sábado, 9 de janeiro de 2010

Padres do Deserto: apotegmas.


Os Apotegmas dos Padres do Deserto (Parte I)

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Capítulo Primeiro: Do Progresso Espiritual segundo os Padres

1. Perguntou alguém ao abade Antão: “- Que observância devo guardar para agradar a Deus?” Respondeu-lhe o ancião: “- Observa o que te prescreverei: onde quer que vás, tem sempre a Deus por diante dos olhos; e nos teus atos consegue a aprovação das Escrituras Santas; onde quer que permaneças, não te saias de lá facilmente. Observa esses três pontos e serás salvo”. (Antão, 3).

2. O abade Pambo perguntou ao abade Antão: “- Que devo fazer?” “- Não te fies na tua justiça, respondeu o ancião, não deplore sobre o passado e detém a língua e os desejos do ventre”. (Antão, 6).

3. Disse São Gregório: “Deus exige três coisas de todo homem que recebeu o batismo: a fé direita para a alma, a franqueza para a língua, a castidade para o corpo”. (Gregório, 1).

4. O abade Evagro conta esta palavra dos Padres: “Tomar regularmente alimento não-cozido junto com a castidade conduz o monge num átimo ao porto da apatéia". [apatéia, impassibilidade, total domínio das paixões] (Evagro, 6).

5. Disse também ele: “- Respondeu um monge ao mensageiro que lhe anunciava a morte do pai: ‘- Pára de blasfemar, meu Pai é imortal’”.

6. O abade Macário disse ao abade Zacarias: “- Dize-me qual é a obra do monge?” “- Como, Pai, tu a me perguntares?”, respondeu ele. “- Experimento uma plena confiança plerofórica em ti, meu filho Zacarias, pois há alguém que me obriga a interrogar-te”. “- Pai, em minha opinião, é em tudo se fazer violência – eis o monge”. [pleroforia, confiança sentida na embalagem do espírito da verdade] (Zacarias, 1).

7. Conta-se que o abade Teodoro de Farméia observava acima de muitos outros estes três princípios: a pobreza, a ascese, a fuga dos homens (Teodoro de Farméia, 5).

8. Disse o abade João o Nanico: “- No meu parecer o homem deve ter algo de todas as virtudes. Assim ao te levantares a cada manhã, recomeça a perseguir as virtudes e os mandamentos de Deus com grande perseverança, com temor e paciência, no amor de Deus, com transporte de corpo e alma e muita humildade; sê constante na aflição do coração e guarda-a para ti mesmo com numerosas orações, invocações e gemidos, sempre conservando a pureza e o bom siso das palavras, bem como a modéstia do olhar. Suporta a injúria sem te pores em cólera, sê pacífico e não pagues o mal com o mal, não atentes aos defeitos alheios. Não te meças a ti mas humildemente te submete a toda criatura. Renuncia a tudo quanto é material e conforme a carne pelo sofrimento, pela luta, pela pobreza de espírito, por uma vontade determinada e pela mortificação espiritual. Pelo jejum conquista a paciência e as lágrimas; pela aspereza do combate o discernimento, a pureza d’alma. Recolhe o bem, trabalha com tuas mãos guardando a hesequia (2 Th., 3, 12) . Vela, jejua, suporta a fome e a sede, o frio e a nudez e os trabalhos. Encerra-te no sepulcro como se já fosses morto, de modo que penses a cada instante que é próxima tua morte”. [hesequia, tranqüilidade d’alma, quietação, seja a do monge ou a do solitário cenobita] (João o Nanico, 34).

9. Disse o abade José de Tebas: “- Aos olhos de Deus, três castas de gentes são honradas: em primeiro os doentes que padecem as tentações e aceitam os males rendendo ações de graças; em segundo os de ação pura diante de Deus, sem que haja mescla do humano; enfim os que permanecem na submissão (hipótage) do pai espiritual e renunciam a todas as vontades próprias (José de Tebas).

10. O abade Cassiano conta este passo do abade João, outrora higúmeno do Grande Monastério: estava ele às portas da morte e ia-se alegremente e de bom coração para o Senhor; os irmãos o cercavam e lhe imploravam para lhes deixar por herança uma palavra curta e útil que lhes permitisse elevarem-se até à perfeição em Cristo. Ele gemeu e disse: “- Jamais fiz minha própria vontade e nada ensinei que antes não houvesse eu mesmo praticado”. (Cassiano, 5).

11. Um irmão perguntou a um ancião: “- Que é o bem, para que eu o faça e tenha a vida?” “- Deus só sabe o que o bem, respondeu o ancião, todavia escutei dizer que um padre perguntara ao abade Nisteros o Grande, o amigo do abade Antão: ‘- Que boa obra devo fazer?’, ao que lhe respondeu: ‘-Não são iguais todas as obras? Diz a Escritura: Abraão foi hospitaleiro e Deus estava com ele; Elias amava a hesequia e Deus estava com ele; Davi era humilde e Deus estava com ele'. Logo, o que quer que aspires tua alma segundo Deus, fá-lo e guarda teu coração”. (Nisteros, 2).

12. Disse o abade Pastor: “A guarda (do coração), a atenção e o discernimento são as três virtudes guias da alma. (Poemão, 35).

13. Um irmão perguntou ao abade Pastor: “- Como deve viver o homem?” “- Temos o exemplo de Daniel, respondeu ele, contra quem a única acusação era o culto que rendia a seu Deus”. (cf. Dn. 6, 5-6) (Poemão, 53).

14. Disse ele ainda: “- A pobreza, as provações e a discrição são as três obras da vida solitária. Com efeito, diz a Escritura: ‘- Se estes três homens – Noé, Jó e Daniel – estivessem lá...’ (Ex., 14, 14-20). Noé representa os despossuídos, Jó os macerados, Daniel enfim os discretos. Se essas três obras se encontram num homem, Deus habita nele”. (Poemão, 60).

15. Disse o abade Pastor: “Se o monge odeia duas coisas, liberta-se deste mundo.” “- Quais são?” “- O bem-estar e a vã glória”. (Pormão, 66).

16. Conta-se que o abade Pambo, no instante que abandonava esta vida, disse aos irmãos que o assistiam: “- Desde que estou neste deserto e me erigi uma cela e nela habitei, não me lembra ter comido pão sem havê-lo ganho com minhas mãos nem até agora ter lamentado uma palavra dita. E eis contudo que me vou ao Senhor como se não houvera começado a servir a Deus”. (Pambo, 8).

17. Disse o abade Sisóes: “- Reputa-te por nada, lança tua vontade atrás de ti, permanece sem preocupações – e repousarás”. (Sisóes, 43).

18. O abade Chamé, perto de morrer, disse aos discípulos: “- Não habiteis com os heréticos, não tenhais relações com os grandes, não estendais as mãos para receber mas antes para dar”. (Chamé).

19. Um irmão interrogou um ancião: “- Pai, como o temor de Deus vem ao homem?” “- Se alguém, respondeu ele, possui a humildade e a pobreza e não julga os outros, o temor de Deus virá sobre ele”. (N. 137).

20. Disse um ancião: “- Que o temor, a humildade, a privação de alimento e o pentos façam morada em ti”. [pentos, luto pela morte dum próximo. Em linguagem espiritual, tristeza pela morte d’alma após o pecado cometido por si ou por outrem] (Euprépios, 6).

21. Disse um ancião: “Não faças a outrem o que detestas. Se tu detestas quem diz mal de ti, não digas mais mal dos outros; se tu detestas quem te calunia, não calunies os outros; se tu detestas quem te despreza, quem te injuria, quem te rouba os bens ou comete outra torpeza, não o faças igualmente a outrem. Basta observar esta palavra para ser salvo”. (N. 253).

22. Disse um ancião: “- A vida do monge é o trabalho, a obediência e a meditação (meletê); é não julgar, nem reclamar, nem murmurar. De fato está escrito: ‘Vós que amais o Senhor, odiai o mal.’ (Ps. 96, 10). Consiste a vida do monge em não seguir o exemplo do pecador. Os olhos do monge são cegos para o mal. Não age nem olha com curiosidade, não escuta o que lhe não respeita. Suas mãos não roubam, antes distribuem. Seu coração é sem orgulho, seu pensamento sem malícia, seu ventre não fica saciado: tudo faz com discrição. Sim, em tudo isso está o monge”. (N. 225).

23. Disse um ancião: “- Ora a Deus para que te meta no coração o pentos e a humildade. Observa incessantemente teus pecados. Não julgues a outrem, mas a todos te submete. Não tenhas familiaridade com mulheres, nem com crianças, nem com heréticos. Arreda de ti toda parrésia. Detém a língua e o apetite; priva-te do vinho. Se te falam dum trato qualquer, não discutas. Se for bom, diz: ‘- Bom’. Se for mal, diz: ‘- Isto lá é contigo!’ Mas não discutas sobre o que te falam. Assim tua alma será em paz”. [parrésia, pode ter sentido bom ou mau; em sentido bom é o espírito de quem fala a palavra de verdade; no sentido mau - que é o caso presente -, vaniloquacidade] (N.330).

Capítulo Segundo: Da Hesequia



1. Disse o abade Antão: “- Os peixes que se deixam ficar em terra firme expiram. Assim os monges que vadiam fora da cela ou gastam tempo com gentes mundanas perdem o tônus da hesequia. É mister que os peixes retornem o mais rápido ao mar e nós à cela. Se não, arrastando-nos fora, esquecemos de nos guardar dentro”. (Antão, 10).

2. Disse o abade Antão: “O que pratica a hesequia no deserto está liberto de três castas de luta: a do ouvido, a da palavra e a da vista. Só lhe resta um só combate a travar: o do coração”. (Antão, 11).

3. Quando ainda era áulico, o abade Arsênio orou ao Senhor nestes termos: “- Senhor, conduzi-me à salvação”. Sobreveio-lhe uma voz, que disse: “- Arsênio, foge dos homens e serás salvo”. Já dentro da vida monástica, orou novamente nos mesmos termos, e escutou a voz a lhe dizer: “- Arsênio, foge, cala-te e pratica a hesequia!” Eis as raízes da impecabilidade. (Arsênio, 1-2).

4. O arcebispo Teófilo, de bem-aventurada memória, certo dia visitou na companhia dum magistrado o abade Arsênio. O arcebispo o interrogou, querendo lhe escutar uma palavra. Por um momento o ancião guardou o silêncio e depois respondeu: “- Se ta digo, observá-la-ás?” Ambos eles lho prometeram. Então o ancião lhes disse: “- Se escutardes dizer que Arsênio está num certo lugar, não ides!” Outra vez o arcebispo desejou vê-lo; antes porém mandou perguntar se o receberia. O ancião lhe enviou esta resposta: “- Se vieres, receber-te-ei. Mas se te não receberes a ti, receberei todo o mundo. Daí não permanecerei mais neste lugar”. A essas palavras disse o arcebispo: “- Ainda que o devesse perseguir, não iria à morada desse santo homem”. (Arsênio, 7-8).

4. Certo dia o abade Arsênio chegou a um lugar cheio de canas que se agitavam ao vento. Disse o ancião aos irmãos: “- Que é que se agita?” “- As canas”, responderam eles. “Verdadeiramente se alguém que se conserva na hesequia escuta o grito dum pássaro, seu coração já não tem mais essa hesequia. Quanto mais vós que vos agitais como essas canas”. (Arsênio, 25)

6. Conta-se do abade Arsênio que sua cela distava trinta e duas milhas e dela quase não saía; outros lhe representavam nas comissões (diakonema). Porém, quando devastaram a Cítia, ele foi embora chorando e disse: “- O mundo perdeu Roma, e os monges a Cítia”. (Arsênio, 21).

7. Quando o abade Arsênio morava em Canópia, uma virgem – duma família senatorial – riquíssima e temente a Deus veio de Roma para visitá-lo. Recebeu-a o arcebispo Teófilo; ela lhe instou a insistir com o ancião para que pudesse vê-lo. O arcebispo foi até a morada deste e lhe disse: “- Uma dama de família senatorial vem de Roma e deseja ver-te”. Mas o ancião não consentiu em recebê-la. Quando lhe deram a resposta, a dama mandou selar a montaria e disse: “- Acredito que Deus conceder-me-á vê-lo, pois não vim ver um homem; homens há muitos em nossa cidade. Vim ver um profeta”. Quando por disposição divina ela chegou à cela do ancião, estava ele bem a propósito fora dela. A sua vista a mulher se arrojou a seus pés. Mas ele indignado levantou-a e lhe disse com olhos fitos nela: “- Pois bem! Se queres ver-me a cabeça, ei-la!” Mas ela confundida não a olhou. Acrescentou o velho: “- Não ouvistes sobre as minhas obras? A elas que se devem olhar. Como ousaste empreender essa travessia? Desconheces que tu és mulher e não deves ir para lugar algum? Irás depois a Roma contar às outras mulheres que viste Arsênio e me fazer do mar uma estrada que me trará mais mulheres?” “- Se praz a Deus que volte eu a Roma, respondeu ela, não permitirei à mulher alguma vir aqui. Mas reza por mim e lembra-te sempre de mim”. “- Peço a Deus que te apague do meu coração”, replicou ele, ao que ela se retirou perturbada. De volta a Alexandria, caiu doente de tristeza. Alertaram o arcebispo, que a veio consolar e se informar do que a acometia. “- Ah, lhe disse ela, se não houvera estado lá! Disse ao velho: ‘- Lembra-te de mim’, e me respondeu ele: ‘- Peço a Deus que te apague do meu coração!’ Morro de tristeza”. “- Mas não sabes que tu és mulher, lhe respondeu o arcebispo, e que o inimigo combate os santos com elas? Por isso que o velho te disse isso. Ele porém rezará incessantemente por tua alma”. Assim curado o coração, voltou para casa alegremente. (Arsênio, 28).

8. Disse o abade Evagro: “Arranca do teu coração as muitas afeições, para que teu espírito não se agite e não perturbe tua vida de hesequia”. (Evagro, 2).

9. Na Cítia um irmão foi ao encontro do abade Moisés para lhe pedir uma palavra. “- Fica sentado na tua cela, lhe respondeu ele, ela te ensinará tudo”. (Moisés, 6).

10. Disse o abade Moisés: “- O homem que foge do homem é semelhante ao cacho de uva madura; quem vive entre os homens é como a uva verde”. (Moisés, 7).

11. Disse o abade Nilo: “- Quem ama a hesequia permanece invulnerável às escaramuças do inimigo; mas quem se mistura à turba será ferido continuamente”. (Nilo, 9).

12. Disse o abade Pastor: “- O princípio dos males é a distração”. (Poemão, 43). Disse ainda o abade Pastor: “- É mister fugir das coisas corporais. Enquanto estivermos sob seu ataque, pareceremos um homem que se mantém inclinado sobre um poço profundíssimo: assim que bem lhe agrade, o inimigo precipitá-lo-á facilmente. Mas quando estamos longe das coisas corporais, somos semelhantes a um homem longe do poço: se o inimigo o agarra para jogá-lo dentro, enquanto o arrasta a força Deus envia o socorro”. (Poemão, 59).

14. Disse uma monja: “- Muitos dos que estavam sobre a montanha pereceram, pois agiam como mundanos. Mais vale viver com muito e em espírito levar vida solitária que estar só e viver com o coração junto à turba”. (Sinclética S., Guy p. 34).

15. Disse um ancião: “- O monge deve sempre buscar a hesequia, para ficar em estado de desprezar os possíveis danos corporais das disciplinas”. (N. 133).

16. Alguém contou: “- Três amigos, cheios de zelo (filoponói), fizeram-se monges. Um deles se propôs ser um conciliador de lides, segundo o que está escrito: ‘- Bem-aventurados os pacíficos’; o segundo escolhera visitar os doentes; o terceiro meteu-se na prática da hesequia na solidão. O primeiro se esgotava nos processos dos homens e não conseguia pôr todo o mundo a termo: desencorajado se dirigiu ao que cuidava dos doentes e o encontrou desiludido, com ser incapaz de cumprir o mandamento (divino). De comum acordo ambos foram ver o hesicasta. Eles lhe contaram os percalços e lhe rogaram dizer que estado ele alcançara. Este ficou um momento em silêncio, encheu d’água um copo e lhes disse: ‘- Vede esta água’; ela estava túrbida. Após certo tempo, retomou: “- Vede agora como ficou limpa”. Eles se inclinaram e viram suas caras como num espelho. “- Assim é, continuou ele, quem se conserva entre os homens: a agitação os impede de enxergar seus pecados, mas se guarda a hesequia, sobretudo no deserto, perceberá seus pecados”. (N. 134).

Capítulo Terceiro: Da Compunção

1. Conta-se que o abade Arsênio, durante toda a vida, quando se sentava para os trabalhos manuais, metia um pano de linho sobre o peito por causa das lágrimas que jorravam de seus olhos. (Arsênio, 41 a).

2. Um irmão pedira ao abade Amonas: “- Dize-me uma palavra”. Respondeu-lhe o ancião: “- Vede a mentalidade dos malfeitores aprisionados. Exigem eles: ‘- Onde está o juiz? Quando virá ele?’ E se lamentam enquanto esperam sua punição. Também o monge deve estar sempre alerta e se interrogar assim: ‘- Infeliz de mim! Como poderei eu me apresentar ante o tribunal de Cristo? Como hei de dar conto dos meus atos?’ Se meditas assim incessantemente, poderás ser salvo”. (Amonas, 1).

3. Disse o abade Evagro: “- Quando estiveres na cela, recolhe-te; pensa no dia da morte. Representa-te teu corpo de cuja vida se esvai; pensa nessa calamidade, ressente-te da dor e te horroriza da vaidade deste mundo. Modera-te e vela a fim de poder perseverar sempre na resolução de viver na hesequia e não te abalares. Evoca em teu espírito os condenados do inferno; pensa no estado em que estão suas almas atualmente, mergulhados no silêncio terrível ou nos gemidos cruéis, no temor e na agonia moral, na apreensão e na dor, vertendo lágrimas espirituais inumeráveis e desesperadamente inconsoláveis. Lembra-te também do dia da ressurreição e imagina-te o terror e o temor que o julgamento divino provoca, e em meio a tudo isso, a confusão dos pecadores ante a face de Deus e do Cristo, na presença dos anjos, dos arcanjos, das potestades e de todos os homens. Pensa em todos os suplícios, no fogo eterno, no verme que não morre, nas trevas infernais e sobretudo no ranger de dentes, nos terrores e sofrimentos. Não te esqueças dos bens reservados aos justos, a parrésia com Deus Pai e com o Cristo seu Filho, na presença dos anjos, dos arcanjos, das potestades e de todo o povo. Conserva a lembrança desse destino duplo, geme e chora ante o julgamento dos pecadores, guarda o pentos, temendo incorrer tu mesmo nessas penas; mas regozija-te, exulta, sê pleno de alegria ao pensar nos bens reservados aos justos; diligencia para os gozar e te afastar das maldições. Quer estejas na tua cela ou alhures, vela para nunca te esquecer de tudo isso, nem para o espantar da memória como sói fazer com os pensamentos maus e criminosos”. (Evagro, 1).

4. Disse o abade Elias: “- Temo três coisas: primeiro o momento em que minh’alma sairá do corpo; em seguida o em que surgirei ante Deus; e finalmente o da comunicação da sentença”. (Elias, 1).

5. O arcebispo Teófilo, de santa memória, às portas da morte disse: “- Abade Arsênio, tu és ditoso de sempre trazer esta hora ante os olhos”. (Teófilo, 5).

6. Os irmãos diziam que certo dia, durante uma ágape, um irmão desatou a rir à mesa. À vista disso o abade João se pôs a chorar e disse: “- Que há no coração desse irmão que desata a rir? Antes devia chorar, porque come a ágape!” (Kolobos, 9).

7. Dizia o abade Tiago: “- Como o candeeiro alumia o quarto escuro, assim o temor de Deus, quando pousa no coração do homem, alumia e lhe ensina todas as virtudes e todos os mandamentos divinos”. (Tiago, 3).

8. Alguns Padres interrogaram o abade Macário o Egípcio: “- Por que teu corpo é sempre mirrado, quer comas quer jejues?”. Respondera o ancião: “- O pau com que se atiça e reatiça os cardos no fogo está sempre consumido; assim o homem que o temor de Deus purificou e consumiu até mesmo os ossos”. (Macário, 12).

9. Os anciãos do monte de Nítria enviaram um irmão a Cítia, à morada do abade Macário para lhe rogar que fosse até eles; se não, acrescentavam eles, soubesse que se não fosse, uma mole de gente iria até ele, pois desejavam vê-lo antes que partisse para o Senhor. Quando chegou à montanha, a multidão dos irmãos se juntou perto dele e os anciãos lhe pediram uma palavra para os irmãos. Disse-lhes pois Macário com muitas lágrimas: “- Choremos, irmãos, deixemos as lágrimas fugirem dos olhos antes de ir onde elas nos queimarão os corpos”. Todos se puseram a chorar e se prostraram com o rosto em terra dizendo: “- Pai, ora por nós!”. (Macário, 34).

10. Certo dia, de viagem no Egito, o abade Pastor viu sentada sobre um sepulcro uma mulher, que chorava amargamente: “- Nem todos os prazeres do mundo que se lhe oferecessem, disse ele, tirariam sua alma do pentos. Assim deve o monge sempre conservar o pentos”. (Poemão, 26).

11. Outra vez caminhava o abade Pastor com o abade Anub pela região de Diolcos. Aproximando-se dum túmulo, viram uma mulher que com crueza se batia e amargamente chorava. Eles pararam para observá-la; após retomar o caminho um tanto, encontraram-se com outrem. Interrogou-o o abade Pastor: “- Que se dá nessa mulher para chorar assim?”. “-Ela perdeu o marido, o filho e o irmão”, respondeu ele. O abade Pastor disse ao abade Anub: “- Afirmo-te que quem não mortifica todos os desejos da carne e não possui pentos semelho, não pode ser monge. Naquela mulher, a alma e a vida inteira estão no pentos”. (Poemão, 72).

12. Disse ainda o abade Pastor: “- O pentos tem dupla função: cultivar e guarnecer (Gn. 2, 15)”. (Poemão, 39).

13. Desta maneira um irmão interrogou o abade Pastor: “- Que devo fazer?”. Respondeu ele: “- Abraão, ao chegar na terra prometida, comprou para si um sepulcro e, graças ao sepulcro, recebeu a terra em herança (cf. Gn. 23)”. “Que é esse sepulcro?”, retorquiu-lhe o irmão. “É o lugar das lágrimas, respondeu o ancião, e do pentos”. (Poemão, 50).

14. O arcebispo Atanásio, de santa memória, pedira ao abade Pambo para sair do deserto e ir a Alexandria. Quando o ancião chegou à cidade, viu uma mulher de comédias e desatou a chorar. Os presentes lhe perguntaram a razão. “Duas coisas me turbaram, respondeu ele: em primeiro lugar, a perdição desta mulher; em seguida, o pouco zelo que tenho de agradar a Deus perto do muito que ela tem para agradar a homens depravados”. (Pambo, 4).

15. Certo dia estava o abade Silvano sentado com os irmãos, quando entrou em êxtase e caiu de cara na terra. Muito tempo depois, levantou-se banhado de lágrimas. Perguntaram-lhe os irmãos: “- Que tens, Pai?”. Mas ele chorava em silêncio. Como insistissem, lhes disse: “- Conduziram-me ao lugar do julgamento; vi muitos dos que usam nosso hábito ir ao suplício, e muitas gentes do mundo entrar no reino”. Deste então o ancião entregou-se ao pentos e não queria mais sair da cela. Se o forçavam, cobria o rosto com o capucho e dizia: “- Que necessidade há de ver esta luz efêmera que nos não serve de nada”. (Silvano, 2).

16. Sinclética, de santa memória, disse: “- Labor (kopos) e peleja (agôn) esperam os pecadores convertidos a Deus, e após o gozo inefável. Eles são como os que querem acender um fogo: de início enfumaçados e a ponto de chorar, eles obtêm a este preço o desejado. Com efeito está escrito: “Nosso Deus é fogo devorador” (Dt. 4, 24); é-nos mister, nós também, entre lágrimas e penas acender em nós esse fogo divino”. (Sinclética, 1).

17. Disse o abade Hiperéquios: “- O monge que vela transforma a noite em dia, pela assiduidade à oração. O monge que espreme o coração expulsa as lágrimas e atrai a misericórdia do céu”. (Hiperéquios, Exhort. ad monachos, 84-85).

18. Alguns irmãos foram onde o abade Felix na companhia de segrais e lhe pediram para dizer uma palavra. O ancião se calou. Solicitado com insistência, disse-lhes enfim: “- Quereis escutar uma palavra?” – “- Sim, Pai”, responderam eles. Disse-lhes pois o ancião: “- Agora, não há mais palavras. Quando os irmãos interrogavam os Anciãos e cumpriam o dito, Deus inspirava nos Anciãos a maneira de falar. Atualmente, como interrogam e não põem em prática o que escutam, Deus retirou dos anciãos a graça da palavra, que não sabem mais dizer, pois não há quem as execute”. Escutando essas palavras, os irmãos gemeram e disseram: “- Pai, ora por nós”. (Felix, 1).

19. Certo dia o abade Teodoro e o abade Ouro embarravam o teto da cela. “- Que faríamos, se perguntavam eles entre si, se Deus nos viesse visitar agora?”. Então se puseram a chorar e, abandonando o trabalho, retirou-se cada um na sua cela. (Ouro, 1).

20. Conta um ancião que um irmão, querendo abandonar o mundo, era impedido pela mãe. Mas como se obstinasse nessa idéia, dizia à mãe: “- Quero salvar minh’alma”. Em suma, após muita resistência, vendo que se não podia opor ao desejo do filho, sua mãe deixou-o ir. Depois de monge, contudo, passava o tempo na indolência. Sua mãe morreu. Ele mesmo, pouco tempo depois, ficou gravemente enfermo. Ele teve um êxtase e foi transportado até o lugar do julgamento onde sua mãe se encontrava entre os condenados. Ela se espantou de vê-lo e lhe disse: “- Que foi, meu filho? Condenaram-te também a vir para cá? Mas que fizestes do que me dizias sobre salvar a tua alma?”. Ao escutar isso, ele enrubesceu; mudo de dor, não podia responder à mãe. Fez a misericórdia do Senhor que, após essa visão, o irmão ficasse curado e remido da doença. Refletindo pois o caráter miraculoso da visão, encerrou-se e se dedicou à meditar na sua salvação. Fez penitência e chorou as faltas cometidas no tempo da sua negligência. Era tão grande a sua compunção (katanuxis) que, quando o invitavam para algum refresco, de medo que tinham de o excesso de lágrimas lhe causar algum dano, ele recusava o consolo e dizia: “- Se não pude suportar a admoestação da minha mãe, como no dia do julgamento suportarei eu minha vergonha na presença do Cristo e dos santos anjos?”. (N. 135).

21. Disse um ancião? “- Se fosse possível às almas dos homens morrer de medo, quando o Cristo vier após a Ressurreição todo o mundo morreria de terror e de pavor. Com efeito, que espetáculo não será ver os céus rasgados, Deus impando de cólera e indignação, as armadas inumeráveis de anjos e toda a humanidade reunida! Devemos por conseguinte viver, porque Deus nos pedirá a conta de cada um de nossos movimentos”. (N. 136).

22. Um irmão perguntou a um ancião: “- Pai, donde vem que meu coração é duro e não temo o Senhor?” – “No meu parecer, respondeu ele, quem se acusa do fundo do coração obterá o temor de Deus”. – “Que acusações?”. Respondeu-lhe o ancião: “- Em toda circunstância, deve-se acusar-se dizendo: ‘- Lembra-te que deves comparecer ante Deus’, ou bem, ‘- Que tenho eu de comércio com homens? ’. Acredito que o temor de Deus virá se uma pessoa permanece nessas disposições”. (N. 138).

23. Um ancião viu alguém a rir e lhe disse: “- Devemos dar conta de toda nossa vida ante o Senhor do céu e da terra, e tu ris!”. (N. 139).

24. Disse um ancião: “- Em todo lugar levamos a sombra do corpo; assim devemos ter conosco em todo lugar as lágrimas e a compunção (katanuxis)”. (N. 140).

25. Um irmão pediu a um ancião dos Padres: “- Dize-me uma palavra”. Disse-lhe o ancião: “- Quando Deus abateu o Egito, não havia uma só casa que não estivesse no pentos”.

26. Um irmão pediu a outro ancião: “- Que devo fazer?” – “Devemos sempre chorar, lhe respondeu ele, pois aconteceu outrora que um ancião morreu e retornou após várias horas. Perguntáramos a ele: ‘- Pai, que viste lá embaixo?'. E ele nos contou entre lágrimas: '- Escutei uma voz lúgubre que dizia incessantemente: - Infeliz de mim, infeliz de mim!' . Devemo-nos também sempre dizer o mesmo”. (N. 141).

27. Um irmão interrogou um ancião: “- Minh’alma deseja lágrimas como as que vertiam os anciãos, como ouvi falar; elas não me vêm e isso me turba. Como posso tê-las?” Respondeu o macróbio: “- Os filhos d’Israel levaram 40 anos para entrar na terra prometida. As lágrimas são como a terra prometida: se as conseguires, não temerás mais a guerra. Com efeito, Deus quer que a alma seja afligida para que, sem trégua, deseje entrar nessa terra”. (N. 143).

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