quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Legião de Maria: manual de espiritualidade (parte 8).


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OS PATRÍCIOS

A Associação dos Patrícios foi fundada em 1955. A sua finalidade consiste em desenvolver os conhecimentos religiosos das pessoas, ensiná-las a explicarem-se e encorajá-las ao apostolado. O seu método tinha caráter experimental, mas conservou-se sem mudança. Embora houvesse quem de início propusesse alterações, achou-se que todas elas não passavam de versões de métodos já existentes, tais como as aulas de catecismo, o sistema de conferência e a sessão à base de perguntas e respostas. Todos estes métodos têm o seu lugar próprio e essencial, mas não resolvem o problema talvez básico da Igreja: a falta de conhecimento religioso dos adultos e as línguas paralisadas dos leigos. Os Patrícios têm mostrado a sua eficiência neste campo e por isso devem ser cuidadosamente preservados. O seu sistema é de um equilíbrio delicado. Uma pequena mudança iria transformá-lo em uma coisa totalmente diferente, precisamente como uma pequena alteração na sintonização de um rádio traz uma estação diversa.

Aqueles métodos estabelecem que uma ou várias pessoas entendidas num assunto tomem sobre si o trabalho de nele instruir outras pessoas, enquanto que o método dos Patrícios é o da própria Legião – a realização por todos, unidos, de uma tarefa. Todos trabalham juntos na pesquisa ativa de novos conhecimentos.

Analisando bem, vemos que os Patrícios são verdadeiros filhos da Legião, pois possuem vários elementos que são próprios da Legião. Os Patrícios são o aproveitamento do sistema da Legião para promover a formação religiosa das pessoas.

Maria trouxe Jesus ao mundo, por isso dirige a Legião. Ela está encarregada de transmitir aos homens o que Jesus veio nos ensinar. Este domínio de Maria é significado pelo altarzinho legionário que deve constituir o centro da reunião patrícia. Os Patrícios reúnem-se em volta dela, para conversar sobre a Igreja, em todos os seus aspectos, isto é, sobre Jesus que está presente no meio deles, conforme a Sua promessa. É esta uma elevada forma de oração, que se torna fácil pela variedade da reunião; seria difícil despender duas horas contínuas numa oração regular. É esta uma razão por que os Patrícios espiritualizam ao mesmo tempo em que instruem.

A primeira exigência num Praesidium é obter de cada membro um relatório falado. Os Patrícios insistem no mesmo assunto, para conseguir que cada um dê, falando, a sua participação. A disposição e direção da reunião devem ser orientadas para este

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fim. O ambiente das reuniões deve ser agradável, como em uma família. Mesmo que alguns gostem de falar mais que outros, todos devem poder expressar suas idéias. Nos debates comuns geralmente acontecem ataques, condenações ou até mesmo expor alguém ao ridículo. Isso deve ser evitado nas reuniões de Patrícios, a fim de que seus participantes não desapareçam.

É preciso criar nas reuniões o espírito familiar, acolhedor, onde todos se sintam bem, para que sejam construídas as bases dos Patrícios. Da participação oral de cada um devem surgir novas participações, como na construção de uma corrente, em que um elo se liga a outro. As falhas no conhecimento serão esclarecidas, facilitando, assim, o entendimento da doutrina católica. Quanto mais crescerem os conhecimentos e o interesse, mais estarão os membros unidos ao Corpo Místico e penetrados por Sua vida.

Nas outras características, o método patrício representa também a aplicação da doutrina e da técnica legionárias. È importante que os legionários tomem disto plena consciência, para porem no funcionamento dos Patrícios a mesma confiança com que encaram o Praesidium. Só assim estarão bem preparados para a tarefa que têm de enfrentar.

É lamentável que os próprios católicos não falem de religião para os que estão fora da Igreja e mesmo aos que estão dentro dela. Os cristãos ficam totalmente calados. O Cardeal Suenens resume assim a situação: “Diz-se que os que estão fora da Igreja não querem ouvir. A verdade autêntica é que os católicos não falam”. Parece que os católicos, em geral, não ajudam os outros no domínio religioso. Não se dão informações àqueles que as procuram sinceramente e cria-se assim a impressão incorreta de que os católicos são indiferentes em matéria de conversões.

Este grande fracasso parece ameaçar a própria natureza do Cristianismo, pois Cristianismo não é egoísmo. A situação, todavia, não é tão má como parece. Em geral este silêncio e aparente desinteresse são causados pela falta de confiança:

a) Tais pessoas estão muito conscientes da sua falta de conhecimento religioso. Conseqüentemente evitam qualquer ocasião que possa expor a sua fraqueza à luz do dia.

b) Mesmo no caso de posse de conhecimentos substanciais, estes apresentam-se isolados uns dos outros, como as respostas no antigo Catecismo. O espírito não realizou ainda a operação de os juntar de forma coerente, como as partes se unem para formar, por exemplo, um automóvel ou o corpo humano. Há ainda outras

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complicações: aqui e ali faltam conhecimentos e estes não se harmonizam com aqueles. Mesmo que se juntem todos os conhecimentos, o resultado seria semelhante a uma máquina cujas peças não se ajustam umas às outras e, por esse motivo, não funciona.

c) Em muitos casos, a ignorância é tal que a fé precisa de base suficiente para se apoiar. Existe um estado de meia crença. E bastará encontrar-se num ambiente sem religião para se desintegrar.

Eis aí o problema.

Os Patrícios são uma associação dirigida pela Legião. Cada grupo deve filiar-se a um Praesidium e o seu Presidente deverá ser um legionário ativo. Um Praesidium pode responsabilizar-se por vários grupos. Cada grupo deve ter um Diretor Espiritual, aprovado pelo Diretor Espiritual do Praesidium. Um Religioso (que não seja sacerdote) ou uma Religiosa podem desempenhar as funções de Diretor Espiritual e (se a Autoridade Eclesiástica o permitir) até um leigo.

O título de Patrícios, como muitos dos outros nomes legionários, tem sua origem na antiga Roma. Era a mais elevada das três classes sociais de Roma: Patrícios, Plebeus (gente do povo) e Escravos. Mas os nossos Patrícios aspiram a unir todas as classes sociais numa única nobreza espiritual. Além disso, os Patrícios romanos deviam distinguir-se pelo amor a sua terra e pela responsabilidade por seu bem-estar. De igual forma, os nossos Patrícios devem ser os defensores da sua Pátria Espiritual, a Igreja. O regulamento não exige que sejam católicos fervorosos ou praticantes, mas apenas que o seu viver seja francamente católico. Os católicos que tiverem idéias contra a Igreja Católica não podem fazer parte dos Patrícios.

A não ser que o Bispo declare o contrário, os não-católicos não podem participar das reuniões.

A reunião dos Patrícios deve ser realizada todos os meses.

A pontualidade e a continuidade são essenciais. As reuniões não podem deixar de ser realizadas, a não ser por algum motivo que realmente impeça a sua realização. Não é obrigatória para o membro a participação em todas as reuniões. Será, pois, necessário um meio para lembrar os membros da próxima reunião.

Para que haja melhor aproveitamento nas reuniões, é muito bom que os grupos não ultrapassem o número de 50 pessoas, e mesmo este número apresenta dificuldades.

Disposição da sala. É importante que a sala de reuniões seja arrumada com aspecto de bastante ordem, evitando-se utili-

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zar das salas de teatro com palco e auditório. Tanto quanto possível, os assentos deverão dispor-se em semicírculo com a mesa a completar o círculo. Sobre a mesa, será armado o altar legionário, com o Vexillium ocupando lugar de destaque.

A reunião deve ser realizada em local arejado, iluminado, agradável, com assentos confortáveis para os participantes, a fim de despertar o interesse de todos.

Para pagar as despesas será feita uma coleta secreta. Em cada reunião se apresentará um relatório das contas.

ORDEM DA REUNIÃO

1. A reunião começa com a oração dos Patrícios rezada por todos de pé, em conjunto.

2. Segue-se uma palestra, por um leigo, rigorosamente limitada a 15 minutos. Não há necessidade de ser muito longa, pois isso poderá ser prejudicial. A pessoa escolhida para fazer a palestra não precisa ter grandes conhecimentos, porque, às vezes, isso até pode atrapalhar. Foi até mesmo sugerido não se fazer a palestra. Mas é claro que há necessidade de que alguém faça inicialmente alguma colocação sobre o assunto, para que os participantes tenham por onde começar o debate.

3. À palestra segue-se o debate geral. Todas as partes da reunião existem por causa deste debate e para o seu pleno exercício devem ser orientadas. Não pode haver discussão sem que os membros, individualmente, para ela contribuam. A dificuldade, muito comum nas reuniões dos Patrícios, é conseguir que pessoas tímidas participem dando sua opinião. Essas dificuldades devem ser superadas, para o bem dessas pessoas e da própria Igreja.

Conseqüentemente, deverá dar-se todo o auxílio neste sentido e afastar todas as influências contrárias. Uma atitude áspera para com as declarações erradas ou sem lógica (de que haverá muitas) seria fatal. Frustraria o propósito dos Patrícios que é levar cada um a abrir-se. Daí a importância da liberdade de expressão, liberdade que deve ser favorecida, ainda que venham a dizer-se coisas inconvenientes. Recordemo-nos de que essas coisas são repetidas, freqüentemente, lá fora, sem que ninguém as corrija.

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O principal, pois, é que cada um dê a sua contribuição pessoal e não que seja ela sábia e correta. As contribuições muito ricas em conhecimentos podem ter bastante brilho, mas, às vezes, uma contribuição humilde e modesta alcança maiores frutos entre as pessoas mais simples.

É psicologicamente importante que as palestras sejam dirigidas a toda a assembléia e não ao responsável pela reunião. Quando o orador terminar de falar, as pessoas devem sentir-se bem à vontade, para poder fazer os comentários. E é essa capacidade de falar, questionar e responder a questionamentos que se quer desenvolver nos Patrícios.

Este equilíbrio psicológico seria perturbado se o espírito das pessoas fosse distraído por qualquer outra coisa. Tal seria bem o caso, se o Presidente chamasse a atenção sobre si, intercalando um comentário ou apreciação; ou se o orador inicial interviesse com freqüência para tratar pontos levantados no seu pequeno discurso; ou se o Diretor Espiritual quisesse resolver cada dificuldade à medida que elas fossem aparecendo. Qualquer tendência nestas direções seria destrutiva. Transformaria a reunião em discussão com especialistas, onde alguns indivíduos fariam perguntas a eles, e deles receberiam as respostas.

É para desejar que se crie uma atmosfera que anime os tímidos a falarem.

O Presidente terá paciência para receber comentários isolados, fora do assunto da reunião. Chamar a atenção de alguém diante de toda a assembléia poderá intimidar ou inibir as pessoas. Mas se a discussão da assembléia se desviar totalmente do assunto, então o Presidente intervirá para a reunião não ser prejudicada.

As pessoas devem pôr-se de pé para falar. Provavelmente as contribuições seriam mais espontâneas, se as pessoas ficassem sentadas. Mas, falando sentados, poderemos correr o risco da reunião se transformar em simples conversação.

Os membros têm a liberdade de falar mais do que uma vez; mas o que ainda não falou tem prioridade sobre aquele que já falou.

4. Uma hora após o começo da reunião, suspende-se o debate e apresenta-se o relatório das contas. Lembra-se também que a coleta secreta será feita imediatamente depois da palestra do Diretor Espiritual.

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5. Serve-se em seguida o chá ou café com biscoitos, ou um leve refresco. Este ponto constitui um traço essencial da reunião e não deve omitir-se. Satisfaz muitos importantes objetivos: a) dá aos Patrícios um benéfico aspecto social; b) serve para troca de idéias; c) desinibe as pessoas; d) oferece ocasião para um contato apostólico.

Foi sugerido que se omitisse o refresco, mas se conservasse o intervalo para outros fins. Na prática, não seria fácil justificar o intervalo sem os refrescos.

Este intervalo deve durar 15 minutos.

6. Vem em seguida uma palestra de 15 minutos do Diretor Espiritual. Tudo trabalhou para esta palestra que será ouvida com uma atenção concentrada. É muito importante, pois é o momento em que se ordena e corrige tudo que foi discutido durante o debate e deve contribuir para aumentar o amor ao serviço de Deus.

Há quem diga: “Por que não colocar a palestra no fim da reunião, quando se poderia
fazer um balanço de tudo o que foi dito?” A resposta é que a palestra do sacerdote destina-se a constituir precioso material para a discussão que se segue. Isso não se conseguiria colocando-a no fim. Há ainda um outro motivo. É que a palestra pode não ser inteiramente compreendida por todos os presentes e neste caso entra em ação o “princípio de interpretação” na discussão que se segue. (Sobre o “princípio de interpretação” se falará mais adiante).

7. Depois da palestra do Diretor Espiritual, continua o debate geral até cinco minutos antes do fim.

8. Nessa altura a) o Presidente exprime em breves palavras o agradecimento da assembléia ao palestrante leigo; esse agradecimento não deve ser formal. b) Decide-se qual o assunto da próxima reunião. Os assuntos devem tratar de religião. Evitem-se os assuntos que sejam somente acadêmicos, culturais, literários ou econômicos. c) Dá-se qualquer outro aviso.

9. Segue-se a Oração Final que é o Credo, rezado por todos, de pé, juntos.

10. A reunião termina com a bênção do sacerdote. Esta recebe-se de pé, para evitar a desordem resultante da tentativa de se ajoelhar entre cadeiras numa sala cheia de gente.

A duração total da reunião será, portanto, de duas horas. É necessário observar com exatidão o tempo. Se qualquer das par-

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tes demorar-se muito, prejudicará as outras e atrapalhará o ritmo da reunião. Devem ser observados a ordem da Reunião e o tempo marcado para cada parte, à página 268.

Não deve haver a preocupação de resumir. Não haja receio de que alguns pontos importantes fiquem por resolver. Depois de uma reunião, outras virão e, no fim, tudo se há de esclarecer completamente.

Os trabalhos não são obrigatórios, nem se distribuem tarefas na reunião, nem se pressionam os membros para que realizem qualquer atividade a mais. Mas os contatos que se estabelecem durante a reunião devem ser utilizados para orientar as pessoas em todos os sentidos, especialmente para encaminhá-las para a Legião, como membros Ativos, Auxiliares ou Adjutores. Bem orientados, os Patrícios serão fonte de muitos benefícios para a comunidade.

ALGUNS PRINCÍPIOS PATRÍCIOS

1. Psicologia do grupo. Todo ser humano precisa da ajuda de um outro, seu companheiro, e naturalmente formam-se grupos. O grupo exerce a sua influência na medida em que possui regras e um objetivo. O indivíduo esforça-se por acompanhar o grupo a que pertence, fato que pode resultar em bem ou mal. Deixa de ser apenas assistente, para participar ativamente do grupo. Caso se sinta nele à vontade, constituirá dentro do grupo uma força. Aplicado aos Patrícios, o que acabamos de expor significa que uma pressão tão calma como irresistível se exerce sobre todos, inclusive os mais lentos, no sentido de assimilarem o que ouvem e se manterem ao nível do grupo, ainda sob outros aspectos. Um grupo pode ser muito ativo sem no entanto alcançar nenhum progresso. Por isso, os Patrícios buscam sempre ter alguns membros com ideais elevados e idéias superiores, de tal maneira que, por força da psicologia do grupo, essas idéias sejam absorvidas por todos os membros, e o grupo esteja sempre crescendo em qualidade.

2. As longas pausas. Às vezes fazem-se longos silêncios durante as discussões e o Presidente é tentado a pressionar os membros para que falem. Isso não é correto, porque pode ser criado um ambiente de tensão, o que inibiria ainda mais as pessoas de

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falarem. O verdadeiro ponto de vista, nestas ocasiões, é que às vezes o silêncio se faz necessário. Então, quando isso acontecer, todos deverão permanecer sentados, calmos, até que seja restabelecido o clima da reunião. Assim procedendo, todos se sentirão à vontade, recomeçarão a falar, como acontece nas famílias. Nestas, as pessoas nunca se sentem com medo de falar, mas, às vezes, o silêncio é natural e conveniente.

3. O adiamento da solução. Existem duas maneiras para a solução de um problema. O primeiro consiste na resposta imediata de quem entende ou de quem está dirigindo a reunião. O segundo consiste em permitir que a própria pessoa que perguntou ache a solução. No primeiro caso a resposta é mais direta, e a maior parte dos professores de nossas escolas agem assim. Neste caso, corre-se o risco de nem todos entenderem a explicação, não contribuindo para o desenvolvimento das pessoas. O segundo caso exige mais atenção, pois coloca-se todas a responsabilidade sobre os participantes da reunião, contribuindo para um troca de experiências. O resultado final deste processo de ajuda mútua é que todos aprendem realmente. Como a solução surgiu de um lento esforço pessoal de moldagem, estão à vontade com ela, recordam-na e ganham confiança para o futuro.

Este é o método patrício. Vejamos: no caso de ser falado algum assunto impróprio ou errado, não deverá ser feita uma correção imediata pela autoridade, antes que a assembléia discuta o assunto. Desta discussão provavelmente surgirá o esclarecimento, sendo o erro corrigido. Persistindo o erro, deverá ser feita a correção, porém sem humilhar ninguém, lembrando-se com que amor e carinho Maria ensinava o Menino Jesus.

4. Perguntas. O sistema de conferências considera desejável produzir uma reação nos ouvintes, e, de acordo com isto, convidá-los a fazer perguntas. Alguns aceitam o apelo e o conferencista responde-lhes. Os Patrícios, pelo contrário, não aceitam bem esse sistema, mas consideram-no como uma interrupção do debate – quase o equivalente a um curto circuito elétrico. Muitas pessoas, de início, não terão outra idéia de contribuir para a discussão senão fazendo perguntas a um dos responsáveis pela reunião. Se se tenta responder-lhes, a discussão é prejudicada e convertida numa aula, e os membros não permanecerão.

A melhor maneira de conduzir a discussão, neste caso, está em que toda pessoa que apresentar uma pergunta apropriada de-

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ve ajuntar-lhe as suas próprias idéias sobre a resposta. Está provado que este modo de agir consegue lançar proveitosamente a pergunta na corrente da discussão.

5. Princípio de construção dos Patrícios. Desenvolver um conhecimento ajuntando, por assim dizer, um tijolo a outro, é bom. Mas o que acontece com os Patrícios é mais uma multiplicação do que uma soma. Os Patrícios, à medida em que os assuntos surgem, devem ter a preocupação de ligá-los com o que já foi dito desde o início. As opiniões, assim, vão se modificando e aparecem novas idéias. O que parece ser complicado, com o auxílio da graça, servirá como que um fermento para o espírito, bem como trará resultados positivos para toda a assembléia. Podemos comparar esse efeito com a subida da maré, pois num impulso positivo, transmitirá energia e até aumentará a fé, e contribuirá também para uma mudança de vida.

6. Os papéis principais. Assim como o Praesidium depende dos seus Oficiais, assim os Patrícios dependem de algumas pessoas responsáveis. Essas pessoas devem tomar cuidado para não exceder nas suas funções, pois, se isso viesse a acontecer, o papel a ser desempenhado pelos membros teria o seu valor diminuído. A sala de reunião seria transformada em escola. É de grande importância que o Diretor Espiritual, o Presidente e o palestrante respeitem os limites de tempo e atribuições, mesmo que queiram fazer o contrário. As pessoas mais simples não se sentiriam à vontade diante dos conhecimentos e autoridade dos dirigentes. Por isso, os Oficiais dos Patrícios devem seguir o exemplo de Jesus que, como ninguém, soube ensinar: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração” (Mt 11, 29). Podemos dizer que a humildade dos responsáveis contribuirá para o debate transcorrer mais livremente. Isso não significa que não possam participar, como os demais membros, da discussão, mas devem tomar cuidado para não se colocarem como donos do assunto.

7. Princípio de interpretação. Uma das principais características dos Patrícios é o seu “princípio de interpretação”. Através dele, as idéias mais complicadas colocadas pelos que têm mais conhecimentos vão sendo ditas de outras formas mais simples, e passam a ser entendidas por todos.

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Esta capacidade de estarem lado a lado os de mais e menos conhecimento, entendendo-se mutuamente, tem um grande valor. Eis como isso acontece: Suponhamos que a palestra inicial (ou qualquer outra contribuição) é de tão elevada natureza que apenas dez por cento dos presentes a entendem. Se fosse uma conferência vulgar, se perderia. Mas, nos Patrícios, dez por cento que a entenderam começam a discuti-la. Fazem isto, na prática, de uma maneira que se harmoniza com o nível da maior parte dos membros, de sorte que a difícil palestra inicial está em vias de ser reduzida ao nível de compreensão geral. Depois, outros começam também a falar, realizando-se finalmente uma operação equivalente à da moagem do grão em fina farinha. Todas as dificuldades contidas na palestra primitiva foram por assim dizer interpretadas ou traduzidas para o nível de entendimento de todos os membros. Deste modo nenhuma contribuição para os Patrícios é perdida.

Esta característica dos Patrícios possui um valor sem igual em condições primitivas como as dos territórios de missão. A tarefa do missionário aí é ensinar a plenitude do Catolicismo a pessoas cuja linguagem ele não entende completamente e cuja mentalidade é diferente da sua. O poder de interpretação dos Patrícios fará a ponte sobre estes profundos abismos.

8. Dando a Deus alguma coisa que Ele possa utilizar. Nesta matéria há muito mais em jogo do que juntar uns tantos tijolos e fazer com eles um edifício. Há o princípio da Graça que, excedendo a natureza, nos habilita a construir um edifício muito maior do que aquele para o qual possuímos materiais.

No domínio da religião revelada, devemos entender que ninguém tem uma resposta completa, porém nela vemos a ação da Fé e da Graça sempre presentes. Mesmo os argumentos mais sábios talvez não sejam suficientes para ajudar nos esclarecimentos, mas devemos ter em mente que tanto os argumentos sábios como os menos sábios têm valor. Na verdade, Deus transforma o mais simples argumento em alguma coisa muito proveitosa. Todos devem se esforçar ao máximo, para que cheguem a uma mais perfeita compreensão, o que realmente acontece na prática. Será que isso acontece por que a dificuldade era menor do que se pensava? Ou por que a contribuição de cada um foi maior do que parecia? Ou por que Deus, com a Sua Divina Sabedoria, completa as deficiências dos argumentos apresentados? Não sabemos, mas temos a certeza de que o trabalho foi realizado.

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Essa orientação constitui sempre o nosso modo de pensar, não só para a assembléia dos Patrícios, mas para todas as outras reuniões. Por mais modesta que seja a participação, ela deve ser dada, porque um esforço, por mais insignificante que seja, vale mais do que nada. A conversão do mundo é um dever do católico, que jamais poderá ficar calado sem participar. Diante disto, o papel dos Patrícios é de grande importância.

ORAÇÃO DOS PATRÍCIOS
(rezada por todos juntos, de pé)

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.
Amabilíssimo Senhor Jesus,
Dignai-Vos abençoar a Associação dos Patrícios,
Em que nos alistamos,
Para nos aproximarmos cada vez mais de Vós e de Maria, Vossa e nossa Mãe.
Ajudai-nos a conhecer melhor a nossa Fé,
Para que o poder transformador das suas verdades exerça influência real na nossa vida.
Ajudai-nos a compreender a Vossa íntima união com os homens,
União que não só os faz viver em Vós, mas depender tão estreitamente uns dos outros,
Que a falta de esforço de alguns faz sofrer e expõe à morte os restantes.
Concedei-nos a graça de reconhecermos o pesado mas glorioso fardo que assim nos impusestes,
E acendei em nossos corações o desejo ardente de o levar com entusiasmo por amor de Vós.
Conhecemos bem os pobres homens que somos, as falhas da nossa natureza,
E como somos indignos de Vos oferecer os nossos ombros.
Confiamos, porém, que haveis de olhar mais para a nossa Fé do que para a nossa fraqueza,
Que atendereis mais às necessidades do Vosso trabalho do que à insuficiência dos instrumentos.
Por isso, unindo a nossa voz às súplicas maternais de Maria, pedimos a Vosso Pai Celeste e a Vós a infusão do Espírito Santo,

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para que fique conosco e nos ensine a Vossa doutrina vivificante e nos ajude em todas as nossas necessidades.
Fazei, Senhor, que, enriquecidos liberalmente por Vós, saibamos dar aos outros com generosidade,
Pois, de outro modo, a terra não poderá receber os frutos da Vossa Encarnação e Morte dolorosa,
Não permitais, Senhor, que trabalhos e sofrimentos tão grandes sejam inúteis. Amém.
Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

ORDEM DA REUNIÃO
Grupos ordinários

0:00h – Oração dos Patrícios (rezada por todos de pé).
Palestra por um leigo (não passar de 15 minutos).
0:15h – Debate.
0:59h – Relatório da Tesouraria juntamente com o aviso de que, imediatamente após a palestra do sacerdote, se fará a coleta secreta.
1:00h – Intervalo (Chá).
1:15h – Palestra do sacerdote (nunca passar de 15 minutos)
1:30h – Continuação do debate. Coleta secreta.
1:55h – Avisos (agradecimento ao orador leigo, data e assunto da próxima reunião, etc.).
2:00h – Credo (rezado por todos de pé).
Bênção do sacerdote (recebida de pé).

Grupos de estudantes e juvenis

Nos casos seguintes, em que for realmente impossível conformar-se à norma geral, isto é, tratando-se de a) grupos dentro de colégios ou instituições, e b) grupos com membros abaixo dos 18 anos, permite-se o breve processo seguinte, cuja duração é de hora e meia:

0:00h – Oração dos Patrícios, seguida de uma Palestra por um leigo (não passar de 15 minutos).
0:05h – Debate (40 minutos).
0:45h – Intervalo (10 minutos). (O chá pode omitir-se).
0:55h – Palestra pelo Diretor Espiritual (10 minutos). A coleta pode omitir-se.
1:05h – Continuação do debate (20 minutos).
1:25h – Avisos (como acima).
1:30h – Credo, etc., como acima.

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“Os Patrícios são um assunto de família. Uma conversa familiar acerca daquilo que interessa a todos nós, aberta, franca, cordial, é uma das delícias da vida de casa. Nós, os cristãos, como irmãos de Cristo, pertencemos à família de Deus. Pensar acerca da fé, conversar sobre ela e discutir a sua aplicação naquele espírito que animava o Senhor e os apóstolos quando conversavam sobre os ensinamentos do dia, depois de uma jornada missionária na Galiléia – eis o espírito dos Patrícios.

Conhecer Jesus Cristo como maravilhoso e adorável professor, mestre e Senhor que é, significa termos de embeber o nosso espírito nas suas verdades salvadoras, sentirmos-nos inteiramente à vontade ao falar de religião, tal qual como gostamos de falar dos nossos filhos, do nosso lar, do nosso trabalho. O espírito Santo dá-nos o discernimento da verdade de Cristo. É este discernimento que nós partilhamos com os outros na reunião de Patrícios, ao mesmo tempo em que também aprendemos deles. Aí, somos testemunhas de Cristo e os nossos corações ardem dentro de nós, quando Ele nos fala pela boca do nosso vizinho.

Nos Patrícios e através dos Patrícios, Deus aproxima-se de nós; as suas verdades gravam-se em nós mais profundamente; a Igreja, campo do nosso esforço, torna-se para nós mais real. As inteligências iluminam-se mutuamente; os corações abrasam-se com fé; Cristo cresce dentro de nós.” (Padre P. J. Brophy)

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PRINCIPAIS DIRETRIZES
DO APOSTOLADO LEGIONÁRIO

1. O ACESSO À PESSOA HUMANA
SÓ É POSSÍVEL COM MARIA

Com a intenção de conquistar os que rebaixam Maria na Obra da Salvação, deixa-se muitas vezes de tocar no nome dela. Semelhante método de tornar a doutrina católica mais aceitável pode estar de acordo com os raciocínios humanos, mas não reflete o pensamento divino. As pessoas que assim procedem não se dão conta de que ignorar a parte de Maria na Redenção é como pretender pregar o Cristianismo sem Cristo. Foi da vontade do

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próprio Deus que o anúncio, a vinda, a entrega e a manifestação de Jesus não se realizassem sem Maria.

Desde o princípio e antes de o mundo existir,
Ela esteve no pensamento de Deus.

Foi o próprio Deus o primeiro a falar de Maria e a traçar-lhe um destino único. A sua sublime grandeza teve início na eternidade. Começou antes da formação do mundo. Desde o princípio, Maria esteve presente no pensamento do Eterno Pai, integrada à idéia do Redentor, de cujo destino fazia parte. Há muito que Deus respondeu à pergunta do incrédulo: “Que necessidade tinha Deus do auxílio de Maria?” Deus podia dispensá-la inteiramente como, aliás, ao próprio Jesus. Mas o plano de Deus para a nossa salvação incluiu Maria. Colocou-a ao lado do Redentor desde o momento em que decretou a existência d’Este. Foi mais longe: colocou-a no lugar de Mãe do Redentor, e, como conseqüência necessária, como Mãe de todas as criaturas que estavam no plano de salvação.

Maria ocupa, desta forma, desde a eternidade, uma posição elevada, única entre as criaturas, absolutamente incomparável com a mais sublime de entre elas, diferente na idéia divina, diferente na preparação recebida; e, por conseguinte, já distinta das demais criaturas na primeira profecia da Redenção, dirigida a Satã: “Eu porei inimizade entre ti e a mulher e entre a tua descendência e a dela; esta te esmagará a cabeça e tu procurarás picá-la ao calcanhar” (Gn 3,15). Eis a Redenção futura sintetizada pelo mesmo Deus. Maria ocupará, indiscutivelmente, o seu lugar; já antes de nascer, e depois de nascer, e para todo o sempre, ela é a inimiga de Satã; está abaixo do Salvador, mas junto d’Ele e semelhante a Ele (Gn 2,18), muito acima de todos os outros seres criados. Nenhum profeta, nem o Batista, está tão intimamente relacionado com Cristo; nenhum rei, nenhum chefe, apóstolo ou evangelista, mesmo Pedro e Paulo; nem o maior dos papas, dos pastores, dos doutores; nenhum santo, nem David, nem Salomão, nem Moisés, nem Abraão. Nenhum deles! Maria está acima de todas as criaturas que existirem através dos tempos, ela foi por Deus escolhida para Cooperadora na obra da salvação do gênero humano.

Viva e inconfundivelmente revelada na Profecia.

A profecia continua: “A Virgem”, “a Virgem e o seu Filho”, “a Mulher”, “a Mulher e o seu Filho”, “a Rainha sentada à

[Capítulo 39 Principais Diretrizes do Apostolado Legionário página 271]

direita do Rei”, – garantindo que a Mulher será de grande importância na nossa salvação. Que futuro lhe estará reservado? Devemos nos esforçar para entender como é de suma importância a Profecia que fala sobre o papel de destaque vivido por Maria na Religião Cristã. Qualquer profecia é apenas como uma sombra ou leves traços do que ainda vai acontecer. Mas a profecia nunca pode oferecer uma imagem diferente do fato que anuncia. Não pode contradizê-lo. A profecia que falasse sobre a Redenção em que uma Mulher e seu Filho esmagariam a cabeça da serpente (Satanás) não teria sentido se a figura da Mulher ficasse diminuída quando essa profecia se realizasse. Ora, nós acreditamos que a Profecia é verdadeira. E nós também acreditamos que a Salvação é obra da Encarnação e morte de Cristo atuando no aperfeiçoamento do ser humano, porque as Sagradas Escrituras afirmam isso. Então, Maria tem que estar inseparável de Jesus dentro da vida cristã, porque é inseparável dele na obra da Salvação. Ela é a nova Eva, dependente d’Ele mas, ao mesmo tempo, necessária a Ele. Por isso, a Igreja Católica lhe dá o título de “Medianeira de todas as Graças”. Se o que a profecia revela é realmente o plano de Deus, temos que admitir que aqueles que rebaixam Maria estão fora desse plano.

A Anunciação mostra igualmente a posição central de Maria.

Chegou o momento culminante das profecias, a realização do destino eterno de Maria.

Consideremos a admirável execução do plano misericordioso de Deus. Assistamos em espírito à mais importante conferência de paz de todos os tempos, à conferência de paz entre Deus e o gênero humano, e que se chama Anunciação. Nesta conferência, Deus fez-se representar por um dos Seus anjos superiores e a humanidade por aquela cujo nome a Legião tem o privilégio de possuir. Embora não passe de uma delicada donzela, neste dia a sorte da humanidade está em suas mãos. Eis que o anjo se apresenta com a mensagem sublime da Encarnação, que propõe a Maria. Deus manda o Anjo comunicar a Maria a sublime missão que lhe foi confiada, sem, no entanto, tirar a sua liberdade de escolha. Se Maria tivesse recusado, a humanidade não teria sido salva. A salvação do gênero humano era o maior dese-

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jo de Deus, mas, mesmo assim, Ele não quis forçar a vontade humana. Ofereceu ao homem a salvação. A este competia aceitar o oferecimento, gozando, no entanto, de plena liberdade para o rejeitar. Chegara o momento por que tinham suspirado as gerações passadas e para o qual convergiriam os olhares das gerações futuras, o momento mais crítico de todos os tempos. Houve um silêncio. Maria não consentiu logo de início. Fez uma pergunta, a que o anjo respondeu. Depois de um novo instante de silêncio, a Virgem exclamou: “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38) – palavras que atraíram Deus à terra e firmaram o grande tratado de paz da humanidade.

Deus Pai quis que a Redenção dependesse de Maria.

Poucos são os homens que entendem todas as conseqüências do consentimento da Virgem. Mesmo a generalidade dos católicos não mede a importância do papel por ela desempenhado. Os Doutores da Igreja têm palavras como estas: se a Virgem tivesse rejeitado a oferta da maternidade que lhe foi feita, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade não teria encarnado em suas entranhas. Que tremenda importância isto tem! “Como é aterrador pensar que Deus fez depender a vinda do Redentor à terra da sua serva de Nazaré! O consentimento da Virgem – ‘Faça-se em mim’ (Lc 1, 38) – , na obra da Encarnação, marca o fim do mundo antigo e o início do novo; é o cumprimento das profecias, a encruzilhada dos séculos, o primeiro fulgor da Estrela da Manhã, anúncio do Sol da justiça; é a palavra que forjou, tanto quanto é possível à vontade humana, o vínculo que fez descer o céu à terra, e levantou a humanidade até Deus!” (Hettinger). Fato sublime, por certo. Maria era a única esperança do gênero humano. O nosso destino, no entanto, estava bem seguro em suas mãos. O consentimento de Maria foi o ato mais heróico que alguém possa ter feito. Só Ela teve a grande coragem de dizer o “Sim”, tornando-se a colaboradora da nossa redenção. E o Redentor veio, não só para ela, mas para toda a humanidade desamparada, em nome da qual ela tinha falado. Com o Redentor, Maria obteve-nos o máximo de benefícios sobrenaturais designados pela palavra Fé. Ora, a Fé é a verdadeira vida dos homens. Nada mais importa. Por ela, tudo devemos abandonar e não recuar diante de nenhum sacrifício. É a única coisa, neste mundo, digna de apreço. Em conclusão, reflitamos bem, a Fé de todas as gerações passadas, presentes e futuras assenta nas palavras da Virgem.

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Não há verdadeiro Cristianismo sem Maria.

Para lhe agradecer este dom inestimável, todas as gerações a devem proclamar “bem-aventurada”. Excluir do culto cristão aquela que trouxe o Cristianismo à terra é absolutamente inadmissível. Que pensar, então, de muitos que a depreciam ou desprezam ou desonram do modo mais vil? Teriam eles refletido que todas as graças que recebemos nos vêm através de Maria? Que, se tivessem sido excluídos do seu consentimento no momento da Anunciação, não haveria para eles Redenção possível? Nesta suposição, eles estariam fora do alcance redentor. Por outras palavras, não seriam cristãos de modo algum, embora do alvorecer ao cair do dia gritassem sem cessar: “Senhor, Senhor” (Mt 7, 21). Por outro lado, se, por favor de Deus, são cristãos, participantes da vida sobrenatural, é porque Maria lhes obteve a graça, incluindo-os no seu consentimento. Resumindo, o Batismo, que nos torna filhos de Deus, como conseqüência nos dá Maria por Mãe.

A gratidão por conseguinte, uma gratidão prática para com Maria, deve ser a característica de todo cristão. As nossas ações de graças devem dirigir-se ao Pai e a Maria, porque a Redenção é dádiva amorosa de ambos.

Encontramos sempre o Filho com a Mãe.

Foi do agrado divino que o reinado da graça não fosse inaugurado sem Maria, e é vontade Sua que assim continuem as coisas. Quando Deus preparou S. João Batista para ser aquele que viria antes de Jesus, santificou-o no momento da visita de Maria à sua prima Isabel. Na primeira noite de Natal, aqueles que fecharam as portas à Santíssima Virgem, a Jesus as fecharam também. Não perceberam que, ao despedir Maria, negavam a entrada ao Messias esperado. Os pastores que, na noite de Natal, vendo o Menino Jesus, nos representaram, encontraram o Esperado das Nações com Maria, Sua Mãe. Se tivessem voltado as costas a Maria, nunca teriam achado Jesus. Na Epifania, os gentios foram recebidos por Jesus na pessoa dos três Reis Magos; mas estes descobriram o Salvador porque encontraram a Mãe. Se não quisessem aproximar-se dela, não teriam chegado a Jesus.

A anunciação de Jesus, que aconteceu em segredo no recolhimento de Nazaré, precisava ser publicamente confirmada no templo. Jesus oferece-se ao Pai, mas levado nos braços e através das mãos de Sua Mãe, a quem pertence e sem a qual não pode

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apresentar-se. Mas continuemos. Dizem os Santos Padres que Jesus não começou a vida pública sem o consentimento de Sua Mãe; e o mesmo Evangelho nos informa que o primeiro dos grandes prodígios – o milagre de Caná –, com que provou a autenticidade da Sua missão, foi feito a pedido de Maria.

O novo Adão, a nova Eva e a árvore da Cruz.

Quando se desenrolou a última cena do drama sangrento da Redenção, no Calvário, Maria estava de pé, junto da Cruz, não só porque amava seu Filho com ternura, ou por mera casualidade, mas precisamente na mesma qualidade com que estivera presente na Encarnação: estava ali, como representante do gênero humano, confirmando o oferecimento que fizera de seu Filho, por amor dos homens. O nosso divino Redentor não se ofereceu ao Eterno Pai sem que ela consentisse e O oferecesse também em nome e a favor de todos os seus filhos; a Cruz devia ser o sacrifício de todos eles, como o era de Jesus.

“Assim como verdadeiramente sofreu e quase morreu com seu Filho padecente” – diz Bento XV – “assim renunciou aos direitos maternais sobre seu Filho, pela salvação dos homens, e O imolou, tanto quanto estava em seu poder, para aplacar a justiça de Deus; de modo que pode afirmar-se com razão que ela resgatou com Cristo o gênero humano”.

O Espírito Santo age sempre em união com Maria.

Mais um passo e estamos em Pentecostes, ocasião memorável em que a Igreja começou a sua Missão. Maria estava presente. Foi pelas suas preces que o Espírito Santo desceu sobre o Corpo Místico e n’Ele veio morar com toda a Sua ‘grandeza, poder, esplendor, majestade e glória’ (1Cr 29, 11). Os serviços por ela prestados ao Corpo Místico são idênticos aos que dispensou ao corpo físico de seu Filho. Esta lei aplica-se a Pentecostes, espécie de nova Epifania. Em ambos os mistérios Maria é um elemento necessário. E assim será em todas as coisas sobrenaturais até à consumação dos tempos. Quaisquer que sejam as orações, os trabalhos e os esforços, se alguém põe Maria de lado, afasta-se do plano divino; sem a presença de Maria nenhuma graça se concede. Que pensamento esmagador! Aqui cabe a pergunta: Os que desconhecem e não respeitam Maria deixam de receber as graças? Com certeza recebem, porque Maria, na Sua imensa bondade, perdoa a falta de conhecimento e indiferença. Porém, que

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vergonhoso entrar assim no Reino dos Céus! Não é assim que se trata a Mãe de Jesus e nossa, pois é Ela que nos ajuda a ir para o céu! Todas as graças que recebem de Maria, os que assim procedem, são como um fio de água, se compararmos com o grande número de graças que essas pessoas poderiam receber. A vida sem Maria torna-se uma vida vazia e enfraquece na fé as pessoas.

Que lugar devemos dar a Maria?

Não faltam pessoas que, alarmadas, declaram fazermos injúria a Deus ao atribuir a Maria poder tão universal. Mas onde está a injúria à dignidade divina, se quis Deus dispor assim as coisas? Não seria prova de loucura afirmar que a força da gravidade escapa ao poder divino? A lei da gravidade vem de Deus e concorre para o cumprimento dos Seus desígnios, em toda a natureza. Por que dizer que ofendemos ao Criador reconhecendo a influência e importância que Maria tem no mundo da graça? Até as leis da natureza manifestam o poder de Deus. Porque, então, sendo Maria a eleita, a mais perfeita, Deus não haveria de revelar n’Ela a Sua bondade e onipotência?

Admitida a obrigação de reconhecer as prerrogativas da Santíssima Virgem, resta saber ainda como e até que ponto. “Como devo eu repartir, dirão alguns, as minhas orações entre as três Divinas Pessoas, Maria e os Santos? Qual a medida exata, nem demais nem de menos, que lhe devo oferecer?” Outros adorarão uma atitude mais extrema: “Porventura não me afastarei de Deus, se dirigir as minhas orações a Maria?”

Todas estas dificuldades nascem da aplicação das idéias terrenas às coisas do céu. Muitas pessoas acham que se devem separar as orações ao Pai, ao Filho, ao Espírito Santo, a Maria e aos outros Santos. Pensam que essas orações precisam ser feitas separadamente. Temos muitos exemplos que nos mostram ser possível e compatível o culto a Maria, aos Santos e o culto supremo devido a Deus. Para acabar com essas dúvidas e dificuldades, a melhor recomendação é a seguinte: “Devemos entregar tudo a Deus; pois bem: entreguemos tudo a Ele por meio de Maria”. Essa forma de agir, mesmo que possa parecer exagero, nos livra das dúvidas, da preocupação de medir as nossas devoções.

Todas as nossas ações devem confirmar o “Fiat” de Maria.

Que assim deve ser justifica-se pela Anunciação. Nesse momento solene, todo o gênero humano estava unido a Maria, sua

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representante. As palavras de Maria eram o eco da voz da humanidade inteira. Maria encerrava todos os homens em si, e Deus contemplava-os n’Ela. Ora, se a vida diária do cristão não é mais que a formação de Jesus Cristo num membro particular do Corpo Místico; e se esta formação não pode ser feita sem Maria, por ser um prolongamento da Encarnação: que concluir senão que Maria é Mãe verdadeira de cada cristão, como o é do próprio Cristo?

O seu consentimento e os seus cuidados maternais são tão necessários ao crescimento diário de seu Filho em cada homem, como o foram para a concepção, formação e desenvolvimento do corpo humano do Redentor. Disto, seguem-se numerosas obrigações para todo o cristão. Salientemos, entre outras, as seguintes: Primeira, reconhecer Maria, definitivamente e de todo o coração, como nossa representante no oferecimento do sacrifício que, começado na Anunciação e consumado na Cruz, resgatou o mundo. Segunda, confirmar tudo o que Maria fez, em nosso nome e em nosso favor, de modo a podermos desfrutar, sem medo e plenamente, os infinitos benefícios que por esse meio Ela nos alcançou. Mas, como deverá ser feita essa confirmação?

A solução deve ser a seguinte: se todos os atos da nossa vida são cristãos e nós devemos isso a Maria, nada mais certo de que cada ato seja revestido de reconhecimento e gratidão a esta Mãe, entregando-lhe absolutamente tudo o que somos e temos.

Glorifiquemos o Senhor com Maria.

Procuremos tê-la mais ou menos presente no pensamento em todas as circunstâncias da vida. Vamos unir a nossa intenção e vontade às d’Ela, de forma que todos os nossos atos e preces durante o dia sejam feitos em união com Maria. Façamos as nossas orações ao Pai, ao Filho, ao Espírito Santo ou a outros Santos sempre em união com Maria. Conosco ela pronunciará as mesmas palavras; brotarão dos seus lábios ao mesmo tempo que dos nossos; em tudo ela tomará parte. Se procedermos assim, ela não estará, apenas, ao nosso lado, mas, em certo sentido, dentro de nós; e a nossa vida será uma admirável trama de ações – em que nós e ela, juntos oferecere mos continuamente a Deus o que em comum possuímos.

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Esta forma de devoção mariana, que abraça toda a nossa vida, é o justo reconhecimento da parte que Maria desempenhou e continua a desempenhar na obra da nossa salvação. É também a devoção mais fácil; soluciona as dificuldades dos que procuram medi-la, e os escrúpulos dos que receiam tirar de Deus, entregando a Maria. Entretanto, não hão de faltar católicos a exclamar: “É demais”. Mas, onde está a ofensa? Em que Maria tira do Onipotente o culto que lhe é devido? Erram aqueles que assim pensam. Dizem-se zeladores da dignidade de Deus e, no entanto, não se conformam e não aceitam o plano que Deus traçou para Maria. Não observam os versículos da Bíblia que falam das grandes coisas que em Maria foram feitas pelo Onipotente, e que dizem que todas as gerações a chamarão “bem-aventurada” (Lc 1, 48-49)

A esses indecisos é necessário expor claramente a riqueza e plenitude desta devoção. Como poderiam os legionários falar de outro modo? Palavras que diminuíssem ou rebaixassem Maria iriam transformá-la num mistério. Se Maria fosse apenas uma sombra vaga ou se o seu valor fosse apenas alguma coisa criada por nosso sentimentalismo, as pessoas que não a valorizam estariam com a razão. E os católicos estariam errados. Por outro lado, falar de seus títulos de glória e do lugar essencial que ela ocupa na vida cristã é um desafio. E todos aqueles que possuem um coração capaz de perceber as influências da graça não podem fugir a esse desafio. Essa atitude levará os indecisos a um exame calmo do papel de Maria e eles se prostrarão a seus pés.

A Legião quer ser um reflexo vivo de Maria. Se se mantiver fiel a este nobre ideal, partilhará também do dom supremo da Sua Rainha – o de iluminar os corações adormecidos nas trevas da incredulidade.

“Santo Alberto Magno, o grande mestre de S. Tomás de Aquino, tem uma frase encantadora no comentário à passagem evangélica da Anunciação: ‘O Filho elevou ao infinito a excelência da Mãe: é que a infinita bondade do fruto revela a bondade infinita da árvore que o deu’.

Na prática, a Igreja Católica considera a Mãe de Deus dotada de um poder ilimitado no domínio da graça. Reconhece-a como Mãe de todos os resgatados por causa da universalidade da sua graça. Em virtude da Maternidade divina, Maria é, tirando as três Divinas Pessoas, o poder sobrenatural mais vasto, mais eficaz e mais universal existente no céu e na terra.” (Vonier: A Maternidade Divina)

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2. A UM SER HUMANO DE VALOR INFINITO TEMOS QUE
DEDICAR INFINITA GENEROSIDADE, PACIÊNCIA E DOÇURA

A severidade, por mais suave que seja, não deve existir no apostolado legionário. As principais qualidades do apóstolo legionário, para alcançar os resultados esperados, devem ser a simpatia, a doçura e a bondade no trato com as pessoas. A todo o instante, em nossa vida, achamos que essa ou aquela pessoa merece uma repreensão ou uma palavra mais dura. E, logo depois que fazemos essa repreensão ou usamos essa palavra mais dura, nos arrependemos de nossa fraqueza. Quem sabe? Talvez em cada um desses casos nos tivéssemos enganado.

Queixamo-nos com amargura da rudeza e perversidade de certos indivíduos, e não nos recordamos – oxalá nos recordássemos a tempo! – de que as disposições que neles repreendemos são conseqüências do duro trato, embora merecido. A flor que desabrocharia ao suave calor da doçura e da compreensão fecha-se completamente num ambiente frio. Por outro lado, o ar de simpatia que o bom legionário irradia por toda a parte, a prontidão em escutar, em compenetrar-se profundamente do caso concreto que lhe apresentam, são de uma irresistível suavidade, capaz de amolecer ainda o coração mais endurecido e desorientado, e de conseguir, em cinco minutos, o que falharia em um ano inteiro de observações e conselhos.

Pessoas de caráter difícil andam sempre cheias de raiva. Irritá-las seria provocar novos pecados e torná-las ainda mais difíceis de se deixarem atingir pela graça. Para ajudar essas pessoas, é necessário conduzi-las com um tratamento respeitoso e tranqüilo, o que poderá contribuir para acalmá-las.

Todo legionário devia ter gravadas a fogo em sua alma as palavras que a Igreja põe nos lábios de Maria: “O meu espírito é mais doce que o mel e a minha herança mais suave do que o favo de mel” (Eclo 24, 20). Outros podem fazer o bem por métodos mais fortes; o legionário, para levar a termo a obra de Deus, só tem um método – o da bondade e da doçura. O legionário que não usar de bondade e doçura correrá o risco de, em vez de fazer o bem, só fazer mal. Os legionários que se desviam do reino da Mãe de Deus perdem contato com aquela de quem depende o bom êxito da sua missão. E, sem Maria, que esperam eles fazer?

“Nossa Senhora da Misericórdia” foi o título do primeiro Praesidium da Legião, devido ao fato de o trabalho de início haver sido a visita a um hospital dirigido pelas Irmãs da Miseri-

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córdia. Julgaram então os legionários que haviam tido a iniciativa da escolha desse nome; mas quem ousaria duvidar de que a Virgem misericordiosa o sugeriu, para indicar desta forma a característica que deveria distinguir para sempre o legionário?

Habitualmente, os legionários não desanimam na conquista dos pecadores. Acontece mesmo com freqüência que durante anos e anos seguem incansáveis algum pecador mais resistente à graça. Às vezes, porém, encontra-se certa qualidade de gente que põe à prova a Fé, a Esperança e a Caridade do Apóstolo. Parecem estar fora da categoria de pecador comum: são de uma extrema maldade, de um egoísmo refinado, de uma falsidade sem medida, e transbordam de ódio contra Deus e de rebeldia contra a religião. Não se descobre nessas pessoas, aparentemente, um rastro de bom sentimento ou de graça, um vestígio de sobrenatural. Mostram-se tão más que nossa reação natural é nos afastarmos delas, rejeitá-las. E achamos até difícil que Deus não sinta o mesmo que nós. O que descobrirá Deus nessas criaturas, que possa fazer com que Ele deseje a união com elas na Eucaristia e sua companhia no céu?

Há uma tentação natural, quase irresistível, de abandonar esses pobres a si próprios. E, no entanto, o legionário não pode nem deve ceder perante estes raciocínios humanos, porque são falsos. Deus ama estas pessoas, por mais desprezíveis e desfiguradas; e tanto e tão ardentemente, que lhes mandou o Seu Filho Unigênito, nosso adorável Salvador, que neste momento está com elas.

Mons. R. H. Benson exprimiu em termos palpitantes o motivo da tenacidade apostólica do legionário: “Se o pecador, quando ofende a Deus, se limitasse a afastar de si a Jesus Cristo, poderíamos talvez abandoná-lo à própria sorte. Mas é porque – nas terríveis palavras de S. Paulo – o pecador se apodera de Cristo e o crucifica e expõe de novo às injúrias (Hb 6, 6), que nunca poderemos deixá-lo entregue a si próprio”.

Que pensamento eletrizante! Cristo, nosso Rei, nas mãos do inimigo! Que estímulo poderoso para sustentar a campanha de uma vida inteira, para enfrentar corajosamente o mais feroz dos combates, para manter uma inflexível perseguição ao coração que é imperioso converter para que cesse nele a agonia de Jesus Cristo. As rejeições e antipatias naturais, quaisquer que elas sejam, devem ser consumidas ao fogo de uma fé ardente que nos faça ver, amar e servir no pecador a pessoa adorável de Cristo crucificado. O aço da melhor têmpera funde-se ao calor do maçarico; e haverá coração humano tão insensível que resista à chama desta invencível caridade?

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A um legionário, de larga experiência entre os pecadores mais depravados de uma grande cidade, perguntavam um dia se encontrara um caso absolutamente desesperado. Ciente da sua responsabilidade de legionário, era difícil a ele confessar a existência de tal categoria de pecadores; e respondeu haver casos tremendos mas poucos impossíveis. Depois de insistências, acabou por admitir que conhecia um caso que talvez se pudesse considerar desesperado. Naquela mesma tarde recebeu um solene desmentido. Por uma estranha casualidade, encontrou-se na rua com a pessoa que acabava de indicar, travou conversa com ela e três minutos depois realizava-se o impossível: o milagre de uma conversão completa e duradoura.

“Na vida de Santa Madalena Sofia refere-se o episódio da busca perseverante de uma pecadora. A Divina Providência colocou-a em seu caminho – ovelha desgarrada que, sem o auxílio da Santa, jamais teria voltado ao rebanho. E a Santa prendeu-se a ela durante vinte e três anos. De onde Júlia viera não se sabia, pois nunca contou duas vezes a mesma história de sua vida. Pobre e solitária, de um temperamento difícil e caprichoso, mentirosa, traiçoeira, desprezível, exaltada até às raias do delírio, nunca se vira semelhante, diziam todos. Santa Madalena, porém, via apenas a alma que o Bom Pastor arrancara aos lugares perigosos e entregara aos seus cuidados. A Santa adotou-a como filha, escreveu-lhe mais de duzentas cartas e sofreu muito por sua causa. As calúnias e ingratidões com que a infeliz respondia nunca conseguiram abalar o ânimo de Madalena, que se manteve firme, perdoando sempre, sem nunca desesperar... Júlia veio a falecer na paz do Senhor, sete anos depois da Santa.” (Monahan: Santa Madalena Sofia Barat)

3. CORAGEM LEGIONÁRIA

Toda profissão requer de seus membros uma coragem especial e considera como indignos os que não a possuem. A coragem característica exigida pela Legião é a coragem moral. Quase todo o trabalho legionário se resume no trato com as pessoas para as aproximar de Deus. Este trabalho proporciona, por vezes, mágoas ou incompreensões, que se manifestam em efeitos menos mortíferos que os das armas de guerra, mas enfrentados – como a experiência o prova – com menos valor. De milhares que desafiaram com bravura uma chuva de balas, dificilmente encontraremos um que não estremeça diante da simples possibi-

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lidade de uma zombaria, de palavras rudes, de uma crítica grosseira, de um sorriso de caçoada ou do receio de que julguem que está a pregar ou a exagerar santidade.

“Que vão pensar de mim? Que dirão?” – tal é a reflexão que causa calafrios em muitas pessoas que deviam alegrar-se, como os Apóstolos, de serem achadas dignas de sofrer insultos pelo nome de Jesus Cristo (At 5, 41)

Se não se reage contra esta timidez, vulgarmente chamada respeito humano, o trabalho de apostolado a favor do próximo reduz-se a uma bagatela. Olhemos ao redor e vejamos os estragos que ela produz. Os fiéis vivem em toda parte no meio de numerosos pagãos ou de não-católicos ou de católicos não praticantes. Cinco por cento destes se converteriam, se alguém tivesse a coragem de lhes apresentar, individualmente, a doutrina da Igreja. Estes cinco por cento seriam uma brecha que facilitaria a conversão em grande escala. Mas ninguém dá um passo sério neste sentido. Os católicos bem desejariam fazer alguma coisa, mas o veneno mortal do respeito humano paralisa-lhes as forças. Apresente-se com os rótulos de “prudência elementar”, “respeito pelas opiniões alheias”, “empresa inútil”, “esperemos ordens”, ou outras semelhantes, o efeito é sempre o mesmo: paralisa a ação.

Conta-se, na vida de S. Gregório que, estando para morrer, perguntou aos que o rodeavam quantos infiéis havia na cidade. “Só dezessete”, responderam sem vacilar. O Bispo moribundo, depois de refletir um instante, declarou: “Foi exatamente o número de fiéis que encontrei aqui, quando fui sagrado Bispo”. Achou dezessete crentes e deixou dezessete descrentes. Que prodígio! Pois bem, a graça de Deus não se esgotou com o passar dos séculos. Hoje, como outrora, a fé e a coragem podem conseguir êxitos idênticos. O que falta aos católicos não é precisamente a Fé, mas a coragem.
Convicta disso, a Legião travará luta sem quartel contra a maligna influência do respeito humano em seus membros. Primeiro, opondo-lhe uma saudável disciplina; segundo, ensinando os legionários a considerarem o respeito humano como um soldado considera a covardia, e a atuarem com a convicção de que o amor, a lealdade e a disciplina pouco valem, se não levam ao sacrifício e à coragem.

Um legionário sem coragem! Que diremos dele senão as palavras de São Bernardo: “Que vergonha ser um membro delicado sob uma cabeça coroada de espinhos!”

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“Se lutais só quando vos sentis dispostos para o combate, que merecimento podereis ter? Que importa que não tenhais coragem, se vos comportardes como se a tivésseis? Se sentis preguiça para apanhar um fio do chão e, todavia, o apanhais por amor de Jesus, tendes mais merecimento do que se fizésseis uma ação mais nobre num impulso de fervor. Em lugar de vos entristecerdes, alegrai-vos, porque Nosso Senhor, deixando-vos sentir a vossa própria fraqueza, vos oferece ocasião para salvardes maior número de almas.” (Santa Teresa de Lisieux)

4. AÇÃO SIMBÓLICA

Dar a cada um dos trabalhos o melhor das energias, o melhor que se possa dar, é um dos princípios básicos da Legião. Simples ou difícil, o trabalho deve ser feito no espírito de Maria.

Existe também outro motivo importante. Nos empreendimentos de ordem espiritual, ninguém pode dizer qual a medida do esforço necessário para atingir um objetivo. Ao tratar com as pessoas, quando poderemos dizer “basta”? O princípio aplica-se de modo particular às obras ou trabalhos mais difíceis. Em face deles ou exageramos a dificuldade, ou os qualificamos até de “impossíveis”. Ora, a maior parte dos “impossíveis” não são de modo nenhum impossíveis. Para quem tem zelo e habilidade, diz o filósofo, poucos são os impossíveis. Somos nós que assim os imaginamos e os tornamos mais difíceis com a nossa atitude.

Às vezes, porém, encontramo-nos frente a trabalhos realmente impossíveis, quer dizer, que excedem as forças humanas. É evidente que, nos casos de impossibilidade real ou imaginária, deixados ao nosso próprio critério, poríamos a ação de lado, por a considerarmos inútil. Semelhante procedimento teria como conseqüência o abandono de três quartas partes do trabalho mais importante a realizar, constantemente à espera de operários, e reduziria a uma luta insignificante a vasta e ousada Campanha Cristã. Por isso, a Legião exige dos seus membros, em todas as circunstâncias e a todo o custo – como princípio fundamental – que se esforcem por atingir os objetivos pré-estabelecidos. Quer natural quer sobrenatural, descartar a impossibilidade é a chave do possível. Só esta atitude pode resolver os problemas; é o eco da frase evangélica: a Deus nada é impossível; é a resposta do crente ao convite de Nosso Senhor a uma fé capaz de lançar os montes ao mar.

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Pensar na conquista espiritual do mundo, sem base numa inabalável fé em Deus, torna muito difícil conseguir os bons resultados que se desejam.

Consciente destes motivos, a Legião preocupa-se primeiramente com reforçar o espírito dos seus membros.

“Toda impossibilidade é divisível em muitas partes, cada uma das quais é possível”, diz um ditado legionário, parecendo contrariar o raciocínio comum. A idéia, todavia, é sumamente compreensível. Constitui a condição essencial da realização concreta. Resume a filosofia do êxito. Se o espírito se deixar atordoar por considerar a tarefa impossível, as forças físicas diminuirão e o corpo buscará o prazer do “não fazer nada”. Em tais circunstâncias, cada dificuldade é uma impossibilidade concreta. Quando enfrentais um obstáculo, diz o ditado legionário, dividi-o e vencereis. Não podemos atingir o alto de uma casa de uma só vez, mas podemos chegar lá pelas escadas, subindo um degrau de cada vez.

Procedei de modo semelhante, perante uma dificuldade; dai um passo em frente. Não vos preocupeis com o passo seguinte; concentrai-vos no primeiro. Dado este, a oportunidade do segundo surgirá imediatamente ou não tardará muito; dai esse novo passo, e em seguida o terceiro, o quarto. Ao fim de uma série de passos – talvez relativamente pequena – verificareis que ultrapassastes o domínio do impossível e vos achais na terra prometida.

A nossa insistência – note-se bem – recai sobre a necessidade de agir. Qualquer que seja o grau da dificuldade, devemos dar um passo para a solucionar. É claro que o passo deve ser tão eficiente quanto possível. Se não pudermos dar um passo eficiente, devemos dar outro, embora menos eficiente. Se mesmo este for impossível, devemos fazer um gesto positivo (só uma oração basta) que, aparentemente sem valor prático, caminhe, no entanto, na direção do objetivo a conquistar ou com ele se relacione. É a este gesto insistente que a Legião chama de “ação simbólica”. Ele fará desaparecer a dificuldade imaginária e abrirá caminho, através da Fé, para a solução da verdadeira dificuldade.

O resultado pode muito bem ser a queda das muralhas de Jericó.

“E quando os sacerdotes tocavam as trombetas, à sétima volta, Josué disse a todo o Israel: ‘Gritai; porque o Senhor vos entregou a cidade’. O povo gritou e os sacerdotes tocaram as trombetas. Logo que a voz e o som chegaram aos ouvidos da multidão, caíram de repente os muros; e cada um subia pelo lugar que lhe ficava defronte; e tomaram a cidade” (Js 6, 16-20).

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5. TODO LEGIONÁRIO DEVE TRABALHAR ATIVAMENTE

Sem o espírito que lhe é próprio, a Legião é como um corpo sem vida. Esse espírito, que tão admiravelmente transforma os seus membros, não flutua no ar, à espera de que o respirem. Não, é um espírito vivificante, produto da graça e do esforço pessoal; depende do trabalho que cada legionário, individualmente, realiza, e do modo como o realiza. Sem esforço, o espírito é como a luz mortiça que ameaça extinguir-se.

Quer pela: 1) falta de vontade para entregar-se a uma obra considerada difícil, 2) quer pela incapacidade em descobrir trabalho – que é bastante mesmo nas mais pequenas localidades, – 3) quer ainda, e sobretudo, pelo receio de enfrentar as críticas hostis, pode infiltrar-se no Praesidium certa tendência a evitar o trabalho ativo ou a designar aos membros tarefas insignificantes. Fiquem, pois, todos devidamente avisados de que a Legião se destina, por sua mesma natureza, a trabalhos substanciais ativos. Não há razão para fundar a Legião, onde os membros não queiram enfrentar os trabalhos difíceis. Um exército que não queira ir à luta não tem razão de existir. Da mesma maneira, os membros de um Praesidium que não participem ativamente de qualquer trabalho não podem chamar-se “Legionários de Maria”. Somente os exercícios de piedade, isto é, as orações, visitas ao Santíssimo, etc., não satisfazem a obrigação legionário do trabalho ativo.

Um Praesidium que não faça os trabalhos ativos não está cumprindo a finalidade da Legião, que é exatamente a participação ativa. Dá a impressão de que a Legião não está qualificada para certas atividades, o que não é correto. A Legião está muito bem preparada para exercer todos os tipos de atividades.

6. O PRAESIDIUM CONTROLA O TRABALHO

É ao Praesidium que compete designar o trabalho dos membros. Estes não têm, por si sós, a liberdade de empreender, em nome da Legião, qualquer trabalho que lhes agrade. Contudo, não se deve interpretar esta regra com tanto rigor que impeça de aproveitar uma oportunidade de fazer o bem. De fato, todo legionário deve considerar-se, de certo modo, sempre de serviço. Se surgir a oportunidade de realizar, casualmente, qualquer trabalho, o legionário pode apresentá-lo na reunião seguinte. Acei-

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to pelo Praesidium, torna-se trabalho ordinário da Legião. Mas em tudo isto tenha o Praesidium muito cuidado. Há pessoas de indiscutível boa vontade que, por tendência natural, sofrem da doença de querer ocupar-se de tudo – menos do que lhes diz respeito – e que, em vez de se aplicarem com firmeza ao que lhes foi designado, se dispersam. Tais pessoas fazem mais mal do que bem; e, se não forem contidas a tempo, contribuirão em grande parte para a quebra da disciplina legionária.

Uma vez abalada a consciência da responsabilidade do membro perante o Praesidium e a idéia de que o legionário é enviado daquele com instruções precisas para realizar um trabalho de que lhe cumpre prestar contas, a obra de que foi incumbido deixará, em breve, de fazer-se, ou constituirá um perigo para a própria organização. A culpa dos erros graves, que resultam deste procedimento independente, será atribuída à Legião, quando na realidade é causada pelo não cumprimento de seus regulamentos.

Se alguns legionários, animados de particular entusiasmo, se queixarem de que o excesso de disciplina lhes entrava os esforços para o bem, seria bom examinar o assunto à luz do que acabamos de expor. É necessário, porém, que haja o máximo cuidado para não dar motivo a queixas deste gênero: o fim essencial da disciplina é provocar a ação e não brecá-la. Há pessoas que entendem a autoridade como o direito de dizer sempre “não” ou impedir, de todas as formas, a iniciativa dos outros.

7. A VISITA DOIS A DOIS PROTEGE A DISCIPLINA LEGIONÁRIA

As visitas devem ser feitas por dois legionários. Pretende a Legião com esta regra: Primeiro: proteger os legionários. Normalmente, não são tanto as ruas como as casas visitadas que impõe este cuidado. Segundo: que os dois visitantes se animem um ao outro para vencer o respeito humano ou a timidez natural, que hão de experimentar nas visitas a lugares difíceis ou a casas de perspectivas pouco acolhedoras. Terceiro: imprimir ao trabalho o cunho de disciplina, assegurando o pontual e fiel cumprimento das visitas de que foram encarregados. Deixado cada um a si mesmo, facilmente se é inclinado a retardar a hora ou a adiar indefinidamente a visita semanal. O cansaço, o mau tempo, o medo natural em enfrentar uma visita desagradável, tudo

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entra em jogo espontaneamente quando não temos de guardar um compromisso com outra pessoa. Resultado: as visitas são feitas sem a organização e freqüência desejadas e, por isso, sem resultado e, em alguns casos, até deixam de ser realizadas.

Eis a norma habitual a seguir quando um visitante falta ao encontro combinado: se se trata, por exemplo, da visita a um hospital ou de qualquer outra obra que, com toda a evidência não implica perigo algum, o legionário pode ir só. Se, ao invés, se trata de trabalho que o pode colocar em circunstâncias embaraçosas ou exige o acesso a lugares de má fama, deve adiá-lo. Fique, contudo, bem entendido que a licença de fazer visitas sozinho, como acima se expôs, é excepcional. As faltas repetidas de um dos visitantes aos encontros marcados deverão ser encaradas pelo Praesidium com seriedade.

A regra das visitas dois a dois não quer significar que os dois legionários hão de se dirigir necessariamente às mesmas pessoas. Tratando-se, por exemplo, de visitar a enfermaria de um hospital, é normal e exemplar que cada um vá por seu lado e se ocupe de pessoas diferentes.

8. É PRECISO DEFENDER O CARÁTER ÍNTIMO DO TRABALHO LEGIONÁRIO

A Legião precisa tomar cuidado para não correr risco de ser usada por reformadores sociais de entusiasmos exagerados. O trabalho da Legião deve revestir-se de humildade. Começa no coração de cada legionário, pelo desenvolvimento do espírito de zelo e caridade. Continua por um contato pessoal, direto e perseverante com os outros, procurando, por este meio, contagiar o espírito de toda a comunidade. É um trabalho silencioso, discreto e suave. O objetivo dos trabalhos não é acabar imediatamente com os grandes males, mas fazer com que o ambiente fique cheio dos princípios e sentimentos católicos, para que, num clima favorável, os males sejam extintos por si mesmos. Para a Legião, a verdadeira vitória reside no desenvolvimento contínuo, por vezes lento, entre o povo, de uma vida e de uma mentalidade profundamente católicas.

As visitas legionárias devem ter um caráter sigiloso. Os legionários jamais poderão usar segredos que lhes forem confiados nas visitas, transmitindo-os aos outros, a fim de não despertar o receio nas pessoas. Em vez de amigos, dignos de inteira confiança, passariam aos olhos do público por pessoas suspeitas

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– uma espécie de polícia secreta a serviço da organização. As pessoas se sentiriam ofendidas inevitavelmente com a presença dos legionários, e isto significaria o fim da utilidade dos seus serviços.

Os encarregados de dirigir as atividades legionárias devem ter, portanto, o máximo cuidado em não associar o nome da Legião a obras cujos fins, embora excelentes, pressuponham métodos diferentes dos da Legião de Maria. Não faltam organizações especiais para combater os flagrantes abusos do dia. Utilizem-nas os legionários quando for necessário, e prestem-lhes a sua ajuda como simples particulares; mas que a Legião continue fiel às suas tradições e aos métodos de trabalho que lhe são próprios.

9. É PARA DESEJAR A VISITA DE CASA EM CASA

As visitas legionárias deverão ser feitas, tanto quanto possível, de casa em casa, sem distinção de pessoas. Com efeito, não faltaria quem se ofendesse com uma visita particular.

A não ser que haja razões graves, não deve omitir-se a visita às famílias não-católicas. Nestes casos, não se revista de caráter agressivo sob o ponto de vista religioso, mas anime-se do propósito de estabelecer relações amigáveis. A explicação de que se visitam todas as casas, para travar conhecimento com os seus moradores, levará a uma recepção favorável em muitas famílias não-católicas, circunstância que a Divina Providência pode utilizar, talvez, como instrumento da graça, para atrair “as outras ovelhas” que deseja conduzir ao Seu rebanho. As relações de amizade com católicos dedicados ao apostolado farão desaparecer muitos preconceitos; e o respeito pelos católicos será infalivelmente seguido do respeito pelo Catolicismo. Quando as pessoas não-católicas tiverem esse respeito pelos legionários, começarão a pedir esclarecimentos, livros para instruir-se, podendo ser até o começo de grandes coisas.

10. É PROIBIDA A DISTRIBUIÇÃO DE SOCORROS MATERIAIS

Não é permitido distribuir socorros materiais por mais insignificantes que possam ser; e a experiência obriga-nos a incluir nesta categoria mesmo a roupa usada.

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Ao estabelecer esta regra, a Legião não despreza a assistência material, em si, às pessoas necessitadas: afirma, apenas, que tal prática é prejudicial aos seus objetivos. Dar aos pobres é obra boa; dar aos pobres, por motivo sobrenatural, é coisa sublime. Muitas organizações, de reconhecido mérito, assentam nesse princípio; e, entre elas, a Sociedade de S. Vicente de Paulo, a cujo exemplo e espírito a Legião tem o prazer de se proclamar altamente devedora; e, a tal ponto, que pode afirmar-se que a Legião brotou daquela Sociedade. Mas a Legião tem um campo de atividade completamente distinto. O seu princípio básico é levar a cada indivíduo a riqueza dos bens sobrenaturais. Este programa é incompatível, na prática, com a distribuição de socorros materiais, e isto por numerosos motivos, alguns dos quais são os seguintes:

a) Poucas vezes as pessoas ricas receberiam bem as visitas de sociedades beneficentes, com receio de passar aos olhos dos outros por pobres envergonhados. O Praesidium que passasse a pedir esmolas correria o risco de limitar o seu campo de ação. Para outras sociedades a esmola pode ser a chave de abrir; para a Legião seria a chave que lhe fecharia todas as portas.

b) Os desiludidos nas suas esperanças de receber alguma coisa sentem-se envergonhados, e se fechariam à ação legionária.

c) Mesmo entre os necessitados de socorros materiais, o legionário não fará bem algum espiritual com a esmola. Que a Legião deixe, portanto, esse cuidado às sociedades expressamente consagradas a tal fim, que para ele dispõem de graças especiais. Delas não gozam os legionários, com certeza, pois, dando esmolas, transgridem o regulamento. O Praesidium que se extravie, nesta matéria, estará envolvido em graves complicações, que apenas acarretarão desgostos à Legião.

Contra o exposto não faltará, entre os legionários, quem apele para o dever individual de socorrer os pobres, segundo as suas possibilidades, e afirme que quer dar esmola, não como legionário, mas como simples particular. A análise deste modo de proceder revelará as complicações que forçosamente origina. Suponhamos o caso – e é o mais corrente – de alguém que não tenha o hábito de socorrer os pobres antes de ingressar na Legião. No curso das suas visitas, encontra-se com pessoas necessi-

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tadas de uma maneira ou de outra. Abstém-se de dar esmola no dia da visita oficial da Legião, e volta alguns dias depois para a dar como “indivíduo particular”. É indiscutível que tal pessoa transgride a regra legionária que proíbe socorrer materialmente os pobres. A dupla visita não passa de uma desculpa. Foi como legionário que fez a sua primeira visita, e como legionário se inteirou das necessidades da família. Será do legionário que o pobre receberá a esmola, sem fazer distinção alguma. Para ele, trata-se simplesmente de uma esmola da Legião, e a Legião concorda com tal maneira de ver.

Lembrem-se bem de que a desobediência ou indistinção de um só membro, neste assunto, pode comprometer todo um Praesidium.

É fácil conseguir fama de dar esmolas; não é preciso dar cem vezes, bastam duas.

Se um legionário, por qualquer razão, tem grande empenho num caso particular, por que não poupar a Legião de mil problemas dando esmola anonimamente, através de um amigo ou mediante uma associação consagrada à beneficência? Será que o legionário que se recusa a agir anonimamente, neste caso, não está buscando mais a glória terrena do que a glória do céu?

Os legionários, todavia, não devem mostrar-se indiferentes diante dos casos de pobreza e necessidade que inevitavelmente hão de encontrar nas suas visitas domiciliares, e informarão deles as associações competentes, conforme a natureza de cada caso. Se falharem todos os esforços da Legião para conseguir o desejado auxílio, não é ela que deve suprir essa deficiência, não lhe compete fazê-lo. Seria incrível que, em qualquer sociedade moderna, não se pudessem encontrar indivíduos ou organizações dispostos a socorrer alguém em semelhante caso.

“Sem dúvida que a compaixão manifestada aos pobres, aliviando-os nas suas necessidades, é altamente recomendada por Deus. Mas, quem ousará negar que ocupa lugar mais eminente o zelo e o esforço que se consomem no trabalho de instruir e persuadir as almas, comunicando-lhes não os bens passageiros deste mundo, mas os bens eternos da vida sobrenatural?” (AN)

Como muitos exemplos mostram que esta regra pode ser interpretada de uma forma demasiado severa, é necessário declarar que os serviços prestados a alguém não constituem auxílio material. Pelo contrário, são recomendados. Afastam a acusação de que os legionários se limitam a falar de religião e são indiferen-

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tes às necessidades das pessoas. Os Legionários devem provar a sinceridade das suas palavras, demonstrando o seu amor e serviço por todas as formas permitidas.

11. OS LEGIONÁRIOS NÃO PEDEM ESMOLAS

Da mesma forma que não se pode dar ajuda material nas visitas legionárias, também elas não devem ser feitas com a finalidade de recolher donativos. Isso poderia garantir certa soma de dinheiro, mas atrapalharia o ambiente para se fazer o bem espiritual. Seria agir como aqueles que economizam um centavo e depois gastam, sem razão nenhuma, grandes quantias.

12. NÃO HÁ POLÍTICA DENTRO DA LEGIÃO

Nenhum centro legionário permitirá que a sua influência e os locais à sua disposição sejam utilizados para fins políticos ou a favor de algum partido político.

13. PROCUREMOS FALAR A CADA PESSOA

A essência do trabalho religioso consiste no desejo de atingir cada indivíduo em particular, de incluir na esfera do seu apostolado não só os negligentes, os católicos, os pobres ou os infelizes, mas todas as pessoas.

Não se deixem os legionários amedrontar pelos aspectos mais repulsivos da indiferença religiosa. Não há pessoa, por mais perversa e mais indiferente à religião que seja, por mais difícil que pareça o seu caso, que não se deixe influenciar pela fé, coragem e perseverança do legionário. Por outro lado, não podemos também entender que a Legião existe apenas para trabalhar com os casos mais graves. A grande atração que exerce sobre os legionários a procura das ovelhas desgarradas do rebanho não deve fazer com que se esqueçam do campo mais vasto de seu trabalho. Lembremo-nos de que, na atividade do legionário, estão incluídos aqueles que, apesar de terem sido chamados por Deus à santidade, contentam-se em cumprir o estritamente essencial. Os legionários devem procurar conseguir que essas pessoas entreguem-se às obras de zelo e piedade. Tudo isso só poderá ser conseguido com visitas contínuas e muita paciência. Contudo, se,

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como diz o Padre Faber, um santo vale mais do que um milhão de católicos comuns; e se, como declara Santa Teresa de Ávila, uma só alma que, não sendo santa, procura santificar-se, é mais preciosa aos olhos de Deus que milhares de pessoas que levam uma vida comum: que felicidade dirigir os primeiros passos de grande número de pessoas no caminho que se afasta da rotina comum!

14. NINGUÉM É TÃO MAU QUE NÃO POSSA REGENERAR-SE,
NEM TÃO BOM QUE NÃO POSSA TORNAR-SE MELHOR

Nem uma só pessoa daquelas com quem o legionário se relaciona no decorrer das suas visitas deve ser deixada no mesmo nível espiritual em que foi encontrada. Ninguém é tão bom que não possa estreitar mais a sua união com Deus. Acontecerá, freqüentes vezes, que os legionários visitam pessoas incomparavelmente mais santas do que eles; nem mesmo então devem duvidar da sua capacidade de fazer o bem. Podem transmitir-lhes novas idéias, novas devoções e arrancá-las à rotina. A alegre prática da vida apostólica não pode deixar de as elevar.

Quer os legionários tratem com santos, quer com pecadores, procedam sempre com confiança – cientes de que não atuam como particulares, com a sua própria pobreza espiritual, mas como representantes da Legião de Maria, “unidos aos seus pastores e bispos, à Santa Sé e ao mesmo Jesus Cristo” (UAD).

15. O APOSTOLADO INDEFINIDO É DE POUCA VALIA

Em cada caso, os legionários devem ter o propósito de realizar um bem considerável e determinado. Faça-se muito bem a grande número de pessoas, se for possível; ou faça-se muito bem a poucas; nunca, porém, pouco a muitas. O legionário que trilhe este último caminho procede mal, pelo fato de considerar como feito um trabalho que a Legião declara apenas começado, e impedir, como conseqüência, os demais membros de a ele se entregarem. Mas outro perigo se esconde em semelhante processo: no momento de desânimo, vai parecer a esse legionário que o pouco bem, feito a muitos, não aproveitou a ninguém. O sentimento da própria inutilidade põe em perigo a perseverança do legionário.

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16. O SEGREDO DA INFLUÊNCIA É O AMOR

Torna-se necessário insistir em que a realização de um bem real e extenso só pode ser conseguido através de uma amizade sincera entre os visitados e os legionários. O bem conseguido por outra forma será escasso e sem importância. Tenha-se isto em conta, de modo especial, quando se tratar de visitas destinadas a obter a Entronização do Sagrado Coração de Jesus nos lares. Por excelente e frutuosa em bênçãos que seja esta obra, não deve considerar-se como fim principal. Visitas que terminassem após se conseguir rapidamente a Entronização, etc., não teriam colhido, aos olhos da Legião, senão uma parte mínima dos frutos que se pretendiam. Freqüentes e prolongadas visitas a cada família, feitas por dois legionários, obrigam a um progresso lento; e isto mostra a necessidade absoluta de intensificar o recrutamento e de multiplicar os Praesidia.

17. EM CADA UM DAQUELES POR QUEM TRABALHA,
O LEGIONÁRIO VÊ E SERVE A JESUS CRISTO

O motivo principal das visitas legionárias não será, em nenhum caso e em nenhuma parte, o espírito de filantropia e de simples compaixão natural pelos infelizes. “Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes” (Mt 25, 39). Com estas palavras gravadas no coração, o legionário deverá ver a Nosso Senhor na pessoa do próximo, quer dizer, em todos os homens sem distinção, e prestar-lhes os seus serviços em harmonia com esta norma. Os malvados, os ingratos, os estúpidos, os aflitos, os desprezados, os desterrados da sociedade, os que provocam em nós naturalmente maior antipatia, todos devem ser olhados sob esta luz sobrenatural. São, com certeza, os mais pequeninos dos irmãos de Jesus Cristo e, por conseguinte, merecedores – segundo as palavras de Cristo – dos nossos magníficos e respeitosos serviços.

Tenha o legionário sempre presente que não vai visitar um inferior ou mesmo um igual, mas um superior, como um criado que visita o seu patrão. A falta deste espírito dá aos visitantes um ar protetor, de superioridade, que impede a realização de todo e qualquer bem, tanto natural como sobrenatural. Nessas condições, as visitas somente seriam toleradas se esses legionários levassem algum presente para dar. Ao contrário, o legionário amá-

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vel e simpático, que pede humildemente licença para entrar nas casas, será recebido com alegria, mesmo chegando com as mãos vazias de bens materiais. E esse legionário conseguirá bem depressa a amizade daqueles que visita. Nunca os legionários esqueçam que a falta de simplicidade no trajar e no modo de falar levantará uma barreira entre eles e os visitados.

18. PELO LEGIONÁRIO, MARIA AMA E CUIDA DO SEU DIVINO FILHO

Os métodos da Legião acham-se admiravelmente resumidos nas palavras com que um legionário explicava os resultados felizes de uma visita desagradável e difícil: “Conseguimos tornar-nos simpáticos”. Para despertar tal afeição é necessário manifestá-la primeiro: amar as pessoas visitadas. Não há outro caminho a seguir, nem outra diplomacia ou outra chave a empregar, se queremos influir realmente no seu espírito. Santo Agostinho diz a mesma coisa nestas palavras: “Ama e faz o que quiseres”.

Num parágrafo magistral da vida de São Francisco de Assis, Chesterton sublinha este princípio característico do Cristianismo: “S. Francisco via a imagem de Deus multiplicada, mas nunca monótona. Para ele um homem era sempre um homem e não desaparecia na multidão compacta mais do que num deserto. Honrava todas as pessoas, quer dizer, não as amava apenas, respeitava-as. O extraordinário poder pessoal que exercia provinha do fato de que, desde o Papa ao mendigo, desde o Sultão da Síria, na sua tenda, aos salteadores mal vestidos que se arrastavam até fora da floresta, não havia um homem que contemplasse os seus olhos castanhos e ardentes, sem ficar certo de que Francisco Bernardone se interessava realmente por ele, pela sua vida interior, individual, desde o berço ao túmulo; e de que era estimado e tomado a sério”.

É possível amar desta forma, sempre que se queira? Sim, basta ver em todos aqueles por quem trabalhamos a Pessoa Adorável de Jesus, para que o amor se inflame. Com certeza Maria gosta de ver dispensado com generosidade ao Corpo Místico do seu Divino Filho amor semelhante ao que ela dispensou generosamente ao corpo físico de Jesus. Podem os legionários contar com o seu auxílio nesta tarefa. Sempre que Maria descobrir neles uma centelha de amor, um ânimo pronto a dar-se, ela há de inflamá-los, transformando-os em fogueira ardente com o seu sopro maternal.

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19. TODAS AS PORTAS SE ABREM AO LEGIONÁRIO HUMILDE E RESPEITOSO

A inexperiência receia sempre a primeira visita: o legionário, porém, novo ou experiente, que levou a sério o que está explicado no item anterior, está na posse da chave de todas as casas.

Note-se bem que não se entra nas casas por qualquer direito, mas somente por cortesia dos ocupantes. Importa, por conseqüência, chegar até eles com educação e humildade, como se os legionários fossem pedir licença para entrar no palácio de um rei. Declarem com simplicidade a finalidade da sua visita e peçam humildemente licença para entrar. Na maioria dos casos, as portas serão abertas de par em par e os legionários convidados a se sentarem. Recordem-se então de que não foram lá para fazer uma conferência ou uma série interminável de perguntas, mas para lançar a semente de uma intimidade casual que abrirá as comportas aos tesouros espirituais encerrados na sua palavra e influência apostólica.

Houve quem dissesse que a glória particular da caridade reside na compreensão dos outros. Não há dom mais necessário neste mundo tão triste, “já que a maioria das pessoas parece sofrer de um sentimento de abandono. São infelizes, porque ninguém se importa com elas, porque ninguém se prontifica a ouvir as suas confidências” (Duhamel).

É preciso não levar muito a sério as dificuldades do começo. Mesmo quando as pessoas são de uma grosseria calculada, a nossa atitude humilde lhes causará vergonha, e o tempo conseguirá seus frutos.

O interesse pelas crianças oferece excelente oportunidade para travar conversa. Perguntem às crianças sobre os seus conhecimentos religiosos e sobre os sacramentos que já receberam. Se, logo de início, fizéssemos semelhantes perguntas aos pais, eles se ofenderiam, talvez. Mas, através dos filhos, podem receber lições de grande proveito.
À despedida prepara-se o terreno para uma nova visita. A simples indicação de que se gostou da visita e se espera voltar a ver a família na semana seguinte oferece, ao mesmo tempo, uma despedida natural e uma boa preparação para a visita seguinte.

20. COMO PROCEDER NA VISITA ÀS INSTITUIÇÕES

Ao visitarem uma instituição, lembrem-se os legionários de que são aí pessoas estranhas, como hóspedes em uma casa. Os

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dirigentes desses institutos receiam que os visitantes, apesar de caridosos, venham a interferir nos horários e regulamentos de suas casas. Os legionários devem estar atentos, para não cometer essas faltas, procurando informar-se com antecedência sobre os melhores horários para visitas; não devem levar remédios ou artigos proibidos, e jamais ficar a favor de um ou outro quando houver desentendimento entre o pessoal da instituição.

Alguns visitados hão de reclamar de maus tratos por parte dos dirigentes ou dos companheiros. Não compete aos legionários remediar tais males, ainda que reais. Ouçam com simpatia, é claro, as reclamações, e esforcem-se por inspirar sentimentos de aceitação aos pacientes; mas não devem fazer, normalmente, mais do que isso. Se se sentirem fortemente revoltados, desabafem na reunião semanal do Praesidium. Este estudará o assunto sob todos os aspectos e aconselhará, se necessário for, as providências necessárias.

21. O LEGIONÁRIO NÃO DEVE AGIR COMO JUIZ

O respeito e a delicadeza não devem ser apenas atitudes exteriores do legionário, sendo que o mais importante é tê-las no íntimo do seu espírito. Não faz parte da missão do legionário constituir-se em juiz do próximo e muito menos impor a sua maneira de pensar e agir, como se fosse a melhor. O fato de algumas pessoas pensarem de forma diferente, não recebê-lo ou mesmo ficarem contra suas opiniões, não significa que não sejam dignas.

Não faltam indivíduos cujas ações se prestam a críticas; mas não é ao legionário que compete fazê-las. Essas pessoas assemelham-se, com freqüência, aos santos que foram acusados falsamente. Não se pode negar que há vidas que perderam o brilho por causa de grandes abusos; mas só Deus conhece o íntimo das pessoas e só Ele pode avaliar com justiça as responsabilidades de cada um. Porque, como diz Gratry: “Muitos precisam do benefício da mais elementar educação. Nasceram sem patrimônio moral e, como alimento da penosa viagem da vida, apenas receberam maus exemplos e más orientações. Ora, não será pedido a cada um senão o que lhe tiver sido dado”.

Há muitos que fazem propaganda das suas riquezas e cuja vida está longe de ser um modelo de santidade. Se o legionário se

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deixasse levar pela maneira de pensar e agir do mundo de hoje, seria levado somente a criticar e dizer palavras bem duras a essas pessoas. Reflita, porém, um instante: quem sabe se elas não se parecem com Nicodemos que, de noite e em segredo, procurou o Senhor, trabalhou por Ele com dedicação, conseguiu-lhe numerosos amigos, amou-O com sinceridade e teve o singular privilégio de lhe assistir ao enterro?

O ofício do legionário não é o de juiz ou de crítico. Considere como a Santíssima Virgem contemplaria com amor todas estas situações e pessoas, e esforce-se por agir como ela própria o faria.

Era costume de Edel Quinn nunca fazer um reparo a alguém sem antes apresentar o assunto à Santíssimo Virgem.

22. ATITUDE EM FACE DAS CRÍTICAS AGRESSIVAS

Há freqüentes referências nestas páginas ao efeito paralisador exercido, mesmo sobre as pessoas mais bem intencionadas, pelo receio das críticas contrárias. Haverá, portanto, a maior vantagem em considerar o seguinte princípio: o objetivo principal da Legião – e que lhe assegura os mais amplos êxitos – é a criação de elevadas normas de pensamento e de ação. Os seus membros, consagrando-se ao apostolado, tornam-se exemplo do sublime ideal da vida cristã do leigo. Em virtude do instinto singular que arrasta os homens a seguir, mesmo contra vontade, as coisas que os impressionam, todos serão levados (uns mais outros menos) a aproximar-se deste ideal. O fato de muitos procurarem segui-lo com franqueza e de todo o coração é sinal inconfundível da sua eficiência. Outro sinal ainda mais comum são as críticas contrárias que provoca, por ir de encontro às baixas concepções da vida. É uma sacudida na consciência popular que, como sempre acontece, motivará uma reação saudável de inquietação e protesto, seguida em breve de uma transformação para melhor. A falta de qualquer reação revela o fracasso do ideal proposto.

Não devem causar admiração as críticas despertadas pelas atividades da Legião, desde que não sejam conseqüências de métodos errados. Não se esqueçam do mais importante princípio de todo apostolado: “Os homens só se deixam conquistar pelo amor e pela bondade, aliados ao exemplo discreto, que não os humilhe nem os obrigue a ceder. Detestam ser atacados por alguém cuja preocupação é vencê-los” (Giosue Borsi).

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23. NUNCA DESANIMAR

Os mais generosos esforços, continuados com heroísmo, produzem, às vezes, poucos frutos. Os legionários não têm ambição de conseguir resultados visíveis; mas seria desastroso trabalhar com a impressão constante de estar desperdiçando as próprias forças. Sirva-lhes de consolo e ânimo para maiores esforços o seguinte pensamento: impedir um só pecado é infinitamente importante, porque esse pecado arrastaria atrás dele uma série de outros males e pecados. “Por menor que seja um corpo, influi no equilíbrio dos astros. Assim, de um modo que só o Vosso espírito pode conceber e calcular, ó Senhor, o mínimo movimento da minha caneta, correndo sobre o papel, está intimamente ligado ao girar das esferas celestes, para o qual contribui e de que faz parte. O mesmo acontece no mundo das idéias. As idéias vivem e têm as mais complexas repercussões no domínio da inteligência, um mundo incomparavelmente superior ao mundo material; um mundo unido e compacto também, na grandiosa, fecunda e variadíssima complexidade do seu ser. E o que se dá com o mundo material e intelectual acontece com esse outro infinitamente maior que os dois: o mundo moral” (Giosue Borsi). Todo pecado faz estremecer o mundo moral. Repercute destruidoramente na alma de cada homem. Algumas vezes o primeiro elo da cadeia é visível, como quando uma pessoa arrasta outra a pecar. Mas, visível ou não, todo pecado leva a outro pecado. De modo semelhante, um pecado que se impediu afasta de outro pecado, e este de um terceiro e assim indefinidamente, até formar uma cadeia que abraça a terra inteira e o correr de todos os tempos. Será demais afirmar que cada pecador convertido, com o passar dos tempos, virá a ser o chefe de um exército de pessoas que seguirão seus passos até o paraíso?

Impedir, pois, um só pecado mortal é objetivo que justifica os mais árduos esforços – mesmo os de uma vida inteira -, pois não haverá pessoa que não sinta os reflexos salutares desse fato. E quem sabe se esse pecado, que se evitou, não determinará o destino eterno de uma pessoa, ou não será o primeiro impulso de um movimento de crescimento espiritual que, com o tempo, transferirá um povo inteiro de uma vida de desordem para a prática da virtude?

24. A CRUZ, SINAL DE ESPERANÇA

Mas o perigo principal do desânimo não está na resistência – por mais feroz que ela seja – das forças com que a Legião tem

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de bater-se, mas na suprema angústia que se apodera do legionário ao verificar a falência dos auxílios e das circunstâncias em que se julgava no direito de confiar. Abandonam-no os amigos, as pessoas de bem se afastam, os instrumentos de trabalho o traem; e “tudo quanto lhe servia de apoio traiu a sua paz”. Se não fosse esta foice sem corte, diz ele consigo, se não fossem as falhas dos companheiros de trabalho e esta cruz que me esmaga, que rica colheita eu não faria!

A impaciência, quando há muitas dificuldades para se conseguir fazer o bem, pode constituir um perigo, lançando o desânimo numa pessoa que as forças inimigas não conseguiram abater.

Recordem-se sempre de que as obras de Deus hão de trazer o sinal do Salvador: a Cruz. Toda obra que não tiver este distintivo é de caráter sobrenatural duvidoso e de frutos escassos. Janet Erskine Stuart exprime este mesmo princípio por outras palavras: “Se examinardes a História Sagrada, a História da Igreja e a vossa própria experiência, que se vai consolidando com os anos, verificareis que as obras de Deus nunca se realizam em condições ideais, conforme as havíamos imaginado ou preferido”. Parece estranho, mas isto quer dizer que aquilo que, para nós, parece impedir que o bem se realize e acaba com nossas esperanças não é realmente um obstáculo. Quando se trata das coisas de Deus, essas dificuldades, na realidade, são essenciais e necessárias para que a obra triunfe. Não são uma falha, mas o sinal da garantia. Não são um peso morto, mas um estímulo para o nosso esforço, a fim de atingir o objetivo. Deus alegra-se em fazer brotar o êxito de condições desfavoráveis. Manifesta assim o seu poder, fazendo realizarem-se seus projetos por meio de instrumentos incapazes.

Mas prestem atenção os legionários a este aviso muito importante: para que as dificuldades sejam proveitosas, não devem ser conseqüência do desleixo e descuido do próprio legionário. A Legião não pode esperar que as suas culpas, por obras ou omissões, se tornem fontes de graças divinas.

25. O TRIUNFO É UMA ALEGRIA; O FRACASSO,
O ADIAMENTO DE UM TRIUNFO

Bem considerado, o trabalho devia ser uma fonte inesgotável de prazer. O triunfo é uma alegria; o fracasso, uma penitência e um ato de fé – motivo de uma alegria superior para o legionário consciente, que vê nele apenas o adiamento de um triunfo

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maior. É naturalmente agradável ser recebido com sorrisos de agradecimentos pelas pessoas que apreciam altamente as visitas legionárias. Mas os olhares desconfiados devem ser motivo de consolação mais profunda, pois revelam um mal muito sério, que até aí passou despercebido. A experiência da Legião ensina que onde houver sentimentos verdadeiramente católicos – ainda que, talvez, adormecidos pelo abandono das práticas religiosas – sempre o visitante afável e simpático é recebido com agrado; quando, porém, acontece o contrário, é sinal, com freqüência, de que alguma pessoa está em perigo.

26. ATITUDE A TOMAR PERANTE OS DEFEITOS DOS PRAESIDIA E DOS LEGIONÁRIOS

É preciso ter paciência com os defeitos dos Praesidia ou dos legionários. O fato de o zelo parecer preguiçoso, os progressos insignificantes e as fraquezas humanas uma triste realidade não deve desanimar ninguém. Recorram, em tais casos, às seguintes reflexões que os podem estimular.

Se alguns legionários deixam a desejar a despeito do impulso enérgico que recebem da sua organização e da influência indiscutível que as orações e o serviço generoso da mesma exercem sobre cada um, que seria deles sem a Legião? Além disso, não será bem baixo o nível espiritual de uma comunidade, quando se mostra incapaz de fornecer alguns operários capazes para a formação de um bom Praesidium?

A conclusão que se impõe é clara: elevar o nível do ambiente por mais que custe. O melhor meio e, de fato, o único, é fazer penetrar nessa comunidade o espírito apostólico, para que atue sobre a população “até fermentar toda a massa” (Mt 13, 33). Importa, por conseqüência, aproveitar os apóstolos existentes, de que se pode dispor, e cultivá-los com invencível paciência e doçura. O espírito católico desenvolve-se, de ordinário, lentamente. Por que esperar, então, que o espírito apostólico cresça num repente? Desanime-se, e desaparecerá o único recurso.

27. DESINTERESSE TOTAL

A Legião nunca se deixará empregar como instrumento em proveito dos interesses materiais de qualquer membro. Não deveria ser necessário prevenir alguém da exploração indigna da sua qualidade de legionário dentro ou fora da Legião.

[Capítulo 39 Principais Diretrizes do Apostolado Legionário página 300]

28. NÃO SE OFERECE PRESENTE AOS MEMBROS

É proibido aos diversos grupos legionários dar dinheiro ou brinde equivalente aos seus membros. O número de ofertas, no caso de tolerância, tenderia a aumentar e constituiria, para os grupos, pesado encargo financeiro. Defendam-se disto, tendo em vista, sobretudo, o grande número de pessoas de poucas posses que a Legião tem a ventura de possuir nas suas fileiras.

Por conseguinte, se os Praesidia ou os Conselhos Legionários desejam assinalar um acontecimento especial na vida de um membro, que o façam pelo oferecimento de um ramalhete espiritual.

29. NÃO HÁ DISTINÇÃO DE CLASSES NA LEGIÃO

A Legião, regra geral, é contrária à formação de Praesidia compostos exclusivamente de membros pertencentes a uma classe ou grupo determinado da comunidade. Eis alguns motivos:

a) Restringir, muitas vezes, equivale a excluir, com prejuízo claro para a caridade fraterna.

b) Normalmente o recrutamento faz-se entre os amigos dos legionários (é o melhor método), muitos dos quais poderiam não ser qualificados para este ou aquele Praesidium especial.

c) Um Praesidium formado por representantes de várias classes e meios da sociedade fornecerá, quase sempre, um trabalho mais eficiente.

30. BUSCAR A UNIÃO

A Legião deve esforçar-se, com firmeza, por combater as divisões e inumeráveis desavenças do mundo. Este processo tem de iniciar-se na unidade orgânica que é o Praesidium. Seria inútil para a Legião falar em resolver os problemas que separam e afastam as pessoas umas das outras no mundo, se o espírito de desunião fosse evidente nas suas próprias fileiras.

Preocupe-se, pois, a Legião, com a unidade e a caridade que devem reinar no Corpo Místico de Cristo e procure organizar-se em conseqüência. Ao reunir no mesmo Praesidium, como irmãos, pessoas que o mundo separa, a Legião faz um bem de incalculável valor. Uma vez que se estabeleça a caridade entre os membros de um Praesidium, esse espírito vai contagiar as pessoas de fora. Assim, o espírito de caridade vai destruindo o espírito de discórdia que existe no mundo, até aniquilá-lo totalmente.

[Capítulo 39 Principais Diretrizes do Apostolado Legionário página 301]

31. MAIS CEDO OU MAIS TARDE, OS LEGIONÁRIOS DEVEM
ENFRENTAR OS TRABALHOS MAIS DIFÍCEIS

A escolha de trabalhos pode dar lugar a dúvidas. Não faltam, com certeza, problemas graves, mas o Diretor Espiritual receia, talvez, confiá-los a um Praesidium ainda jovem.

Os motivos de receio não devem predominar, de modo geral, sob pena de se merecer a censura de S. Pio X: o maior obstáculo ao apostolado é a indecisão, ou, antes, a covardia dos bons. Contudo, se as dúvidas continuarem, atue-se a princípio com prudência, experimentando as forças em trabalhos mais simples. À medida em que as reuniões vão acontecendo uma após a outra e se adquirir experiência, hão de aparecer alguns membros capazes de trabalhos mais difíceis. Entregue-se a estes o trabalho em discussão, dando-lhes, como auxiliares, alguns companheiros, conforme as exigências do trabalho e a revelação das aptidões de cada um. Houvesse apenas dois legionários empregados em tarefas deste tipo, e o seu exemplo exerceria um efeito acentuado sobre as atividades dos membros restantes.

32. ATITUDE DIANTE DO PERIGO

O sistema legionário, observado com fidelidade, reduz ao mínimo as condições desfavoráveis; contudo, há trabalhos importantes em que se correm certos perigos. Se, depois de maduro exame, se verifica: a) que um determinado trabalho, de que depende a salvação das pessoas, ficaria por fazer, no todo ou em parte; b) que foram tomados todos os cuidados possíveis, para proteger os membros – não tenhamos receio de utilizar os legionários mais capacitados e experientes. Os legionários não podem, de maneira nenhuma, permanecer indiferentes, diante dos perigos que avançam para perder as pessoas. Se agissem assim, se tornariam indignos do nome de legionários de Maria. “Deus nos guarde da serenidade do ignorante. Deus nos livre da paz dos covardes” (De Gasparin).

33. NAS BATALHAS DA IGREJA, A LEGIÃO DEVE ESTAR
SEMPRE NA VANGUARDA

Os legionários participam da fé que Maria deposita na vitória de seu Filho – a fé de que, pela Sua morte e ressurreição, Jesus conquistou o inteiro domínio sobre o pecado no mundo.

[Capítulo 39 Principais Diretrizes do Apostolado Legionário página 302]

E na medida em que nos unimos a Nosso Senhor, o Espírito Santo põe esta vitória à nossa disposição em todas as batalhas travadas pela Igreja. Convictos desta idéia, os legionários devem tornar-se uma inspiração para a Igreja inteira, pela confiança e coragem com que enfrentam os grandes problemas e males do momento atual.

“Importa compreender a natureza do combate que travamos. O nosso combate não é só para alargar-se as fronteiras da Igreja, mas para unir as almas a Jesus Cristo. Esta é, certamente, a mais estranha das guerras, porque combatemos, não contra o inimigo, a pessoa que pretendemos conquistar para Cristo, mas a favor dele. Não nos deixemos desorientar pela palavra ‘inimigo’.

Todo descrente, como todo católico, tem uma alma imortal, criada à imagem de Deus, pela qual Cristo morreu. Por mais violenta que seja a hostilidade de uma pessoa a Cristo ou à Igreja, o nosso fim é convertê-la e não apenas vencê-la. Jamais devemos esquecer que o demônio quer levar a alma deste descrente para o inferno (como quer levar a nossa), e o nosso dever é combater o demônio, a favor deste descrente. Podemos ser forçados a opor-nos a um homem, para o impedir de pôr em perigo as almas; mas o que sempre queremos é conquistá-lo para que a sua alma possa se salvar. É armados do poder do Espírito Santo (sic) que devemos combater, e o Espírito Santo é o Amor do Pai e do Filho. Na medida em que os soldados da Igreja combaterem cheios de ódio, combatem contra o Espírito Santo.” (F. J. Sheed: Teologia para os Principiantes)

34. O LEGIONÁRIO DEVE PROPAGAR TUDO O QUE É CATÓLICO

Os legionários não devem descuidar do uso dos escapulários, medalhas e distintivos aprovados pela Igreja. Os legionários devem distribuir as medalhas e distintivos, explicando o seu significado, e propagando a sua devoção, pois, assim, estarão abrindo mais canais, por onde Deus distribuirá suas bênçãos e graças. Como prova, poderíamos citar inúmeros exemplos.

Amem, de modo particular, o escapulário de Nossa Senhora do Carmo, verdadeiro distintivo e vestimenta de Maria. Alguns interpretam literalmente o texto: “Quem morrer revestido deste hábito não se perderá eternamente”. O Padre Cláudio de la Colombière não tolerava restrições: “Alguém pode perder o escapulário, mas quem dele estiver revestido à hora da morte será salvo” (Padre Raul Plus).

[Capítulo 39 Principais Diretrizes do Apostolado Legionário página 302]

Promovam igualmente a piedade no seio das famílias, animando-as a possuir crucifixos e imagens, colocar nas paredes gravuras e quadros com motivos religiosos, e a ter sempre em casa água benta e um Terço devidamente indulgenciado.

As famílias que desprezam os sacramentais da Igreja correm o risco de, pouco a pouco, abandonar os Sacramentos. As crianças, sobretudo, mostram-se extremamente impressionáveis por estas manifestações externas de religião e hão de experimentar séria dificuldade em compreender o caráter verdadeiro e íntimo de fé, num lar em que falte a imagem ou quadro de um santo, ou de Maria, ou de Jesus.

35. “VIRGO PRAEDICANDA”: A VIRGEM DEVER SER DADA A
CONHECER A TODOS OS HOMENS, PORQUE É SUA MÃE

Um tema importante para Leão XIII era que Maria é a mãe de todos os homens e que Deus implantou a semente do amor por ela em todos os corações, mesmo naqueles que não a conhecem. Esta semente destina-se a crescer e, como qualquer capacidade, pode ser desenvolvida, desde que lhe sejam dadas as condições apropriadas. As pessoas devem ser contatadas e informadas do papel maternal de Maria.

O Concílio Vaticano II proclamou esta maternidade universal de Maria (LG 53, 65) e declarou que ela é, em tão elevado grau, a fonte e o modelo do apostolado, que a Igreja deve depender dela nos seus esforços para salvar todos os homens (LG 65).

O Papa Paulo VI pede que em toda a parte, especialmente onde há muitos não-católicos, os fiéis sejam perfeitamente instruídos sobre a função maternal de Maria, a fim de que eles possam distribuir este tesouro de conhecimento aos irmãos mais pobres. Além disso, recomenda ao seu amoroso Coração todo o gênero humano, para que Ela possa cumprir a sua missão de orientar todas as pessoas para Cristo. Finalmente, para pôr em foco a sua função maternal e unificadora de todos os membros da família humana, Sua Santidade confere a Maria o título significativo de “Mãe da Unidade”.

Erram, pois, lamentavelmente, os que consideram a Santíssima Virgem uma barreira à conversão, barreira que se deveria derrubar. Ela é a mãe da graça e da unidade, de tal sorte que, sem ela, as pessoas não encontrarão o seu caminho. Os legioná-

[Capítulo 39 Principais Diretrizes do Apostolado Legionário página 304]

rios devem aplicar constantemente este princípio aos seus esforços de conversão das pessoas, quer dizer, explicar a todos o que por vezes, mas erradamente, se chama devoção legionária a Maria. Não é propriedade da Legião, pois de fato a Legião aprendeu-a da Igreja.

“A Virgem Maria foi sempre proposta pela Igreja à imitação dos fiéis, não exatamente pelo tipo de vida que Ela levou ou, menos ainda, por causa do ambiente sócio-cultural em que se desenrolou a sua existência, hoje superado quase por toda parte; mas sim, porque, nas condições concretas da sua vida, Ela aderiu total e responsavelmente à vontade de Deus (cf. Lc 1, 38); porque soube acolher a Sua palavra e pô-la em prática; porque a sua ação foi animada pela caridade e pelo espírito de serviço; e porque, em suma, Ela foi a primeira e a mais perfeita discípula de Cristo – o que, naturalmente, tem um valor exemplar universal e permanente.” (MCul 35)

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