sábado, 6 de março de 2010

Modéstia e humildade: falsos mitos.


Falsos mitos sobre modéstia
Por Wendy Shalit
(Blog rosamulher.wordpress.com.)

Um primeiro passo para revitalizar o respeito à modéstia em nossa cultura é atacar os mitos que tentam miná-la. Deixe-me falar de quatro deles.

O primeiro mito é que a modéstia seria “vitoriana” (1). Mas onde fica nisso a história de Rebeca e Isaac? Quando Rebecca vê Isaac e se cobre, não é porque ela está tentando ser vitoriana. Sua modéstia foi a chave para o que iria depois uni-los e desenvolver entre eles uma profunda intimidade. O que essa história tem em comum com nossa experiência atual? Quando cobrimos o que é externo enviamos uma mensagem de que o mais importante são os nossos corações e mentes. Isso nos diferencia dos animais, e sempre diferenciou, muito antes da era vitoriana.

O segundo mito sobre a modéstia é que ela seria sinônimo de puritanismo. Esse foi o argumento usado no terrível filme “Pleasantville” (2), ou seja, a premissa de que ninguém na década de 1950 se divertia ou o sabia o que era o amor. Ele começa em preto e branco e se torna colorido apenas quando os jovens “iluminam” seus pais instruindo-os sobre sexo. Logo de início pode-se dizer que isso, obviamente, não faz sentido: se os pais não sabiam como fazer as coisas, então como é que aqueles garotos estavam ali? Mas o filme reflete um conceito (infelizmente) comum de que a paixão, o amor e a felicidade eram inexistentes antes da modéstia ser “superada” na década de 1960. Na verdade, a modéstia é quase o oposto do puritanismo. Paradoxalmente, as pessoas puritanas têm mais em comum com a promiscuidade. Os puritanos e os promíscuos compartilham uma disposição contra o permitir-se ser “tocado” pelos outros, ou se apaixonar pelos outros. A modéstia, por outro lado, convida e protege o surgimento do verdadeiro amor. Ela é erótica, e não neurótica.

Para ilustrar este ponto, eu gosto de comparar as fotografias tiradas em Coney Island (3) quase um século atrás, com fotografias de praias de nudismo na década de 1970. Em Coney Island, os banhistas estão completamente encobertos, mas os homens e as mulheres estão “roubando olhares” uns para os outros, e parecem estar se divertindo muito. Nas praias de nudismo, em contraste, homens e mulheres mal olham para os outros. Em vez disso, eles olham para o céu. Eles parecem estar completamente entediados. Isso é o que as pessoas que vieram depois dos anos 60 descobriram sobre essa triste seqüência de relações sexuais: sem restar nada para a imaginação, o sexo se torna chato, entediante.

O terceiro mito é que a modéstia não seria natural. Este mito tem uma longa história intelectual, que remonta pelo menos a David Hume, que argumentou que a sociedade inventou a modéstia para que os homens pudessem ter certeza de que as crianças eram deles mesmos. Como apontou Rousseau, esse argumento que a modéstia é uma construção social sugere que é possível se livrar da modéstia completamente. Hoje tentamos fazer exatamente isso, e é amplamente assumido que somos bem sucedidos. Mas somos mesmo?

Ao argumentar que Hume estava errado e que a modéstia está enraizada na natureza, um hormônio recém descoberto chamado ocitocina vem à mente. Este hormônio cria um resposta de vinculação quando a mãe está amamentando seu filho, mas também é liberado durante a atos íntimos. Aqui está a evidência física que as mulheres se tornam emocionalmente ligadas a seus parceiros sexuais, mesmo que apenas pretendam um encontro mais casual. A modéstia protegia essa vulnerabilidade emocional natural, ela fazia as mulheres fortes. Mas nós realmente não precisamos recorrer à fisiologia para ver a naturalidade da modéstia. Podemos observar que em qualquer dia de vento, quando as mulheres vestindo saias seguram a saia ao redor das pernas a fim de evitar mostrar suas pernas, as mesmas pernas cujas saias “da moda” foram desenhadas para revelar. Apesar de tentarem seguir “as modas”, essas mulheres têm um instinto natural para a modéstia.

O quarto e último mito que quero abordar é que a modéstia seria uma preocupação apenas para as mulheres. Não estamos onde estamos hoje só porque o ideal feminino mudou. Apenas em parte isso é verdade. O ideal masculino seguiu o mesmo caminho. Já houve tempo em que era visto como viril e masculino ser fiel a uma mulher para a vida toda, e ser protetor para com todas as mulheres. Infelizmente, isso não é mais o caso, mesmo entre homens a quem muitas mulheres modestas poderiam olhar como almas gêmeas. As feministas modernas estão erradas em esperar que os homens sejam “cavalheiros” quando elas próprias não agem como “donzelas”, mas o que dizer dos homens que só querem ser “Don Juan” (4) e depois se lamentam que não há mais mulheres modestas por aí? Bem, eles são tão ruins quanto as feministas. E, claro, uma mulher pode estar vestida de forma modesta e ainda assim ser assediada na rua. Então, a verdade é que muito depende do respeito masculino para com a modéstia. É característico da sociedade moderna todo mundo querer que o(a) outro(a) seja bom(boa) para si, sem ter que mudar seu próprio comportamento, seja as feministas culpando os homens, os homens culpando as feministas, ou jovens culpando os seus “modelos” (5). Mas essa é uma postura infantil.



(1) A Era Vitoriana no Reino Unido foi o período do reinado da Rainha Vitória, em meados do Século XIX, a partir de Junho de 1837 a Janeiro de 1901. O termo “vitoriano” é usada para designar – muitas vezes de maneira pejorativa aos olhos da mentalidade “moderna” – uma maneira de vestir que procurava cobrir ao máximo o corpo, e uma cultura que reprimia como má qualquer mínima insinuação de ordem sexual. Em outras palavras, usa-se “vitoriano” quase como sinônimo de puritanismo, uma concepção de pensamento de fundo maniqueísta que considera tudo que se relaciona ao corpo e ao material como “pecado”. O puritanismo não se coaduna com a doutrina católica, que considera o corpo como dom de Deus. “E Deus viu tudo que tinha feito, e viu que era bom” (Gên 1, 31). A verdadeira modéstia cobre o corpo não por achar que ele seja ruim ou mau, mas por considerá-lo precioso e bom.
(2) No Brasil traduzido como “A vida em preto e branco”.
(3) Coney Island é uma península, anteriormente uma ilha, localizada no Distrito de Brooklyn, Nova Iorque, Estados Unidos. O lugar ficou conhecido como um importante ponto turístico no início do século 20.
(4) Don Juan é um lendário libertino fictício. O nome às vezes é figurativamente usado como um sinônimo para conquistador, sedutor, alguém que não se preocupa com fidelidade, quer apenas conquistar uma mulher após a outra.
(5) Aqui no sentido de uma pessoa que serve como um modelo para uma outra pessoa para imitar, em um papel comportamental ou social particular.

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