segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Modernismo: síntese dos erros.


Cem anos após o modernismo — “síntese de todas as heresias” — ter sido fulminado pelo grande Papa, o movimento progressista, sucedâneo do modernismo e também infiltrado na Santa Igreja, inocula nos ambientes católicos veneno análogo –– essencialmente, os mesmos erros combatidos energicamente pelo Santo Pontífice. Trata-se de uma atuação interna, em tudo semelhante a uma conspiração, que visa adaptar a Igreja e o povo fiel aos erros e ao espírito do mundo e da vida moderna. A história se repete...

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Por ocasião do cinqüentenário desse magistral documento pontifício, em 1957, Catolicismo publicou em suas edições de setembro, outubro e novembro,três amplas e importantes matérias de autoria de Plinio Corrêa de Oliveira. Nelas o autor mostra que, em nossa luta contra os adversários internos e externos da Igreja, devemos agir firmemente como São Pio X.


As três matérias encontram-se transcritas integralmente em nosso site — www.catolicismo.com.br — à disposição de todos. Nesta edição, oferecemos a nossos leitores alguns excertos, com pequenas adaptações e inserção de entretítulos. As frases citadas entre aspas são extraídas do texto da própria Encíclica (Pascendi Dominici Gregis, de 8 de setembro de 1907, publicada em francês no volume III dos Atos de Pio X, edição Bonne Presse, Paris).


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Um fato histórico tão importante quanto a vitória de Lepanto


“Rendemos ao imortal Pontífice Pio X nossa homenagem, cheia de gratidão, pelos benefícios que prestou à Santa Igreja, ferindo gravemente, com intrepidez angélica, este terrível inimigo da Religião Católica: o movimento modernista”


§ Plinio Corrêa de Oliveira


Pareceu-nos que nenhum modo de comemorar o aniversário da Encíclica Pascendi seria melhor do que publicar um resumo da linha mestra do grande documento. [...]

Se São Pio X não tivesse fulminado a heresia modernista, o mundo teria entrado rapidamente em marcha para o panteísmo e o ateísmo. E toda a ação comunista sobre a face da Terra não teria encontrado diante de si os enormes obstáculos que encontrou.

A condenação do modernismo foi, pois, um fato histórico tão importante quanto a vitória de Lepanto. E o Papa Pio XII [elevando Pio X à honra dos altares, em maio de 1954] se tornou credor do reconhecimento eterno dos homens, por lhes haver apresentado por modelo e dado por protetor um tão grande santo. […]


Amar o próximo, e o combater quando necessário
“Odiai o erro, amai os que erram”, escreveu Santo Agostinho. Grande, sábia, admirável sentença. Entretanto, quantas aberrações, quantas traições, quantas capitulações vergonhosas se têm abusivamente cometido em nome dela!

Há pessoas cândidas — ou covardes — que imaginam as idéias como entes dotados de existência física própria e autônoma, os quais se incubariam misteriosamente nas pessoas. Segundo elas, pode-se mover guerra às idéias sem atacar as pessoas, mais ou menos como se pode combater a doença infecciosa sem atingir o doente, pois a guerra é tão somente contra o bacilo.

Este modo de ver, infelizmente muito generalizado em nossos dias, beneficia largamente nossos adversários, pois desarma toda a nossa reação.

A verdade e o erro não são algo de extrínseco ao espírito humano, como as fichas na gaveta de um fichário. A inteligência, pelo contrário, tende a assimilar este e aquela, por um processo que tem sido merecida e freqüentemente comparado à digestão. Se alguém come pão ou carne, a digestão incorpora ao organismo uma parcela da substância desses alimentos, que ficam fazendo parte da pessoa. Analogamente, se alguém aceita uma doutrina, esta de tal maneira pode chegar a marcar sua personalidade, que se diria figurativamente que tal homem personifica aquela idéia. Como pretender destruir o pão já digerido por uma pessoa, sem ferir esta última em sua carne? E como se pode atacar uma idéia sem atingir em certa medida quem a personifica, quem ipso facto lhe dá vida, atualidade e possibilidades de difusão?

Não. A sentença de Santo Agostinho é de sentido óbvio. Ela preceitua que desejemos a humilhação e a derrota do erro, bem como a conversão e a salvação de quem erra. Ela recomenda que usemos, para com quem erra, de toda a suavidade possível. Ela não nos proíbe de utilizar, contra aquele que erra, uma justa severidade, quando isto se torna necessário para o bem da Igreja e a salvação das almas. Nesse sentido, não chega aquela sentença ao ponto de inutilizar no católico a capacidade de ação e de luta contra os autores do erro ou do mal. Muito pelo contrário, os santos souberam sempre conciliar as duas obrigações fundamentais e aparentemente contraditórias, de amar o próximo e de o combater, quando a isto impele o zelo pela glória de Deus e pela salvação das almas.

É disto que nos deu admirável exemplo o Papa São Pio X na Encíclica Pascendi, contra o modernismo, com o monumento de objetividade e lucidez que é aquele imortal ato pontifício.


Denúncia das táticas e da conspiração modernista

Enganar-se-ia quem supusesse que a Pascendi foi um mero documento doutrinário. São Pio X não combateu apenas no campo das idéias, mas, com admirável energia e perspicácia, desmascarou os próprios fautores do erro; e traçou o lamentável perfil moral do modernista, denunciou suas táticas e pôs a nu a vastidão de sua conspiração. A Encíclica não menciona nomes, mas é riquíssima em dados sobre a personalidade do modernista. Em outros documentos, São Pio X chegou aos nomes. Por exemplo, nos importantes decretos em que foram nominal e pessoalmente atingidos os principais chefes do movimento.

É para que nossos leitores possam medir em toda a sua admirável extensão a severidade com que o Santo Pontífice se houve nesta emergência, que consagramos ao assunto este artigo.

Fazendo-o, chamamos a atenção para a oportunidade flagrante do exemplo que apontamos. São Pio X foi beatificado e mais tarde canonizado pelo Santo Padre Pio XII. Quis ele que seu antecessor servisse de modelo para os homens, e não para os mortos que jazem na sepultura ou para as crianças que ainda estão por nascer. Foi para isto que ele fez brilhar na honra dos altares esse grande luzeiro.

Agir como São Pio X, eis o que nos recomenda com sua suprema autoridade o imortal Pontífice Pio XII. [...]


Por orgulho repelem toda sujeição
Os modernistas representam o sumo da obstinação, e com eles são inúteis as medidas brandas: “Esperávamos que os modernistas algum dia se emendassem. Por isto, de início, usamos em relação a eles medidas suaves, como se faz com filhos, e depois medidas severas; por fim, e muito a contragosto, empregamos repreensões públicas. Não ignorais, Veneráveis Irmãos, a esterilidade de Nossos esforços: eles curvam por momentos a cabeça, para a levantar novamente com orgulho ainda maior”.

Uma das raízes mais importantes deste lamentável estado de espírito, com efeito, é o orgulho:

“O orgulho! ele está, na doutrina dos modernistas, como em sua própria casa; aí encontra ele por toda parte algum alimento, e se expande então em todos os seus aspectos. Orgulho, por certo, esta confiança em si mesmos, que os leva a se erigirem em regra universal. Orgulho, essa vanglória que os apresenta a seus próprios olhos como os únicos detentores da sabedoria; que os leva a dizer, arrogantes e repletos de si mesmos: não somos como os outros homens; e que, para realmente não serem como os outros, os impele às mais absurdas novidades. Orgulho, o que os faz repelir toda sujeição e os leva a uma conciliação da autoridade com a liberdade. Orgulho, essa pretensão de reformar o próximo, esquecendo-se de si mesmos; essa absoluta falta de consideração para com a autoridade, inclusive a autoridade suprema. Não, realmente, nenhum caminho há que conduza mais rápida e diretamente ao modernismo do que o orgulho. Que nos dêem um leigo, ou um sacerdote, que tenha perdido de vista o princípio fundamental da vida cristã — a saber, que devemos renunciar a nós mesmos, se queremos seguir Jesus Cristo — e que não tenha extirpado de seu coração o orgulho: esse leigo, esse sacerdote estará maduro para todos os erros do modernismo. Eis por que, Veneráveis Irmãos, vosso primeiro dever é resistir a esses homens soberbos, e empregá-los em funções ínfimas e obscuras: que sejam postos tanto mais baixo quanto mais alto pretendam subir, e que seu próprio rebaixamento lhes tire a ocasião de fazer mal”. [...]

Modernismo: mania de novidades – horror à tradição

Nascida dessa curiosidade malsã, a mania das novidades, o horror à tradição é uma das notas características do modernismo.

Por isto é que, pensando o Santo Papa Pio X nos modernistas –– que qualifica, com palavras da Escritura, de “homens de linguagem perversa, dizedores de novidades e sedutores, vítimas do erro que arrastam os outros ao erro” –– lamenta-se de que “cresceu estranhamente nestes últimos tempos o número dos inimigos da Cruz de Jesus Cristo que, com uma arte absolutamente nova e soberanamente pérfida, se esforçam por anular as energias vitais da Igreja, e até mesmo, se pudessem, por subverter inteiramente o reino de Jesus Cristo”. [...]

Os modernistas, como tantos protestantes, odeiam a pompa esplêndida do culto católico. Eis sua razão: “Do momento em que seu fim é todo espiritual, a autoridade religiosa se deve despojar de todo aquele aparato externo, de todos aqueles ornamentos pomposos, pelos quais ela como que se dá em espetáculo”. [...]

Percorrendo o quadro psicológico que do modernista pinta São Pio X, fica-se admirado com a franqueza de sua linguagem, com a clareza, a energia e a precisão de seus conceitos. É bem de ver que, se outrem que não um Papa — e que Papa! — assim se exprimisse, abriria flanco a que os liberais, cujos matizes são tão numerosos em nossa população, e infelizmente existem até nos círculos católicos, tivessem a impressão de que se está exagerando. [...]


“Inimigos tanto mais temíveis quanto menos declarados”

É natural que, movidos por sua febre de novidades, os modernistas também se tenham lançado contra todas as boas tradições cristãs. [...]

Acrescenta o Papa: “O que exige, principalmente, que falemos sem tardança, é que os artífices de erros não devem ser procurados hoje entre os inimigos declarados. Eles se ocultam –– e nisto está um título de apreensão e de angústia muito particular –– no próprio seio e no coração da Igreja, inimigos tanto mais temíveis quanto menos declarados. Falamos, veneráveis Irmãos, de grande número de católicos leigos –– e, o que é mais deplorável, de padres –– que, sob o pretexto de amor à Igreja, absolutamente falhos de filosofia e de teologia sérias, impregnados, pelo contrário, até a medula dos ossos, de um veneno de erro haurido entre os próprios adversários da fé católica, se inculcam, com desprezo de toda modéstia, como renovadores da Igreja. Esses tais, em falanges cerradas, dão audacioso assalto a tudo quanto há de mais sagrado na obra de Jesus Cristo, sem respeitar sua própria Pessoa, que tentam rebaixar, por uma temeridade sacrílega, até o nível da simples e pura humanidade.

“Estes homens se espantarão de que os inscrevamos entre os inimigos da Igreja. Ninguém terá surpresa diante disso, com algum fundamento, quando — pondo de lado suas intenções, cujo julgamento está reservado a Deus — examinar suas doutrinas e, em função delas, seu modo de falar e de agir. Inimigos da Igreja, certamente eles o são; e ninguém se afasta da verdade dizendo que são dos piores. Não é de fora, com efeito — já o notamos — mas é principalmente de dentro que os modernistas tramam a ruína da Igreja; o perigo está hoje quase nas entranhas mesmo e nas veias da Igreja: seus golpes são tanto mais seguros quanto eles sabem melhor onde lançá-los. [...]


A inoculação de “veneno” apresentado como “remédio”

Conforme a fundamental duplicidade de seu espírito, os modernistas têm toda uma tática especial para disseminar os seus erros, dando-lhes aparência de verdades atraentes e simpáticas.

Essa tática, São Pio X a descreveu admiravelmente: “O que projetará maior luz ainda sobre essas doutrinas dos modernistas é sua conduta, que é inteiramente coerente com suas doutrinas. Ao ouvir os modernistas, ao ler os seus trabalhos, ter-se-ia a tentação de acreditar que eles caem em contradição consigo mesmos, que são oscilantes e indecisos. Longe disso: tudo é pesado, tudo é desejado entre eles, mas à luz do princípio de que a fé e a ciência são estranhas uma à outra. Tal passagem de seus trabalhos poderia ser assinada por um católico; voltai a página, e tereis a impressão de ler um racionalista. Escrevendo história, nenhuma menção fazem da divindade de Jesus Cristo; subindo à cátedra sagrada, proclamam-na alto e bom som. Historiadores, desprezam os Padres e os Concílios; catequistas, citam-nos com honra. Se prestardes atenção, há para eles duas exegeses inteiramente distintas: a exegese teológica e pastoral, a exegese científica e histórica. Do mesmo modo, em virtude desse princípio de que a ciência não depende da fé, sob nenhum ponto de vista, se eles dissertam sobre a filosofia, a história, a crítica, ostentam de mil modos — não tendo horror de caminhar assim nas pegadas de Lutero — seu desprezo pelos ensinamentos católicos, pelos Santos Padres, pelos Concílios universais, pelo Magistério eclesiástico; advertidos sobre esse ponto, lançam brados de protesto, queixando-se amargamente de que se lhes viola a liberdade. Enfim, dado que a fé é subordinada à ciência, repreendem a Igreja — abertamente e em toda ocasião — pelo fato de que Ela se obstina em não sujeitar e não acomodar seus dogmas às opiniões dos filósofos. Quanto a eles, depois de terem feito tábula rasa da antiga teologia, esforçam-se por introduzir uma outra, complacente para com as divagações desses mesmos filósofos”. [...]


Com a aparência “católica”, corromper os católicos

Os modernistas agem dentro da Igreja como verdadeira quinta coluna, pois, segundo é de toda evidência, sua intenção consiste em conservar o aspecto de católicos, para mais facilmente disseminar nas próprias fileiras católicas a peçonha de seus erros.

Infelizmente, como sempre acontece, existe uma terceira força para facilitar a ação dessa quinta coluna. Essa terceira força é formada por aqueles católicos, quiçá bem intencionados, que, por um excessivo desejo de conciliação, ou pelo temor de parecerem atrasados, retrógrados ou reacionários, adotam em sua linguagem, em suas atitudes, em toda a linha de sua conduta, uma orientação que, se não é diretamente modernista, facilita o deslizar perigoso dos espíritos para essa heresia.

Foi o que com muita finura observou o Santo Pontífice: “O que é muito estranho é que católicos, que sacerdotes, dos quais queremos pensar que tais monstruosidades lhes fazem horror, se comportem entretanto, na prática, como se as aprovassem plenamente; é muito estranho que católicos, que sacerdotes, tributem tais louvores, prestem tais homenagens aos corifeus do erro, que se tem a impressão de que querem honrar por esta forma, não os homens em si mesmos, talvez não de todo indignos de alguma consideração, mas os erros que tais homens abertamente professam, e dos quais se arvoraram em campeões”. [...]


Os modernistas unem suas energias para arruinar a Igreja

Muito bem organizados do ponto de vista da propaganda, os modernistas se aliam no mundo inteiro, para o efeito de difundir melhor as suas doutrinas.

“Não se pode deixar de sentir estranheza e surpresa diante do valor que certos católicos lhe atribuem [à crítica modernista]. Para isto há duas causas: de um lado, a aliança estreita que fizeram entre si os historiadores e críticos da escola modernista, por cima de todas as diversidades de nacionalidade e de religião. De outro lado, a audácia sem limites desses mesmos homens: que um dentre eles abra seus lábios, e os outros aplaudirão a uma voz, elogiando o progresso que comunica à ciência; se alguém tem a infelicidade de criticar uma ou outra de suas novidades, por monstruosa que seja, em fileiras cerradas os modernistas investem contra ele; quem nega suas doutrinas é tratado de ignorante, quem as adota e defende é elevado às nuvens. Muitos que, iludidos com isto, se inclinam para os modernistas, recuariam de horror se o percebessem”.

Como tantas vezes acontece com os hereges, os modernistas têm um ardente espírito de proselitismo:

“Se, pelo menos, tivessem menos zelo e menos atividade em propagar seus erros! Mas tal é neste particular seu ardor, tal sua pertinácia no trabalho, que não se pode considerar sem tristeza como despendem, em arruinar a Igreja, energias magníficas que seriam tão aproveitáveis se fossem bem empregadas. Seus artifícios para iludir os espíritos são de duas maneiras: esforçar-se por afastar os obstáculos que lhes causam transtorno; depois procurar, com cuidado, pôr em movimento, ativa e pacientemente, tudo que lhes possa ser útil”.

“Os modernistas se apoderam das cátedras nos seminários, nas universidades, e as transformam em cátedras de pestilência. Disfarçadas talvez, suas doutrinas são semeadas por eles do alto dos púlpitos sagrados; professam-nas abertamente nos congressos; fazem-nas penetrar e as põem em voga nas instituições sociais. O fruto de tudo isto? Nosso coração se sente apertado ao ver absolutamente transviados tantos jovens que eram a esperança da Igreja, e que lhe prometiam tão bons serviços. Outro espetáculo ainda Nos contrista: é que tantos outros católicos, não indo certamente tão longe, entretanto têm tomado o hábito, como se tivessem respirado um ar contaminado, de pensar, de falar e de escrever com mais liberdade do que convém a católicos”.


Perseguição encarniçada aos verdadeiros católicos

“Os modernistas se empenham em minimalizar o Magistério eclesiástico e em lhe enfraquecer a autoridade, seja desnaturando sacrilegamente sua origem, seu caráter e seus direitos, seja reeditando contra ele, do modo mais livre do mundo, as calúnias dos adversários. Ao clã modernista se aplica o que Nosso Predecessor Leão XIII escrevia, com dor na alma: A fim de atrair o desprezo e o ódio sobre a Esposa mística de Cristo, na qual está a verdadeira luz, os filhos das trevas têm o hábito de lhe atirar, à vista dos povos, uma calúnia pérfida [...]. Depois disto, não há motivo para que alguém se espante se os modernistas perseguem com toda a sua malevolência, com toda a sua acrimônia, os católicos que lutam vigorosamente pela Igreja. Não há espécie de injúrias que não vomitem contra eles: a de serem ignorantes e obstinados é a preferida. Se se trata de adversário temível por sua erudição e vigor de espírito, os modernistas procuram reduzi-lo à impotência, organizando em torno dele a conspiração do silêncio. Conduta tanto mais censurável quanto ao mesmo tempo, sem fim nem medida, esmagam sob seus elogios quem se coloca de seu lado. Quando aparece um trabalho, desde que por todos os poros se deixe notar nele o desejo das novidades, os modernistas o acolhem com aplausos e exclamações de admiração. Quanto mais um autor tiver mostrado audácia em atacar o venerável edifício da Antigüidade, em solapar a tradição e o Magistério eclesiástico, tanto mais será tido por sábio. [...]


Fato de aparência estranhíssima: o erro disfarçado

Com essas citações, concluímos a descrição do perfil moral do modernista e dos seus métodos de ação, segundo a Encíclica Pascendi. Por esta forma, rendemos ao imortal Pontífice Pio X nossa homenagem, cheia de gratidão pelos benefícios que prestou à Santa Igreja ferindo gravemente, com intrepidez angélica, este terrível inimigo da Religião Católica.

Nossa insistência a este respeito foi motivada por uma circunstância especial. Hoje em dia, para o comum dos fiéis, mesmo para os de alguma cultura religiosa, o erro só pode existir fora da Igreja. Em outros termos, o erro é adotado pelos que professam religiões falsas ou pelos que não professam nenhuma religião. Ele deve ser procurado e alvejado nas fileiras dos protestantes, dos espíritas, dos comunistas. Mas haveria perigo, haveria falta de caridade, haveria temeridade, em procurá-lo nas hostes católicas. Nestas, pelo contrário, só a verdade poderia florescer. E a idéia de procurar algum erro de doutrina em obras de escritores católicos poderia parecer, a esse público, singular, estranha, nascida de suspicácias infundadas e antipatias pessoais.

Na realidade, vimos como São Pio X nos mostra a existência, em seu tempo, de poderosa corrente de erros vicejando no próprio seio da Santa Igreja, e não apenas nas seitas heréticas ou cismáticas, ou entre os racionalistas. No tempo do Santo Papa, esta vasta coorte de católicos transviados estava intimamente ligada aos adversários externos da Religião, articulada de maneira a, protegida por uma falaciosa aparência de catolicidade, difundir o erro nas próprias fileiras católicas. Trabalho terrível de quinta coluna, que fazia com que o mal se apresentasse disfarçado sob o aspecto mais simpático e mais agradável. [...]

É esta uma constante dentro da vida da Igreja. Com efeito, não é raro que, aparecendo uma heresia, seus fautores procurem, quanto podem, tomar aparência de ortodoxos, permanecendo durante o maior tempo possível nas fileiras católicas para mais facilmente arrastar as almas. Em geral, é necessário um esforço terrível para que o erro seja apontado, caracterizado, reconhecido e expulso do redil. [...]


Revivem nos modernistas o espírito e os métodos do jansenismo
Como se sabe, a corrente jansenista que se difundiu por toda a Europa nos séculos XVII e XVIII, e em certa medida no século XIX, era, em essência, um calvinismo disfarçado. Seus partidários, homens muitas vezes insignes por sua erudição, tendo apoios e simpatias entre altos dignitários eclesiásticos, dispondo do apoio também de chefes de Estado e de políticos eminentes, exímios na arte de esconder a peçonha dos erros sob a aparência de austeridade, de zelo e de talento, conseguiram perturbar durante séculos inteiros a vida da Cristandade. Ocultando suas doutrinas heréticas sob uma linguagem agradável, atraíram a simpatia de pessoas que teriam horror a qualquer espécie de heresia. Foi necessária uma luta terrível para extirpar da Santa Igreja esse veneno tremendo. E, em conseqüência dessa luta, se debilitaram as forças católicas, se aniquilaram energias que poderiam ter sido utilizadas com admirável eficácia no combate ao racionalismo. Mais ainda, os partidários da doutrina ortodoxa, muitas vezes desacreditados pelas calúnias jansenistas, ficaram na impossibilidade de prestar à Igreja todos os serviços que de outro modo lhe teriam podido prestar. [...]


A mesma tática: “lobos ocultos sob peles de ovelhas”

Desta situação amarga participou a própria Santa Sé. Várias vezes os Romanos Pontífices denunciaram o erro. Mas sempre conseguiram os jansenistas, servidos por uma tática muito eficiente, fazer aceitar por numerosos fiéis a idéia de que essas condenações não passavam de atitudes políticas tomadas sob a deplorável pressão de conjunturas humanas, e não eram atos de magistério movidos pelo puro zelo da causa de Deus. O que explicava que muitas pessoas, duvidando dos verdadeiros Pastores da Igreja e deitando toda a sua confiança nos lobos ocultos sob peles de ovelhas, se deixassem persuadir de que as disposições da Santa Sé a respeito do jansenismo não deviam em consciência ser aceitas pelos católicos.

A divisão que o jansenismo causou entre os fiéis, a dispersão de esforços, a confusão, favoreceram na realidade a Revolução Francesa. Outra poderia ter sido a reação dos católicos do século XVII, e particularmente do século XVIII, se permanecessem unidos na verdadeira doutrina ortodoxa: teriam combatido de frente os erros monstruosos da Enciclopédia, que se prepararam, se enunciaram, e depois foram difundidos por toda a Europa. Tal não se deu. O enciclopedismo, encontrando nos próprios arraiais católicos o terreno preparado pelos desvios do jansenismo, se propagou livremente. E daí nasceu o terrível cataclismo que foi a Revolução Francesa.

Este aspecto do quadro ideológico e político do século XVIII merece particular atenção. Costumam os historiadores afirmar simplesmente que o enciclopedismo, servido por escritores eminentes, de grande talento, conseguiu conquistar a Europa. Seria o caso de perguntar por que esta conquista não encontrou reação, ou por que a reação oposta à conquista foi tão fraca, que praticamente não pôde evitar o mal. A debilidade dessa reação foi devida, em grande parte, à circunstância já apontada: a desordem imensa introduzida nas fileiras católicas pelo jansenismo, o prejuízo causado à vitalidade da Igreja pela difusão, em seu seio, de uma heresia tão perigosa.


Atualidade do tema no início do século XXI

O modernismo foi condenado no início do século XX. A atualidade do exemplo histórico que acabamos de evocar, entretanto, ainda é grande.

Nos documentos pontifícios, não é raro encontrarmos alusões paternalmente tristes e severas a respeito de erros que circulam entre os fiéis. Esses erros podem renovar nas hostes católicas todos os inconvenientes que produziram no começo deste século, sob a forma do modernismo; ou anteriormente, sob a forma do jansenismo.

Nós mesmos nos encontramos também nas vésperas de um imenso cataclismo, a cuja iminência é inútil fechar os olhos. É evidente que a crise comunista, provocada no mundo inteiro não só pelas manobras de Moscou, como ainda, e principalmente, pela lenta mas universal socialização do Ocidente, coloca a Civilização Cristã na situação mais perigosa que ela jamais conheceu desde que o Edito de Milão deu liberdade à Igreja.

Nessas condições, importa soberanamente que todos os católicos, atentos à grande voz e ao grande exemplo do Papa Pio X, que Pio XII elevou à honra dos altares para nos servir de intercessor e de luz, saibam orientar-se quanto ao dever da hora presente.

Este dever consiste, certamente, em combater os inimigos externos da Igreja com todo o zelo e com todo o afã. Mas ele não pára aí. Também consiste em ter os olhos voltados para os problemas internos da Santa Igreja de Deus, com a convicção de que eles podem constituir embaraço dos maiores; e com uma franca compreensão para com aqueles que, de modo todo particular, se dedicam à análise e à solução desses problemas.


O erro interno é sempre mais perigoso que o erro externo

Quantas e quantas vezes, ao percorrerem os vários números desta folha, leitores houve que fizeram a pergunta: por que combater erros existentes entre fiéis, quando há tantos outros a serem combatidos fora das fileiras católicas, mais claros, e portanto mais perigosos? A esta pergunta tão freqüente, a Encíclica Pascendi oferece magnífica resposta: o erro interno é sempre mais perigoso que o erro externo, a divisão das forças é sempre mais perigosa que qualquer adversário. E para fazer cessar a divisão das forças, o essencial é que todos lutem em torno de uma só bandeira. O essencial é que tenham todos a mesma doutrina. O essencial é que a circulação sub-reptícia do erro não divida os espíritos, não divida os corações, não divida as energias.

O modo verdadeiro de realizar a união entre os católicos não consiste em calar diante do erro que possa serpear dentro do redil. A tática acertada consiste em combater de frente tal erro, para que, unidos todos os católicos em torno de um mesmo ideal, sob a autoridade suprema e amorosa do Romano Pontífice, guiados pelos seus bispos e legítimos pastores, possam manter acesa e finalmente vitoriosa a grande luta pelo triunfo da Igreja, da Civilização Cristã, contra o materialismo, o panteísmo, a irreligião, o socialismo, o comunismo e todas as formas da Revolução.
http://www.revolucao-contrarevolucao.com/verartigo.asp?id=72

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