão cíclica dos mundos, a
volta de tudo a Deus, no retorno final (“apocatastase”). Até o inferno desaparecerá
no fim de tudo. Interpretava a Escritura, também de modo ambíguo.

São Jerônimo considerou Orígenes: “o pai de todas as heresias”.

Foi posteriormente condenado, diversas vezes, como herege. Orígenes foi vítima
do subjetivismo na interpretação da Escritura e do otimismo, na consideração das
coisas. Faltando-lhe a filosofia verdadeira, naturalmente caiu em erros. Todavia
Orígenes sempre procurou ser fiel à Igreja, em muitos aspectos é o iniciador da
teologia oriental, testemunho também, em outros, da tradição católica. É notável a
sua influência nos Padres Capadócios. Devido à sua genialidade foi denominado
“Adamantino”.

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48 — Fotino 12, não obstante ter aceito que Cristo nasceu da Bem-
aventurada Maria Virgem, afirmou que Ele era um simples
homem, que, por ter vivido bem e ter feito a vontade de Deus,
mereceu ser considerado Filho de Deus, como o são os outros
santos. Contra essa afirmação, lê-se na Escritura: “Desci do céu,
não para fazer a minha, mas a vontade de quem me enviou” (Jo.
6, 38). Ora, é evidente que não teria descido do céu, se aí não
estivesse; e, se fosse um simples homem, não poderia ter estado
no céu. Para afastar esse erro, foi acrescentado: “desceu dos
céus”.

49 — Manés 13ensinava que Cristo foi sempre Filho de Deus e que
desceu do céu, mas que não possuía verdadeira carne, pois que
esta era apenas aparente. Isso é falso. Ora, não convinha ao
Mestre da verdade, mostrar-se com alguma falsidade. Por isso,
como apareceu em verdadeira carne, devia também possui-la. Lê-
se no Evangelho de São Lucas: “Palpai e vede, porque o Espírito
não tem carne nem ossos, como me vedes possuir” (Lc. 24, 39).
Para afastar tal erro, os Padres acrescentaram: “E se encarnou”.

50 — Com relação a Ebion 14, que era judeu, aceitava ele que
Cristo tivesse nascido da Bem-aventurada Maria, mas de uma
união carnal, e de sêmen humano. Isso, porém, é falso, porque o
Anjo disse: “O que nascerá dela, é obra do Espírito Santo” (Mat. 1,
20). Para afastar esse erro, os Padres acrescentaram: “Do Espírito
Santo”.




12 Fotino (ver nota n° 5).

13 Manés (ver nota n° 2).

14 Ebionitas. Propriamente não há o fundador Ebion, mas o nome da seita deriva do
termo pobreza, em hebraico. Esta seita vinha dos tempos apostólicos, constituíam-
na judeus-cristãos que não aceitavam a doutrina do Apóstolo Paulo, nem a
divindade de Cristo. Esperavam também um reino terreno messiânico de mil anos
(Milenarismo = quiliasma). A seita espalhou-se pela Síria e perseverou até o séc.
V.


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51 — Valentino 15aceitava que Cristo tivesse sido concebido pelo
Espírito Santo, mas também ensinava que Cristo trouxera um
corpo celeste e o depositara na Bem-aventurada Virgem, e que
este corpo era o de Cristo. Por esse motivo, dizia, a Bem-
aventurada Virgem nada fizera senão ter-se dado como
receptáculo daquele corpo, e, que este passava por ela, como por
um aqueduto. Mas tal afirmação é falsa, porquanto o Anjo disse:
“O santo que de ti nascer, será chamado Filho de Deus” (Lc. 1,
35). Do mesmo modo, o Apóstolo: “Quando chegou a plenitude
dos tempos, enviou Deus o seu Filho feito de mulher” (Gal. 4, 4).
Eis porque os Padres acrescentaram no Símbolo: “Nasceu da
Virgem Maria”.

52 — Ario16 e Apolinário 17 afirmaram que Cristo era o Verbo de
Deus e que nasceu da Virgem Maria, mas que não possuía alma,
estando em lugar desta, a divindade. Mas isto é contra a Escritura,
onde se encontram estas palavras de Cristo: “Agora, a minha
alma está perturbada” (Mt. 26, 38). Para refutar o erro de ambos,
os Santos Padres acrescentaram no Símbolo: “E fez-se homem”.
Ora, o homem é constituído de alma e corpo. Por conseguinte, Ele
possuiu tudo o que o homem pode possuir, exceto o pecado.

53 — Pela expressão — “fez-se homem” — são destruídos todos
os erros acima enumerados, e todos os que possam surgir. Foi
destruído, por essa expressão, principalmente o erro de Eutíquio1 8


15 Valentino — Gnóstico Alexandrino que difundiu sua doutrina em Roma pelos anos
de 136 a 160. Grande talento oratório, formulou um sistema doutrinário religioso-
filosófico baseado na filosofia neoplatônica. Tornaram-se os valentinianos
perigosos, porque usavam os mesmos ritos da Igreja e, assim, iludiam e atraiam
os católicos.

16 Ario (Ver nota n° 8).

17 Apolinário — Bispo de Laodicéia, na Síria, aplicou a doutrina da tricotomia
platônica a Cristo, de modo que Cristo não teria alma racional. O “Logos” fazia às
vezes dela, sendo Cristo constituído de “carne”, “alma animal” e do “Logos”. Sem o
perceber, Apolinário de fato ensinava que o verbo se encarnou em um ser
irracional. Não obstante ter combatido o Arianismo, Apolinário, pelo conceito falso
a respeito da humanidade de Cristo, caiu neste erro. Diversos Sínodos condenaram
o “apolinarismo”, os Padres Antioquenos logo o rejeitaram e o Imperador Teodósio,
em 388, exilou os seus adeptos. A heresia foi absorvida pela Igreja Ortodoxa,
manifestando-se mais tarde na forma do nonofisitismo. Apolinário faleceu em 390.

18 Eutíquio era Arquimandrita de Constantinopla, piedoso, mas sem cultura
teológica. Com Eutíquio inicia-se a grande luta monofisita, que terminará na Igreja

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que ensinou ter havido uma mistura, isto é, que havia uma só
natureza em Cristo, oriunda da divina e da humana, de modo que
Cristo não era nem simplesmente Deus, nem simplesmente
homem. Tal afirmação é falsa, porque, se não fosse falsa, Cristo
não seria homem como fora definido: “fez-se homem”.

É destruído também o erro de Nestório19 que afirmou que o Filho
de Deus reuniu-se ao homem só por inabitação. É falsa também
essa doutrina, porque então não estaria escrito apenas homem,
mas no homem. O apóstolo declara que Cristo foi homem: “Foi
reconhecido, conforme se apresentou, como homem” (Fil. 2, 7).
Lê-se também em São João: “Por que me quereis matar, eu, um
homem que vos disse a verdade que ouvi de Deus?” (Jo. 8, 40).



com o Concílio Ecumênico de Calcedônia, 451. Em forte oposição ao nestorianismo
(ver nota 19), os monofisitas ensinavam que em Cristo há uma só natureza, a
divina, pois a natureza humana de Cristo foi divinizada, não sendo mais igual à
nossa. Em Cristo haveria “uma e única natureza”. Eutíquiu agiu com muita
violência contra os que afirmavam haver duas naturezas em Cristo, identificando-
os com os nestorianos.

No Concílio de Calcedônia, foi lida a carta do Papa Leão Magno (440-461) sob
grande aplausos, na qual era condenado o monofisitismo e o nestorianismo. Assim
escrevia o Papa:

“Nós ensinamos e professamos um único e idêntico Cristo... em duas naturezas,
não confusas e não transformadas entre si, não divididas, não separadas, pois a
união das naturezas não suprimiu as diferenças, antes, cada uma das naturezas
conservou as propriedades e se uniu com a outra numa única pessoa e numa única
hipótese”.

A heresia monofisita difundiu-se pela cristandade, aceitando-a ainda hoje as igrejas
Ortodoxa da Armênia, da Abissína (coptas) e da Síria (jacobitas).

19 Nestório, monge piedoso e bom orador, foi eleito Bispo de Constantinopla em
428. Seguindo a escola teológica antioquena, que exagerava de tal modo a
distinção das duas naturezas de Cristo a ponto de parecer afirmar a existência
n’Ele de duas pessoas, Nestório levou ao extremo as teses antioquenas negando
haver em Cristo só a Pessoa Divina. Consequentemente, Maria era apenas mãe de
Cristo, não Mãe de Deus (Teotókos).

São Cirilo Alexandrino de modo contundente combateu o erro de Nestório, tendo o
Papa Celestino I apoiado a doutrina deste Padre.

Firme no erro e na Cátedra de Constantinopla que deveria renunciar, Nestório
solicitou do Imperador Teodório II a convocação de um Concílio Ecumênico para
dirimir a questão. Realizou-se este em Éfeso, no ano de 431, presidido por Cirilo,
representante do Papa, sendo Nestório destituído da função episcopal e reafirmada
a dualidade de natureza em Cristo e a unidade de pessoa. Maria foi declarada
Teotókos. O Concílio, que é o terceiro ecumênico, não publicou novo Símbolo de fé,
considerando o Símbolo Niceno suficiente. A heresia nestoriana difundiu-se pelo
Oriente, entre os indianos, chineses e mongóes e no século XVI os nestorianos
caldeos voltaram ao seio da Igreja Católica. Subsistem ainda adeptos do
nestorianismo no norte do Iraque.

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54 — Dessa exposição sobre o 3° artigo do Credo, podemos tirar
algumas conclusões práticas para nossa instrução. Em primeiro
lugar, para confirmação da nossa fé. Se alguém falasse de uma
terra longínqua, na qual nunca estivera, não seria tão bem aceita
a sua palavra como seria, se a conhecesse.

Antes da vinda de Cristo, os Patriarcas, os Profetas e João Batista
falaram algumas verdades a respeito de Deus. Os homens, porém,
não acreditaram nelas como acreditaram em Cristo, que este com
Deus, e, mais do que isso, constituía um só ser com Ele. Eis
porque a nossa fé foi muito mais confirmada pelas verdades
transmitidas por Cristo. Lê-se em São João: “Ninguém jamais viu
a Deus. O Filho Unigênito, que está no seio do Pai, nos revelou”
(Jo. 1, 18). Muitos mistérios da fé, que antes estavam velados,
nos foram revelados após o advento de Cristo.

55 — Em segundo lugar, para elevação da nossa esperança.
Sabemos que o Filho de Deus não sem elevado motivo veio a nós,
assumindo a nossa carne, mas para grande utilidade nossa. Fez,
para consegui-la, um certo comércio: assumiu um corpo animado,
e dignou-se nascer da Virgem, para nos entregar a sua divindade;
fez-se homem, para fazer o homem, Deus. Lê-se em São Paulo:
“Por quem temos acesso pela fé nessa graça, na qual
permanecemos, e nos gloriamos na esperança da glória dos filhos
de Deus” (Rom. 5, 2).

56 — Em terceiro lugar, para que a nossa caridade seja mais
fervorosa. Nenhum indício é mais evidente da caridade divina do
que o Deus, Criador de todas as coisas, fazer-se criatura; o do
Senhor nosso, fazer-se nosso irmão; o do Filho de Deus, fazer-se
filho de homem. Lê-se em São João: “Tanto Deus amou o mundo,
que lhe deu o Seu Filho” (Jo. 3, 16). Pela consideração dessa
verdade, deve ser reacendido e de novo em nós afervorado, o
nosso amor para com Deus.





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57 — Em quarto lugar, para conservação da pureza de nossa
alma. A nossa natureza foi a tal ponto enobrecida e exaltada pela
união com Deus, que foi assumida para consorciar-se com uma
Pessoa Divina. Por esse motivo o Anjo, após a Encarnação, não
permitiu que o Bem-aventurado João o adorasse20, quando antes
permitira que até os maiores Patriarcas o fizessem. O homem,
pois, reconsiderando e atendendo à própria exaltação, deve
perceber como se degrada e avilta a si e à própria natureza, pelo
pecado. Por isso escreve São Pedro: “Por quem nos concedeu as
máximas e preciosas promessas, para que nos tornássemos
consortes da natureza divina, fugindo da corrupção da
concupiscência que existe no mundo” (II Ped. 1, 5).

58 — Em quinto lugar, a meditação dos mistérios da Encarnação
aumenta em nós o desejo de nos aproximarmos de Cristo. Se
alguém, irmão de um rei, dele longe estivesse, naturalmente
desejaria aproximar-se dele, estar com ele, permanecer junto
dele. Ora, sendo Cristo nosso irmão, devemos desejar estar com
Ele e nos unirmos a Ele. Com relação a esse desejo, lê-se em São
Mateus: “Onde quer que esteja o cadáver, aí se apresentarão os
abutres” (Mat. 24, 28). São Paulo desejava dissolver-se para estar
com Cristo: esse desejo cresce também em nós pela consideração
do mistério da Encarnação.








20 Lê-se no Apocalipse que João tentou adorar o “Anjo vigoroso” (Apo. 18, 21). Mas
foi admoestado a que não o fizesse (Apo. 19, 10).


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ARTIGO QUARTO


— Padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado,
morto e sepultado —


59 — Como é necessário ao cristão acreditar na Encarnação do
Filho de Deus, é também necessário acreditar na sua Paixão e
Morte, por que, como disse S. Gregório, “em nada nos teria sido
útil o seu nascimento, se não favorecesse à Redenção”. Essa
verdade, isto é, que Cristo morreu por nós, é de tal modo difícil
que a nossa inteligência pode apenas conhece-la, mas, de modo
algum, por si mesmo descobri-la. Isso é confirmado pelas palavras
do Apóstolo: “Farei uma obra em vossos dias, que nela não
podereis acreditar se alguém antes não a tiver revelado” (At 13,
41). Confirma-o também o que falou o Profeta Habacuc: “Será
feita uma obra em vossos dias que ninguém acreditará quando for
narrada” (Hab 1, 5).

A graça e o amor de Deus para conosco são tão grandes, que Ele
fez por nós mais do que podemos compreender.

60 — Não se deve, porém, crer que quando Cristo morreu por nós,
a Divindade também morreu. N’Ele morreu a natureza humana;
não morreu enquanto Deus, mas enquanto homem.

Três exemplos esclarecerão essa verdade.

Um deles, encontramos em nós mesmos. Sabe-se que quando um
homem morre, na separação que há entre a alma e o corpo, a
alma não morre, mas o corpo, a carne.

Assim também na morte de Cristo não morreu a divindade, mas a
natureza humana.

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61 —Pode-se aqui fazer a seguinte objeção: — Se os judeus não
mataram a divindade, evidentemente o pecado deles, matando
Cristo, não foi maior do que se tivessem morto um outro homem.

62 — Respondamos a essa objeção:

— Se alguém sujasse as vestes com as quais o rei estava vestido,
cometeria falta tão grande como se tivesse sujado o próprio rei.
Assim também os judeus. Como não puderam matar a Deus,
matando a natureza humana assumida por Cristo, eles mereceram
severa punição, como se tivessem assassinado a própria
divindade.

63 — Como dissemos acima, o Filho de Deus é o Verbo de Deus, e
o Verbo de Deus Encarnado é como a palavra de Deus escrita em
uma carta. Se alguém rasgasse a carta do rei, cometeria a mesma
falta daquele que tivesse rasgado a palavra do rei.

Por isso os judeus pecaram tão gravemente como se tivessem
morto o Verbo de Deus.

64 — Mas perguntas:

— Que necessidade havia de o Verbo de Deus padecer por nós?

— Grande necessidade, e por duas razões. Uma, porque foi
remédio para os nossos pecados; outra, porque foi um exemplo
para as nossas ações 21.


21 Na “Suma Teológica” (III, 46), S. Tomás analisa as razões da Paixão de Cristo.
Não havia necessidade absoluta da Paixão de Cristo (art. 1°), seria possível
encontrarem-se outros modos de salvar o homem (art. 2°), mas baseado em Sto.
Agostinho, o Doutor Angélico afirma que o modo redentor realizado pela Paixão foi
o mais conveniente (art. 3°). Apresenta as seguintes razões de conveniência: o
homem vê o quanto Deus o amou, e é levado a amar a Deus por gratidão; Cristo,
na Paixão, deu exemplo de obediência, humildade, constância e justiça, virtudes
necessárias à salvação; prometeu a graça e a glória, além de salvar o homem do
pecado; lembrando-se de que foi salvo pelo Sangue de Cristo, o homem evita o
pecado; a dignidade do homem é elevada, pois venceu o diabo pelo qual fora
vencido; e a morte merecida pelo pecado, foi superada pela morte de Cristo.


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65 — Foi sim, um remédio, porque contra todos os males que
contraímos pelo pecado, encontramos o remédio na Paixão de
Cristo 22.

Contraímos pelo pecado cinco males.

66 — O primeiro, é a própria mancha do pecado 23. Quando um
homem peca, conspurca a sua alma, porque, como a virtude
embeleza, o pecado a enfeia. Lê-se em Barruch: “Por que estás, ó
Israel, na terra dos inimigos, e te contaminaste com os mortos?”
(Br 3, 10).

Mas a Paixão de Cristo lavou esta mancha. Cristo, na sua Paixão,
fez do seu sangue um banho para nele lavar os pecadores: “Lava-
os do pecado no sangue” (Ap 1, 5) 24. No Batismo a alma é lavada
no Sangue de Cristo, por que este recebe do Sangue de Cristo a
força regeneradora. Por isso, quando alguém batizado se macula
pelo pecado, faz uma injúria a Cristo e o seu pecado é maior que o
cometido antes do batismo. Lê-se na Carta aos Hebreus: “O que
desprezou a lei de Moisés, após ouvido o testemunho de dois ou
três, deve morrer” (Heb 10, 28-29). Como não deve merecer


Note-se que estes Sermões sobre o Credo foram pronunciados quando Sto. Tomás
escrevia a III Parte da Suma, em Nápoles, onde trata da Paixão de Cristo.

22 “Cristo pela sua Paixão libertou-nos do pecado como causa desta libertação, isto
é, instituindo a causa da nossa libertação, em virtude da qual possam sempre
quaisquer pecados serem perdoados — presentes, passados e futuros; como o
médico que faz o medicamento capaz de curar todas as doenças, também as
futuras” (S. T. III, 49, 1 ad. 3).

23 “Mancha propriamente refere-se às coisas corpóreas, quando algum corpo limpo
perde a sua pureza pelo contato com outro corpo, como vestes, ouro e prata. Nas
coisas espirituais deve-se usar o termo mancha em semelhança com as coisas
corpóreas. A alma do homem possui uma dupla nitidez: uma, derivada do
resplendor da luz da razão; (...) outra, derivada da luz divina, isto é, da sabedoria
e da graça. (...). Há como que um sentido de tato na alma, quando adere a alguma
coisa pelo amor. Quando peca, adere a algumas coisas contra a luz da razão e a
divina luz. Donde ser chamado o detrimento dessa nitidez, proveniente de tal
contato, metaforicamente, de mancha da alma” (S.T. III, 86,1).

24 “Porque a Paixão de Cristo realizou-se como certa causa universal da remissão
dos pecados, é necessário que seja aplicada a cada um para destruição dos
próprios pecados. Isto é feito pelo batismo e pela penitência, e pelos outros
Sacramentos, que possuem a eficácia derivada da Paixão de Cristo” (S.T. III, 49,1
ad. 4).


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maiores suplícios, aquele que pisou no Sangue do Filho de Deus e
considerou impuro o Sangue da Aliança?

67 —O segundo mal que contraímos pelo pecado é nos tornarmos
objeto da aversão de Deus. Assim como quem é carnal ama a
beleza da carne, do mesmo modo Deus ama a beleza espiritual,
que é a beleza da alma. Quando, por conseguinte, a alma se deixa
contaminar pelo mal do pecado, Deus fica ofendido e odeia o
pecador. Lê-se no Livro da Sabedoria: “Deus odeia o ímpio e a sua
impiedade” (Sb 14, 9) 25. Mas a Paixão de Cristo remove essas
coisas, por que ela satisfez ao Pai ofendido pelo pecado, cuja
satisfação não poderia vir do homem. A caridade e a obediência de
Cristo foram maiores que o pecado e a desobediência do primeiro
homem. Lê-se em S. Paulo: “Sendo inimigo, fomos reconciliados
com Deus pela morte do seu Filho” (Rm 5, 10) 2 6.

68 — O terceiro mal é a fraqueza. O homem, pecando pela
primeira vez, pensa que depois pode abster-se do pecado.
Acontece, porém, o contrário: debilita-se pelo primeiro pecado e
fica inclinado a pecar mais.

O pecado vai dominando cada vez mais o homem, e este, por si
mesmo, coloca-se em tal estado que não pode mais se levantar. É
como alguém que se lançou num poço. Só pode sair dele pela
força divina.

Depois que o homem pecou, a nossa natureza ficou debilitada,
corrompida, e, por isso mesmo, ficou ele mais inclinado para o
pecado.


25 “Assim como foram os homens os que mataram Cristo, também o foi o Cristo
morto. A caridade do Cristo padecente foi maior que a maldade dos seus
matadores. Por isso a Paixão de Cristo foi mais vantajosa para reconciliar Deus
com todo o gênero humano, que para provoca-lO à ira”. (S.T. III, 49, 4 ad 3).

26 “A Paixão de Cristo causa a remissão dos pecados como uma redenção. Porque
Ele é a nossa cabeça, pela sua Paixão, que suportou pela obediência e pela
caridade, libertou-nos como membros seus do pecado, como se fosse isso o preço
do pecado; como um homem que, pelos atos meritórios feitos pela mão, se
redimisse do pecado cometido pelos pés. Assim como o corpo natural é um só
constituído pela diversidade dos membros, também toda a Igreja, que é o Corpo

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Mas Cristo diminuiu essa fraqueza e debilidade, bem que não as
tenha totalmente apagado.

O homem foi fortalecido pela Paixão de Cristo e o pecado,
enfraquecido, de sorte que este não mais o dominará. Pode, por
esse motivo, auxiliado pela graça divina, que é conferida pelos
sacramentos cuja eficácia recebem da Paixão de Cristo, esforçar-
se para sair do pecado. Lê-se em S. Paulo: “O nosso velho homem
foi crucificado juntamente com Ele, para que fosse destruído o
corpo do pecado” (Rm 6, 6). Antes da Paixão de Cristo, poucos
havia sem pecado mortal. Mas, depois dela, muitos viveram e
vivem sem pecado mortal.

69 — O qual mal é a obrigação que temos de cumprir a pena do
pecado. A justiça de Deus exige que o pecado seja punido, e a
pena é medida pela culpa. Como a culpa do pecado é infinita,
porque ela vai contra o bem infinito, Deus, cujo mandamento o
pecador desprezou, também a pena devida ao pecado mortal é
infinita.

Mas Cristo pela sua Paixão livrou-nos dessa pena, assumindo-a Ele
próprio. Confirma-o S. Pedro: “Os nossos pecados (i. é., a pena do
pecado) Ele carregou no seu corpo” (1 Pd 2, 24).

Foi de tal modo exuberante a virtude da Paixão de Cristo, que ela
só foi suficiente para expirar todos os pecados de todos os
homens, mesmo que fossem em número de milhões. Eis o motivo
pelo qual aquele que foi batizado, foi também purificado de todos
os pecados. É também por este motivo que os sacerdotes
perdoam os pecados. Do mesmo modo, aquele cujo sofrimento
mais se assemelha ao da Paixão de Cristo, consegue um maior
perdão e merece maiores graças.



Místico de Cristo, é considerada como se constituísse uma só pessoa com a sua
cabeça, que é Cristo”. (S.T. III. 49, 1 c).

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70 — O quinto mal contraído pelo pecado foi nos termos tornados
exilados do reino do céu. É natural que aqueles que ofendem o rei
sejam obrigados a sair da pátria. O homem foi afastado do paraíso
por causa do pecado: Adão imediatamente após o pecado foi
expulso do paraíso, e sua porta lhe foi trancada.

Mas Cristo, pela sua Paixão, abriu aquela porta e novamente
chamou os exilados para o reino 27.

Quando foi aberto o lado de Cristo, foi também a porta do paraíso
aberta; quando o seu Sangue foi derramado, a mancha foi
apagada, Deus foi aplacado, a fraqueza foi afastada, a pena foi
expiada, e os exilados foram convocados para o reino. Por isso é
que foi logo dito ao ladrão: “Estarás hoje comigo no Paraíso” (Lc.
23, 43).

Observe-se que nesse momento não foi dito — outrora; que
também não foi dito a outrem — nem a Adão, nem a Abraão, nem
a David; foi dito, hoje, isto é, logo que a porta foi aberta, e o
ladrão pediu e recebeu perdão. Lê-se na carta aos Hebreus:
“Confiantes na entrada no santuário pelo Sangue de Cristo” (Heb.
10, 19).

Fica assim esclarecido como a Paixão de Cristo foi útil, enquanto
remédio contra o pecado.

Mas a sua utilidade não nos foi menor, enquanto ela nos serviu de
exemplo.

71 — Como disse S. Agostinho: “A Paixão de Cristo é suficiente
para ser modelo de toda a nossa vida”. Quem quer que queira ser


27 “Pela Paixão de Cristo fomos libertados, não apenas do pecado comum a toda a
natureza humana, quer quanto à culpa, quer quanto ao reato da pena, pois Ele
pagou o preço por nós; mas também dos pecados próprios de cada um de nós, que
participamos da Sua Paixão pela fé, pela caridade e pelos sacramentos da fé. E
assim, pela Paixão de Cristo nos foi aberta a porta do reino dos céus” (S.T. III 49,
5 c).


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perfeito na vida, nada mais é necessário fazer senão desprezar o
que Cristo desprezou na cruz, e desejar o que nela Ele desejou.

72 — Nenhum exemplo de virtude deixa de estar presente na
cruz. Se nelas buscas um exemplo de caridade, — “ninguém tem
maior caridade do que aquele que dá sua vida pelos amigos” (Jo.
15, 13).

Ora, foi o que Cristo fez na cruz.

Por isso, já que Cristo entregou a sua vida por nós, não nos deve
ser pesado suportar toda espécie de males por amor a Ele. “O que
retribuirei ao Senhor, por todas as coisas que Ele me deu?” (Ps.
115, 12).

73 — Se procuras na cruz um exemplo de paciência, nela
encontrarás uma imensa paciência. A paciência manifesta-se
extraordinária de dois modos: ou quando alguém suporta grandes
males pacientemente, ou quando suporta aquilo que poderia ser
evitado e não quis evitar.

Cristo na cruz suportou grandes sofrimentos: “Ó vós todos que
passais pelo caminho parai e vede se há dor igual à minha!” (Jes.
1, 17) “Como a ovelha levada para o matadouro e como o cordeiro
silencioso na tosquia” (I Ped. 2, 23) 28.



28 “Considerando-se a suficiência, a mínima Paixão de Cristo seria suficiente para
libertar o gênero humano de todos os pecados; considerando-se, porém, a
conveniência, foi preciso que padecesse todas as espécies de sofrimentos” (S.T.
46, 5 ad 3).

“No Cristo padecente houve verdadeira dor sensível, que é causada pela que é
nocivo ao corpo, e dor interior, que é causada pelo conhecimento de algum
malefício, chamada tristeza. Ambas as dores foram máximas, em Cristo, entre as
dores da presente vida”. (...) “A causa da dor sensível foi a lesão corporal, n’Ele
muito forte devido ao sofrimento ter sido generalizado por todo o corpo, devido
também ao tipo de sofrimento, por que a morte dos crucificados é a mais cruel e
acerba...” (...) “A causa da dor interior foi, em primeiro lugar, o pecado de todo o
gênero humano, pelo qual satisfazia sofrendo...; em segundo lugar, especialmente
sofreu devido aos judeus e aos outros causadores da sua morte, e, principalmente,
devido aos discípulos, que se escandalizaram pela Paixão de Cristo; em terceiro
lugar, (a causa da dor interior) foi ter que perder a vida corporal, o que
naturalmente é horrível à natureza humana” (S.T. III 46, 6 c).


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Cristo na cruz suportou também os males que poderia ter evitado,
mas não os evitou: “Julgais que não posso rogar a meu Pai e que
Ele logo não me envie mais que doze legiões de Anjos?” (Mt. 26,
53) 29.

Realmente, a paciência de Cristo na cruz foi imensa! “Corramos
com paciência para o combate que nos espera, com os olhos fitos
em Jesus, o autor da nossa fé, que a levará ao termo: Ele que, lhe
tendo sido oferecida a alegria, suportou a cruz sem levar em
consideração a sua humilhação” (Heb. 36, 17).

74 — Se desejares ver na cruz um exemplo de humildade, basta-
te olhar para o crucifixo. Deus quis ser julgado sob Pôncio Pilatos
e morrer: “A vossa causa, Senhor, foi julgada como a de um
ímpio” (Jo. 36, 17). Sim, de um ímpio, porque disseram:
“Condenemo-lo a uma morte muito vergonhosa” (Sab. 2, 20).

O Senhor quis morrer pelo seu servo, e Aquele que dá a vida aos
Anjos, pelo homem: “Fez-se obediente até à morte” (Fil. 2, 8)

75 — Se queres na cruz um exemplo de obediência, segue Àquele
que se fez obediente ao pai, até à morte: “Assim como pela
desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores;
também pela obediência de um só homem, muitos se tornaram
justos” (Rom. 5, 19).

76 — Se na cruz estás procurando um exemplo de desprezo das
coisas terrenas, segue Àquele que é o Rei e o Senhor dos
Senhores no qual estão os tesouros da sabedoria, mas que na cruz


29 “Desse modo Cristo foi causa de sua Paixão e Morte. Poderia impedir a sua
Paixão e a sua Morte, primeiramente reprimindo os adversários, de modo que não
o quisessem ou não pudessem matar; em segundo lugar, porque o seu espírito
tinha o poder de conservar a natureza da sua carne, para que não fosse oprimida
por alguma lesão a ela infligida (a alma de Cristo, porque estava unida ao Verbo na
unidade da pessoa tinha tal poder, como diz Agostinho). Por que a alma de Cristo
não repeliu do próprio corpo o sofrimento infligido, mas quis que a sua natureza
corporal sucumbisse sob aquele malefício, é dito que pôs a sua alma, ou que
voluntariamente morreu” (S.T. III. 47, 1 c).


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aparece nu, ridicularizado, escarrado, flagelado, coroado de
espinhos, na sede saciado com fel e vinagre e morto.

Não deves te apegar às vestes e às riquezas, “porque dividiram
entre si as minhas vestes” (Ps. 29, 19); nem às honras, porque
“Eu suportei as zombarias e os açoites”; nem às dignidades,
porque “puseram em minha cabeça uma coroa de espinhos que
trançaram”; nem às delícias, porque “na minha sede deram-me
vinagre para beber” (Ps. 68, 22)

Comentando este texto da Carta aos Hebreus — “Que, apesar de
lhe oferecerem alegria, suportou a cruz, desprezando a
humilhação dela” (Heb. 12, 2) —, Agostinho, nos diz: “O homem
Cristo Jesus desprezou todos os bens terrenos, para mostrar que
devem ser desprezados”.

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