quinta-feira, 1 de abril de 2010

A Paixão de N.S.J.C, por S. Afonso de Ligório.


A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo

Piedosas e edificantes meditações sobre os sofrimentos de Jesus


Por Sto. Afonso Maria de Ligório
Traduzidas pelo Pe. José Lopes Ferreira, C.Ss.R.


INVOCAÇÃO A JESUS E MARIA

Ó Salvador do mundo, ó amante das almas, ó Senhor, o mais digno objeto de nosso amor, vós, por meio de vossa Paixão, viestes a conquistar os nossos corações, testemunhando-lhes o imenso afeto que lhes tendes, consumando uma redenção que a nós trouxe um mar de bênçãos e a vós um mar de penas e ignomínias. Foi por este motivo principalmente que instituístes o SS. Sacramento do altar, para que nos lembrássemos continuamente de vossa Paixão, como diz S. Tomás: ut autem tanti beneficii jugis in nobis maneret memoria, corpus suum in cibum fidelibus dereliquit (Opusc. 57). E já antes dele disse S. Paulo: Quotiescumque enim manducabitis panem hunc... mortem Domini annunciabitis (1Cor 11,26). Como tais prodígios de amor já tendes conseguido que inúmeras almas santas, abrasadas nas chamas de vosso amor, renunciassem a todos os bens da terra, para se dedicarem exclusivamente a amar tão somente a vós, amabilíssimo Senhor. Fazei, pois, ó meu Jesus, que eu me recorde sempre de vossa Paixão e que, apesar de miserável pecador, vencido finalmente por tantas finezas de vosso amor, me resolva a amar-vos e a dar-vos com o meu pobre amor algumas provas de gratidão pelo excessivo amor que vós, meu Deus e meu Salvador, me tendes demonstrado. Recordai-vos, ó Jesus meu, que eu sou uma daquelas vossas ovelhinhas, por cuja salvação viestes à terra sacrificar vossa vida divina. Eu sei que vós, depois de me terdes remido com vossa morte, não deixastes de me amar e ainda me consagrais o mesmo amor que tínheis ao morrer por mim na cruz. Não permitais que eu continue a viver ingrato para convosco, ó meu Deus, que tanto mereceis ser amado e tanto fizestes para ser de mim amado.

E vós, ó SS. Virgem Maria, que tivestes tão grande parte na Paixão de vosso Filho, impetrai-me pelos merecimentos de vossas dores a graça de experimentar um pouco daquela compaixão que sentistes na morte de Jesus e obtende-me uma centelha daquele amor, que constituiu o martírio de vosso coração tão compassivo.

Suplico-vos, Senhor Jesus Cristo, que a força de vosso amor, mais ardente que o fogo, e mais doce que o mel, absorva a minha alma, a fim de que eu morra por amor de vosso amor, ó vós que vos dignastes morrer por amor de meu amor. Amém.

FRUTOS QUE SE COLHEM NA MEDITAÇÃO DA PAIXÃO DE JESUS CRISTO


INTRODUÇÃO

1. O amante das almas, nosso amantíssimo Redentor, declarou que não teve outro fim, vindo à terra e fazendo-se homem, que acender o fogo do santo amor nos corações dos homens. “Eu vim trazer fogo à terra e que mais desejo senão que ele se acenda?” (Lc 12,49).
E, de fato, que belas chamas de caridade não acendeu ele em tantas almas, particularmente com os sofrimentos que teve de padecer na sua morte, a fim de patentear-nos o amor imenso que nos dedica!
Oh! quantos corações, sentindo-se felizes nas chagas de Jesus, como em fornalhas ardentes de amor, se deixaram inflamar de tal modo por seu amor, que não recusaram consagrar-lhe os bens, a vida e a si mesmos inteiramente, vencendo corajosamente todas as dificuldades
que se lhes deparavam na observância da Divina lei, por amor daquele Senhor que, sendo Deus, quis sofrer tanto por amor deles!
Foi justamente este o conselho que nos deu o Apóstolo, para não desfalecermos mas até corrermos expeditamente no caminho do céu:
“Considerai, pois, atentamente aquele que suportou tal contradição dos pecadores contra a sua pessoa, para que vos não fatigueis, desfalecendo em vossos ânimos” (Hb 12,3).
2. Por isso, S. Agostinho, ao contemplar Jesus todo chagado na cruz, orava afetuosamente:“Escrevei, Senhor, vossas chagas em meu coração, para que nelas eu leia a dor e o amor: a dor, para suportar por vós todas as dores; o amor, para desprezar por vós todos os amores”. Porque, tendo diante dos meus olhos a grande dor que vós,
meu Deus, sofrestes por mim, sofrerei pacientemente todas as penas que tiver de suportar, e à vista do vosso amor, de que me destes prova na cruz, eu não amarei nem poderei amar senão a vós.
3. E de que fonte hauriram os santos o ânimo e a força para sofrer os tormentos, o martírio e a morte, senão dos tormentos de Jesus crucificado? S. José de Leonissa, capuchinho, vendo que queriam atá-lo com cordas para uma operação dolorosa que o cirurgião devia fazer-lhe, tomou nas mãos o seu crucifixo e disse: Cordas? que cordas! eis aqui os meus laços. Este Senhor pregado por meu amor com suas dores obriga-me a suportar qualquer tormento por seu amor. E dessa maneira suportou a operação sem se queixar, olhando para
Jesus, que “como um cordeiro se calou diante do tosquiador e não abriu a sua boca” (Is 53,7). Quem mais poderá dizer que padece injustamente vendo Jesus que “foi dilacerado por causa de nossos crimes?”
Quem mais poderá recusar-se a obedecer, sob pretexto de qualquer incômodo, contemplando Jesus “feito obediente até à morte?”
Quem poderá rejeitar as ignomínias, vendo Jesus tratado como louco, como reide burla, como malfeitor, esbofeteado, cuspido no rosto e suspenso num patíbulo infame?
4. Quem, pois, poderá amar um outro objeto além de Jesus, vendo-o morrer entre tantas dores e desprezos, a fim de conquistar o nosso amor? Um pio solitário rogava ao Senhor que lhe ensinasse o que deveria fazer para amá-lo perfeitamente. O Senhor revelou-lhe que, para chegar a seu perfeito amor, não havia exercício mais próprio que meditar freqüentemente na sua Paixão. Queixava-se S.Teresa amargamente de alguns livros, que lhe haviam ensinado a deixar de meditar na Paixão de Jesus Cristo, porque isto poderia servir de impedimento à contemplação da divindade. Pelo que a santa exclamava: “Ó Senhor de minha alma, ó meu bem, Jesus Crucificado, não posso recordar-me dessa opinião sem me julgar culpada de uma grande infidelidade. Pois seria então possível que vós, Senhor, fôsseis um impedimento para um bem maior? E donde me vieram todos os bens senão de vós?” E em seguida ajuntava: “Eu vi que, para contentar a Deus e para que nos conceda grandes graças, ele quer que tudo passe pelas mãos dessa humanidade sacratíssima, na qual se compraz sua divina majestade”.
5. Por isso dizia o Padre Baltasar Álvarez que o desconhecimento dos tesouros que possuímos em Jesus é a ruína dos cristãos, sendo por essa razão a Paixão de Jesus Cristo sua meditação preferida e mais usada, considerando em Jesus especialmente três de seus tormentos: a pobreza, o desprezo e as dores, e exortava os seus penitentes a meditar freqüentemente na Paixão do Redentor, afirmando que não julgassem ter feito progresso algum se não chegassem a ter sempre impresso no coração a Jesus crucificado.
6. Ensina S. Boaventura que quem quiser crescer sempre de virtude em virtude, de graça em graça, medita sempre Jesus na sua Paixão. E ajunta que não há exercício mais útil para fazer santa uma alma do que considerar assiduamente os sofrimentos de Jesus Cristo.
7. Além disso afirmava S. Agostinho (ap. Bern. de Bustis) que vale mais uma só lágrima derramada em recordação da Paixão de Jesus, que uma peregrinação a Jerusalém e um ano de jejum a pão e água. E na verdade, porque vosso amante Salvador padeceu tanto senão para que nisso pensássemos e pensando nos inflamássemos no amor para com ele? “A caridade de Cristo nos constrange”, diz S. Paulo (2Cor 5,14). Jesus é amado por poucos, porque poucos são os que meditam nas penas que por nós sofreu; que, porém, as medita a miúdo, não poderá viver sem amar a Jesus: sentir-se-á de tal maneira constrangido por seu amor que não lhe será possível resistir e deixar de amar a um Deus tão amante e que tanto sofreu para se fazer amar.
8. Essa é a razão por que dizia o Apóstolo que não queria saber outra coisa senão Jesus e Jesus Crucificado, isto é, o amor que ele nos testemunhou na cruz. “Não julgueis que eu sabia alguma coisa entre vós senão a Jesus Cristo e este crucificado (1Cor 2,2). E na verdade, em que livros poderíamos aprender melhor a ciência dos santos (que é a ciência de amar a Deus) do que em Jesus Crucificado?
O grande servo de Deus, Frei Bernardo de Corleone, capuchinho, não sabendo ler, queriam seus confrades ensinar-lhe. Ele, porém, foi primeiro aconselhar-se com seu crucifixo e Jesus respondeu-lhe da cruz: “Que livro! Que ler! eu sou o teu livro, no qual poderás sempre ler o amor que eu te consagro!” Oh! que grande assunto de meditação para toda a vida e para toda a eternidade: um Deus morto por meu amor!
9.Visitando uma vez S.Tomás d’Aquino a S. Boaventura, perguntou-lhe de que livro se havia servido para escrever tão belas coisas que havia publicado. S. Boaventura mostrou-lhe a imagem de Jesus crucificado, toda enegrecida pelos muitos beijos que lhe imprimira, dizendo-lhe: “Eis o meu livro, donde tiro tudo o que escreve; ele ensinou-me o pouco que eu sei”. Todos os santos aprenderam a arte de amar a Deus no estudo do crucifixo. Fr. João de Alvérnia, todas as vezes que contemplava Jesus coberto de chagas, não podia conter a lágrimas. Fr.Tiago de Todi, ouvindo ler a Paixão do Redentor, não só derramava abundantes lágrimas, mas prorrompia em soluços, oprimido pelo amor de que se sentia abrasado por seu amado Senhor.
10. S. Francisco fez-se aquele grande serafim pelo doce estudo do crucifixo. Chorava tanto ao meditar os sofrimentos de Jesus Cristo, que perdeu quase totalmente a vista. Uma vez encontraram-no chorando em altas vozes e perguntaram-lhe a razão. “O que eu tenho? respondeu o santo, eu choro por causa dos sofrimentos e das afrontas ocasionadas ao meu Senhor e minha pena cresce e aumenta vendo a ingratidão dos homens que não o amam e dele se esquecem”.
Todas as vezes que ouvia balar um cordeiro, sentia grande compaixão, pensando na morte de Jesus, Cordeiro imaculado, sacrificado na cruz pelos pecados do mundo. Por isso, esse grande amante de Jesus nada recomendava com tanta solicitude a seus irmãos como a meditação constante da Paixão de Jesus.

11. Eis, portanto, o livro, Jesus Crucificado, que, se for constantemente lido por nós, também nós aprenderemos de um lado temer o pecado e doutro nos abrasaremos em amor por um Deus tão amante, lendo em suas chagas a malícia do pecado que reduziu um Deus a sofrer uma morte tão amarga para por nós satisfazer a justiça divina e o amor que nos manifestou o Salvador, querendo sofrer tanto para nos fazer compreender o quanto nos amava.
12. Supliquemos à divina Mãe Maria, que nos obtenha de seu Filho a graça de entrarmos nessa fornalha de amor onde ardem tantos corações para que aí sejam destruídos nossos afetos terrenos e possamos nos abrasar naquelas chamas bem-aventuradas que fazem as almas santas na terra e bem-aventuradas no céu.

CAPÍTULO I
Do amor de Jesus Cristo querendo satisfazer a justiça divina por nossos pecados

1. A história narra-nos um caso de um amor tão prodigioso que será a admiração de todos os séculos. Havia um rei, senhor de muitos reinos, que tinha um único filho, tão belo, tão santo, tão amável, que, sendo o encanto do seu pai, este o amava como a si mesmo. Ora, este príncipe se afeiçoou grandemente a um escravo e tendo este cometido um delito, pelo qual fora condenado à morte, o príncipe se ofereceu a morrer por ele. O pai, amante apaixonado da justiça, resolveu condenar seu amado filho à morte, para livrar o escravo do castigo merecido. E assim aconteceu: o filho morreu justiçado e o escravo ficou livre.
2. Este caso, que uma só vez se deu e nunca mais se repetirá no mundo, está consignado nos santos evangelhos, onde se lê que o Filho de Deus, o Senhor do universo, vendo o homem condenado à morte eterna por causa do pecado, quis tomar a natureza humana epagar com sua morte a pena devida pelo homem. “Foi oferecido porque ele mesmo o quis” (Is 53,7). E o Eterno Pai o fez morrer na cruz para nos salvar a nós, míseros pecadores.“Não poupou a seu próprio Filho, mas o entregou por nós todos” (Rm 8,32). Que vos parece, alma cristã, este amor do Filho e do Pai?
3. Amado Redentor meu, quisestes então com vossa morte sacrificar-vos para obter-me o perdão. E que vos darei em reconhecimento? Muito me obrigastes a amar-vos, muito ingrato serei se não vos amar com todo o meu coração. Vós me destes vossa vida divina; eu, mísero pecador, vos consagro a minha vida. Ao menos a vida que me resta quero empregá-la exclusivamente em amar-vos, obedecer-vos e dar-vos gosto.
4. Ó homens, ó homens, amemos a este Redentor que, sendo Deus, não se dignou sobrecarregar-se com os nossos pecados para satisfazer com seus sofrimentos pelos castigos que tínhamos merecido. “Em verdade tomou sobre si as nossas fraquezas e carregou com as nossas dores” (Is 53,4). Diz S. Agostinho que o Senhor, criando-nos, o fez em virtude de seu poder, mas, remindo-nos, fê-lo por meio de suas dores (In Joan). Quanto vos devo, ó Jesus, meu Salvador! Se eu desse mil vezes meu sangue por vós, e sacrificasse mil vidas, ainda seria pouco. Oh! se eu pensasse continuamente no amor que nos testemunhastes na vossa Paixão, não poderia certamente amar outro objeto além de vós. Por aquele amor com que nos amastes na cruz, dai-me a graça de vos amar com todo o meu coração. Eu vos amo, bondade infinita, eu vos amo acima de todos os bens e não vos peço outra coisa que o vosso santo amor.
5. Mas como explicar isto, continua a dizer S. Agostinho, que vosso amor tenha chegado a tal ponto, ó Salvador do mundo, que, tendo eu cometido o delito, tenhais vós de pagar a pena? (Medit. c. 7). E que vos importava, pergunta S. Bernardo, que nos perdêssemos e fôssemos castigados como havíamos merecido? Por que quisestes satisfazer por nossos pecados, castigando vossa carne inocente? Por que quisestes, Senhor, sofrer a morte para dela nos livrar? Ó misericórdia que não teve e nem terá jamais semelhante! Ó graça que nunca poderíamos merecer! Ó amor que nunca se poderá compreender!
6. Já Isaías predissera que nosso Redentor deveria ser condenado à morte e levado ao sacrifício como um inocente cordeiro (Is 53,7). Que admiração para os Anjos, ó Deus ver seu inocente senhor ser conduzido como vítima para ser sacrificado sobre o altar por amor do homem! E que espanto para o céu e o inferno ver um Deus condenado à morte como um malfeitor, num patíbulo ignominioso, pelos pecados de suas criaturas!
7. Cristo remiu-nos da maldição da lei, feito por nós maldição, porque está escrito: “Maldito todo aquele que é pendurado no lenho, para que a bênção dada a Abraão fosse comunicada aos gentios por Jesus Cristo” (Gl 3,13). Pelo que se diz S. Ambrósio: “Ele se fez na cruz maldito para que tu fosses bem-aventurado no reino de Deus”, (Ep. 47). Portanto, meu caro Salvador, vós, para que obterdes a bênção divina, vos sujeitastes a abraçar a vergonha de aparecer na cruz como maldito aos olhos do mundo e abandonado até de vosso eterno Pai, tormento que vos obrigou a exclamar em alta voz:“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” Sim, foi por este motivo que Jesus foi abandonado na sua Paixão, comenta Simão de Cássia, para que nós não ficássemos abandonados nos pecados por nós cometidos (Lib. 13 de pass. Dom.). Ó prodígio de misericórdia! Ó excesso de amor de um Deus para com os homens! E como é possível, meu Jesus, haver almas que nisso crêem e não vos amam?
8. Ele nos amou e nos lavou dos nossos pecados em seu sangue (Ap 1,5). Eis, ó homens, até aonde chegou o amor de Jesus por nós: para lavar-nos das manchas de nossos pecados, ele quis preparar-nos um banho de salvação no seu próprio sangue. Oferece seu sangue, diz um douto autor, que brada mais alto que o de Abel: este pedia justiça; o sangue de Cristo, porém, pede misericórdia. Aqui exclama S. Boaventura: “Ó bom Jesus, que fizestes? Até onde vos levou o amor? Que coisa vistes em mim que tanto vos enlevou? Por que quisestes padecer tanto por mim? Quem sou eu, que por tão grande preço quisestes granjear o meu amor? Ah! compreendo que tudo é o resultado de vosso amor infinito? Sede para sempre bendito e louvado.
9. Ó vós todos que passais por este caminho, atendei e vede se há dor como a minha dor (Jr 1,12). O mesmo seráfico doutor, considerando estas palavras de Jeremias como pronunciadas por nosso Salvador, quando se achava na cruz morrendo por nosso amor, diz:
Eu já percebo, ó meu amante Senhor, quanto padecestes neste madeiro infame, mas o que mais me obriga a amar-vos é compreender o afeto que me testemunhastes padecendo tanto a fim de ser amado por mim.
10. O que mais inflamava S. Paulo a amar a Jesus era o pensar que ele quis morrer não somente por todos em geral, mas também por ele em particular. “Ele me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2,20). E assim deve exclamar cada um de nós, porque, como afirma S. João Crisóstomo, Deus ama cada homem em particular com o mesmo amor com que ama o mundo universo (In Gl 2). Pelo que cada um de nós não é menos devedor a Jesus Cristo por ter padecido por todos do que se tivesse sofrido por cada um em particular.
Ora, se Jesus tivesse morrido para salvar somente a vós, meu irmão, deixando os outros na sua desgraça original, que obrigação não teríeis para com ele? Deveis, porém, compreender que maior obrigação tendes para com ele, dignando-se ele morrer por todos. Se tivesse morrido exclusivamente por vós, que pena sentiríeis ao pensar que vossos próximos, pais, irmãos, amigos, teriam de ser condenados e que depois desta vida viveríeis para todo o sempre separados deles! Se tivésseis sido reduzido à escravidão com toda a vossa família e aparecesse alguém a resgatar-vos a vós somente, com que instâncias não suplicaríeis que, juntamente convosco, resgatasse também vossos pais e irmãos! E que agradecimentos não havíeis de lhe testemunhar, se ele o fizesse para vos contentar? Dizei, pois, a Jesus: Ah! meu doce Redentor, sem que eu vos suplicasse, vós não só me haveis resgatado da morte, com o preço do vosso sangue, mas também os meus parentes e amigos, podendo eu ter toda a esperança de com eles entrar no vosso gozo no paraíso. Senhor, eu vos agradeço e vos amo e espero agradecer-vos e amar-vos eternamente naquela pátria bem-aventurada.
11. Quem poderá explicar o amor que o Verbo divino consagra a cada um de nós, pergunta S. Lourenço Justiniano, se ele supera o amor de todos os filhos para com suas mães e de todas as mães para com seus filhos? (Tr. de Chr. Ag. c. 5) Como revelou o Senhor a S. Gertrudes, ele estaria pronto a morrer tantas vezes quantas são as almas condenadas se fossem ainda capazes de redenção. Ó Jesus, ó bem mais amável que todos os outros bens, por que vos amam os homens tão pouco? Por favor, fazei que eles conheçam o quanto padecestes por um só deles, o amor que lhes tendes, o desejo que vos devora de ser por eles amado, as belas qualidades que possuís para lhes cativar o amor. Fazei-vos conhecer, ó meu Jesus, fazei-vos amar.
12. “Eu sou o bom pastor; o bom pastor dá sua alma por suas ovelhas” (Jo 10,11). Onde, porém, ó Senhor, se encontram no mundo pastores semelhantes a vós? Os outros pastores dão a morte às suas ovelhas para a conservação da própria vida divina para obter a vida para as vossas amadas ovelhas. E eu sou uma dessas felizes ovelhas, ó meu amabilíssimo pastor. Que obrigação, pois, a minha, de amar-vos e de dar a minha vida por vós, já que vós por amor de mim em particular vos entregastes à morte. E que confiança não devo pôr no vosso sangue, sabendo que foi derramado para pagar os meus pecados. E dirás naquele dia: Eu te confessarei, ó Senhor... Eis aqui o Deus meu Salvador; agirei com toda a confiança e não temerei (Is 12,1-2). E como poderia desconfiar de vossa misericórdia, ó meu Senhor, contemplando as vossas chagas? Eia, pois, ó pecadores, recorramos a Jesus, que está em sua cruz como num trono de misericórdia. Ele aplacou a justiça divina contra nós irritada. Se ofendemos a Deus, ele fez penitência por nós: basta que tenhamos arrependimento.
13. Ah! meu caríssimo Salvador, a que vos reduziu a compaixão e o amor que me consagrastes: peca o escravo e vós, Senhor, pagais a pena. Se penso nos pecados devo, pois, tremer por causa do castigo que mereço; mas, pensando na vossa morte, tenho mais razão de esperar que de temer. Ó sangue de Jesus, tu és toda a minha esperança!
14. Mas este sangue, à medida que desperta confiança, obriga-nos a ser totalmente de nosso Redentor. O Apóstolo exclama: “Não sabeis que não sois vossos? Fostes comprados por um grande preço” (1Cor 6,19). Reconheço, ó meu Jesus, que eu não posso sem injustiça dispor de mim e de minhas coisas, já que sou propriedade vossa, visto me haverdes comprado com vossa morte. O meu corpo, a minha alma, a minha vida não é mais minha, é vossa e inteiramente vossa. Só em vós, portanto, quero por minha esperança, só a vós quero amar, ó meu Deus, por mim morto e crucificado. Não tenho outra coisa para oferecer-vos que esta alma resgatada em vosso sangue, e ela eu vos ofereço. Permiti que vos ame, pois nada mais quero fora de vós, meu Salvador, meu Deus, meu amor, meu tudo. Ao tempo passado fui mui grato para com os homens, mas fui mui ingrato para convosco. Presentemente eu vos amo e não há coisa que mais me aflija que o ter-vos desgostado. Ó meu Jesus, dai-me que eu confie em vossa Paixão e tirai de meu coração todo o afeto que não for para vós. Quero amar-vos exclusivamente, já que mereceis todo o meu amor e de tantas maneiras me obrigastes a vos amar.
15. E quem poderá deixar de vos amar, vendo-vos, como o filho dileto do Eterno Pai, terminar vossa vida com uma morte tão amarga e desumana por nosso amor? Ó Mãe do belo amor, pelos merecimentos de vosso coração abrasado em amor, obtende-nos a graça de viver somente para amar o vosso Filho, que, merecendo um amor infinito, quis a tanto custo conquistar o amor de um mísero pecador. Ó amor das almas, meu Jesus, eu vos amo; dai-me mais amor, mais chamas que me façam viver abrasado em vosso amor. Eu não mereço, mas vós o mereceis, bondade infinita. Amém, assim o espero, e assim seja.


CAPÍTULO II
Jesus quis padecer tanto por nós, para nos fazer compreender o grande amor que nos consagra

1. Duas coisas fazem conhecer um amigo, escreve Cícero: fazer-lhe bem e padecer por ele, e esta é a maior prova de um verdadeiro amor. Deus já tinha demonstrado seu amor ao homem, dispensando-lhe inúmeros benefícios, mas, segundo S. Pedro Crisólogo, beneficiar
unicamente ao homem parecer-lhe-ia muito pouco a seu amor, se não tivesse encontrado o modo de demonstrar-lhe quanto o amava, padecendo e morrendo por ele, como o fez de fato, tomando a natureza humana (Serm. 69). E que maneira mais apta poderia Deus encontrar para manifestar-nos o amor imenso que nos consagra, do que fazer-se homem e padecer por nós? Não poderia se manifestar de outra maneira o amor de Deus para conosco, escreve a esse respeito S. Gregório Nazianzeno. Meu amado Jesus, muito vos tendes esforçado por demonstrar-me vosso afeto e patentear-me vossa bondade. Grande, pois, seria a ofensa a vós feita, se vos amasse pouco ou amasse outra coisa além de vós.
2. Cornélio a Lápide diz que Deus nos deu o maior sinal de amor, deixando-se ver coberto de chagas, pregado à cruz e morto por nós. E antes dele, disse S. Bernardo que Jesus em sua Paixão nos fez conhecer que seu amor para conosco não podia ser maior do que foi (De pass. c. 14). Escreve o Apóstolo que, quando Jesus Cristo quis morrer por nossa salvação, demonstrou até onde chegava o amor de um Deus para conosco, miseráveis pecadores (Tito 3,4). Ah! Meu amante Salvador, compreendo: todas as vossas chagas me falam do amor que me tendes. E quem poderá deixar de vos amar, depois de tantos sinais de vossa caridade? S. Teresa tinha razão de dizer, ó amabilíssimo Jesus, que quem não vos ama demonstra que vos desconhece.
3. Jesus Cristo, mesmo sem padecer e levando na terra uma vida agradável e deliciosa, poderia nos obter a salvação. Mas, como diz S. Paulo, havendo-lhe sido proposto o gozo, sofreu na cruz (Hb 12,2). Ele recusou as riquezas, as delícias, as honras terrestres, e escolheu uma vida pobre e uma morte cheia de dores e de opróbrios. E por quê? Não seria suficiente se ele tivesse suplicado ao Padre Eterno, com uma petição simples, que perdoasse ao homem a qual, sendo de valor infinito, bastaria para salvar o mundo e infinitos mundos? Por que foi que ele quis suportar tantos tormentos e uma morte tão cruel,
havendo se separado a alma de Jesus de seu corpo exclusivamente por pura dor, como nota um autor? (Contens. 1. 10, d. 4 c. 1). Por que tanto esforço para remir o homem? “Se uma prece de Jesus bastava para remir-nos, responde S. João Crisóstomo (Serm. 128), contudonão bastou para nos demonstrar o amor que este Deus nos tinha. O que bastava à redenção não bastava ao amor”. E S.Tomás confirma-o, dizendo: “Cristo, sofrendo por amor, pagou a Deus mais do que exigia a reparação da ofensa do gênero humano” (III q. 48, a. 2). Porque
Jesus muito nos amava, desejava também ser muito amado por nós e por essa razão fez o quanto pôde, mesmo a preço de sofrimentos, para conquistar o nosso amor e nos fazer compreender que nada mais lhe restava fazer para ser amado por nós. Ele quis padecer muito, para obrigar-nos a amá-lo muito, diz S. Bernardo.

4. E que maior prova de amor, diz o próprio Salvador, poderá dar um amigo a seu amigo, do que dar a vida por seu amor? (Jo 15,13). Mas vós, ó amantíssimo Jesus, diz S. Bernardo, fizestes mais do que isso, já que quisestes dar a vida por nós, não vossos amigos, mas inimigos e rebeldes. É o que faz notar o Apóstolo, quando escreve: “Deus faz brilhar a sua caridade em nós, porque, quando ainda éramos pecadores, em seu tempo Cristo morreu por nós” (Rm 5,8).Vós, pois, ó meu Jesus, quisestes morrer por mim, vosso inimigo, e eu poderei resistir a tão grande amor? Eia, pois, já que com tanto ardor desejais que vos ame sobre todas as coisas, repelirei todo outro amor e quero amar-vos a vós somente. 5. São João Crisóstomo diz que o fim principal que teve Jesus em sua paixão foi o de manifestar o seu amor e assim atrair os nossos corações com a recordação dos sofrimentos por nós suportados (De Pass. s. 6). E S. Tomás ajunta que, por meio da Paixão de Jesus, chegamos ao conhecimento da grandeza do amor que Deus dedica ao homem. E já antes dele disse S. João: Nisto conhecemos a caridade de Deus, que ele entregou sua alma por nós (1Jo 3,16). Ó meu Jesus, ó cordeiro imaculado, por mim sacrificado na cruz, que não seja baldado o que padecestes por mim, antes fazei que me aproveite de tantos sofrimentos vossos. Prendei-me inteiramente com os doces laços de vosso amor, para que não vos abandone nem me separe mais de vós.
6. Refere S. Lucas que, conversando Moisés e Elias no monte Tabor sobre a Paixão de Jesus Cristo, denominaram-se um excesso: “E falaram de seu excesso, que realizaria em Jerusalém” (Lc 9,31).Com razão, diz S. Boaventura, a Paixão de Jesus foi chamada em excesso, visto ter sido um excesso de dor e um excesso de amor. Um autor piedoso acrescenta: Que mais podia padecer que não sofresse? O sumo excesso de amor atingiu seu zênite (Constens. 1. 10, d. 4). E não é verdade? A lei divina não impõe outra obrigação aos homens a não ser amar a seu próximo como a si mesmo. Jesus, porém, amou os homens mais do que a si mesmo, é expressão de S. Cirilo. Por isso, vos direi com S. Agostinho: Vós, meu amado Redentor, chegastes a amar-me mais do que a vós mesmo, já que para me
salvar quisestes sacrificar vossa vida divina, vida infinitamente mais preciosa que as vidas de todos os homens e de todos os anjos juntos.
7. Ó Deus infinito exclama o Abade Guerrico, vós, por amor do homem (se for lícito dizê-lo), vos tornastes pródigo de vós mesmo. E como não? pergunta, se não só quisestes dar os vossos bens, mas até vós mesmo para reaver o homem? Ó prodígio, ó excesso de amor, digno só de um infinito amor! Quem poderá, mesmo de longe, diz S. Tomás de Vilanova, compreender a imensidade de vosso amor em vos amar tanto a nós, míseros vermes, chegando a morrer e a morrer na cruz por nós? Sim, semelhante amor excede toda medida, toda inteligência (In Nat. Dom. c. 3).

8. É coisa agradável ver-se alguém estimado por uma alta personagem, tanto mais se esta estiver disposta a felicitá-lo com uma grande fortuna. Oh! quanto mais agradável e estimável nos deverá ser o ver-nos amados por Deus, que nos pode transmitir uma fortuna eterna? Na antiga lei o homem podia duvidar se Deus o amava com ternura. Depois, porém, de vê-lo sobre um patíbulo derramar seu sangue e morrer, como poderíamos ainda duvidar que ele nos ama com toda a ternura possível? Minha alma, contempla o teu Jesus, como ele está pendente na cruz, todo chagado: eis como ele te demonstra bem claramente por suas chagas o amor de que está repleto seu coração. “O segredo do coração se revela pelas chagas do corpo”, diz S. Bernardo. Meu caro Jesus, aflige-me ver-vos morrer sob a pressão de tantas dores nesse madeiro de opróbrio, mas tudo me consola e me inflama em amor por vós, conhecendo por meio dessas chagas o amor que me tendes. Serafins do céu, que pensais da caridade de meu Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim?

9. Afirma S. Paulo que os pagãos, ouvindo pregar que Jesus foi crucificado por amor dos homens, tinham isso em conta de uma loucura inacreditável: Nós, porém, pregamos a Cristo crucificado, que é para os judeus um escândalo e para os pagãos uma loucura (1Cor
1,23). Como é possível, diziam, crer que um Deus onipotente, que não precisa de ninguém para ser sumamente feliz, tenha querido fazer-se homem para salvar os homens e morrer numa cruz? Seria o mesmo que crer que um Deus se tornou louco de amor pelos homens. E, assim pensando, recusavam aceitar a fé! Esta grande obra da redenção, que os pagãos julgavam e chamavam uma loucura, sabemos nós que Jesus a empreendeu e realizou. Vimos a sabedoria eterna, diz S. Lourenço Justiniano, o Unigênito de Deus tornado como louco, por assim dizer, pelo amor excessivo que tinha aos homens. Sim, porque não deixa de ser uma loucura de amor, ajunta o cardeal Hugo, querer um Deus morrer pelo homem (In 1Cor 1).
10. O beato Jacopone, que no século fora um literato, feito franciscano, parecia haver-se tornado louco de amor por Jesus Cristo.Apareceu-lhe uma vez Jesus e disse-lhe: “Jacopone, por que fazes essas loucuras?” “Por que as faço? Porque vós mas haveis ensinado.
Se eu sou louco, vós ainda sois mais, havendo querido morrer por mim”.Também S. Maria Madalena de Pazzi, arrebatada em êxtases, exclamava:“Ó Deus de amor! Ó Deus de amor! É demais o amor que tendes às criaturas, ó meu Jesus” (Vita c. 11). Uma vez, toda fora de si, em êxtases, tomou um crucifixo e se pôs a correr pelo convento, gritando:“ó amor, ó amor; não cessarei jamais de chamar-vos amor, ó meu Deus”. E, voltando-se para as Religiosas, disse: “Não sabeis, caras Irmãs, que o meu Jesus é só amor e até ouso dizer e sempre o direito, louco de amor?” Dizia que, quando chamava Jesus amor, desejaria ser ouvida do mundo inteiro, a fim de que fosse conhecido e amado por todos o amor de Jesus. De quanto em vez se punha a tocar o sino para que todos os povos da terra, como desejava, se possível fosse, viessem amar a seu Jesus.
11. Permiti-me dizê-lo, ó meu doce Redentor, muita razão não tinha em vossa esposa de chamar-vos louco de amor. E não parece uma loucura o terdes querido morrer por mim, um verme ingrato, como sou, de quem já prevíeis as ofensas e as traições que vos deveria fazer? Mas se vós, ó meu Deus, quase enlouquecestes por amor de mim, como é que eu não chego a enlouquecer por amor de um Deus?
Depois de vos haver visto morto por mim, como poderei pensar em outro, além de vós? como poderei amar outra coisa além de vós? Oh! sim, meu Senhor, meu sumo bem, mais amável que todos os outros bens, eu vos amo mais do que a mim mesmo. Prometo-vos não amar de hoje em diante outro bem fora de vós e pensar sempre no amor que me haveis demonstrado, morrendo nomeio de tantos tormentos por mim.
12. Ó flagelos, ó espinhos, ó cravos, ó cruz, ó chagas, ó tormentos, ó morte de meu Jesus, vós muito me forçais e obrigais a amar a quem tanto me amou. Ó Verbo encarnado, ó Deus amoroso, minha alma se abrasa em amor por vós. Desejaria amar-vos tanto que não tivesse outro prazer que dar-vos prazer, ó dulcíssimo Senhor meu, e visto que tanto desejais o meu amor, eu protesto que não quero mais viver senão para vós, e fazer tudo o que quereis de mim. Ó meu Jesus, ajudai-me, fazei que eu vos agrade inteiramente e sempre, no tempo e na eternidade. Maria, minha Mãe, rogai a Jesus por mim, para que me conceda o seu amor, já que outra coisa não desejo nesta e na outra vida que amar a Jesus. Amém.

CAPÍTULO III
Jesus por nosso amor quis desde o princípio de sua vida sofrer as penas de sua Paixão.

1. Para fazer-se amar do homem foi que o Verbo divino veio ao mundo tomar a natureza humana. Veio com tão grande desejo de sofrer por nosso amor, que não quis perder um só momento em dar começo a seus tormentos, ao menos pela apreensão. Apenas concebido no ventre de Maria, já se representou em espírito todos os tormentos de sua Paixão e para nos obter o perdão e a graça divina se ofereceu ao Padre Eterno para satisfazer por nós, sujeitando-se a todas as penas e castigos devidos a nossos pecados. Deste esse instante começou a padecer tudo o que depois veio a sofrer na sua dolorosa morte. Ah! meu amorosíssimo Redentor, e eu até agora que fiz ou que padeci por vós? Se durante mil anos suportasse por vós os tormentos sofridos pelos mártires, seria ainda pouco em comparação daquele só primeiro momento em que vos oferecestes e começastes a padecer por mim.
2. Os mártires sofreram de fato grandes dores e ignomínias, mas unicamente na ocasião de seu martírio. Jesus padeceu sempre, desde os tormentos de sua Paixão, já que, desde o primeiro momento, se pôs diante dos olhos toda a cena horripilante dos tormentos e das injúrias que devia receber dos homens. Por isso ele, por boca do profeta, disse: Minha dor está sempre à minha vista (Sl 37,18).Ah! meu Jesus, vós por meu amor vos mostrastes tão desejoso de padecer, que quisestes sofrer antes do tempo e eu sou tão ávido de prazeres
da terra. Quantos desgostos vos dei para satisfazer o meu corpo!
Senhor, pelos méritos de vossos padecimentos, tirai-me o afeto aos prazeres terrenos. Eu proponho por vosso amor abster-me de tal satisfação (nomeai-a). 3. Deus, por compaixão conosco, não nos revela antes do tempo os sofrimentos que nos estão preparados. Se a um réu condenado à forca fosse revelado desde o uso da razão o suplício que o esperava, poderia ele ter um só dia de alegria? Se, desde o começo de seu reinado, fosse mostrada a Saul a espada que o deveria traspassar; se Judas previsse o laço que deveria sufocá-lo, quão amarga não lhes seria a vida! Nosso amável Redentor, desde o primeiro instante de sua vida, tinha diante dos olhos os açoites, os espinhos, a cruz, os ultrajes da sua paixão, a morte dolorosa que o esperava. Quando via as vítimas que eram sacrificadas no templo, sabia muito bem que todas elas eram figura do sacrifício que esse Cordeiro imaculado deveria consumar no altar da cruz. Quando via a cidade de Jerusalém, sabia que aí deveria sacrificar sua vida num mar de dores e de vitupérios. Quando olhava para sua querida Mãe, já a imaginava agonizante ao pé da cruz, junto a si moribundo. E assim, meu Jesus, a vista horrível de tantos males em toda a vossa vida vos afligiu sempre e vos atormentou antes do tempo de vossa morte. E vós aceitastes tudo e sofrestes por meu amor.
4. Somente a vista de todos os pecados do mundo, especialmente dos meus, ó meu aflito Senhor, com os quais já prevíeis que eu vos havia de ofender, fez que a vossa vida fosse a mais aflita e penosa de todas as existências passadas e futuras. Mas, ó meu Deus, em que lei bárbara está escrito que um Deus ame tanto uma criatura e que depois disso a criatura viva sem amar o seu Deus, antes o ofenda e desgoste? Fazei, Senhor, que eu conheça a grandeza de vosso amor, para que não vos seja mais ingrato. Ó meu Jesus, se eu vos amasse,
se eu vos amasse deveras, quão doce me seria o padecer por vós.
5. À Sóror Madalena Orsini, que já há longo tempo vivia atribulada, apareceu uma vez Jesus na cruz, e a animou a sofrer com paciência. A serva de Deus respondeu: Mas, Senhor, vós só por três horas estivestes pregado na cruz e eu já há mais anos sofro este tormento.
Repreendendo-a, disse-lhe Jesus Cristo: “Ah! ignorante, que dizes? Eu, desde o primeiro instante em que me achei no seio de minha Mãe, sofri no coração tudo aquilo que mais tarde tolerei na cruz”. E eu, meu caro Redentor, à vista de tantos tormentos que durante toda a vossa vida sofrestes por meu amor, como posso lamentar-me das cruzes que vós me enviais para meu bem? Agradeço-vos haver-me remido com tanto amor e com tanta dor. Vós, para animar-me a sofrer com paciência as penas desta vida, quisestes vos encarregar de todos os nossos males. Ah! Senhor, fazei que tenha sempre presentes as vossas dores, para que eu aceite e deseje sempre padecer por vosso amor.
6. “Grande como o mar é vossa dor” (Lm, 2,13). Como as águas do mar são salgadas e amargosas, assim a vida de Jesus foi toda cheia de amarguras e falta de todo o alívio, como ele mesmo disse a S. Margarida de Cortona. Além disso, como no mar se reúnem todas as águas da terra, assim em Jesus Cristo se reuniram todas as dores dos homens. Pela boca do Salmista ele mesmo o afirma: “Salvai-me, ó meu Deus, porque as águas entraram até a minha alma; cheguei ao alto mar e a tempestade me submergiu” (Sl 68,1). Ah! meu caro Jesus, meu amor, minha vida, meu tudo, se eu contemplo exteriormente o vosso corpo, nada mais vejo senão chagas. Se penetro em vosso coração desolado, não encontro senão amarguras e opróbrios, que vos causam mortais agonias. Ah! meu Senhor, quem, além de vós, que sois uma bondade infinita, se sujeitaria a padecer tanto e morrer por uma criatura vossa? Mas, porque vós sois Deus, amais como Deus, com um amor que não pode ser comparado com nenhum outro amor.
7. S. Bernardo diz: Para remir o escravo, o Pai não poupou a seu Filho e o Filho não se poupou a si mesmo (Serm. de pass. Dom.). Ó caridade infinita de Deus: de um lado o Padre Eterno impôs a Jesus Cristo satisfazer por todos os pecados dos homens (Is 53,6) e doutro lado, Jesus, para salvar os homens da maneira mais amorosa possível, quer tomar sobre si a pena que era devida à divina justiça em todo o seu rigor, do que conclui S. Tomás que ele se submeteu a todas as dores e a todos os ultrajes em sumo grau. Por essa razão, Isaías o chama o homem das dores e o mais desprezado de todos os homens (Is 53,3). E com razão, porque enquanto Jesus era atormentado em todos os membros e sentidos do corpo, sofria ainda maiores tormentos em todas as potências de sua alma, visto que as penas interiores superam imensamente todas as dores externas. Ei-lo, pois, dilacerado, exangue, tratado como enganador, mágico, doido abandonado por seus próprios amigos e finalmente perseguido por todos até findar sua vida sobre um infame patíbulo.
8. Sabeis o que eu fiz para vós (Jo 13,12). Senhor, eu sei quanto fizestes e padecestes por meu amor, e vós sabeis que até agora nada fiz por vós. Meu Jesus, ajudai-me a sofrer qualquer coisa por amor de vós, antes de me atingir a morte. Eu me envergonho de aparecer
diante de vós, mas não quero ser mais aquele ingrato que tenho sido para convosco há tantos anos. Vós vos privastes de todo o prazer por mim; eu renuncio por vosso amor a todos os prazeres dos sentidos. Vós sofrestes tantas dores por mim; eu quero sofrer por vós todas as penas de minha vida e minha morte. Vós fostes abandonado e eu consinto em ser abandonado por todos, para que vós não me abandoneis, meu único e sumo bem. Vós fostes perseguido e eu aceito toda sorte de perseguições. Vós finalmente morrestes por mim e eu quero morrer por vós. Ah! meu Deus, meu tesouro, meu amor, meu tudo, eu vos amo, dai-me mais amor.

CAPÍTULO IV
Do grande desejo que teve Jesus de padecer e morrer por nosso amor

1. Muito terna, amorosa e afetuosa foi aquele declaração que fez nosso Redentor quando veio à terra, afirmando que ele tinha vindo para acender nas almas o fogo do amor divino e que não tinha outro desejo senão ver acesa nos corações de todos os homens essa santa chama. “Eu vim trazer fogo à terra e que desejo senão que ele se acenda?” (Lc 12,49). E ajunta imediatamente que desejava ser batizado no batismo de seu próprio sangue, não para lavar seus próprios pecados (pois era impecável), mas os nossos, pelos quais ele vinha satisfazer por seus tormentos. A paixão de Cristo chama-se batismo, porque fomos purificados por seu sangue, diz S. Boaventura. Em seguida nosso amantíssimo Jesus, para nos fazer compreender o ardor desse seu desejo de morrer por nós, acrescenta, com grande expressão de amor, que ele sentia uma imensa aflição por ter de diferir a execução de sua paixão, tão grande era o seu desejo de padecer por nosso amor. Eis suas amorosas palavras: “Tenho de ser batizado em um batismo e quão grande é minha angústia enquanto não o vejo cumprido” (Lc 12,50).
2. Ó Deus, abrasado em amor pelos homens, que podíeis mais dizer e fazer para obrigar-me a vos amar? E que bem vos podia trazer meu amor, que, para obtê-lo, quisestes morrer e desejastes tão ardentemente a morte? Se um meu escravo tivesse apenas desejado morrer por mim, seguramente teria conquistado o meu amor, e poderei viver sem amar com todo o meu coração a vós, meu Rei e meu Deus, que por mim morrestes e com tão grande desejo de obter o meu amor!
3. Sabendo Jesus que chegara a sua hora de se ir deste mundo para seu Pai, tendo amado os seus, amou-os até ao fim (Jo 13,1). Diz S. João que Jesus chamou sua hora a hora de sua Paixão, porque, como escreve um piedoso comentador, foi esse o momento da vida mais ardentemente desejado por nosso Redentor; com padecer e morrer pelo homem, ele queria fazê-lo compreender o amor imenso que lhe dedicava: É aquela hora do amante em que padece pelo amigo (Barrad t. 4. 1. 2., c. 5). É cara ao que ama a hora em que sofre pela pessoa amada, já que o padecer por outrem é a coisa mais própria para manifestar-lhe o nosso amor e ganhar-lhe o seu. Ah! meu caro Jesus, para me patenteardes o vosso grande amor, não quisestes confiar a outrem a obra de minha redenção. Tão caro vos era o meu amor, que quisestes padecer tão grandes penas para conquistá-lo. E que mais poderíeis fazer, se tivésseis de granjear o amor de vosso Eterno Pai? Que mais poderia padecer um escravo para obter o amor de seu senhor, do que aquilo que suportastes para serdes amado por mim, escravo vil e ingrato?
4. Vejamos nosso amado Jesus, já próximo a ser sacrificado sobre o altar da cruz por nossa salvação, naquela noite bem-aventurada que precedeu a sua paixão. Ouçamos o que diz a seus discípulos na última ceia que toma com eles.“Ardentemente desejei comer esta páscoa convosco” (Lc 22,15). S. Lourenço Justiniano, considerando estas palavras, assevera que foram todas expressões de amor. Como se nosso amante Redentor tivesse dito: ó homens, sabei que esta noite, na qual se dará início à minha paixão, é o tempo pelo qual mais suspirei durante toda a minha vida, porque agora com meus sofrimentos e com minha acerba morte vos farei compreender quanto eu vos amo e assim vos obrigarei a amar-me da maneira mais eficaz que me é possível. Diz um autor que na paixão de Jesus a onipotência divina se uniu com o amor; o amor pretendeu amar o homem com toda a extensão da onipotência e a onipotência procurou satisfazer o amor em toda a extensão de seu desejo. Ó sumo Deus, vós me haveis dado tudo, dando-vos a mim, e como posso deixar de amar-vos com todo o meu ser? Eu creio, sim, eu o creio, que vós morrestes por mim e como posso amar-vos tão pouco, esquecendo-me tão a miúdo de vós e do quanto padecestes por mim! E por que, Senhor, não me sinto todo abrasado no vosso amor, ao pensar na vossa paixão e não me rendo todo a vós, como tantas almas santas, que, considerando vossos sofrimentos, tornaram-se presas felizes de vosso amor e deram-se por inteiro a vós?
5. Dizia a esposa dos Cânticos que, cada vez que seu esposo a introduzia na sagrada cela de sua paixão, se via de tal modo assaltada pelo amor divino, que, desfalecida de amor, era obrigada a buscar alívio ao seu coração ferido: “Introduziu-me em sua adega e ordenou em mim a caridade. Confortai-me com flores, alentai-me com pomos, porque desfaleço de amor” (Ct 2,4). E como é possível que uma alma, pondo-se a considerar a paixão de Jesus Cristo, as dores e a agonia que tanto afligiram o corpo e a alma de seu amado Senhor, não se sinta ferida como por outras tantas setas de amor e docemente forçada a amar a quem tanto o amou? Ó Cordeiro sem mancha, como me pareceis belo e amável quando vos contemplo nessa cruz assim dilacerado, ensangüentado e desfigurado! Sim, porque todas essas chamas que em vós eu vejo, são provas e sinais do grande amor que me tendes. Ah, se todos os homens vos contemplassem nesse estado, em que fostes dado um dia em espetáculo a Jerusalém, quem poderia deixar de sentir-se cativo de vosso amor? Meu amado Senhor, aceitai o meu amor, pois eu vos consagro todos os meus sentido e toda a minha vontade. E como vos poderei negar alguma coisa quando vós não me negastes o vosso sangue, a vossa vida e todo o vosso ser?
6.Tão grande foi o desejo de padecer por nós, que na noite anterior à sua morte não somente seguiu espontaneamente para o horto, onde sabia que os judeus o haviam de prender, mas também disse a seus discípulos, sabendo que Judas, o traidor, já estava próximo com a escolta dos soldados: Levantai-vos, vamos; já está próximo quem me vai trair (Mc 14,42). Quis ele mesmo ir ao seu encontro, como se viessem para conduzi-lo não já ao suplício da morte, mas à coroa de um grande reino. Ó meu doce Salvador, fostes ao encontro da morte com tão ardente desejo de morrer, pelo excessivo anseio que tínheis de ser amado por mim. E eu não desejarei morrer por vós, meu Deus, para testemunhar-vos o amor que vos tenho? Sim, meu Jesus, porto por mim, eu também desejo morrer por vós. Eu vos consagro o sangue, a vida, tudo o que tenho! Eis-me pronto a morrer por vós como e quando vos aprouver. Aceitai este mesquinho sacrifício que vos faz um miserável pecador, que antigamente vos ofendeu, mas agora mais vos ama do que a si mesmo.

7. S. Lourenço Justiniano considera aquele Sítio que Jesus proferiu na cruz ao morrer e diz que essa sede não foi uma sede que provinha da necessidade de água, mas que nascia do fogo do amor que Jesus sentia por nós: Essa sede provinha do ardor da caridade.
Com essa palavra nosso Redentor quer manifestar-nos, mais que a sede do corpo, o desejo que tinha de sofrer por nós, demonstrando- nos o seu amor e juntamente o desejo que sentia de ser amado por nós depois de tantos sofrimentos suportados por nós. E S. Tomás afirma igualmente: Por este Sítio mostra seu ardente desejo de salvação do gênero humano (In Jo 19,1.5). Ah! Deus de amor, é possível que fique sem correspondência um tal excesso de caridade? Costuma-se afirmar que amor com amor se paga, mas com que amor se poderá pagar o vosso amor? Seria necessário que um outro Deus morresse por nós, para compensar o amor que nos testemunhastes, morrendo por nós. Como, pois, Senhor meu, como pudestes afirmar que vossas delícias consistiram em estar com os homens, se deles não tendes recebido senão injúrias e maus tratos? O amor, pois, vos transforma em delícias as dores e os vitupérios que sofrestes por nós.
8. Ó Redentor amabilíssimo, não quero resistir por mais tendo às vossas finezas: eu vos consagro todo o meu amor. Vós sereis entre todas as coisas e haveis de ser sempre o único amor de minha alma. Fizestes-vos homem para ter uma vida que dar por mim e eu desejaria
ter mil vidas para sacrificá-las todas por vós. Eu vos amo, bondade infinita, e quero amar-vos com todas as minhas forças; quero fazer quanto em mim estiver para vos agradar. Vós, inocente, tanto padecestes por mim e eu, pecador, que mereci o inferno, quero sofrer por vós o que vos aprouver. Meu Jesus, auxiliai este meu desejo que vós mesmo me inspirais, pelos vossos merecimentos. Ó Deus infinito, eu creio em vós, em vós eu espero, a vós eu amo. Maria, minha Mãe, intercedei por mim. Amém.

CAPÍTULO V
Do amor que Jesus nos mostrou, deixando-se a si mesmo em comida antes de entregar-se à morte.

1. Sabendo Jesus que era chegada a sua hora de passar deste mundo ao Pai, tendo amado os seus, amou-os até ao fim (Jo 13,1). Nosso amantíssimo Redentor, na última noite de sua vida, sabendo que já era chegado o tempo suspirado de morrer por amor dos homens, não teve ânimo de nos deixar sós neste vale de lágrimas. E para não se separar de nós nem mesmo depois de sua morte, quis deixar-se-nos todo em alimento no Sacramento do altar. Com isto deu-nos a entender que, depois desse dom infinito, não tinha mais o que dar-nos para nos testemunhar o seu amor. Cornélio e Lápide, com S. Crisóstomo e Teofilacto, explica segundo o texto grego a palavra até ao fim e escreve: É como se dissesse: amou-os com um amor supremo e sem limites. Jesus neste sacramento fez o último esforço de amor para o homem, como diz o Abade Guerrico (Serm. de Ascens.). Essa idéia foi ainda mais bem expressa pelo sagrado Concílio de Trento, que, falando do sacramento do altar, disse que nele nosso Salvador derramou, por assim dizer, todas as riquezas de seu amor para conosco. (Sess. 13, c.2). Tinha, pois, razão S.Tomás d’Aquino de chamar este sacramento de sacramento de amor e o maior penhor de amor que um Deus nos podia dar (Op. 18, c. 25). E São Bernardo o chamava amor dos amores. S. Maria Madalena de Pazzi dizia que uma alma depois de comungar pode exclamar: “Tudo está consumado”, já que o meu Deus, tendo-se dado todo a mim nesta comunhão, nada mais tem para comunicar-me. Uma vez perguntou esta santa a uma de suas noviças em que havia pensado depois da comunhão? Respondeu-lhe a noviça: no amor de Jesus. Sim, replicou então a santa, quando se pensa no amor, não se pode ir mais avante, antes é preciso deter-se nele. O Salvador do mundo, que pretendeis dos homens, deixando-vos levar a dar-lhes como ali mento o vosso próprio ser? E que mais vos resta dar-nos, depois deste sacramento para nos obrigar a vos amar? Ah! meu Deus amantíssimo, iluminai-me para que conheça qual foi o excesso de bondade que vos reduziu a vos fazerdes minha comida na santa comunhão. Se, pois, vos destes inteiramente a mim, é justo que eu também me dê todo a vós. Sim, Jesus, eu me dou todo a vós, vos amo acima de todos os bens e desejo receber-vos para vos amar ainda mais. Vinde, sim, vinde muitas vezes à minha alma e fazei-a toda vossa. Ah! se eu pudesse dizer que em verdade como S. Filipe Néri ao receber a comunhão em viático: “Eis aí o meu amor, eis aí o meu amor; dai-me o meu amor.”
2.“Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece em mim e eu nele” (Jo 6,57). S. Dionísio Areopagita diz que o amor tende sempre à união com o objeto amado. E porque a comida se faz uma só coisa com quem a toma, por isso Nosso Senhor quis fazer-se
comida, para que nós, recebendo-o na santa comunhão, nos tornássemos uma só coisa com ele: “Tomai e comei: isto é o meu corpo” (Mt 25,26). Como se quisesse dizer, assevera S. João Crisóstomo: Comeime, para que nos tornemos um só ser (Hom. 15 in Joan), alimenta-te de mim, ó homem, para que de mim e de ti se faça uma só coisa.
Assim como dois pedaços de cera derretidos, diz S. Cirilo Alexandrino, se misturam e confundem, da mesma forma uma alma que comunga se une de tal maneira a Jesus que Jesus está nela e ela em Jesus. Ó meu amado Redentor, exclama S. Lourenço Justiniano, como pudestes chegar e amar-vos tanto e de tal modo unir-vos a vós, que o vosso coração e do nosso não se fizesse senão um só coração? (De div. amor, c. 5). Tinha, pois, razão S. Francisco de Sales de dizer, falando da santa comunhão: O Salvador não pode ser considerado em nenhum outro mistério nem mais amável nem mais terno que neste, no qual se aniquila, por assim dizer, e se reduz a comida para penetrar em nossas almas e unir-se ao coração de seus fiéis: E assim, diz S. João Crisóstomo, nós nos unimos e nos tornamos um corpo e uma carne com aquele em quem os anjos não ousam fixar seus olhares. Que pastor, ajunta o santo, alimenta suas ovelhas com seu próprio sangue? Mesmo as mães dão seus filhos a amas estranhas. Jesus, porém, nesse sacramento nos alimento com o seu próprio sangue e une-se a nós (Hom. 60). Em suma, ele quer fazer-se nosso alimento e uma mesma coisa conosco, porque nos amava ardentemente (Hom. 51).
Ó amor infinito, digno de um infinito amor, quando vos amarei, ó meu Jesus, como vós me amastes? Ó alimento divino, ó sacramento de amor, quando me atraireis todo a vós? não podeis fazer mais para vos fazerdes amar por mim. Eu quero sempre começar a amar-vos, prometo-vos sempre, mas nunca o começo. Quero começar hoje a amar-vos deveras. Ajudai-me, inflamai-me, desprendei-me da terra e não permitais que eu continue a resistir a tantas finezas de vosso amor. Eu vos amo de todo o coração e por isso quero tudo abandonar para vos comprazer, minha vida, meu amor, meu tudo. Quero unir-me muitas vezes convosco neste sacramento, para desprender-me de tudo e amar somente a vós, meu Deus. Espero de vossa bondade poder executá-lo com o vosso auxílio.
3.Temos visto a Sabedoria como que enlouquecida pelo excesso de amor, diz S. Lourenço. E de fato não parece uma loucura de amor, pergunta S. Agostinho, um Deus dar-se em alimento às suas criaturas? (In ps. 33 en. 1). E que mais poderia dizer uma criatura a seu Criador? S. Dionísio Areopagita diz que Deus, por causa da grandeza de seu amor, como que caiu fora de sim, pois, mesmo sendo Deus, se fez não só homem, mas até alimento dos homens (Liv. V de div. Nom. p. 4). Mas tal excesso, Senhor, não convinha à vossa Majestade! Responde por Jesus S. João Crisóstomo: o amor não procura razões quando quer fazer bem e manifestar-se ao objeto amado; vai, não para onde lhe convém, mas para onde o arrasta seu desejo (Sem.147). Ah! meu Jesus, quanto me envergonho ao pensar que, podendo vos possuir, bem infinito, mais digno de amor que todos os outros bens e tão abrasado em amor por minha alma, eu me deixei levar a amar bens vis e mesquinhos, pelos quais vos abandonei. Por favor, ó meu Deus, manifestai-me cada vez mais as grandezas de vossa bondade, para que eu me abrase sempre mais em amor por vós e mais me esforce para vos agradar. Ah! meu Senhor, que objeto mais belo, mais perfeito, mais santo, mais amável que vós posso encontrar para amar? Amo-vos, bondade infinita, amo-vos mais do que a mim mesmo e quero viver para vos amar e vós que mereceis todo o meu amor.
4. S. Paulo considera o tempo, em que Jesus nos presenteou com este sacramento, dádiva que ultrapassa todos os outros dons que um Deus nos podia fazer: (como afirma S. Clemente),o qual sendo onipotente, nada mais tinha depois disso para nos dar, como atesta S. Agostinho. O Apóstolo nota e diz: “O Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão e dando graças o partiu e disse: Tomai e comei, isto é o meu corpo, que será entregue por vós (1Cor 11,23).
Naquela mesma noite, pois, na qual os homens pensavam em preparar a Jesus tormentos e morte, o amante Redentor pensou em deixar-lhes a si mesmo no SS. Sacramento, dando a entender que seu amor era tão grande que, em vez de arrefecer com tantas injúrias, antes mais se acendeu e inflamou com isso. Ah! Senhor amorosíssimo, como pudestes amar tanto os homens, querendo ficar com eles na terra como seu alimento, quando eles vos expulsavam com tanta ingratidão?
Note-se, além disso, o imenso desejo que Jesus teve na sua vida de ver chegar aquela noite em que resolvera deixar-nos esse grande penhor de seu amor, declarando no momento de instituir este dulcíssimo sacramento: Desejei ardentemente comer esta páscoa convosco (Lc 22,15). Estas palavras denunciam o ardente desejo que tinha de unir-se conosco na comunhão, pelo grande amor que por nós sentia, diz S. Lourenço Justiniano. E o mesmo desejo conserva Jesus ainda hoje por todas as almas que o amam. Não se encontra uma abelha, disse ele um dia a S. Mectildes, que se precipite com tanto ímpeto sobre as flores para lhes sugar o mel, como eu me dirijo à alma que me deseja, impelido pela violência de meu amor.
Ó Deus amabilíssimo, não podeis dar-me maiores provas de vosso amor. Agradeço-vos a vossa bondade. Atraí-me, ó meu Jesus, inteiramente a vós: fazei que vos ame de hoje em diante com todo o meu coração e com toda a ternura. Que os outros se contentem de amar-vos só com um amor apreciativo e predominante: sei que com isso vos contentais; eu só me contentarei quando vir que amo com maior ternura que a um amigo, um irmão, um pai e um esposo. E onde poderei encontrar um amigo, um irmão, um pai, um esposo que tanto me ame, como vós me amastes, meu Criador, meu Redentor e meu Deus, que por mim destes o sangue e a vida e ainda a vós mesmo todo inteiro neste sacramento de amor? Amo-vos, pois, ó meu Jesus, com todos os meus afetos, amo-vos mais do que a mim mesmo. Ajudai-me a amar-vos e nada mais vos peço.
5. Diz S. Bernardo que Deus nos amou somente para ser amado por nós (In Cant. serm. 83). E por isso protestou nosso Salvador que ele veio à terra para fazer-se amar: Vim trazer fogo à terra! Oh! Que belas chamas de santo amor não acendeu Jesus nas almas por meio deste diviníssimo sacramento. Dizia o venerável S. Francisco Olímpio, teatino, que nenhuma coisa é tão apta para inflamar os nossos corações a amar o sumo bem como a santa comunhão. Hesíquio chamava a Jesus no SS. Sacramento o fogo divino e S. Catarina viu um dia nas mãos de um sacerdote a Jesus-Sacramento semelhante a uma fornalha de amor, admirando-se de não estar o mundo inteiro abrasado por ela. Segundo o abade Ruperto E S. Gregório Nisseno, o altar é aquela adega onde a alma, esposa de Jesus, se inebria de amor por seu Senhor, de tal modo esquecida da terra que se abrasa docemente e enlanguesce de santa caridade.“Introduziu-me na cela vinária, diz a esposa dos Cânticos, e ordenou em mim a caridade. Conformaime com flores e alentai-me com maçãs, porque desfaleço de amor” (Ct 2,4). Ó amor de meu coração, Santíssimo Sacramento! Oh! se eu me recordasse sempre de vós e me esquecesse de tudo para amar a vós somente, sem interrupção e sem reserva. Ah! meu Jesus, tanto batestes à porta de meu coração que afinal nele entrastes, como eu o espero. Já, porém, que nele entrastes, peço-vos expulseis dele todos os afetos que não tendem para vós. Tomai posse de tal modo de mim que eu possa doravante dizer em toda a verdade com o profeta: “Que tenho eu no céu e, fora de ti, que desejei sobre a terra?... Deus de meu coração e minha partilha, Deus para sempre” (Sl 72,25). Meu Deus, que desejo eu fora de vós nesta terra e no céu? Vós só sois e sempre sereis o único senhor de meu coração e de minha vontade e vós só haveis de ser toda a minha partilha, toda a minha riqueza nesta e na outra vida.
6. Ide, dizia o profeta Isaías, ide e publicai por toda parte as invenções amorosas de nosso Deus, para obrigar os homens a seu amor. “Tirareis água com alegria das fontes do Salvador e direis nesse dia: Louvai o Senhor e invocai o seu nome, fazei conhecidas aos povos as suas invenções” (Is 12,3). E que invenções não achou o amor de Jesus para se fazer amar por nós! Na cruz quis ele abrir-nos nas suas chagas tantas fontes de graças que, para recebê-las, basta o pedi-las com confiança. E não contente com isso quis dar-se todo a
nós no SS. Sacramento. Ó homem, exclama S. João Crisóstomo, por que és tão mesquinho e te mostras tão reservado no amor para com teu Deus, que sem reserva se deu inteiramente a ti? É precisamente no SS. Sacramento, diz o Doutor Angélico, que Jesus nos dá tudo quanto é e quanto tem (Opusc. 63, c. 3). Eis o Deus imenso que o mundo não pode conter, ajunta S. Boaventura, tornado nosso prisioneiro e cativo, quando vem ao nosso peito na sagrada comunhão (In praep. Miss. c. 4). Por isso S. Bernardo, considerando, esta verdade, fora de si de amor, exclamava: O meu Jesus quis fazer-se hóspede inseparável de meu coração. E já que o meu Deus quis entregar-se inteiramente a mim para cativar-me o amor, é justo, concluía, que eu me empregue todo e inteiro em servi-lo e amá-lo.
Ah! meu caro Jesus, dizei-me, que mais vos resta inventar para vos fazerdes amar? E eu continuarei a viver tão ingrato para convosco como o tenho sido até agora? Senhor, não o permitais. Vós dissestes que quem se alimenta de vossa carne na comunhão viverá por virtude de vossa graça:“Quem me comer viverá por mim” (Jo 6,58).Visto, pois, que vos não negais vir a mim na sagrada comunhão, fazei que minha alma viva sempre da verdadeira vida da vossa graça. Arrependo-me, ó sumo bem, de havê-la desprezado na minha vida passada, mas vos agradeço o tempo que me dais para chorar as ofensas que vos fiz. Quero pôr em vós, no restante de minha vida, todo o meu amor e pretendo agradar-vos quanto em mim estiver. Socorrei-me, ó meu Jesus, não me abandoneis. Salvai-me por vossos merecimentos, e minha salvação consista em amar-vos sempre nesta vida e na eternidade. Maria, minha Mãe, ajudai-me também vós.

CAPÍTULO VI
Do suor de sangue e agonia de Jesus no horto

1. Contemplai como o nosso amorosíssimo Salvador, chegando ao jardim de Getsêmani, quis dar começo à sua dolorosa paixão, permitindo que os sentimentos de temor, de tédio e de tristeza viessem afligi-lo com todas as suas conseqüência. Começou a ter pavor e angustiar-se e entristecer-se (Mt 26,37; Mc 14,33). Começou primeiramente a sentir um grande temor da morte e das penas que teria em breve de sofrer: Começou a atemorizar-se. Mas como é isso possível? Não foi então ele que se ofereceu espontaneamente a sofrer tais tormentos? Foi sacrificado porque ele mesmo o quis. Não foi ele que tanto desejara o momento de sua paixão, tendo dito pouco antes: Desejei ardentemente comer esta páscoa convosco? E agora como é que está tão cheio de temor de sua morte, que chega a rogar a seu Pai que dela o livre: Meu Pai, se for possível, afastai de mim este cálice? (Mt 26,39). S. Beda, o Venerável, responde: Pede se afaste o cálice para mostrar que é verdadeiramente homem (In Mc 14). Nosso amantíssimo Senhor muito desejava morrer por nós, para com sua morte patentear-nos o amor que nos tinha; mas, para que os homens não pensassem que ele tinha tomado um corpo fantástico (como o afirmaram alguns hereges) ou então por virtude de sua divindade ele tivesse morrido sem experimentar nenhuma dor, fez essa súplica a seu Pai, não para ser atendido, mas para nos dar a entender que morria como homem e morria atormentado com um grande temor da morte e das dores que a deviam acompanhar.
Ó Jesus amabilíssimo, quisestes tomar sobre vós a nossa timidez para nos conceder a vossa coragem no sofrer os trabalhos desta vida. Sede bendito para sempre por tanta piedade e amor. Que todos os corações vos amem quanto vós o desejais e mereceis.
2. Começou a angustiar-se. Começou também a sentir um grande tédio das penas que lhe estavam aparelhadas. Quando se está desgostoso, até as delícias enfastiam. Oh! quantas angústias inseparáveis de tal tédio não deveria causar a Jesus o horrendo aparato que então lhe passou pela mente, de todos os tormentos exteriores, que deveria martirizar horrendamente seu corpo e sua alma bendita! Apresentaram-se distintamente diante de seus olhos todas as dores que deveria sofrer, todos os escárnios que deveria receber dos judeus e dos romanos, todas as injustiças que lhe fariam os juízes de sua causa, e de modo particular se lhe apresentou à mente a morte dolorosíssima que teria de suportar, abandonado de todos, dos homens e de Deus, num mar de dores e de desprezos. E foi justamente isso que lhe ocasionou um desgosto tão amargo que o obrigou a pedir conforto a seu Pai eterno. Ah! meu Jesus, eu me compadeço de vós, vos agradeço e vos amo.
3. Apareceu-lhe então um anjo do céu que o confortou (Lc 22,43). Veio o conforto, mas este mais aumenta do que lhe alivia a dor, diz S. Beda. Sim, porque o anjo o confortou para padecer mais por amor dos homens e para glória de seu Pai. Oh! quantas angústias vos causou este vosso primeiro combate, ó meu amado Senhor! No decorrer de vossa paixão, os flagelos, os espinhos, os cravos vieram uns após outros atormentar-vos; no horto, porém, os sofrimentos de toda a vossa paixão vos assaltam todos juntos e vos afligem ao mesmo tempo. E vós aceitastes tudo por meu amor e por meu bem. Ah! meu Deus, quanto me penaliza não vos haver amado pelo passado e ter anteposto os meus gostos criminosos à vossa santa vontade. Detesto-os agora mais que todos os males e me arrependo de todo o coração. Jesus, perdoai-me!
4. Começou a entristecer-se e a magoar-se. Com o temor e com o tédio, começou Jesus a sentir ao mesmo tempo uma grande melancolia e aflição de espírito. Mas, Senhor, não fostes vós que infundistes tão grande alegria aos vossos mártires no meio dos tormentos, que chegavam até a desprezar os sofrimentos e a morte? De S. Vicente diz S. Agostinho que falava com tanta alegria ao ser martirizado, que parecia ser um o que padecia e outro o que falava. Narra-se de S. Lourenço que, ardendo nas grelhas, era tão grande a consolação que sentia em sua alma, que insultava o tirano, dizendo: “Vira-me e come”. Como é que vós, ó meu Jesus, que destes tanta alegria aos vossos servos na morte, escolhestes para vós uma tristeza tão grande ao morrer?
5. Ó alegria do paraíso, que alegrais o céu e a terra com o vosso júbilo, por que vos vejo agora tão aflito e tão triste, e vos ouço dizer que a tristeza que vos aflige é suficiente para dar-vos a morte? “Minha alma está triste até à morte” (Mc 14,34). Por que, meu Redentor?
Ah! já vos compreendo: não foram tanto os sofrimentos de vossa paixão, quanto os pecados dos homens, entre estes os meus, que vos causaram então aquele grande temor da morte.
6. Tanto o Verbo eterno amava seu Pai quanto odiava o pecado, do qual bem conhecia a malícia. Por isso, para tirar o pecado do mundo e para não ver mais seu amado Pai ofendido, ele veio à terra e fez-se homem e resolveu sofrer uma paixão e uma morte tão dolorosa. Vendo, porém, que, apesar de todas as suas penas, ainda se cometeriam tantos pecados no mundo, esta dor, diz S. Tomás , superou toda a dor que qualquer penitente jamais sentiu por suas próprias culpas e excedeu igualmente qualquer pena que possa afligir um coração humano. E a razão é que todos os sofrimentos dos homens são sempre misturados de alguma consolação; mas a dor de Jesus foi pura, sem lenitivo. Suportou a dor pura sem mistura de nenhuma consolação (Contens. 1.10, d. 4,c. 1). Ah, se eu vos amasse, se eu vos amasse, ó meu Jesus, vendo o quanto padecestes por mim, doces se me tornariam todas as dores, todos os opróbrios e os maus tratos deste mundo. Concedei-me, peço-vos, o vosso amor, para que sofra com gosto ou ao menos com paciência o pouco que me é dado sofrer. Não permitais que eu morra tão ingrato a tantas finezas de vosso amor. Nas tribulações que me sobrevierem, proponho dizer sempre: Meu Jesus, abraço estes sofrimentos por vosso amor e os quero suportar para vos comprazer.
7. Na história lê-se que muitos penitentes, iluminados pela luz divina sobre a malícia de seus pecados, chegaram a morrer de puro dor. Que tormento, portanto, deveria suportar o coração de Jesus à vista de todos os pecados do mundo, todas as blasfêmias, sacrilégios, desonestidades e de todos os outros crimes cometidos pelos homens depois de sua morte, dos quais cada um vinha com sua própria malícia, à semelhança de uma fera cruel, lacerar-lhe o coração. Vendo isto, dizia então nosso aflito Senhor, agonizando no horto: É esta, então, ó homens, a recompensa que vós me dais pelo intenso amor meu? Oh! se eu visse que vós, gratos ao meu afeto, deixaríeis de pecar e começaríeis a amar-me, com que alegria iria agora morrer por vós. Mas ver, depois de tantos sofrimentos meus, ainda tantos pecados; depois de tão grande amor meu, ainda tantas ingratidões, é isto justamente o que mais me aflige, me entristece até à morte e me faz suar sangue vivo: “E seu suor tornou-se em gotas de sangue que corria até a terra” (Lc 22,44). No dizer do Evangelista, este suor sangüíneo foi tão copioso que primeiro molhou todas as vestes do Redentor e depois correu em abundância sobre a terra.
8. Ah! meu terno Jesus, eu não vejo neste horto nem flagelos nem espinhos, nem cravos que vos firam, e como é que vos vejo todo banhado em suor de sangue da cabeça aos pés? Foram os meus pecados a prensa cruel que, à força de aflições e tristeza, fez jorrar tanto sangue de vosso coração. Também eu fui então um dos vossos mais cruéis carnífices, ajudando com os meus pecados a atormentar-vos mais cruelmente. Certo é que se eu houvesse pecado menos, menos teríeis padecido, ó meu Jesus. Quanto maior foi o meu prazer em ofender-vos, tanto maior foi a aflição que vos causei ao vosso coração magoado. E como este pensamento não me faz agora morrer de dor, ao compreender que paguei o amor, que testemunhastes na vossa paixão, aumentando vossa tristeza e vossas penas? Fui eu quem atormentou esse tão amável e amoroso coração que tanto me amou! Senhor, como agora não possuo outro meio para vos consolar que arrependendo-me de vos haver ofendido, aflijo-me e arrependo-me de todo o meu coração, ó meu Jesus. Dai-me uma dor tão grande que me faça chorar continuamente até último suspiro de minha vida os desgostos que vos dei, meu Deus, meu amor, meu tudo.
9. Prostrou-se com o rosto por terra (Mt 26,39). Vendo-se Jesus sobrecarregado com a incumbência de satisfazer pelos pecados do mundo inteiro, prostrou-se com a face em terra para suplicar pelo homem, como se se envergonhasse de levantar os olhos para o céu ao ver-se sob o peso de tantas iniqüidades. Ah! meu Redentor, eu vos vejo todo aflito e pálido por vossos sofrimentos e, numa agonia mortal, rezais: Posto em agonia rezava com mais instância (Lc 22,43).Dizei-me por quem orais? não foi tanto por vós que então suplicastes,
mas sim por mim, oferecendo ao Eterno Pai vossas poderosas súplicas unidas às vossas penas, para obter-me o perdão de minhas culpas. “O qual, nos dias de sua mortalidade, oferecendo com grande clamor e com lágrimas e súplicas àquele que o podia salvar da morte, foi atendido pelo seu submisso respeito” (Hb 5,7). Ah! meu Redentor, como pudestes amar tanto a quem tanto vos ofendeu? Como pudestes aceitar tantos sofrimentos por mim, conhecendo já então a ingratidão com que vos haveria de tratar?
10. Ó meu Senhor afligido, fazei que eu participe da dor que então sentistes pelos meus pecados. Eu os detesto no presente e uno este meu arrependimento ao pesar que sentistes no horto. Ah! Meu Salvador, não olheis para meus pecados, pois não me bastaria o inferno; olhai para os sofrimentos que suportastes por mim. Ó amor de meu Jesus, sois o meu amor e minha esperança. Senhor, eu vos amo com toda a minha alma e quero amar-vos sempre. Pelos merecimentos daquela angústia e tristeza que sofrestes no horto, dai-me fervor e coragem nas empresas para vossa glória. Pelos merecimentos de vossa agonia, dai-me força para resistir a todas as tentações da carne e do inferno. Dai-me a graça de me recomendar sempre a vós e de repetir sempre com Jesus Cristo: Não o que eu quero, mas sim o que vós quereis. Não se faça a minha, mas sempre a vossa divina vontade. Amém.

CAPÍTULO VII

Do amor de Jesus em sofrer tantos desprezos em sua paixão

1. Diz Belarmino que os espíritos nobres sentem mais com os desprezos que com as dores do corpo, pois se estas afligem a carne, aqueles atormentam a alma, a qual, sendo mais nobre que o corpo, tanto mais sente as ofensas que lhe são feitas. Mas quem poderia imaginar que a personagem mais nobre do céu e da terra, o Filho de Deus, vindo a este mundo por amor dos homens, tivesse de suportar deles tantos vitupérios e injúrias, como se fosse o último e o mais vil dos homens.“Nós o vimos desprezado e como o último dos homens” (Is 53,2). Assevera S. Anselmo que Jesus Cristo quis sofrer tantos e tão grandes desprezos que não podia ser mais humilhado do que o foi na sua paixão (In Fl 2). Ó Senhor do mundo, sois o maior de todos os reis e quisestes ser desprezado mais que todos os homens para ensinar-me a amar os desprezos. Já, pois, que sacrificastes a vossa honra por meu amor, quero sofrer por vosso amor todas as afrontas que me forem feitas.
2. E houve também uma espécie de afrontas que não sofresse na sua paixão o Redentor? Foi afligido por seus próprios discípulos. Um deles o atraiçoa e o vende por trinta dinheiros; um outro o renega mais vezes, protestando publicamente não o conhecer, atestando com isso envergonhar-se de o haver anteriormente conhecido. Os outros discípulos, vendo-o preso e ligado, fogem e o abandonam (Mc 14,50). Ó meu Jesus abandonado, quem tomará a vossa defesa se, no começo de vossa prisão, que vos são mais caros vos abandonam e fogem? E afinal, ó meu Deus, essa afronta não terminou com a vossa Paixão. Quantas almas, depois de se haverem dedicado ao vosso seguimento e serem favorecidas por vós com muitas graças e sinais especiais de amor, arrastadas por alguma paixão de vil interesse ou de loucos prazeres, vos abandonaram com ingratidão? Quem se encontrar ao número desses ingratos, diga gemendo: Ah! meu caro Jesus, perdoai-me que não quero mais abandonar-vos; prefiro perder mil vezes a vida a perder a vossa graça, ó meu Deus, meu amor, meu tudo.
3. Chegando Judas ao horto juntamente com os soldados, dirige-se para o mestre, abraça-o, beija-o. Jesus deixa-se beijar, mas, conhecendo seu pérfido desígnio, não pode deixar de se lhe queixar de sua pérfida traição, dizendo-lhe: Judas, é com um ósculo que entregas o Filho do homem? (Lc 22,48). E logo os insolentes ministros, seus comparsas, atropelam Jesus, põem-lhe a mão e o prende como a um malfeitor: Os ministros dos judeus prenderam a Jesus e o ligaram (Jo 18,12). Céus, que vejo? Um Deus preso: por quem? Pelos homens, por vermes criados por ele mesmo. Que dizeis isso , ó anjos do paraíso? Que têm convosco, pergunta S. Bernardo, as cadeias dos escravos e dos réus, convosco, que sois o Santo dos santos, o Rei dos reis e o Senhor dos senhores? (De Pass. c. 4). Mas se os homens vos prendem, por que vos não desligais e vos livrais dos tormentos e da morte que estes vos preparam? Eu o compreendo, não são tanto essas cordas que vos ligam, é o amor que vos prende e vos obriga a padecer e morrer por nós. “Ó caridade, quão fortes são os teus vínculos que prendem o próprio Deus, diz S. Lourenço Justiniano (Lg. vit. c. 6). Ó amor divino, só vós pudestes prender um Deus e conduzi-lo à morte por amor dos homens.
4. Contempla, ó homem, como esses cães arrastam sua vítima, diz S. Boaventura, e como ele os segue sem resistência como um mansíssimo cordeiro. Um o agarra, outro o liga; um o empurra e o outro o fere (Med. vit. Chr. c. 75). Preso, é nosso doce Salvador conduzido primeiramente à casa de Anás, depois à de Caifás, onde Jesus, sendo interrogado por esse malvado a respeito de seus discípulos e de sua doutrina, responde que não havia falado em segredo mas publicamente e que os mesmos que ali estavam presentes sabiam perfeitamente o que havia ensinado (Jo 18,20). A tal resposta um daqueles ministros, tratando-o de temerário, deu-lhe uma forte bofetada. Aqui exclama S. Jerônimo: Ó anjos do céu, como podeis guardar silêncio? será que tão grande paciência vos tornou mudos?
Ah, meu Jesus, como é que uma resposta tão justa e tão modesta podia merecer uma afronta tão grande na presença de tanta gente? O indigno pontífice, em vez de repreender a insolência daquele atrevido, o louva ou ao menos dá-lhe sinais de aprovação. E vós, meu
Senhor, sofreis tudo para pagar as afrontas que eu, miserável, tenho feito à divina Majestade com os meus pecados. Eu vos agradeço, ó meu Jesus! Eterno Padre, perdoai-me pelos merecimentos de Jesus.
5. Em seguida, o iníquo pontífice perguntou-lhe se ele era realmente o Filho de Deus: “Conjuro-vos pelo Deus vivo para que vos digais se sois vós o Cristo, Filho de Deus” (Mt 26,63). Jesus, por respeito ao nome de Deus, afirmou ser isso a verdade e então Caifás rasgou as vestes, dizendo que ele havia blasfemado. Todos gritaram então que ele merecia a morte. Sim, com razão, ó meu Jesus, eles vos declararam réu de morte, pois quisestes vos encarregar de satisfazer por mim, que merecia a morte eterna. Mas se com vossa morte me adquiristes a vida, é justo que eu empregue minha vida inteira e se necessário for a sacrifique por vós e vosso amor: socorrei-me coma vossa graça.
6.“Cuspiram-lhe então no rosto e deram-lhe bofetadas” (Mt 26,67). Depois de o julgarem digno de morte, como um homem já condenado ao suplício e declarado infame, aquela canalha pôs-se a maltratá-lo durante toda a noite com bofetadas, com golpes, com pontapés,
arrancando-lhe a barba, cuspindo-lhe no rosto, motejando dele como dum falso profeta, dizendo-lhe: “Adivinha, ó Cristo, quem te bateu?” Tudo já predissera nosso Redentor por Isaías: “Entreguei meu corpo aos que me feriam e minha face aos que a laceravam; não desviei o rosto dos que me injuriavam e me cobriam de escarros” (Is 50,6). Diz o devoto Tauler ser opinião de S. Jerônimo que só no dia do juízo final serão conhecidas todas as penas e injúrias que Jesus sofreu naquela noite. S. Agostinho, falando das ignomínias sofridas por Jesus Cristo, diz: Se este remédio não curar a nossa soberba, não sei o que há de curá-la (Serm. 1 in dom. 2 quadr.) Ah, meu Jesus, vós tão humilde e eu tão soberbo! Senhor, dai-me luz, fazei-me conhecer quem sois vós e quem sou eu. Então suspiram-lhe no rosto! Ó Deus, que maior afronta, que ser injuriado com escarros! O último dos ultrajes é receber escarros, diz Orígenes. Onde se costuma escarrar, senão em lugares sórdidos? E vós, meu Jesus, sofreis escarros no rosto. Esses iníquos vos o maltratam com bofetadas e pontapés, vos injuriam e cospem no vosso rosto, fazem convosco o que querem e não os ameaçais, nem os reprovais: “O qual, sendo amaldiçoado, não amaldiçoava, sendo maltratado, não ameaçava, mas entregava-se àquele que o julgava injustamente” (1Pd 2,23). Como um cordeiro inocente, humilde e manso, tudo suportastes sem nenhum lamento, oferecendo tudo ao vosso Pai para nos obter o perdão de nossos pecados: “Como um cordeiro diante do que o tosquia, emudecerá e não abrirá sua boa” (Is 53,7). S. Gertrudes, meditando uma vez sobre as injúrias feitas a Jesus na sua paixão, pôs-se a louvá-lo e abençoá-lo; o Senhor com isso ficou tão satisfeito, que lho agradeceu amorosamente. Ah, meu Senhor ultrajado, sois o rei dos céus, o Filho do Altíssimo, não deveríeis ser maltratado, mas adorado e amado por todas as criaturas. Eu vos bendigo e dou-vos graças, amo-vos de todo o meu coração, arrependo-me de vos ter ofendido; ajudai-me e tende compaixão de mim.
7.Tendo amanhecido, os judeus conduziram Jesus a Pilatos, para que fosse condenado à morte. Pilatos declara-o inocente: “Não encontro nenhuma culpa neste homem” (Lc 23,4). E para ver-se livro dos insultos dos judeus, que continuavam a exigir a morte do Salvador,
o envia a Herodes. Muito se alegrou Herodes por ter Jesus em sua presença, esperando que, para livrar-se da morte, haveria de fazer diante dele algum dos muitos prodígios de que ouvira falar. Fez- lhe por isso muitas perguntas. Mas Jesus, porque não queria livrar-se da morte, haveria de fazer diante dele algum dos muitos prodígios de que ouvira falar. Fez-lhe por isso muitas perguntas. Mas Jesus, porque não queria livra-se porque aquele malvado não merecia resposta, cala-se e não responde. Então esse rei soberbo o desprezou com toda a sua corte e, cobrindo-o com uma veste branca, para mostrar que o considerava um ignorante e insensato, o reenviou a Pilatos (Lc 23,11). O cardeal Hugo diz: Zombando dele como de um louco, vestiu-lhe uma túnica. E S. Boaventura: Desprezou-o como inepto, porque não fez milagres; como ignorante, porque não respondeu uma única palavra; como louco, porque se não defendeu.
Ó Sabedoria eterna, ó Verbo divino, só vos faltava essa ignomínia de ser tratado de louco, privado de senso. Tanto vos interessa a nossa salvação, que por nosso amor quereis não só ser vituperado, mas saciado de vitupérios, como já profetizara a vosso respeito Jeremias: “Apresentará a face a quem o esbofetear e ficará saciado de opróbrios” (Lm 3,30). E como podeis amar tanto os homens, dos quais só ingratidões e desprezos recebeis? Ai de mim, que sou um desses que vos ultrajou mais do que Herodes. Ah, meu Jesus, não me castigueis como a Herodes, privando-me da vossa voz. Herodes não vos reconhecia por quem sois, eu vos proclamo meu Deus; Herodes não vos amava, eu vos amo mais do que a mim mesmo. Por isso não me recuseis as vozes das inspirações como eu merecia pelas ofensas que vos fiz. Dizei o que quereis de mim, que eu, com a vossa graça, estou pronto a executá-lo.
8. Reconduzido Jesus a Pilatos, o governador o apresentou ao povo, para saber a quem queriam libertar nessa páscoa, se a Jesus ou a Barrabás, o homicida. Mas o povo gritou: Não este, mas Barrabás. Ao que perguntou Pilatos: Que farei então de Jesus? Responderam:
Crucifica-o. Que mal, porém, praticou este inocente? interroga Pilatos. Ao que replicam: Seja crucificado. Ó Deus! até agora a maior parte dos homens continua a dizer: Não este, mas Barrabás, preferindo a Jesus Cristo um prazer sensual, um ponto de honra, um desabafo de cólera.
Ah, meu Senhor, vós bem sabeis que houve um tempo em que vos fiz as mesmas injúrias, quando vos pospus aos meus malditos prazeres. Meu Jesus, perdoai-me, que eu me arrependo de meu passado e de hoje em diante quero preferir-vos a todas as coisas. Eu vos
estimo e vos amo acima de todos os bens; prefiro mil vezes morrer a abandonar-vos. Dai-me a santa perseverança, dai-me o vosso amor.
9. Falaremos depois dos outros opróbrios que Jesus Cristo teve de sofrer até morrer numa cruz: suportou a cruz, desprezando a ignomínia (Hb 12,2). Consideremos, entretanto, como em nosso Redentor se realizou perfeitamente o que dissera o Salmista, isto é, que ele se tornaria na sua paixão o opróbrio dos homens e o ludíbrio da plebe: “Eu sou um verme e não um homem, o opróbrio dos homens e a abjeção da plebe” (Sl 21,7), chegando a morrer coberto de vergonha, justiçado pela mão do carrasco num patíbulo, como um malfeitor, no
meio de dois celerados: “E foi posto no número dos malfeitores” (Is 53,12).
Ó Senhor altíssimo, tornado o mais baixo de todos os homens, exclama S. Bernardo; ó excelso tornado vil, ó glória dos anjos tornada o opróbrio dos homens!
10. Ó graça, ó força do amor de um Deus, continua S. Bernardo (Serm. de pass. Dm.). É assim que o senhor supremo de todos se fez o ínfimo de todos! E quem fez isto? O amor. Tudo fez o amor que Deus consagra aos homens, para nos patentear quanto ele nos ama e ensinar-nos com seu exemplo a sofrer pacientemente os desprezos e as injúrias. “Cristo padeceu por nós, diz S. Pedro, deixando-vos o exemplo para que sigais os meus vestígios (1Pd 2,21). Eleazar, perguntado por sua esposa como podia suportar com tanta paciência as injúrias que lhe eram feitas, respondeu: Eu me ponho a considerar Jesus desprezado e confesso que minhas afrontas nada são em comparação com as que ele, sendo meu Deus, quis suportar por amor de mim.Ah, meu Jesus, e como é que eu, à vista de um Deus tão ultrajado por meu amor, não sei suportar o mínimo desprezo por vosso amor? Pecador e soberbo! Donde, Senhor, me pode vir este orgulho?
Ah! pelos merecimentos dos desprezos que sofrestes, dai-me a graça de suportar com paciência e alegria as afrontas e injúrias. Proponho de agora em diante com o vosso auxílio não mostrar mais ressentimento e receber com alegria todas as injúrias que me forem feitas.Outros desprezos mereci eu, que desprezei a vossa divina majestade e por isso mereci os desprezos do inferno. Vós, meu amado Redentor, me fizestes mui doces e amáveis as afrontas, abraçando tantos desprezos por meu amor. Proponho, além disso, para vos comprazer, beneficiar quanto puder quem me desprezar ou pelo menos dizer bem dele e rezar por ele. E agora vos suplico encher de graças aqueles de quem recebi alguma injúria. Eu vos amo, bondade infinita, e quero amar-vos sempre quanto eu puder. Amém.

CAPÍTULO VIII
Da flagelação de Jesus Cristo

1. Entremos no pretório de Pilatos, convertido em horrendo teatro de ignomínias e dores de Jesus, e consideremos quanto foi injusto,ignominioso e cruel o suplício que aí sofreu o Salvador do mundo.Vendo Pilatos que os judeus continuavam a bradar contra Jesus, injustissimamente o condenou a ser flagelado: “Então Pilatos tomou a Jesus e mandou açoitá-lo” (Jo 19,1). Pensou esse iníquo juiz que com esse bárbaro tratamento despertaria a compaixão dos inimigos e o livraria da morte: “Eu o mandarei punir e depois o soltarei” (Lc 23,22). Era a flagelação castigo reservado só aos escravos. Nosso amoroso Redentor, diz S. Bernardo, não só quis tomar a forma de escravo, sujeitando-se à vontade de outrem, mas a de um mau escravo, para ser castigado com açoites e assim pagar a pena merecida pelo homem feito escravo do pecado (Sem. de pass. Dm.).
Ó Filho de Deus, ó grande amante de minha alma, como pudestes vós, Senhor de infinita majestade, amar tanto um objeto tão vil e ingrato como eu sou, submetendo-vos a tantas para livrar-me do castigo merecido? Um Deus flagelado! Causa mais espanto um Deus sofrer o mais insignificante golpe do que os homens todos e todos os anjos serem destruídos e aniquilados. Ah, meu Jesus, perdoai-me as ofensas que vos fiz e castigai-me então como vos aprouver. Uma só coisa desejo: é amar-vos e ser amado por vós e declaro-me então pronto a sofrer todas as penas que quiserdes.
2. Chegado que foi ao pretório nosso amável Salvador, segundo a revelação de S. Brígida (1. c., c. 70) ele mesmo se despojou de suas vestes ao mando dos algozes, abraçou a coluna e entregou as mãos para serem ligadas. Ó céus, já se dá início ao cruel tormento! Ó anjos do céu, vinde assistir a este doloroso espetáculo e se não podeis livrar vosso Rei desse bárbaro ultraje, que os homens lhe fazem, vinde ao menos chorar de compaixão. E tu, minha alma, imagina-te presente a esta horrenda carnificina de teu amado Redentor. Contempla como teu aflito Jesus está com a cabeça baixa, olhando para a terra, e, todo confuso pela vergonha, espera por esse horrendo tormento. E eis que os bárbaros, como outros tantos cães raivosos, arremetem com seus açoites contra o inocente cordeiro. Ah! este bate-lhe no
peito, aquele fere-lhe os ombros; um fustiga-lhe as ilhargas, outro golpeia-lhe as pernas: mesmo sua sagrada cabeça e sua bela face não ficam livres de pancadas. Já corre o divino sangue de todas as partes: já estão embebidos de sangue os azorragues, as mãos dos algozes, a coluna e a terra. “Todo o seu corpo é rasgado pelos açoites:ora os ombros, ora as pernas, são atingidas; chagas acrescentam-se a chagas e golpes a novos golpes” (De ch. ag. c. 14). Ah, cruéis, por quem o tomais? Cessai, cessai, sabei que vos enganastes. Esse homem a quem supliciais é inocente e santo: eu sou réu; a mim, que pequei, pertencem os açoites e os tormentos. Mas vós, Eterno Pai, como podeis sofrer essa grande injustiça? Como podeis suportar que vosso Filho querido assim padeça? e não o socorreis? que delito cometeu ele para merecer um castigo tão vergonhoso e tão cruel?
3. “Eu o castiguei por causa dos crimes de meu povo” (Is 53,8). Muito bem eu sei, afirma o Padre Eterno, que meu Filho é inocente; visto, porém, que ele se ofereceu para satisfazer a minha justiça por todos os pecados dos homens, convém que eu o abandone ao furor de seus inimigos. Ó meu adorável Salvador, vós, para pagar os nossos delitos e em especial os pecados de impureza (que é o pecado mais comum entre os homens), quisestes que fosse dilacerada vossa carne puríssima. Quem não exclamará com S. Bernardo: “Ó caridade incompreensível do Filho de Deus para com os homens!” Ah, meu Senhor flagelado, agradeço-vos tão grande amor e arrependo-me de ter-me unido eu também, com os meus pecados, aos vossos algozes. Eu detesto, ó meu Jesus, a todos esses prazeres depravados que vos ocasionaram tantas dores. Oh! há quantos anos deveria estar queimando no inferno. Por que me esperaste até agora com tanta paciência? Vós me suportastes para que afinal, vencido por tantas finezas de amor, me rendesse ao vosso amor e deixasse o pecado. Meu amado Redentor, não quero resistir por mais tempo ao vosso afeto: quero amar-vos para o futuro quanto em mim estiver. Vós, porém, já conheceis a minha fraqueza, e as traições com que vos tratei: desprendei-me de todas as afeições terrenas que me impedem ser todo vosso; trazei-me continuamente à memória o amor que me consagrastes e a obrigação que tenho de amar-vos. Em vós ponho todas as minhas esperanças, meu Deus, meu amor, meu tudo.
4. Gemendo, exclama S. Boaventura: “Corre o sangue divino e as chagas sucedem-se às chagas e as fraturas às fraturas” (Med. vit. Chr. c. 76). Por toda parte escorria o sangue divino e seu corpo sagrado tornara-se uma única chaga, mas aqueles cães furiosos não cessavam de ajuntar feridas sobre feridas, como predissera o Profeta:“E sobre a dor de minhas chagas acrescentaram novas chagas” (Sl 68,27). Os azorragues não só cobriam de feridas seu corpo inteiro, como também arrancavam pedaços de carne, ficando essas carnes
sagradas (totalmente rasgadas, podendo-se contar todos os ossos (Contens. 1. 10, d. 4, c. 1). Diz Cornélio a Lápide que nesse tormento Jesus Cristo deveria naturalmente morrer: quis, porém, com sua virtude divina conservar a vida, a fim de sofrer penas ainda maiores por nosso amor. Já S. Lourenço Justiniano havia afirmado a mesma coisa. Ah, meu amantíssimo Senhor, digno de um amor infinito, tanto sofrestes para que eu vos amasse! Não permitais que, em vez de vos amar, venha ainda a vos ofender e desgostar-vos. Mereceria um inferno à parte, se, depois de ter conhecido o amor que dedicastes, me condenasse miseravelmente, desprezando um Deus vilipendiado, insultado e flagelado por mim e que, além disso, me perdoou tão compassivamente depois de havê-lo ofendido tantas vezes. Ah, meu Jesus, não permitais. Ó Deus, o amor e a paciência que me mostrastes constituiriam no inferno um outro inferno para mim.
5. Este tormento da flagelação foi um dos mais cruéis para o nosso Redentor, porque foram muitos os algozes que o flagelaram, pois, segundo a revelação feita a S. Maria Madalena de Pazzi, foram uns sessenta (Vita c. 6). Ora, estes, instigados pelo demônio e ainda mais pelos sacerdotes, que temiam que Pilatos depois desse castigo pusesse o Senhor em liberdade, como já afirmara dizendo: “Castigá-lo-ei e pô-lo-ei em liberdade”, assentaram tirar-lhe a vida com os açoites. Acordam todos os doutores com S. Boaventura que escolheram para esse serviço os instrumentos mais bárbaros, de maneira que cada golpe abria uma chaga, como diz S. Anselmo, chegando os golpes a milhares, porque, segundo o Padre Crasset, a flagelação foi feita conforme o uso dos romanos e não dos judeus, aos quais era proibido ultrapassar o número de quarenta vergastadas (Dt 25,3).
O historiador Flávio José, que viveu pouco depois de Nosso Senhor, diz que Jesus foi de tal maneira dilacerado na flagelação, que foram postas a descoberto as suas costelas. O mesmo foi revelado à S. Brígida pela Santíssima Virgem: “Eu, que estava presente, vi seu corpo flagelado até às costas, de modo que eram visíveis suas costelas. E o mais doloroso era que, ao retraírem-se, os azorragues vinham com pedaços de carne”. (Lib. I revel., c. 10). Apareceu Jesus flagelado a S. Teresa. Quis a santa vê-lo retratado tal que lhe aparecera e disse ao pintor que representasse no braço esquerdo um grande retalho de carne pendente. Mas de que maneira devo pintá-lo? Perguntou o pintor. Voltando-se então para o quadro, viu-o com o retalho já pronto. Ah, meu Jesus amado e adorado, quanto padecestes por meu amor! Ah, que não sejam perdidas para mim tantas dores e tanto sangue!

6. Mas das mesmas Escrituras se deduz quanto foi desumana a flagelação de Jesus Cristo. Por que foi que Pilatos, depois da flagelação, o mostrou ao povo, dizendo: “Eis aqui o homem”, senão porque nosso Salvador estava reduzido a uma figura tão digna de compaixão, que ele só com o apresentar ao povo julgava mover à compaixão até seus mesmos inimigos, levando-os a não exigirem mais a sua morte? Por que foi que, ao subir Jesus ao Calvário, as mulheres judias o acompanharam com lágrimas e lamentos? (Lc 23,27). Talvez porque essas mulheres o amavam e o julgavam inocente? Não, as mulheres comumente seguem os sentimentos de seus maridos e por isso também elas o tinham como réu. O motivo era que Jesus, depois da flagelação, oferecia um aspecto tão lastimoso e deplorável, que movia às lágrimas até os que o odiavam. Por que foi que nesse mesmo caminho os judeus lhe tiraram a cruz dos ombros e a deram a Simão para carregar? Segundo se deduz claramente de S. Mateus: “A este constrangeram para que levasse a cruz de Jesus” (Mt 27,32) e de S. Lucas: “E puseram-lhe a cruz para que a levasse após Jesus” (Lc 23,26), fizeram eles isso, talvez, por piedade para com Jesus e porque queriam aliviar-lhe a pena? Não, pois esses iníquos odiavam-no e procuravam afligi-lo o mais possível. Mas, como afirma o B. Dionísio Cartusiano, temiam que lhes morresse no caminho. Vendo que Nosso Senhor perdera na flagelação quase todo o sangue e que estava tão privado de forças que quase não podia mais ter-se em pé, caindo por isso debaixo da cruz ao longo do caminho e a cada passo, por assim dizer, exalando um último suspiro, foram constrangidos a obrigar a Cireneu a levar a cruz, visto que o queriam vivo no Calvário e pregado na cruz, como haviam resolvido, para que seu nome ficasse para sempre inflamado. “Arranquemo-lo da terra dos vivos e seu nome não seja mais recordado”, segundo a predição do Profeta (Jr 11,19). Ah, Senhor, grande é a minha alegria sabendo quanto me tendes amado e que conservais por mim o mesmo amor que me tínheis no tempo de vossa paixão. Mas quão grande é a minha dor ao pensar que ofendi a um Deus tão bom. Pelos merecimentos de vossa flagelação, ó meu Jesus, vos suplico o meu perdão. Arrependo-me de vos haver ofendido e proponho antes de morrer que novamente vos ofender. Perdoai-me todas as ofensas que vos fiz e dai-me a graça de o futuro amar-vos sempre.
7. O profeta Isaías pinta-nos, mais claramente que todos os outros, o estado lastimoso a que foi reduzido nosso Redentor. Afirmou que sua santíssima carne na paixão não só seria toda dilacerada, mas também toda triturada e despedaçada (Is 53,5). Porque seu Eterno Pai, continua o Profeta, para dar à sua justiça uma maior satisfação e para fazer os homens compreenderem a malícia do pecado, não se contentou enquanto não viu seu Filho retalhado e pisado pelos açoites: “O Senhor quis quebrantá-lo na sua enfermidade” (Is 53,10), de maneira que o corpo bendito de Jesus tornou-se semelhante ao de um leproso, coberto de chagas dos pés à cabeça: “E nós o reputamos como um leproso ferido por Deus e humilhado” (Is 53,4). Ó meu Senhor dilacerado, a que estado vos reduziram nossas iniqüidades! “Ó bom Jesus, nós pecados e vós fostes castigado”, exclama S. Bernardo. Que a vossa imensa caridade seja para sempre bendita e vós amado como o mereceis por todos os pecadores e especialmente por mim, que vos desprezei mais do que os outros.
8. Apareceu uma vez Jesus flagelado a Sóror Vitória Angelini, e mostrando-lhe seu corpo todo ferido, disse-lhe: Estas chagas todas, Vitória, te pedem amor. E S. Agostinho, todo abrasado em amor, exclama:“ Amemos o Esposo que tanto mais se nos recomenda, quanto mais disforme se nos apresenta e tanto mais caro e mais amável se mostra à sua esposa”. Sim, meu doce Salvador, eu vos vejo todo coberto de chagas: olho para vosso belo rosto, e, ó Deus, não me parece nada belo, mas horrível, denegrido pelo sangue, cheio de equimoses e escarros. “Não tem mais beleza, nem brilho e nós o vimos e não tinha mais aparência” (Is 53,2). Mas quanto mais desfigurado vos vejo, ó meu Senhor, tanto mais belo e amável me pareceis, pois sinais de que são essas deformidades, senão de ternura do amor que me tendes? Eu vos amo, ó Jesus, dilacerado e chagado por meu amor. Quisera ver-me também despedaçado por vós, como tantos mártires que tiveram tão feliz sorte. Se não posso agora oferecer-vos feridas e sangue, ofereço-vos ao menos todas as penas que me couberem em parte; ofereço-vos o meu coração, com o qual quero amar-vos o mais ternamente possível. E o que deverá amar com mais ternura a minha alma senão a um Deus flagelado e exangue por mim? Eu vos amo, ó Deus de amor, eu vos amo, bondade infinita, amo-vos, ó meu amor, meu tudo: amo-vos, e não quero cessar mais de dizer, nesta e na outra vida: eu vos amo, eu vos amo. Amém.

CAPÍTULO IX

Da coroação de espinhos

1. Continuando os soldados a flagelar cruelmente o inocente Cordeiro, conta-se que se adiantou um dos presentes e corajosamente disse-lhes: vós não tendes ordem de matar este homem, como o pretendeis. E assim dizendo cortou as cordas com que estava ligado o Senhor. Isto foi revelado a S. Brígida (Lib. 1 Rev., c. 10). Mas, apenas terminada a flagelação, aqueles bárbaros, instigados e corrompidos com o dinheiro dos judeus, como assegura S. João Crisóstomo, fazem o Redentor sofrer um novo gênero de tormentos: “Então os soldados do governador conduziram Jesus ao pretório e reuniram ao redor dele toda a corte; despiram-no e revestiram com uma clâmide vermelha e, tecendo uma coroa de espinhos, a puseram sobre sua cabeça e na sua mão direita uma cana (Mt 27,27-29). Os soldados, pois, o despiram novamente e, tratando-o como rei de comédia, lhe impuseram um manto carmesim, que outra coisa não era senão um pedaço de um velho manto de soldado romano, chamado clâmide; deram-lhe na mão uma cana em sinal de cetro e um feixe de espinhos na cabeça em sinal de coroa. Mas, ó meu Jesus, não sois vós o verdadeiro rei do universo? E como vos tornastes rei de dores e de opróbrios? Eis até onde vos levou o amor. Ó meu amabilíssimo Senhor, quando virá o dia em que eu me una tão intimamente a vós que nenhuma coisa possa separar-me de vós e não possa mais deixar de vos amar? Ó Senhor, enquanto vivo nesta terra, estou sempre em perigo de voltar-vos as costas e negar-vos o meu amor, como infelizmente o fiz no passado. Ah, meu Jesus, se virdes que eu, continuando a viver, hei de chegar a essa suma desgraça, fazei-me morrer agora que espero estar em vossa graça. Rogo-vos por vossa paixão não permitais que me suceda tão grande desgraça. Eu a mereci pelos meus pecados, mas vós não o merecestes. Escolhei para mim qualquer outro castigo, mas não esse. Ó Jesus, não quero ver-me outra vez separado de vós.
2. “E, tecendo uma coroa de espinhos, puseram-lhe sobre a cabeça”. Bem reflete o devoto Landspérgio que este tomento de espinhos foi excessivamente doloroso, porque traspassaram toda a sagrada cabeça do Senhor, , parte sensibilíssima, já que da cabeça partem todos os nervos e sensações do corpo. Além disso, foi o tormento mais prolongado da paixão, pois Jesus suportou até à morte esses espinhos, tendo-os enterrados em sua cabeça. Todas as vezes que lhe tocavam nos espinhos ou na cabeça, se renovavam todas as dores. Segundo o sentir comum dos escritos, com S.Vicente Ferrer, a coroa foi entrelaçada de vários ramos de espinhos em forma de capacete ou chapéu, de modo que envolvia toda a cabeça e descia até ao meio da testa conforme foi revelado a S. Brígida (Lib. 4 Rev. c. 70).
E, como afirma S. Lourenço Justiniano com S. Pedro Damião, os espinhos eram tão longos que chegaram até a penetrar no cérebro (De triumph. Cti. Ag. c. 14). E o manso Cordeiro deixava atormentar-se ao gosto deles, sem dizer palavras, sem se lamentar, mas, fechando os olhos pelo excesso de dor, exalava continuamente amargos suspiros, como um supliciado que está próximo da morte, conforme foi revelado à beata Ágata da Cruz. Tão grande era a abundância de sangue que corria nas feridas da sagrada cabeça que não se via em seu rosto senão sangue, segundo a revelação de S. Brígida: Várias torrentes de sangue corriam por sua face, enchendo seus cabelos, seus olhos, e sua barba, não se vendo outra coisa senão sangue (Lib. 4 Rev. c. 70). E S. Boaventura ajunta que não parecia ser mais a bela face do Senhor, mas a face de um homem esfolado. Ó amor divino, exclama Salviano, não sei como apelar-te, se doce, se cruel, pois pareceis ser ao mesmo tempo doce e cruel (Ep. 1). Ah, meu Jesus, o amor vos fez a mesma doçura para conosco, levando-vos a mostrar tão apaixonado para com nossas almas, e ele vos tornou cruel para convosco, obrigando-vos a sofrer tormentos tão atrozes.
Quisestes ser coroado de espinhos, para obter-nos uma coroa de glória no céu (Dion. Cart. In Jo 17). Meu dulcíssimo Salvador, espero ser vossa coroa no paraíso, salvando-me pelos merecimentos de vossas dores;“aí louvarei sempre o vosso amor e as vossas misericórdias:
cantarei as misericórdias do Senhor eternamente, sim, eternamente”.
3. Ah, espinhos cruéis, ingratas criaturas, por que atormentais de tal maneira o vosso Criador? Mas que adiante acusar os espinhos? diz S. Agostinho. Eles foram instrumentos inocentes: nossos pecados, nossos maus pensamentos foram os espinhos cruéis que atravessaram a cabeça de Jesus Cristo. Aparecendo um dia Jesus a S. Teresa, coroado de espinhos, a santa pôs-se a pranteá-lo. Disse-lhe, porém, o Senhor: Teresa, não te deves compadecer das feridas que me fizeram os espinhos dos judeus, apiada-te antes das chagas que me fazem os pecados dos cristãos.
Ó minha alma, tu também atormentaste a venerável cabeça de teu Redentor com teus maus pensamentos. Sabe e vê que má e amarga coisa é o haveres deixado o Senhor teu Deus (Jr 2,19). Abre agora os olhos e vê e chora amargamente tua vida inteira os males que fizeste, voltando as costas com tanta ingratidão ao teu Senhor e Deus. Ah, meu Jesus, não mereceis ser tratado por mim como eu vos tratei: Eu fiz mal, eu me enganei; desagrada-me de todo o coração,perdoai-me e dai-me uma dor que me faça chorar toda a minha vida os erros que eu cometi. Meu Jesus, meu Jesus, perdoai-me, que eu quero amar-vos sempre.
4.“E dobrando o joelho diante dele, o escarneciam, dizendo: Salve, rei dos judeus. Cuspindo-lhe no rosto tomavam-lhe a cana e batiam-lhe com ela na cabeça” (Mt 27,29). E S. João acrescenta: “E davam-lhe bofetadas” (Jo 19,3). Depois de aqueles bárbaros haverem colocado na cabeça de Jesus aquela crudelíssima coroa, não se contentaram com enterrá-la com toda a força com as mãos, mas se utilizaram da cana como de um martelo para fazer entrar mais profundamente os espinhos. Começaram, entretanto, a zombar dele, como rei de burla, saudando-o primeiramente de joelhos, como rei dos judeus, e em seguida, levantando-se, lhe escarravam na face, esbofeteavam-no com gritos e risos de desprezos. Ah, meu Jesus, a que miséria estais reduzido. Quem por acaso passasse então por aquele lugar e visse Jesus Cristo esvaído em sangue, coberto com aquele trapo vermelho, com o tal cetro na mão, com aquela coroa na cabeça e tão escarnecido e maltratado por aquela gentalha, não haveria de tê-lo pelo homem mais vil e celerado do mundo? Eis o Filho de Deus tornando então o vitupério de Jerusalém. Ó homens, se não quereis amar Jesus Cristo porque ele é bom e é Deus, exclama o beato Dionísio Cartusiano, amai-o ao menos pelas imensas penas que sofreu por vós (In cap. 27 Mt).
Ah, meu caro Redentor, recebei um servo que vos abandonou, mas que, arrependido, agora para vós se volta. Quando eu vos fugia e desprezava o vosso amor, não deixastes de correr atrás de mim para atrair-me a vós; por isso não posso temer que me expulseis agora que vos busco, vos estimo e vos amo sobre todas as coisas. Fazei-me conhecer o que devo fazer para agradar-vos, pois estou pronto para tudo. Ó Deus amabilíssimo, quero amar-vos deveras e não quero desgostar-vos mais. Ajudai-me com vossa graça, não permitais que vos torne a abandonar. Maria, minha esperança, rogai a Jesus por mim. Amém.

CAPÍTULO X
Do Ecce Homo

1. Pilatos, vendo o Redentor reduzido a um estado tão digno de toda a compaixão, pensou que a sua só vista comoveria os judeus e por isso, conduziu-o a uma varanda, levantou o farrapo de púrpura e, mostrando ao povo o corpo de Jesus coberto de chagas e dilacerado,
disse-lhe: “Eis aqui o homem” (Jo 19,4). Ecce homo, como se quisesse dizer: Eis o homem que acusastes perante mim como se pretendesse fazer-se rei; eu, para vos agradar, condenei-o aos flagelos, ainda que inocente. “Eis o homem, não ilustre pelo império, mas repleto de opróbrio” (St. Ag. Trac. 11 in Jo 6). Ei-lo reduzido a tal estado que parece um homem esfolado ao qual restam poucos instantes de vida. Se, apesar de tudo, pretendeis que eu o condene à morte, afirmo-vos que não posso fazê-lo, porque não encontro motivo para o condenar.
Mas os judeus, à vista de Jesus assim maltratado, mais se enfurecem:“ Ao verem-no, os pontífices e ministros clamavam, dizendo:‘Crucifica-o, crucifica-o’. Vendo Pilatos que não se acalmavam, lavou as mãos à vista do povo, dizendo: ‘Sou inocente do sangue deste justo: vós lá vos avinde’. E eles responderam:‘Seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos” (Mt 27,23-26). Ó meu amado Salvador, vós sois o maior de todos os reis, mas agora eu vos vejo como o homem mais desprezado, dentre todos: se esse povo ingrato não vos conhece, eu vos conheço e vos adoro por meu verdadeiro rei e Senhor. Agradeço-vos, ó meu Redentor, por tantos ultrajes por mim recebidos e suplico-vos me deis amor aos desprezos e aos sofrimentos, já que vós os abraçastes com tanto afeto. Envergonho-me de haver no passado amado tanto as honras e os prazeres, chegando por sua causa a renunciar tantas vezes à vossa graça e ao vosso amor; arrependo-me disso mais que de todas as coisas. Abraço, Senhor, todas as dores e ignomínias que vossas mãos me enviarem; dai-me aquela resignação de que necessito. Amo-vos, meu Jesus, meu amor, meu tudo.

2. Assim como Pilatos daquela varanda mostrou Jesus ao povo, do mesmo modo e ao mesmo tempo o Eterno Pai nos apresentava do alto do céu o seu Filho dileto, dizendo-nos igualmente: Ecce homo. Eis aqui esse homem que é meu Filho muito amado, em quem me
comprazi (Mt 3,17). Eis aqui o homem, vosso Salvador, por mim prometido e por vós há tanto desejado. Eis aqui o homem, o mais nobre dentre todos os homens, tornado o homem das dores. Ei-lo, vede a que estado de compaixão o reduziu o amor que vos consagra, e amai o ao menos por compaixão. Contemplai-o e amai-o, ao menos vos movam essas dores e ignomínias que sofre por vós. Ah, meu Deus e Pai de meu Redentor, eu amo vosso Filho, que padece por meu amor, e eu vos amo a vós que com tão grande amor o entregastes a tantos tormentos por mim. Não vos recordeis de meus pecados com os quais tantas vezes vos ofendi e a vosso Filho: “Olhai para a face de vosso Cristo”, contemplai o vosso Unigênito coberto de chagas e de opróbrios para pagar os meus delitos e por seus merecimentos perdoai-me e não permitais que vos ofenda jamais. “Seu sangue caia sobre nós”. O sangue desse homem, que vos é tão caro, que por nós vos roga e suplica compaixão, que desça sobre as nossas almas e lhes obtenha a vossa graça. Odeio e amaldiçôo, ó Senhor, todos os desgostos que vos dei e amo-vos, bondade infinita, mais do que a mim mesmo. Por amor desse Filho, dai-me o vosso amor, que me faça vencer todas as paixões e sofrer todas as penas que vos agradar.
3. “Saí e vede, filhas de Sião, o rei Salomão com o diadema com que o coroou sua mãe no dia de suas bodas e no dia da alegria de seu coração” (Ct 3,11). Saí e vede o vosso rei com a coroa da pobreza, com a coroa da miséria”, diz S. Bernardo (Serm. 2 de Epip.). Oh, o mais belo de todos os homens, o maior de todos os monarcas, o mais amável de todos os esposos, a que estado está reduzido, todo coberto de chagas e de desprezos! Vós sois esposo, mas esposo de sangue (Êx 4,25), pois, por meio de vosso sangue e de vossa morte,
quisestes esposar as nossas almas. Vós sois rei, mas rei de dores e rei de amor, pois a força de tormentos quisestes atrair os nossos afetos.
Ó amantíssimo esposo de minha alma, oh! se eu me recordasse sempre do quanto padecestes por mim, não cessaria mais de vos amar e agradar.Tende piedade de mim que tanto vos custei! Em paga de tantas penas sofridas por mim, vos contentais com meu amor; por isso eu vos amo, ó Senhor infinitamente amável, eu vos amo sobre todas as coisas, mas eu vos amo pouco. Meu amado Jesus, dai-me mais amor, se quereis ser mais amado de mim. Desejo amar-vos muito; eu, mísero pecador, deveria arder no inferno desde o primeiro instante em que vos ofendi gravemente; vós, porém, me aturastes desde então, porque não quereis que eu arda nesse fogo desgraçado, mas no fogo bem-aventurado do vosso amor. Este pensamento, ó Deus de minha alma, me abrasa todo no desejo de fazer quanto em mim estiver para vos agradar. Ajudai-me, ó meu Jesus, e já que fizestes tanto, completai a vossa obra, fazei-me todo vosso.
4. Continuando os judeus a insultar o governador, gritando: “Tirai-o, tirai-o, crucificai-o”, disse-lhes Pilatos: “Então hei de crucificar o vosso rei?” E eles responderam:“Nos não temos outro rei senão César” (Jo 19,15). Os mundanos, que amam as riquezas, as honras e os prazeres da terra, renegam a Jesus Cristo por seu rei porque Jesus neste terra não foi rei senão de pobreza, de ignomínia e de dores. Se eles vos rejeitam, ó meu Jesus, nós vos elegemos por nosso único rei e vos protestamos: Não temos outro rei senão Jesus. Sim, amável Salvador, “vós sois meu rei”, sois e sereis sempre o meu único Senhor. De fato sois vós o verdadeiro rei de nossas almas, pois as criastes e as remistes da escravidão de Lúcifer. “Venha a nós o vosso reino”. Dominai, reinai, pois, sempre nos nossos pobres corações; que eles vos sirvam sempre e vos obedeçam. Que outros sirvam aos monarcas deste mundo com a esperança dos bens desta terra; nós queremos servir somente a vós, nosso rei aflito e desprezado, com a única esperança de vos agradar sem consolações terrenas. De hoje em diante nos serão caras as dores e as injúrias, que quisestes sofrer tantas por nosso amor. Dai-nos a graça de vos permanecer fiéis e para isso dai-nos o grande dom de vosso amor. Se vos amarmos, amaremos também os desprezos e as penas que tanto amastes e nada mais vos pediremos além do que vos suplica vosso fiel e devoto servo S. João da Cruz: “Senhor, sofrer e ser desprezado por vós. Senhor, padecer e ser desprezado por vós”. Minha mãe Maria, intercedei por nós. Amém.

CAPÍTULO XI
Da condenação de Jesus Cristo e sua ida ao Calvário

1. Continuava Pilatos a escusar-se perante os judeus que não podia condenar à morte aquele inocente. Estes, porém, o atemorizaram, dizendo: “Se soltares a este, não és amigo de César” (Jo 19,12). Cego pelo temor de perder as graças de César, esse juiz desgraçado, depois de ter reconhecido e declarado Jesus Cristo tantas vezes inocente, o condenou finalmente à morte da cruz: “Então ele lhes entregou Jesus para que fosse crucificado”. Ó meu amado Redentor, suspira S. Bernardo, que delito cometestes para ser condenado à morte e morte de cruz? Mas eu bem compreendo, replica o santo, o motivo de vossa morte; sei que pecado cometestes:“O vosso pecado é o vosso amor”. O vosso delito é muito amor que consagrastes aos homens; é ele e não Pilatos que vos condenou à morte. Não, eu não vejo justo motivo de vossa morte, acrescenta S. Boaventura, senão o afeto excessivo que nos tendes (Stim. div. am. p. 1 c. 2). Ah, um tal excesso de amor muito nos constrange, ó Senhor amabilíssimo, a consagrar-vos todos os afetos de nossos corações, diz S. Bernardo (In CT serm. 20). Ó meu caro Salvador, só o conhecimento de que vós me amais deveria fazer-me esquecido de todas as coisas para procurar exclusivamente amar-vos e contentar-vos em tudo. “Forte como a morte é o amor”. Se o amor é forte como a morte, pelos vossos merecimentos, ó meu Senhor, dai-me um tão grande amor para convosco que me faça detestar todas as afeições terrenas. Fazei-me compreender bem que toda a minha felicidade consiste em agradar a vós, Deus todo bondade e todo amor. Maldigo aquele tempo em que não vos amei; agradeço-vos porque me dais ainda tempo para vos amar. Amo-vos, Jesus meu, infinitamente amável e infinitamente amante; amo-vos com todo o meu ser e prometo-vos querer antes mil vezes morrer, que deixar de vos amar.
2. Lê-se a iníqua sentença de morte ao condenado Jesus: ele a ouve e humildemente a aceita. Não se queixa da injustiça do juiz, não apela para César, como fez S. Paulo; mas, inteiramente manso e resignado, se submete ao decreto do Pai Eterno, que por nossos pecados o condena à cruz.“Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até à morte e morte de cruz” (Fl 2,8). E pelo amor que dedica aos homens contenta-se com morrer por nós. “Amou-nos e entregou-se a si mesmo por nós” (Ef 5,2). Ó meu compassivo Salvador, quanto vos agradeço! quanto vos sou obrigado! Desejo, ó meu Jesus, morrer por vós, pois que vós com tão grande amor aceitastes a morte por mim. Mas se não me é dado derramar o meu sangue por vós e sacrificar-vos a minha vida pelas mãos do carrasco, como o fizeram os mártires, aceito ao menos com resignação a morte que me está reservada, e aceito-a no modo e tempo que vos aprouver. Desde já eu vo-la ofereço em honra de vossa majestade e em desconto de meus pecados, e peço-vos pelos merecimentos de vossa morte que me concedais a dita de morrer amando-vos e na vossa graça.
3. Pilatos entrega o inocente cordeiro às mãos daqueles lobos para que com ele façam o que quiserem: “Entregou Jesus à sua vontade” (Lc 23,25).Os algozes agarraram-no com fúria, arrancam-lhe dos ombros o farrapo de púrpura, como lhes insinuaram os judeus, e restituem-lhe suas vestes (Mt 27,31). Isso fizeram, diz S. Ambrósio, para que Jesus fosse reconhecido ao menos pelas vestes, visto estar seu belo rosto tão deformado pelo sangue e pelas feridas, que sem as suas vestes dificilmente poderia ser reconhecido. Tomam, entretanto, dois toscos pedaços de madeira, formam com eles às pressas uma cruz de quinze pés (como afirmam S. Boaventura e S. Anselmo) e colocam-na sobre os ombros do Redentor. Mas, segundo S.Tomás de Vilanova, Jesus não esperou que a cruz lhe fosse imposta pelos algozes: ele mesmo a tomou avidamente com suas mãos e a pôs sobre os ombros chagados (Conc. 3 de uno M.). Vem, disse então,vem, cruz querida! Há trinta e três anos por ti suspiro e te busco; eu te abraço, te aperto ao meu coração, já que és o altar em que desejo sacrificar a minha vida por amor de minhas ovelhas. Ah! meu Senhor, como pudestes fazer tanto bem a quem vos fez tantos males? Ó Deus, quando eu penso que fostes obrigado a morrer pela veemência dos tormentos para me obter a amizade divina e que eu a perdi tantas vezes voluntariamente por minha culpa, quereria morrer de dor. Quantas vezes me haveis perdoado e eu tornei a vos ofender. Como poderei esperar perdão se não soubesse que morrestes para perdoar-me? Por essa vossa morte, pois, eu espero o perdão e a perseverança no vosso amor. Arrependo-me, meu Redentor, de vos haver ofendido; perdoai-me por vossos merecimentos, que eu vos prometo não vos dar mais desgosto. Eu estimo e amo a vossa amizade mais do que todos os bens do mundo. Por isso não permitais
que eu venha a perdê-la de novo; dai-me, Senhor, qualquer castigo afora esse. Jesus meu, não quero mais perder-vos, prefiro perder a vida, quero amar-vos sempre.
4. A justiça sai com os condenados e entre eles caminha para a morte o rei do céu, o Unigênito de Deus, carregado com a cruz: “Levando sua cruz às costas, saiu para aquele lugar que se chama Calvário” (Jo 19,17). Saí também do céu, ó bem-aventurados Serafins,
e vinde acompanhar o vosso Senhor que sobe ao Calvário, para aí ser justiçado em um patíbulo infame juntamente com os malfeitores. Ó espetáculo horrendo! um Deus supliciado! Este é o Messias que poucos dias antes foi aclamado Salvador do mundo e recebido pelo povo com aplausos e bênçãos, exclamando todos: “Hosana ao Filho de Davi, bendito o que vem em nome do Senhor” (Mt 21,9). Ei-lo agora preso, escarnecido e amaldiçoado por todos, com uma cruz às costas para morrer como um malfeitor. Ó excesso de amor divino! Um Deus supliciado pelos homens. Encontrar-se-á ainda um homem que
não ame este Deus! Ó meu amoroso Jesus, tarde comecei a amar-vos, fazei que no restante de minha vida compense o tempo perdido. Já sei que tudo o que eu fizer é pouco em comparação do amor que vós me tendes tido, mas ao menos quero amar-vos com todo o meu coração. Grande injúria eu vos faria se, depois de tantas finezas, eu dividisse o meu coração e o repartisse com qualquer objeto além de vós. Eu vos consagro de hoje em diante toda a minha vida, a minha vontade, a minha liberdade. Disponde de mim como vos agradar. Peço-vos o paraíso, para lá amar-vos com todas as minhas forças. Muito quero amar-vos nesta vida, para muito vos amar na eternidade. Socorrei-me com a vossa graça; peço-vos e o espero pelos vossos merecimentos. 5. Imagina, minha alma, que vês passar Jesus nesse doloroso caminho. Assim como um cordeiro é levado ao matadouro, o amantíssimo Redentor é conduzido à morte (Is 53,7). Ele está tão esgotado e enfraquecido pelos tormentos, que apenas pode ter-se em pé. Ei-lo todo dilacerado pelas feridas, com a coroa de espinhos sobre a cabeça, com o pesado madeiro sobre os ombros e com um algoz que o puxa por uma corda. Caminha com o corpo curvado, com os joelhos trêmulos, gotejando sangue; anda com tanta dificuldade, que parece que a cada passo vai exalar a vida. Pergunta-lhe: Ó cordeiro divino, não estais ainda farto de dores? se com isso pretendeis conquistar o meu amor, deixai de sofrer que eu quero amar-vos como desejais. Não, responde-te, ainda não estou satisfeito: só então estarei contente quanto estiver morto por teu amor. E agora aonde ides, meu Jesus? Vou morrer por ti, não mo impeças; uma só coisa eu peço e recomendo: quando me vires morto sobre a cruz por ti recorda-te do amor que te dediquei; lembra-te disso e ama-me.
Ó meu aflito Senhor, quanto vos custou o fazer-me compreender o amor que me consagrastes. Que vantagem vos poderia trazer meu amor, que para conquistá-lo quisestes sacrificar vosso sangue e a vida? E como pude eu, objeto de tão grande amor, viver tanto tempo sem vos amar, esquecido de vosso afeto? Agradeço-vos a luz que me dais agora e que faz conhecer o quanto me tendes amado. Eu vos amo, bondade infinita sobre todas as coisas; desejaria, se pudesse, sacrificar-vos mil vidas, que quisestes sacrificar a vossa vida divina por mim. Concedei-me aqueles auxílios que me haveis merecido com tantas penas para vos amar de todo o coração. Dai-me aquele santo fogo que viestes acender na terra, morrendo por nós. Recordai-me sempre da vossa morte, para que nunca mais me esqueça de vos amar.
6.“Foi posto o principado sobre o seu ombro” (Is 9,6). Diz Tertuliano que a cruz foi o nobre instrumento com que Jesus Cristo se adquiriu tantas almas, porque, morrendo nela, pagou a pena de nossos pecados e assim as resgatou ao inferno, fazendo-as suas. “O qual levou os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro” (1Pd 2,24). Portanto, ó meu Jesus, se Deus vos carregou com os pecados de todos os homens: “Deus colocou nele a iniqüidade de todos nós” (Is 53,6), eu com os meus pecados vos tornei mais pesada a cruz que levastes
ao Calvário.
Ah, meu dulcíssimo Salvador, já então vistes todas as injúrias que eu vos faria e apesar disso não deixastes de me amar e de preparar-me tantas misericórdias que usastes para comigo. Se, pois, vos fui tão caro, apesar de vilíssimo e ingrato pecador que tanto vos ofendi, é justíssimo que vós também me sejais caro, vós, meu Deus, beleza e bondade infinitas, que tanto me tendes amado. Ah, se nunca vos tivesse desgostado! Conheço agora, ó meu Jesus, o mal que vos fiz. Malditos pecados, que fizestes? Fizeste-me contristar o coração amoroso de meu Redentor, coração que tanto me amou. Ó meu Jesus, perdoai-me que eu me arrependo de vos haver desprezado. Para o futuro sereis o único objeto de meu amor. Amo-vos, ó amabilidade infinita, como todo o meu coração, e estou resolvido a não amar a ninguém mais fora de vós. Senhor, perdoai-me e dai-me o vosso amor e nada mais vos peço. Digo-vos com S. Inácio: “Dai-me unicamente o vosso amor coma vossa graça e estou bastante rico”.
7. “Se alguém quiser vir após mim, abnegue-se a si mesmo e tome sua cruz e siga-me”(Mt 16,24). Visto que vós, inocente, meu amado Redentor, me precedeis com a vossa cruz e me convidais a seguir-vos com a minha, ide adiante que eu não quero deixar-vos só. Se no passado vos abandonei, confesso que procedi mal. Dai-me agora a cruz que vos aprouver, que eu a abraço, seja qual for, e com ela quero acompanhar-vos até à morte: “Saiamos fora dos arraiais, levando o seu impropério” (Hb 13,13). E como é possível, Senhor, que não amemos por vosso amor as dores e os opróbrios, se vós tanto os amastes por nossa salvação? Já que nos convidais a seguir-vos, queremos, sim, seguir-vos e morrer convosco, mas dai-nos, força para executá-lo: essa força vos pedimos por vossos merecimentos e a esperamos. Amo-vos, meu Jesus amabilíssimo, amo-vos com toda a minha alma e não quero mais deixar-vos. Basta-me o tempo em que andei longe de vós; ligai-me agora à vossa cruz. Se eu desprezei o vosso amor, disso me arrependo de todo o coração e agora vos estimo mais que todos os bens.
8. Ah, meu Jesus, quem sou eu que me quereis para vosso discípulo e me ordenais que vos ame e me ameaçais com o inferno se não quiser vos amar? E de que serve, dir-vos-eis com S. Agostinho, ameaçar-me com as penas eternas? Pois que maior desgraça me poderá assaltar do que não vos amar, Deus amabilíssimo, meu Criador, meu Redentor, meu paraíso, meu tudo? Vejo que por um justo castigo das ofensas que vos fiz mereceria estar condenado a não poder mais vos amar; mas vós, porque ainda me amais, continuai a mandar que eu vos ame, repetindo-me sempre ao coração: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente”. Agradeço-vos, ó meu amor, este doce preceito e para obedecer-vos eu vos amo com todo o meu coração, com toda a minha alma, com toda a minha mente. Arrependo-me de não vos haver amado pelo passado e no presente prefiro toda pena à de viver sem vos amar, e proponho sempre procurar o vosso amor. Ajudai-me, ó meu Jesus, a fazer sempre atos de amor e a sair desta vida com um ato de amor, para que eu chegue a amar-vos face a face no paraíso, onde vos amarei sem imperfeição e sem intervalo, com todas as minhas forças por toda a eternidade. Ó Mãe de Deus, rogai por mim. Amém.

CAPÍTULO XII
Da crucifixão de Jesus

1. Eis-nos chegados à crucificação, ao último tormento que deu a morte a Jesus Cristo, eis-nos no Calvário, feito teatro do amor divino, onde um Deus deixa a vida num mar de dores. “E depois de chegados ao lugar chamado Calvário, aí o crucificaram” (Lc 23,33).Tendo o Senhor chegado com grande dificuldade, mas ainda vivo ao monte, arrancaram-lhe pela terceira vez com violência suas vestes pegadas às chagas de sua carne dilacerada e o estenderam sobre a cruz. O cordeiro divino deita-se sobre esse leito de tormentos, apresenta aos carnífices suas mãos e seus pés para serem pregados e, levantando os olhos ao céu, oferece ao seu eterno Pai o grande sacrifício de sua vida pela salvação dos homens. Cravada uma mão, contraem-se os nervos, sendo por isso necessário que à força e com cordas se puxassem a outra mão e os pés ao lugar dos cravos, como foi revelado a S. Brígida, o que ocasionou a contorção e rompimento com dores horríveis dos nervos e das veias (Liv. 1, c. 10), de tal maneira que se podiam contar todos os ossos, como já predissera Davi: Atravessaram minhas mãos e meus pés e contaram todos os meus ossos (Sl 21,17). Ah, meu Jesus, por quem foram cravados vossas mãos e vossos pés sobre esse madeiro senão pelo amor que tínheis aos homens? Vós quisestes com a dor de vossas mãos traspassadas pagar todos os pecados que os homens cometeram pelo tato e com a dor dos pés quisestes pagar todos os passos que demos para vos ofender. Ó meu amor crucificado, abençoai-me com essas mãos traspassadas. Cravai aos vossos pés este meu coração ingrato, para que eu não me separe mais de vós e fique sempre minha vontade obrigada a amar-vos, já que tantas vezes se revelou contra vós. Fazei que nada me mova além de vosso amor e do desejo de dar-vos gosto. Ainda que vos veja suspenso nesse patíbulo, eu vos reconheço por senhor do mundo, pelo Filho verdadeiro de Deus e Salvador dos homens. Por piedade, ó meu Jesus, não me abandoneis mais no resto de minha vida e especialmente na hora de minha morte: nessa última agonia e combate com o inferno assisti-me e confortai-me para morrer no vosso amor. Eu vos amo, amor crucificado, eu vos amo de todo o meu coração.
2. Diz S. Agostinho não haver morte mais acerba que a morte da cruz (Tract. 36 in Jo), pois, como nota S. Tomás (P. III q. 46, a. 6), os crucificados têm os pés e as mãos transpassados, partes essas que sendo compostas de nervos, músculos e veias, são extremamente sensíveis à dor: e o só peso do corpo pendido faz que a dor seja contínua e se aumente sempre mais até à morte. Mas as dores de Jesus ultrapassavam todas as outras dores, pois, como diz o Angélico, o corpo de Jesus Cristo, sendo de delicadíssima compleição, era mais sensível e sujeito às dores: corpo que foi expressamente preparado pelo Espírito Santo para sofrer como ele predissera e conforme o atesta o Apóstolo: “Vós me preparastes um corpo” (Hb 10,5). Além disso, S.Tomás diz que Jesus Cristo suportou uma dor tamanha que só ela seria suficiente para satisfazer a pena que mereciam temporalmente os pecados de todos os homens. Afirma Tiepoli que na crucifixão deram vinte e oito marteladas sobre suas mãos e trinta e seis sobre seus pés. Minha alma, contempla o teu Senhor, contempla tua vida que pende desse madeiro: “E será tua vida quase pendente diante de ti” (Dt 28,66).Vê como naquele patíbulo doloroso, suspenso desses cravos cruéis, não encontra posição nem repouso. Ora se apóia sobre as mãos, ora sobre os pés, mas onde se firma aumenta a dor. Ora volve a dolorosa cabeça para uma parte, ora para outra, se a deixa cair sobre o peito, as mãos e os pés rasgam-se mais com o peso, se a deita sobre os ombros, estes ficam feridos pelos espinhos; se a apóia sobre a cruz, enterram-se os espinhos ainda mais na sua cabeça. Ah, meu Jesus, que morte horrível é a que sofreis. Meu Redentor crucificado, eu vos adoro nesse trono de ignomínia e de dores. Leio que está escrito nessa cruz que sois rei: “Jesus Nazareno, Rei dos judeus”. Mas afora este título de escárnio, qual outro sinal de vossa realeza? Ah, essas mãos cravadas, essa cabeça coroada de espinhos, esse trono de dores, essas carnes dilaceradas vos fazem conhecer por rei, mas rei de amor. Aproximo-me, pois, humilhado e contrito, para beijar vossos pés sagrados trespassados por meu amor; abraço essa cruz, na qual, vítima de amor, quisestes sacrificar-vos à justiça divina por mim, “feito obediente até à morte de cruz”. Ó feliz obediência, que nos obtém o perdão dos pecados. E que seria de mim, ó meu Salvador, se vós não tivésseis pago por mim? Agradeço-vos, meu amor, e pelos merecimentos dessa sublime obediência vos peço que me concedais a graça de obedecer em tudo à vossa divina
vontade. Desejo o paraíso unicamente para sempre vos amar e com todas as minhas forças.
3. Eis que o rei do céu, suspenso naquele patíbulo, começa a expirar. Perguntemos-lhe com o profeta: “Que são essas chagas no meio de tuas mãos?” (Zc 13,6). Responde por Jesus o Abade Roberto: São sinais do grande amor que vos tenho, são o preço pelo qual eu vos livro das mãos dois inimigos e da morte. Ama, pois, ó alma fiel, ama a teu Deus que tanto te amou, e, se ainda duvidas de seu amor, olha, diz S. Tomás de Vilanova, olha para aquela cruz, para aquelas dores e aquela morte acerba que ele sofreu por ti e essas provas te farão conhecer claramente quanto te ama o teu Redentor (Conc. 3 dom. 17 p. Pent.). S. Bernardo ajunta que a cruz clama, clama cada chaga de Jesus que ele vos ama com verdadeiro amor. Ó meu Jesus, como vos vejo cheio de dores e triste! Tendes muita razão em pensar que vós tanto sofrestes, chegando até a morrer de dores nessa madeiro e que afinal tão poucas alas vos amarão. Ó Deus, ainda agora, quantos corações, apesar de a vós consagrados, não vos amam ou vos amam muito pouco. Ah, belas chamas de amor, vós que consumistes a vida de um Deus sobre a cruz, consumi-me também, consumi todos os afetos desordenados que vivem no seu coração e fazei que eu viva ardendo e suspirando exclusivamente por esse meu amado Senhor, que quer acabar a vida consumido pelos tormentos, por meu amor, num patíbulo infame. Meu amado Jesus, quero amar-vos sempre, e quero amar unicamente a vós, meu amor, meu Deus, meu tudo. tudo.
4.“Teus olhos verão o teu preceptor” (Is 30,20). Foi prometido aos homens poderem ver com os próprios olhos seu divino Mestre. A vida inteira de Jesus foi contínuo exemplo e escola de perfeição, mas sem nenhuma parte nos ensinou melhor suas mais belas virtudes do que sobre a cátedra da cruz. Como daí nos ensinou bem a paciência, especialmente no tempo das doenças, já que na cruz Jesus sofreu corajosamente com suma paciência as dores de sua atrocíssima morte. Aí, com seu exemplo nos ensinou uma estrita obediência aos divinos preceitos, uma perfeita resignação com a vontade de Deus e sobretudo ensinou-nos como se deve amar. O P. Paulo Segneri, o moço, escreve a uma penitente sua que escrevesse aos pés do Crucifixo:“Eis aqui como se ama”. Eis aqui como se ama, é o que parece dizer a todos o próprio Redentor do alto da cruz, quando nós, para não sofrer qualquer desgosto, abandonamos as obras de seu agrado e por vezes chegamos a renunciar até à sua graça e ao amor. Ele nos amou até à morte e não desce da cruz senão depois de ter deixado de viver. Ah, meu Jesus, vós me amastes até à morte: até à morte vos quero amar. No passado eu vos ofendi e traí muitas vezes. Senhor, vingai-vos de mim, mas com vingança de compaixão e amor: dai-me uma tal dor de meus pecados, que me faça viver sempre contrito e aflito por vos haver ofendido. Eu protesto preferir sofrer todos os males no futuro e vos desgostar. E que maior desgraça poderia suceder-me que vos desgostar a vós, meu Deus, meu Redentor, minha esperança, meu tesouro, meu tudo.
5. “E eu, quando for exaltado da terra, atrairei tudo a mim. Ora, isso ele dizia para indicar de que morte havia de morrer” (Jo 12,32). Jesus Cristo afirmou que, quando fosse levantado na cruz, ele com seus merecimentos, com seu exemplo e com a força de seu amor, haveria de atrair para si os afetos de todas as almas, segundo o comentário de Cornélio a Lápide. O mesmo escreve S. Pedro Damião: “O Senhor apenas foi suspenso na cruz e já atraiu todos a si pelo desejo de seu amor” (De inv. cruc.). E quem deixará de amar a Jesus que morre por nós na cruz, pergunta o mesmo Cornélio. Vede, ó almas remidas, assim nos exorta a S. Igreja, vede o vosso Redentor pregado naquela cruz, onde toda a sua figura respira amor e convida a amá-lo: a cabeça inclinada, para nos dar o ósculo de paz, os braços estendidos para abraçar-nos, o coração aberto para nos amar. Ah, meu amado Jesus, como minha alma podia ser tão cara aos vossos olhos, conhecendo vós as injúrias que de mim haveis de receber? Vós, para cativar o meu afeto, quisestes dar-me as provas extremas
de amor. Vinde, ó flagelos, espinhos, cravos e cruz, que atormentastes as sagradas carnes de meu Senhor, vinde e feri meu coração. Recordai-me sempre que todo o bem que eu recebi e que eu espero, tudo me vem dos merecimentos de sua paixão. Ó mestre de amor, os
outros ensinam com a voz, ao passo que vós, nesse leito de morte, ensinais com o sofrimento; os outros ensinam por interesse, vós por afeto, não buscando outra recompensa que a minha salvação. Salvai-me, amor meu, e que minha salvação seja a graça de sempre vos amar e agradar. Amar-vos é a minha salvação.
6. Enquanto Jesus agonizava sobre a cruz, os homens não cessavam de atormentá-lo com impropérios e zombarias. Uns lhe diziam: “Salvou os outros e não pode se salvar a si mesmo”. Outros: “Se é o rei de Israel, desça da cruz”. E que faz Jesus na cruz, enquanto o injuriam? Talvez pede a seu Pai que os castigue? Não, ele pede que lhes dê o perdão: “Pai, perdoai-lhes; não sabem o que fazem” (Lc 23,32). Para demonstrar seu imenso amor pelos homens, diz S. Tomás (p. III q. 47, a. 4), o Redentor pediu a Deus perdão para seus perseguidores. Pediu-o, pois eles depois de o verem morto se arrependeram de seus pecados: “Voltavam batendo no peito”.
Ah! meu caro Salvador, eis-me aos vossos pés: eu fui um dos vossos mais ingratos perseguidores: pedi a vosso Pai para que ele me perdoe também a mim. É verdade que os judeus e os algozes não sabiam, ao crucificar-vos, o que faziam; eu, porém, muito bem sabia que, pecando, ofendia a um Deus crucificado e morto por mim. Mas o vosso sangue e a vossa morte me mereceram também a mim a divina misericórdia. Eu não posso duvidar de ser perdoado vendo-vos morrer para me obter o perdão. Ah, meu doce Redentor, lançai sobre mim um daqueles olhares amorosos que me dirigistes ao morrer por mim na cruz: olhai-me e perdoai-me todas as ingratidões com que tratei o vosso amor. Arrependo-me, ó meu Jesus, de vos ter desprezado. Amo-vos de todo o meu coração e, à vista de vosso exemplo, porque vos amo, amo também todos aqueles que me ofenderam. Desejo-lhes todo o bem e proponho servi-los e socorrê-los quanto me for possível por amor de vós, meu Senhor, que quisestes morrer por mim que tanto vos ofendi.
7.“Lembrai-vos de mim”, vos disse, ó meu Jesus, o bom ladrão, e foi consolado com vossa resposta: “Hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43). Lembrai-vos de mim, digo-vos também eu; recordai-vos, Senhor, que eu sou uma daquelas ovelhas pelas quais vós destes a
vida. Consolai-me, fazendo-me sentir que me perdoastes, dando-me uma grande dor de meus pecados. Ó grande sacerdote, que vos sacrificastes a vós mesmo por amor das vossas criaturas, tende compaixão de mim. Sacrifico-vos de agora em diante a minha vontade, os meus sentidos, as minhas satisfações e todos os meus desejos. Eu creio que vós, meu Deus, morrestes pregado na cruz por mim. Caia sobre mim, vos suplico, o vosso sangue divino: ele me lave de todos os meus pecados; ele me abrase em vosso santo amor e me faça todo vosso. Eu vos amo, ó meu Jesus, e desejo morrer crucificado por vós que morrestes crucificado por mim.
Eterno Pai, eu vos ofendi, mas eis vosso Filho que, preso a esse madeiro, vos satisfaz por mim oferecendo-vos o sacrifício de sua vida divina. Eu vos ofereço seus merecimentos que são todos meus, visto que ele mos deu; por amor deste Filho vos peço tenhais piedade de mim. A maior compaixão que vos suplico é que me concedais a vossa graça, que eu infelizmente tantas vezes desprezei de livre vontade. Arrependo-me de vos haver ultrajado e vos amo, meu Deus, meu tudo, e para vos satisfazer estou pronto a suportar toda espécie de opróbrios, de dores, de miséria e de morte.

CAPÍTULO XIII
Das últimas palavras de Jesus na cruz e de sua morte

1. Diz S. Lourenço Justiniano que a morte de Jesus foi a mais amarga e dolorosa dentre todas as mortes dos homens, porque o Redentor morreu na cruz sem o mínimo alívio. Nas pessoas que sofrem, a pena é sempre mitigada por qualquer pensamento ao menos de consolação; mas a dor e a tristeza de Jesus foram inteiramente puras, sem mistura de consolo, como diz o Angélico (III q. 46 a 6). Por isso S. Bernardo, contemplando Jesus agonizando na cruz, exclama: Meu caro Jesus, contemplando-vos sobre esse madeiro, dos pés até à cabeça não vejo senão dor e tristeza. Ó meu doce Redentor, ó amor de minha alma, por que quisestes derramar todo o vosso sangue, por que sacrificar a vossa vida divina por um verme ingrato como eu? Ó meu Jesus, quando será que eu me ligarei tão estreitamente a vós que não possa mais separar-me e deixar de vos amar? Ah, Senhor, enquanto vivo neste mundo, estou em perigo de negar-vos o meu amor e perder a vossa amizade, como tenho feito no passado. Ah, meu caríssimo Salvador, se, continuando a viver, terei de passar por esse grande mal, suplico-vos por vossa paixão, dai-me a morte agora que eu espero estar em vossa graça. Eu vos amo e quero amar-vos sempre.
2. Lamentava-se Jesus pela boca do Profeta que, quando agonizava na cruz, procurava quem o consolasse e não o encontrava (Sl 68,21). Os judeus e os romanos, mesmo quando ele estava para expirar, o maldiziam e blasfemavam. Maria Santíssima, sim, estava aos pés da cruz para dar-lhe algum alívio, se pudesse; mas essa mãe aflita e amorosa, com a dor que suportava pelos sofrimentos de Jesus, mais afligia a esse Filho que tanto a amava. Diz S. Bernardo que os sofrimentos de Maria contribuíram mais para atormentar o coração de Jesus. Quando o Redentor olhava para Maria assim atormentada, sentia sua alma transpassada mais pelas dores da Mãe que pelas suas próprias, como a mesma Santíssima Virgem revelou a S. Brígida: “Ele, vendo-me, mais se doía de mim que de si mesmo”. Do que conclui S. Bernardo: Ó bom Jesus, vós sofreis grandes dores no corpo, mas sofreis ainda mais no coração por compaixão com vossa Mãe.
3. Que sofrimentos, pois, não experimentaram esses corações amorosíssimos de Jesus e Maria, quando chegou o momento em que o Filho, antes de expirar, teve de se despedir de sua Mãe. Eis as últimas palavras com que Jesus se despediu neste mundo de sua Mãe: “Mulher, eis aí teu filho” (Jo 19,26), indicando-lhe João que lhe deixava por filho em seu lugar. Ó Rainha das dores, as recordações de um filho amado que morre são muito caras e não saem mais da memória de uma mãe. Recordai-vos que vosso Filho, que tanto vos amou, vos deixou a mim, pecador, por filho, na pessoa de João. Pelo amor que tendes a Jesus, tende piedade de mim. Eu não vos peço os bens da terra: vejo vosso Filho que morre em tantos tormentos por mim; vejo-vos a vós, minha Mãe inocente, sofrendo tantas dores por mim e vejo que eu, miserável réu do inferno, nada padeci pelos meus pecados por vosso amor. Quero sofrer alguma coisa por vós antes de morrer. Esta é a graça que vos peço e vos digo com S. Boaventura que, se vos ofendi, é de justiça que eu padeça por castigo, e seu eu vos servi, é justo que eu sofra por recompensa. Impetrai-me, ó Maria, uma grande devoção e uma recordação contínua da paixão de vosso Filho. E por aquele tormento que sofrestes, vendo-o expirar na cruz, obtende-me uma boa morte; assisti-me, minha Rainha, naquele último momento e fazei que eu morra amando e proferindo os santíssimos nomes de Jesus e Maria.
4. Vendo Jesus que não encontrava quem o consolasse neste mundo, levantou os olhos e o coração para seu Pai, para pedir-lhe alívio. Mas o eterno Pai, vendo seu Filho coberto com as vestes de pecador: Não, Filho, disse-lhe, não te posso consolar, já que estás satisfazendo a minha justiça pelos pecados de todos os homens; convém que agora eu te abandone aos teus sofrimentos e te deixe morrer sem conforto. E foi então que o nosso Salvador, elevando a voz, disse: “Deus meu, por que me abandonais”? (Mt 27,46). Explicando esta passagem, o Beato Dionísio Cartusiano diz que Jesus proferiu essas palavras com grande brado, para fazer todos compreenderem a grande dor e tristeza em que morria. E quis nosso amantíssimo Redentor morrer privado de toda consolação, acrescenta S. Cipriano, para nos demonstrar seu amor e atrair para si todo o nosso amor. Ah, meu amado Jesus, queixai-vos injustamente, dizendo: Meu Deus, por que me abandonastes? Perguntas por quê? E eu pergunto-vos: por que quisestes vos encarregar de pagar por nós? Não sabíeis que só pelos nossos pecados merecíamos ser abandonados por Deus? Com razão, pois, vos abandonou o vosso Pai e vos deixou morrer num mar de dores e de tristezas. Ah, meu Redentor, o vosso
abandono me aflige e me consola: aflige-me, porque vos vejo morrer com tantos sofrimentos, mas consola-me dando-me confiança de que, pelos vossos merecimentos, não serei abandonado pela misericórdia divina, como eu merecia por vos ter abandonado tantas vezes para seguir os meus caprichos. Fazei-me compreender que, se para vós foi tão cruel o ser privado por breve tempo da presença sensível de Deus, qual seria o meu tormento se tivesse de ficar privado de Deus para todo o sempre. Por esse vosso abandono, suportado com tanta dor, não me abandoneis, ó meu Jesus, especialmente na hora de minha morte. Nesse momento em que todos me abandonarão, não me abandoneis, vós, meu Salvador. Sede então vós, meu Senhor desolado, o meu conforto nas minhas desolações. Bem sei que se vos amasse sem consolação, contentaria o vosso coração; conheceis, porém, a minha fraqueza, ajudai-me com a vossa graça. infundindo-me então perseverança, paciência e resignação.
5. Aproximando-se Jesus da morte, disse: :”Tenho sede”. Dizei-me, Senhor, de que tendes sede? pergunta Leão de Óstia. Vós não vos queixais dos imensos tormentos que sofrestes na cruze vos lamentais exclusivamente da sede? “Minha sede é a vossa salvação”, lhe faz dizer S. Agostinho (In ps. 33).Ó almas, diz Jesus, esta minha sede não é outra coisa que o desejo que tenho de vossa salvação. O Redentor amorosíssimo tem um ardente desejo de nossas almas e por isso ardia em se dar todo a nós por meio de sua morte. Foi essa a sua sede, escreve S. Lourenço Justiniano. E S. Basílio de Seleucia diz que Jesus Cristo afirma sentir sede, para dar-nos a entender que, pelo amor que nos tinha, morria com o desejo de padecer por nós mais ainda do que tinha padecido. Ó Deus amabilíssimo, porque nos amais, desejais que nós suspiremos por vós. “Deus tem sede de que tenhamos sede dele”, diz S. Gregório Nazianzeno (Tetr. Sent. 34). Ah, meu Senhor, tendes sede de mim, vilíssimo verme, e eu não sentirei sede de vós, meu Deus infinito? Pelos merecimentos dessa sede suportada na cruz, dai-me uma grande sede de vos amar e de comprazer-vos em tudo. Prometestes que nos atenderíeis em tudo o que vos pedíssemos: Pedi e recebereis. Eu vos peço este dom de vosso amor. Eu não o mereço, mas será essa a glória de vosso sangue, fazer vosso grande amigo um coração que durante tanto tempo vos desprezou; fazer todo chamas de caridade um pecador todo cheio de lama e de pecados. Fizestes muito mais do que isto, morrendo por mim. Ó Senhor infinitamente bom, eu desejaria amar-vos tanto quanto vós o mereceis. Regozijo-me do amor que vos têm tantas almas abrasadas e mais ainda do amor que tendes por vós mesmo, ao qual uno o meu, embora fraquíssimo. Amo-vos, ó Deus eterno, amo-vos, ó amabilidade infinita. Fazei que eu cresça cada vez mais no vosso amor, repetindo sem cessar atos de amor e esforçando-se par vos agradar em todas as
coisas sem intermitência e sem reserva. Fazei que, apesar de miserável e pequenino como sou, seja pelo menos todo vosso.
6. Nosso Jesus, já estando para expirar, disse com voz moribunda:“ Tudo está consumado”. Enquanto profere essa palavra, rememora em sua mente todo o decorrer de sua vida: viu todas as fadigas que experimentara, a pobreza, as dores, as ignomínias suportadas, oferecendo-as todas novamente a seu eterno Pai pela salvação do mundo. Depois, voltando-se para nós, repetiu: “Tudo está consumado”, como se dissesse: Ó homens, tudo está consumado tudo está completo:concluída a vossa redenção, satisfeita a divina justiça, aberto o paraíso. “Eis o teu tempo, e o tempo dos amantes” (Ez 16,8). É tempo, finalmente, ó homens, de começardes a amar-me. Amai-me, pois, amai-me porque nada mais me resta fazer para ser amado por vós. Vede o que fiz para conquistar o vosso amor: por vós levei uma vida tão cheia de tribulações; no fim de meus dias, antes de morrer, consenti em que me tirassem todo o meu sangue, me escarrassem no rosto, lacerassem as carnes, coroassem de espinhos, chegando até aos horrores da agonia neste lenho, como estais vendo. Que falta
ainda? Só falta que eu morra por vós; pois bem: quero morrer:Vem, ó morte, dou-te licença de tirar-me a vida pela salvação de minhas ovelhas. E vós, ovelhas minhas, amai-me, porque nada mais posso fazer para me fazer amar. Tudo está consumado, diz Tauler, tudo o que a justiça exigia, o que requeria a caridade, tudo o que se podia fazer para patentear o amor (De vita et pass. Salv. c. 49). Pudesse dizer também eu ao morrer, meu amado Jesus: Senhor, realizei tudo, fiz tudo que me impusestes, levei com paciência a minha cruz, tudo vos satisfiz. Ah, meu Deus, se tivesse de morrer agora, morreria descontente, porque não poderia repetir nenhuma dessas coisas de verdade. Mas hei de viver sempre assim, ingrato ao vosso amor? Dai-me a graça de contentar-vos nos anos que me restam, para que, quando chegar a morte, possa dizer-vos que ao menos desta data em diante executei a vossa vontade. Se vos ofendi pelo passado, a vossa morte é minha esperança. Para o futuro não quero mais atraiçoar-vos, mas é de vós que espero a minha perseverança. Por vossos merecimentos, ó meu Senhor Jesus Cristo, eu volo peço e espero.
7. Eis Jesus expirando na cruz. Contempla-o, minha alma, nas dores da agonia, a exalar o último suspiro. Contempla esses lhos moribundos, a face pálida, o coração que com lânguido movimento apenas palpita, o corpo que já se entrega à morte e esse bela alma que em breve deixará o corpo dilacerado. Já o céu se escurece, treme a terra, abrem-se os sepulcros. Que significam esses terríveis sinais? a morte do Criador do universo. 8. Por último, nosso Redentor, depois de haver recomendado sua bendita alma a seu eterno Pai, tendo primeiramente dado um grande suspiro partido de seu aflito coração, inclina a cabeça em sinal de obediência, oferece sua morte pela salvação dos homens e expira pela violência de dor, entregando seu espírito nas mãos de seu querido Pai. “E clamando com grande brado, Jesus diz: ‘Pai, em vossas mãos encomendo o meu espírito’. E dizendo isto, expirou” (Lc 23,46). Chega-te, minha alma, aos pés deste santo altar, no qual morreu sacrificado para te salvar o Cordeiro de Deus. Chega-te e pensa que ele morreu pelo amor que te consagrou. Pede quanto desejares ao teu Senhor morto e espera tudo. Ó Salvador do mundo, ó meu Jesus, eis a que estado vos reduziu o amor pelos homens; agradeço-vos o terdes querido perder a vida para que se não perdessem as nossas almas: agradeço-vos por todos, mas particularmente por mim mesmo. Quem mais do que eu se aproveitou do fruto de vossa morte? Eu, por vossos merecimentos, sem nem sequer o saber, tornei-me filho da S. Igreja pelo batismo: por vosso amor fui tantas vezes perdoado e recebi tantas graças especiais; por vós tenho a esperança de morrer na graça de Deus e de chegar a amar-vos no paraíso. Meu amado Redentor, quanto vos devo! Entrego minha pobre alma às vossas mãos traspassadas. Fazei que eu compreenda bem quão grande foi o amor que levou um Deus a morrer por mim. Desejaria morrer também por vós, Senhor, mas que compensação pode dar a morte de um escravo perverso à de seu Senhor e Deus? Desejaria ao menos amar-vos quanto estivesse em mim, mas sem o vosso auxílio, ó meu Jesus, eu nada posso. Ajudai-me e pelos merecimentos de vossa morte fazei que eu morra a todos os amores da terra para que eu ame somente a vós, que mereceis todo o meu amor. Eu vos amo, bondade infinita, eu vos amo, meu sumo bem, e vos suplico com S. Francisco: “Morra eu, Senhor, pelo amor de teu amor, que te dignaste morrer pelo amor de meu amor”. Morra eu a tudo, ao menos por gratidão ao grande amor que me mostrastes, dignando-vos morrer por meu amor e para ser amado por mim. Maria, minha Mãe, intercedei por mim. Amém.

CAPÍTULO XIV
Da esperança que devemos ter na morte de Jesus

1. Jesus é a única esperança de nossa salvação; fora dele não há salvação, em nenhum outro (At 4,12). Eu sou a única porta, disse ele, e quem entrar por mim encontrará certamente a vida eterna (Jo 10,9). Que pecador poderia esperar perdão se Jesus não tivesse satisfeito por nós a justiça divina com seu sangue e com sua morte? “Ele carregou com suas iniqüidades” (Is 53,11). Por isso, o Apóstolo nos anima, dizendo: “Se o sangue dos bodes e dos touros santifica os imundos para a purificação da carne, quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito Santo se ofereceu a si mesmo a Deus como vítima imaculada, purificará a nossa consciência das obras mortas para servir o Deus vivo?” (Hb 9,13-14). Se o sangue dos bodes e dos touros sacrificados tirava nos hebreus as manchas exteriores do corpo, para que pudessem ser admitidos aos sacros misteres, quando mais o sangue de Jesus Cristo, o qual por amor se ofereceu a pagar por nós, tirará os pecados de nossas almas para podermos servir o nosso sumo Deus. Nosso amoroso Redentor, tendo vindo a este mundo somente para salvar os pecadores e vendo já escrita contra nós a sentença de condenação por causa de nossas culpas, que faz? Ele com sua morte pagou o castigo que nos era devido e, cancelando com seu sangue a escritura da condenação, afixou-a na própria cruz em que morre, para que a justiça divina não exigisse de nós a satisfação devida (Cl 2,14).
“Cristo entrou uma só vez no santuário, havendo-nos adquirido uma redenção eterna” (Hb 9,12). Ah, meu Jesus, se não tivésseis encontrado esse modo de obter-me perdão, quem o poderia alcançar? Tinha razão Davi para exclamar: “Publicarei as suas maravilhas” (Sl 9,12). Publicai, ó bem-aventurados, os esforços amorosos que fez nosso Deus para salvar-nos. Visto, pois, ó meu doce Salvador, que me dedicaste tão grande amor, não deixeis de usar de piedade para comigo.Vós me resgatastes das garras de Lúcifer por meio de vossa morte: eu entrego minha alma nas vossas mãos, tendes de salvá-la. “Nas vossas mãos encomendo o meu espírito: vós me remistes, Senhor Deus de verdade” (Sl 30,6).
2.“Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Mas, se alguém pecar, temos um advogado junto do Pai, Jesus Cristo, o justo, e ele é a propiciação pelos nossos pecados” (1Jo 2,1). Jesus Cristo não cessou com sua morte de interceder por nós junto de seu Pai, e mesmo agora é nosso advogado e parece, como escreve S. Paulo, que no céu não tem outra ocupação que mover seu Pai a usar de misericórdia para conosco.“Vive sempre a rogar por nós” (Hb 7,25). E ele ajunta que para isso subiu ao céu o Salvador: “Para se apresentar agora perante a face de Deus por nós outros” (Hb 9,24). Assim como são expulsos da face dos reis os rebeldes, nós, pecadores, não seríamos mais dignos de ser admitidos na presença de Deus nem mesmo para pedir-lhe perdão. Jesus, porém, como nosso Redentor, apresenta-se por nós perante Deus e por seus merecimentos nos obtêm a graça perdida: “Vós vos chegastes ao mediador do Novo Testamento, Jesus, e à aspersão do sangue mais eloqüente que o de Abel” (Hb 12,24). Oh! quanto melhor por nós implora misericórdia o sangue do Redentor, do que o sangue de Abel exigia castigo contra Caim! A minha justiça, disse Deus a S. Maria Madalena de Pazzi, se transformou em clemência com a vingança exercida sobre a carne inocente de Jesus Cristo. O sangue de meu Filho não exige de mim vingança, como o sangue de Abel, mas pede somente misericórdia e compaixão, e minha justiça não pode deixar de ficar aplacada com essas voz. Esse sangue lhe amarra as mãos de tal maneira que não as pode mover, por assim dizer, para tomar aquela vingança, que deveria, dos pecados.
3. “Não te esqueças da graça que te fez teu fiador” (Eclo 29,20). Ah, meu Jesus, eu era incapaz, depois de meus pecados, de satisfazer a divina justiça, mas vós quisestes com a vossa morte satisfazer por mim. Oh! quão grande seria a minha ingratidão se eu me esquecesse dessa tão grande misericórdia. Não, meu Redentor, não quero esquecer-me mais; quero agradecer-vos sempre e mostrar-me grato, amando-vos e fazendo quanto puder para vos contentar. Socorrei-me com as graças que me merecestes com tantos sofrimentos. Amo- vos, ó meu amor, minha esperança. “Minha pomba nas fendas do rochedo” (Ct 2,13). Oh! que refúgio seguro encontraremos sempre nessas fendas sagradas da pedra, que não as chagas de Jesus Cristo. “As fendas da pedra são as chagas do Redentor, diz S. Pedro Damião; nelas a alma fiel põe a sua esperança” (De S. Mat. serm. 3). Ah, aí nos veremos livres da desconfiança causada pela vista de nossos pecados, aí encontraremos as armas para nos defendermos quando formos tentados a pecar novamente. “Confiai, eu venci o mundo” (Jo 16,33). Se não tendes forças bastantes, exorta-nos o Salvador, para resistir aos assaltos que o mundo vos oferece com seus prazeres, confiai em mim, porque eu o venci e agora vós também o vencereis. Pedi para que meu eterno Pai vos conceda, por meus merecimentos, a força e eu vos prometo que tudo que lhe perdirdes em meu nome, ele vos dará (Jo 16,23). E em outro lugar nos reafirma a promessa, dizendo que qualquer graça que pedirmos a Deus por seu amor, ele mesmo, que é uma só coisa com o Pai, no-la dará: “Tudo que pedirdes a meu pai em meu nome, eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho” (Jo 14,13).
Ah! eterno Pai, confiado nos merecimentos e nessas promessas de Jesus Cristo, não vos peço bens da terra, mas somente a vossa graça. É verdade que eu, pelas injúrias que vos fiz, não mereceria nem o perdão nem graças. Mas se eu não o mereço, mereceu-nas vosso Filho, oferecendo seu sangue e sua vida por mim. Perdoai-me, pois, por amor desse vosso Filho. Dai-me uma grande dor de meus pecados e um grande amor a vós. Alumiai-me para que conheça quanto é amável a vossa bondade e quão grande é o amor que me tendes tido desde toda a eternidade. Fazei-me compreender a vossa vontade e dai-me a força para executá-la perfeitamente. Senhor, eu vos amo, e quero fazer tudo o que de mim exigis.
4. Que grande esperança de salvação nos dá a morte de Jesus Cristo. “Quem é que nos há de condenar? Jesus Cristo, que morreu por nós e que também intercede por nós” (Rm 8,34). Quem será que nos condenará, pergunta o Apóstolo: é aquele mesmo Redentor que, para não nos condenar à morte eterna, condenou-se a si mesmo a morrer cruelmente numa cruz. Isso anima S. Tomás de Vilanova a dizer: “Que temes, ó pecador, se pretendes deixar o pecado? Como há de te condenar aquele Senhor que morrer para te não condenar? Como te há de expulsar, quando voltares a seus pés, aquele que desceu do céu a tua procura, quando fugias dele?” Mas ainda maior coragem nos incute o Salvador mesmo, dizendo por Isaías: “Eis que eu te gravei nas minhas mãos; tuas muralhas estão sempre diante de meus olhos” (Is 49,16). Não percas a confiança, ovelha minha, vê quanto me custaste, eu tenho-te escrita nas minhas mãos, nestas chagas que eu sofri por ti: elas sempre me recordam que devo ajudar-te e defender-te contra teus inimigos: ama-me e confia.
Sim, meu Jesus, eu vos amo e em vós confio. O resgatar-me vos custou tanto, mas o salvar-me nada vos custa. A vossa vontade é que todos se salvem e que ninguém se perca. Se meu pecados me espantam,anima-me a vossa bondade que mais deseja fazer-me bem que eu recebê-lo. Ah, meu amado Redentor, vos direi com Jó. “Mesmo que ele me mate esperarei nele... E ele será meu salvador” (Jô 13,15). Ainda que me expulseis de vossa face, ó meu amor, não deixarei de esperar em vós, que sois meu Salvador. Essas vossas chagas e esse vosso sangue me dão suficiente confiança para esperar todos os bens de vós. Eu vos amo, caro Jesus, eu vos amo e em vós espero.
A glorioso S. Bernardo, achando-se enfermo, viu-se uma vez transportado diante do tribunal de Deus, onde o demônio o acusava de seus pecados e afirmava que ele não merecia o paraíso. O santo respondeu: É verdade que eu não mereço o paraíso, mas Jesus tem duplo direito a esse reino: um por ser Filho natural de Deus, outro por havê-lo conquistado com sua morte; ele se contenta com o primeiro e cede-me o segundo, por isso eu peço e espero o paraíso. O mesmo podemos nós dizer, pois S. Paulo escreve que Jesus Cristo quis morrer consumido de dores para obter o paraíso a todos os pecadores arrependidos e resolvidos a emendar-se. “E, sacrificado, foi feito o autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem” (Hb 5,9). E o Apóstolo ajunta: “Corramos ao combate que nos está proposto, olhando para o autor e consumador da fé, Jesus, que, sendo-lhe proposto
o gozo, suportou a cruz, desprezando a ignomínia” (Hb 12,1-2). Combatamos com coragem os nossos inimigos, olhando para Jesus Cristo que, com os merecimentos de sua paixão, nos oferece a vitória e a coroa.
5. Ele disse que subia aos céus para preparar-nos um lugar:“Não se turbe o vosso coração... porque eu vou preparar-vos um lugar” (Jô 14,1). Ele disse e continua a dizer a seu Pai que, visto o Pai nos ter dado a ele, nos quer ter consigo no paraíso: “Pai, quero que aqueles que me destes estejam comigo onde eu estou” (Jo 17,24). Que maior misericórdia poderíamos esperar do Senhor, diz S. Anselmo, que o Padre Eterno dizer a um pecador já condenado ao inferno por seus crimes e que não tinha meios de livrar-se do castigo: “Toma o meu Filho e oferece-o por ti” e o Filho acrescentar: “Toma-me e livra-te do inferno” (Cur Deus homo l. 2, c. 20).Ah, meu Pai amoroso, agradeço-vos haver-me dado vosso Filho por meu Salvador, ofereço-vos sua morte e por seus merecimentos vos suplico compaixão. Agradeço-vos sempre, ó meu Redentor, por haverdes dado vosso sangue e vossa vida para livrar-me da morte eterna. Socorrei-nos, pois, a nós, servos rebeldes, os quais com tanto custo remistes. Ó meu Jesus, única esperança minha, vós me amais e porque sois onipotente, fazei-me santo. Se eu sou fraco, dai-me fortaleza, se estou enfermo pelas culpas cometidas, aplicai à minha alma uma gota de vosso sangue e sarai-me. Dai-me o vosso amor e a perseverança final e fazei que eu morra na vossa graça. Dai-me o paraíso. Eu vos amo, ó Deus amabilíssimo, com toda a minha alma, e espero amar-vos sempre: ajudai a um mísero pecador que vos quer amar.
6. “Tendo nós o grande pontífice que penetrou nos céus, Jesus, Filho de Deus, conservemos a nossa confissão. Não temos um pontífice que não possa compadecer-se de nossas enfermidades, tendo experimentado todas as tentações, exceto o pecado” (Hb 4,14). Já que temos um Salvador que nos abriu o paraíso, que por um certo tempo nos estava fechado pelo pecado, diz o Apóstolo, confiemos sempre nos seus merecimentos, pois ele sabe se compadecer de nós, tendo querido na sua bondade padecer as nossas misérias.“Vamos, pois cheios de confiança, ao trono da graça, para que consigamos misericórdia e encontremos a graça para sermos socorridos oportunamente” (Hb 4,16). Dirijamo-nos, pois, com confiança ao trono da misericórdia, ao qual temos acesso por meio de Jesus Cristo, para que aí encontremos todas as graças de que necessitamos. E como poderemos duvidar, ajunta S. Paulo, que Deus, tendo-nos dado seu Filho, nos tenha dado com ele todos os bens? “Entregou-o por nós todos: como não nos deu com ele todas as coisas?” (Rm 8,32). O cardeal Hugo comenta este passo: Não nos negará o menos, que é a glória eterna, aquele Senhor que chegou a dar-nos o mais, que é o seu próprio Filho. Ó meu sumo bem, que vos darei por um tal dom que me fizestes de vosso Filho? Dir-vos-ei com Davi: O Senhor retribuirá por mim (Sl 137,8). Senhor, não tenho com que retribuir-vos, vosso próprio Filho
é o único que vos poderá agradecer dignamente: ele vos agradece por mim. Pai piedosíssimo, pelas chagas de Jesus, peço-vos que me salveis. Amo-vos, bondade infinita, e, porque vos amo, arrependo-me de vos haver ofendido. Meu Deus, meu Deus, eu quero ser todo vosso; aceitai-me por amor de Jesus Cristo. Ah, meu doce Criador, será possível que, havendo-me dado o vosso Filho, me negueis os vossos bens, a vossa graça, o vosso amor, o vosso paraíso?
7. Assevera S. Leão que foram maiores os bens que nos trouxe a morte de Jesus Cristo, do que os danos a nós causados pelo demônio com o pecado de Adão (Serm. 1, de Asc.). É o que afirma claramente o Apóstolo quando escreve aos Romanos: “Não se deu com o pecado como com o dom. Onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5,20). Explica o Cardeal Hugo: A graça de Cristo é de maior eficácia do que o pecado.“Não há comparação entre o pecado do homem e o dom que Deus fez dando-nos Jesus Cristo; foi grande o delito de Adão, mas muito maior a graça que Jesus Cristo nos mereceu com sua paixão. “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Eu vim ao mundo, atestou o Salvador, para que os homens, mortos pelo pecado, não só recebam por mim a vida da graça, mas uma vida mais abundante do que a que perderam pela culpa. Motivo esse que levou a santa Igreja a chamar feliz a culpa que nos mereceu ter um tal Redentor. “Eis o Deus meu Salvador: agirei com confiança e não recearei” (Is 12,2). Se vós sois um Deus onipotente, ó meu Jesus, e sois também meu Salvador, que receios poderei ter de condenar-me? Se no passado vos ofendi, arrependo-me disso de todo o coração: no futuro quero servir-vos, obedecer-vos e amar-vos: espero firmemente que vós, meu Redentor, que tanto fizestes e padecestes por minha salvação, não me negareis graça alguma necessária para salvar-me (S. Boaventura).
“Tirareis águas com alegria das fontes do Salvador e direis nesse dia: Louvai o Senhor e invocai o seu nome” (Is 12,3). As chagas de Jesus Cristo são essas benditas fontes das quais podemos receber todas as graças se com fé lhas pedirmos.“E sairá da casa do Senhor uma fonte, que regará a torrente dos espinhos” (Joel 3,18). A morte de Jesus é essa fonte prometida que irrigou as nossas almas com as águas da graça e transformou em flores e frutos da vida eterna por seus merecimentos os espinhos do pecado. Como diz S. Paulo, nosso amante Redentor fez-se pobre neste mundo para que nós pelo merecimento de sua pobreza nos tornássemos ricos (2Cor 8,9). Pelo pecado nos fizemos ignorantes, injustos, iníquos, escravos do inferno; Jesus Cristo morrendo e satisfazendo por nós, fez-se por Deus
nossa sabedoria, nossa santificação e nossa redenção, diz o Apóstolo (1Cor 1,20). Fez-se nossa sabedoria, instruindo-nos; nossa justiça, perdoando-nos; nossa santidade, com seu exemplo; nosso resgate, com sua paixão, livrando-nos das garras de Lúcifer. Em suma, diz S. Paulo, os merecimentos de Jesus Cristo nos enriqueceram de todos os bens, de maneira que nada mais nos falta para receber todas as graças (1Cor 1,5).
Ó meu Jesus, meu Jesus, que belas esperanças me incute vossa paixão. Quanto vos devo, meu amado Senhor. Ah, não vos tivesse eu ofendido. Perdoai-me todas as injúrias que vos fiz: inflamai-me para sempre. E como posso temer não ser perdoado e receber a salvação de todas as graças de um Deus onipotente que me deu todo o seu sangue? Ah, meu Jesus, minha esperança, para não me condenardes, quisestes perder a vossa vida: não quero perder-vos mais, bem infinito. Se vos perdi no passado, eu me arrependo e no futuro não quero perder-vos mais, vós me ajudareis para que eu não vos perca mais. Senhor, eu vos amo e quero amar-vos sempre. Maria, depois de Jesus sois a minha esperança; dizei a vosso Filho que vós me protegereis e serei salvo. Amém.

CAPÍTULO XV

Do amor do Eterno Pai dando-nos o seu Filho
1. “Assim Deus amou o mundo que lhe deu seu Filho unigênito” (Jo 3,16).Três coisas devemos considerar nesta dádiva: quem é quem dá, que coisa e com que o amor no-la dá. É sabido que, quanto mais nobre o doador, tanto mais apreciável a dádiva; se alguém recebe uma flor de um monarca, estimará essa flor mais que um tesouro. Quanto, pois, devemos estimar este dom que nos vem das mãos de Deus? E que foi o que nos deu? Seu próprio Filho. Não se contentou o amor desse nosso Deus com dar-nos tantos bens nesta terra, mas chegou a dar-se todo inteiro a nós na pessoa do Verbo encarnado. S. João Crisóstomo diz: Deu-nos não um servo, nem um anjo, mas seu próprio Filho (In Jo. Hom. 26). Por isso exclama a Igreja, cheia de júbilo: “Ó maravilhosa condescendência de vossa ternura! Ó inapreciável rasgo de caridade! Para resgatar o escravo, sacrificastes o Filho!”
Ó Deus infinito, como pudestes usar para conosco de tão admirável piedade? Quem jamais poderá compreender um excesso tão grande, que, para resgatar o escravo, quisésseis sacrificar vosso único Filho? ah, meu benigníssimo Senhor, desde que me destes o que de melhor possuíeis, é justo que eu vos dê o mais que me for possível. Vós quereis o meu amor e eu nada mais de vós desejo que o vosso amor. Aqui tendes o meu mísero coração que eu consagro inteirinho a vos amar. Criaturas todas, saí do meu coração e dai lugar ao meu Deus, que o merece e quer possuí-lo todo e sem partilha. Amo-vos, ó Deus de amor, amo-vos sobre todas as coisas e só a vós quero amar, meu Criador, meu tesouro, meu tudo.
2. Deus nos deu seu Filho e por quê? Só por amor. Pilatos, por temos humano, entregou Jesus aos judeus (Lc 23,25). O Eterno Pai entrega-nos seu Filho, mas pelo amor que nos consagra (Rm 8,32). S.Tomás afirma que numa dádiva o amor vem em primeiro lugar (I q.
38. a. 2). Quando nos fazem um presente, o primeiro dom que recebemos é o amor que o doador nos oferece na dádiva que faz, porque a única razão de um dom gratuito é o amor: quando se dá com outro fim, que não seja o puro afeto, o dom perde a razão de verdadeiro dom. A dádiva que nos fez de seu Filho o Padre Eterno, foi um verdadeiro dom todo gratuito e sem mérito algum da nossa parte. É por isso que se diz que a Encarnação do Verbo foi obra do Espírito Santo, isto é, efetuada por puro amor, como afirma o mesmo santo doutor: “Que o Filho de Deus se revestiu de carne proveio do mais acendrado amor de Deus” (III q. 32, a. 1).
Mas Deus não somente nos deu seu Filho por puro amor, mas no-lo deu igualmente com amor imenso. Foi justamente o que quis Jesus significar, dizendo: “Assim amou Deus o mundo”. A palavra assim denota a grandeza do amor, diz S. João Crisóstomo, com que Deus nos fez essa grande dádiva (In Jo. Hom. 26). E que maior amor poderia um Deus demonstrar-nos do que condenar à morte seu próprio Filho, inocente, para nos salvar a nós, míseros pecadores? “Não poupou a seu próprio Filho, mas entregou-o por nós todos” (Rm 8,32).Se o Padre Eterno pudesse padecer, que dor não sentiria ao ver-se obrigado por sua justiça a condenar o Filho, que amava como a si mesmo, a uma morte tão cruel e cheia de ignomínias? Quis que morresse consumido pelos tormentos e pelas dores, diz Isaías (53,10).Imaginai que estais vendo o Padre eterno com Jesus morto nos braços, dizendo-vos: Ó homens, é este o meu Filho muito amado, em que eu encontrei todas as minhas complacências. Vede como eu o quis ver maltratado pelas vossas iniqüidades (Is 53,8). Ei-lo condenado à morte nessa cruz, aflito, abandonado até de mim, que tanto o amo. E tudo isto eu o fiz para que vós me ameis.
Ó bondade infinita! Ó misericórdia infinita! Ó Deus de minha alma, já que por minha causa quisestes a morte do objeto mais caro ao vosso coração, ofereço-vos por mim o grande sacrifício que vos fez de si mesmo este vosso Filho, e por seus merecimentos vos peço o perdão de meus pecados, o vosso amor, o vosso paraíso. São grandes estes favores que eu vos peço, mas é ainda mais valiosa a oferta que vos apresento. Perdoai-me e salvai-me, ó meu Pai, pelo amor de Jesus Cristo. Se vos ofendi pelo passado, arrependo-me disso mais que de todo o mal e agora eu vos estimo e vos amo mais que todos os bens.
3. Quem, a não ser um Deus de infinito amor, poderia nos amar a tal ponto? S. Paulo escreve: “Mas Deus, que é rico em misericórdia, pela excessiva caridade com que nos amou, nos vivificou em Cristo quando estávamos mortos pelo pecado” (Ef 2,4). Chama o Apóstolo amor excessivo esse amor que Deus nos demonstrou, dando aos homens, por meio da morte de seu Filho, a vida da graça que haviam perdido por seus pecados. Para Deus, porém, não foi excessivo esse amor, pois que Deus é o mesmo amor: “Deus é amor” (1Jo 4,16). Diz S. João que nisso quis Deus fazer-nos ver até aonde chegava a grandeza do amor de um Deus para conosco, enviando seu Filho ao mundo para obter-nos com sua morte o perdão e a vida eterna (1Jo 4,9). Estávamos mortos à graça pelo pecado, e Jesus com sua morte os restituiu a vida. Estávamos na miséria disformes e abomináveis, mas Deus, por meio de Jesus Cristo, tornou-nos belos e caros aos seus olhos divinos. Escreve o Apóstolo: “Ele nos fez agradáveis a si no seu amado Filho” (Ef 1,6). O texto grego diz: fez-nos graciosos. Por isso S. João Crisóstomo ajunta que, se houvesse um pobre leproso todo dilacerado e disforme, e alguém o curasse da lepra e o tornasse belo e rico, qual não seria a sua obrigação para com esse benfeitor? ora, imensamente maior é a nossa dívida para com Deus, pois sendo nossas almas disformes digno as de ódio pelas culpas cometidas, ele por meio de Jesus Cristo não só as livrou dos pecados como também as tornou mais belas e amáveis. “Abençoou-nos com toda a bênção espiritual em bens celestes, em Cristo” (Ef 1,3). Cornélio a Lápide comenta esta passagem: “Gratificou-nos com todos os bens espirituais”. A bênção de Deus é gratificar ou fazer bem e o Padre eterno, dando-nos Jesus Cristo, cumulou-nos de todos os bens, não terrenos para o corpo, mas espirituais para a alma. Em bens celestes, “dando-nos com seu Filho uma vida celeste neste mundo, e no outro uma glória celeste”.
Abençoai-me, pois, fazei-me bem, ó Deus amantíssimo, e que esse benefício seja atrair-me inteiramente ao vosso amor: “Atraí-me pelos laços de vosso amor”. Fazei que o amor que me consagrastes me arrebate em amor pela vossa bondade. Vós mereceis um amor infinito: eu vos amo com o amor de que sou capaz, amo-vos sobre todas as coisas, amo-vos mais do que a mim mesmo. Consagro-vos toda a minha vontade e esta é a graça que vos peço: fazei que de hoje em diante eu viva e faça tudo segundo a vossa vontade, visto que nada mais quereis que o meu bem e minha salvação eterna.
4. “Introduziu-me em sua adega e ordenou em mim a caridade” (Ct 2,4). O meu Senhor, diz a esposa sagrada, conduziu-me à adega, isto é, pôs-me diante dos olhos todos os benefícios que me fez para induzir-me a amá-lo: Ordenou em mim a caridade. Diz um autor que Deus, para conquistar nosso amor, enviou, por assim dizer, contra nós um exército de graças de amor. “Dispôs contra mim a caridade como um exército” (Casp. Sánchez). Segundo o Cardeal Hugo, o dom de si mesmo a nós, que Jesus nos fez, foi a seta reservada predita por Isaías: “Pôs-se como uma seta reservada: escondeu-me na sua aljava” (Is 49,2). Como o caçador reserva a melhor seta para o último tiro que deve abater a fera, assim Deus entre todos os seus benefícios reservou Jesus, até chegar o tempo da graça, e então o enviou como último golpe para ferir de amor os corações dos homens. Ferido por esta seta, dizia S. Pedro a seu Mestre: Senhor, vós bem sabeis que eu vos amo (Jo 21,15).
Ah, meu Deus, vejo-me circundado de todas as partes pelas finezas de vosso amor. Eu também vos amo e se eu vos amo sei que também vós me amais. E quem poderá privar-me de vosso amor? Só o pecado. Mas deste monstro do inferno, vós, pela vossa misericórdia, me haveis de livrar. Prefiro todos os males, a morte mais cruel, mesmo a destruição de meu ser, a ofender-vos com um pecado mortal. Vós, porém, já conheceis minhas quedas passadas, conheceis minha fraqueza, ajudai-me, meu Deus, pelo amor de Jesus Cristo. “Não desprezeis a obra de vossas mãos” (Sl 137,8). Sou a obra de vossas mãos, vós me criastes; não me desprezeis. Se por minhas culpas mereço ser abandonado, mereço não menos que tenhais misericórdia de mim por amor de Jesus Cristo, que vos sacrificou sua vida por minha salvação. Eu vos ofereço os seus merecimentos, que são todos meus, e por eles eu vos peço e espero de vós a santa perseverança com uma boa morte e, entretanto, a graça de viver o resto de minha vida todo consagrado à vossa glória. Basta quanto vos ofendi: eu me arrependo de todo o coração e quero amar-vos quanto posso. Não quero mais resistir ao vosso amor: entrego-me inteiramente a vós. Dai-me a vossa graça e o vosso amor e fazei de
mim o que quiserdes. Meu Deus, eu vos amo e quero e peço-vos sempre o vosso amor: Atendei-me pelos merecimentos de Jesus Cristo. Maria, minha Mãe, rogai a Deus por mim. Amém.

CAPÍTULO XVI
Do amor do Filho de Deus em querer morrer por nós

1. “Eis aí o teu tempo, o tempo dos que amam... e te tornaste extremamente bela” (Ez 16, 8, 13). Quanto nós, os cristãos, somos devedores ao Senhor, por nos fazer nascer depois da vinda de Jesus Cristo! Nosso tempo não é mais o tempo do temor, como era o dos Hebreus, mas é o tempo do amor, havendo um Deus morrido por nossa salvação e para ser amado por nós. É artigo de fé que Jesus nos amou e por nosso amor se entregou à morte: “Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós” (Ef 5,2). E quem poderia fazer morrer um Deus onipotente se ele não quisesse de livre vontade dar a vida por nós? “Eu entrego a minha vida... Ninguém a tira de mim, mas eu a entrego por mim mesmo” (Jo 10,17-18). Por isso diz S. João que Jesus na sua morte deu-nos a última prova que podia dar-nos do seu amor: “Tendo-os amado, amou-os até ao fim” (Jo 13,1). Afirma um autor devoto que Jesus na sua morte nos deu a maior prova de seu amor, nada mais lhe restando depois disso a fazer para nos demonstrar quanto nos amava (Contens. 1. 10, d. 4, c. 1).Meu amado Redentor, vós vos destes todo a mim por amor e eu por amor me dou todo a vós. Destes a vida por minha salvação, eu por vossa glória quero morrer quando e como vos aprouver. Vós não podíeis fazer mais para conquistar o meu amor e eu, ingrato, entreguei-vos por nada. Meu Jesus, arrependo-me disso de todo o coração: perdoai-me por vossa paixão e em prova do perdão concedei-me a graça de amar-vos. Sinto em mim um grande desejo de vos amar e tomo a resolução de ser todo vosso: vejo, porém, minha fraqueza, e vejo as traições que vos fiz: só vós podeis socorrer-me e tornar-me fiel. Ajudai-me, meu amor, fazei que vos ame e nada mais vos peço.
2. Diz o Beato Dionísio Cartusiano que a paixão de Jesus Cristo foi denominada um excesso:“E falavam do excesso que realizaria em Jerusalém” (Lc 9,31), porque foi excesso de piedade e de amor. Ó Deus, qual é o fiel que poderia viver sem amar Jesus Cristo, se meditasse a miúdo na sua paixão? As chagas de Jesus, diz S. Boaventura, são todas chagas de amor, são dardos e chamas que ferem até os corações mais duros e abrasam as almas mais frias. O beato Henrique Suso, para melhor imprimir em seu coração o amor a Jesus crucificado, tomou uma vez um ferro cortante e gravou em seu peito o nome de seu amado Senhor, e estando assim banhado em sangue dirigiu-se à igreja e prostrando-se diante do crucifixo, disse-lhe: Ó Senhor, único amor de minha alma, vede o meu desejo, quereria escrever vosso nome dentro de meu coração, mas não posso.. Vós, que tudo podeis, supri o que falta às minhas forças e imprimi no mais fundo do meu coração o vosso nome adorável, de tal maneira que não possa ser mais dela apagado nem o vosso nome, nem o vosso amor.
“O meu bem amado é cândido e rosado, eleito entre mil” (Ct 5,10). Ó meu Jesus, vós sois todo cândido por vossa ilibada inocência, mas, sobre essa cruz, estais todo vermelho pelas chagas sofridas por mim. Eu vos escolho pelo único objeto de meu amor. E a quem amarei
senão a vós? Que objeto entre todos posso eu encontrar mais amável do que vós, meu Redentor, meu Deus, meu tudo? Eu vos amo, Senhor amabilíssimo, eu vos amo sobre todas as coisas. Fazei que eu vos ame com todos os meus afetos e sem reserva.
3. “Oh! se conhecesses o mistério da cruz”, disse S. André ao tirano. Ó tirano, queria ele dizer, se conhecesses o amor que Jesus Cristo te mostrou, querendo morrer sobre uma cruz para salvar-te, deixarias todos os teus bens e esperanças terrenas para te entregares inteiramente ao amor deste teu Salvador. O mesmo deve dizer-se aos fiéis que crêem na paixão de Jesus Cristo, mas nela não meditam. Ah, se todos os homens pensassem no amor que Jesus Cristo lhes testemunhou na sua morte, quem poderia deixar de amá-lo? Diz o Apóstolo que nosso amado Redentor morreu por nós, para que com o amor que nos demonstrou na sua morte se fizesse senhor de nossos corações. “Para isso Cristo morreu e ressuscitou, para ser senhor tanto dos mortos como dos vivos. Quer, pois, morramos, quer vivamos, somos do Senhor” (Rm 14,9). Portanto, quer morramos, quer vivamos, é justo que sejamos todos de Jesus que a tanto custo nos salvou. Oh! que eu pudesse dizer, como o abrasado S. Inácio, mártir, que teve a sorte de dar a vida por Jesus Cristo: “Que venham sobre mim o fogo, a cruz, as feras, e toda a espécie de tormentos, contanto que goze de ti, ó Cristo” (Ep. ad Rom. c. V). Ó meu caro senhor, morrestes para conquistar minha alma, e eu
que fiz para vos adquirir, bem infinito? Ah, meu Jesus, quantas vezes eu vos perdi por um nada! Miserável! eu já sabia que com o meu pecado perdia a vossa graça, sabia que vos causava um grande desgosto e contudo eu o fiz. Consolo-me que tenho de tratar com uma
bondade infinita, que se esquece das ofensas, mal um pecador delas se arrepende e a ama. Sim, meu Deus, eu me arrependo e vos amo. Perdoai-me e de hoje em diante dominai sobre este coração rebelde. Eu vo-lo entrego e a vós me dou inteiramente: dizei-me o que quereis,
que eu quero fazer tudo. Sim, meu Senhor, quero amar-vos, quero contentar-vos em tudo: dai-me força e espero executá-lo.
4. Jesus com sua morte não cessou de nos amar; ama-nos ainda e procura-nos com o mesmo amor com que veio do céu à nossa procura e a morrer por nós. É célebre a fineza de amor que demonstrou o Redentor a S. Francisco Xavier, quando ele viajava. Durante uma tempestade, uma onda do mar havia-lhe roubado o crucifixo. Chegado o santo à praia, sentia-se triste e desejava recuperar a imagem de seu amado Senhor. E ei que vê um caranguejo vir ao seu encontro com o crucifixo alçado entre suas tenazes. Ele correu-lhe ao encalço e com lágrimas de ternura e amor o recebeu e estreitou ao peito. Oh! com que amor Jesus vai ao encontro da alma que busca. “Bom é o Senhor... para a alma que o busca” (Lm 3,25), isto é, para a alma que o busca com verdadeiro amor. Poder-se-á pensar que possuem este amor aquelas que recusam as cruzes que o Senhor lhes envia? “Cristo não procurou agradar a si mesmo” (Rm 15,3). Cristo não buscou sua vontade e cômodos, diz Cornélio a Lápide, mas sacrificou tudo isso e sua própria vida por nossa salvação. Jesus, por amor de nós, não procurou prazeres terrenos, mas os sofrimentos e a morte, apesar de ser inocente. E nós que procuramos por amor de Jesus Cristo? um dia se queixava S. Pedro, mártir, estando encarcerado por uma injusta acusação que lhe fizeram, e dizia: Mas, Senhor, que mal fiz eu para sofrer esta perseguição? E o crucificado lhe respondeu: e eu que mal pratiquei para estar pregado nesta cruz? Ó meu Salvador, perguntais que mal fizestes? Muito nos amastes e por isso quisestes padecer tanto por nosso amor. E nós, que por nossos pecados merecíamos o inferno, recusaremos padecer o que nos enviardes para nosso bem? Vós sois todo amor, ó meu Jesus, para quem vos procura. eu não busco vossas doçuras e consolações, busco só a vós e a vossa vontade; dai-me o vosso amor e depois tratai-me como vos aprouver. Abraço todas as cruzes que me enviardes, pobreza, perseguições, enfermidades, dores: livrai-me unicamente do mal do pecado e em seguida sobrecarregai-me de todos os males. Tudo será pouco em comparação dos males que vós sofrestes por meu amor.
5. “Para remir o servo nem o Pai poupou o Filho, nem o Filho poupou-se a si mesmo”, diz S. Bernardo (Serm. de pass.). E depois de um tão grande amor para com os homens poderá haver alguém que não ame a esse Deus tão amante? Escreve o Apóstolo que Jesus morreu por nós todos, para que nós vivamos somente para ele e seu amor: Por todos morreu Cristo, para que os que vivem, não vivam mais para si, mas para aquele que morreu por eles (2Cor 5,15). A maior parte dos homens, infelizmente, depois de um Deus haver morrido por eles, vive para os pecados, para o demônio e não para Jesus Cristo. Dizia Platão que o amor é o ímã do amor. E Sêneca afirmava: Ama, se queres ser amado. E como é que Jesus, que, morrendo pelos homens, pareceu enlouquecer de amor, na expressão de S. Cregório (Hom. 6), não conseguiu atrair a si os nossos corações depois de tantas provas de amor? Como é possível que amando-nos tanto não chegou a fazer-se amar de nós? Oh! se vos amassem todos os homens, ó Jesus meu amabilíssimo. Sois um Deus digno de um amor infinito. Mas, meu pobre Senhor, permiti que assim vos chame, sois tão amável, fizestes e padecestes tanto para que os homens vos amassem, e quanto são os que vos amam? Vejo quase todos os homens aplicados em amar ou os parentes, ou os amigos, ou as riquezas, ou as honras, ou os prazeres, e mesmo os animais: mas quantos são os que vos amam, bem infinito? Ó Deus, são muito poucos, mas eu quero estar no número destes poucos, apesar de mísero pecador, que durante tanto tempo também vos ofendi, amando o lodo, separando-me de vós. Agora, porém, eu vos amo e vos estimo sobre todos os bens e só a vós quero amar.
Perdoai-me, meu Jesus, e socorrei-me.
6. Ó cristão, diz S. Cipriano, Deus está contente contigo, chegando até a morrer para conquistar teu amor, e tu não estarás contente com Deus, visto que amas outros objetos, fora de teu Senhor? (Ap. Cont.) Ah, meu amado Jesus, eu não quero ter outro amor que não
seja por vós: estou satisfeito convosco: renuncio a todos os outros afetos, o vosso amor só me basta. Sinto que me dizeis:“Põe-me como selo sobre o teu coração” (Ct 8,6). Sim, meu Jesus crucificado, eu vos ponho e peço-vos que vos ponhais a vós mesmo como um selo sobre o meu coração, para que fique fechado a todo outro afeto que não tenda para vós. No passado eu vos desgostei com outros amores, mas presentemente não há pena que mais me aflija como a recordação de haver com os meus pecados perdido o vosso amor, e no futuro “quem me separará do amor de Jesus Cristo?”
Não, meu amabilíssimo Senhor, depois de me haverdes feito conhecer o amor que me tivestes, não quero mais viver sem vos amar. Eu vos amo, meu amor crucificado, eu vos amo de todo o meu coração e vos entrego esta alma tão procurada e amada por vós. Pelos merecimentos de vossa morte, que tão atrozmente separou vossa bendita alma de vosso corpo, desprendei-me de todo o amor que possa impedir-me de ser todo vosso e de amar-vos de todo o meu coração. Maria, minha esperança, ajudai-me a amar unicamente o vosso dulcíssimo Filho, de tal maneira que eu possa repetir sempre, no decorrer de minha vida: Meu amor foi crucificado. Amém.

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