quinta-feira, 1 de abril de 2010

A Paixão de N.S.J.C, por S. Afonso de Ligório.


A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo


Piedosas e edificantes meditações sobre os sofrimentos de Jesus

Por Sto. Afonso Maria de Ligõrio
Traduzidas pelo Pe. José Lopes Ferreira, C.Ss.R.



CAPÍTULO I
Reflexões gerais sobre a paixão de Jesus Cristo


1. Quanto agrada a Jesus Cristo que nós nos lembremos continuamente de sua paixão e da morte ignominiosa que por nós sofreu, muito bem se deduz de haver ele instituído o Santíssimo Sacramento do altar com o fito de conservar sempre viva em nós a memória do
amor que nos patenteou, sacrificando-se na cruz por nossa salvação.
Já sabemos que na noite anterior à sua morte ele instituiu este sacramento de amor e depois de ter dado seu corpo aos discípulos, disse-lhes — e na pessoa deles a nós todos — que ao receberem a santa
comunhão se recordassem do quanto ele por nós padeceu: “Todas as vezes que comerdes deste pão e beber de deste cálice, anunciareis a morte do Senhor” (1Cor 11,26). Por isso a santa Igreja, na missa, depois da consagração , ordena ao celebrante que diga em nome de Jesus Cristo: “Todas as vezes que fizerdes isto, fazei-o em memória de mim”. E S. Tomás escreve: “Para que permanecesse sempre viva entre nós a memória de tão grande benefício, deixou seu corpo para ser tomado como alimento” (Op. 57). E continua o santo a dizer que por meio de um tal sacramento se conserva a memória do amor imenso que Jesus Cristo nos demonstrou na sua paixão. 2. Se alguém padecesse por seu amigo injúrias e ferimentos e soubesse que o amigo, quando se falava sobre tal acontecimento nem sequer nisso queria pensar e até costumava dizer: falemos de outra coisa — que dor não sentiria vendo o desconhecimento de um tal ingrato? Ao contrário, quanto se consolaria se soubesse que o amigo reconhece dever-lhe uma eterna obrigação e que disso sempre se recorda e se lhe refere sempre com ternura e lágrimas? Por isso é que todos os santos, sabendo a satisfação que causa a Jesus Cristo quem se recorda continuamente de sua paixão, estão quase sempre ocupados em meditar as dores e os desprezos que sofreu o amantíssimo Redentor em toda a sua vida e particularmente na sua morte. S. Agostinho escreve que as almas não podem se ocupar com coisa mais salutar que meditar cotidianamente na paixão do Senhor. Deus revelou a um santo anacoreta que não há exercício mais próprio para inflamar os corações com o amor divino do que o meditar na morte de Jesus Cristo. E a S. Gertrudes foi revelado, segundo Blósio, que todo aquele que contempla com devoção o crucifixo é tantas vezes olhado amorosamente por Jesus quantas ele o contempla. Ajunta Blósio que o meditar ou ler qualquer coisa sobre a paixão traz-nos maior bem que qualquer outro exercício de piedade. Por isso escreve
S. Boaventura: “A paixão amável que diviniza quem a medita” (Stim. div. amor. p. 1. c. 1). E falando das chagas do crucifixo, diz que são chagas que ferem os mais duros corações e inflamam no amor divino as almas mais geladas. 3. Narra-se na vida do Beato Bernardo de Corleone, capuchinho, que desejando seus confrades instruí-lo na leitura foi aconselhar-se com seu crucifixo e o Senhor lhe respondeu: Que ler, que livros! Teu livro quero ser eu crucificado, no qual lerás o amor que te consagro. Jesus crucificado era igualmente o livro predileto de S. Filipe Benício. Ao morrer, o santo pediu que lhe dessem seu livro. Os assistentes não sabiam a que livro se referia; Frei Ubaldo, porém, trouxe-lhe a imagem do crucificado e então exclamou o santo: Este é o meu livro, e beijando as sagradas chagas entregou a Deus sua bendita alma. Nas minhas obras espirituais escrevi repetidas vezes sobre a paixão de Jesus Cristo: julgo, contudo, não ser inútil às almas piedosas ajuntar aqui muitas outras coisas e reflexões, que li em diversos livros ou que me vieram ao espírito. Eu quis aqui escrevê-las para proveito dos outros, mas ainda mais para meu próprio proveito, pois, ao escrever este livrinho, acho-me perto da morte, na idade de 77 anos, e por isso quis reproduzir estas considerações para aparelhar-me para o dia das contas. E de fato eu faço minhas pobres meditações sobre esse assunto, lendo muito a miúdo qualquer trecho, para, quando chegar a hora extrema de minha vida, achar-me acostumado a ter diante dos olhos Jesus crucificado, que é toda a minha esperança: dessa forma conto ter, então, a sorte de entregar minha alma nas suas mãos. Entremos, pois, nas tais reflexões. O Salvador.
1. Adão peca e se rebela contra Deus e sendo ele o primeiro homem, pai de todos os homens, perdeu-se com todo o gênero humano. A injúria foi feita a Deus, motivo por que nem Adão nem os outros homens, com todos os sacrifícios, mesmo oferecendo sua própria vida, poderiam dar uma digna satisfação à Majestade divina; para aplacá-la plenamente era necessário que uma pessoa divina satisfizesse a justiça divina. E eis que o Filho de Deus, movido à compaixão pelos homens, arrastado pelos extremos de sua misericórdia, se oferece a revestir-se da carne humana e a morrer pelos homens, para assim dar a Deus uma completa satisfação por todos os seus pecados e obter-lhes a graça divina que perderam.
Desce, pois, o amoroso Redentor a esta terra e fazendo-se homem quer curar os danos que o pecado causara ao homem. Portanto, quer não só com seus ensinamentos mas também com os exemplos de sua santa vida induzir os homens a observar os preceitos divinos e por essa maneira conseguir a vida eterna. Para esse fim Jesus Cristo renunciou a todas as honras, às delícias e riquezas de que podia gozar neste mundo e que lhe eram devidas como ao Senhor
do mundo, e escolhe uma vida humilde, pobre e atribulada até morrer de dor sobre uma cruz. Foi um grande erro dos judeus pensar que o Messias devia vir à terra para triunfar de todos os seus inimigos com o poder das armas e, depois de os ter debelado e adquirido o domínio do mundo inteiro, deveria tornar opulentos e gloriosos os seus sequazes. Mas se o Messias fosse qual os judeus o desejavam, príncipe soberano e honrado de todos os homens como senhor de todo o mundo, não seria o Redentor prometido por Deus e predito pelos profetas. É o que ele mesmo declara quando responde a Pilatos: “O meu reino não é deste mundo” (Jo 18,36). Por esse motivo repreende S. Fulgêncio a Herodes por ter tão grande temor de ser privado do seu reino pelo Salvador, quando ele não viera para vencer o rei pela guerra, mas a conquistá-lo com sua morte (Serm. 5 de Epiph.).
2. Dois foram os erros dos judeus a respeito do Redentor esperado: o primeiro foi que, quando os profetas falavam dos bens espirituais e eternos, eles o interpretavam dos bens terrenos e temporais.“E a fé reinará nos teus tempos; a sabedoria e a ciência serão as riquezas da salvação; o temor do Senhor esse é o teu tesouro” (Is 33,6). Eis os bens prometidos pelo Redentor, a fé, a ciência das virtudes, o santo temor, eis as riquezas da prometida salvação. Além disso promete que dará remédio aos penitentes, perdão aos pecadores e liberdade aos cativos dos demônios: “Enviou-me para evangelizar os
mansos, para curar os contritos de coração e pregar remissão aos cativos e soltura aos encarcerados” (Is 61,1).
O outro erro dos judeus foi que pretenderam entender da primeira vinda do Salvador o que fora predito pelos profetas da segunda vinda, para julgar o mundo no fim dos séculos. Assim, escreve Davi do futuro Messias que ele deverá vencer os príncipes da terra e abater a soberba de muitos e com a força da espada subjugar toda a terra (Sl 109,6). E o profeta Jeremias escreve: “A espada do Senhor devorará a terra de um extremo a outro” (Lm 12,12). Isso, porém, entende-se da segunda vinda, quando vier como juiz a condenar os malvados. Falando, porém, da primeira vinda, na qual deveria consumar a obra da redenção, mui claramente predisseram os profetas que o Redentor levaria neste mundo uma vida pobre e desprezada. Eis o que escreve o profeta Zacarias, falando da vida abjeta de Jesus Cristo: “Eis que o teu rei virá a ti, justo e salvador; ele é pobre e vem montado sobre uma jumenta e sobre o potrinho da jumenta” (Zc 9,9).
Esta profecia realizou-se plenamente quando Jesus entrou em Jerusalém, assentado sobre um jumento, sendo recebido com todas as honras, como o Messias desejado, segundo o testemunho de S. João (Jo 12,14). Também sabemos que ele foi pobre desde o seu nascimento, tendo vindo a este mundo em Belém, lugar desprezado, e numa manjedoura: “E tu, Belém Efrata, tu és pequenina entre os milhares de Judá, mas de ti é que há de sair aquele que há de reinar em Israel e cuja geração é desde o princípio, desde os dias da eternidade” (Mq 5,2). E essa profecia foi assinalada por S. Mateus (2,6) e S. João (7,42). Além disso escreve o profeta Oséias:“Do Egito chamarei o meu Filho” (11,1), o que se realizou quando Jesus Cristo, como menino, foi levado para o Egito, onde permaneceu sete anos como estranho no meio de gente bárbara, dos parentes e dos amigos, devendo viver necessariamente mui pobremente. Continuou, depois de voltar à Judéia, a levar uma vida pobre. Ele mesmo predisse pela boca de Davi que pobre deveria ser durante toda a sua vida e atribulado pelas fadigas: “Eu sou pobre e vivo em trabalhos desde a minha mocidade” (Sl 87,16).

A expiação.

1. Deus não podia ver plenamente satisfeita a sua justiça com os sacrifícios oferecidos pelos homens, mesmo sacrificando-lhe suas vidas e, por isso, dispôs que seu próprio Filho tomasse um corpo humano e fosse a digna vítima que o reconciliasse com os homens e lhes obtivesse a salvação. “Não quiseste hóstia nem oblação, mas tu me formaste um corpo” (Hb 10,5). E o Filho unigênito se ofereceu voluntariamente a sacrificar-se por nós e desceu à terra para completar o sacrifício com sua morte e assim realizar a redenção do homem: “Eis, aqui venho para fazer, ó Deus, a tua vontade, como está escrito de mim no princípio do livro” (Hb 10,7).
Pergunta o Senhor, referindo-se ao pecador: “Que importará que eu vos fira de novo?” (Is 1,5). Isso dizia Deus, para nos dar a entender que, por mais que punisse os seus ofensores, suas penas não seriam suficientes para reparar a sua honra ultrajada, e por isso enviou seu próprio Filho a satisfazer pelos pecados dos homens, visto que ele podia dar uma digna reparação à justiça divina. Depois declarou por Isaías, falando de Jesus feito vítima para expiar nossas culpas: “Eu o feri por causa dos crimes de meu povo” (53,8), e não se contentou com uma pequena satisfação, mas quis vê-lo abatido pelos tormentos:“E o Senhor quis quebrantá-lo na sua enfermidade” (Is 53,10). Ó meu Jesus, ó vítima de amor, consumida de dores na cruz para pagar os meus pecados, desejaria morrer de dor, pensando quantas vezes vos tenho desprezado depois de tanto me haverdes amado. Não permitais que eu continue a viver tão ingrato a tão grande bondade. Atraí-me todo a vós: fazei-o pelos merecimentos desse sangue que derramastes por mim!
Quando o Verbo divino se ofereceu para remir os homens, de duas maneiras se podia fazer essa redenção: uma por meio do gozo e da glória, outra das penas e dos vitupérios. Ele, porém, que com sua vinda não só pretendia livrar o homem da morte eterna, mas também ganhar a si o amor de todos os corações humanos, repeliu o caminho do gozo e da glória e escolheu o das penas e dos vitupérios (Hb 10,34). A fim, portanto, de satisfazer por nós a justiça divina e juntamente para inflamar-nos com seu santo amor, quis qual criminoso sobrecarregar-se de todas as nossas culpas e, morrendo sobre uma cruz, obter-nos a graça e a vida feliz. É justamente o que exprime Isaías quando afirma: “Verdadeiramente ele foi o que tomou sobre si as nossas fraquezas e ele mesmo carregou com as nossas dores” (Is 53,4).
2. Disso encontram-se duas figuras claras no Antigo Testamento: a primeira era a cerimônia usada todos os anos do — bode emissário — sobre o qual o sumo pontífice entendia impor todos os pecados do povo e por isso todos, cumulando-o de maldições, o enxotavam para a floresta para servir aí de objeto à ira divina (Lv 16,5). Esse bode figurava nosso Redentor, que quis espontaneamente sobrecarregar-se com todas as maldições a nós devidas por nossos pecados (Gl 3,13), feito por nós maldição, para nos obter as bênçãos divinas. E assim escreve o Apóstolo em outro lugar:“Aquele que desconhecia o pecado, fê-lo por nós, para que nós fôssemos feitos justiça de Deus nele” (2Cor 5,21). Como explicam S. Ambrósio e S. Anselmo, aquele que era a mesma inocência, fê-lo pecado; revestiu-se com as vestes do pecador e quis tomar sobre si as penas devidas a nós pecadores, para nos obter o perdão e nos tornar justos aos olhos de Deus.
A segunda figura do sacrifício que Jesus Cristo ofereceu por nós a seu eterno Pai na cruz, foi a “serpente de bronze” suspensa em um poste, que curava os hebreus mordidos pela serpente de fogo, quando para ela olhavam (Nm 21,8). Assim escreve S. João:“Como Moisés suspendeu a serpente no deserto, assim importa que seja levantado o Filho do homem, para que todo o que crê nele não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,14). À luz das profecias.
1. É preciso refletir que no capítulo 2.º da “Sabedoria” está predita a morte ignominiosa de Jesus Cristo. Ainda que as palavras desse capítulo possam se referir à morte de qualquer homem justo, contudo, afirma Tertuliano, S. Cipriano, S. Jerônimo e muitos outros santos Padres, que de modo especial quadram à morte de Cristo: Aí se diz no versículo 18: “Se realmente é o verdadeiro filho de Deus, ele o amparará e o livrará das mãos dos contrários”. Essas palavras correspondem perfeitamente ao que diziam os judeus, quando Jesus estava na cruz: “Confiou em Deus: livre-o agora, se o ama; pois disse que era filho de Deus” (Mt 27,43). Continua o sábio a dizer: “Façamos-lhe perguntas por meio de ultrajes e tormentos... e provemos a sua paciência. Condenemo-lo a uma morte a mais infame” (Sb 2,1920). Os judeus escolheram para Jesus Cristo a morte da cruz, que era a mais ignominiosa, para que seu nome ficasse para sempre aviltado e não fosse mais relembrado, segundo um outro testemunho de Jeremias: “Ponhamos madeira no seu pão e exterminemo-lo da terra dos viventes e não haja mais memória de seu nome” (Jr 11,19). Ora, como podem dizer hoje em dia os judeus ser falso que Jesus fosse o Messias prometido, por ter sido arrebatado deste mundo por uma morte torpíssima, quando seus mesmos profetas haviam predito que ele deveria ter uma morte tão vil?
2. Jesus aceitou, porém, semelhante morte porque morria para pagar os nossos pecados: também por esse motivo quis qual pecador ser circuncidado, ser resgatado quando foi apresentado ao templo, receber o batismo de penitência de S. João. Na sua paixão finalmente quis ser pregado na cruz para pagar por nossos licenciosas liberdades, com a sua nudez reparar a nossa avareza, com os opróbrios a nossa soberba, com a sujeição aos carnífices a nossa ambição de dominar, com os espinhos os nossos maus pensamentos, com o fel a nossa intemperança e com as dores do corpo os nossos prazeres sensuais. Deveríamos por isso continuamente agradecer com lágrimas de ternura ao eterno Pai por ter entregue seu Filho inocente à morte para livrar-nos da morte eterna. “O qual não poupou seu próprio Filho, mas entregou-o por todos nós: como não nos deu também com ele todas as coisas?” (Rm 8,32). Assim fala S. Paulo e o próprio Jesus diz, segundo S. João (3,16): “Assim Deus amou o mundo que lhe deu seu Filho unigênito”. Daí exclamar a santa Igreja no sábado santo:“Ó admirável dignação de vossa piedade para conosco! Ó inestimável excesso de vossa caridade! Para resgatar o escravo, entregastes o vosso Filho”. Ó misericórdia infinita, ó amor infinito de nosso Deus, ó santa fé! Quem isto crê e confessa, como poderá viver ser arder em santo amor para com esse Deus tão amante e tão amável?
Ó Deus eterno, não olheis para mim, carregado de pecados, olhai para vosso Filho inocente, pregado numa cruz, e que vos oferece tantas dores e suporta tantos ludíbrios para que tenhais piedade de mim. Ó Deus amabilíssimo e meu verdadeiro amigo, por amor, pois,
desse Filho que vos é tão caro, tende piedade de mim. A piedade que desejo é que me concedais o vosso santo amor. Ah, atraí-me inteiramente a vós do meio do lodo de minhas torpezas. Consumi, ó fogo devorador, tudo o que vedes de impuro na minha alma e a impede de ser toda vossa.

Nosso fiador

1. Agradeçamos ao Pai e agradeçamos igualmente ao Filho que quis tomar a nossa carne e juntamente os nossos pecados para dar a Deus com sua paixão e morte uma digna satisfação. Diz o Apóstolo que Jesus Cristo se fez nosso fiador, obrigando-se a pagar as nossas dívidas (Hb 7,22). Como mediador entre Deus e os homens, estabeleceu um pacto com Deus por meio do qual se obrigou a satisfazer por nós a divina justiça e em compensação prometeu-nos da parte de Deus a vida eterna. Já com muita antecedência o Eclesiástico nos advertia que não nos esquecêssemos do benefício deste divino fiador, que, para obter a salvação, quis sacrificar a sua vida (Eclo 29,20). E para mais nos assegurar do perdão, diz S. Paulo, foi que Jesus Cristo apagou com seu sangue o decreto de nossa condenação, que continha a sentença da morte eterna contra nós, e a afixou à cruz, na qual, morrendo, satisfez por nós a justiça divina (Cl 2,14). Ah, meu Jesus, por aquele amor que vos obrigou a dar a vida e o sangue no Calvário por mim, fazei-me morrer a todos os afetos deste mundo, fazei que eu me esqueça de tudo para não pensar senão em vos amar e dar-vos gosto. Ó meu Deus, digno de infinito amor, vós me amastes sem reserva e eu quero também amar-vos sem reserva. Eu vos amo, meu sumo Bem, eu vos amo, meu amor, meu tudo.
2. Em suma, tudo o que nós podemos ter de bens, de salvação, de esperança, tudo possuímos em Jesus Cristo e nos seus merecimentos, como disse S. Pedro: “E não há em outro nenhuma salvação, nem foi dado aos homens um outro nome debaixo dos céus em que nós devemos ser salvos” (At 4,12). Assim para nós não há esperança de salvação senão nos merecimentos de Jesus Cristo. Donde S. Tomás, com todos os teólogos, conclui que depois da promulgação do Evangelho nós devemos crer explicitamente, por necessidade não só de preceito, como também de meio, que somente por meio de nosso Redentor nos é possível a salvação. Todo o fundamento de nossa salvação está, portanto, na redenção humana do Verbo divino, operado na terra. É preciso, pois, refletir que ainda que as ações de Jesus Cristo feitas no mundo, sendo ações de uma pessoa divina, eram de um valor infinito, de maneira que a mínima delas bastava para satisfazer a justiça divina por todos os
pecados dos homens, contudo só a morte de Jesus foi o grande sacrifício com o qual se completou a nossa redenção, motivo pelo qual as Sagradas Escrituras se atribui a redenção do homem principalmente à morte por ele sofrida na cruz: “Humilhou-se a si mesmo, feito
obediente até à morte e morte de cruz” (Fl 2,8). Razão por que escreve o Apóstolo que, quando tomamos a sagrada eucaristia, nos devemos recordar da morte do Senhor: “Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste vinho, anunciareis a morte do Senhor, até que ele venha” (1Cor 11,26). Por que é que diz da morte e não da encarnação, do nascimento, da ressurreição? Porque foi esse tormento, o mais doloroso de Jesus Cristo, que completou a redenção.
Por isso dizia S. Paulo: “Não julgueis que eu sabia alguma coisa entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado” (1Cor 2,2). Muito bem sabia o apóstolo que Jesus Cristo nascera numa gruta, que habitara por trinta anos uma oficina que ressuscitara e subira aos céus. Por que então escreve que não sabia outra coisa senão Jesus crucificado? Porque a morte sofrida por Jesus na cruz era o que mais o movia a amá-lo e o induzia a prestar obediência a Deus, a exercer a caridade para com o próximo, a paciência nas adversidades, virtudes praticadas e ensinadas particularmente por Jesus Cristo na cátedra da cruz. S. Tomás escreve: “Em qualquer tentação encontra-se na cruz o auxílio; aí a obediência para com Deus, aí a caridade para com o próximo, aí a paciência nas adversidades, donde assevera Agostinho: A cruz não foi só o patíbulo do mártir, como também a cátedra do mestre”. (In c. 12 ad Heb.).

À sombra da cruz.

1. Almas devotas, procuremos ao menos imitar a esposa dos Cânticos, que dizia: “Eu assentei-me à sombra daquele que tanto desejei” (Ct 2,3). Oh! que doce repouso as almas que amam a Deus encontram nos tumultos deste mundo e nas tentações do inferno e mesmo nos temores dos juízos de Deus, contemplando a sós em silêncio o nosso amado Redentor agonizando na cruz, gotejando seu sangue divino de todos os seus membros já feridos e rasgados pelos açoites, pelos espinhos e pelos cravos. Oh! como a vista de Jesus crucificado afugenta de nossas mentes todos os desejos de honras mundanas, das riquezas da terra e dos prazeres dos sentidos! Daquela cruz emana uma vibração celeste, que docemente nos desprende dos objetos terrenos e acende em nós um santo desejo de sofrer e morrer por amor daquele que quis sofrer tanto e morrer por amor de nós.
Ó Deus, se Jesus Cristo não fosse o que ele é, filho de Deus e verdadeiro Deus nosso criador e supremo senhor, mas um simples homem, quem não sentiria compaixão vendo um jovem de nobre linhagem, inocente e santo, morrer à força de tormentos sobre um madeiro infame, para pagar, não os seus delitos, mas os de seus mesmos inimigos e assim libertá-los da morte em perspectiva? E como é possível que não ganhe os afetos de todos os corações um Deus que morre num mar de desprezos e de dores por amor de suas criaturas? Como poderão essas criaturas amar outra coisa fora de Deus? Como pensar em outra coisa que em ser gratos para com esse tão amante benfeitor? “Oh! se conhecesses o mistério da cruz!” disse S. André ao tirano que queria induzi-lo a renegar a Jesus Cristo, por ter Jesus se deixado crucificar como malfeitor. Oh! se entendesses, tirano, o amor que Jesus Cristo te mostrou querendo morrer na cruz para satisfazer por teus pecados e obter-te uma felicidade eterna, certamente não te empenharias em persuadir-me a renegá-lo; pelo contrário, tu mesmo abandonarias tudo o que possuis e esperas nesta terra para comprazeres e contentares um Deus que tanto te amou. Assim já procederam tantos santos e tantos mártires que abandonaram tudo por Jesus Cristo. Que vergonha para nós, quantas tenras
virgens renunciaram a casamentos principescos, riquezas reais e todas as delícias terrenas e voluntariamente sacrificaram sua vida para testemunhar qualquer gratidão pelo amor que lhes demonstrou este Deus crucificado.
2. Como explicar então que a muitos cristãos a paixão de Cristo faz tão pouca impressão? Isso provém do pouco que consideram nos padecimentos sofridos por Jesus Cristo por nosso amor. Ah, meu Redentor, também eu estive no número desses ingratos. Vós sacrificastes vossa vida sobre uma cruz, para que não me perdesse, e eu tantas vezes quis perder-vos, ó bem infinito, perdendo a vossa graça! Ora, o demônio, com a recordação de meus pecados, pretenderia tornar-me dificílima a salvação, mas a vista de vós crucificado, meu Jesus, me assegura que não me repelireis de vossa face se eu me arrepender de vos haver ofendido e quiser vos amar. Oh! sim, eu me arrependo e quero amar-vos com todo o meu coração. Detesto aqueles malditos prazeres que me fizeram perder a vossa graça. Amo-vos, ó amabilidade infinita, e quero amar-vos sempre e a recordação de meus pecados servirá para me inflamar ainda mais no vosso amor, que viestes em busca de mim quando eu de vós fugia. Não, não quero mais separar-me de vós, nem deixar mais de vos amar, ó meu Jesus. Maria, refúgio dos pecadores, vós que tanto participastes das dores de vosso Filho na sua morte, suplicai-lhe que me perdoe e me conceda a graça de o amar.

CAPÍTULO II

Reflexões particulares sobre os padecimentos de Jesus Cristo na sua morte O homem das dores.

1. Vamos considerar as penas particulares que Jesus Cristo sofreu na sua paixão e que já há muitos séculos foram preditas pelos profetas, especialmente por Isaías no capítulo 53. Este profeta, como dizem S. Ireneu, S. Justino, S. Cipriano, e outros falou tão claramente dos sofrimentos de nosso Redentor, que parece ser um outro evangelista. S. Agostinho afirma que as palavras de Isaías, referentes à paixão de Jesus Cristo, requerem mais as nossas reflexões e lágrimas que explicações dos sagrados intérpretes. Hugo Grotius escreve que os próprios judeus antigos não puderam negar que Isaías falava do Messias prometido por Deus (De ver. relig. Cti. l.5, § 19). Alguns quiseram aplicar os passos de Isaías a outros personagens nomeados nas Escrituras, fora de Jesus Cristo. Mas diz Grotius:“Quem poderá nomear um dos reis ou dos profetas a quem quadrem essas coisas? Seguramente ninguém”. Assim escreve esse autor, apesar de ele mesmo ter várias vezes tentado aplicar a outras pessoas as profecias que falavam do Messias.
Isaías escreve: “Quem deu crédito ao que nos ouviu? E a quem foi revelado o braço do Senhor?” (53,1). Isso se realizou exatamente, como diz S. João, quando os judeus, não obstante terem visto tantos milagres operados por Jesus Cristo, que bem o mostravam como
Messias enviado por Deus, não quiseram crer nele (Jo 12,37-38). Quem dará crédito a quanto foi por nós ouvido? perguntava Isaías, e quem reconheceu o braço, isto é, o poder do Senhor? Com essas palavras predisse Isaías a obstinação dos judeus em não querer crer em Jesus Cristo como o seu Redentor. Figurava-se-lhes que o Messias deveria circundar-se neste mundo de uma grande pompa, vivendo entre homens de sua grandeza e poder, triunfando de todos os seus inimigos, enchendo de riquezas e honras o povo judeu. Mas a coisa era outra. O profeta ajunta as palavras acima referidas: “Subirá como arbusto diante dele e como raiz que sai de uma terra sequiosa” (Is 52,2). Julgavam os judeus que o Salvador deveria aparecer qual soberbo cedro do Líbano. Isaías, porém, predisse que se faria ver como um arbusto humilde ou como uma raiz que nasce de uma terra árida, privada de toda a beleza e esplendor: “Não tem beleza nem formosura!”
2. Continua então Isaías a descrever a paixão de Jesus Cristo: “E nós o vimos e não tinha aparência e nós o desejamos” (Is 53,2).Tendo-o contemplado, desejamos reconhecê-lo, mas não o pudemos, porque nada mais divisamos que um homem de dores:“Um objeto de desprezo e o último dos homens, um homem de dores... por isso nenhum caso fizemos dele” (Is 53,3). Adão, pelo orgulho de não querer obedecer ao preceito divino, trouxe a ruína para todos os homens. O Redentor, com sua humildade, quis curar uma tal desgraça, contentando-se com ser tratado com o último e mais abjeto dos homens, reduzido a extrema baixeza. Isso faz S. Bernardo exclamar: “Ó baixíssimo e altíssimo! ó humilde e sublime! ó opróbrio dos homens e glória dos anjos! Ninguém mais sublime que ele, ninguém mais humilde” (Serm. 37). Se, pois, o Senhor mais alto que todos, ajunta o santo, se tornou o mais baixo, nenhum de nós deve ambicionar ser anteposto aos demais e temer ser preferido por alguém. Eu, porém, ó meu Jesus, tenho medo de ser posposto a alguém, e desejaria ser preferido a todos. Senhor, dai-me humildade. Vós, meu Jesus, com tanto amor abraçais os desprezos, para ensinar-me a ser humilde e amar a vida oculta e abjeta e eu quero ser estimado por todos e fazer figura em tudo. Ah, meu Jesus, dai-me o vosso amor, que ele me tornará semelhante a vós. Não me deixeis viver mais ingrato ao amor que me dedicais. Vós sois o todo poderoso, tornai-me humilde, tornai-me santo, tornai-me todo vosso.
“O varão de dores”, denominou-o ainda Isaías. A Jesus Crucificado muito bem se aplica o texto de Jeremias: “Grande como o mar é a tua dor” (Lm 2,13). Como no mar deságuam todas as águas dos rios, assim em Jesus Cristo se reuniram para atormentá-lo todas as dores
dos enfermos, todas as penitências dos anacoretas e todas as contusões e vilipêndios suportados pelos mártires. Ele foi cumulado de dores na alma e no corpo. “E todas as tuas ondas fizeste vir sobre mim” (Sl 87,8). Meu Pai, dizia nosso Redentor pela boca de Davi, dirigistes sobre mim todas as ondas de vosso desprezo e na morte afirmava que expirava submerso num mar de dores e de ignomínias:
“Cheguei ao alto mar, e a tempestade me submergiu” (Sl 68,3). Escreve o Apóstolo que Deus, mandando seu Filho pagar com seu sangue as penas devidas às nossas culpas, queria com isso demonstrar quão grande era a sua justiça. “Jesus Cristo, a quem Deus propôs para ser vítima de propiciação pela fé em seu sangue, a fim de manifestar a sua justiça” (Rm 3,25). Notai, para manifestação de sua justiça!

Em forma de escravo.

1. Para fazer idéia do quanto padeceu Jesus Cristo durante sua vida e especialmente na sua morte, é preciso considerar o que disse o mesmo Apóstolo na carta aos Romanos: “Deus, enviando seu Filho em carne semelhante à do pecado, condenou o pecado na carne por causa do mesmo pecado” ( Rm 8,3). Jesus Cristo, enviado pelo Pai a remir o homem, revestido da carne infecta do pecado de Adão, apesar de não ter contraído a mancha do pecado, contudo tomou sobre si as misérias contraídas pela natureza humana em castigo do pecado, e se ofereceu ao Padre eterno a satisfazer com suas penas a justiça divina por todas as culpas dos homens: “Foi oferecido porque ele mesmo quis” e o Pai “carregou sobre ele a iniqüidade de todos nós”, como escreve Isaías (53,7 e 6). Eis, pois, Jesus carregado com todas as blasfêmias, com todos os sacrilégios, torpezas, furtos, crueldades, com todas as malvadezas que cometeram e cometerão ainda todos os homens. E ei-lo em suma feito o objeto de todas as maldições divinas aos homens por seus crimes. “Cristo nos remiu da maldição da lei, fazendo-se por nós maldito” (Gl 3,13). As dores, que Jesus sofreu, tanto internas como externas, sobrepujaram imensamente todas as possíveis nesta vida (III q. 46 a. 6).
Quanto à dor externa do corpo, basta saber que Jesus recebeu do Pai um corpo adaptado especialmente para sofrer. “Preparastes-me um corpo” (Hb 10,5). Nota S. Tomás que Nosso Senhor padeceu no tato, pois lhe foram rasgadas as carnes; no gosto, com fel e vinagre;
no ouvido, com as blasfêmias e zombarias que lhe dirigiam; na vista, vendo sua mãe assisti-lo na morte. Padeceu também em todos os seus membros: a cabeça foi atormentada com os espinhos, as mãos e os pés com os cravos, a face com as bofetadas e escarros, todo o seu corpo com os açoites, na maneira já indicada por Isaías, isto é, que o Redentor na sua paixão ia se tornar semelhante a um leproso, que não possui um membro são, causando horror a quem o vê, por ser uma só chaga da cabeça aos pés. Basta dizer que Pilatos julgou poder livrar Jesus da morte, apresentando-o ao povo depois de flagelado, e por isso o conduziu à varanda, dizendo: “Eis aqui o homem”. S. Isidoro diz que os homens, quando a dor é intensa e persistente, perdem a sensação da dor pela agudeza da própria dor. Mas isso não se deu com Jesus: as últimas dores foram igualmente mais atrozes como as primeiras e os primeiros golpes da flagelação foram tão dolorosos quanto os últimos, porque a paixão de nosso Redentor não foi obra dos homens, mas da justiça de Deus, que quis castigar o Filho com todo o rigor que mereciam os pecados dos homens.
E assim, meu Jesus, com a vossa paixão quisestes relevar-me a pena que por meus pecados me era devida. Por isso, se eu vos tivesse ofendido menos, menos teríeis de padecer na vossa morte. E eu, cônscio disso, poderei viver para o futuro sem vos amar e sem chorar as ofensas que vos fiz? Meu Jesus, arrependo-me de vos haver desprezado e amo-vos sobre todas as coisas. Logo, não me desprezeis: permiti que vos ame, pois não quero mais amar senão a vós. Muitíssimo ingrato seria eu se, depois de tantas misericórdias usadas para comigo, amasse no futuro outro objeto além de vós.
2. Eis como Isaías anunciou tudo de antemão: “E nós o reputamos como um leproso, ferido por Deus e humilhado. Mas ele foi ferido pelas nossas iniqüidades, foi quebrantado pelos nossos crimes: o castigo que nos devia trazer a paz caiu sobre ele e nós fomos curados por suas contusões.Todos nós andamos desgarrados, como ovelhas, cada um se extravia por seu caminho; e o Senhor carregou sobre ele a iniqüidade de todos nós” (Is 53,4-6). Jesus, cheio de caridade, de boa vontade, se ofereceu, sem réplica, a executar a vontade do Padre, que queria vê-lo dilacerado pelos carnífices a seu bel-prazer: “Foi oferecido porque ele mesmo o quis e não abriu sua boca... e, como um cordeiro diante do que o tosquia, não abriu sua boca” (Is 53,7). Como um cordeiro que se deixa tosar sem se lamentar, assim nosso amoroso Salvador em sua paixão deixou-se tosar, isto é, arrancar-lhe a pele sem abrir a boca. Que obrigação tinha ele de satisfazer por nossos pecados? Nenhuma, e contudo quis sobrecarregar-se deles para livrar-nos da condenação eterna. Cada um de nós, pois, tem obrigação de ser-lhe grato e dizer-lhe: “Vós, porém, livrastes a minha alma para que ela não perecesse; lançastes para trás de vossas costas todos os meus pecados” (Is 38,17). E assim fazendo-se Jesus voluntariamente fiador de todas as nossas dívidas, por sua bondade, quis sacrificar tudo por nós, até dar a vida entre as dores da cruz, como ele mesmo o atesta em S. João: “Eu ponho minha vida... ninguém a tira de mim, mas eu de mim mesmo a ponho” (Jo 10,17).

Rei dos mártires.

1. S. Ambrósio, falando da paixão de nosso Senhor, escreve que Jesus, nas dores que por nós sofreu, “teve êmulos; nunca, porém, imitadores” (In Lc 22). Procuraram os santos imitar Jesus Cristo nos sofrimentos, para se tornarem semelhantes a ele, mas qual deles chegou a igualá-lo nos seus tormentos? Ele certamente padeceu por nós mais do que todos os penitentes, todos os anacoretas e todos os mártires, pois Deus o encarregou de satisfazer por todos os pecados dos homens ao rigor de sua divina justiça: “E o Senhor pôs sobre ele a iniqüidade de todos nós” (Is 53,2). S. Pedro diz que Jesus “carregou com os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro” (1Pd 2,24) e S.Tomás escreve que Jesus Cristo ao remir-nos não só teve em vista a virtude e o mérito infinito que possuíam as suas dores, mas quis também sofrer uma dor que bastasse para satisfazer plenamente e com rigor por todos os pecados do gênero humano (III q. 46, a. 6). E S. Boaventura: “Quis sofrer tanta dor como se tivesse feito todos os pecados”! O próprio Deus soube agravar as penas de Jesus que elas fosse proporcionadas ao inteiro pagamento de todas as nossas dívidas, com o que combina o dito de Isaías: “E o Senhor quis triturá-lo na sua enfermidade” (Is 53,10). “Pelo que se lê na vida dos santos mártires, parece que alguns deles sofreram dores mais acerbas que Jesus Cristo. Mas S. Boaventura diz que as dores de mártir algum poderão ser comparadas em vivacidade às do nosso Salvador, que foram as maiores possíveis na vida presente” (De pass. Cti.). O mesmo é confirmado por S. Tomás. “As dores de Cristo foram as maiores possíveis na vida presente” (III q. 46, a. 6). E S. Lourenço Justiniano diz que Nosso Senhor
em cada tormento que sofreu, em razão da acerbidade da dor, experimentou todos os suplícios dos mártires (De agon. Cti.).Tudo isso já o predissera em poucas palavras o rei Davi, quando, falando da pessoa de Cristo, dizia: “Sobre mim se desfechou o teu furor... Sobre mim passaram as tuas iras (Sl 87,8-17). Assim toda a ira divina concebida contra os nossos pecados foi descarregada sobre a pessoa de Jesus Cristo, tornando-se claro o que dele diz o Apóstolo: “Fez-se por nós maldito” (Gl 3,13). 2. Até agora temos falado senão unicamente das dores externas de Jesus Cristo. Mas quem poderá explanar as suas dores internas, que sobrepujaram mil vezes as externas? Essas penas internas foram tão acerbas, que no horto de Getsêmani o fizeram suar sangue de todo o seu corpo e afirmar que bastavam para dar-lhe a morte: “Triste está a minha alma até à morte” (Mt 26,38). E se essa tristeza era suficiente para matá-lo, por que não morre? Porque ele mesmo impede a morte, responde S.Tomás, querendo conservar a vida para poder sacrificá-la pouco depois do patíbulo da cruz. Essa tristeza do horto afligiu tão dolorosamente a Jesus Cristo, porque ele a suportou durante sua vida inteira, visto que desde que começou a viver teve sempre diante dos olhos os motivos de sua dor interna. Entre esses motivos, o mais doloroso foi-lhe ver a ingratidão dos homens ao amor que lhes testemunhava na sua paixão. Apesar de aparecer no horto um anjo a confortá-lo, segundo S. Lucas (22,43), contudo esse conforto em vez de aliviar-lhe a pena mais a acerbou.“O conforto não diminuiu, mas aumentou a dor”, diz o Ven. Beda. O anjo o confortou a padecer com mais ânimo pela salvação do homem, representando-lhe a grandeza do fruto de sua paixão, mas não lhe diminuiu a grandeza da dor. Imediatamente depois da aparição do anjo, escreve o evangelista, Jesus entrou em agonia e suou sangue em abundância, chegando a molhar a terra. (Lc 22,43 e 44).
S. Boaventura afirma que a dor de Jesus chegou ao auge, de maneira que o aflito Senhor ao ver as penas que devia sofrer no fim de sua vida ficou tão espavorido que suplicou a seu Pai que o livrasse desse tormento: “Meu Pai, se for possível, passe de mim este cálice” (Mt 26,39). Isso ele o diz não para se ver livre de tal pena, já que ele se oferecera a sofrê-la espontaneamente: “Foi oferecido porque ele mesmo o quis”, mas para nos fazer compreender a angústia que sentia, submetendo-se a essa morte tão dolorosa para os sentidos. Seguindo, porém, a razão, ele, tanto para secundar a vontade do Pai, como para obter-nos a salvação que tanto desejava, ajuntou imediatamente: “Contudo não se faça como eu quero, mas como vós o quereis”. E continuou a rezar assim e a resignar-se: “E rezou pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras” (Mt 26,39 e 44).

A vítima.

1. Mas sigamos as predições de Isaías. Ele predisse as bofetadas, as punhadas, os escarros e outros maus tratos que Jesus sofreu na noite que precedeu a sua morte, por meio dos carrascos que o conservaram preso no palácio de Caifás para conduzi-lo na manhã seguinte a Pilatos, a fim de o condenar à morte de cruz: “Eu entreguei
o meu corpo aos que me feriam e as minhas faces aos que me arrancavam cabelos da barba; não virei o meu rosto dos que me afrontavam e cuspiam em mim” (Is 50,6). Esses maus tratos foram descritos por S. Marcos, que ajunta que esses algozes, tratando Jesus de falso profeta, escarneceram-no, cobrindo-lhe a face com um pano, dando-lhe punhadas e bofetadas e o importunavam a que profetizasse quem lhe havia batido (Mc 14,65). Continuando, Isaías fala da morte de Jesus:“Será levado à morte como uma ovelha ao matadouro” (53,7). Lê-se nos Atos dos Apóstolos (8,32) que o eunuco da rainha Candace, lendo esse passo, perguntou a S. Filipe de quem se entendiam essas palavras e o santo explicou-lhe todo o mistério da redenção, operado por Jesus Cristo. O eunuco então por Deus iluminado quis ser batizado imediatamente. Isaías prediz em seguida o grande fruto que recolheria o mundo da morte do Salvador, devendo ela produzir espiritualmente muitos
santos: “Se tiver dado sua alma pelo pecado, verá a sua descendência perdurável... com sua ciência, aquele mesmo justo, meu servo, justificará a muitos (53,10 e 11).
2. Davi também predisse outras circunstâncias mais particulares da paixão de Jesus, especialmente no salmo 21. Aí, afirmou que deveria ter as mãos e os pés atravessados por cravos, podendo-se contar todos os seus ossos (21,18 e 19).Predisse que antes de ser crucificado lhe arrancariam as vestes, que seriam distribuídas entre os carnífices: isso quanto às vestes exteriores, porque a interior, que era inconsútil, deveria ser posta em sorte (v. 19). Essa profecia foi relatada por S. Mateus (c. 27 v. 35) e S. João (c. 19 v. 23). O que escreve S. Mateus das blasfêmias e zombarias dos judeus contra Jesus pregado na cruz: “E os que passavam por ali o blasfemavam, movendo suas cabeças e dizendo: Ah, tu que destróis o templo de Deus e em três dias o reedificas! salva-te a ti mesmo; se és o Filho de Deus, desce da cruz!” Do mesmo modo também os príncipes dos sacerdotes, escarnecendo com os escribas e anciãos, diziam: Salvou a outros e a si mesmo não se pode salvar; se é o rei de Israel, desça agora da cruz e nós creremos nele. Confiou em Deus, livre-o agora se o ama, pois disse: “Que sou o Filho de Deus” (Mt 27,39 a 43), já Davi havia predito com estas palavras: “Todos os que me viam escarneciam de mim, falavam com os lábios e menearam com a cabeça. Esperou no Senhor, livre-o, salve-o se é que o ama” (Sl 21,8-9).
Abandonado por todos.

1. Predisse ainda Davi o grande tormento que Jesus deveria sofrer na cruz, vendo-se abandonado de todos e até de seus discípulos, afora S. João e a Santíssima Virgem. Esta mãe amorosa com suas presença não diminuía a pena do Filho, mas antes a aumentava, em razão da compaixão que sentia Jesus, vendo-a tão aflita, por causa de sua morte. E assim é que o pobre Senhor nas angústias de sua morte não teve quem o consolasse, o que já foram profetizado por Davi: “Esperei que alguém se entristecesse comigo e ninguém apareceu e esperei que alguém me consolasse e não o achei” (Sl 68,21). Mas a maior pena de nosso atribulado Redentor foi a de ver-se abandonado até por seu eterno Pai, exclamando então, como já previra Davi: “Deus, olhai para mim! Por que me abandonastes? Os clamores de meus pecados são causa de estar longe de mim a salvação” (Sl 21,2). Como se dissesse: Meu Pai, os pecados dos homens (que chamo meus, porque deles me encarreguei) me impedem de me libertar destas dores, que me dão cabo da vida e vós, meu Deus, por que me abandonais no meio de tantas aflições? A estas palavras de Davi correspondem as de S. Mateus, narrando o que disse Jesus pouco antes de sua morte: “Eli, Eli, lamma sabacthani?” Deus meu, Deus meu, por que me abandonastes? (Mt 27,46). 2. De tudo isso bem se deduz quão injustamente se recusaram os judeus a reconhecer Jesus Cristo como seu Messias e Salvador, por ter ele padecido uma morte tão ignominiosa. Eles, porém, não se dão conta de que se Jesus Cristo, em vez de morrer como réu na cruz, tivesse tido uma morte honrosa e gloriosa aos olhos dos homens, não seria mais o Messias prometido por Deus e predito pelos profetas, os quais muitos séculos antes haviam anunciado que nosso Redentor deveria morrer saciado de dores. “Oferecerá a face ao que o ferir e será saciado de opróbrios” (Lm 3,30). Todas essas humilhações e todos esses sofrimentos de Jesus Cristo, já preditos pelos
profetas, não chegaram nem sequer ao conhecido de seus discípulos senão depois de sua ressurreição e ascensão ao céu. “Não tiveram conhecimento destas coisas anteriormente seus discípulos, mas quando Jesus foi glorificado recordaram-se de que essas coisas foram
escritas a respeito dele e assim lhe fizeram” (Jo 12,16).

Copiosa redenção.

1. Em suma, com a paixão de Jesus Cristo, suportada com tantas dores e ignomínias, se realizou o que escreveu Davi: “A justiça e a paz se deram o ósculo” (Sl 84,11), pois, pelos merecimentos de Jesus Cristo, os homens obtiveram a paz com Deus e em razão da morte do Redentor a justiça divina ficou satisfeita superabundantemente. Diz-se superabundantemente, porque, para remir-nos, não era necessário que Jesus sofresse tantos tormentos e tantos opróbrios, mas bastava uma só gota de seu sangue, uma simples súplica sua para salvar o mundo inteiro. Ele, porém, para aumentar a nossa confiança e para mais nos inflamar em seu amor, quis que nossa redenção não fosse simplesmente suficiente, mas
superabundante, como predisse Davi: “Espere Israel no Senhor, porque no Senhor está a misericórdia e nele se encontra copiosa redenção” (Sl 129,6). A mesma coisa exprimira Jó quando, falando da pessoa de Cristo, disse: “Oxalá pesassem numa balança os meus pecados, pelos quais mereci a ira e a calamidade que padeço:Ver-se-ia que esta era mais pesada que a areia do mar” (Jó 6,2). Também aqui Jesus por boca de Jó chamou pecados seus e nossos pecados, já que se obrigara a satisfazer por nós, para fazer nossa a sua justiça (st. Ag. s. 21). Por isso a glossa assim comenta o citado texto de Jó: “Na balança da justiça divina a paixão de Cristo pesa mais que os pecados da natureza humana”. S. Lourenço Justiniano por essa razão encoraja todo pecador realmente arrependido a esperar com certeza o perdão pelos merecimentos de Jesus Cristo, dizendo-lhe: “Mede teus delitos com as aflições que Cristo padeceu”. As vidas de todos os homens não seriam suficientes para satisfazer por um só pecado, mas os tormentos de Jesus Cristo pagaram por todos os nossos delitos.“Ele é a propiciação pelos nossos pecados” (1Jo 2,2). Isso significa: Pecador, não meças tuas culpas com tua contrição, desde que todas as tuas obras não podem obter-te o perdão; mede-as antes com os sofrimentos de Jesus Cristo e deles espera o perdão, pois teu Redentor pagou abundantemente por ti.
2. Ó Salvador do mundo, nas vossas carnes dilaceradas pelos flagelos, nos espinhos, nos cravos, reconheço o amor que me tendes e a minha ingratidão cumulando-vos de injúrias depois de tanto amor: vosso sangue, porém, é minha esperança, pois, com o preço desse sangue, me livrastes do inferno tantas vezes por mim merecido. Ó Deus, que seria de mim por toda a eternidade, se não tivésseis pensado em salvar-me por meio de vossa morte? Miserável que sou, eu sabia que, perdendo a vossa graça, me condenava a mim mesmo a viver para sempre no desespero e longe de vós no inferno, e assim mesmo ousei muitas vezes voltar-vos as costas. Torno, porém, a repetir: vosso sangue é minha esperança. Oh! tivesse antes morrido e não vos tivesse ofendido. Ó bondade infinita, mereceria ficar cego e
vós me iluminastes com nova luz; mereceria ficar mais endurecido e vós me comovestes e compungistes. Agora detesto mais do que a morte os desprezos que vos fiz e sinto um grande desejo de vos amar. Estas graças que de vós recebi asseguram-me que já me perdoastes e que me quereis salvar. Ah, meu Jesus, e quem poderá deixar de amar-vos no futuro e amar alguma coisa fora de vós? Eu vos amo, ó meu Jesus, e em vós confio, aumentai em mim esta confiança e este amor, para que de hoje em diante me esqueça de tudo e não pense senão em amar-vos e dar-vos prazer. Ó Maria, Mãe de Deus, obtende-me que seja fiel a vosso Filho, e a meu Redentor.

CAPÍTULO III

Reflexões sobre a flagelação, a coroação de espinhos e crucifixão de Jesus Cristo

Sobre a flagelação.

1. Escreve S. Paulo a respeito de Jesus Cristo: “Aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de escravo” (Fl 2,7). S. Bernardo acrescenta o seguinte a esse texto: “Não só a tomou a forma e escravo, para viver sujeito, mas a de mau escravo para ser açoitado”. É certo que a flagelação foi o tormento mais cruel que abreviou a vida de nosso Redentor, porque a grande efusão de sangue (já por ele predita, quando disse: Este é o meu sangue do Novo Testamento, que será derramado por muitos (Mt 26,2), foi a causa principal de sua morte. É verdade que esse sangue foi derramado primeiramente no horto, na coroação de espinhos, na crucifixão, em maior abundância, porém, na flagelação. Ela foi para Jesus Cristo sumamente vergonhosa e oprobriosa, pois era o castigo reservado aos escravos, como se deduz do L. Servorum f. f. de Poenis. Os tiranos, depois de haver condenado à morte os santos mártires, mandavam que fossem antes flagelados e depois trucidados. Nosso Senhor, porém, foi flagelado antes de ser condenado à morte. Ele mesmo havia anunciado a seus discípulos de modo particular essa flagelação: “Será entregue aos gentios, encarnecido e açoitado” (Lc 18,32), querendo significar-lhe as grandes dores que lhe traria esse tormento.
2. Foi revelado a S. Brígida que um dos algozes mandou que Jesus se despojasse por si mesmo de suas vestes; ele obedeceu e abraçou em seguida a coluna à qual foi amarrado e então flagelado tão cruelmente que seu corpo ficou todo dilacerado. Diz a revelação que os açoites não só feriam como também rasgavam suas carnes sacrossantas (Revel. 1.4 c. 70). E foi de tal maneira dilacerado, que se viam no peito as costelas descobertas. Quadra com isso o que escreve S. Jerônimo: “Os açoites retalharam o sacratíssimo corpo de Deus” (In Mt) e S. Pedro Damião, afirmando que os algozes tanto se fatigaram na flagelação que chegaram a perder as forças. Tudo isso há havia predito Isaías, quando dizia: “Ele foi quebrantado por nossos crimes” (53,5). Quebrantado significa o mesmo que moído, pisado. Ó meu Jesus, sou eu um dos vossos mais cruéis carrascos, que vos flagelei com os meus pecados; tende, porém, piedade de mim. Ó meu amável Salvador, é muito pouco um coração para vos amar. Não quero viver mais para mim mesmo, mas viver só para vós, meu amor, meu tudo. Digo-vos, pois, com S. Catarina de Gênova: “Ó amor, ó amor, não mais pecados”. Basta quanto vos ofendi; espero agora ser vosso e com vossa graça quero ser sempre vosso por toda a eternidade.

Sobre a coroação de espinhos.

1. A Santíssima Virgem revelou a S. Brígida que a coroa de espinhos cingia toda a sagrada cabeça de seu Filho até ao meio da fronte e que os espinhos foram enterrados com tanta violência que o sangue escorria em torrentes pela face, de modo que o rosto de Jesus parecia todo coberto de sangue (Revel. c. 70). Escreve Orígenes que essa coroa de espinhos não foi retirada da cabeça do Senhor senão depois de haver ele expirado na cruz. Sendo a veste interior de Jesus não costurada, mas tecida por inteiro, não foi dividida entre soldados, como as outras vestes exteriores, mas posta a sorte, segundo S. João (19,20 e 24). Ora, devendo tirar-se essa veste pela cabeça ao ser Jesus dela despojado, segundo a opinião de vários autores, foi-lhe tirada a coroa e novamente reposta antes de ser cravado na cruz.
2. Está escrito no Gênesis:“Amaldiçoada será a terra na tua obra... ela te produzirá espinhos e abrolhos” (Gn 3,17-18). Esta maldição foi fulminada por Deus contra Adão e contra toda a sua descendência. Sob a expressão terra entende-se aí não somente a terra material, mas também a carne humana que, infeccionada pelo pecado de Adão, não gera senão espinhos de culpas. Para remediar justamente esta infecção, diz Tertuliano (Lb. cont. Hebr.), era necessário que Jesus Cristo oferecesse a Deus em sacrifício esse grande tormento da coroação de espinhos. Esse tormento de espinhos, além de ser extremamente doloroso, foi acompanhado de bofetadas, de escarros e dos sarcasmos dos soldados, como escrevem S. Mateus e S. João. “E tecendo uma coroa de espinhos, puseram-lha sobre a cabeça e uma cana em sua direita e ajoelhando-se perante ele o escarneciam dizendo: Ave, rei dos judeus, e cuspindo-lhe no rosto tomavam-lhe a cana e batiam-lhe na sua cabeça” (Mt 27,29 e 30). E o envolveram com uma veste purpúrea e chegando-se a ele diziam-lhe: Ave, rei dos judeus, e davam-lhe bofetadas (Jo 19,2). Ah, meu Jesus, quantos espinhos eu ajuntei a essa coroa com meus pensamentos a que dei consentimento! Desejaria morrer de dor; perdoai-me pelos méritos daquelas dores que suportastes justamente para me perdoardes. Ah, meu Senhor tão dilacerado e vilipendiado, vós vos sobrecarregais com tantas dores e desprezos para mover-me e compadecer-me de vós e para que vos ame ao menos por compaixão e não vos cause mais desgosto: Basta, meu Jesus, não insistais em padecer mais: já estou persuadido do amor que me tendes e eu vos amo com toda a minha alma. Vejo, porém, que para vós não é bastante, não estais saciado de penas, o que se dará só depois de vos ver morto de dores na cruz. Ó bondade, ó caridade infinita, infeliz o coração que vos não ama.

Sobre a crucifixão.

1. A cruz começou a atormentar a Jesus Cristo antes mesmo de ser nela pregado, já que depois da condenação de Pilatos teve de levar até ao Calvário a cruz em que devia morrer e ele, sem oposição, tomou-a sobre seus ombros.“E levando sua cruz às costas, saiu para aquele lugar que se chama Calvário” (Jo 19,17). Falando desse acontecimento, escreve S. Agostinho: “Se se atender à crueldade, que usou com Jesus Cristo, fazendo-o carregar pessoalmente seu patíbulo, foi isso um grande opróbrio; mas se se olhar para o amor com que Jesus Cristo abraçou a cruz, foi um grande mistério (In Jo. trat. 117). Levando a cruz, quis o nosso capitão desfraldar a bandeira sob a qual deveriam arrolar-se e militar os seus sequazes nesta terra, para assim se tornarem depois seus companheiros no reino dos céus. S. Basílio, falando deste passo de Isaías: Nasceu-nos um menino e foi-nos dado um filho e sobre seus ombros foi posto o principado (Is 9,6), diz que os tiranos da terra agravam seus súditos com encargos injustos, para aumentar o seu poder: Jesus Cristo, pelo contrário, quer
aliviar-nos o peso da cruz e levá-la morrendo nela para obter-nos a salvação. É também certo que os reis da terra colocam seu poder na força das armas e no acervo de riquezas. Jesus Cristo, porém, fundou seu principado no ludíbrio da cruz, humilhando-se e padecendo, e de boa vontade se sujeitou a levá-la nessa viagem dolorosa para, com seu exemplo, dar-nos coragem de abraçar com resignação a sua cruz e assim segui-lo. Fala a todos os seus discípulos: “Se alguém quer vir após mim, abnegue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mt 16,24).
2. Vem a pêlo notar aqui as belas expressões com que S. João Crisóstomo saúda a cruz. Ele a chama: “Esperança dos desprezados”. Que esperança de salvar-se teriam os pecadores, se não fosse a cruz em que Jesus Cristo morreu para remi-los? “Guia dos navegantes”. A humilhação que nos vem da cruz (isto é, da tribulação) é a causa de obtermos nesta vida como num mar cheio de perigos, a graça de observar a lei divina e, se a transgredimos, a de nos emendar, segundo afirma o Profeta: “Para mim foi bom que me humilhaste, para que eu aprenda as tuas justificações”. (Sl 118,17). “Conselheira dos justos”. Os justos tiram da adversidade motivo e razão para unirem-se mais com Deus.“Alívio dos atribulados”. Donde
tiram os aflitos maior lenitivo senão do aspecto da cruz, na qual morreu, cheio de dores por seu amor, seu Redentor e seu Deus? “Glória dos mártires”. Foi esta a glória dos santos mártires, poder unir suas penas e morte às que Jesus Cristo suportou na cruz, como diz S. Paulo: “Para mim, não há outra glória do que a cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Gl 6,14). “Médico dos doentes”. Oh! que grande remédio é a cruz para muitos que estão enfermos de espírito! As tribulações os esclarece e os desprendem do mundo. “Fonte para os que têm sede”. A cruz, isto é, sofrer por Jesus Cristo, é o desejo dos santos. S. Teresa dizia: Ou padecer ou morrer, e S. Maria Madalena de Pazzi ia adiante e dizia: Padecer e não morrer, como se recusasse morrer e ir gozar no céu para ficar nesta terra a padecer. Afinal, falando em geral dos justos e dos pecadores, a cada um toca a sua cruz. Os justos, apesar de gozarem da paz de consciência, têm as suas vicissitudes: ora são consolados pelas visitas de
Deus, ora afligidos pelas contrariedades e enfermidades corporais e em especial pelas desolações, pelas trevas e tédio de espírito, pelos escrúpulos, pelas tentações, pelos temores da própria salvação. Muito mais pesada, porém, é a cruz dos pecadores, os remorsos de consciência que os atormentam, os temores dos castigos eternos que de quando em quando se apoderam deles, e as angústias que sofrem nas adversidades. Os santos nas contrariedades se resignam com a vontade divina e sofrem em paz. Mas como poderá resignar-se o pecador com a vontade de Deus, se ele vive em sua inimizade? As penas dos inimigos de Deus são só penas sem nenhum conforto. Por isso dizia S. Teresa que quem ama a Deus abraça a cruz e com isso não a sente, mas quem não ama a Deus abraça a cruz e com isso não a sente, mas quem não ama a Deus, arrasta a força a cruz e assim não pode deixar de sentir-lhe o peso.

Chegamos à crucifixão.

1. Foi revelado a S. Brígida que quando o Salvador se viu estendido na cruz, colocou por si mesmo a mão direita no lugar em que devia ser cravada (Revel. 1. 7, c. 15). Em seguida cravaram-lhe a outra mão e depois os sagrados pés e deixou-se Jesus Cristo morrer nesse leito de dor. Diz S. Agostinho que o suplício da cruz era um tomento acerbíssimo, porque na cruz, “se protraía a morte para que a dor não tivesse logo termo” (In Jo. trat. 36). Ó Deus, que assombro havia de causar ao céu ver o Filho do eterno Padre crucificado entre dois ladrões. Já Isaías o havia profetizado: “E ele foi posto no número dos malfeitores” (Is 53,12). S. João Crisóstomo, considerando Jesus na cruz, exclama cheio de admiração e amor: Vejo-o como médio no céu entre o Pai e o Espírito Santo; vejo-o no monte Tabor entre dois santos, Moisés e Elias, e como pois vê-lo crucificado no Calvário entre dois ladrões? Mas assim devia ser, porque, segundo o decreto divino, ele devia morrer para satisfazer com sua morte os pecados dos homens e salvá-los, conforme o predissera Isaías: “E foi reputado como malfeitor e carregou com os pecados de muitos” (53,12). Pergunta o mesmo profeta: “Quem é este que vem de Edom, de Bosra, cm as vestes tintas?” (Is 63,1) este formoso em seu traje que caminha na multidão de sua fortaleza? (Is 63,1). Quem é este homem tão belo e forte que vem de Edom com as vestes tintas de sangue? Edom significa a cor vermelha, algum tanto escura como se depreende do Gênesis (25,30). E lhe responde:“Eu sou o que falo a justiça e que combato para salvar” (Is 63,1). Quem assim responde, como explicam os intérpretes, é Jesus Cristo, que diz: Eu sou o Messias prometido, que vim para salvar os homens, triunfando de seus inimigos.
2. Em seguida vem de novo a mesma interrogação: “Por que é vermelha a tua veste e as tuas roupas como as dos que pisam num lagar?” (Is 63,2); e responde-se: “Eu sozinho calquei o lagar e das gentes não há um só homem comigo” (63,3).Tertuliano, S. Cipriano e
S. Agostinho tomam o lagar pela paixão de Jesus Cristo, na qual as suas vestes (i. é, suas carnes sacrossantas) ficaram ensangüentadas, como escreve S. João: “E estava vestido com uma veste tingida de sangue e seu nome é Verbo de Deus” (Ap 19,13). S. Gregório, explicando esta palavra “Eu sozinho calquei o lagar”, escreve: O lagar em que foi pisado e calcou ao mesmo tempo (Hom. 13 in Eseq.). Diz calcou, porque Jesus Cristo com sua paixão venceu os demônios. diz-se foi pisado, porque na paixão seu corpo foi esmagado e pisado como se faz com as uvas no lagar, conforme um outro testemunho de Isaías, que diz: “E o Senhor quis esmagá-lo em sua enfermidade” (Is 53,10).

Sem beleza nem forma.

1. E eis que o Senhor, que era o mais formoso dos homens (Sl 44,3), aparece no Calvário tão disforme pelos tormentos que causa horror a quem o vê. Essa deformidade, porém, o faz aparecer mais belo ainda aos olhos das almas que o amam, já que aquelas chagas, aquelas pisaduras, aquelas carnes dilaceradas são provas e sinais do amor que ele nos tem, como delicadamente cantou Petrucci: “Por nós como réu e flagelado apareceis e aspecto tão disforme e feio ofereceis; tanto mais belo, porém, e doce vos aclamam os corações amantes que por vós clamam”. Ajunta S. Agostinho: “Ele pendia disforme, na cruz, mas a sua deformidade constituía a nossa beleza (Serm. 22 de verb. Ap.). Sim, porque aquela deformidade de Jesus crucificado foi a causa da beleza de nossas almas que, até então disformes, lavadas no seu precioso sangue, tornaram-se graciosas e belas, segundo o que escreve S. João: “Esses que estão revestidos de estolas brancas, quem são e donde vieram? São os que vieram de uma grande tribulação e lavaram as suas vestes e as embranqueceram no sangue do Cordeiro” (Ap 7,13).Todos os santos como filhos de Adão (exceto a Santíssima Virgem) estiveram por algum tempo recobertos com uma veste sórdida, mas lavadas com o sangue do Cordeiro tornaram-se cândidas e agradáveis a Deus.
2. Ó meu Jesus, vós dissestes que, quando exaltado na cruz, haveríeis de atrair tudo a vós (Jo 12,32 e 33).Vós, realmente, nunca deixastes de conquistar o afetos de todos os corações: E já muitíssimas almas felizes, vendo-vos crucificado e morto por seu amor, abandonaram tudo, posses, dignidades, pátria e parentes, chegando até a abraçar os tormentos e a morte, para se entregarem inteiramente a vós. Infelizes daqueles que resistem à vossa graça, que lhes obtivestes com tantas fadigas e dores. Ó Deus, será esse seu maior tormento no inferno, pensar que tiveram um Deus que para ganhar seu amor deu sua vida por eles na cruz e que eles quiseram perder-se de livre vontade e que não haverá mais remédio para eles por toda a eternidade.
Ah, meu Redentor, eu já mereci cair nessa desgraça pelas ofensas que vos fiz. Quantas vezes eu resisti à vossa graça que procurava atrair-me a vós e para seguir as minhas inclinações desprezei o vosso amor e voltei-vos as costas. Oh! tivesse morrido antes de ofender-vos. Oh! se sempre vos tivesse amado! Agradeço-vos, meu amor, que me suportastes com tanta paciência e que em vez de abandonar-me, como eu merecia, duplicastes os convites e me cumulastes de luzes e impulsos amorosos.“Eternamente cantarei as misericórdias do Senhor”. Não deixeis, meu Salvador e minha esperança, de continuar a atrair-me e a cumular-me de vossas graças, para que no céu eu possa vos amar com mais fervor, pensando em tantas misericórdias de que fui objeto depois de tantos desgostos que vos causei: Tudo espero daquele sangue precioso que derramastes por mim e
daquela morte tão dolorosa que por mim sofrestes. Ó Santíssima Virgem Maria, protegei-me e rogai a Jesus por mim.

Jesus na cruz.

1. Jesus na cruz foi um espetáculo que encheu de admiração o céu e a terra: ver um Deus onipotente, senhor de tudo, morrer num patíbulo infame, condenado como um celerado entre dois malfeitores. Foi esse um espetáculo da justiça, vendo o Padre eterno, que para satisfazer a sua justiça pune os pecados dos homens na pessoa de seu Filho unigênito, que lhe era tão caro como sua própria pessoa. Foi um espetáculo principalmente de amor ver um Deus que oferece e dá a vida para remir da morte os escravos seus inimigos. Esse espetáculo foi e será sempre o objeto mais caro da contemplação dos santos, pelo qual desprezaram a se despojaram de todos os bens e prazeres da terra e abraçaram com afã a alegria as penas e a morte, para mostrar de algum modo sua gratidão a um Deus que morreu
por seu amor. Confortados com a vista de Jesus desprezado na cruz, os santos amaram os desprezos mais do que os mundanos prezam todas as honras do mundo.Vendo Jesus morrer nu na cruz, procuraram abandonar todos os bens da terra. Vendo-o todo coberto de chagas sobre a cruz, escorrendo sangue de todos os seus membros, abominaram todos os prazeres sensuais e procuraram o mais possível crucificar a sua carne para acompanhar com suas dores as dores do Crucifixo. Vendo a obediência e a uniformidade da vontade de Jesus com a de seu Pai, esforçaram-se por vencer todos os apetites que não eram conformes à vontade divina e muitos, ainda que ocupados em obras de piedade, sabendo que o privar-se da própria vontade é o sacrifício mais grato ao coração de Deus, procuraram entrar em determinada Ordem Religiosa, para levar uma vida de obediência e submeter a vontade própria à dos outros. Vendo a paciência de Jesus Cristo em querer sofrer tantas penas e opróbrios por nosso amor, aceitaram em paz e com alegria as injúrias, as enfermidades, as perseguições e os tormentos dos tiranos. Vendo, finalmente, o amor que Jesus Cristo lhes demonstrou, sacrificando por nós sua vida sobre a cruz, sacrificaram a Jesus tudo quanto possuíam, bens, prazeres, honras e vida.
2. Como é então possível que tantos outros cristãos, ainda que saibam pela fé que Jesus Cristo morreu por seu amor, em vez de dedicar-se a seu serviço e amor, se empenham em ofendê-lo e desprezá-lo por prazeres breves e miseráveis? Donde nasce tão grande ingratidão? Provém do esquecimento da paixão e morte de Jesus Cristo. Mas, ó Deus, qual será o seu remorso e vergonha no dia do juízo, quando o Senhor lhes lançar em face quanto fez e padeceu por eles? Não deixemos nós de ter sempre diante dos olhos, almas piedosas, a Jesus crucificado que morre entre tantas dores e ignomínias por nosso amor. Todos os santos receberam da paixão de Jesus Cristo aquelas chamas de caridade, que os levaram a despojar-se de todos os bens deste mundo e até de si mesmos, para se entregar exclusivamente ao amor e serviço desse divino Salvador, que, enamorado dos homens, não podia fazer mais do que fez para ser amado por eles. A cruz, isto é, a paixão de Jesus Cristo, é que obterá a vitória sobre todas as nossas paixões e sobre todas as tentações que nos suscitará o inferno para nos separar de Deus. A cruz é o caminho, a escada para subir ao céu. Bem-aventurado quem a abraçar em vida e não a deixar senão na morte. Quem morre abraçando a cruz tem um penhor seguro da vida eterna, a qual já foi prometida a todos os que com ela seguem a Jesus crucificado. Meu Jesus crucificado, vós, para vos fazer amar dos homens, nada poupastes, chegando até a dar a vossa vida com uma morte tão dolorosa. Como então esses homens que amam seus parentes, seus amigos e até os animais, dos quais recebem qualquer sinal de afeição, são tão ingratos convosco, que por bens miseráveis e vãos desprezam a vossa graça e o vosso amor? Ah, infeliz de mim, eu sou um desses ingratos, que por uma ninharia renunciei à vossa amizade
e vos dei as costas. Mereceria ser lançado de vossa face, como eu vos expulsei da minha. Mas eu percebo que continuais a pedir-me o meu amor. “Amarás o Senhor teu Deus”. Sim, meu Jesus, desde que desejais que eu vos ame e me ofereceis o perdão, eu renuncio a todas as criaturas e de hoje em diante não quero amar senão a vós só, meu Criador e meu Redentor. Vós sereis o único amor de minha alma. Ó Maria, Mãe de Deus, e refúgio dos pecadores, rogai por mim, obtende-me a graça de amar a Deus e nada mais vos suplico.

CAPÍTULO IV

Reflexões sobre os impropérios feitos a Jesus Cristo enquanto pendia na cruz

Por tua causa sofro impropérios.

1. A soberba, como dissemos, foi a causa do pecado de Adão e, por conseguinte, a ruína do gênero humano; por isso veio Jesus Cristo e quis reparar esse desastre com sua humildade, não desdenhando abraçar a confusão de todos os opróbrios que lhe prepararam seus inimigos, como já predissera Davi: “Porque por vossa causa suportei o opróbrio e a vergonha cobriu a minha face” (Sl 68,8). A vida inteira de vosso Redentor foi cheia de confusão e desprezos que recebeu dos homens, e ele não recusou suportá-los até à morte, a fim de nos livrar da confusão eterna: “Tendo-lhe sido oferecido o gozo, sofreu a cruz, desprezando a ignomínia” (Hb 12,2). Ó Deus, quem não choraria de ternura e não amaria a Jesus Cristo se cada um considerasse quanto ele sofreu naquelas três horas que esteve suspenso e agonizando na cruz? Todos os seus membros estavam feridos e doloridos, sem que um pudesse socorrer o outro. Nosso aflitivo Senhor nesse leito de dor não podia mover-se, estando com as mãos e pés cravados: todas as suas carnes sacrossantas cheias de feridas, sendo as das mãos e pés as mais dolorosas, visto que deviam sustentar todo o corpo. No ponto em que ele se apoiava naquele patíbulo, ou fosse sobre as mãos ou sobre os pés, aí aumentava a dor. Bem se poderia dizer que Jesus naquelas três horas de agonia sofreu tantas mortes quantos foram os momentos que ele esteve na cruz. Ó Cordeiro inocente, que tanto sofrestes por mim, tende compaixão de mim: “Cordeiro de Deus, que tirais os pecados
do mundo, tende compaixão de mim”.
2. E essas penas externas de seu corpo eram as menos acerbas: muito maiores foram as penas internas da alma. Sua alma bendita estava toda desolada, privada de toda a gota de consolação ou alívio sensível: tudo nela era tédio, tristeza e aflição. Isso exprimiu-o com estas palavras: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonais?” E quase submerso neste mar de dores internas e externas, quer terminar sua vida nosso amável Salvador, como já tinha predito pela boca de Davi: “Cheguei ao alto mar e a tempestade me submergiu” (Sl 68,3).
Eis que na mesma ocasião em que agonizava sobre a cruz e se avizinhava a morte, todos os que então o circundavam, sacerdotes, escribas, anciãos e soldados, se esforçavam por afligi-lo ainda mais com impropérios e derrisões. S. Mateus escreve: “E os que iam passando blasfemavam dele, movendo suas cabeças” (Mt 27,39). Davi já o predissera, quando se referia à pessoa de Cristo: “Todos os que me viam zombavam de mim, falavam com os lábios e moviam suas cabeças” (Sl 21,8). Aqueles que passavam diante dele exclamavam: Olá, tu que destróis o templo de Deus e em três dias o reedificas, salva-te a ti mesmo; se és o Filho de Deus, desce da cruz” (Mt 27,40). Diziam: tu te gloriaste de destruir o templo e de novamente reerguê-lo em três dias. Jesus, porém, não havia dito que podia destruir o templo material e reconstituí-lo em três dias, mas “Destruí este templo e em três dias recompô-lo-ei”. (Jo 2,19). Com estas palavras quis ainda frisar o seu poder, nos propriamente falou em alegoria (como escreve Eutímio e outros), predizendo que os judeus, matando-o, separariam sua alma de seu corpo, mas ele dentro de três dias ressuscitaria. Escarnecido em seu poder.
1. “Salva-te a ti mesmo”. Homens ingratos! Se este grande Filho de Deus, fazendo-se homem, quisesse salvar-se a si mesmo, não teria escolhido espontaneamente a morte. “Se és o Filho de Deus, desce da cruz”. Mas se Jesus descesse da cruz e não completasse a nossa redenção com a sua morte, não poderíamos mais nos livrar da morte eterna. “Não quis descer, diz S. Ambrósio (Lib. 10 in Lc), para não descer em seu favor, mas para morrer por mim”. Escreve Teofilacto que eles assim falavam por instigação do demônio, que procurava impedir a salvação que Jesus nos devia alcançar por meio da cruz (In cap. 15 Mc).E ajunta que nosso Senhor não teria subido à cruz se quisesse de lá descer sem consumar a nossa redenção. Diz igualmente S. João Crisóstomo que os judeus assim falavam para que ele morresse como um impostor na presença de todos, apontando-o como
incapaz de livrar-se da cruz depois de haver afirmado ser o filho de Deus. (In Mt 27,42).
Nota ainda o mesmo S. Crisóstomo que mui erradamente diziam os judeus: “Se és o filho de Deus, desce da cruz”. Pois se Jesus tivesse descido da cruz antes de morrer, não seria o Filho de Deus prometido, que com sua morte nos deveria salvar. “Porque o Filho de Deus não desce da cruz, pois ele veio justamente para ser crucificado por nós” (In Mt 27). O mesmo escreve S. Atanásio dizendo que nosso Redentor queria ser reconhecido como verdadeiro Filho de Deus, não descendo da cruz, antes nela permanecendo até à morte (Serm. de pass. Domini). Pois que isso já estava predito pelos profetas, que nosso Redentor deveria morrer crucificado, segundo o testemunho de S. Paulo:“Cristo nos remiu da maldição da lei, tornando-se maldito por nós, porque está escrito: amaldiçoado todo aquele que é pendurado no lenho” (Gl 3,13).
2. S. Mateus continua a referir os outros impropérios que os judeus dirigiam a Jesus: “Salvou os outros e não pode salvar-se a si mesmo” (Mt 27,52). Tratavam-no assim de impostor a respeito dos milagres por ele operados, restituindo a vida a muitos mortos, e de incapaz de salvar a sua própria vida. Mas responde-lhes S. Leão que então não era o tempo conveniente para o Salvador ostentar o seu poder divino e que ele não devia descurar a redenção humana para impedir as suas blasfêmias (Serm. de pass. 27 c. 2). S. Gregório aduz um outro motivo por que Jesus não quis descer da cruz. “Se descesse então da cruz, não nos teria dado o exemplo da paciência (Hom. 21 in Evang.). Muito bem poderia Jesus Cristo libertar-se da cruz e de tantos impropérios, mas não era o tempo oportuno de demonstrar o seu poder, mas de ensinar-nos a paciência nos trabalhos para obedecer à vontade de Deus e por isso não quis Jesus livrar-se da morte, antes de cumprir a decisão de seu Pai e para não privar-nos desse grande exemplo de paciência.“Porque ensinava a paciência, diferia a ostentação do poder” (S. Agost.Trat. 37 in Jo.). A paciência que praticou Jesus Cristo na cruz, suportando a confusão de tantos impropérios que os judeus lhe fizeram, alcançou-nos a graça de sofrer com paciência e paz as humilhações do mundo. S. Paulo, falando da ida de Jesus Cristo ao Calvário carregado da cruz, exorta-nos a acompanhá-lo, dizendo: “Saiamos, pois, ao seu encontro fora dos arraiais, levando sobre nós o seu opróbrio” (Hb 13,13). Os santos, quando injuriados, não pensavam em vingar-se nem se perturbavam, antes sentiam-se consolados vendo-se desprezados como Jesus Cristo. Não nos envergonhemos, portanto, de abraçar por amor de Jesus Cristo os desprezos que nos forem feitos, desde que Jesus tantos sofreu por nosso amor. Meu Redentor, não procedi assim no passado, mas no futuro quero sofrer tudo por vosso amor: dai-me força para cumpri-lo.

Escarnecido em sua confiança.

1. Os judeus, não satisfeitos com as injúrias e blasfêmias proferidas contra Jesus Cristo, se revoltam também contra Deus Padre, dizendo: “Confiou em Deus, que ele o livre, se o preza, disse ele que era o Filho de Deus” (Mt 27,53). Esta exclamação sacrílega dos judeus já fora predita por Davi, quando fala em nome de Cristo: “Todos os que me viram, escarneceram de mim; falaram com os lábios e abanaram suas cabeças: esperou no Senhor, que ele o livre e que o salve se o tem em apreço” (Sl 21,8). Ora, os que assim falavam foram chamados por Davi, no mesmo salmo, touros, cães e leões: “Fostes touros me cercaram. Porque muitos cães me obsediaram. Salvai-me das fauces do leão” (Sl 21,13). Assim, dizendo os judeus “que o livre se o estima”, declararam ser eles os touros, cães e os leões preditos por Davi. Estas mesmas blasfêmias, que haveriam um dia de pronunciar contra o Salvador e contra Deus, foram também preditas pelo sábio: “Ele assegura que tem a ciência de Deus e se chama a si Filho de Deus e se gloria de ter a Deus por Pai... Se é verdadeiro Filho de Deus, ele o amparará e o livrará das mãos dos contrários. Façamos-lhe perguntas por meio de ultrajes e tormentos, para que saibamos o seu acatamento e provemos a sua capacidade: condenemo-lo a uma morte torpíssima” (Sb 2,13-20). Os príncipes dos sacerdotes estavam cheios de inveja e ódio de Jesus Cristo e por isso o injuriavam. Mas ao mesmo tempo não estavam isentos do temor de qualquer grande castigo, não podendo mais negar os milagres feitos pelo Senhor. Assim, todos os sacerdotes e príncipes da sinagoga estava inquietos e temerosos, querendo por isso assistir pessoalmente à sua morte, para, dessa maneira, se libertarem do temor que os atormentava.Vendo-o, pois, já pregado na cruz e que seu Pai não o livrara dela, lançavam-lhe em rosto, com a maior audácia, a sua fraqueza e a presunção de se ter dado por Filho de Deus. Diziam: Pois que confia em Deus, a quem chama seu Pai, porque então Deus não o livra, se o ama como filho? Enganam-se, porém, grosseiramente, os malvados, pois Deus amava a Jesus Cristo e o amava como filho e justamente o amava porque estava sacrificando sua vida na cruz pela salvação dos homens, em obediência a seu Pai. E isso mesmo dizia o próprio Jesus: “Eu dou minha vida por minhas ovelhas”... por isso me ama o Pai, porque eu entrego minha vida por elas” (Jo 10,15 e 17). O Pai já o havia destinado para
vítima daquele grande sacrifício, que devia trazer-lhe uma glória infinita, sendo o sacrificado homem e Deus, e ocasionar a salvação de todos os homens.. Mas se o Pai tivesse livrado Jesus da morte, o sacrifício teria ficado incompleto e dessa forma o Pai ficaria privado daquela glória e os homens, conseqüentemente, da salvação.
2. Escreve Tertuliano que todos os opróbrios feitos a Jesus Cristo foram um remédio secreto contra a nossa soberba. Essas injúrias, que eram injustas e indignas dele, eram necessárias à nossa salvação e não dedignadas por um Deus que quis padecer tanto para salvar o homem (Lib. 2 cont. Mc c. 7). Envergonhemo-nos, pois, nós que nos gloriamos de ser discípulos de Jesus Cristo, de suportar com impaciência os desprezos que recebemos dos homens, desde que um Deus feito homem os sofre com tanta paciência por nossa salvação. E não nos envergonhemos de imitar a Jesus Cristo, perdoando a quem nos ofende, ainda mais que ele afirma que no dia do juízo se envergonhará daqueles que, durante a vida, dele se envergonharam: “quem se envergonhar de mim e de minhas palavras, desse se envergonhará o Filho do homem quando vier em sua majestade” (Lc 9,26). Ó meu Jesus, como posso eu queixar-me de qualquer afronta que recebo, eu que tantas vezes mereci ser calcado pelos demônios do inferno. Ah, pelo merecimento de tantos desprezos que sofrestes
na vossa paixão, dai-me a graça de sofrer com paciência todos os desprezos que me forem feitos, por vosso amor, que por meu amor tanto suportastes. Eu vos amo sobre todas as coisas e desejo padecer por vós, que tanto padecestes por mim. Tudo espero de vós, que me resgatastes com vosso sangue. E também espero na vossa intercessão, ó minha Mãe Maria.

CAPÍTULO V

Reflexões sobre as sete palavras de Jesus na cruz

Primeira palavra.
“Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34).


1. Ó ternura do amor de Jesus Cristo para com os homens! Diz S. Agostinho que o Salvador, na mesma hora em que recebia injúrias de seus inimigos, procurava-lhes o perdão: não atendia tanto às injúrias que deles recebia e à morte a que o condenavam, como ao amor que o obrigava a morrer por eles. Mas, dirá alguém, por que foi que Jesus pediu ao Pai que lhes perdoasse, quando ele mesmo poderia perdoar-lhes as injúrias? Responde S. Bernardo que ele rogou ao Pai, “não porque não pudesse pessoalmente perdoar-lhes, mas para nos ensinar a orar pelos que nos perseguem”. Em outro lugar diz o santo abade:“Coisa admirável! Ele exclama: Perdoai-lhes, e os judeus: Crucifica-o” (Serm. de pass. fer. IV). Arnoldo Carnotense ajunta:“Enquanto Jesus se esforçava por salvar os judeus, estes trabalhavam em se condenar, mas junto de Deus podia mais a caridade do Filho, que a cegueira daquele povo ingrato” (Serm. de 7 verb.). E S. Cipriano escreve: “Pelo sangue de Jesus Cristo foram vivificados até aqueles que derramaram o sangue de Cristo (Lib. de bono pt.). Jesus Cristo, ao morrer, teve um desejo tão grande de salvar a todos, que não deixou de fazer participantes de seu sangue mesmo seus próprios inimigos, que lhe extraíam o sangue à força de tormentos. Olha para teu Deus pregado na cruz, diz S. Agostinho, escuta como ele ora por seus inimigos, e depois nega o perdão ao irmão que te ofende.
2. Escreve S. Leão que foi em virtude dessa oração de Jesus que ao depois de se converterem tantos milhares de judeus com a prédica de S. Pedro, como se lê nos Atos dos apóstolos (Serm. 11). Mesmo então, escreve S. Jerônimo, não quis Deus que ficasse sem efeito a súplica de Jesus Cristo e por isso operou naquela mesma hora que muitos judeus abraçassem a fé (Ep. ad Elv. q. 8). Mas por que não se converteram todos? Responde-se que a súplica de Jesus foi condicional, isto é, que aqueles, pelos quais pedia, não fossem do número dos tais aos quais foi dito: Vós resistis ao Espírito Santo.
Também nós pecadores fomos então incluídos naquela palavra de Jesus Cristo e por isso nós todos podemos dizer a Deus: ó Padre eterno, ouvi a voz desse amado Filho que vos pede perdão por nós. É verdade que não mereceremos tal perdão, mas Jesus o mereceu, satisfazendo com sua morte superabundantemente por nossos pecados. Não, meu Deus, eu não quero ficar obstinado como os judeus; arrependo-me, ó meu Pai, de todo o meu coração, de vos haver desprezado e, pelos merecimentos de Jesus Cristo vos peço perdão. E
vós, meu Jesus, já sabeis que sou um pobre doente, quase desenganado por meus pecados, mas descestes de propósito do céu à terra para curar os enfermos e salvar os perdidos, que se arrependem de vos ter ofendido. De vós disse Isaías: “Veio para salvar o que havia perecido” (Is 61,1) e S. Mateus afirma a mesma coisa: “O Filho do homem veio para salvar o que estava perdido” (18,11).

Segunda palavra.

“Em verdade eu te digo: Hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43).

1. Escreve o mesmo S. Lucas que dos ladrões crucificados com Jesus Cristo um permaneceu obstinado e o outro se converteu. Este, vendo que seu pérfido companheiro blasfemava contra o Senhor, dizendo: “Se tu és o Cristo, salva-te a ti mesmo e a nós” (Lc 23,39), volta-se contra ele e repreende-o: “Nós somos justamente punidos, pois recebemos o que merecemos: esse, porém, não fez nenhum mal” (Lc 23,41). E voltando-se para Jesus disse-lhe:“Senhor, lembra-te de mim quando entrares no teu reino”. Com estas palavras reconhecia-o por seu verdadeiro Senhor e como rei do céu. Jesus promete-lhe então o paraíso para o mesmo dia: “Em verdade eu te digo que hoje estarás comigo no paraíso”. Escreve um douto autor que com essa palavra o Senhor nesse mesmo dia, imediatamente depois de sua morte, se lhe mostrou sem véu, fazendo-o imensamente feliz, embora não lhe conferisse todas as delícias do céu antes de entrar nele.
Arnoldo Carnotense, no seu Tratado das 7 palavras, considera todas as virtudes que o bom ladrão S. Dimas praticou na sua morte: “Ele crê, se arrepende, confessa, prega, ama, confia e ora”. Praticou a fé, dizendo: “Quando chegares no teu reino”, crendo que Jesus Cristo depois de sua morte havia de entrar vitorioso no reino de sua glória.“Teve por perto que havia de reinar quem ele via morrer”, diz S. Gregório. Exerceu a penitência, confessando seus pecados: “Nós padecemos justamente, pois recebemos o que merecemos”. Diz S. Agostinho: Não ousou dizer: lembra-te de mim, senão depois da confissão de sua iniqüidade e de depor o fardo de suas iniqüidades (Serm. 130 de templ.). E S. Atanásio:“Ó bem-aventurado ladrão, que roubaste o céu com essa confissão”. Outras belas virtudes praticou então esse santo penitente: a pregação, anunciando a inocência de Jesus: “Este, porém, nenhum mal praticou”. Exerceu o amor para com Deus, aceitando a morte com resignação em castigo de seus pecados:“Recebemos o que merecemos”. S. Cipriano, S. Jerônimo, S. Agostinho não duvidam por isso de chamá-lo mártir, porque os algozes, ao quebrarem-lhe as pernas, o fizeram com maior atrocidade, por ter louvado a inocência de Jesus, aceitando esse sofrimento por amor de seu Senhor.
2. Notemos neste passo a bondade de Deus, que concede sempre mais do que se lhe pede, como diz S. Ambrósio: “O Senhor sempre concede mais do que se lhe pede; o ladrão pedia que se recordasse dele e Jesus lhe respondeu: Hoje estarás comigo no Paraíso”. E S. João Crisóstomo escreve:“Não encontrarás nenhum homem que tenha merecido tal promessa antes do bom ladrão” (Hom. de cruc. et latr.). Realizou-se o que Deus disse por Ezequiel que, quando o pecador se arrepende deveras de suas culpas, ele o perda de tal modo, como se esquecesse todas as ofensas que lhe foram feitas (Ez 21,22). E Isaías nos faz saber que Deus é tão inclinado ao nosso bem que, quando o imploramos, ele nos atende imediatamente (Is 30,19). E S. Agostinho diz que Deus está sempre pronto para abraçar os pecadores penitentes (Mn c. 23). A cruz do mau ladrão, suportada com impaciência, aumentou sua desgraça no inferno; pelo contrário, a cruz do bom ladrão, levada com paciência, tornou-se uma escada para o céu. Ó feliz ladrão, que tiveste a sorte de unir a tua morte com a morte de teu Salvador. Ó meu Jesus, eu vos sacrifico doravante a minha vida e vos suplico a graça de poder unir na hora de minha morte o sacrifício de minha vida com aquele que oferecestes a Deus na cruz. Por ele espero morrer na vossa graça e amando-vos com puro amor despojado de todo o afeto terreno para continuar a amar-vos com todas as minhas forças por toda a eternidade.

Terceira palavra.
“Mulher, eis aí teu filho. Eis aí tua mãe” (Jo 19,26 e 27).


1. Lê-se em S. Marcos que no Calvário estavam muitas mulheres fazendo companhia a Jesus crucificado, mas de longe:“Estavam presentes, porém, muitas mulheres que olhavam de longe, entre as quais se achava Maria Madalena” (Mc 15,40). Assim, julgava-se que entre essas mulheres se encontrava também a divina Mãe. S. João, porém, afirma que a Santíssima Virgem não estava longe, mas perto da cruz, juntamente com Maria Cléofas e Maria Madalena (Jo 19,25). Eutímio procura resolver esta dificuldade, dizendo que a Santíssima Virgem, vendo que seu Filho estava prestes a expirar, aproximou-se mais que as outras mulheres da cruz, vencendo o temor dos soldados que a circundavam e sofrendo com paciência todos os insultos e injúrias que lhe dirigiam os mesmos soldados que guardavam os condenados. O mesmo afirma um douto autor que escreveu a vida de Jesus Cristo: Ali estavam os amigos que o observavam de longe. Mas a Santíssima Virgem, Madalena e uma outra Maria estavam junto da cruz com João. Vendo então Jesus sua Mãe e S. João, disse-lhes: “Mulher, eis aí teu filho”. Escreve Guerrico, abade: “Realmente mãe que não abandonava o filho nem no terror da morte”. Fogem as mães à vista de seus filhos agonizantes: o amor não lhes permite assistir a tal espetáculo, tendo de vê-los morrer sem os poder socorrer. A Santíssima Virgem, porém, quanto mais o Filho se avizinhava da morte, mais se aproximava da cruz.
2. Estava, pois, a aflita Mãe junto à cruz, e, assim como o Filho sacrificava a vida, sacrificava ela a sua dor pela salvação dos homens, participando com suma resignação de todas as penas e opróbrios que o Filho sofria ao expirar. Diz um autor que desabonam a constância de Maria os que a representam desfalecida aos pés da cruz: ela foi a mulher forte que não desmaia, não chora, como escreve S. Ambrósio: “Leio que estava em pé e não leio que chorava” (In cap. 23 Lc). A dor, que a Santíssima Virgem suportou na paixão do Filho, superou a todas as dores que pode padecer um coração humano. A dor, porém, de Maria não foi uma dor estéril, como a das outras mães vendo os sofrimentos de seus filhos; foi, pelo contrário, uma dor frutuosa: pelos merecimentos dessa dor e por sua caridade, diz S. Agostinho, assim como é ela mãe natural de nosso chefe Jesus Cristo, tornou-se então mãe espiritual dos fiéis membros de Jesus, cooperando com sua caridade para nosso nascimento e para fazer-nos filhos da Igreja (Lib. de sanc. virgin. c. 6).
Escreve S. Bernardo que no monte Calvário estes dois grandes mártires, Jesus e Maria, se calavam: a grande dor que os oprimia tirava-lhes a faculdade de falar. (De Mar.). A Mãe contemplava o Filho agonizante na cruz, e o Filho, a Mãe agonizante ao pé da cruz, toda extenuada pela compaixão que sentir apor suas penas.

Eis aí teu filho.

1. Estavam, pois, Maria e João mais próximos da cruz do que as outras mulheres, de maneira que no meio daquele grande tumulto podiam ouvir mais facilmente a voz e distinguir os olhares de Jesus Cristo. Escreve S. João: “Tendo, pois, Jesus Visto sua mãe e o discípulo que amava, disse à sua mãe: “Mulher, eis aí teu filho” (Jo 19,26). Mas se Maria e João estavam em companhia das outras mulheres, por que se diz que Jesus viu a Mãe e o discípulo, como se não enxergasse as outras mulheres? Responde S. Crisóstomo (Serm. 78) que o amor faz que se veja com mais clareza os objetos que mais estimam. E S. Ambrósio escreve igualmente: “É natural que vejamos antes dos outros os que mais amamos” (De Jo. patr. c. 10). Revelou a mesma Virgem santíssima a S. Brígida que Jesus para ver sua Mãe que estava junto à cruz teve de comprimir as pálpebras para afastar de seus olhos o sangue que lhe impedia a vista (Rev. 1. 4, c. 70).
2. Então disse Jesus: “Mulher, eis aí teu filho”, acenando com os olhos a S. João, que estava ao lado. Por que, porém, a chama mulher e não mãe? Chamou-a mulher, porque, estando já próximo da morte, falou-lhe despedindo-se dela como se lhe dissesse: Mulher, dentro em pouco estarei morto, e não terás mais outro filho na terra: deixo-te João, que te servirá e amará como filho. Com isto deu a entender que José já era morto, porque se ele ainda vivesse não o teria separado de sua esposa. Toda a antigüidade atesta que S. João foi sempre virgem e foi justamente por essa prerrogativa que ele foi dado a Maria por filho e distinguido com a honra de ocupar o lugar de Jesus Cristo. Por isso canta a santa Igreja:“Ele entregou a este que era virgem sua virgem-mãe”. E desde o momento em que morreu o Senhor, como está escrito, S. João acolheu Maria em sua casa e a assistiu e serviu
durante toda a sua vida como a sua própria mãe (Jo 19,27). Quis Jesus Cristo que este seu discípulo predileto fosse testemunha ocular de sua morte, para poder depois atestar mais decididamente em seu Evangelho e dizer: “Quem o viu é que dá o testemunho” (Jo 19,35),e em sua epístola: “O que vimos com os nossos olhos... e testificamos e anunciamos a vós (1Jo 1,2).Foi por isso que o Senhor, enquanto os outros discípulos o abandonaram, deu a S. João a força de o acompanhar até à morte no meio de tantos inimigos.

Eis aí tua mãe.

1. Mas voltemos à Santíssima Virgem e examinemos a razão mais intrínseca por que Jesus chamou Maria mulher e não de mãe. Queria com isso significar que ela era a grande mulher predita no Gênesis, que deveria esmagar a cabeça da serpente. “Porei inimizade entre ti e a mulher e a tua descendência e a sua: ela te esmagará a cabeça e debalde tentarás contra o seu calcanhar” (Gn 3,15). Ninguém duvida que essa mulher fosse a Santíssima Virgem Maria, a qual por meio de seu Filho, ou então o Filho por meio dela, que o deu à luz, devia esmagar a cabeça de Lúcifer. Maria devia realmente ser inimiga da serpente, já que Lúcifer foi soberbo, ingrato e desobediente, enquanto que ela foi humilde, grata e obediente. Diz-se: “Ela esmagará a tua cabeça” porque Maria por meio do Filho abateu a soberba de Lúcifer, o qual insidiou o calcanhar de Jesus Cristo (entende-se por calcanhar sua santa humildade, que era a parte mais vizinha da terra); este, porém, com sua morte teve a glória de vencê-lo e privá-lo do império que tinha obtido sobre o gênero humano por causa do pecado. Disse Deus à serpente: “Porei inimizade entre a tua descendência e a dela”. Isto significa que, depois da ruína do homem, ocasionada pelo pecado, apesar da obra da redenção, haveria de existir no mundo duas descendências: pela descendência de Satanás se entende a família dos pecadores, seus filhos, por ele corrompidos; pela descendência de Maria, compreende-se a família santa que é composta de todos os justos com seu chefe Jesus Cristo. Maria é designada mãe tanto da cabeça como de seus membros, que são os fiéis. Escreve o Apóstolo: “Todos vós sois um em Jesus Cristo; se, porém, sois de Cristo, então sois filhos de Abraão” (Gl 3,28 e 29). Jesus e os fiéis formam um só corpo, já que a cabeça não se separa de seus membros e estes são todos filhos espirituais de Maria, caso tenhamos o mesmo espírito de seu filho natural que foi Jesus. Assim também S. João não foi chamado João, mas o discípulo a quem amava o Senhor. — “Em seguida disse ao discípulo: Eis aí a tua mãe”, para que entendêssemos que Maria Santíssima é a mãe de todo bom cristão, que é amado por Jesus Cristo e em que vive Jesus com seu
espírito. É o que quer dizer Orígenes, quando escreve:“E Jesus disse à sua Mãe: Eis aí teu filho. Isso é o mesmo como se dissesse: Eis aqui o teu Jesus, que deste à luz: mas quem é perfeito não vive mais propriamente, porém Cristo vive nele (Orig. In Jo c. 6).
Escreve o Cartusiano que na paixão de Jesus Cristo os peitos de Maria se encheram de sangue que corria das chagas de Jesus, para que ela depois nos alimentasse a nós seus filhos. E ajunta que esta divina Mãe, com suas preces e merecimentos, adquiridos particularmente na morte de Jesus Cristo, nos obteve a participação nos méritos da paixão do Redentor (L. 2 de laud. mar. c. 23). Ó Mãe dolorosa, vós já sabeis que eu mereci o inferno: não há outra esperança de salvação para mim senão a comunicação dos merecimentos da morte de Jesus Cristo. Esta graça vós haveis de me impetrar e espero obtê-la pelo amor daquele Filho que vós vistes diante de vossos olhos inclinar a cabeça e expirar no monte Calvário. Ó rainha dos mártires, ó advogada dos pecadores, socorrei-me sempre e especialmente no momento da minha morte. Ah, parece-me ver os demônios que se esforçarão na minha na minha agonia por fazer-me desesperar à vista de meus pecados. Ah, não me abandoneis então quando virdes minha alma tão combatida: ajudai-me com vossas súplicas, obtende-me a confiança e a santa perseverança. E como então, sem poder falar e talvez perdidos os sentidos, não poderei invocar o vosso nome e o de vosso Filho, eu os invoco agora e digo: Jesus e Maria, recomendo-vos a minha alma.

Quarta palavra.

“Eli, Eli, lamma sabacthani?”, isto é, Deus meu, Deus meu, por que me abandonastes? (Mt 27,46).

1. Antes destas palavras escreve S. Mateus: “E pela hora nona clamou Jesus com grande voz, dizendo: Eli...” Por que Jesus pronunciou estas palavras com voz tão forte? Eutímio diz que ele assim procedeu para demonstrar o seu poder divino, pois, estando próximo a expirar, ainda podia dar um brado tão grande, coisa que os agonizantes não podem fazer devido à grande fraqueza em que então se acham. Além disso, ele deu um tão forte brado para nos fazer compreender o grande sofrimento com que morria. Alguém poderia crer que, sendo Jesus homem e Deus, tivesse com o poder de sua divindade impedido os tormentos de causar-lhe dor. Por isso, para tirar-nos tal suspeita, quis manifestar com aquelas palavras que a sua morte foi a mais amarga jamais suportada por homem algum. Os mártires nos seus tormentos eram consolados pelas divinas doçuras: ele, o rei dos mártires, queria morrer privado de todo o conforto, satisfazendo a todo o rigor da justiça divina por todos os pecados dos homens. Foi esse o motivo, segundo Silveira, por que Jesus chamou a seu Pai Deus, e não Pai, pois que então, réu que era, devia tratá-lo como juiz e não como filho a pai. Escreve S. Leão que esse brado de Jesus não foi queixa, mas ensino (Serm. 17 de pas. c. 13). Ensino, porque com aquele brado queria dar-nos a entender quão grande é a malícia do pecado, que quase obrigava Deus a abandonar às penas, sem alívio, seu dileto Filho, somente por ter ele tomado sobre si a obrigação de satisfazer por nossos delitos. Jesus não foi então abandonado pela divindade, nem privado da glória que fora comunicada à sua bendita alma desde o primeiro instante de sua criação; foi, porém, privado de todo consolo sensível, com o qual costuma Deus confortar seus fiéis servos nos seus padecimentos e foi deixado em trevas, temores e amarguras, penas essas por nós merecidas. Esse abandono da presença sensível de Deus experimentou Jesus também no horto de Getsêmani: mas o que sofreu pregado na cruz foi maior e mais amargo.
2. Eterno Pai, mas que desgosto vos deu esse inocente e obedientíssimo Filho, para o punirdes com uma morte tão amarga? Contemplai-o como nesse madeiro está com a cabeça atormentada pelos espinhos, suspenso em três ganchos de ferro e apoiando-se sobre suas próprias chagas; todos o abandonaram, até os seus discípulos; todos o encarnecem nesse patíbulo e contra ele blasfemam; por que vós, que tanto o amais, também o abandonastes? Cumpre saber que Jesus estava sobrecarregado de todos os pecados do mundo inteiro e por isso, ainda que pessoalmente fosse o mais santo de todos os homens, tendo de satisfazer por todos os pecados deles, era tido pelo pior pecador do mundo e como tal fez-se réu de todos e ofereceu-se para pagar por todos. E porque nós merecíamos ser abandonados eternamente no inferno, no desespero eterno, quis ele ser abandonado ou entregue a uma morte privada de todo o alívio, para assim livrar-nos da morte eterna. Por que me abandonastes?
1. Calvino, no seu comentário sobre S. João, disse uma blasfêmia, afirmando que Jesus Cristo, para reconciliar o Pai com os homens, devia experimentar todo o ódio que Deus tem contra o pecado e sentir todas as penas dos condenados e em especial a do desespero. Blasfêmia! Como poderia satisfazer pelos nossos pecados com um pecado ainda maior, qual o do desespero? E como conciliar-se esse desespero de que sonha Calvino, com estas palavras que Jesus pronunciou depois: “Pai, em vossas mãos entrego o meu espírito”? (Lc 23,46). A verdade é, segundo a explicação de S. Jerônimo e S. Crisóstomo e outros, que nossos Salvador lança essa exclamação de dor para nos patentear, não o seu desespero, mas o tormento que sofria tendo uma morte privada de todo o alívio. Em Jesus, se houvesse desespero, só poderia originar-se de ver-se ele odiado por Deus. Como, porém, Deus haveria de odiar um tal filho, que, para obedecer à sua vontade, se oferecera a satisfazer pelas culpas dos homens?
Essa obediência foi que levou o Pai a olhar para ele e conceder-lhe a salvação do gênero humano, segundo o testemunho do apóstolo: “O qual nos dias de sua mortalidade, oferecendo, com um grande brado e com lágrimas, preces e rogos ao que o podia salvar da morte, foi atendido pela sua reverência” (Hb 5,7). Este abandono de Jesus Cristo foi a pena mais dolorosa de toda a sua paixão, pois sabemos que ele sofreu dores acerbíssimas sem se lamentar, só se queixando desta e até com um grande brado, com muitas lágrimas e preces, como diz S. Paulo. Mas todos esses seus gritos e lágrimas tiveram por fim nos fazer compreender que pena horrenda é uma alma culpada ser abandonada por Deus e privada para sempre do seu amor conforme a ameaça divina: “Eu os expulsarei de minha casa, e não os tornarei a amar” (Os 9,15), e também quanto devia ele padecer para nos obter a divina misericórdia. Diz, além disso, S. Agostinho que, se Jesus Cristo se perturbou à vista de sua morte, ele o fez para consolação de seus servos, para que se estes, à vista da sua, se perturbarem, não se tenham em conta de réprobos e não se entreguem ao desespero (Lb. Pronost.).
2. Agradeçamos, entretanto, a bondade de nosso Salvador por ter querido tomar sobre si as penas por nós merecidas e assim livrar-nos da morte eterna, e procuremos de hoje em diante ser gratos a este nosso libertador, arrancando do coração todo afeto que não for para ele. E quando nos virmos desolados e privados da presença sensível da divindade, unamos a nossa desolação àquela que sofreu Jesus na sua morte. Ele de quando em vez se esconde aos olhos das almas que lhe são mais caras, mas não se afasta do coração e as assiste com sua graça interior. Não se dá por ofendido se em tal abandono lhe dizemos o que ele disse no horto a seu eterno Pai: “Meu Pai, se for possível, afastai de mim este cálice” (Mt 26,39). É preciso ajuntar, porém, como ele: “Contudo, não se faça como eu quero, mas como vós”. E se a desolação contínua, é preciso continuar a repetir o mesmo ato de conformidade, como ele o fez durante aquelas três horas que passou no horto: “E orou pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras”. Diz S. Francisco de Sales que Jesus é tão amável quando se deixa ver como quando se esconde. De resto, a quem mereceu o inferno e vê-se fora dele, não resta outra coisa que dizer: “Bendirei ao Senhor em todo o tempo”. Senhor, eu não mereço consolação, fazei por vossa graça que eu vos ame e fico satisfeito com viver assim desolado, porque isso vos agrada. Ah, se os condenados pudessem no meio de seus tormentos se conformar assim com o vosso querer, o inferno não lhes seria mais inferno.
“Mas vós, Senhor, não afasteis de mim o vosso socorro: aplicai-vos a me defender” (Sl 21,20). Ah, meu Jesus, pelos merecimentos de vossa morte desolada, não me priveis do vosso auxílio nesse grande combate que terei de travar com o inferno na hora de minha morte. Nesse tempo todas as pessoas da terra já terão me abandonado e não me poderão auxiliar; não me abandoneis vós que por mim morrestes e sois o único que então me podeis socorrer. Fazei-o pelo merecimento daquele tormento que sofrestes no vosso abandono e pelo qual nos merecestes não ser abandonados por vossa graça, como merecíamos por nossas culpas.

Quinta palavra.

“Sabendo, porém, Jesus que tudo estava consumado, disse, para que se cumprisse a escritura: ‘Tenho sede’” (Jo 19,28).

1. A escritura que aí se designa era o dito de Davi: “E deram-me na minha comida fel e na minha sede me propinaram vinagre”(Sl 68,22). Grande foi a sede corporal que Jesus sofreu na cruz, já pelo sangue derramado no horto, já no pretório pela flagelação e coroação de espinhos, e mais ainda na mesma cruz onde de suas mãos e pés cravados escorriam rios de sangue como quatro fontes naturais. Sua sede espiritual foi, porém, muito maior, isto é, o desejo ardente que tinha de salvar todos os homens e de sofrer ainda mais por nós, como diz Blósio, em prova de seu amor (Mar. sp. p. 3 c. 18). S. Lourenço Justianiano escreve:“Esta sede nasce da fonte do amor” (De agon. c. 19).
2. Ah, meu Jesus, vós tanto desejastes padecer por mim e a mim tanto custa padecer, que me torno impaciente comigo mesmo a cada padecimento e me torno insuportável aos outros. Ó meu Jesus, pelos merecimentos de vossa paciência, tornai-me paciente e resignado nas enfermidades e adversidades que me sobrevierem e fazei-me, antes de morrer, semelhante a vós.

Sexta palavra.

“Está consumado”. S. João escreve: “Tenho Jesus tomado o vinagre, disse: “Tudo está consumado” (Jo 19,30).

1. Nesse momento, Jesus, antes de expirar, pôs diante dos olhos todos os sacrifícios da antiga lei (todos eles figuras do sacrifício da cruz), todas as súplicas dos antigos padres, todas as profecias realizadas na sua vida e na sua morte, todos os opróbrios e ludíbrios preditos que ele devia suportar, e vendo que tudo se havia realizado, disse: “Tudo está consumado”. S. Paulo se anima a correr generosa e pacientemente ao combate que temos de travar nesta vida com os nossos inimigos para obter a salvação: “Corramos pela paciência ao combate que nos está proposto, pondo os olhos no autor e consumador da fé, Jesus, o qual, havendo-lhe sido proposto o gozo, sofreu a cruz” (Hb 12,1 e 2). O Apóstolo exorta-nos a resistir com paciência às tentações até ao fim, a exemplo de Jesus Cristo, que não quis descer da cruz antes de morrer. S. Agostinho escreve: “O que te ensinou pendente da cruz, não querendo dela descer, senão que fosses forte em teu Deus?” (In ps. 70). Jesus quis consumar o seu sacrifício com a morte, para nos persuadir de que Deus não recompensa com a glória senão aqueles que perseveram no bem até ao fim, como o faz sentir por S. Mateus: “Quem perseverar até ao fim será salvo” (Mt 10,22). Quando, pois, ou seja por motivo de nossas paixões ou das tentações do demônio ou das perseguições dos homens nos sentirmos molestados e levados a perder a paciência e a ofender a Deus, olhemos para Jesus crucificado que derrama todo o seu sangue por nossa salvação e pensemos que nós ainda não derramamos uma só gota por seu amor. É o que diz S. Paulo: “Pois ainda não tendes resistido até ao sangue combatendo contra o pecado” (Hb 12,4).
Quando, pois, se oferecer a ocasião de ter de ceder em qualquer ponto de honra, de se abster de qualquer ressentimento, de se privar de qualquer satisfação, de qualquer curiosidade ou coisa semelhante, envergonhemo-nos de o negar a Jesus Cristo. Ele não teve reservas para conosco, deu-nos sua vida, todo o seu sangue e por isso envergonhemo-nos de ter reservas para com ele. Resistamos com todas as veras aos nossos inimigos, mas esperemos a vitória sempre e unicamente dos merecimentos de Jesus: por meio deles e deles somente os santos e em especial os mártires superaram os tormentos e a morte. “Mas em todas essas coisas saímos vencedores por aquele que nos amou” (Rm 8,37). Quando o demônio nos trouxer à mente qualquer obstáculo que nos pareça dificílimo à nossa fraqueza
superar, volvamos os olhos a Jesus crucificado e, confiados no seu auxílio e merecimentos, digamos com o Apóstolo: “Tudo posso naquele que me conforta” (Fl 4,13). Eu por mim nada posso, mas com o auxílio de Jesus eu posso tudo.
2. Animemo-nos, entretanto, a sofrer as tribulações da vida presente pela vista das penas de Jesus crucificado. Considera, diz o Senhor do alto daquela cruz, considera a multidão das dores e dos desprezos que eu padeço por ti sobre este patíbulo: meu corpo está suspenso por três cravos, e não descanso senão sobre minhas próprias chagas: o povo que me circunda não faz outra coisa senão blasfemar contra mim e afligir-me, e o meu espírito está ainda mais atormentado que meu corpo.Tudo padeço por teu amor: vê o afeto que te consagro e ama-me e não te recuses a padecer alguma coisa por mim, que por ti levei uma vida tão aflita e agora a termino com uma morte tão amarga. Ah, meu Jesus, vós me pusestes no mundo para servir-vos e amar-vos, concedestes-me tantas luzes e graças para vos ser fiel, mas eu, ingrato, quantas vezes, para não me privar de minhas satisfações, preferi perder a vossa graça, voltando-vos as costas. Ah, por aquela morte tão desolada que quisestes sofrer por mim, dai-me força para vos permanecer grato no resto de minha vida, propondo-me de ora em diante expulsar do meu coração todo o afeto que não for por vós, meu Deus, meu amor e meu tudo. Minha Mãe Maria, socorrei-me para que eu seja fiel a vosso Filho que tanto me amou.

Sétima palavra.

“Dando um grande brado, disse Jesus: Pai, em vossas mãos eu vos encomendo o meu espírito”. (Lc 23,46).

1. Escreve Eutíquio que Jesus proferiu estas palavras com grande voz, para dar a entender que ele era verdadeiramente o Filho de Deus, chamando a Deus seu Pai. S. Jerônimo escreve que ele deu este grande brado para demonstrar que não morria por necessidade, mas por própria vontade, emitindo um brado tão forte no momento mesmo em que estava para expirar. Isso combina com o que disse Jesus em vida, que ele de livre vontade sacrificava sua vida por nós, suas ovelhas, e não pela vontade ou malícia de seus inimigos. “Eu ponho minha alma por minhas ovelhas... ninguém ma pode tirar, eu mesmo a entrego de livre querer” (Jo 10,15). S. Atanásio ajunta que Jesus, recomendando-se ao Pai, recomendou-lhe justamente todos os fiéis que por seu intermédio deveriam receber a salvação, já que a cabeça com seus membros constituem um só corpo. E o santo conclui que Jesus então tinha em mente repetir o pedido feito antes: “Pai santo, conserva-os em teu nome, para que sejam um como nós” (Jo 17,11), e termina: “Pai, os que me destes quero que onde eu estiver estejam comigo” (Jo 17,24). Isto leva S. Paulo a dizer: “Sei em quem eu pus minha fé e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito para aquele dia” (2Tm 1,12). Assim escrevia o Apóstolo quando se achava no cárcere padecendo por Jesus Cristo, e cujas mãos confiava o depósito de seus sofrimentos e de toas as suas esperanças, sabendo quanto ele é grato e fiel àqueles que padecem por seu amor. Davi punha toda a sua esperança no futuro Redentor, dizendo:“Em vossas mãos, Senhor, entrego o meu espírito; pois vós me remistes, Senhor Deus da verdade” (Sl 39,6). Quanto mais nós devemos confiar em Jesus Cristo, que já realizou a nossa redenção? Digamos-lhe, pois, com
grande confiança:“Vós me remistes, Senhor, por isso em vossas mãos encomendo o meu espírito.
2. “Pai, em vossas mãos eu entrego o meu espírito”. Grande esforço trazem estas palavras aos moribundos contra as tentações do inferno e temores os pecados cometidos. Não quero, ó Jesus, meu Redentor, esperar a hora da morte para recomendar-vos a minha alma; a vós a entrego agora; não permitais que ela se separe outra vez de vós. Vejo que minha vida passada não me serviu senão para vos desonrar; não permitais que eu continue a desgostar-vos nos dias que me restam de vida. Ó Cordeiro de Deus, sacrificado na cruz e morto por mim como vítima de amor e consumido de dores, fazei pelos méritos de vossa morte que eu vos ame com todo o coração e seja todo vosso no resto de minha vida. E quando chegar o fim de meus dias, fazei que eu morra abrasado em vosso amor.Vós morrestes por amor de mim; eu quero morrer por amor de vós. “Nas vossas mãos, Senhor, eu entrego o meu espírito. Vós me remistes, Senhor Deus da verdade”. Vós derramastes todo o vosso sangue, destes a vida para me salvar, não permitais que por minha culpa tudo isso fique perdido para mim. Meu Jesus, eu vos amo e espero amar-vos eternamente por vossos merecimentos.“Em vós, Senhor, eu esperei, não serei confundido eternamente”. Ó Maria, Mãe de Deus, confio nas vossas súplicas: pedi que eu viva e morra fiel ao vosso Filho.
Digo-vos com S. Boaventura:“Em vós, senhora, eu esperei, não serei confundido eternamente”.

Reflexões sobre a morte de Jesus Cristo e a nossa

A morte de Jesus é nossa vida.

1. Escreve S. João que nosso Redentor, antes de expirar, inclinou a cabeça: “E tendo inclinado a cabeça, entregou seu espírito” (Jo 19,30). Inclinou a cabeça para significar que aceitava a morte, com plena submissão, das mãos de seu Pai, a quem prestava humilde obediência. “Humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até à morte, e morte de cruz” (Fl 2,8). Jesus, estando na cruz com os pés e as mãos nela cravados, não tinha liberdade de mover outra parte do corpo além da cabeça. Diz S. Atanásio que a morte não ousava tirar a vida ao autor da vida e por isso foi preciso que ele mesmo, inclinando a cabeça (única parte que podia mover), chamasse a morte para que viesse tirar-lhe a vida (Qu 6 Antioc.). Referindo-se a isso, diz S. Ambrósio que S. Mateus, falando da morte de Jesus, escreve: “Jesus, porém, clamando outra vez com grande voz, entregou o espírito” (Mt 27,50), para significar que Jesus não morreu por necessidade ou por violência dos carrascos, mas porque o quis espontaneamente, para salvar o homem da morte eterna a que ele estava condenado. 2. Isso já tinha sido predito pelo profeta Oséias:“Eu os livrarei das mãos da morte, eu os resgatarei da morte. Ó morte, eu serei a tua morte; ó inferno, eu serei a tua mordedura” (Os 13,14). Os santos padres S. Jerônimo, S. Agostinho, S. Gregório e o próprio S. Paulo, como veremos brevemente, aplicam este texto literalmente a Jesus Cristo, que com sua morte nos livrou das mãos da morte, isto é, o inferno, onde se sofre uma morte eterna. No texto hebraico, como notam os intérpretes, e vez da palavra morte, está a palavra “sceol”, que significa inferno. Como se explica que Jesus Cristo foi a morte da morte? “Serei tua morte, ó morte!” Porque nosso Salvador com sua morte veio destruir a morte a nós devida pelo pecado. Por isso escreve o Apóstolo: “Tragada foi a morte pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? O aguilhão da morte é o pecado” (1Cor 15,54). O Cordeiro divino Jesus, com sua morte, destruiu o pecado, que era a causa da nossa morte, e esta foi a vitória de Jesus, pois que ele, morrendo, tirou do mundo o pecado e, conseqüentemente, nos livrou da morte eterna a que estava sujeito até então todo o gênero humano. A isso corresponde aquele outro texto do Apóstolo: “Para que pela morte destruísse aquele que tinha o império da morte, isto é, o demônio” (Hb 2,14). Jesus destruiu o demônio, isto é, destruiu o poder do demônio, o qual em razão do pecado tinha o império da morte, a saber, tinha o poder de dar a morte temporal e eterna a todos os filhos de Adão, contaminados pelo pecado. E esta foi a vitória da cruz, na qual morrendo Jesus, que é o autor da vida, com a sua morte recuperou-nos a vida. Por isso canta a Igreja:“A vida suportou a morte e pela morte produziu a vida”. Isso tudo foi obra do amor divino, que como sacerdote sacrificou ao Eterno Pai a vida de seu Filho unigênito pela salvação dos homens. E assim canta igualmente a Igreja: “O amor, qual sacerdote, imola os membros do corpo sacrossanto”. S. Francisco de Sales exclamou: “Consideremos este divino Salvador estendido sobre a cruz, como sobre seu altar de amor, onde vai morrer por amor de nós. Ah, por que não nos lançamos também em espírito sobre a cruz, para morrer com ele, que quis morrer por amor de nós?” Sim, meu doce Redentor, eu abraço a vossa cruz e a ela abraçado quero viver e morrer, beijando sempre com amor vossos pés chagados e transpassados por mim.

Olhai para a face de vosso Cristo.

1. Mas, antes passar adiante, detenhamo-nos a contemplar o nosso Redentor já morto sobre a cruz. Digamos primeiro a seu divino Pai: “Padre eterno, olhai para a face do vosso Cristo”, vede que é o vosso único Filho, que, para cumprir com o vosso desejo de salvar o homem perdido, veio à terra, tomou a natureza humana e com ela todas as nossas misérias, exceto o pecado. Ele, enfim, se fez homem e quis passar toda a sua vida entre os homens como o mais pobre, o mais desprezado, o mais atribulado de todos, e chegou a morrer, como vedes, depois de os homens lhe haverem rasgado as carnes, ferido a cabeça com os espinhos e atravessado seus pés e mãos com os cravos na cruz. Nesse madeiro ele expira cheio de dores, desprezado como o homem mais vil do mundo, escarnecido como falso profeta, blasfemado como impostor sacrílego, por haver dito que era vosso filho; tratado e condenado a morrer como criminoso e dos mais celerados. Vós mesmo lhe tornastes a morte tão dura e desolada, privando-o de todo o alívio. Dizei-nos que delito cometeu contra vós esse vosso Filho tão querido, para merecer um castigo tão horrendo? Vós conheceis a sua inocência, a sua santidade; por que o tratais assim? Escuto a vossa resposta:“Por causa dos crimes de meu povo eu o feri”. Sim, ele não o merecia, nem podia merecer castigo algum sendo a inocência e santidade mesma. O castigo vos era devido por vossas culpas, pelas quais merecestes a morte eterna, e eu, para não vos ver a vós, minhas amadas criaturas, condenadas eternamente, para nos livrar de tão grande desgraça, entreguei este meu Filho a uma vida tão atribulada e a uma sorte tão acerba. Pensai, ó homens, até que ponto eu vos amei. “Assim Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho unigênito” (1Jo 4,9).
2. Permiti que eu agora me volte para vós, Jesus, meu Redentor. Eu vos vejo sobre essa cruz, pálido e abandonado, sem fala e sem respiração, porque já não tendes mais vida; sem sangue, porque já o derramastes todo, como havíeis predito antes de vossa morte: “Este é o sangue do Novo Testamento, que será derramado por vós” (Mc 4,24). Não tendes mais vida, porque a destes para que minha alma vivesse, porque o derramastes para lavar os meus pecados. Mas por que perdeis a vida e dais todo o vosso sangue por nós, míseros pecadores? S. Paulo dá-nos o porquê:“Ele nos amou e entregou-se a si mesmo por nós” (Ef 5,2). Assim este divino sacerdote, que foi ao mesmo tempo sacerdote e vítima, sacrificando a sua vida pela salvação dos homens que amava, completou o grande sacrifício da cruz e concluiu a obra da redenção do gênero humano. Jesus Cristo, com sua morte tirou o horror à nossa morte: até então ela era unicamente o suplício dos rebeldes, mas, pela graça e méritos de nosso Salvador, tornou-se um sacrifício tão caro a Deus, que, se o unimos como o da morte de Jesus, nos fazemos dignos de gozar da mesma glória que goza Deus e de ouvir um dia como esperamos: “Entra no gozo de teu Senhor”.

Ó morte, onde está o teu aguilhão?

1. Se até então era a morte um objeto de dor e de terror, Jesus, morrendo, transformou-a em um trânsito do perigo de uma ruína eterna para a segurança de uma felicidade eterna e das misérias desta vida às delícias imensas do paraíso. Diz S. Agostinho que os amantes do crucifixo vivem com paciência e morrem com alegria. E, como a experiência nos mostra, as pessoas, que durante a vida foram mais atribuladas pelas perseguições, pelas tentações, pelos escrúpulos ou outros acontecimentos desagradáveis, são na morte as mais consoladas
pelo crucifixo, vencendo com grande paz todos os temores e angústias da morte. E se algumas vezes aconteceu que alguns santos, como se lê em suas vidas, morreram com grande pavor da morte, o Senhor o permitiu para maior merecimento deles, pois o sacrifício, quanto mais penoso e duro, tanto mais grato a Deus e mais proveitoso para a vida eterna.
Oh! como era acerba a morte dos antigos fiéis antes da morte de Jesus Cristo! Não havendo o Salvador ainda aparecido, suspirava-se por sua vinda e esperava-se por ele segundo a sua promessa, mas ignorava-se o quando, e o demônio tinha um grande poder sobre a terra, estando o céu fechado para os homens. Depois da morte do Redentor, porém, o inferno foi vencido, a graça divina foi conferida às almas, Deus se reconciliou com os homens inocentes ou expiaram suas culpas pela penitência. E se alguns, conquanto mortos em graça, não entram imediatamente no céu, isso é devido a seus defeitos ainda não inteiramente expiados: de resto, a morte nada mais faz que romper com seus laços para que livres possam unir-se perfeitamente com Deus, do qual vivem como que separados nesta terra de exílio. Procuremos, pois, almas cristãs, enquanto neste exílio, olhar a morte, não como uma desgraça, mas como o fim de nossa peregrinação tão cheia de angústias e perigos e como princípio de nossa felicidade eterna, a qual esperamos alcançar um dia pelos merecimentos de Jesus Cristo. E como este pensamento do céu desprendamo-nos quanto possível dos objetos terrenos, que podem fazer-nos perder o céu e condenar-nos às penas eternas. Ofereçamo-nos a Deus, protestando querer morrer quando lhe aprouver, aceitando a morte da maneira e no tempo que para nós destinou, suplicando-lhe continuamente que, pelos merecimentos da morte de Jesus Cristo nos faça sair desta vida na sua graça.
2. Meu Jesus e meu Salvador, que para me obterdes uma boa morte escolhestes para vós uma tão penosa e desolada, eu me abandono inteiramente nos braços de vossa misericórdia. Há mais anos que deveria estar no inferno, pelas ofensas que vos fiz, separado para sempre de vós; vós, em vez de castigar-me, como eu merecia, me chamastes à penitência, e espero que a esta hora já me tenhais perdoado, mas, se ainda não me perdoastes por minha culpa, perdoai-me agora que, cheio de dor, me chego a vossos pés, pedindo misericórdia: desejaria meu Jesus, morrer de dores pensando nas injúrias que vos fiz. “O sangue do inocente lava as culpas do penitente”. Perdoai-me e dai-me a graça de amar-vos com todas as forças até à
morte e, quando chegar o fim de minha vida, fazei-me morrer abrasado em amor por vós, para continuar a amar-vos eternamente. Desde já uno a minha morte à vossa santa morte, pela qual espero salvar-me.“Em vós, Senhor, eu esperei; não serei confundido eternamente”. Ó grande Mãe de Deus, vós sereis, depois de Jesus, a minha esperança. “Em vós, Senhora, eu esperei, não serei confundido eternamente”.

CAPÍTULO VI

Reflexões sobre os prodígios havidos na morte de Jesus Cristo

As trevas.

1. Conta-se que S. Dionísio Areopagita, estando em Heliópolis, no Egito, exclamou na hora da morte de Jesus:“Ou o autor da natureza, Deus, está sofrendo ou então é a máquina do mundo que se desfaz” (Corn. a Lápide in Mt c. 27 v. 45). Miguel Sincelo e Suida escrevem ter o santo dito: “O Deus desconhecido padece em seu corpo e por isso o universo se cobre de trevas”. Eusébio escreve que, segundo Plutarco, na ilha de Praxas se ouviu uma voz que dizia:“Morreu o grande Pan” e em seguida o grito de muitos que choravam. Eusébio interpretou a palavra Pan por Lúcifer, que pela morte de Cristo ficou como que morto, vendo-se despojado do império que tinha sobre os homens. Barradas, porém, a entende pela pessoa de Cristo, visto que em grego a palavra Pan significa o todo, que é o próprio Jesus Cristo, Filho de Deus e Deus verdadeiro: o todo, isto é, a plenitude de todos os bens.
O que sabemos do Evangelho é que no dia da morte do Salvador, à hora sexta, até à nona, a terra cobriu-se de trevas (Mt 27,45). E no momento em que Jesus expirou, partiu-se pelo meio o véu do templo e sobreveio um terremoto universal que fendeu muitos rochedos (Mt 27,51).
Falando das trevas, nota S. Jerônimo que essa escuridão foi predita pelo profeta Amós nos seguintes termos: “E naquele dia acontecerá isto, diz o Senhor Deus: o sol se porá ao meio-dia e farei cobrir a terra de trevas no dia da luz” (Am 8,9). O mesmo S. Jerônimo comentou
este texto, dizendo que então pareceu ter o sol retirado a sua luz para que os ímpios não se utilizassem dela. O sol retraiu os seus raios, não ousando contemplar o Senhor pendente da cruz, ajunta o santo. Mais acertadamente, porém, escreve S. Leão que nessa ocasião todas as criaturas demonstraram a seu modo a sua dor na morte de seu comum Criador (Serm. de pass.). É o mesmo o pensamento de Tertuliano, que, falando em particular das trevas, diz que o universo com aquela escuridão queria celebrar como que as exéquias de nosso Redentor (De jejun. c. 3).
2. S. Atanásio, S. Crisóstomo, S. Tomas notam que essa escuridão foi prodigiosa, já que naquele dia não podia haver eclipse pela interposição da lua entre a terra e o sol, visto ser possível um eclipse no novilúnio e não no plenilúnio, como era aquele dia, segundo os astrônomos. Além disso, sendo o sol muito maior que a lua, não podia esta tapar por completo a luz do sol, pois, segundo o Evangelho, as trevas se estenderam sobre o universo inteiro. E mesmo que fosse possível a lua encobrir a luz do sol, sabemos que o curso da lua é mui rápido, de maneira que a escuridão só duraria alguns minutos. Ora, o Evangelho afirma que a escuridão durou três horas da sexta à nona hora. Este prodígio das trevas apresenta Tertuliano na sua apologia (c. 21) aos gentios, dizendo-lhes que em seus próprios arquivos estava consignado esse acontecimento do ofuscamento do sol. Eusébio, em confirmação disso, refere na sua Crônica 1.2) as palavras do gentio Flegonte, que escreve o seguinte:“No quarto ano da 202.ª Olimpíada deu-se a ofuscação do sol, a maior de todas até então conhecidas, e fez-se noite na sexta hora do dia, podendo-se então ver as estrelas no firmamento”.

Fim do Antigo Testamento.

1. Diz ainda o Evangelho de S. Mateus: “Eis que o véu do templo se rasgou de alto a baixo em duas partes” (Mt 27,51). O Apóstolo escreve que havia uma cortina tanto no tabernáculo como no templo, onde estava o santo dos santos com a arca do testamento, que continha o maná, a vara de Aarão, as tábuas da lei, e esta parte era o propiciatório. No primeiro tabernáculo, que estava diante do Santo dos santos, oculto pelo primeiro véu ou cortina, entravam somente os sacerdotes para os seus sacrifícios. O sacerdote que aí sacrificava, mergulhando o dedo no sangue da vítima oferecida, com ele aspergia sete vezes a cortina. No segundo tabernáculo do Santo dos santos, que estava sempre fechado e oculto com o segundo véu, entrava somente o sumo sacerdote e uma só vez no ano, levando o sangue da vítima, que oferecia por si mesmo. Tudo era mistério: o santuário sempre fechado significava a exclusão dos homens da graça divina, que não receberiam mais senão por meio do grande sacrifício que Jesus Cristo deveria um dia oferecer pessoalmente, já figurado por todos os sacrifícios antigos e por isso chamado por S. Paulo pontífice dos bens futuros. Este, por um tabernáculo mais perfeito, a saber, seu corpo sacrossanto, deveria entrar no Santo dos santos da presença divina, como mediador entre Deus e os homens, oferecendo o sangue não já dos touros e bodes, mas o seu próprio sangue, com o qual deveria consumar a obra da redenção humana e assim abriu-nos o ingresso no céu.
2. Ouçamos, porém, as próprias palavras do Apóstolo:“Mas Cristo, estando já presente, pontífice dos bens vindouros, por outro mais perfeito e excelente tabernáculo, não feito por mão de homem, isto é, não desta criação, nem pelo sangue de bodes ou de bezerros, mas pelo seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário, havendo achado uma redenção eterna” (Hb 9,11). Aí se diz: pontífice dos bens vindouros, para distinção dos pontífices de Aarão, que impetravam bens presentes e terrenos. Jesus Cristo havia de obter-nos bens futuros que são os celestes e eternos. Diz-se: por outro mais perfeito e excelente tabernáculo, que foi a santa humanidade do Salvador, tabernáculo do Verbo divino; não feito por mão de homem, porque o corpo de Jesus não foi formado por obra do homem, mas do Espírito Santo. Diz-se: nem pelo sangue de bodes ou de bezerros, mas por seu próprio sangue, porque o sangue de bodes e dos touros obtinha somente a purificação de carne, enquanto que o sangue de Jesus obtém a purificação da alma com a remissão dos pecados. Diz-se: entrou uma vez no santuário, havendo achado uma redenção eterna. Esta palavra achou significa que tal redenção não podia ser por nós nem pretendida nem esperada antes das promessas divinas, sendo unicamente um invento da bondade de Deus. Diz-se: eterna, porque o sumo sacerdote dos hebreus só uma vez no ano entrava no santuário; Jesus Cristo, consumando uma só vez o sacrifício com sua morte, mereceu-nos uma redenção eterna, que será suficiente para sempre para expiar todos os nossos pecados, conforme escreve o mesmo Apóstolo: “Com uma só oferenda fez perfeitos para sempre os
que tem santificado” (Hb 10,14).

Novo Testamento.

1. E o Apóstolo ajunta: “E por isso é o mediador do Novo Testamento” (Hb 9,15). Moisés foi o mediador do Antigo Testamento, isto é, da antiga aliança, a qual não tinha o poder de obter aos homens a reconciliação com Deus e a salvação, pois, como explica S. Paulo em outro lugar, “a antiga lei nenhuma coisa levou à perfeição” (Hb 7,19). Jesus Cristo, porém, na nova aliança satisfazendo plenamente a justiça divina pelos pecados dos homens, obteve-lhes o perdão por seus merecimentos, assim como a graça divina. Os judeus achavam ser uma ofensa pensar que o Messias, por uma morte tão vergonhosa, haveria de operar a redenção dos homens, afirmando ser declaração da lei que o Messias não devia morrer, antes viver sempre: “Ouvimos da lei que o Cristo permanece para sempre” (Jo 12,34). Erravam, porém, porque a morte foi o meio pelo qual Jesus se tornou mediador e Salvador dos homens, pois que, pela morte de Jesus, foi feita a promessa da herança eterna aos que são a ela predestinados.“E por isso é mediador de um Novo Testamento, para que, intervindo a morte para expiação daquelas prevaricações que havia debaixo do primeiro testamento, recebam a promessa de herança eterna os que têm sido chamados” (Hb 9,15). S. Paulo, por essa razão, nos anima a colocar todas as nossas esperanças nos merecimentos da morte de Jesus Cristo: “Portanto, irmãos, tende confiança de entrar no santuário pelo sangue de Cristo, seguindo este caminho novo e de vida que nos consagrou primeiro pelo véu, isto é, pela sua carne” (Hb 10,1920). Nós temos um forte motivo de esperar a vida eterna pelo sangue de Jesus, que nos abriu caminho para o paraíso. Chama-se novo porque não fora trilhado por nenhum outro, mas Jesus, trilhando-o, no-lo abriu por meio de sua carne sacrificada na cruz, da qual o véu foi figura. S. Crisóstomo escreve que, assim como pela ruptura do véu, na paixão do Senhor, ficou aberto o Santo dos santos, do mesmo modo a carne de Jesus dilacerada na paixão abriu-nos o céu que nos estava fechado. E assim exorta-nos o mesmo Apóstolo a nos aproximar-mos com confiança do trono da graça para receber misericórdia divina: “Cheguemo-nos, pois, confiadamente ao trono da graça, a fim de alcançar misericórdia e de achar graça em tempo oportuno” (Hb 4,16). Este trono de graça é justamente Jesus Cristo, em quem, se recorrermos nós, míseros pecadores, no meio de tantos perigos de perdição em que nos achamos, encontraremos aquela misericórdia que não merecíamos.
2. Voltemos ao texto citado de S. Mateus: “Jesus, porém, dando novamente um grande brado, entregou o seu espírito e eis que o véu do templo se rasgou de alto a baixo em duas partes”. Ora, essa ruptura completa de alto a baixo, havida no momento da morte de Jesus e conhecida de todos os sacerdotes e do povo, não podia se ter dado sem um prodígio sobrenatural, já que o véu não poderia rasgar-se de alto a baixo apenas pelo terremoto. Isso aconteceu para significar que Deus não queria mais esse santuário fechado ordenado pela lei, mas que doravante ele mesmo queria ser santuário aberto a todos, por meio de Jesus Cristo. Escreve S. Leão (Serm. 10 depas. c. 5) que o Senhor, com tal ruptura, demonstrou claramente que tinha findado o antigo sacerdócio e começava o sacerdócio eterno de Jesus Cristo e que estavam abolidos os sacrifícios antigos e estabelecida numa nova lei, conforme o dito de S. Paulo: “Pois, mudado, que seja o sacerdócio, é necessário que se faça também mudança da lei” (Hb 7,12). Com isso ficamos cientificados de que Jesus Cristo é o fundador tanto da primeira como da segunda lei e que a lei antiga, o sacerdócio, os antigos sacrifícios não tinham em vista senão o sacrifício da cruz, que devia operar a redenção humana. Assim, tudo o que era escuro e misterioso na primeira lei, nos sacrifícios, nas festas e nas promessas, tornou-se claro na morte de Jesus. Em suma, diz Eutímio que o véu rasgado significava ter sido destruído o muro que separava o céu da terra, e que estava aberta e desimpedida para os homens a estrada para o céu. (In. Mat. c. 67).

Terremoto e ressurreição dos mortos.

1. Continua o Evangelho: “E a terra tremeu e as pedras se partiram” (Mt 27,51). É tradição que na morte de Jesus Cristo houve um grande terremoto universal que abalou todo o globo mundial segundo Blósio (Lib. 7 c. 4). Dídimo escreve que a terra foi sacudida até ao seu centro (Fragom. in Job c. 9). Orígenes e Eusébio (Chron. 1. 2) citam Flegonte, segundo o qual no ano 33 de Cristo houve um grande terremoto que causou grandes ruínas nos edifícios de Nicéia na Bitínia. Plínio, que viveu no tempo de Tibério, em cujo reinado morreu Jesus, e Suetônio atestam que na Ásia por essa ocasião foram destruídas 12 cidades por um grande terremoto (Lib. 3 c. 84 — In Tib. c. 48). Vêem nisso os eruditos o cumprimento da profecia de Ageu: “Ainda falta um pouco e eu comoverei o céu e a terra, o mar e todo o universo” (2,7). S. Paulino escreve que Jesus, mesmo pregado na cruz, para demonstrar quem ele era, aterrou o mundo universo (De ob. Celsi). Adricômio atesta que até hoje se vêem os sinais desse terremoto no monte Calvário, no lado esquerdo, havendo ali uma fenda de largura de um corpo humano e tão profunda que se não pode atingir o fundo (Descriptio Jerusal. n. 252). Barônio narra (An. 34 n. 107) que em muitos outros lugares fenderam-se os montes por esse terremoto. No promontório de Gaeta vê-se ainda hoje um rochedo do qual se diz que, na morte do Senhor, ele se abriu pelo meio de cima até em baixo e aparece claramente que a abertura foi prodigiosa, pois é tão grande que o mar a atravessa pelo meio e o que falta de um lado vê-se elevar-se perfeitamente correspondente no outro. A mesma coisa diz a tradição a respeito do monte Colombo, perto de Rieti, do Monteserrate na Espanha e de diversos outros montes abertos na Sardenha em redor da cidade de Gagliari. Mais admirável, porém, é o que se vê no monte Alverne, na Toscana, onde S. Francisco recebeu os sagrados estigmas, no qual se encontram enormes blocos de perda amontados uns sobre os outros. Diz-se que um anjo revelou a S. Francisco que foi aquele um dos montes que ruíram na morte de Jesus Cristo, como traz Wadding em seus Anais (An. Min. an. 1215 n .15). S. Ambrósio escreve:“Ó peitos dos judeus mais duros que os rochedos, rompem-se as pedras, mas esses corações permanecem duros” (Lib. 10 in Lc).
2. S. Mateus continua a descrever os prodígios ocorridos na morte de Cristo e diz: “E os monumentos se abriram e muitos corpos de santos, que tinham falecido, ressurgiram e, saindo de suas sepulturas depois de sua ressurreição, vieram à cidade santa e apareceram a muitos” (Mt 27,52). S. Ambrósio pergunta: “A abertura das sepulturas que outra coisa significa senão a ressurreição dos mortos, quebradas as portas da morte?” (Liv. 10 in Lc). S. Jerônimo, S. Beda , o venerável, e S. Tomás afirmam que apesar de se abrirem os sepulcros na morte de Jesus, contudo os mortos não ressurgiram senão depois da ressurreição do Senhor, e isto segundo o dito Apóstolo (Cl 1,18):“Ele é o princípio e o primogênito dentre os mortos, de maneira que tem a primazia em todas as coisas”.“Não era de fato conveniente que outro homem ressuscitasse antes dele, que tinha triunfado da morte.

Conversão do centurião.

1. Diz-se em S. Mateus que muitos santos ressurgiram e, saindo dos sepulcros, apareceram a muitos. Esses ressuscitados foram os justos que tinham crido e esperado em Jesus Cristo. Deus quis assim glorificá-los em prêmio de sua fé e confiança no futuro. Messias, segundo a profecia de Zacarias, na qual ele diz, referindo-se ao Messias futuro: “Tu também, pelo sangue de teu testamento, fizeste sair os teus presos do lago em que não há água” (Zc 9,11). Isto é: tu então, ó Messias, pelo merecimento de teu sangue, desceste ao cárcere e libertaste os santos encarcerados naquele lago subterrâneo (o limbo dos padres, onde não existia a água da alegria) e os reconduziste à glória eterna. S. Mateus continua que o centurião e os outros soldados, seus comandados, que foram os ministros da morte do Senhor, não obstante teremos judeus provado obstinadamente a morte injusta a que foi condenado, profundamente comovidos com os prodígios das trevas e do terremoto, o reconheceram por verdadeiro filho de Deus: “O centurião, porém, e os que com mele guardavam Jesus, vendo o terremoto e as coisas que se davam, ficaram aterrorizados e disseram: “Verdadeiramente este era o Filho de Deus” (Mt 27,54). Estes soldados foram as primícias felizes dos gentios que abraçaram a fé de Jesus Cristo depois de sua morte, pois, por meio de seus merecimentos, tiveram a sorte de conhecer seus pecados e de esperar o perdão.
S. Lucas conta que todos os que se achavam presentes na morte de Jesus e viram os prodígios narrados, voltaram batendo no peito em sinal de seu arrependimento de haverem cooperado ou ao menos aplaudido a condenação do Salvador (Lc 23,48). E por isso, como vemos dos Atos dos Apóstolos, também muitos judeus, sentindo-se compungidos com a prédica de S. Pedro, perguntaram-lhe que deviam fazer para salvar-se. O número daqueles a quem respondeu S. Pedro que fizessem penitência e se batizassem chegou a três mil (At 2,41).
2. Vieram depois os soldados e quebraram as pernas dos dois ladrões. Chegando-se, porém, a Jesus e vendo que estava morto, abstiveram-se de fazer-lhe o mesmo, mas um deles com a lança abriu-lhe o peito, do qual saiu imediatamente sangue e água (Jo 19,34). S. Cipriano escreve que a lança atingiu diretamente o coração de Jesus Cristo. O mesmo foi revelado a S. Brígida (Rv 1. 2, c. 21) e isso se deduz de ter saído juntamente com o sangue também água do lado do Senhor, pois a lança, para atingir o coração de Cristo, teve primeiro de romper o pericárdio, que envolve o coração todo. S. Agostinho nota (Serm. 120 in Jo.) que S. João escreveu abriu, porque então se abriu no coração do Senhor a porta da vida, da qual brotaram os Sacramentos, que dão entrada à vida eterna. Por isso é que se diz que o sangue e água saídos do lado de Jesus Cristo foram a figura dos Sacramentos, pois a água é o símbolo do batismo, o primeiro dos Sacramentos, e o sangue se encontra na Eucaristia, o maior dos sacramentos. S. Bernardo diz que Jesus com essa chaga visível queria patentear a chaga invisível do amor, de que seu coração estava ferido por nós: “Por isso foi vulnerado para que, pela chaga visível, enxerguemos a chaga invisível do amor: a chaga carnal, portanto, demonstra a chaga espiritual”. E conclui: “Quem, pois, deixará de amar esse coração tão chagado?” (Serm. 3 de pass.).S. Agostinho, falando da Eucaristia, diz que o Santo Sacrifício da missa não é hoje menos eficaz perante Deus que o sangue e água saídos então do lado ferido de Jesus Cristo (In ps. 85).

Pobre até na sepultura, mas ressurge gloriosamente.

1. Terminemos este capítulo com algumas reflexões sobre a sepultura de Jesus Cristo. Jesus veio ao mundo não só para remir-nos como também para ensinar-nos, com seu exemplo, todas as virtudes e de modo especial a humildade e a santa pobreza, companheira inseparável da humildade. Por isso quis nascer pobre numa gruta, viver pobre numa oficina por trinta anos, e finalmente morrer pobre e nu sobre uma cruz, vendo com seus próprios olhos como os soldados sorteavam suas vestes antes de expirar. Depois de morto teve que receber de outros por esmola, um lençol para ser sepultado. Consolem-se, pois, os pobres, vendo Jesus Cristo, rei do céu e da terra, viver e morrer como pobre, para nos enriquecer com seus merecimentos e seus bens, como dizia o Apóstolo: “Porque por vós ele se fez pobre, sendo rico, para que por sua pobreza vos tornásseis ricos” (2Cor 8,9). Tendo isso em vista, os santos, para se assemelharem a Jesus, sobre, desprezaram todas as riquezas e honras do mundo, para um dia gozarem com Jesus Cristo das riquezas e honras celestes preparadas por Deus para aqueles que o amam. Falando desses bens, escreve o Apóstolo: “O olho não viu, o ouvido não ouviu, nem chegou jamais ao coração do homem o que Deus preparou para aqueles que o amam (1Cor 2,9).
2. Jesus Cristo ressurge, pois, com a glória de possuir, não só como Deus, mas também como homem, todo o poder no céu e na terra, sendo todos os anjos e todos os homens seus súditos. Alegremo-nos, portanto, vendo assim glorificado o nosso Salvador, o nosso Pai e o melhor amigo que possuímos. Alegremo-nos por nós mesmos, pois a ressurreição de Jesus Cristo é para nós um penhor seguro de nossa própria ressurreição e da glória que esperamos possuir um dia lá no céu tanto no corpo como na alma. Essa esperança dava força aos santos mártires para sofrer com alegria todos os males desta terra e os mais cruéis tormentos dos tiranos. Mas é preciso persuadirmos de que não gozará com Jesus Cristo quem não quiser sofrer também com Jesus Cristo e nem obterá a coroa quem não combater como deve: “E quem combate na liga não é coroado se não combater legitimamente” (2Tm 2,5). Persuadamo-nos igualmente do que diz o mesmo apóstolo, que todos os sofrimentos desta vida são muito breves e leves em comparação dos bens imensos e eternos que esperamos gozar no paraíso (2Cor 4,7). Procuremos, pois, estar sempre na graça de Deus e suplicar-lhe continuamente a perseverança na sua graça; doutra maneira, sem a oração e oração perseverante não obteremos essa perseverança e sem a perseverança não alcançaremos a salvação.
Ó doce, ó amável Jesus, como pudestes amar tanto os homens, que, para lhes testemunhardes o vosso amor, não recusastes morrer desonrado e coberto de opróbrios sobre um lenho infame. Ó Deus, como é possível que tão poucos homens vos amem de coração? Ah, meu caro Redentor, eu quero ser do número desses poucos. Miserável que fui pelo passado, esquecendo-me do vosso amor e trocando a vossa graça por míseros deleites. Conheço o mal que fiz e dele me arrependo de todo o coração; desejaria morrer de dor. Agora, meu amado Redentor, eu vos amo mais do que a mim mesmo e estou pronto a morrer mil vezes antes do que a perder vossa amizade. Agradeço-vos a luz que me concedeis. Meu Jesus, minha esperança, não me deixeis entregue a mim mesmo, continuai a auxiliar-me até à morte. Ó Maria, Mãe de Deus, rogai a Jesus por mim.

CAPÍTULO VII

Do amor que Jesus Cristo nos demonstrou na sua paixão

Assim amou Deus o mundo. 1. S. Francisco de Sales chama o monte Calvário o monte dos amantes e diz que o amor que nasce da paixão é fraco, dando com isso a entender que a paixão de Jesus Cristo é o incentivo mais forte para nos mover e inflamar a amar o nosso Salvador. Para que possamos compreender em parte (pois totalmente é impossível) o grande amor que Deus nos demonstrou na paixão de Jesus Cristo, basta lançar um olhar ao que dizem as Sagradas Escrituras. Escolherei só alguns textos mais importantes que falam deste amor. E que ninguém ache fastidioso repetir eu esses textos que falam da paixão, tendo-os já citado muitas vezes em outras obras minhas. Também certos escritores de obras perniciosas, que tratam de obscenidades, repetem sempre suas pilhérias impudicas para despertar mais fortemente a concupiscência de seus incautos leitores. E a mim não me será então permitido repetir aqueles trechos das Sagradas Escrituras, que são mais aptos para inflamar os ânimos no amor divino?
Falando deste amor, diz o próprio Jesus: “Assim Deus amou o mundo que lhe deu seu Filho unigênito” (Jo 3,61). A palavra assim significa muito: ela nos faz compreender que, tendo-nos dado o seu Filho unigênito, nos demonstrou um tal amor que nós nem sequer podemos compreendê-lo. Por causa do pecado todos nós estávamos mortos, tendo perdido a vida da graça. O Padre eterno, porém, para dar a conhecer ao mundo a sua bondade e nos fazer compreender quanto nos amava, quis enviar à terra seu Filho, para que ele com sua morte nos restituísse a vida.“Nisto é que se manifestou a caridade de Deus para conosco, que Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo para que nós vivamos por ele” (1Jo 4,9). Para nos perdoar a nós, Deus não quis perdoar a seu próprio Filho, desejando que ele assumisse o peso de satisfazer a justiça divina por todas as nossas culpas. “O qual não poupou seu próprio Filho, mas entregou-o por todos nós” (Rm 8,32). Diz-se entregou-o, como se o depositasse nas mãos dos algozes, que o encheram de ignomínias e dores, até fazê-lo morrer de dor em um patíbulo ignominioso. Primeiramente o sobrecarregou com todos os nossos pecados: “E o Senhor pôs sobre ele a iniqüidade de nós todos” (Is 53,6), e depois quis vê-lo consumido de opróbrios e das mais acerbas aflições tanto internas como externas: “Eu o feri por causa dos crimes de meu povo. E o Senhor quis quebrantá-lo na sua fraqueza” (Is 53,8-10).
2. S. Paulo, considerando este amor de Deus, chega a dizer: “Por causa de excessiva caridade com que nos amou, quando estávamos mortos pelos pecados, ele nos deu a vida em Cristo” (Ef 2,4-5). Ele diz por causa da excessiva caridade com que nos amou. Como? Em Deus poderá haver excesso? Sim, fala dessa maneira para que compreendamos que Deus fez pelo homem tais coisas, que, se a fé não o atestasse, não se poderia crê-lo. Por isso exclama a S. Igreja, cheia de admiração: “Ó admirável condescendência de vossa compaixão para conosco! Ó inestimável predileção de vossa caridade! Para remirdes o servo, entregastes o Filho”. Note-se esta expressão da Igreja: predileção da caridade, esse amor é mais caro a Deus que todos os amores que consagra às outras criaturas. Sendo Deus a caridade mesma, o amor mesmo, como escreve S. João: “Deus é a caridade” (1Jo 4,8), ama todas as criaturas: “Pois tu amas todas as coisas que existem e não odeias alguma das que fizeste” (Sb 11,25). O amor que ele dedica ao homem parece, porém, ser-lhe caro e avantajado, pois chega a preferir o homem aos mesmos anjos, querendo morrer pelos homens e não pelos anjos que se haviam extraviado. Ele se entregou a si mesmo.
1. Falando do amor que o Filho de Deus consagra ao homem, notemos que, vendo ele, de um lado, o homem perdido pelo pecado e de outro, a justiça de Deus que exigia inteira satisfação pela ofensa recebida do homem que não estava em condições de a dar, ofereceu-se espontaneamente a satisfazer pelo homem. “Foi oferecido porque ele mesmo o quis” (Is 53,7).Como um humilde cordeiro se submete aos carnífices, permitindo-lhes que lhe dilacerem as carnes, o conduzam à morte, sem se lamentar nem abrir a boca, como já estava predito:“Será levado como uma ovelha ao matadouro, e, como um cordeiro diante do que o tosquia, emudecerá e não abrirá a boca” (Is 53,7). S. Paulo escreve que Jesus, para obedecer a seu Pai, aceitou a morte da cruz: “Fez-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fl 2,8). Não se julgue, porém, que o Redentor de sua parte não o queria e só para obedecer ao Pai morreu crucificado: ele se ofereceu espontaneamente a essa morte e quis morrer por própria vontade pelo homem, levado pelo amor que lhe consagrava, como ele mesmo o declarou em S. João: “Eu mesmo entrego a minha alma, ninguém a tira de mim, mas eu mesmo a dou de mim mesmo” (Jo 10,18). E ajuntou que era esse o ofício de um bom pastor, dar a sua vida por suas ovelhas: “Eu sou o bom pastor, o bom pastor dá sua alma por suas ovelhas” (Jo 11,14). Por que quis morrer por suas ovelhas? Que obrigação tinha como pastor de dar sua vida por suas ovelhas? Quis morrer por causa do amor que lhes tinha e assim livrá-las do poder de Lúcifer: “Ele nos amou e se entregou por nós” (Ef 5,2). 2. Claramente afirmou nosso amante Redentor quando disse: “E eu, quando for exaltado da terra, atrairei tudo para mim” (Jo 12,32). Com essas palavras quis designar a morte que teria de sofrer sobre a cruz, como esclarece o mesmo evangelista: “Dizia isso, significando de que morte havia de morrer” (Jo 12,33). Comentando as palavras — tudo atrairei para mim — diz S. João Crisóstomo: como se tudo estivesse retido pelo tirano. Com a palavra — atrairei— quer o Senhor significar que ele, com sua morte, nos arrancou a força das mãos de Lúcifer, o qual como tirano nos conserva encadeados como escravos para nos atormentar eternamente no inferno depois da morte. Infelizes de nós, se Jesus Cristo não houvesse morrido por nós! Todos deveríamos ser condenados ao inferno. Que grande motivo para nós de amar Jesus Cristo, digo para nós, porque merecemos o inferno e ele, com sua morte e efusão de seu sangue, nos livrou dessa desgraça. Lancemos de passagem um olhar para as penas do inferno, onde já se acham infelizes a suportá-las. Esses infelizes estão imersos num mar de fogo, no qual sofrem uma agonia ininterrupta, pois nesse fogo experimentam toda sorte de tormentos. Estão entregues às mãos dos demônios, que, cheios de furor, não fazem outra coisa que atormentá-los incessantemente. Mais do que pelo fogo e por todos os outros horrores, são atormentadas pelo remorso da consciência pelos pecados
cometidos durante a vida, por cuja causa foram condenados. Vêem fechado para sempre todo caminho que possa conduzi-los para fora desse abismo de tormentos. Vêem-se banidos para sempre da companhia dos santos e da pátria celeste, para a qual foram criados. O que, porém, mais os aflige e constitui o seu inferno é verem-se abandonados de Deus e condenados a não poderem mais amá-lo nem dele recordar-se senão com ódio e rancor. Desse inferno nos livrou Jesus Cristo, remindo-nos não com ouro ou outros bens terrenos, como diz S. Lourenço Justiniano (De contempt. mundi. c. 7), mas dando-nos seu sangue e sua vida sobre a cruz. Os reis da terra enviam seus vassalos à morte, na guerra, para conservar a sua própria vida. Jesus, pelo contrário, quis morrer por nós, criaturas suas, para nos obter a salvação.

Amor sem medida.

1. Ei-lo então apresentado a Pilatos como um malfeitor pelos escribas e sacerdotes, para que ele o julgasse e condenasse à morte da cruz, como de fato o conseguiram. Oh! maravilha, exclama S. Agostinho, ver o juiz julgado, a justiça condenada e a vida morrer (Serm. 191). E qual foi a causa de todos esses prodígios senão o amor que Jesus Cristo tinha aos homens? “Amou-os e entregou-se assim mesmo por nós” (Ef 5,2). Oh! se tivéssemos sempre diante dos olhos esse trecho de S. Paulo, certamente arrancaríamos do coração todo o afeto aos bens da terra e não pensaríamos em outra coisa senão em amar o nosso Redentor, recordando-nos que o amor o levou a derramar todo o seu sangue para preparar-nos um banho de salvação.“O qual nos amou e lavou-nos de nossos peados no seu sangue” (Ap 1,5). Diz S. Bernardino de Sena que Jesus Cristo do alto de sua cruz viu em particular cada um de nossos pecados e ofereceu seu sangue em remissão de cada um em especial (Serm. 56 a. 1 c. 1). Em suma, o amor obrigou-o a aparecer nesta terra como o mais vil e humilde de todos, apesar de ser o senhor soberano.“Quem faz isto?” pergunta S. Bernardo;“O amor, que, forte, no seu afeto, não conhece dignidade” (In Cant. s. 64). O amor, que, para fazer-se notório ao objeto amado, faz que o amante ponha de parte sua dignidade e procure unicamente o que agrada e contenta ao amado, e assim Deus, que por ninguém pode ser vencido, deixou-se vencer pelo amor, que consagrava aos homens. É, além disso, necessário refletir que tudo o que padeceu Jesus Cristo em sua paixão, padeceu-o por causa de um de nós em particular e por isso diz S. Paulo: “Vivo na fé do Filho de Deus, que amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2,20). O que diz o Apóstolo deve dizer também cada um de nós. Assim, escreve S. Agostinho que o homem foi remido por um preço tão grande, que parece valer tanto quanto o próprio Deus (De dil. Deo c. 6). E o santo acrescenta em outro lugar: Senhor, vós me amastes, não como a vós mesmo, mas ainda mais do que a vós, pois, para livrar-me da morte, quisestes morrer por mim (Soliloq. c. 13).
2. Mas, podendo Jesus Cristo salvar-nos com uma só gota de sangue, por que quis derramá-lo todo a força de tormentos até expirar de pura dor no madeiro da cruz? Responde S. Bernardo que ele quis derramá-lo todo para nos demonstrar o amor excessivo que nos tinha. Digo excessivo, pois também os santos Moisés e Elias chamaram a paixão do Redentor um excesso de misericórdia e de amor: “E falavam de seu excesso, que havia de realizar em Jerusalém” (Lc 9,31). Falando S. Anselmo da paixão do Senhor, diz que a misericórdia
superou o delito de nossos pecados (Cur Deus homo 1. 2, c. 21) e isso porque o valor da morte de Jesus Cristo, sendo infinito, superou infinitamente a satisfação devida à justiça divina por nossas culpas. O Apóstolo tinha, pois, razão de dizer:“Longe esteja de mim o gloriar-me a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Gl 6,14). E o que dizia S. Paulo pode dizer qualquer um de nós. E por isso digamos: E que o maior glória poderia eu ter ou esperar no mundo, do que ver um Deus morto por amor de mim? Ó Deus eterno, eu vos desonrei com os meus pecados, mas Jesus Cristo com sua morte satisfez por mim e restituiu-vos superabundantemente a honra que vos era devida; por amor, pois, de Jesus morto por mim, tende compaixão de mim. E vós, meu Redentor, que quisestes morrer por mim a fim de obrigar-me a amar-vos, fazei que eu vos ame. Por ter desprezado a vossa graça e o vosso amor, merecia ser condenado a não poder mais amar-vos; dai-me, porém, qualquer castigo, mas não esse. Suplico-vos que não me envieis ao inferno, já que no inferno não posso amar-vos. Fazei que eu vos ame e depois castigai-me como quiserdes. Privai-me de tudo, somente não de vós. Aceito todas as enfermidades, todas as ignomínias,
todas as dores que me enviardes, contanto que eu vos ame. Conheço agora, pela luz que me dais, que sois soberanamente amável e muito me amastes; não ouso mais viver sem vos amar. No passado, amei as criaturas e voltei-vos as costas a vós, bem infinito; mas agora vos afirmo que quero amar exclusivamente a vós e nada mais. Ah, meu amado Salvador, se virdes que no futuro deixarei de vos amar, peço-vos que me façais morrer agora; prefiro ser aniquilado a ver-me separado de vós. Ó Virgem santa, Mãe de Deus, Maria, ajudai-me com vossas súplicas e obtende-me que não deixe mais de amar a Jesus morto por mim, e a vós, minha Rainha, que levastes Deus a usar de misericórdia comigo até agora.

CAPÍTULO VIII

Da gratidão que devemos a Jesus Cristo por sua paixão

O amor de Cristo nos constrange.

1. Diz S. Agostinho que, tendo sido Jesus Cristo o primeiro a dar a vida por nós, obrigou-nos com isso a que demos a vida por ele (Trac. 46 in Jo). Escreve o santo: “Conheceis qual é a mesa que contém o corpo e sangue de Cristo: o que dela se utiliza, deverá também tê-la preparada”. Quer dizer: quando nós vamos à mesa eucarística, para comungar, isto é, nutrir-nos do corpo e sangue de Jesus Cristo, devemos por gratidão preparar-lhe igualmente a oferta de nosso sangue e nossa vida e, se for necessário, sacrificar um e outra para sua glória. Mui belas são as palavras de S. Francisco de Sales a respeito do texto de S. Paulo: “A caridade de Cristo nos constrange” (2Cor 5,4). O amor de Jesus nos força, mas para quê? Nos força a amá-lo. Mas ouçamos o santo: “O conhecimento de que Jesus nos amou até à morte de cruz não é um conhecimento que força os nossos corações a amá-lo com uma violência tanto maior quanto mais amável ele o é? O meu Jesus se dá todo a mim e eu me dou todo a ele: eu viverei e morrerei sobre seu peito, nem a morte nem a vida dele mais me separarão”.
2. S. Pedro, para que nos recordemos de ser gratos a nosso Salvador, nos faz lembrar que não fomos resgatados da escravidão do inferno com ouro ou prata, mas com o sangue precioso de Jesus Cristo, o qual se sacrificou por nós como um cordeiro inocente sobre o altar da cruz (1Pd 1,18). Grande, portanto, será o castigo dos homens ingratos, que não correspondem a tal benefício. É verdade que Jesus veio para salvar todos os homens que estavam pedidos: “Veio o Filho do homem buscar e salvar o que se havia perdido” (Lc 19,19), mas é igualmente verdade o que afirmou o santo velho Simeão, quando Maria apresentou no templo Jesus menino: “Eis que este está posto para a ruína, a ressurreição de muitos em Israel e como sinal de contradição” (Lc 2,34). Com as palavras, para ressurreição de muitos, significou a salvação que Jesus traria a todos os crentes, que pela fé haviam de ressurgir da morte para a vida da graça. Mas com as palavras, este foi posto para ruína, predisse que muitos deviam cair em maior desgraça por sua ingratidão para com o Filho de Deus, que descera à terra para tornar-se o alvo de seus inimigos, como exprimem as palavras: como sinal de contradição, fazendo de Jesus o alvo para o qual dirigiam os judeus todas as calúnias, injúrias e maus tratos. Este sinal, pois, que é Jesus Cristo, não é só contradito pelos judeus que não o reconhecem pelo Messias, mas também pelos cristãos ingratos que pagam o seu amor com ofensas e desprezo de seus preceitos.

O Rei dos corações.

1. Nosso Redentor, diz S. Paulo, chegou até a dar a vida por nós, para se tornar senhor absoluto de todos os nossos afetos, demonstrando-nos o seu amor, morrendo por nós: “Por isso Cristo morreu e ressuscitou, para dominar sobre os vivos e os mortos” (Rm 14,9). Não, nós não somos mais nossos depois de termos sido comprados pelo sangue de Jesus Cristo: “Quer vivamos, quer morramos, somos do Senhor”, ajunta o Apóstolo (Rm 14,8). Logo, se não o amamos e não observamos seus preceitos dos quais o primeiro é o de amar, não somos somente ingratos, mas também injustos, e merecemos castigo duplo. A obrigação de um escravo resgatado por Jesus das mãos do demônio é dedicar-se totalmente a amá-lo e servi-lo, vivo ou morto. S. João Crisóstomo faz uma bela reflexão sobre o texto de S. Paulo, dizendo que Deus pensa mais em nós do que nós mesmos e por isso reputa como seu bem a nossa vida e como seu prejuízo a nossa morte. Assim, se morremos, não morremos só para nós, mas para Deus também. Oh! como é grande a nossa felicidade! Mesmo vivendo neste vale de lágrimas no meio de tantos inimigos e tantos perigos podemos contudo dizer: nós somos do Senhor, somos de Jesus Cristo: e sendo propriedade sua, ele terá cuidado em nos conservar na sua graça nesta vida e junto a si por todo e sempre na vida futura.
Jesus Cristo morreu,, por por cada um de nós, para que cada um de nós viva também para seu Redentor. “E Cristo morreu por todos, para que os que vivem já não vivam para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2Cor 5,15). Quem vive para si mesmo, para si dirige todos os seus desejos, temores, dores e põe nisso a sua felicidade. Mas todos os desejos do que vive para Jesus Cristo consistem em amá-lo e dar-lhe gosto e todos os seus temores em desgostá-lo. Sua única aflição é ver Jesus desprezado e sua única alegria é vê-lo amado pelos outros. Isto é viver para Jesus e é o que pretende seguramente cada um de nós. Por esse motivo procurou ele conquistar todo o nosso amor, sofrendo tão grandes penas.
2. Talvez pretenda ele demais? Não, diz S. Gregório, é justo que pretenda tanto, depois de nos ter dado tão grandes provas de seu amor, que até parece doido de amor por nós. “Pareceu até doidice, escreve S. Gregório, o autor da vida morrer pelos homens” (Hom. 6 in Evang.). Ele se dá sem reserva, inteiramente a nós; tem, pois, razão de pretender que nos demos incondicionalmente a ele e lhe consagraremos todo o nosso amor. E se lhe negamos uma parte, amando outra coisa fora dele ou não por ele, tem motivo de se queixar de nós. “Ama-te menos do que o mereces, quem juntamente contigo ama outra coisa que não é por ti que ama”, diz S. Agostinho (Confess. 1. 10, c. 29).
E que outra coisa podemos nós amar fora de Jesus senão as criaturas? Em comparação com Jesus Cristo, que são, porém, as criaturas senão vermes da terra, lodo, fumaça e vaidade? O tirano ofereceu a S. Clemente, papa, grande quantidade de dinheiro, de ouro e pedras preciosas, para que renunciasse a Jesus Cristo. O Santo deu um grande suspiro e exclamou: “Ah, meu Jesus, bem infinito, como podeis suportar ser considerado pelos homens menos que o lodo da terra?” Não foi a temeridade nem a afoiteza que levou os mártires a ir ao encontro dos cavaletes, das lâminas incandescentes e da morte a mais cruel, mas o amor de Jesus Cristo, quando o contemplavam morto na cruz por seu amor (Serm. 62 in Cant.). Sirva por todos o exemplo de S. Marcos e S. Marcelino, que, tendo os pés e as mãos cravados, eram insultados pelo tirano como loucos por quererem padecer um tormento tão atroz só para não renegar a Jesus Cristo. Eles, porém, responderam que jamais tinha experimentado delícias tão grandes como as que então gozavam estando transpassados por aqueles cravos.Todos os santos, para contentar a Jesus Cristo tão maltratado por nós, abraçaram com alegria a pobreza, as perseguições, os desprezos, as enfermidades, as dores e a morte. As almas esposas de Jesus crucificado não acham coisa alguma mais honrosa que trazer consigo as insígnias do crucifixo, isto é, os padecimentos.
Cristo vive em mim.

1. Ouçamos o que diz S. Agostinho: “A vós não é lícito amar pouco: esteja inteiramente fixo em vossos corações aquele que por vós foi fixado na cruz” (De san. virgin. c. 13). A nós, que cremos firmemente num Deus que morreu na cruz por nosso amor, não é lícito amá-lo pouco: em nosso coração não se deve aninhar outro amor senão o que devemos a quem por nosso amor quis morrer pregado na cruz. Unamo-nos todos com S. Paulo e digamos:“Estou pregado com Cristo na cruz. Já não sou eu que vivo, Cristo é que vive em mim” (Gl 2,19). Comentando S. Bernardo as palavras: Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim, diz: “Estou morto para todas as outras coisas; encontram-me, porém, vivo e pronto todas aquelas que se referem a Cristo” (Serm. 7 in Quadrag.). Assim diz cada um que ama o Crucifixo com o Apóstolo: Eu deixei de viver por mim mesmo, depois que Jesus quis morrer por mim, tomando sobre si a morte que me era destinada. E por isso estou morto para toas as coisas do mundo e não percebo nem dou atenção àquelas que não são para Jesus Cristo e só me encontram vivo e aparelhado para abraçá-las, mesmo que tragam consigo suores, desprezos, dores e até a morte as que dizem respeito a Jesus. S. Paulo podia afirmar: “Para mim o viver é Cristo” (Fl 1,21) querendo com essas breves palavras dizer: Jesus é o meu viver, ele é todo o meu pensamento, todo o meu fito, toda a minha esperança, todo o meu desejo, porque ele é todo o meu amor.
2. “Palavra de fé, porque, se morrermos com ele, com ele também viveremos; se sofrermos por ele, com ele também reinaremos; se o negarmos, ele também nos negará” (2Tm 2,11-12). Os reis da terra, depois de vencer seus inimigos, repartem com os que combateram os bens conquistados; assim procederá também Jesus Cristo no dia do juízo: repartirá os bens celestes a todos os que trabalharam e sofreram por sua glória. Diz o Apóstolo: Se morrermos com ele, com ele viveremos; o morrer com Cristo implica o negar-se a si mesmo, isto é, renunciar àquelas satisfações, porque, se não as abdicarmos, chegamos a renegar a Jesus Cristo, que então no dia das contas nos renegará a nós. E é preciso saber que não só negamos a Jesus Cristo quando renegamos a fé, mas também quando nos negamos a obedecer-lhe naquilo que ele quer de nós, como o perdoar qualquer afronta recebida do próximo por amor dele, o ceder em qualquer ponto de honra, assim dito, o romper qualquer amizade que nos põe no perigo de perder a amizade de Jesus, o desprezar o receio de ser tidos por ingratos, visto que nossa primeira gratidão deve ser para com Jesus, que deu seu sangue e sua vida por nós, coisa que criatura alguma jamais fez por nós. Ó amor divino, como podes ser assim desprezado pelos homens! Ó homens, contemplai sobre essa cruz o Filho de Deus que, qual cordeiro inocente, se sacrificou à morte para pagar os vossos pecados e desta maneira conquistar o vosso amor. Contemplai-o, contemplai-o e amai-o. Jesus meu, amabilidade infinita, não me deixeis viver mais ingrato para com tão grande bondade. Vivi no passado esquecido de vosso amor e do quanto padecestes por mim: de hoje em diante não quero pensar em mais nada senão em amar-vos. Ó chagas de Jesus, feri-me de amor. Ó sangue de Jesus, inebriai-me de amor. Ó morte de Jesus, fazei-me morrer a todo outro amor que não seja de Jesus. Eu vos amo, ó meu Jesus, sobre todas as coisas: amo-vos com toda a minha alma, amo-vos mais do que a mim mesmo. Eu vos amo e porque eu vos amo desejaria morrer de dor, pensando que no passado tantas vezes vos voltei as costas e desprezei a vossa graça. Por vossos merecimentos, ó meu Salvador crucificado, dai-me o vosso amor e fazei-me todo vosso. Ó Maria, minha esperança, fazei-me amar a Jesus Cristo e nada mais vos peço.

CAPÍTULO IX

Todas as nossas esperanças devem ser postas nos merecimentos de Jesus Cristo

Só nele há salvação.

1.“Não há salvação em nenhum outro” (At 4,12). S. Pedro diz que toda a nossa salvação está em Jesus Cristo, que por meio de sua cruz, na qual sacrificou por nós sua vida, nos abriu o caminho da esperança de recebermos todos os bens de Deus, se formos fiéis a seus preceitos. Ouçamos o que diz da cruz S. João Crisóstomo: “A cruz é a esperança dos cristãos, o arrimo dos coxos, a consolação dos pobres, a destruição dos soberbos, o triunfo sobre os demônios, a mestra dos jovens, o leme dos navegantes, o porto para os que estão em perigo, a conselheira dos justos, o descanso dos atribulados, o médico dos enfermos, a glória os mártires” (Hom. de cruc. t. 3). A cruz, isto é, Jesus crucificado, é a esperança dos fiéis, porque, se não tivéssemos Jesus Cristo, não haveria salvação para nós, é o arrimo
para os coxos, nós todos somos coxos no atual estado de corrupção e, fora da força que nos comunica a graça de Jesus Cristo, não temos outro para trilhar o caminho da salvação; é a consolação dos pobres, isto é, de nós todos, pois tudo o que temos o temos de Jesus Cristo; é a destruição dos soberbos, já que os sequazes de Jesus Cristo não podem ser soberbos vendo-o morto, qual malfeitor, na cruz; é o triunfo sobre os demônios, pois só o sinal da cruz basta para afungentá-los; é a mestra dos principiantes: que belos ensinamentos não dá a cruz àqueles que começam a palmilhar o caminho da salvação; é o lema dos navegantes: oh! como a cruz nos guia nas tempestades da vida presente: é o porto dos que perigam: os que se acham em perigo de perder-se pelas tentações ou fortes paixões encontram um porto seguro recorrendo à cruz; é conselheira dos justos: quantos santos conselhos não dá a cruz nas tribulações da vida; é o repouso para os aflitos: que coisa poderá aliviar mais os atribulados do que contemplar a cruz em que padece um Deus por seu amor? É o médico dos enfermos, que, abraçando a cruz, ficam curados de todas as chagas da alma; é a glória dos mártires, pois sua maior glória consistia em se tornarem semelhantes a Jesus Cristo, rei dos mártires.
2. Em suma, todas as nossas esperanças estão postas nos merecimentos de Jesus Cristo. Dizia o Apóstolo: “Sei passar privações, sei também viver na abundância (fui instruído em tudo e por tudo), tanto estar em fartura, como suportar miséria; ter de sobra como curtir penúria. Tudo posso naquele que me conforta” (Fl 4,12-13). Assim S. Paulo, tendo aprendido do Senhor, afirmava: Eu sei como devo me portar: quando Deus me humilha, devo resignar-me ao seu querer; quando me exalta, sei render-lhe toda a honra; quando me faz passar por abundância, eu lhe sou grato; quando me faz sofrer penúria, eu o bendigo; tudo isso, porém, não faço por minha virtude, mas pelo auxílio da graça que Deus me dá: Tudo posso, mas naquele que me conforta. No texto grego, em vez das palavras: naquele que me conforta, está: no Cristo que me corrobora; quem desconfia de si e confia em Jesus é por ele munido de uma força invencível.“O Senhor torna todo poderosos os que nele põem sua confiança”, diz S. Bernardo (Serm. 85 in Cant.). “Uma alma que não presume de suas forças, mas é confortada por Jesus Cristo, poderá se tornar senhora de si de tal maneira que nenhum pecado a dominará. Não há força, nem fraude, nem prazer algum que possa abater quem se apoia no Verbo divino, conclui o mesmo santo.

Virtude de Cristo em nós.

1. O apóstolo suplicou três vezes ao Senhor que o livrasse de um aguilhão impuro que o molestava e recebeu a resposta: “Basta-te a minha graça, pois a virtude se completa na fraqueza” (2Cor 12,9). Como se explica que a virtude se aperfeiçoa na fraqueza? S. Tomás com S. Crisóstomo explica que, quanto maior é a fraqueza e inclinação para o mal, tanto maior força Deus comunica a quem nele confia. Por isso, S. Paulo no lugar citado diz: “De boa vontade gloriar-me-ei nas minhas enfermidades, para que a virtude de Cristo habite em mim. Por isso é que me comprazo nas minhas enfermidades, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias pelo Cristo, porque quando estou enfermo então é que estou forte” (2Cor 12,10). “Porque a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para os que se salvam, isto é, para nós, é a força de Deus” (1Cor 1,18). S. Paulo nos adverte a não seguir os mundanos, que põem sua confiança nas riquezas ou em seus parentes e amigos do mundo e julgam loucos os santos por desprezarem esses esteios terrenos. Os homens de bem depositam toda a sua confiança no amor da cruz, isto é, de Jesus crucificado, que concede todos os bens a quem nele confia.
2. Note-se também que o poder e força do mundo são mui diversos dos de Deus: aquele se adquire por meio das riquezas e honras mundanas; este, pela humildade e tolerância. S. Agostinho diz que nossa força está no reconhecimento de nossa fraqueza e na confissão humilde de nossas misérias (De grat. Chr. c. 12). E S. Jerônimo diz que toda a perfeição da vida presente consiste em nos reconhecermos imperfeitos (Ep. ad Ctesiph.). Sim, porque, quando nós nos reconhecemos imperfeitos como o somos, então, desconfiando das nossas forças, abandonamo-nos nos braços de Deus, que protege e salva os que nele confiam. “Ele é o protetor de todos os que esperam nele” (Sl 17,31). “Vós salvais os que esperam em vós” (Sl 16,7). Davi ajunta que quem confia no Senhor torna-se firme como um monte, que não se abala com todos os esforços de seus inimigos: “Quem confia no Senhor, como o monte Sião não será abalado eternamente” (Sl 134,1). S. Agostinho nos admoesta que nos perigos de pecar, quando tentados, devemos recorrer e nos abandonar a Jesus Cristo, que não se afastará deixando-nos cair, antes nos tomará nos braços para sustentar-nos e assim remediar a nossa fraqueza (Conf. 1. 8 c. 11). Jesus Cristo, tomando sobre si as fraquezas de nossa humanidade, nos mereceu uma força que supera toda a nossa fraqueza. S. Paulo diz: “Por isso que ele mesmo padeceu e foi tentado, pode auxiliar os que são tentados” (Hb 2,18). Como se explica que o Salvador, por ter sido tentado, pode nos socorrer nas nossas tentações? Explica-se por que Jesus, tendo sido atormentado pelas tentações, tornou-se mais propenso a compadecer-se de nós e auxiliar-nos quando tentados. A este corresponde aquele outro texto de S. Paulo: “Não temos um pontífice que se não possa compadecer das nossas fraquezas, mas um experimentado à nossa semelhança em tudo, com exceção do pecado” (Hb 4,15). Por isso o Apóstolo exorta-nos a que recorramos com confiança ao trono da graça que é a cruz, para recebermos do crucifixo as graças que desejamos: “Cheguemo-nos com confiança ao trono da graça, para obtermos misericórdia e encontrarmos a graça no momento oportuno” (Hb 4,16).

A fraqueza de Cristo é nossa força.

1. Jesus, sujeitando-se a padecer temores, tédio e tristeza, segundo os Evangelhos, quando falam das aflições que padeceu, especialmente na véspera de sua morte no jardim de Getsêmani(Mt 26,37), nos mereceu a coragem para resistir às ameaças daqueles que querem nos perverter, a força para vencer o tédio que experimentamos na oração, nas mortificações e outros atos de piedade, e o ânimo para suportar com paciência a tristeza que nos invade nas adversidades. Sabemos também que ele no horto, à vista de tantas dores e da morte desolada que o esperavam, quis sofrer tão grande fraqueza na sua humanidade, que afirmou: “O espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 24,41). E pediu a seu divino Pai que, se fosse possível, o livrasse daquele tormento: “Pai, se for possível, que este cálice passe de mim. Todavia não seja como eu quero e sim como vós quereis” (Mt 26,39). E durante todo o tempo que se demorou no horto a rezar, repetiu sempre a mesma súplica: “Faça-se a vossa vontade...e orou terceira vez, repetindo as mesmas palavras” (Mt 26,44). Jesus, com aquele fiat, nos mereceu e obteve então a resignação em todas as coisas contrárias e alcançou aos mártires e aos confessores a força de resistir a todas as perseguições e tormentos dos tiranos: “Esta palavra (fiat) abrasou todos os confessores e coroou todos os mártires”, escreve S. Leão (Serm. 7 de pass. c. 5). Da mesma forma pela mágoa de nossos pecados, que lhe ocasionou uma tão atroz agonia no horto, Jesus nos mereceu a contrição de nossas culpas. Pelo abandono do Pai, que suportou na cruz, mereceu-nos a força de não perdermos o ânimo nas desolações e trevas de espírito. Com o inclinar a cabeça, ao expirar na cruz, para obedecer à vontade de seu Pai, mereceu-nos todas as vitórias que obtemos contra as paixões e as tentações, a paciência nos sofrimentos da vida e particularmente nas amarguras e angústias da morte. 2. Escreve S. Leão que Jesus veio se revestir de nossas enfermidades e angústias para nos comunicar sua virtude e constância (Serm. 3 c. 4). E S. Paulo: “E conquanto fosse o Filho de Deus, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu” (Hb 5,8). Isso não quer dizer que Jesus na sua paixão tivesse aprendido a virtude da obediência, até então ignorada por ele, mas que ele aprendeu pela experiência quão dura era a morte a que se sujeitara para obedecer a seu Pai, conforme explica S. Anselmo. Experimentou igualmente quão grande é o mérito da obediência, tendo obtido por meio dela o sumo grau de glória para si, qual o de assentar-se à direita do Pai, e para nós a salvação eterna. E conclui o Apóstolo. “E, consumado, fez-se para todos os que obedecem a causa da salvação eterna” (Hb 5,9). Disse consumado, porque, tendo perfeitamente executado a obediência, sofrendo com paciência toda a sua paixão, fez-se, para todos que lhe obedecem no sofrer pacientemente os trabalhos da vida presente, causa da Salvação eterna.

Nada poderá me separar do amor de Jesus.

1. Esta paciência de Jesus Cristo animou e encorajou os santos mártires para abraçar com paciência os mais atrozes tormentos que a crueldade dos tiranos soube inventar e não somente com paciência, mas até com alegria e desejo de padecer ainda mais por amor de Jesus Cristo. Leia-se a célebre carta que S. Inácio mártir, já condenado as feras, escreveu aos Romanos antes de chegar ao lugar de seu martírio: “Permiti, filhinhos, que eu seja triturado pelos dentes das feras para que seja encontrado como frumento de meu Redentor. Eu não busco outro senão aquele que morreu por mim. Ele, que é o único objeto de meu amor, foi crucificado por mim, e o amor que eu lhe dedico faz-me desejar ser crucificado por ele”. S. Leão escreve do mártir S. Lourenço que, enquanto ele estava na grelha, era menos ardente o fogo que o queimava exteriormente que aquele que o consumia interiormente. Escrevem Eusébio e Paládio que S. Potamiana, virgem de Alexandria, foi condenada a ser lançada em uma caldeira de pez fervente. A santa, a fim de mais sofrer por amor de seu esposo crucificado, pediu ao tirano que a introduzissem aos poucos na caldeira,
para que a morte se tornasse mais dolorosa. E foi atendida, pois começaram a metê-la no pez pelos pés, de maneira que suportou durante três horas esse tormento, só morrendo quando o pez atingiu o seu pescoço. Eis aí a paciência e a fortaleza que receberam os mártires da paixão de Jesus Cristo.
2. Esta coragem que o crucifixo infunde naquele que o ama fazia o apóstolo dizer:“Quem, pois, nos há de separar da caridade de Cristo? A tribulação, a angústia, a fome, a nudez, o perigo, a perseguição, a espada?” (Rm 8,35). E afirma ao mesmo tempo que esperava superar tudo na virtude e pelo amor de Jesus Cristo.“Mas em tudo isso saímos vencedores por aquele que nos amou” (8,37). O amor dos mártires para com Jesus era invencível porque recebiam a força do invencível que os confortava nos sofrimentos. E não pensemos que os tormentos perdiam, por milagre, a propriedade de afligir, ou então que as consolações espirituais absorviam a dor dos tormentos: isso deu-se uma ou outra vez, mas ordinariamente os mártires bem sentiam as dores e muitos por fraqueza cederam às torturas; os que sofreram com constância sofreram-no exclusivamente pelo dom de Deus, que lhes subministrava um tal vigor.
Objeto primário de nossa esperança é a bem-aventurança eterna, isto é, o gozo de Deus — fruitio Dei — como ensina S. Tomás; todos os outros meios, pois, para se alcançar a salvação, que consiste nesse gozo de Deus, como o perdão dos pecados, a perseverança final divina, a boa morte, não devemos esperar de nossas forças nem de nossos propósitos, mas somente dos merecimentos e da graça de Jesus Cristo. Para que seja, pois, firme a nossa confiança, devemos crer com certeza infalível que a aquisição de todos esses meios de salvação depende unicamente dos merecimentos de Jesus Cristo.
§ 1. De Jesus Cristo devemos esperar

O perdão de nossos pecados
Propiciação por nossos pecados.

1. Falando primeiramente da remissão dos pecados, devemos saber que nosso Redentor, vindo à terra, teve por fim o perdão de nossos pecados. “O Filho do homem veio para salvar o que se havia perdido” (Mt 18,11). João Batista, mostrando aos judeus o Messias já vindo, disse-lhes: “Eis o Cordeiro de Deus, eis o que tira os pecados do mundo” (Jo 1,29). Segundo o texto grego lê-se: Eis aquele cordeiro, como se S. João dissesse: Eis aquele cordeiro divino predito por Isaías: “E como um cordeiro que fica mudo diante do que o tosquia” (Is 53,7) e por Jeremias: “Eu sou como um manso cordeiro que é levado para o sacrifício” (Jr 11,19). Já antes, era figurado pelo cordeiro pascal de Moisés e pelo sacrifício em que era, conforme a lei, todas as manhãs imolado um cordeiro, e por diversos outros que eram oferecidos à tarde pelos pecados.Todos esses cordeiros, porém, não podiam abolir um único pecado, só serviam para representar o sacrifício daquele cordeiro divino Jesus Cristo, que com seu sangue deveria lavar as nossas almas e livrá-las da mancha da culpa como da pena eterna por ela merecida — o que exprime a palavra tollit — tomando sobre si a obrigação de satisfazer à divina justiça por nós, com sua morte, segundo o testemunho de Isaías: “Deus carregou sobre ele as iniqüidades de todos nós” (Is 53,6). Em confirmação, diz S. Cirilo: “um é trucidado por todos, para ganhar para Deus Padre todo o gênero humano”. Jesus quis deixar-se matar para ganhar para Deus todos os homens que se haviam perdido. Quão grande é a nossa obrigação para com Jesus Cristo. Se de um réu já condenado à morte, enquanto se dirige para a forca e com o laço já no pescoço, lhe tirasse um amigo o laço e o aplicasse a si mesmo, morrendo nesse suplício para livrar o réu, quanta obrigação não teria este de amá-lo e lhe ser reconhecido? Isso foi justamente o que fez Jesus; quis morrer na cruz para nos livrar da morte eterna.
2. “Foi ele que levou os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro, a fim de que, mortos para os pecados, vivamos para a justiça; por cujas chagas fostes curados” (1Pd 2,24). Jesus, pois, se sobrecarregou de todos os nossos pecados e os levou sobre a cruz, para com a morte pagar nossa culpa e obter-nos o perdão e assim restituir-nos a vida perdida. Que maior maravilha poderá haver que uma chagas curem as chagas de outros e a morte de um restitua a vida a todos os homens que estavam mortos! exclama S. Boaventura
(Stim. p.1 c. 1). S. Paulo escreve que Jesus Cristo nos tornou agradáveis e amáveis aos olhos de Deus, de pecadores odiados e abomináveis que éramos, pelos méritos de seu sangue nos remitiu os pecados e nos concedeu com superabundância as riquezas de sua graça: “Tornou-nos agradáveis em seu Filho amado, em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão dos pecados segundo as riquezas de sua graça, a qual superabundou em nós” (Ef 1,6-8). E isso se deu pelo pacto de Jesus com seu eterno Pai de nos perdoar as culpas e nos readmitir na sua amizade em vista da paixão e morte de seu Filho.

Mediador do Novo Testamento.

1. Foi nesse sentido que o Apóstolo chamou Jesus Cristo mediador do Novo Testamento. Nas Sagradas Escrituras a expressão testamento se toma em dois sentidos: por pacto ou acordo feito entre duas partes que estão em discórdia e por promessa ou disposição da última vontade, pela qual o testador deixa sua herança aos herdeiros: esta disposição não se torna, porém, firme senão com a morte do testador. Do testamento como promessa se fala no § III; aqui falamos do testamento como pacto e neste sentido falou o apóstolo de Jesus Cristo: “E por isso é o mediador do Novo Testamento” (Hb 9,15). O homem por motivos do pecado era devedor à justiça divina e inimigo de Deus. Vem à terra o Filho de Deus e assume carne humana e então, sendo ele ao mesmo tempo Deus e homem, fez-se o mediador entre o homem e Deus, participando de um e de outro, e, a fim de estabelecer a paz entre ambos e obter para o homem a graça de Deus, ofereceu-se para pagar com seu sangue e com sua morte a dívida do homem. Ora, esta reconciliação já foi figurada no Antigo Testamento por todos os sacrifícios que então se ofereciam e por todos os símbolos ordenados por Deus, como o tabernáculo, o altar, o véu, o candelabro, o turíbulo e a arca na qual se guardavam a vara e as tábuas da lei: Todos esses objetos eram sinais e figuras da redenção prometida, e porque essa redenção devia ser efetivada pelo sangue de Jesus, por isso Deus ordenou que os sacrifícios se fizessem com a efusão de sangue dos animais (que era a figura do sangue daquele cordeiro divino) e que todos esses símbolos mencionados fossem aspergidos com sangue. “Por isso é que nem mesmo o primeiro (testamento) foi consagrado sem sangue” (Hb 9,18). 2. Segundo S. Paulo, o primeiro testamento, isto é, a primeira aliança, pacto ou mediação que se fez na lei antiga e que figurava a mediação de Jesus na nova lei, celebrou-se com o sangue dos touros e bodes, sendo aspergidos com esse sangue o livro, o povo, o tabernáculo e todos os vasos sagrados: “Lido que foi todo o mandamento da lei a todo o povo, Moisés, tomando sangue dos bezerros e dos bodes com água e lã tinta de escarlate (a lã tinta de escarlate significava igualmente Jesus Cristo; assim como a lã por sua natureza é branca e torna-se vermelha sendo tingida de escarlate, também
Jesus, o cândido por sua inocência e natureza, aparece na cruz vermelho de sangue, justiçado como malfeitor, cumprindo-se nele a palavra da esposa dos Cânticos: “O meu amado é cândido e vermelho” (Ct 5,10); e hissopo (o hissopo, planta humilde, significa a humildade de Jesus Cristo) aspergiu todo o povo e também o mesmo livro, dizendo: “Este é o sangue do testamento que Deus ordenou para vós. Aspergiu igualmente o tabernáculo e todos os vasos do culto com o sangue. E segundo a lei, quase tudo se purifica com o sangue e sem efusão de sangue não há remissão” (Hb 9,19-22). Quis o Apóstolo repetir mais vezes a palavra sangue, para que os judeus e todos os povos entendessem que sem o sangue de Jesus não há esperança de perdão para as nossas culpas. Assim, pois, como na antiga lei, pelo sangue das vítimas, se destruía a mancha externa dos pecados que os judeus cometiam contra a lei e lhes era perdoada a pena temporal imposta pela mesma lei, da mesma forma o sangue de Jesus Cristo na nova lei nos lava da mancha interna das culpas, segundo a palavra de S. João: “Ele nos amou e nos lavou no seu sangue” (Ap 1,5) e nos livra da pena eterna do inferno.

Nosso sumo sacerdote.

1. Eis a esse respeito a doutrina de S. Paulo:“Porém Cristo, vindo como pontífice dos bens futuros por um mais vasto e perfeito tabernáculo, não feito por mão de homem, isto é, não desta criação, nem como o sangue dos bodes ou de novilhos, mas com o próprio sangue, entrou no santuário uma vez, obtendo uma redenção eterna” (Hb 9,11 e 12). O pontífice entrava pelo tabernáculo no Santo dos santos e com a aspersão do sangue dos animais purificava os delinqüentes da mancha externa contraída e da pena temporal. Para a remissão da culpa e para a libertação da pena eterna os hebreus tinham necessidade absoluta da contrição com fé e esperança no Messias vindouro, que deveria dar a vida para obter-lhes o perdão. Jesus Cristo, ao contrário, por meio de seu corpo (e este é o tabernáculo mais amplo e mais perfeito indicado pelo apóstolo) sacrificado sobre a cruz, entrou no Santo dos santos do céu, que nos estava fechado, e no-lo abriu por meio da redenção. Por isso S. Paulo, para nos animar a esperar o perdão de todas as nossas culpas, confiando no sangue de Jesus, continua: “Pois se o sangue dos bodes e dos touros e a aspersão da cinza da novilha santifica os maculados, para a purificação da carne, quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito Santo se ofereceu a si mesmo, sem mácula, a Deus, purificará a nossa consciência das obras mortas para servir ao Deus vivo” (Hb 9,13 e 14). Diz quanto mais o sangue de Cristo que pelo Espírito Santo se ofereceu a si mesmo sem mácula, a Deus, porque Jesus se ofereceu a si mesmo a Deus, imaculado, sem sombra de culpa; doutra forma não teria sido digno mediador, apto a reconciliar o homem pecador com Deus, nem o seu sangue teria tido a virtude de purificar a nossa consciência das obras mortas, a saber, dos pecados, obras mortas sem merecimento e obras de morte dignas das penas eternas; para servir ao Deus vivo: o fim por que Deus nos perdoa é unicamente para que empreguemos a vida que nos resta em servi-lo. E o Apóstolo conclui: “E por isso é o mediador do Novo Testamento” (Hb 9,15). Quis o nosso Redentor, pelo amor imenso que
nos tinha, resgatar-nos da morte eterna com o preço de seu sangue e assim obter-nos de Deus o perdão, a graça e a felicidade eterna se formos fiéis em servi-lo até à morte. Foi essa a mediação ou o contrato feito entre Jesus Cristo e Deus, em vigor do qual nos foi prometido o perdão e a salvação.
2. Esta promessa do perdão de nossos pecados pelos merecimentos do sangue de Jesus Cristo foi confirmada pelo próprio Jesus no dia anterior à sua morte, ao insistir o sacramento da eucaristia: “Este é, pois, o meu sangue do Novo Testamento que será derramado por muitos em remissão dos pecados” (Mt 26,28). Disse: será derramado, pois estava próximo o sacrifício no qual devia derramar não uma parte, mas todo o seu sangue, para satisfazer por nossos pecados e obter-nos o perdão. Quis por isso que este sacrifício fosse renovado todos os dias em cada missa que se celebra, a fim de que seu sangue intercedesse continuamente em nosso favor. Foi essa a razão por que Jesus Cristo foi chamado sacerdote segundo a ordem de Melquisedec: “Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedec” (Sl 109,4). Aarão ofereceu sacrifícios de animais: o sacrifício de Melquisedec foi de pão e de vinho, figura do Sacrifício do Altar, no qual vosso Salvador, debaixo das espécies de pão e de vinho, ofereceu a Deus na última ceia seu corpo e seu sangue, que devia sacrificar no dia seguinte na sua paixão e que continua a oferecer todos os dias pelas mãos dos sacerdotes, renovando dessa forma o sacrifício da cruz. S. Paulo explica por que Davi chamou Jesus Cristo sacerdote eterno: “Este, porém, como permanece eternamente, possui um sacerdócio sempiterno” (Hb 9,24). O sacerdócio antigo desaparecia com a morte dos sacerdotes, mas Jesus, porque é eterno, possui um sacerdócio também eterno. Como é que no céu continua ele a exercer esse seu sacerdócio? S. Paulo diz: “Por isso pode perpetuamente salvar os que por ele mesmo se chegam a Deus estando sempre vivo para interceder por nós” (Hb 7,25). O grande Sacrifício da Cruz, representado naquele altar, tem a virtude de salvar para sempre todos aqueles que, por meio de Jesus Cristo (se bem dispostos pela fé e boas obras) se chegam a Deus. Este sacrifício, segundo S. Ambrósio e S. Agostinho, Jesus como homem continua a oferecer a seu Pai em nosso favor, desempenhando ainda agora, como quando na terra, o ofício de nosso advogado e mediador e também de sacerdote, que consiste em rogar por nós, como exprimem as palavras: “Sempre vivo para interceder por nós”.

Nosso advogado.

1. São João Crisóstomo diz que as chagas de Jesus são outras tantas bocas que imploram continuamente a Deus o perdão das culpas para nós pecadores. O sangue de Jesus Cristo suplica por nós e obtém-nos a misericórdia divina, muito melhor do que implorava o sangue de Abel a vingança contra Caim. “Vós chegastes ao mediador do Novo Testamento, Jesus, e à aspersão do sangue que fala melhor do que o de Abel” (Hb 12,24). Nas revelações feitas a S. Maria Madalena de Pazzi, Nosso Senhor disse-lhe um dia: “A minha justiça foi transformada em clemência com a vingança tomada sobre as carnes inocentes de meu Filho. O sangue desse meu Filho não pede vingança como o sangue de Abel, mas somente misericórdia, e minha justiça não pode deixar de se aplacar com essa voz. Esse sangue me liga as mãos de modo que se não podem mover para tirar a vingança que antes tiravam dos pecados”. Escreve S. Agostinho que Deus nos prometeu a remissão dos pecados e a vida eterna; mas é mais o que ele fez por nós do que o que ele nos prometeu (Ender. in ps. 148). Dar-nos o perdão e o paraíso nada custou a Jesus Cristo; o remir-nos, porém, custou-lhe o sangue e a vida. O apóstolo S. João nos exorta a fugir do pecado, mas para que não desconfiemos do perdão das culpas cometidas, tendo firme resolução de as não repetir, nos encoraja, afirmando que temos de nos haver com Jesus, que não só morreu para nos perdoar, mas, depois de sua morte, se fez nosso advogado junto de seu divino Pai: “Meus filhinhos, eu vos escrevo estas coisas para que não pequeis; mas mesmo se alguém pecar temos um advogado junto do Pai, Jesus Cristo, o justo” (1Jo 2,1). Aos nossos pecados cabe por justiça a desgraça de Deus e a condenação eterna, mas a paixão do Salvador exige em nosso favor a desgraça divina e a salvação eterna e isso por justiça já que o eterno Padre, em vista de seus merecimentos, prometeu-lhe perdoar-nos e salvar-nos, caso estejamos dispostos para receber a sua divina graça e queiramos obedecer a seus preceitos, como escreve S. Paulo: “Tendo consumado, fez-se para todos os que lhe obedecem a causa da salvação eterna” (Hb 5,9). E assim Jesus Cristo, morrendo consumido de dores, obteve a salvação eterna para todos os que observam a sua lei. Somos por isso admoestados pelo apóstolo: “Corramos pela paciência para o combate que nos é proposto, olhando para o autor e consumador da fé, Jesus, que, tendo diante de si o gozo, escolheu a cruz, desprezando a ignomínia” (Hb 12,1 e 2). Vamos ou antes corramos com grande coragem, armados de paciência, a combater com os inimigos de nossa salvação, tendo sempre os olhos fixos em Jesus crucificado, que, renunciando a uma vida de gozo na terra, quis escolher uma vida de sofrimentos e uma morte cheia de dores e opróbrios e assim realizar a nossa redenção.
2. Ó sangue precioso, tu és a minha esperança. Sangue do inocente, lava as manchas do penitente. Ó meu Jesus, meus inimigos, depois de me arrastarem a vos ofender, dizem-me que não posso encontrar mais em vós a minha salvação:“Muitos dizem à minha alma: Não há mais salvação para ele no seu Deus” (Sl 3,3). Mas eu, confiado no sangue que derramastes por mim, vos direi com Davi: “Vós, porém, Senhor, sois o meu protetor” (Sl 3,4). Os inimigos me aterram dizendo que depois de tantos pecados, se eu recorrer a vós, serei por vós repelido; eu, porém, leio em S. João a vossa promessa que não repelireis ninguém que a vós se acolha: “Eu não porei fora o que vem a mim” (Jo 6,37). Recorro, pois, a vós, cheio de confiança. “Nós vos pedimos que venhais em auxílio de vossos servos que remistes com vosso sangue precioso”. Vós, meu Salvador, que com tanta dor e tanto amor derramastes o vosso sangue para que fôssemos salvos, tende piedade de mim, perdoai-me e salvai-me.

§ 2. Jesus Cristo nos dá a esperança da perseverança final

Poder de Deus na fraqueza humana.

1. Para alcançar a perseverança no bem não devemos confiar nos nossos propósitos e promessas feitas a Deus; se confiarmos nas nossas forças, estamos perdidos. Devemos pôr nos merecimentos de Jesus Cristo toda a nossa esperança de nos conservar na graça de Deus. Confiando no seu auxílio, perseveraremos até à morte, ainda que sejamos combatidos por todos os inimigos da terra e do inferno. Todas as vezes que nos acharmos com ânimo abatido e assaltados pelas tentações, parecendo-nos que estamos quase perdidos, não percamos então a coragem nem nos entreguemos ao desespero: recorramos ao crucifixo e ele nos sustentará para que não caiamos. O Senhor permite que mesmo os santos encontrem muitas vezes tais tempestades e temores. S. Paulo escreve que as aflições e os temores que ele experimentou na Ásia foram tão grandes que lhe fizeram sentir tédio pela vida: “Fomos excessivamente oprimidos acima de nossas forças, a ponto de tomarmos aborrecimento à própria vida” (2Cor 1,8). Com isso o Apóstolo deu a conhecer o que ele era segundo suas próprias forças, a fim de nos ensinar que Deus às vezes nos deixa na desolação para que conheçamos a nossa miséria e desconfiemos de nós mesmos, recorrendo com humildade à sua piedade e suplicando-lhe a força de não cair: “Para que não confiemos em nós, mas em Deus que ressuscita os mortos” (2Cor 1,9).
2. E em outro lugar fala o Apóstolo ainda mais claro: “Somos cercados de dificuldades insuperáveis e a nenhuma sucumbimos... somos abatidos, mas nem por isso perecemos” (2Cor 4,8-9).Vemo-nos oprimidos pela tristeza e pelas paixões, mas não nos abandonamos ao desespero; somos como que lançados num lago, mas não submergimos, porque o Senhor com a sua graça nos dá força para resistir aos inimigos”. O apóstolo nos adverte a ter sempre diante dos olhos que somos frágeis e facilmente perdemos o tesouro da graça divina e que, se a podemos conservar, isso não provém de nós, mas de Deus: “Temos, porém, esse tesouro em vasos frágeis, para que a sublimidade seja virtude de Deus e não de nós” (2Cor 4,7).

A armadura do cristão.

1. Fiquemos, pois, firmemente persuadidos que nesta vida devemos nos abster sempre de colocar nossa confiança em nossas obras. A nossa arma mais forte, com a qual sairemos sempre vitoriosos nos assaltos do inferno, é a santa oração. Esta é a armadura de Deus, da qual diz S. Paulo:“Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às insídias do demônio” (Ef 6,11). Pois não é contra os homens de carne, mas contra os príncipes e o poder do inferno, que temos de combater: “Porque a nossa maior luta não é contra a carne e o sangue, mas contra os príncipes e as potestades” (Ef 6,12). “Por isso ficai firmes, tendo os vossos rins cingidos da verdade e vestindo a couraça da justiça, calçando os pés em preparação para o evangelho da paz, sobretudo, embraçando o escudo da fé com o qual possais extinguir todos os dardos ígneos do maligníssimo; tomai também o capacete da salvação e o gládio do espírito, que é a palavra de Deus, orando em todo tempo com toda a sorte de deprecações e súplicas” (Ef 6,14-18). Detenhamo-nos um pouco para bem compreender as sobreditas palavras: Tende os vossos rins cingidos da verdade. O apóstolo alude ao cinturão militar com que os soldados se cingiam em sinal de fidelidade que juravam ao soberano. O cinturão com que se deve cingir o cristão há de ser a verdade da doutrina de Jesus Cristo, segundo a qual devem reprimir todos os movimentos desordenados e em especial os impuros, que são os mais perigosos. Revestindo a couraça da justiça. A couraça do cristão deve ser a boa vida, sem o que terá pouca força para resistir aos insultos dos inimigos. Tendo os pés calçados em preparação para o Evangelho da paz.
Os sapatos militares, que o cristão deve usar, a fim de caminhar expeditamente para onde deve, em oposição ao que anda descalço e que só caminha lentamente, hão de ser o ânimo aparelhado para abraçar praticamente e insinuar aos outros com o exemplo das máximas santas do Evangelho. Embraçando o escudo da fé com o qual possais extinguir todos os dardos ígneos do maligníssimo. O escudo, pois, com que há de defender-se o soldado de Cristo contra os dardos ígneos (isto é, penetrantes como fogo) do inimigo, há de ser a fé constante, fortalecida. Tomai também o capacete da salvação e o gládio do espírito que é palavra de Deus. O capacete, como entende
S. Anselmo, deve ser a esperança da salvação eterna, e finalmente a espada do espírito, isto é, a nossa espada espiritual, deve ser a palavra de Deus, pela qual ele promete repetidas vezes atender — ao que o suplica:“Pedi e vos será dado” (Mt 7,7).“Todo aquele que pedir, receberá” (Jo 11,10).“Invocai-me e eu vos atenderei” (Jo 33,3).“Invoca-me e eu te livrarei” (Sl 49,15).
2. E o Apóstolo conclui: “Orando em todo tempo com toda sorte de deprecações e súplicas pelo Espírito, e velando nisto com toda a perseverança a rogar por todos os santos” (Ef 6,18). A oração é, portanto, a arma mais forte, por meio da qual o Senhor nos dá a vitória contra as más paixões e tentações do inferno. Esta oração deve, porém, ser feita em espírito, não só com a boca, mas também com o coração. Além disso, deve ser contínua em todo tempo de nossa vida: “orando em todo tempo”, assim como são contínuas as batalhas, deve ser também contínua a nossa oração. Com toda sorte de deprecações e súplicas: se a tentação não desaparece com a primeira súplica, é preciso repeti-la uma segunda, terceira ou quarta vez e se, apesar disso, a tentação não cede, é necessário ajuntar os gemidos as lágrimas, a importunação, a veemência, como se quiséssemos forçar a Deus a conceder-nos a graça da vitória. Isto significam as palavras com toda a instância e solicitação. Acrescenta o Apóstolo: “Por todos os santos”, que significa que devemos rogar não só por nós, mas pela perseverança de todos os fiéis que estão na graça de Deus e em especial dos sacerdotes que trabalham pela conversão dos infiéis e de todos os pecadores, repetindo nas orações a súplica de Zacarias: “Iluminai aos que estão assentados nas trevas e na sombra da morte”
(Lc 1,79).

Quem pouco semeia pouco colherá.

1. Nos combates espirituais nos auxilia na resistência aos inimigos o preveni-los nas nossas meditações, preparando-nos a fazer toda a violência possível nesses casos que podem nos surpreender de improviso. Disso provinha que os santos podiam responder com tão grande mansidão ou mesmo calar-se e não se perturbar quando recebiam injúrias gravíssimas, ou eram perseguidos, ou tinham de suportar atrozes dores de corpo ou de alma, ou a perda de grandes bens, ou a morte de um parente mui querido. Tais vitórias não se obtêm ordinariamente sem o auxílio de uma vida muito correta, sem a freqüência dos sacramentos e sem um exercício contínuo da meditação, leitura espiritual e orações. Por isso estas vitórias dificilmente são alcançadas por aqueles que não são muito cautelosos em fugir das ocasiões perigosas ou vivem apegados à vontade ou aos prazeres do mundo e pouco praticam a mortificação dos sentidos; por aqueles, enfim, que levam uma vida mole. S. Agostinho escreve que na vida espiritual “primeiro se devem vencer as satisfações e depois as dores” (Serm. 135). Quer ele dizer que todo aquele que está acostumado a procurar os prazeres sensuais, dificilmente resistirá a uma grande paixão ou veemente tentação que o assalte; quem muito preza a estima do mundo, dificilmente sofrerá uma afronta grave sem
perder a graça de Deus. É verdade que da graça de Jesus Cristo e não de nós mesmos é que devemos esperar toda a força para viver sem pecado e fazer boas obras e por isso devemos empregar todo o cuidado de não nos tornarmos mais fracos do que já somos por nossa própria culpa. Certos defeitos, dos quais não fazemos conta, são a causa de nos faltar a luz divina e de o demônio ter mais poder sobre nós, por exemplo, o desejo de aparecer sábio ou nobre perante o mundo, a vaidade no trajar, a busca de certas comodidades supérfluas, o ressentimento por uma palavra ou ato de pouca atenção, a aspiração de agradar a todos, com prejuízo do proveito espiritual, a omissão das obras de piedade pelo respeito humano, pequenas desobediências aos superiores, pequenas murmurações, pequenas aversões conservadas no coração, leves mentiras, ligeiras zombarias do próximo, perda de tempo em palestras ou curiosidades inúteis, em suma todo o apego às coisas terrenas e todo ato de amor próprio desordenado pode servir ao inimigo para precipitar-nos em qualquer abismo ou pelo menos qualquer defeito deliberadamente querido nos privará da abundância do socorro divino, sem o qual cairemos em qualquer precipício. Nós lastimamos sentir-nos tão áridos e lânguidos nas orações, nas comunhões e em todos os exercícios de piedade, mas como Deus há de fazer que gozemos de sua presença e de suas visitas amorosas, se nós somos tão escassos e desatenciosos com ele? “Quem semeia com parcimônia, também colherá escassamente” (2Cor 9,6).
2. Se nós lhe causamos tantos desgostos, como havemos de querer recolher suas celestes consolações? Se não nos desprendermos em tudo da terra, não seremos mais por inteiro de Cristo e quem sabe onde chegaremos a parar. Jesus com sua humildade nos mereceu a graça de vencer a soberba; com sua pobreza, a força de desprezar os bens terrenos; com sua paciência, a constância para vencer os desprezos e as injúrias. Assim pergunta S. Agostinho: “Que coisa poderá curar a soberba, se não for a humildade do Filho de Deus? Que coisa, a avareza, se não a pobreza de Cristo? que coisa, a ira, se não a paciência do Salvador”. Se nós, porém, esfriamos no amor de Jesus Cristo e descuidamos de suplicar-lhe que nos socorra e até nutrimos no coração qualquer afeto terreno, dificilmente perseveraremos na boa vida. Rezemos, rezemos sempre: com a oração alcançaremos tudo.
Ó Salvador do mundo, ó minha única esperança, pelos merecimentos da vossa paixão, livrai-me de todo afeto impuro que possa ser obstáculo ao amor que vos devo. Fazei que eu viva despido de todos os desejos mundanos, fazei que o único objeto de meus desejos sejais vós só, a que sois o sumo bem e o único bem digno de ser amado. Por vossas sacrossantas chagas, curai as minhas enfermidades e dai-me a graça de conservar longe de meu coração todo amor que não é para vós, que mereceis todo o meu amor. Jesus, meu amor, vós sois a minha esperança. Ó doces palavras, ó doce conforto! Jesus, meu amor, vós sois a minha esperança.

§ 3. Da esperança que temos de chegar um dia, por Jesus Cristo, à felicidade do paraíso

Co-herdeiros de Cristo.
1.“E por isso é mediador do NovoTestamento, a fim de que, intervindo a morte... os que foram chamados receberam a herança eterna da promessa” (Hb 9,15). Aqui fala S. Paulo do Novo Testamento, não como de um pacto, mas como de uma promessa, isto é, a disposição da sua última vontade, pela qual Jesus Cristo nos constituiu herdeiros do reino dos céus, e porque o testamento não é válido senão depois da morte do testador, foi necessário que Jesus Cristo morresse, para que pudéssemos como seus herdeiros entrar na posse do paraíso.
Pelos méritos de Jesus Cristo, nosso mediador, recebemos no batismo a graça de ser Filhos de Deus, enquanto que os hebreus, no Antigo Testamento, apesar de serem o povo eleito, não deixaram de ser escravos.“Estes são os dois testamentos, um certamente do monte Sinais, que gera para a servidão” (Gl 4,24). No monte Sinai fez-se, por intermédio de Moisés, a primeira mediação, quando Deus, por meio dele, prometeu a abundância de bens temporais se observassem a lei que lhes dera. Esta mediação, porém, diz S. Paulo, não gerava senão servos, em oposição à de Jesus Cristo, que gera filhos: “Nós, porém, irmãos, somos filhos da promissão segundo Isaac” (Gl 4,28). Se, pois, nós, cristãos, somos filhos de Deus, diz o mesmo apóstolo, somos também herdeiros: a todos os filhos cabe parte da herança paterna, a qual no nosso caso é a glória eterna no paraíso, que Jesus Cristo nos mereceu com sua morte: “Se filhos, também herdeiros; herdeiros de fato de Deus e co-herdeiros de Cristo” (Rm 8,17).
2. Acrescenta, entretanto, S. Paulo, no mesmo lugar: “Mas isto se padecermos com ele, para também com ele sermos glorificados” (Rm 8,17). É certo que nós, pela filiação divina, obtida por Jesus com sua morte, adquirimos direito ao paraíso: isso só se entende, porém, se formos fiéis na prática de boas obras e particularmente se, pela paciência, correspondermos à graça divina. Pelo que, diz o Apóstolo, para obtermos a glória eterna como Jesus a alcançou, devemos na terra padecer a exemplo do mesmo Jesus Cristo. Ele vai na frente com a cruz, como um capitão; à sombra dessa bandeira, devemos segui-lo, cada um levando sua cruz, como nos admoesta o mesmo Senhor, dizendo: “Quem quiser vir após mim abnegue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mt 16,24). S. Paulo então anima-nos a sofrer com coragem, alentados pela esperança do paraíso, recordando-nos que a glória que nos será dada na outra vida será imensamente maior que o merecimento de todos os nossos sofrimentos, suportados de boa vontade em cumprimento da vontade de Deus. “Julgo, porém, que os sofrimentos da vida presente não têm proporção alguma com a glória futura que se manifestará em nós” (Rm 8,18).
Que pobre seria tão tolo que recusasse dar todos os seus andrajos em troca de um grande reino? Não possuímos presentemente essa glória porque não estamos ainda salvos, visto não termos ainda terminado a vida na graça de Deus; mas a esperança nos merecimentos de Jesus Cristo, diz S. Paulo, é que nos trará a salvação: “Pela esperança é que fomos salvos” (Rm 8,24). Ele não deixará de nos conceder todo o auxílio de que necessitamos para nos salvar, se lhe formos fiéis e perseverantes em suplicar-lhe, segundo a promessa do mesmo Jesus Cristo, de atender todo aquele que o suplicar: “Todo o que pedir, receberá” (Jo 11,10). Mas, dirá alguém: eu não duvido que Deus se negue a ouvir-me quando suplicar-lhe, mas receio que eu não o faça como devo. Não, diz S. Paulo, não há motivo para esse receio, porque, quando rezamos, Deus mesmo ajuda a nossa insuficiência e nos faz suplicar de maneira que sejamos atendidos: “O Espírito ajuda a nossa fraqueza e pede por nós” (Rm 8,26). Pede, isto é, faz-nos pedir, explica S. Agostinho.

Semelhantes à imagem do Filho.

1. Para nos aumentar a confiança, o Apóstolo ajunta: “Nós sabemos que, para os que amam a Deus, tudo concorre para o bem” (Rm 8,28). Quer com isso dar-nos a entender que não são desgraças as infâmias, as doenças, a pobreza, as perseguições, como julgam os homens, pois Deus as converterá em bens e glória dos que as suportarem com paciência. E o Apóstolo conclui:“Pois os que conheceu na sua presciência também os predestinou para se fazerem conformes à imagem de seu filho” (Rm 8,29). Com estas palavras quer persuadir-nos de que, se quisermos a salvação, devemos nos resolver a sofrer todas as coisas para não perdermos a graça divina, já que ninguém poderá ser admitido à glória dos bem-aventurados sem que, no dia de seu juízo, sua vida tenha sido encontrada conforme a de Jesus Cristo. Mas, para que os pecadores por esse motivo não se entreguem ao desespero, em vista das culpas cometidas, S. Paulo os anima a esperar o perdão, afirmando que o Padre eterno não quis por esse fim perdoar a seu próprio Filho, que se oferecera para satisfazer por nossos pecados, e o entregou à morte para poder perdoar-nos a nós, pecadores: “O qual não poupou a seu próprio Filho, mas o entregou por nós” (Rm 8,39). E para que seja ainda maior a esperança do perdão dos pecadores arrependidos, acrescenta: “E quem será que nos condenará? Cristo, que morreu por nós”. Como se dissesse: Pecadores, que detestais os pecados cometidos, por que tomeis ser condenados ao inferno? Dizei-me qual será o juiz que vos há de condenar? não é Jesus Cristo? E como podeis temer que vos condene à morte eterna esse redentor amoroso, que para vos não condenar quis condenar-se a si mesmo a morrer pregado no infame patíbulo da cruz? Isso muito bem se entende daqueles pecadores que, contritos, lavaram suas almas no sangue do cordeiro, segundo S. João: “Estes são os que lavaram suas vestes e as embranqueceram no sangue do
cordeiro” (Ap 7,14).
2. Ó meu Jesus, se eu olho para os meus pecados, envergonho-me de pedir-vos o céu, depois de o ter tantas vezes renunciado por gozos efêmeros e miseráveis: vendo-vos, porém, pregado nessa cruz, não posso deixar de esperar o paraíso, sabendo que quisestes morrer nesse madeiro para pagar por seus pecados e alcançar-me esse céu que eu desprezei. Ah, meu doce Redentor, eu espero pelos merecimentos de vossa morte que já me tenhais perdoado as ofensas que vos fiz e das quais já me arrependi e por cuja causa desejaria morrer de dor. Mas, ó meu Jesus, penso que, apesar de me haverdes perdoado, permanecerá sempre verdade que eu na minha ingratidão tive a coragem de causar-vos tão graves desgostos, a vós que tantos me haveis amado. O que está feito, porém, está feito; pelo menos, Senhor, eu quero, no tempo que me resta de vida, amar-vos com todas as minhas forças, quero viver só para vós, quero ser todo vosso, todo, todo. E isso haveis de realizar. Desprendei-me de todas as coisas da terra e dai-me luz e força para não buscar outra coisa senão vós, meu único bem, meu amor, meu tudo. Ó Maria, esperança dos pecadores, ajudar-me-eis com vossas súplicas. Rogai, rogai, por mim e não deixeis de orar enquanto não me virdes todo de Deus.

CAPÍTULO X

Da paciência que devemos praticar em união com Jesus Cristo, para alcançar a vida eterna

O mistério da paciência.

1. Falar de paciência e de sofrer é tratar de uma coisa que os amantes do mundo não praticam e nem sequer entendem. Só as almas que amam a Deus e compreendem e põem em prática. S. João da Cruz dizia a Jesus Cristo: “Senhor, eu nada mais vos preço que padecer e ser desprezado por vós”. E S. Teresa exclamava freqüentemente: “Ó meu Jesus, ou sofrer ou morrer”. S. Maria Madalena de Pazzi: “Senhor, sofrer e não sofrer”. Eis como falam os santos extasiados por Deus, e assim falam porque sabem muito bem que uma alma não pode dar uma prova mais segura de seu amor para com Deus do que padecendo voluntariamente para dar-lhe gosto. Esta foi a maior prova que Jesus Cristo nos deu do amor que nos tinha. Ele como Deus nos amou ao criar-nos, enriquecendo-nos com tantos bens, chamando-nos a gozar da mesma glória que ele goza, mas em nenhum outro ponto nos mostrou melhor quanto nos ama do que fazendo-se homem e abraçando uma vida penosa e uma morte cheia de dores e ignomínias por nosso amor. E nós, como demonstraremos nosso amor por Jesus Cristo? Talvez levando uma vida cheia de prazeres e delícias terrenas? Não pensemos que Deus se compraz em nosso sofrimento: ele não é um senhor de índole cruel que se satisfaz vendo gemer e sofrer suas criaturas; pelo contrário, é um Deus de bondade infinita, todo inclinado a ver-nos plenamente contentes e felizes, todo repleto de doçura, afabilidade e compaixão para com os que a ele recorrem.“Porque vós, Senhor, sois suave e brando e cheio de misericórdia para todos os que vos invocam” (Sl 85,5). A condição, porém, de nosso infeliz estado atual de pecadores e a gratidão que devemos ao amor de Jesus Cristo, exigem que nós, por seu amor, renunciemos aos deleites deste mundo e abracemos com ternura a cruz que ele nos destina a levar após si nesta vida, indo ele à frente com uma cruz mais pesada que a nossa e isso para nos levar a gozar, depois da nossa morte, de uma vida feliz que não terá fim. Deus, pois, não se apraz e ver-nos sofrer; sendo, porém, a justiça infinita, não pode deixar impunes as nossas culpas. Por isso, para que essas culpas sejam punidas e não percamos um dia a felicidade eterna, ele quer que, pela paciência, expiemos as culpas e assim mereçamos a felicidade eterna. Não poderia ser mais bela e suave essa determinação da divina Providência, que satisfaz ao mesmo tempo à justiça e nos faz salvos e felizes.
2. Devemos, por conseguinte, pôr toda a nossa esperança nos merecimentos de Jesus Cristo e dele esperar todos os auxílios para viver santamente e nos salvar e não podemos duvidar de seu desejo de nos ver santos: “Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação” (1Ts 4,3). Isso é verdade, mas não devemos nos descuidar de satisfazer de nossa parte pelas injúrias que fizemos a Deus e de conseguir pelas boas obras a vida eterna. É o que o Apóstolo queria significar quando escrevia: “Completo em minha carne o que falta dos sofrimentos de Cristo” (Cl 1,3). Mas então a paixão de Cristo não foi completa e não bastou ela só para nos salvar? Ela foi pleníssima quanto ao seu valor e suficientíssima para salvar todos os homens: entretanto, para que os merecimentos da paixão sejam aplicados a nós, diz S. Tomás, devemos entrar com a nossa parte e sofrer com paciência as cruzes que Deus nos envia para nos assemelhar a Jesus Cristo, nossa cabeça, segundo o que escreve o mesmo Apóstolo aos Romanos: “Pois os que conheceu na sua presciência, também os predestinou para se fazerem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8,2 29). Nuca, porém, devemos esquecer, como nota o mesmo Doutor Angélico, que toda virtude que possuem as nossas boas obras, satisfações e penitências, lhes provêm da satisfação de Jesus Cristo. “A satisfação do homem tira sua eficácia da satisfação de Jesus Cristo”. E assim se responde aos protestantes, que dizem serem nossas penitências uma injúria à paixão de Cristo, como se ela não fosse suficiente para satisfazer por nossos culpas.

O reino dos céus sofre violência.

1. Dissemos que, para poder participar dos merecimentos de Jesus Cristo, é preciso que nos esforcemos para cumprir os preceitos de Deus e nos façamos violência para não ceder às tentações do inferno. É o que o Senhor nos dá a entender, quando diz: “O reino dos céus sofre violência e só os violentos o arrebatarão” (Mt 11,12). É preciso que nos violentemos quando se trata da continência, da renúncia aos maus desejos, da mortificação dos sentidos, a fim de não sermos vencidos pelos inimigos. E se nos sentimos réus pelas culpas cometidas, diz S. Ambrósio, devemos então forçar o Senhor pelas lágrimas a nos conceder o perdão (Serm. 5).E o santo ajunta para nosso consolo: Ó feliz violência, que não é punida pela ira de Deus, mas recompensada por sua misericórdia. E todo aquele que nesse sentido fizer mais violência a Jesus Cristo, lhe será mais caro. E conclui: Primeiro devemos reinar em nós mesmos, dominando as nossas paixões para podermos depois arrebatar o reino do Salvador. É, pois, necessário fazer-nos violência, sofrendo as adversidades e perseguições, vencendo as tentações e as paixões, que sem isso nunca serão abatidas. O Senhor nos declara que, para não perdermos nossa alma, devemos estar preparados a sofrer agonias de morte e a mesma morte: ao mesmo tempo, porém, nos diz que ele mesmo combaterá os inimigos daquele que estiver assim preparado: “Toma a defesa da justiça para salvares a tua alma, e peleja até à morte pela justiça, e Deus, pondo-se de tua parte, derrotará os teus inimigos” (Eclo 4,33). S. João viu ante o trono de Deus uma grande multidão de santos, vestidos de branco (pois no céu não entra nenhuma mácula), tendo cada um na sua mão uma palma, distintivo do martírio (Ap 7,9). Mas então todos os santos são mártires? Sim; todos os adultos que se salvam ou hão de ser mártires de sangue ou mártires de paciência, vencendo os assaltos do inferno e os apetites desordenados da carne. Os prazeres carnais enviam inumeráveis almas para o inferno, e por isso é preciso que nos resolvamos a desprezá-los com toda a energia. Persuadamo-nos de que ou a alma calcará aos pés o corpo ou o corpo subjugará a alma.
2. Repito: é preciso fazer esforço para se salvar a alma. Mas esse esforço é justamente o que eu não posso fazer, dirá alguém, se Deus não me auxiliar com sua graça. A este, responde S. Ambrósio: “Se olhares para ti, nada poderás; se confiares no Senhor, ele te dará
forças”. Mas para se conseguir isso é necessário sofrer, não há outro remédio. Se quisermos entrar na glória dos bem-aventurados, diz a Escritura, é preciso sofrer primeiro com paciência muitas tribulações (At 14,21). S. João, contemplando a glória dos santos no céu, diz justamente: “Estes são os que vieram de grandes tribulações e levaram suas vestes e as branquearam no sangue do cordeiro” (Ap 7,14). É verdade que esses estava no céu por se haverem lavado no sangue do cordeiro, mas todos aí chegaram depois de terem sofrido grandes tribulações. Ficai certos, escrevia S. Paulo a seus discípulos, de que Deus não permitirá que sejais tentados acima de vossas forças (1Cor 10,13). Deus é fiel e ele prometeu dar-vos o seu apoio, suficiente para vencer todas as tentações, contanto que nós lho peçamos: “Pedi e dar-sevos-á; buscai e achareis” (Mt 7,7). Logo, não pode faltar à sua promessa. É um erro crasso dos hereges afirmar que Deus manda coisas impossíveis. O concílio de Trento diz: “Deus não impõe coisas impossíveis, mas, quando manda, te admoesta que faças o que podes e peças o que não podes e te auxilia par que possas”. (Sess. 6 c. 11). Escreve S. Efrém que, se os homens não são tão cruéis com seus jumentos, impondo-lhes cargas superiores às suas forças, tanto menos Deus, que muito ama os homens, permitirá que eles sofram tentações às quais não possam resistir (Tract. de patientia).

Cruz de toda parte.

1. Escreve Tomás de Kempis: “A cruz te espera por toda parte e por isso é preciso que tenhas paciência em toda parte, se quiseres viver em paz. Se carregares a cruz com boa vontade, ela te levará a ti ao fim desejado”. Cada qual neste mundo procura a paz e desejaria encontrá-la sem sofrimento; isso, porém, é impossível no estado presente, pois as cruzes nos esperam em todo lugar em que nos acharmos. Como, pois, encontrar a paz no meio dessas cruzes? Pela paciência, abraçando a cruz que se nos apresenta. Diz S. Teresa que todo aquele que arrasta sua cruz com má vontade sente-lhe o peso, por menor que seja; quem, porém, a abraça com boa vontade, não a sente, ainda que seja muito pesada. E Tomás de Kempis ajunta que todo aquele que leva a cruz com resignação, a mesma cruz o conduzirá ao fim desejado, que neste mundo é agradar a Deus e no outro amá-lo eternamente. O mesmo autor continua: “Qual dos santos viveu sem a cruz? Toda a vida de Cristo foi cruz e martírio, e tu buscas o gozo?” Que santo foi admitido no céu sem a insígnia da cruz? Como poderão entrar os santos no céu sem a cruz, se a vida de Jesus Cristo, nossa cabeça e redentor, foi uma cruz contínua e um martírio? Jesus, inocente, santo, filho de Deus, quis padecer durante sua vida inteira e nós andamos atrás de prazeres e consolações? Para dar-nos um exemplo de paciência, quis eleger uma vida cheia de ignomínias e dores internas e externas e nós queremos nos salvar sem sofrer ou sofrendo sem paciência, o que é padecimento duplo, mas sem fruto e com o acréscimo do castigo. Como poderemos pensar em amar a Jesus Cristo, se não queremos padecer por amor dele, que tanto padeceu por nós? Como poderá gloriar-se de ser discípulo do crucificado quem recusa ou recebe de má vontade os frutos da cruz, que são os sofrimentos, os desprezos, a pobreza, as dores, as enfermidades e todas as coisas contrárias ao nosso amor próprio?
2. Não nos esqueçamos, antes sempre nos recordemos, das chagas do crucifixo, porque delas hauriremos a força de sofrer os males desta vida, não só com a paciência, mas até com alegria e satisfação, como o fizeram os santos:“Tirareis águas com alegria das fontes do Salvador” (Is 12,3). S. Boaventura comenta: “Das fontes do Salvador significa das chagas de Jesus Cristo” e exorta-nos a ter os olhos sempre fixos em Jesus moribundo, se quisermos viver sempre unidos com Deus. A devoção consiste, segundo S.Tomás, em estarmos prontos a executar tudo o que Deus exige de nós. Cristo, nosso modelo.
1. Eis a bela instrução a que nos dá S. Paulo para vivermos sempre unidos a Deus e suportarmos com paciência as tribulações desta vida: “Recordai-vos daquele que dos pecadores suportou contra si uma tal contradição, para que não vos fatigueis desfalecendo em vossos ânimos” (Hb 12,3). Ele diz: Recordai-vos. Para sofrer com resignação e paz as penas da vida, não basta pensar de passagem, poucas vezes no ano, a paixão de Jesus Cristo; é preciso pensar a miúdo e mesmo todos os dias recordar-se das penas que Jesus suportou por nosso amor. E que penas foram essas? O Apóstolo diz: sofreu tal contradição. Tal foi a contradição que Jesus sofreu de seus inimigos que dele fizeram o homem mais vil, o homem das dores, segundo a predição do profeta: O último dos homens, o homem das dores, deixando-o morrer de pura dor e saciado de opróbrios em um patíbulo destinado aos mais celerados. E por que quis Jesus abraçar esse acervo de dores e vitupérios? Para que não vos fatigueis desfalecendo em vossos ânimos, isto é, para que nós, vendo quanto um Deus quis padecer para dar o exemplo da paciência, não esmoreçamos, mas tudo soframos para nos libertarmos dos pecados.
2. O Apóstolo continua a nos animar, dizendo: “Ainda não resististes até ao sangue, combatendo contra o pecado” (Hb 12,4). Reflete que Cristo derramou por vós todo o seu sangue na sua paixão, à força dos tormentos, e que os santos mártires, a exemplo de seu rei, sofreram com intrepidez as lâminas de fogo, as unhas de ferro que lhes despedaçavam até as vísceras. Nós, porém, ainda não derramamos nem sequer uma gota de sangue por Jesus Cristo, quando deveríamos estar prontos a sacrificar a própria vida para não ofendermos a Deus, como afirma S. Raimundo: Prefiro precipitar-me numa fogueira a cometer um pecado contra o meu Deus, ou, como dizia S. Anselmo, Arcebispo de Cantuária: Se eu tivesse de suportar todas as dores corporais do inferno ou cometer um pecado, escolheria antes o inferno que cometer o tal pecado. Meu jugo é suave.
1. O leão infernal não deixa de andar em redor de nós durante toda a nossa vida, para nos devorar, e por isso S. Pedro diz que devemos nos armar contra os seus assaltos com o pensamento da paixão de Cristo: “Havendo Cristo padecido na carne, armai-vos também do
mesmo pensamento” (1Pd 4,1). S.Tomás afirma que só a lembrança da paixão é um forte anteparo contra as tentações do inferno. E S. Ambrósio, ou outro santo, escreve: Se o Senhor conhecesse uma outra via para a salvação, melhor que a do sofrimento, ele no-la teria feito conhecer: indo, porém, à frente com a cruz às costas, nos demonstrou que não há meio mais próprio para nos procurar a salvação que o sofrer com paciência e resignação e por isso quis ele mesmo dar-nos o exemplo na sua pessoa. Diz S. Bernardo que nós, contemplando as grandes aflições do Crucificado, acharemos mais suportáveis as nossas (Serm. 43 in Cant.).E em outro lugar: Que coisa te parecerá dura, se te recordares dos sofrimentos de teu Senhor? (Serm. de quadrupl. deb.). Tendo S. Delfina perguntado um dia ao seu marido S. Elzeário como podia suportar tantas injúrias com tão grande tranqüilidade, respondeu-lhe este: Quando me vejo injuriado, penso nas injúrias que meu Salvador crucificado e não ponho de lado tal pensamento enquanto não me sinto apaziguado. A ignomínia da cruz é agradável àquele que não é ingrato ao Crucificado, diz S. Bernardo (Serm. 25 in Cant.).Todas as almas que querem ser gratas a Jesus Cristo não detestam, mas se aprazem nos desprezos que recebem. Quem não receberá com prazer os opróbrios e os maus tratos, considerando somente os maus tratos que sofreu Jesus no começo de sua paixão, quando na casa de Caifás foi esbofeteado e pisado, e lhe escarraram no rosto, zombando dele como de um falso profeta, vendando-lhe os olhos com um pano, segundo o testemunho de S. Mateus? (Mt 26,27).
2. E como era possível os mártires sofrerem com tanta paciência os tormentos dos carnífices? Eram dilacerados com ferros, eram queima os nas grelhas: talvez não eram de carne ou perdiam os sentidos? não, mas eles não se punham a contemplar as suas feridas, mas as chagas do Redentor e assim pouco sentiam as próprias dores. Os tormentos não deixavam de os martirizar, mas eles os desprezavam por amor a Jesus Cristo. Não há dor tão atroz que não seja suportável à vista de Jesus morto na cruz. O Apóstolo escreve que nós pelos méritos de Jesus Cristo fomos enriquecidos com todos os bens (1Cor 1,5). Jesus, contudo, quer que, para obtermos as graças que desejamos, recorramos sempre a Deus por meio da oração e lhe supliquemos que nos ouça pelos méritos de seu Filho. E o próprio Jesus nos promete que, se assim procedermos, o Pai nos dará tudo o que pedirmos: “Em verdade, em verdade eu vos digo, se pedirdes alguma coisa ao Pai em meu nome, ele vo-la dará” (Jo 16,23). Dessa forma procediam os mártires, quando era excessiva a dor dos tormentos: recorriam a Deus e Deus subministrava-lhes a paciência para suportá-los. O mártir S.Teodato sentiu uma vez, no meio das crueldades a que o sujeitaram, uma dor tão acerba visto o tirano ter mandado intrometer-lhe nas chagas carvões ardentes, que ele suplicou a Jesus que lhe desse força para suportá-los e assim saiu vitorioso, terminando a vida no meio dos tormentos.

Nossa consolação na morte.

1. Não nos atemorizem, pois, todos os combates que temos de travar contra o mundo e contra o inferno; se formos prontos em recorrer a Jesus Cristo, ele nos concederá todos os bens, a paciência em todos os trabalhos, a perseverança e finalmente uma boa morte. Grandes são as amarguras que se sofrem na hora da morte e só Jesus Cristo pode dar-nos a constância e merecimento. Grandes são então especialmente as tentações do inferno, que se esforça de modo particular em arrastar-nos à perdição, vendo-nos próximos de nosso fim. Narra Rinaldo que S. Elzeário suportou as mais horríveis batalhas da parte dos demônios na hora da morte, apesar de ter levado uma vida tão santa. Ele afirma que grandes são as tentações do inferno nessa hora, mas que Jesus Cristo, com os merecimentos de sua paixão, abate as suas forças. Por isso quis S. Francisco que lhe recitassem a história da paixão na hora da morte. S. Carlos Borromeu, vendo-se próximo da morte, mandou colocar ao redor de si várias representações da paixão para entregar sua alma a Deus na contemplação dessas
imagens.
S. Paulo escreve que Jesus quis padecer a morte “a fim de destruir pela morte aquele que tinha o império da morte, isto é, o diabo, e para livrar os que pelo temor da morte se achavam por toda a vida sujeitos à servidão” (Hb 2,14-15). Assim quis Jesus morrer para destruir com sua morte as forças do demônio que tinha até então o império a morte e por esse meio livrar-nos da escravidão de Lúcifer e por conseguinte do temor a morte eterna. Quis submeter-se a todas as condições e paixões da natureza humana (exceto a ignorância, a concupiscência e o pecado) e para que fim? para se tornar misericordioso, isto é, tomando sobre si mesmo as nossas misérias, tivesse mais compaixão conosco, já que muito melhor se conheceu as misérias experimentando-as do que considerando-as, e dessa maneira se sentisse mais pronto a socorrer-nos, quando tentados na vida e especialmente na hora da morte. A isso se refere aquela palavra de S. Agostinho: “Se te perturbares pela iminência da morte, não te julgues um réprobo, nem te entregues ao desespero, pois foi para impedir isso
que Cristo ficou perturbado em presença de sua morte” (Lib. Pronost.).
2. O inferno na hora de nossa morte empregará todos os esforços para nos fazer desesperar da misericórdia divina, pondo-nos diante dos olhos todos os pecados da nossa vida. A recordação, porém, da morte de Jesus Cristo nos dará coragem e confiança nos seus merecimentos, para que não temamos a morte. S. Tomás comenta o aludido texto de S. Paulo da seguinte forma: “Cristo por sua morte destruiu o temor da morte: quando o homem considera que o Filho de Deus quis morrer, perde o medo da morte”. Quando consideramos que o Filho de Deus quis sofrer a morte para nos obter o perdão dos pecados, desaparece o temor e vem o desejo de morrer. A morte para os pagãos é motivo de grande pavor, pois para eles, com a morte, acabam-se todos os bens. A morte de Jesus Cristo, porém, nos dá uma firme confiança de que, morrendo na graça de Deus, passaremos da morte à vida eterna. Desta esperança S. Paulo nos dá um argumento seguro, dizendo que o Padre eterno entregou à morte seu próprio Filho por nós todos, a fim de nos enriquecer com
todos os bens, porque, dando-nos Jesus Cristo, nos deu o perdão, a perseverança final, o seu amor, a boa morte, a vida eterna e todos os bens.

Nosso advogado.

1. Quando o demônio nos turbar durante a vida ou na hora da morte, apresentando-nos os pecados de nossa mocidade, respondamos-lhes com S. Bernardo: : “O que me falta de minha parte eu me usurpo da misericórdia de meu Senhor” (Serm. 61 in Cant.). Os méritos que me faltam para entrar no paraíso, eu os adquiro dos merecimentos de Jesus Cristo, que quis padecer e morrer justamente para obter-me aquela glória eterna que eu não merecia. S. Paulo escreve: “Deus é que justifica. E quem é que condenará? Jesus Cristo, que morreu, e mesmo ressuscitou, que está à direita de Deus e que também intercede por nós (Rm 8,33-34). Estas palavras são sumamente consoladoras para nós pecadores. Deus é quem perdoa a nós pecadores e nos justifica com sua graça. Ora, se Deus nos faz justos, como poderá nos condenar como réus? Talvez nos condenará Jesus Cristo, “o qual para não nos condenar se entregou a si mesmo por nossos pecados para nos arrumar do presente século perverso?” (Gl 1,4).
2. Ele se sobrecarregou com nossos pecados e entregou-se à morte para nos livrar desse mundo perverso e conduzir-nos com segurança ao seu reino e chega até a fazer o papel de advogado e intercede por nós junto de seu Pai. “O qual também intercede por nós”. S. Tomás, explicando estas palavras, diz que no céu intercede por nós, apresentando a seu Pai as suas chagas suportadas por nosso amor. E S. Gregório não encontra dificuldade em afirmar (o que afinal alguns não concedem) que o Redentor como homem, mesmo depois de sua morte, continua a orar pela Igreja militante que somos nós (In Ps. poen. 5). A mesma coisa declarou já antes dele S. Gregório Nazianzeno:“Intercede, i. é, suplica por nós, interpondo a sua mediação” (Or. 4 de theol.). E S. Agostinho no salmo 29 diz que Jesus ora
por nós no céu, para aí nos impetrar alguma nova graça, pois que na sua vida nos obteve o que podia nos impenetrar, mas ora para exigir de seu Pai, por seus merecimentos, a nossa salvação, já alcançada e prometida. E ainda que o Pai tenha conferido ao Filho todo o poder, contudo esse poder ele, como homem, não possui senão em dependência de Deus. A Igreja afinal não costuma pedir a Jesus que interceda por nós, considerando nele o que há de mais sublime, isto é, a sua divindade e por isso suplica-lhe que nos conceda, como Deus, o que nós lhe pedimos.

O consumidor da nossa fé.

1. Mas voltemos à confiança que devemos pôr em Cristo, quando se trata de nossa salvação. S. Agostinho nos anima, dizendo que o Senhor, que nos livrou da morte com derramamento de todo o seu sangue, não quer a nossa perdição e que, se as nossas culpas nos separam de Deus e nos merecem desprezo, nosso Salvador, por seu lado, não pode desprezar o preço de seu sangue, derramado por nós (Serm. 30 de temp.). Sigamos, pois, com confiança o conselho de S. Paulo:“Corramos pela paciência para o combate que nos é proposto, olhando para o autor e consumador da fé, Jesus, que, tendo diante de si o gozo, sustentou a cruz, desprezando a ignomínia” (Hb 12,1-2). Ele diz: Corramos pela paciência para o combate que nos é proposto: pouco nos adiantará o começar se não continuarmos a combater até ao fim. Por isso diz: corramos pela paciência: a paciência no sofrer o trabalho do combate nos obterá vitória e a coroa prometida ao que vencer.
Esta paciência será igualmente a couraça que nos defenderá dos golpes do inimigo. Como, porém, obtermos essa paciência? “Olhando para o autor e consumador da fé, Jesus”. S. Agostinho diz que Jesus desprezou todos os bens da terra, para nos ensinar a desprezá-los e não buscar neles a nossa felicidade, e doutro lado quis suportar todos os males terrenos para nos ensinar a não temer as calamidades deste mundo, sujeitando-se ele mesmo às nossas misérias, à pobreza, à fome, à sede, às fraquezas, às ignomínias, às dores e à morte da cruz.(De catec. rud.). Mesmo com sua ressurreição gloriosa quis nos animar a não temermos a morte, pois, se lhe permanecermos fiéis até à morte, depois desta obteremos a vida eterna, que é isenta de todo o mal e cheia de todo o bem. É o que significam as palavras do apóstolo: “O autor e consumador da fé, Jesus”, pois assim como Jesus é para nós o autor da fé, ensinando-nos o que devemos crer e dando-nos ao mesmo tempo a graça de crê-lo,é também o consumador da fé, prometendo-nos que haveremos um dia de gozar daquela vida na qual nos ensina a crer. E a fim de nos certificar do amor que vos dedica esse nosso Salvador e da vontade que tem de nos salvar, S. Paulo acrescenta: “Que tendo diante de si o gozo, sofreu a cruz”. Explicando S. João Crisóstomo esta palavra, diz que Jesus podia salvar-nos levando uma vida de regalo neste mundo, mas ele, para nos certificar melhor do afeto que nos consagra, escolheu uma vida de sofrimentos e uma morte ignominiosa , morrendo pregado a uma cruz como um malfeitor.
2. Apliquemo-nos, pois, ó almas amantes do Crucifixo, no restante de nossa vida, a amar quanto possível esse nosso amável Redentor e a sofrer por ele, já que tanto quis sofrer por nosso amor. E não cessemos de suplicar-lhe que nos conceda o dom de seu santo amor. Bem-aventurados seremos se chegarmos a ter um grande amor por Jesus Cristo. O Ven. Pe.Vicente Caraffa, grande servo de Deus, diz o seguinte em uma carta que mandou a alguns jovens estudiosos e devotos: “Para reformarmos nossa vida inteira, é preciso pôr todo o empenho no exercício do amor de Deus. É só a caridade divina, quando entra em um coração e dele se apodera, que o purifica de todo o amor desordenado e o torna logo obediente e santo. S. Agostinho diz: “Coração puro é o que está vazio de todo o afeto”, e S. Bernardo escreve: “Quem ama, só ama e não deseja mais nada”, querendo dizer que quem ama a Deus, não deseja senão amá-lo e expulsa do coração tudo o que não é Deus. E é assim que o coração vazio se torna cheio, i. é, cheio com Deus, que consigo traz todos os bens e então os bens terrenos não encontram lugar nesse coração e nem o seduzem. Que atrativo poderão ter para nós os prazeres da terra, quando experimentamos as consolações divinas? Qual a força da ambição das honras vãs, o desejo das riquezas terrenas, quando temos a honra de ser amados por Deus e começamos a possuir em parte as riquezas do paraíso? Para conhecer o adiantamento que fizemos no caminho de Deus, basta observarmos o progresso que fizemos no seu amor, se fazemos a miúdo durante o dia atos de amor de Deus, se falamos freqüentemente de seu amor, se procuramos insinuá-lo aos outros, se fazemos nossas devoções só para agradar a Deus, se sofremos com perfeita resignação, por amor de Deus, todas as adversidades, as enfermidades, as dores, a pobreza, os desprezos e as perseguições. Dizem os santos que uma alma que ama verdadeiramente a Deus, deverá amar tanto quanto respira, pois a vida da alma tanto no tempo como na eternidade deve consistir em amar o nosso sumo bem, que é Deus”.

Acesso ao Pai.

1. Persuadamo-nos, porém, de que nunca chegaremos a adquirir um grande amor para com Deus, a não ser por meio de Jesus Cristo, e se não tivermos uma devoção particular para com sua paixão, por meio da qual ele nos alcançou a graça divina. Escreve o Apóstolo: “Porque por meio dele temos acesso junto ao Pai” (Ez 2,18). Se não fosse Jesus Cristo, o caminho das graças estaria fechado para nós pecadores: ele nos abriu a porta, nos introduziu perante o Pai e pelos merecimentos de sua paixão nos obtém dele o perdão de nossos pecados e todas as graças que precisamos. Infelizes de nós, se não tivéssemos Jesus Cristo! E quem poderá louvar e agradecer suficientemente o amor e a bondade que este bom Redentor nos demonstrou, querendo morrer por nós, pobres pecadores, para nos livrar da morte eterna? “É difícil haver quem morra por um justo, ainda que talvez alguém se anime a morrer por um bom” (Rm 5,7). Apenas se encontra quem queira morrer por um homem justo; mas Jesus Cristo quis dar a vida por nós, quando éramos pecadores: “Porque ainda quando éramos pecadores, em seu tempo, Cristo morreu por nós” (Rm 5,8-9).
Por isso nos assegura o Apóstolo que, se estivermos resolvidos a amar Jesus Cristo a todo o custo, podemos esperar todo o auxílio e apoio do céu: “Se, quando éramos inimigos de Deus, fomos com ele reconciliados pela morte de seu Filho, muito mais agora, já reconciliados, seremos salvos pela vida deste” (Rm 5,10). Notem os que amam a Jesus que fazem injúria ao amor que nos consagra esse bom Salvador, quando temem que ele lhes negue as graças necessárias para se salvarem e fazerem-se santos. E para que nossos pecados não nos façam perder a confiança, continua S. Paulo: “Não acontece, porém, com o dom o mesmo que com o pecado, porque se pelo pecado de um morreram muitos, ainda mais abundantemente a graça de Deus e o dom pela graça de um só homem, Jesus Cristo, se derramou sobre muitos” (Rm 5,15). Com isso quer significar que o dom da graça, alcançado pelo Redentor por sua paixão nos trouxe maiores bens do que foram os males ocasionados pelo pecado de Adão, já que têm maior valor os merecimentos de Jesus Cristo para obrigar a Deus a nos amar que o pecado de Adão para nos atrair o ódio do mesmo. “Pela graça de Jesus Cristo adquirimos maiores bens do que os que havíamos perdido pela inveja do demônio” (S. Leão Serm. 1 de ascens.).
2. Terminemos. Almas devotas, amemos Jesus Cristo, amemos esse Redentor que muito merece ser amado e muito nos amou, não deixando de fazer coisa alguma para ganhar o nosso amor. Basta saber que, por nosso amor, quis morrer consumido de dores numa cruz e, não contente com isso, deixou-se ficar no Sacramento da Eucaristia, onde em alimento nos dá o mesmo corpo que sacrificou por nós e em bebida o mesmo sangue que por nós derramou em sua paixão. Seríamos muito ingratos, não só ofendendo-o, mas também amando-o pouco e não lhe dedicando todo o nosso amor. Ó meu Jesus, pudesse eu me consumir inteiramente por vós, como o fizestes por mim. Mas, visto tanto me haverdes amado e me obrigado a amar-vos, ajudai-me então a não vos ser ingrato e muito ingrato eu seria se amasse alguma coisa fora de Vós.
Vós me amastes sem reserva, também eu quero amar-vos sem reserva. Tudo abandono, renuncio a tudo para dar-me todo a vós e para não ter em meu coração outro amor senão o vosso. Aceitai-me, meu amor, por piedade, sem considerar os desgostos que vos causei no passado. Vede que eu sou uma daquelas ovelhas pelas quais derramastes vosso sangue: “Nós, pois, vos suplicamos que socorrais a vossos servos que remistes com vosso sangue precioso”. Esquecei-vos, meu caro Salvador, das ofensas que vos fiz. Castigai-me como quiserdes, livrai-me unicamente do castigo de não poder vos amar e depois fazei de mim o que vos aprouver. Tirai-me tudo, meu Jesus, mas não me priveis de vós, meu único bem. Fazei-me conhecer o que quereis de mim, que eu com vossa graça quero executar tudo. Fazei que eu me esqueça de tudo, para me recordar só de vós e das penas que sofrestes por mim. Fazei que eu em nada mais pense senão em dar-vos gosto e amar-vos. Por favor, olhai-me com aquele afeto com que me contemplastes no Calvário, ao morrer por mim na cruz, e ouvi-me. Em vós eu ponho todas as minhas esperanças. Meu Jesus, meu Deus, meu tudo. Ó Virgem santa, minha mãe e minha esperança, Maria, recordai-me ao vosso Filho e obtende-me a fidelidade no seu amor até à morte.

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