sábado, 9 de janeiro de 2010

Nova Era: heresia desmascarada - leia mais em "O Mito da Nova Era".



"Parafraseando Gilson, poderíamos dizer que a pós-modernidade está cheia de idéias modernas que se tornaram loucas. A última utopia parece ser a do individualismo egocêntrico, que vem constituir-se na caricatura de ideal nobre moderno, a autonomia pessoal.

O homem das metrópoles, liberado da luta pela vida, graças à tecnologia, vai tornando-se mais expectador do que ator; tem uma identidade fragmentária e solidariedade anestesiada: seu mais alto ideal é o prazer, e sua paixão é a avidez de "experiências". É um indivíduo capaz de substituir a convivência com as pessoas de carne e osso ou o contato com a natureza pelas ilusões eletrônicas da 'realidade virtual', quando não de fugir do mundo real pelo caminho suicida da droga. Pelo menos, isto é o que se pretende fazer dele.

A Nova Era dirige-se a esse indivíduo fragmentado e propõe-lhe reconciliá-lo com a natureza sem renunciar ao bem-estar; no máximo , toma consciência de que fora da ilha de privilégios existem 'os pobres do Terceiro Mundo', tão dignos de compaixão quanto as focas , as baleias ou o urso panda...
(...)
Com respeito aos crentes, uma fé educada sobre bases bíblicas, assumida com autenticidade e mantida pela vida sacramental, só pode chegar a experimentar uma certa sedução ou ainda confundir-se momentaneamente com essas idéias; porém é capaz de ser esclarecida a tempo. Lamentavelmente, este é o caso ideal, porque de fato a serenidade de espírito é a que mais falta em tempos de crise. Aqueles que acreditaram na fé tíbia, com cultura religiosa escassa e muito de adesão sentimental, são presa fácil de um discurso sedutor que não pede sacrifícios nem enfrenta a dor senão que promete paraísos privados ao alcance de todos. Não estão menos expostos aqueles que têm alguma instrução, e inclusive os intelectuais de formação unilateral, filosoficamente precária, mas auto-suficiente.

O desafio da Nova Era não é algo que possa resolver-se no campo científico ou filosófico, porque esconde um conflito essencialmente religioso: interpela as grandes religiões históricas, em especial os cristãos.

Na sua curta carreira, a Nova Era parece ter sofrido o mesmo destino que acompanhou as ideologias, e já começa a enfrentar a decadência. Vista em escala histórica, não é mais que novo avatar da gnose, que nasceu nos primeiros séculos da nossa era como um retorno ao paganismo, voltou a brotar na Idade Média com a heresia cátara, seduziu o Renascimento e o Barroco sob a forma hermética e renasceu com o ocultismo romântico. A gonose sempre foi inimiga da fé, porque é profundamente elitista e exclui aqueles que não podem aceder ao saber, único caminho de salvação. Do mesmo modo, a magia sempre foi uma perversão da experiência religiosa: assim como a religião supõe o diálogo e a entrega a Deus, a magia quer apoderar-se de seu poder.

Embora admitamos que a Nova Era tivesse o caráter de uma moda sustentada por poderosos interesses, sua decadência não implica que tenham desaparecido as necessidades espirituais que lhe deram origem. Elas continuam firmes, tal como o estiveram em cada vez que as crises se aprofundavam e o desenlace não estivesse à vista. Tampouco desapareceu o mercado cultural, sempre pronto a gerar outras propostas igualmente espúrias. Menos ainda podemos desconhecer a influência exercida sobre a nova sensibilidade religiosa, e as marcas que deixará nas atitudes religiosas.

A única maneira de fazer frente ao desafio é partir de um cuidadoso exame das necessidades, para tratar de sair a seu encontro com fé renovada. Para nos opor aos falsos profetas que nos prometem 'sermos como deuses' só contamos com as armas de uma fé capaz de descobrir o mistério no fundo do coração; o sentido, no fato de que as coisas sejam como são; a presença de Deus, em nossas vidas e no rosto do irmão.
(...)
Nesse diálogo, os argumentos racionais não serviriam para nada, se não fossem acompanhados do testemunho cristão que sejamos capazes de dar. Só assim poderemos falar-lhe da oração em lugar da meditação; da fé e do saber, do sentido da criação, perante o panteísmo acósmico; do valor e da responsabilidade únicos da pessoa humana, e de ressurreição em lugar da reencarnação.

Esse desafio deve mover-nos a uma nova conversão e reforma à luz do evangelho: uma reforma que nos leve a aprofundar a oração e a autêntica meditação da Palavra, a revitalizar a liturgia para satisfazer as novas formas que adota a sensibilidade espiritual, para formar comunidades autênticas nas quais seja possível encontrar identidade, diálogo e fraternidade.

Por fim e para terminar, a Nova Era surgiu numa semeadura cristã que, após ser açoitada pelos ventos seculares, entrou na aridez sufocante da pós-modernidade. Se Deus nos colocou nesta época é para que déssemos testemunho dele com a linguagem desta época, enfrentando suas necessidades."

"O Mito da Nova Era", Pablo Campanna,AM Edições, São Paulo,1996, p.105-106;122-125.

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