quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Legião de Maria: manual de espiritualidade (parte 6).


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SOLENIDADES LEGIONÁRIAS

A Curia tem o dever de reunir de tempos em tempos, os legionários do seu setor, a fim de se conhecerem mutuamente e fortalecerem entre si o espírito de união.

As solenidades da Legião são as seguintes:

1. A Acies

Dada a importância da devoção à Santíssima Virgem dentro da Legião, os legionários se consagrarão, todos os anos individual e coletivamente a Nossa Senhora, no dia 25 de Março ou em outro dia conveniente, nas proximidades desta data, numa cerimônia que tem o nome de Acies.

Esta palavra latina, que significa um exército em ordem de batalha, designa, com razão, a cerimônia em que os legionários, como um só corpo, se reúnem para renovar a sua fidelidade a Maria, Rainha da Legião, e dela receber a força e a bênção para

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um novo ano de combate contra o exército do mal. Contrasta, além disso, com Praesidium, que apresenta a Legião, não em formação de combate, mas espalhada em várias seções, ocupadas cada qual no seu próprio trabalho.

A Acies é a grande solenidade do ano, a festa central da Legião. Insista-se, pois, com cada legionário, sobre a importantíssima obrigação de a ela assistir. A idéia central, sobre a qual tudo na Legião se sustenta, é o trabalho em união e sob a dependência de Maria, sua Rainha. A Acies é a solene declaração desta união e dependência, a renovação – individual e coletiva – do compromisso de fidelidade da Legião. Por isso, todo o legionário que, podendo assistir, não o faz, tem pouco ou nenhum espírito da Legião. Não vale a pena ter tais membros.

Eis o processo a seguir:

No dia fixado para a cerimônia, os legionários se reunirão, se possível, numa igreja. Em lugar conveniente será colocada a imagem da Imaculada Conceição, condignamente enfeitada de flores e velas e, em frente, o Vexillum Legionis, modelo grande, conforme atrás ficou descrito, no capítulo 27.

A cerimônia começa por um cântico, seguido da reza das Orações Iniciais, incluindo o Terço. Em seguida, um sacerdote falará sobre o significado da Consagração a Nossa Senhora.

Terminada a alocução, começa o desfile em direção à imagem. À frente vão os Diretores Espirituais, um a um; atrás, os legionários, um a um, ou dois a dois, se forem numerosos. Chegando em frente do Vexillum, param e, colocando a mão sobre a haste do estandarte, pronunciam, (um a um, ou dois a dois), em voz alta e nestes termos, a consagração individual: “Eu sou todo vosso, ó minha Rainha e minha Mãe, e tudo quanto tenho vos pertence”. Feito isto, largam o Vexillum, inclinam-se levemente e afastam-se.

Se os legionários forem numerosos, a consagração individual poderá durar bastante tempo, mas a cerimônia não deixará de ser, por isso, menos impressionante. O órgão ou harmônio contribuirá para tornar o desfile mais solene.

Não se pode usar mais do que um Vexillum. Tal processo abreviaria a cerimônia, é certo, mas destruiria a unidade. A pressa soaria desarmoniosamente no conjunto. A característica especial da Acies há de ser a ordem e a dignidade.

Logo que todos estejam nos seus lugares, um sacerdote, em nome de todos os presentes, lerá em alto voz um ato de Consagração a Nossa Senhora. Depois, de pé, rezam a Catena, finda a

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qual, se é possível, dar-se-á a Bênção do Santíssimo Sacramento. A cerimônia termina com as Orações Finais da Legião e um cântico.

Pode-se incluir a Missa na Acies. Ocupará talvez o lugar da Bênção do Santíssimo Sacramento, mantendo sem alteração os outros elementos da cerimônia. A celebração do Mistério Pascal absorverá em si e apresentará ao eterno Pai, pelo “único Mediador” e no Espírito santo, as consagrações e ofertas espirituais que acabaram de ser colocadas nas mãos maternas da “mais generosa cooperadora e escrava humilde do Senhor” (LG 61).

A fórmula da consagração: “Eu sou todo vosso, etc.” não deverá ser pronunciada, mecânica e irrefletidamente. Cada um deverá concentrar nela o mais perfeito grau de entendimento e de gratidão. Para conseguirem isto mais facilmente, convém estudar a “Síntese Marial” que consta do Apêndice 11. Esforça-se esta por mostrar o papel único desempenhado por Maria na salvação e, por conseqüência, a extensão da dívida de cada um para com Ela. Talvez a Síntese possa constituir o objeto da Leitura Espiritual e da Alocução na reunião do Praesidum um pouco antes da Acies. Sugere-se o seu uso também como Ato Coletivo de Consagração na própria cerimônia.

“Maria é o terror das potestades do inferno. Ela é “terrível como um exército em ordem de batalha” (Ct 6, 9) porque, como Chefe experimentado, sabe dispor do Seu poder, da Sua misericórdia e das Suas orações, para confusão dos Seus inimigos e proveito dos Seus servos” (S. Afonso de Ligório).

2. A Reunião Geral Anual

No dia mais próximo possível da festa da Imaculada Conceição, deverá ser feita a reunião do todos os membros. Pode-se começar a solenidade, se assim o desejarem, com uma cerimônia na igreja.

Segue-se um sarau ou encontro festivo. Se as Orações da Legião não tiverem sido rezadas na cerimônia da igreja. Deverão ser rezadas no sarau, em três vezes distintas, como nas reuniões.

Convém que na execução do programa tomem parte ativa só os legionários. Após números mais leves, poderão ser acrescentados alguns pequenos discursos e composições de interesse legionário.

Torna-se desnecessário recomendar que nesta festa não há lugar para formalidades cerimoniosas, sobretudo aquelas em que

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os legionários participantes são numerosos. Tenha-se em vista que todos os presente tomem um maior e mais íntimo conhecimento uns dos outros. Para isso, o programa deve oferecer oportunidade para se circular e conversar. Os dirigentes terão o cuidado de que os membros não façam grupinhos à parte, atrapalhando assim o fim principal da festa, que é alimentar o espírito de união e afeto no seio da família legionária.

“A alegria embebia de um doce encanto a cavalaria espiritual de S. Francisco. Como verdadeiro cavaleiro de Cristo, Francisco sentia uma indizível felicidade de servir o Seu Senhor, em segui-lO na pobreza, e em se assemelhar a Ele no sofrimento; e foi esta ditosa felicidade conseguida no serviço, na imitação e no sofrimento de Cristo, que ele anunciou a toda a terra, como nobilíssimo cantor e poeta de Deus. Toda a vida de Francisco foi regulada pela marca da alegria como característica sua. Com calma e júbilo imperturbáveis, ele cantava para si e para Deus no íntimo do seu coração, cânticos de alegria. O seu esforço constante tendia a conservá-lo alegre interior e exteriormente. Na intimidade dos seus irmãos sabia tocar com perfeição a nota da alegria pura e fazê-la atingir uma tal harmonia que eles sentiam-se elevados a um ambiente quase celeste. A mesma nota de satisfação tomava conta da conversa do Santo com os homens. Mesmo os seu sermões, apesar do caráter penitencial, se tornavam hinos de júbilo, e a sua simples presença era ocasião de alegria profunda para todas as pessoas, qualquer que fosse a sua condição social” (Felder: Os Ideais de S. Francisco de Assis).

3. Passeio anual

Esta festa data dos primeiros dias da Legião. Não é obrigatória, mas recomendada. Pode tomar a forma de excursão, peregrinação ou festa ao ar livre. A Curia determinará se deve ser festa da Curia ou do Praesidium. Neste último caso, poderão reunir-se dois ou mais Praesidia para esse fim.

4. O Sarau do Praesidium

Todo o Praesidium, assim o recomendamos insistentemente, organizará uma função recreativa nas proximidades da Festa da Natividade de Nossa Senhora. Nos centros onde existem vários Praesidia, alguns deles, se o desejarem, podem fazer a festa em conjunto.

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Poderão ser convidadas, para assistir, pessoas idôneas que, não sendo legionárias, possam deste modo ser levadas a entrar na Legião.

Recomenda-se a reza de todas as Orações Legionárias, incluindo o Terço, em três partes distintas, como nas reuniões do Praesidium. O tempo gasto com estes atos de piedade é relativamente pouco; e a homenagem assim prestada a Nossa Senhora será amplamente compensada por um maior êxito da festa. E, porque a Rainha da Legião é também a “causa da nossa alegria”, há de ouvir as preces a Ela dirigidas, convertendo essas horas em momentos de especial felicidade.

Entre as composições musicais deve ser intercalada, ao menos, uma breve palestra sobre a Legião. Desta maneira, todos serão levados a um mais perfeito conhecimento da organização e o programa se tornará, eventualmente, mais variado. O simples divertimento, sem nada que o eleve, torna-se sem sabor.

5. O Congresso

O primeiro Congresso Legionário foi celebrado pela Curia de Clare, na Irlanda, no Domingo de Páscoa de 1939. E foi tal o êxito obtido que, como acontece sempre, outros Conselhos o imitaram, sendo hoje uma solenidade firmemente enraizada no sistema da Legião.

O Congresso deve restringir-se à área de um Comitium ou de uma Curia. Assembléias de áreas mais extensas não estariam de acordo com a idéia primitiva dos Congressos e impediriam que fossem atingidos os frutos desejados. Façam-se, embora, reuniões deste gênero, mas não poderão chamar-se Congressos nem substituí-los. Nada impede, porém que se convidem visitantes de outras circunscrições.

Decidiu o Concilium que uma determinada área não realize o Congresso senão de dois em dois anos. Dedique-se para isso, um dia inteiro. A disponibilidade de uma Casa Religiosa resolverá muitas dificuldades. Se for possível, começará pela Santa Missa, seguida de uma pequena homilia, feita por um Diretor Espiritual ou outro Sacerdote, e terminará com a Bênção do Santíssimo.

O dia será ocupado por sessões, cada uma com o seu assunto próprio. Os assuntos serão expostos, em poucas palavras, por alguém de antemão preparado. Depois segue-se a discussão, em que todos devem tomar parte. Esta participação geral constitui a verdadeira vida do Congresso.

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Queremos insistir mais uma vez com os Oficiais encarregados de dirigir os debates, que tenham o cuidado de não falar demais e não intervenham constantemente nas discussões. Os Congressos, como as reuniões dos Conselhos, devem correr segundo o método parlamentar, isto é, com a participação de todos os presentes dirigida pela Presidência.

Há presidências que tendem a comentar as palavras de cada um dos oradores ou assistentes. Tal modo de agir vai contra o propósito do Congresso e não deve ser tolerado.

É para desejar a presença de representantes dos Conselhos Superiores. Estes podem ficar responsáveis por alguns dos encargos do Congresso, tais como presidir e abrir as discussões, etc.

Evite-se toda e qualquer tentativa de apenas falar bonito. Criariam um ambiente irreal, detestado pela Legião, em que morreria a inspiração e os problemas não seriam resolvidos.

O Congresso pode tomar duas feições: ou é a reunião de todos os legionários ou apenas a dos Oficiais dos Praesidia. No primeiro caso, é possível, desde o início, repartir os legionários conforme os seus cargos, e formar um grupo com os membros sem cargos determinados. Em seguida, discutem-se as obrigações e necessidades de cada grupo. Poderiam também distribuir-se conforme os trabalhos em que estão envolvidos. Tal divisão, porém, não é obrigatória. Qualquer que seja o modo de os distribuir, devem ser evitadas outras divisões nas sessões seguintes, pois não teria sentido juntar os membros para os manter separados a maior parte do tempo. Note-se que as obrigações dos Oficiais têm um objetivo mais alto do que as funções comuns de cada cargo. O Secretário, por exemplo, cujo compromisso se restringisse ao livro das Atas, seria, com certeza, um fraco Oficial. Como todos os Oficiais são membros da Curia, procurarão investigar, nas suas sessões, os métodos de aperfeiçoamento dos trabalhos, quer no que se refere às suas reuniões atuais, quer à sua administração, em geral.

O Congresso não deve ser uma reunião de Curia a mais, em que se trata das mesmas questões e particularidades administrativas. O Congresso ocupa-se do que é fundamental. À Curia pertence pôr em prática as lições aprendidas no Congresso.

Os assuntos a tratar devem dizer respeito aos princípios básicos da Legião:

a) A espiritualidade da Legião.

A Legião não terá sido compreendida, enquanto os membros não conhecerem, numa medida satisfatória, os múltiplos aspectos da sua espiritualidade; nem trabalhará como deve, enquanto esta espiritualidade não tomar conta tão intimamente de

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todos os seus trabalhos, que se possa dizer que são o seu motivo e a sua alma. Por outros termos, a espiritualidade há de animar o apostolado, como a alma anima o corpo.

b) as qualidades que são exigidas do legionário e as diversas formas de desenvolvê-las.

c) os métodos da Legião, incluindo a direção das reuniões e a questão importantíssima dos relatórios dos membros, isto é, como apresentá-los e comentá-los.

d) os trabalhos da Legião, incluindo o aperfeiçoamento dos métodos e os projetos de novas obras que possibilitem à Legião atingir todas as pessoas individualmente.

Não faltará no Congresso uma palestra especial feita por um Diretor Espiritual ou qualquer legionário qualificado sobre um dos aspectos da espiritualidade, do ideal ou dos deveres legionários.

As sessões começam e terminam com a oração. As Orações Legionárias serão distribuídas em três etapas.

Sigam-se com exatidão os horários e diretrizes dos organizadores. O desleixo neste ponto estragará o dia.

Finalmente, convém variar os programas de Congresso sucessivos, dentro da mesma área.

1. Embora convenha movimentar, no correr dos anos, o maior número possível de assuntos pouco conhecidos, de fato, porém, apenas alguns, podem ser tratados, em cada Congresso.
2. É indispensável tirar a impressão de coisa parada e cansativa. Deve-se variar a todo o custo.
3. O bom êxito de um Congresso sugere naturalmente a inserção do mesmo programa no Congresso seguinte. Note-se, porém, que o bom êxito alcançado se deve, em parte, à novidade de certos assuntos, novidade que se perdeu com a sua apresentação. Em resumo: tendo a novidade de ser um estimulante necessário em todo o Congresso, espera-se dos seus promotores um projeto sério e muito bem feito.

“Se queremos saber como a alma fiel deve preparar-se para a vinda do Divino Paráclito, vamos em espírito ao Cenáculo onde estão reunidos os discípulos. Aí, conforme a ordem do Mestre, perseveram na oração, esperando o Poder do Alto, que há de vir revesti-los da armadura necessária para a luta que os aguarda. Nesta sagrada casa de recolhimento e de paz, o nosso olhar de saudação pára sobre Maria, Mãe de Jesus, a obra-prima do Espírito Santo, o templo do Deus Vivo. Dela sairá, pela ação do mesmo Espírito, como de ventre maternal, a Igreja Militante, que esta nova Eva representa e encerra. (Guéranger: O Ano Litúrgico).

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EXPANSÃO E RECRUTAMENTO

1. O dever de expandir a Legião não é dever apenas dos Conselhos Superiores e dos Oficiais das Curiae. Pertence não só a cada um dos membros das Curiae, mas, individualmente, a cada um dos legionários. A eles se deve fazer compreender esta obrigação e pedir contas, de vez em quando, do que a este respeito realizaram. A maneira mais vulgar de cumprir este dever é o contato pessoal ou a correspondência, mas cada um descobrirá sempre, para isto, novas oportunidades.

Se numerosos centros tomassem a sério a difusão da Legião, esta estaria brevemente em toda a parte e o campo do Pai de Família teria multidões de operários decididos (Lc 10, 2). Por isso, recordem-se com freqüência a todos os membros os dois importantes temas da expansão e do recrutamento, a fim de que tomem consciência nítida dos seus deveres nesta matéria.

2. Um núcleo ativo da Legião é fonte de um bem incalculável. Ora, é evidente que o bem se duplicará pela fundação de um segundo núcleo. Por isso, todos os membros (e não só os Oficiais) devem esforçar-se por conseguir tal fim.

Quando os relatórios dos membros e outros pontos da agenda tiverem de ser abreviados de modo habitual, a fim de terminar pontualmente a reunião à hora marcada, é sinal de que o Praesidium atingiu um grau de desenvolvimento em que a criação de um novo núcleo é não só desejável, mas necessária. Caso contrário, sobrevirá um estado de acomodação, em que diminuirão o entusiasmo pelo trabalho e o número de membros. E, então, o Praesidium não só perderá o poder de transmitir a vida a novas fundações, mas há de lutar com dificuldade para manter a própria existência.

Contra o projeto da fundação de um novo Praesidium na mesma localidade, alguns dirão, talvez, que o atual número de legionários satisfaz plenamente a todas as necessidades existentes. Em resposta a esta objeção, desejamos sublinhar que o fim principal da Legião é a santificação dos seus membros e, mediante a ação destes, a santificação da própria sociedade. Por isso, e logicamente, o aumento dos membros deve ser, também, um dos fins principais. É possível que nas pequenas localidades seja difícil encontrar trabalho para os novos membros. Este problema não deve, todavia, impedir a Legião de aceitá-los nem também de procurá-los. Não podemos pôr limites ao recrutamento.

[Capítulo 31 Expansão e Recrutamento página 178]

Correríamos o risco de excluir elementos melhores do que aqueles que já trabalham em nossas fileiras. Uma vez remediadas as necessidades mais urgentes, vamos mais além e examinemos de mais perto os problemas locais. O trabalho é necessário ao funcionamento da máquina. Não o temos? Vamos procurá-lo, que existe.

Ao fundar um novo Praesidium onde outro já existe, devemos providenciar para que os Oficiais e um bom número de membros do novo Praesidium sejam transferidos do antigo. Os Praesidia considerarão grande honra oferecer os seus melhores elementos para a formação de um novo centro. Não há maneira mais proveitosa de podar um velho núcleo. O vazio deixado no seio do Praesidium, por esta generosa doação, será preenchido em breve e os seus trabalhos frutificarão por um aumento de bênçãos do céu.

Nas cidades ou localidades onde não existir a Legião e, portanto, onde não seja possível encontrar legionários experimentados, os fundadores do novo Praesidium deverão fazer um sério e assíduo estudo do Manual e dos seus comentários.

No início do primeiro Praesidium numa localidade, variem quanto possível os trabalhos. Tal modo de agir resulta em benefício geral do Praesidium: as reuniões aumentam de interesse, e será oferecida oportunidade a todos os membros para manifestarem os seus gostos e talentos.

3. Um aviso a respeito do recrutamento dos legionários. Há um perigo real em sermos exigentes demais nas condições de admissão. É evidente que o desenvolvimento espiritual e humano dos que já trabalharam por algum tempo nas fileiras da Legião deve ser superior ao do comum. Tenhamos isto presente no espírito para não exigirmos de um membro novo aquilo que só depois de algum tempo conseguiram alcançar os membros existentes.

Os Praesidia desculpam-se correntemente do reduzido número de novos membros, com o pretexto de que os elementos com condições para serem legionários são raros. Um exame atento mostra como raramente se justifica esta explicação. Somos, antes, levados a pensar que a culpa é quase sempre do próprio Praesidium. Com efeito:

a) Ou não existe esforço sério para recrutar novos membros, o que implica grave desleixo quer individual, quer coletivo, da parte dos legionários.

b) Ou o Praesidium impõe, erradamente, aos novos candidatos, condições tão duras que teriam excluído a maior parte dos membros antigos e atuais.

Os responsáveis costumam dizer que não devem correr o risco de que membros incapazes ingressem na Legião. Mas não

[Capítulo 31 Expansão e Recrutamento página 179]

devemos negar a todos, só por este motivo, as vantagens da admissão concedidas a um escasso número. Será que devemos ser exigentes demais ou muito pouco exigentes? É preferível deixar de lado o primeiro extremo, pois ele faria desaparecer o apostolado dos leigos por falta de operários. O segundo apenas ocasionará faltas que podem ter remédio.

O Praesidium adotará um meio termo, não receando expor-se, inevitavelmente, a certos riscos. O único meio de verificar se os elementos são bons ou não é experimentá-los. Se alguém não serve, não tardará a desanimar sob o peso do trabalho. Nisto está a garantia da Legião.

Quem jamais ouviu dizer que se renunciou a levantar um exército, só por se temer o recrutamento de incapazes? A formação militar tem por fim, justamente, moldar e manobrar grande quantidade de homens de tipo médio. Assim, também, a Legião, como um exército, deve aspirar a agrupar grande número de membros. Impõe, é certo, as suas condições de admissão; mas estas não devem ser tais que impeçam a entrada de bons elementos de tipo médio. A sua organização profundamente espiritual e firme foi feita não para super-homens, mas para pessoas comuns, que precisam ser moldadas e dirigidas dentro de uma disciplina. Não se trata, pois, de admitir indivíduos tão santos e discretos em tudo que não sejam uma verdadeira representação dos cristãos leigos.

Em síntese, o que há a lamentar não é o pequeno número de indivíduos capazes, mas o pequeno número daqueles que estão prontos a assumir as responsabilidades de legionários. Isto leva-nos às considerações seguintes:

a) Pessoas capazes podem deixar de entrar na Legião, porque a atmosfera que se respira no Praesidium é excessivamente carregada ou rígida ou, por outros motivos, pouco simpática.

Embora a Legião não seja só para jovens, é, todavia, a estes que deve especialmente dirigir-se, procurando satisfazer às suas nobres aspirações. Se a Legião não consegue atrair a juventude, falha no melhor dos seus fins, pois o movimento que não consegue prender a mocidade nunca exercerá grande influência. Mais: a juventude é a chave do futuro. Os seus gostos razoáveis devem ser compreendidos e tomados em consideração. Uma juventude alegre, generosa e entusiasta não deve ficar fora, por causa de exigências incompatíveis com a sua idade ou que talvez não passem de estraga-prazeres.

b) A desculpa habitual “não tenho tempo” é provavelmente verdadeira. A maior parte das pessoas tem o tempo tomado. Mas

[Capítulo 31 Expansão e Recrutamento página 180]

não é com atividades de caráter religioso: estas vêm em último lugar. Representaria para tais pessoas um benefício de alcance eterno fazer-lhes compreender que estão vivendo de acordo com uma escala errada de valores. O apostolado deve ocupar o primeiro lugar, por isso algumas das outras coisas devem descer-lhe o seu lugar.

“A lei primária de toda a sociedade religiosa é perpetuar-se através dos tempos, estender a sua ação apostólica por todo o mundo e atingir o maior número possível de almas. ‘Crescei e multiplicai-vos e enchei a terra’ (Gn 1, 28). Esta lei da vida impõe-se, como um dever, a cada pessoa que se torna membro da Sociedade. O Padre Chaminade formula-a nestes termos: ‘Devemos realizar conquistas pela Virgem Santíssima, fazer compreender àqueles com quem vivemos como é agradável pertencer a Maria, de modo a induzir muitos deles a enfileirar e marchar conosco avante.’” (Breve tratado de Mariologia, por um Marianista).

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ANTECIPANDO OBJEÇÕES PROVÁVEIS

1. “Aqui não há necessidade da Legião”.

Pessoas cheias de zelo, desejosas de fundar a Legião numa nova área, podem esbarrar com o obstáculo dos que dizem: “Aqui não há necessidade da Legião”. Ora, como a Legião não é uma organização fundada para um determinado gênero de trabalho, mas, antes de mais nada, para desenvolver o zelo e o espírito apostólico dos católicos (aplicados sem distinção a qualquer gênero de trabalho), semelhante resposta indicaria que em tal lugar não há necessidade de zelo por parte dos que professam a fé cristã. Uma tal negação não merece ser levada em consideração. No dizer do Padre Raul Plus, “O cristão é alguém a quem Deus confiou os seus semelhantes”.

O exercício de um intenso apostolado é absolutamente necessário em toda parte, sem exceção, por múltiplas razões.

[Capítulo 32 Antecipando Objeções Prováveis página 181]

1º Porque devemos dar aos membros do rebanho, que disso são capazes, uma oportunidade real para viverem a vida apostólica.

2º Porque a movimentação de todo o povo pelo apostolado é absolutamente necessária nos nossos tempos, para o impedir, em matéria religiosa, de cair na rotina ou no materialismo.

3º Porque o trabalho paciente e intenso de tais operários apostólicos é necessário para orientar aqueles que se sentem frustrados na vida ou correm o risco de se desencaminhar.

Sobre os superiores recai a responsabilidade de desenvolver ao máximo a capacidade espiritual dos que lhes estão confiados. Que dizer então do apostolado, elemento distintivo e essencial da vida cristã? Temos que chamar, portanto, as pessoas para o apostolado. Mas, de que valerá um tal chamamento, sem lhes fornecermos os meios para que o realizem? É quase como ficar calado. É que muitos dos que ouvem o chamado não conseguem ter iniciativa para realizar alguma coisa por si mesmos se não abandonados às suas próprias forças. Por conseguinte, é necessário oferecer-lhes uma máquina apropriada, na forma de uma organização apostólica.

2. “Não temos pessoas capazes”.

Esta obrigação provém, as mais das vezes, da idéia errônea sobre o tipo de trabalhador exigido. Ousamos afirmar que, de maneira geral, nos escritórios, nas fábricas, nas oficinas, há muitas pessoas com condições para serem legionários.

Estes legionários em potencial podem ser instruídos ou não, pessoas que vivem do seu trabalho ou dos seus rendimentos e, até mesmo, desempregados. O serviço da Legião não é monopólio de uma cor, raça ou classe, pois em todas elas existem legionários. A Legião tem o especial dom de saber alistar ao serviço da Igreja esta força oculta, esta nobreza de caráter ainda não desenvolvida. Monsenhor Alfred O’Rahilly, como conclusão do seu estudo sobre a atividade da Legião, escreveu: “Fiz uma grande descoberta ou, antes, verifiquei que ela estava feita: a existência de um heroísmo latente em homens e mulheres aparentemente comuns e a captação de fontes de energia até agora desconhecidas”.

Quanto às qualidades exigidas para ser membro da Legião, não devemos ser mais exigentes do que os Papas que declararam que em qualquer meio podemos formar e treinar um grupo de pessoas escolhidas para as tarefas do apostolado.

[Capítulo 32 Antecipando Objeções Prováveis página 182]

Sobre este assunto convém ler atentamente o parágrafo 3 (b) do Capítulo 31, “Expansão e Recrutamento” e igualmente o nº 6, do Capítulo 40, intitulado “A Legião, Auxiliar do Missionário”, em que se insiste no vasto movimento de adesões à Legião entre os neo-convertidos em terras de missão.

Se em qualquer lugar surgisse uma séria dificuldade no recrutamento legionário, este fato indicaria um nível espiritual extraordinariamente baixo. E isso não deveria paralisar nossa ação, mas, pelo contrário, demonstraria a extrema necessidade de um núcleo da Legião para desempenhar o papel de bom fermento. O próprio Jesus Cristo propõe a utilização do fermento (Mt 13, 33) para a transformação da sociedade.

Lembremo-nos de que para a formação de um Praesidium bastam quatro, cinco ou seis membros. Se estes se aplicarem cuidadosamente ao trabalho e compreenderem as suas exigências, depressa descobrirão e recrutarão outros membros idôneos.

3. “As pessoas se ofenderiam com a visita da Legião”.

Se assim fosse na realidade, a conclusão a tirar seria a necessidade de escolher outro gênero de trabalho e nunca o abandono da idéia de fundar a Legião, com as magníficas possibilidades que ela oferece aos seus membros e à comunidade. Fique, todavia, claro que, até agora, a Legião nunca experimentou, em matéria de visitas, dificuldades permanentes ou gerais. Na hipótese de a visita ser feita com verdadeiro espírito de apostolado legionário, conforme as orientações destas páginas, podemos afirmar, de uma maneira geral, que a frieza para com os legionários é prova de que as pessoas são indiferentes à religião ou mesmo de que são contra ela. Precisamente onde os legionários são menos desejados é que a sua atuação se torna mais necessária. Dificuldades deste gênero, experimentadas nas primeiras visitas, não justificam a sua interrupção. Os legionários que enfrentaram corajosamente estas barreiras de gelo conseguiram, quase sempre, não só derretê-las, como também remover as suas causas ocultas, mais temíveis ainda.

A família – pensemos bem sobre isso – é o alvo estratégico. Conquistar a família é ter nas mãos a sociedade. E como ganhá-la, sem nos aproximarmos dela?

[Capítulo 32 Antecipando Objeções Prováveis página 183]

4. “Os jovens trabalham a sério o dia todo: precisam de tempo livre para descansar”.

Por mais razoáveis que pareçam, se estas palavras fossem tomadas ao pé da letra, acabariam deixando o mundo inteiro sem religião, pois o trabalho da Igreja não é obra de desocupados. Além disso, muitas vezes, a juventude, cheia de vida, emprega o seu tempo livre em atividades e divertimentos pouco sadios e prejudiciais a ela mesma e aos outros. Muitos jovens não buscam um verdadeiro lazer e um saudável descanso. Isso leva a um materialismo prático. Depois de alguns anos, o coração desses jovens está seco e endurecido. Perdem muito cedo a juventude, com todos os seus sonhos. Isso quando as coisas não terminam de forma pior ainda. S. João Crisóstomo afirma que nunca conseguira convencer-se de que alguém pudesse salvar-se sem ter contribuído de algum modo para a salvação dos seus irmãos.

Como seria infinitamente mais prudente animar estes jovens a oferecer ao Senhor, na qualidade de legionários, a melhor parte do seu tempo livre! Isso os animaria pela vida inteira e conservaria no seu coração e no seu rosto a serenidade e a alegria da juventude. E lhes sobraria ainda muito tempo para o legítimo lazer, então duplamente saboreado, porque duplamente merecido.

5. “A Legião não passa de uma organização como tantas outras, com o mesmo ideal e o mesmo programa”.

É certo que os idealismos se multiplicam e que um programa de trabalhos grandiosos pode ser elaborado em poucos minutos pelo primeiro que apareça e disponha de caneta e papel; não se pode negar também que a Legião é uma das muitas organizações que nobremente se lançam à luta pela conquista dos corações e apresentam um programa importante de trabalhos; mas é também uma das poucas que definem claramente o seu apostolado.

Um vago idealismo, seguido por vagos apelos a fazer o bem, será fatalmente seguido de vagas realizações.

A Legião, porém, encarna o seu ideal numa espiritualidade definida, num programa de oração definido, numa tarefa semanal definida, num relatório semanal definido e, também, como se poderá verificar, numa realização definida. Finalmente, e isto não é o menos importante, a Legião baseia o seu método no princípio dinâmico da união com Maria.

[Capítulo 32 Antecipando Objeções Prováveis página 184]

6. “O que a Legião pretende fazer, outras organizações o fazem; não virá criar conflitos?”

Conflitos! Serão eles possíveis em localidades onde a maior parte da população não pratica a religião ou não é católica, e onde os progressos são insignificantes? Como seria triste ter de aceitar como normal este estado de coisas em que Herodes nos aparece ainda entronizado no coração dos homens, enquanto Jesus e Sua Mãe Santíssima continuam sempre obrigados a ficar no presépio miserável. Muitas vezes mesmo, este pretexto com que se nega a entrada à Legião é invocado a favor de organizações cujas obras não correspondem à fama alcançada: exércitos que, embora existam, não conquistam o inimigo.

Além disso, o trabalho que não se faz de forma adequada deixa de existir. O mesmo acontece com a obra que utiliza algumas dúzias de apóstolos no trabalho que, propriamente, exigiria centenas ou milhares. Este caso é, infelizmente, o mais comum. O reduzido número de braços revela, por vezes, falta de organização e, conseqüentemente, de entusiasmo e de método.

Estai certos de que em toda a parte há lugar para a Legião. Experimentai, concedendo-lhe um campo de ação por pequeno que seja. Em presença dos resultados que com certeza convencerão, permiti que esse punhado de legionários se multiplique como os cinco pães de cevada do Evangelho, de modo a remediar todas as necessidades espirituais e mais do que isso (Cf. Mt 14, 16-21).

A Legião, em matéria de realizações, não tem programa especial. Não pressupõe o empreendimento de novos trabalhos, mas, sim, fornecer uma base para a organização das obras já existentes, de forma a multiplicar-lhes a eficiência, como acontece com a aplicação da energia elétrica a trabalhos anteriormente manuais.

7. “Há já organizações demais. Não seria melhor injetar vida nova às existentes ou integrar nas suas funções os trabalhos propostos pela Legião?”

Este argumento significa estar fechado para o novo. Em todos os campos da atividade humana se poderia dizer que há organizações demais. A novidade não deve ser rejeitada pelo simples fato de ser novidade, pois ela traz, muitas vezes, o progresso. Por isso, a Legião reclama oportunidade de mostrar o seu trabalho. Será que não seria desastroso fechar-lhe a porta, tratando-se de uma obra de Deus?

[Capítulo 32 Antecipando Objeções Prováveis página 185]

Além disso, a objeção leva a supor que o trabalho discutido não está sendo feito. Não seria, então insensato e pouco conforme com a prática comum recusar um novo mecanismo que provou em outros lugares a sua capacidade na realização de semelhante trabalho? Como seria ridícula a mesma objeção formulada nestes termos: “Importar o avião, para quê? Já temos máquinas demais. Aperfeiçoemos o automóvel até que ele voe”.

8. “A localidade é pequena; não há espaço para a Legião”.

Não é raro ouvirmos tais palavras a respeito de localidades que, embora pequenas, conquistaram uma fama que ninguém lhes inveja.

De igual modo, uma pequena cidade ou vila pode passar por boa e, todavia, estar adormecida na rotina: paralisação das qualidades morais e dos próprios interesses humanos. Por isso, a juventude não encontrando essas qualidades e interesses, foge das zonas rurais para os centros populosos, onde lhe falta apoio moral.

A origem do mal está na ausência de ideal religioso, carência que resulta do fato de que cada um se limita apenas ao cumprimento dos deveres essenciais de cristão. O desaparecimento desse ideal deixa atrás de si a aridez do deserto (e as pequenas vilas não são os únicos desertos religiosos). Para fazermos reviver esse ideal, é necessário inverter o processo: criar um pequeno grupo de apóstolos que comunique o seu espírito aos outros e lhes mostre novos objetivos. Lançadas as obras que melhor convenham às necessidades locais, a vida se tornará alegre e terminará a fuga para as cidades.

9. “Certos trabalhos da Legião constituem atividades espirituais que, pela sua natureza, pertencem ao sacerdote, e só devem ser confiadas aos leigos quando ele não as puder realizar. Ora, eu posso visitar o meu rebanho várias vezes ao ano com resultados satisfatórios”.

A resposta a esta objeção é dada, de modo geral, no capítulo 10, “Apostolado da Legião”, e, mais particularmente, nas linhas seguintes. Mas, desde já, se observa que não se deve empreender

[Capítulo 32 Antecipando Objeções Prováveis página 186]

nenhum trabalho que o sacerdote julgue de sua exclusiva competência.

O conhecimento profundo de uma cidade, que é indiscutivelmente considerada das mais santas do mundo, revela a soma considerável de doentes espirituais e de materialistas que se debatem com os mais aflitivos problemas da civilização moderna. Dizer que uma, duas ou quatro visitas do sacerdote no correr do ano bastam para resolver esses problemas e reacender a fé é uma ilusão, mesmo que elas tenham bons resultados. Suponhamos, porém, que tudo corre bem: muitos se aproximarão da Eucaristia todos os dias; muitos mais, semanalmente; e todos ao menos uma vez por mês. Como se explica, então, que quatro ou cinco horas de confessionário por semana sejam muitas vezes suficientes? Donde provém esta desproporção tremenda?

Mais: que grau de intimidade, ou pelo menos, de contato pessoal, é exigido do pároco, para satisfazer a sua obrigação de pastor, no que respeita a cada pessoa confiada aos seus cuidados? S. Carlos Borromeu costumava dizer que um só homem era diocese suficiente para um Bispo. Um simples cálculo nos pode mostrar a soma de tempo gasto anualmente na direção espiritual dos paroquianos, se a cada um se consagrasse a média de trinta minutos. E esta meia hora bastará às necessidades de cada um? Santa Madalena Sofia Barat, além de inumeráveis entrevistas, escreveu a uma só pessoa, difícil de orientar, duzentas cartas. E quantos trabalhos legionários não duram há dez anos e mais – e prosseguem ainda!

Pois bem: o sacerdote, esgotado pelo trabalho, não pode despender, com cada um de seus paroquianos, essa escassa meia hora; por outro lado, a Legião se prontifica a oferecer-lhe – como ela afirma – numerosos e zelosos auxiliares, prontos a obedecer a cada uma de suas palavras, perfeitamente discretos, capazes, como ele e com a sua ajuda, de se aproximar dos indivíduos e da famílias; em resumo, dão a ele ajuda para que preste à comunidade mais que um ministério de rotina. Poderá ele recusar essa colaboração sem faltar aos seus deveres de sacerdote e a seus próprios interesses?

“A Legião de Maria traz ao sacerdote duas bênçãos de igual valor: primeiro, um instrumento de conquista com a marca autêntica do Espírito Divino – e, neste caso, perguntarei a mim mesmo: tenho eu o direito de rejeitar esta arma providencial? Segundo, uma fonte de água viva, capaz de remoçar inteiramen-

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te a nossa vida espiritual – e de novo me interrogarei: não terei eu a obrigação de beber desta fonte pura e abundante de vida, posta à minha disposição?” (Cônego Guynot)

10. “Temo indiscrições, sempre possíveis, por parte dos membros da Legião”.

A objeção manifesta desconhecimento do sentido das realidades. É como deixar de fazer a colheita só porque se corre o risco de, por causa de descuidos, perder alguma espiga! Ora, a seara em causa é a dos homens: homens pobres, fracos, cegos, estropiados e em tal estado de miséria e em tal número que corremos o perigo de ser levados a considerar esta situação como irremediável. E, todavia, são esses precisamente que o Senhor nos manda procurar por toda a parte – por ruas e vielas, caminhos e vales – de modo a enchermos a Sua Casa (Lc 14, 21-23). Como colher tão abundantemente messe, se para isso não mobilizarmos batalhões de leigos? É possível que se cometam indiscrições, pois, em certa medida, elas são inseparáveis do zelo e da própria vida. Há duas maneiras de nos assegurarmos contra as indiscrições: ou uma paralisação completa e vergonhosa ou uma cuidadosa disciplina. Um coração nobre, em que encontre eco a compaixão do Senhor pela multidão enferma, não hesitará em abandonar, horrorizado, a primeira alternativa, para se lançar com todas as suas forças, à conquista dos irmãos aflitos. Até o presente, graças a Deus, a Legião não tem que lamentar indiscrições freqüentes ou graves por parte dos seus membros: mostraram sempre, pelo menos, a mais cuidadosa disciplina.

11. “Em todos os começos há dificuldades”.

Por vezes as dificuldades parecem insuperáveis; e a Legião não constitui exceção entre as demais organizações da Igreja. Mas, encaradas corajosamente, se verificará que se assemelham a certas florestas que de longe parecem densas e impenetráveis, e de perto se mostram bem acessíveis.

Tenhamos presente a afirmação do Cardeal Newman: “Aqueles que se preocupam demasiadamente com o alvo nunca o atingem; quem nunca se aventurou nunca ganhou; a prudência demasiada torna-se fraqueza; e nada fará de verdadeiramente substancial quem não se expuser a imperfeições casuais”.

[Capítulo 32 Antecipando Objeções Prováveis página 188]

Quando se trata de obras sobrenaturais, não sejamos tão humanamente prudentes que ignoremos a existência da Graça. Por que insistir tanto nas dificuldades e obstáculos de toda a ordem, sem levarmos em conta os auxílios do Céu? A Legião de Maria baseia-se na oração, dedica-se a conversão dos homens e pertence inteiramente a Maria. Por isso, considerando-a, não falemos de prudência humana, mas de sabedoria divina.

“Maria é Virgem única, e nenhuma outra se lhe pode comparar. Virgo singularis. Considerando-A, não me faleis de regras humanas, falai-me antes, de regras divinas.” (Bossuet)

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PRINCIPAIS DEVERES DOS LEGIONÁRIOS

1. Participação regular e pontual na reunião semanal do Praesidium (Ver capítulo 11, Plano da Legião)

a) Fácil nos dias serenos e de boa disposição, este dever torna-se difícil nas ocasiões de mau tempo ou de grande cansaço e, em geral, quando somos tentados a ir a qualquer outra parte. É então que cada um se revela. As dificuldades são uma prova e o mérito real consiste em vencê-las.

b) É mais fácil compreender o valor do trabalho do que o da reunião, em que dele devemos dar conta; e, todavia, a participação na reunião é o dever principal. Ela é para o trabalho o que a raiz é para a flor: a condição indispensável da vida.

c) A fidelidade em participar das reuniões, apesar do longo trajeto de ida e volta, é prova de profundo espírito sobrenatural. Naturalmente, seríamos levados a julgar que o valor da reunião não compensa o tempo perdido em percorrer o caminho! Mas não é tempo perdido! Faz parte – e de elevado merecimento – do nosso trabalho total. Quem ousaria afirmar que o tempo gasto por Maria, na viagem para visitar Sua prima Isabel, foi tempo perdido?

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“A muitas outras virtudes, Santa Teresa de Lisieux acrescentava uma indomável coragem. Tinha como princípio que ‘devemos ir até ao extremo das nossas forças antes de nos queixarmos’. Quantas vezes assistia a Matinas com vertigens e fortes dores de cabeça! ‘Ainda posso andar’, costumava dizer, ‘devo por isso cumprir o meu dever’. Era esta extraordinária energia que a levava a praticar atos heróicos.” (Santa Teresa do Menino Jesus)

2. Cumprimento da obrigação do trabalho semanal.

a) Este trabalho deve ser substancial, isto é, de modo a ocupar o legionário duas horas por semana. Não nos deixemos, porém, limitar, no apostolado, por cálculos matemáticos. Grande parte dos legionários vai muito além do tempo mínimo, dando ao seu trabalho vários dias por semana, e alguns até todos os dias. O trabalho legionário deve consistir num serviço ativo, concreto, designado pelo Praesidium, e não numa tarefa ditada pelo capricho individual. As orações ou outros exercícios de piedade, por mais valiosos que sejam, não satisfazem, nem mesmo parcialmente, a obrigação do trabalho ativo.

b) O trabalho semanal é também uma forma de oração, cujas regras temos de seguir. Sem uma forte proteção sobrenatural, o trabalho não se mantém por muito tempo: ou é fácil e torna-se rotineiro e cansativo; ou interessante e esbarra talvez com resistência e obstáculos aparentes. Em ambos os casos, as considerações humanas nos levam, em breve, à desistência. Como será diferente, porém, se o legionário for acostumado a penetrar na neblina dos sentimentos naturais que escondem o verdadeiro alcance do trabalho, e a ver este na sua perspectiva sobrenatural. Quanto mais sofrimento houver numa obra, mais devemos estimá-la.

c) O legionário é um soldado. Não cumprirá, pois, os seus deveres menos corajosamente que os soldados da terra. Tudo o que é nobre, sacrificado, cavalheiresco e enérgico no caráter do soldado há de encontrar-se, no mais alto grau, no verdadeiro legionário de Maria e, conseqüentemente, refletir-se no seu trabalho.

Para o militar, o dever não é sempre o mesmo: ora tem de enfrentar a morte no campo de batalha, ora de fazer a ronda monótona de sentinela, ora de limpar os pavimentos do quartel. O dever como tal, eis o que importa. O bom soldado considera o dever em si e não o seu objeto: em todas as circunstâncias, na

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derrota como na vitória, revela a mesma inviolável fidelidade. Pois bem: a maneira como o legionário encara o dever não há de ser menos séria, nem menos rigorosa a sua aplicação aos pormenores do trabalho, aos mais insignificantes como aos mais difíceis.

d) O legionário deve trabalhar em união íntima com Maria. Um dos fins essenciais do seu apostolado, não o esqueça, é tornar Maria tão conhecida e amada daqueles de quem se aproxima, que os leve a servi-la com generosidade. Conhecê-la e amá-la são condições indispensáveis da saúde e progresso sobrenatural de cada um. “Ela toma parte nos Divinos Mistérios e pode chamar-se, com razão, a sua guardiã. Em Maria, como no mais nobre fundamento depois de Jesus Cristo, assenta a fé de todas as gerações” (AD). Convidamos todos os legionários a meditar estas sugestivas palavras do Papa Pio X: “Enquanto a devoção à augusta Mãe de Deus não lançar profundas raízes nas almas – e só então – nunca estas hão de produzir frutos de virtude e de santidade compensadores dos trabalhos e canseiras do apostolado”.

“Lembrai-vos de que estais combatendo, como Nosso Senhor no Calvário, com a certeza da vitória. Não receeis utilizar as armas que Ele afiou, nem partilhar das Suas chagas. Que importa que a vitória seja ganha nesta geração ou na futura? Segui a tradição de um labor constante e paciente e deixai o resto ao Senhor porque não nos pertence conhecer nem o dia nem a hora que o Pai, em Seus altos desígnios, determinou. Coragem! Levai o fardo da vossa responsabilidade de cavaleiros com a inflexível intrepidez das grandes almas que vos precederam.” (T. Gavan Duffy: O Preço do Dia que Desponta)

3. Relatar verbalmente na reunião o trabalho da semana

Importantíssima é esta obrigação, que constitui um dos exercícios que mais concorrem para manter o interesse pelo trabalho legionário. Por este motivo e também para informar os assistentes se exige o relatório. O cuidado com que o legionário o prepara e o modo como o apresenta são prova da sua capacidade. Cada relatório é uma pedra para o edifício que é a reunião: a integridade desta depende da perfeição dos relatórios. Todo relatório defeituoso é um atentado contra a reunião, fonte da vida legionária.

Parte importante da formação dos membros consiste na aprendizagem dos métodos de trabalho dos outros, como se

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mostram pelos seus relatórios, e em ouvir os comentários que o seu próprio relatório provoca por parte dos legionários mais experientes. É, pois, evidente que o relatório demasiado breve não aproveita nem a quem o apresenta nem a quem o escuta.

Para mais pormenores sobre o relatório e a maneira de o apresentar, veja-se o nº 9 do capítulo 18, “Ordem a observar na Reunião do Praesidium”.

“Recordai com que insistência São Paulo exorta os cristãos a socorrer e lembrar em suas orações ‘todos os homens, porque Deus quer que todos se salvem... pois Jesus Cristo se entregou a si mesmo para redenção de todos’ (1Tm 2, 6). O princípio da universalidade deste dever e do seu objeto aparece também nestas sublimes palavras de São João Crisóstomo: ‘Cristãos, vós haveis de dar contas não só de vós mesmos, mas do mundo inteiro.’” (Gratry: As fontes)

4. Segredo inviolável

Os legionários devem guardar segredo inviolável de tudo o que ouvem na reunião ou vêm a conhecer por ocasião do seu trabalho. É como legionários que eles adquirem tais conhecimentos; a sua divulgação constituiria traição intolerável para com a Legião. É evidente que temos de apresentar o nosso relatório ao Praesidium, mas mesmo então, devemos ser prudentes. Trata-se deste assunto amplamente no nº 20 do capítulo 19, “A reunião e o membro”.

“Guarda o depósito que te foi confiado.” (1Tm 6, 20)

5. Caderno de anotações

Cada membro deve ter um caderno em que anotará os dados referentes aos diversos casos. Esta maneira de proceder tem as suas razões: a) temos obrigação de fazer o trabalho com o método e a seriedade com que tratamos de um negócio; b) não perderemos de vista os casos já resolvidos, ou ainda a resolver; c) teremos assim elementos necessários para um bom relatório; d) estamos nos treinando em hábitos de ordem; e) como prova concreta do trabalho já realizado, o nosso caderno de anotações será uma poderosa arma nos momentos inevitáveis de desânimo, quando a sombra de uma dificuldade presente tenta apagar as realizações passadas.

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Estas notas devem ser confidenciais, escritas numa espécie de código, se preciso for, para esconder, de pessoas estranhas, informações delicadas. Nunca devemos fazer anotações diante dos interessados.

“Faça-se tudo convenientemente e com ordem.” (1Cor 14, 40)

6. Reza Diária da Catena Legionis

Todo legionário deve rezar diariamente a Catena Legionis (Corrente da Legião), composta principalmente do Magnificat, a oração própria de Maria, o hino vespertino da Igreja, “o mais humilde e agradecido, o mais sublime e excelso de todos os cânticos” (S. Luís Montfort).

Como o nome o indica, a Catena é o vínculo que une a Legião à vida diária de todos os seus membros (Ativos e Auxiliares), o laço que os liga a todos entre si e à sua bendita Mãe. O nome sugere também a obrigação de rezá-la todos os dias. Que o conceito de corrente, formada por elos – cada um dos quais é necessário à perfeição do todo – sirva de advertência contra o descuido, que pode levar o legionário a ser um elo partido na cadeia da oração diária da Legião.

Os legionários, a quem as circunstâncias forçaram a abandonar as fileiras ativas da Legião, e mesmo aqueles que a deixaram por razões menos aceitáveis, deveriam continuar esta belíssima prática e manter assim intacto, durante toda a vida, ao menos este vínculo com a Legião.

“Quando eu quiser conversar familiarmente com Jesus, hei de fazê-lo de cada vez, em nome de Maria e, até certo ponto, em sua pessoa. Por mim, ela deseja reviver as horas de doce intimidade e inefável ternura, que passou em Nazaré com seu amado Filho. Com a minha ajuda se alegrará novamente em conversar com ele; graças a mim, há de abraçá-l’O e estreitá-l’O contra o seu coração como outrora em Nazaré.” (De Jaegher: A Virtude da Confiança)

7. As relações entre os membros

Embora os legionários estejam dispostos a cumprir, em geral, o dever da caridade fraterna, esquecem-se, às vezes, de que tal dever requer uma atitude bondosa e indulgente com os aparentes defeitos dos colegas. Qualquer falta, neste ponto, privará

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o Praesidium de inúmeras graças e pode levar muitos à resolução desastrosa de abandonar a Legião.

Por outro lado, todos devem ter juízo suficiente para compreender que a sua fidelidade à Legião não pode depender do fato de este Presidente ser simpático ou aquele colega tratável; nem tampouco tem nada a ver com desfeitas reais ou imaginárias, com qualquer falta de consideração, com esta discordância ou aquela censura ou outros incidentes semelhantes.

A renúncia a si próprio é o fundamento de todo o trabalho em comum. Sem ela, os melhores operários tornam-se uma ameaça constante para a organização. Os melhores servidores da Legião são aqueles que, deixando de lado, um pouco, seu próprio “eu”, se adaptam completa e harmoniosamente aos métodos e princípios legionários. Ao contrário, aquele que diz ou faz qualquer coisa contrária à doçura que deve caracterizar a Legião abre uma artéria no organismo – ato cujas conseqüências podem ser fatais. Cuidem, pois, de construir e não destruir, de unir e não de dividir.

Ao tratar das relações de legionário para legionário, é necessário sublinhar de modo particular o que leviana e impropriamente se chama de “pequenas invejas”. A inveja raramente é pequena. É amargor de coração que envenena todas as relações humanas. Nas pessoas más, é uma força feroz e louca, capaz dos atentados mais horríveis. Nas pessoas generosas e nos corações puros, explora a sua natureza sensível e carinhosa. Como é duro ver-se substituído por outro, ultrapassado em virtude ou em êxito, posto de lado, para dar lugar aos mais novos! Como é amargo contemplar o eclipse de si próprio! Até mesmo os santos sentiram este tormento secreto, e conheceram deste modo a sua estupenda fraqueza! Na realidade, essa amargura não é senão ódio adormecido, prestes a romper em labareda destruidora.

O esquecimento pode trazer-nos algum alívio. Mas o legionário deve procurar um fim mais elevado que esta paz; só deve contentar-se com a vitória completa, o triunfo – tão cheio de mérito – sobre a natureza revoltada, a transformação total da inveja, que é semi-ódio, em amor cristão. Como realizar, porém, semelhante milagre? Cumprindo plenamente os deveres legionários para com os companheiros e para com aqueles que o rodeiam, vendo e reverenciando em todos a Jesus Cristo, seu Senhor, como lhe foi ensinado. Cada manifestação da inveja deve vir de encontro a esta reflexão: “A pessoa, cuja exaltação tanto me amargura, não é outra senão o Senhor. Os meus sentimentos, por isso, devem ser os de João Batista: muito me alegro em

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ver Jesus exaltado à minha custa: é preciso que Ele cresça e eu diminua”.

Esta atitude exige uma santidade heróica. É a matéria prima de um glorioso destino. E que honrosa oportunidade para que Maria liberte de toda mancha de vaidade o coração do legionário, através do qual a luz há de resplandecer para outros homens (Jo 1, 7), e formar assim o embaixador desinteressado que prepare o caminho adiante do Senhor (Mc 1, 2).

Um precursor deve sempre desejar ver-se posto na sombra por aquele a quem anuncia. O verdadeiro apóstolo se alegrará com o progresso dos outros, nunca interpretando o crescimento deles como diminuição de si próprio. Não merece o nome de apóstolo aquele que só quer o progresso dos outros quando isso não lhe faz sombra. Tal inveja mostraria que preferimos a tudo a satisfação do nosso “eu”, ou seja, do nosso egoísmo. No verdadeiro apóstolo, o “eu” é relegado sempre para o último lugar. Mais: o verdadeiro apostolado não combina com o espírito de ciúme.

“Com as primeiras palavras de respeito e carimbo, Maria transmite o primeiro impulso santificante, que vai purificar essas duas almas, regenerando João Batista e enobrecendo ao mesmo tempo a Isabel, sua mãe. Ora, se as suas primeiras palavras operaram tais maravilhas, que devemos pensar dos dias, semanas e meses que se seguiram? Maria dá sempre... E Isabel recebe – por que não o dizer? – recebe sem inveja! Isabel, a quem Deus concedeu também milagrosamente a graça da maternidade, inclina-se diante da sua jovem prima, sem a mínima amargura secreta, por não ser ela a eleita do Senhor. Isabel não tinha inveja de Maria e também Maria mais tarde não terá inveja do amor que seu divino Filho há de consagrar aos apóstolos. Assim como S. João Batista não invejará Jesus, porque os próprios discípulos o abandonaram para seguir o Filho de Deus. Sem o mínimo vestígio de ciúme, vê-os afastarem-se de si, comentando o caso apenas com estas palavras: ‘Aquele que veio do alto está acima de todos... Importa que Ele cresça e que eu diminua’. (Jo 3, 30-31) (Perroy: A Humilde Virgem Maria)

8. Relações entre os companheiros de visita

Os legionários têm deveres especiais para com os companheiros de visita. “Enviou-os dois a dois adiante d’Ele” (Lc 10, 1). O número “dois” tem aqui significação mística: é o símbolo da ca-

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ridade, de que dependem os bons frutos da ação. “Dois” não quer dizer só duas pessoas que casualmente trabalham juntas, mas união perfeita entre dois corações, como a de David e Jônatas, dos quais está escrito que cada um amava o outro como a sua própria alma (1Sm 18, 1).

Os que se lançam ao trabalho de salvação do próximo com este espírito hão de ser verdadeiramente abençoados; e quando “voltarem virão contentes, trazendo os seus feixes” (Sl 126, 6).

É nos mínimos pormenores que se manifesta e progride a união entre os dois visitantes. Promessas não cumpridas, faltas aos encontros marcados, faltas de pontualidade, quebras de caridade por pensamentos ou palavras, pequenas indelicadezas, ares de superioridade cavam entre os dois uma trincheira e tornam impossível a união.

“Para uma congregação religiosa, depois da sua disciplina, a mais preciosa garantia de bênçãos e de fecundidade é a caridade fraterna, a união íntima de todos. Devemos amar todos os nossos irmãos sem exceção, como filhos privilegiados e escolhidos de Maria. O que fizermos a qualquer dentre eles, Maria considerá-lo-á como feito a si mesma ou, antes, ao Seu Filho Jesus – visto todos os nossos irmãos serem chamados por vocação a tornar-se, com Jesus e em Jesus, verdadeiros filhos de Maria.” (Pequeno Tratado de Mariologia, por um Marianista).

9. Expansão da Legião

O recrutamento de novos membros faz parte das obrigações de todo legionário. “Amarás o próximo como a ti mesmo”, diz Nosso Senhor. Ora, se a Legião é uma bênção para todos aqueles que a ela pertencem, é dever dos seus membros procurar partilhá-la com outros. Se alguém verifica que os irmãos se elevam pelo seu trabalho, não deverá ele desejar estender este trabalho? Enfim, poderá o legionário deixar de se esforçar por alistar novos membros, sabendo que a Legião os faz progredir no amor e serviço de Maria, a maior bênção depois de Jesus que pode entrar numa vida? Porque Deus fez dela – dependente e inseparavelmente de Cristo – a raiz, o crescimento e a floração da vida sobrenatural.

Existem pessoas que nunca pensarão em entrar pela Estrada da Vida, se nós não nos aproximarmos delas e insistirmos com elas. E, bem lá no fundo, é essa Estrada que procuram e é essa

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Estrada que as levará a conquistar graças extraordinárias. E, através delas, muitas outras pessoas também descobrirão o caminho.

“Diante de todos os mortais se abre um caminho – e muitos caminhos – e um caminho. A alma nobre envereda pelo caminho elevado; a alma mesquinha arrasta-se no caminho baixo; e entre os dois, nos planaltos brumosos, as outras marcham ao acaso. Diante de todos os homens se abre um caminho elevado e um caminho baixo e cada um decide do caminho a seguir.” (John Oxenham).

10. Estudo do Manual

Todo membro tem o rigoroso dever de estudar a fundo o Manual. É a exposição oficial do que é a Legião. Contém, o mais resumidamente possível, aquilo que de mais importante todo legionário bem informado deve saber a respeito dos princípios, leis, métodos e espírito da organização. Os membros – particularmente os Oficiais – que não estudam o Manual tornam-se absolutamente incapazes de pôr em prática, como deve ser, o sistema da Legião. Por outro lado, um conhecimento cada vez mais íntimo traz consigo um aumento de eficiência do trabalho. E – fenômeno estranho! – o interesse irá crescendo de dia para dia, e a qualidade será proporcional à quantidade.

“Extenso demais!”, ouve-se não raras vezes; e – que despropósito! – estas palavras partem às vezes de pessoas que consagram diariamente à leitura dos jornais o tempo suficiente para ler a maior parte do Manual.

“Extenso demais! Pormenorizado demais!” Ouviríamos nós esta queixa de um estudante de Direito, de Medicina ou da Escola de Guerra, diante de um livro com o mesmo tamanho, no qual ele pudesse encontrar todos os conhecimentos referentes à sua especialidade? Ao contrário, haveria de decorar numa semana ou duas todas as idéias, mesmo palavra por palavra, contidas nesse tratado. Na verdade “os filhos deste século são mais hábeis no trato com os seus semelhantes do que os filhos da luz” (Lc 16, 8).

Fala-se também que o “Manual está cheio de noções difíceis e de assuntos muito elevados, e que isso dificulta a compreensão para os membros mais jovens e menos instruídos. Por que não lhes apresentar um Manual simplificado?” Não deveria ser necessário fazer notar que tal sugestão é contrária aos princípios básicos da educação, os quais requerem que o estudante seja in-

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troduzido gradualmente em terreno desconhecido. Se o aluno conhecesse perfeitamente de antemão o assunto a tratar, não poderia haver ensino; este cessa onde acaba a novidade a propor ao espírito. Por que deveria, pois, o legionário esperar compreender perfeitamente o Manual, à primeira vista, quando ninguém espera de um escolar que entenda logo o seu livro de álgebra ou de latim? É próprio da aula e da noção de ensino tornar claro o que não era claro, introduzir o aluno no domínio do conhecimento.

“Até as palavras são difíceis”. No entanto, não haverá possibilidade de entendê-las? O vocabulário do Manual não é tão elevado que não se possa compreender com algumas perguntas a uma pessoa competente e um bom dicionário. De fato, é exatamente o vocabulário dos jornais diários lidos por toda a gente. Quem jamais ouviu alguém sugerir que estes jornais deveriam ser simplificados? O brio e o catolicismo do legionário deveriam animá-lo a conseguir entender e usar as palavras necessárias para explicar os princípios da sua fé e da Legião.

O que acabamos de expor a respeito do vocabulário do Manual vale também a respeito de suas idéias. Não são obscuras. “No ensino da Igreja não há um corpo doutrinal acessível apenas a alguns” (Arcebispo McQuaid). Prova isso o fato de legionários sem conta, pessoas comuns, do povo simples, terem entendido completamente essa doutrina e terem feito dela o alimento e a substância de suas vidas. Também não são desnecessárias. De fato, é impossível cumprir de modo satisfatório o dever do apostolado sem a sua compreensão racional, pois se trata dos princípios básicos, quer dizer, da verdadeira vida de apostolado. Sem uma compreensão suficiente de tais princípios, o apostolado não tem sentido autêntico, quer dizer, faltam-lhe as raízes sobrenaturais, e, de tal forma, que não tem o direito de chamar-se cristão. A diferença entre o apostolado cristão e a campanha indefinida de apenas “fazer o bem” é como a distância entre o céu e a terra.

É necessário compreender, portanto, as idéias apostólicas do Manual e o Praesidium desempenha a função de mestre. Isso se consegue através da leitura espiritual e da Alocução, dentro das reuniões; e, fora destas, pela leitura e estudo metódicos, a que os legionários devem ser incessantemente animados. Mas os conhecimentos têm de ultrapassar a esfera teórica. Cada parte do trabalho ativo deve unir-se à doutrina apropriada e receber, deste modo, um significado espiritual.

Perguntaram um dia a Santo Tomás de Aquino como fazer para tornar-se douto. Replicou este: “Lede um livro. Procurai compreender bem o que ledes ou ouvis e atingir a certeza onde

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irrompe a dúvida”. Não tinha o grande mestre em vista nenhuma obra em particular, mas qualquer livro digno de ser lido. As suas palavras podem servir de incentivo a todos os legionários para um estudo exaustivo do Manual.

Além disso, o Manual oferece também um valioso conteúdo catequético. Apresenta de uma forma simples e abreviada a religião católica, em conformidade com a legislação do Concílio Vaticano II.

“Embora São Boaventura considerasse a ciência como o resultado de uma iluminação interior, não desconhecia, no entanto, o trabalho que o estudo exige. Por isso, citando São Gregório, apresentava como exemplo de estudo o milagre das bodas de Caná, na Galiléia. Jesus Cristo não criou o vinho do nada, mas ordenou aos servos que enchessem as talhas de água. De igual modo, o Espírito Santo não concede inteligência espiritual e ciência ao homem que não enche a sua talha, isto é, a sua mente, com água, isto é, com os conhecimentos adquiridos pelo estudo. Não há iluminação sem esforço. A compreensão das verdades eternas é a recompensa do trabalho do estudo, de que ninguém pode estar dispensado.” (Gemelli: A Mensagem Franciscana ao Mundo).

11. Estar sempre de serviço

Na medida em que a prudência o aconselhe, o legionário deve procurar impregnar do espírito da Legião todas as ocupações da vida diária e estar sempre alerta para aproveitar as oportunidades e promover os objetivos gerais da Legião: destruir o império do pecado, arrancá-lo e plantar nas suas ruínas o estandarte de Cristo Rei.

“Encontra-vos um cavalheiro na rua e pede-vos um fósforo. Falai-lhe e dentro de dez minutos perguntar-vos-á por Deus” (Duhamel). E por que não provocamos esse contato vivificante pedindo-lhe nós o fósforo? Vezes sem conta, a ponto de ameaçar converter-se em costume, entende-se e pratica-se o Cristianismo apenas em parte, isto é, como uma religião individualista, destinada exclusivamente ao benefício de si mesma e desinteressada por completo dos irmãos que nos rodeiam. É o “meio círculo do Cristianismo”, tão reprovado por Pio XI. Evidentemente, o mandamento que nos ordena amar a Deus com todo o coração, com toda a alma e com toda a mente, e ao próximo como a nós mesmos (Mt 22, 37-39) caiu em muitos ouvidos dispostos a não o escutar.

[Capítulo 33 Principais Deveres dos Legionários página 199]

Considerar o ideal legionário como uma espécie de santidade destinada apenas a alguns escolhidos seria uma prova concreta desta visão gravemente errada: o ideal legionário é tão somente o ideal cristão elementar. Não é fácil compreender como é possível alguém descer abaixo das suas exigências e ter, no entanto, a pretensão de amar ativamente o próximo, como nos é imposto pelo grande Preceito. Este amor faz parte integrante do verdadeiro amor de Deus e de tal forma que, sem ele, o ideal cristão fica deformado. “Temos de salvar-nos todos juntos e juntos devemos apresentar-nos diante de Deus. Que nos diria o Senhor se alguns de nós se apresentassem diante d’Ele sem os outros?” (Péguy).

Um tal amor deve derramar-se nos corações dos nossos irmãos, sem distinção, individual e conjuntamente, não sob a forma de mero sentimento, mas de dever, de serviço e de dedicação. O legionário deve ser a corporização simpática deste Cristianismo autêntico. Se a Verdadeira Luz que veio a este mundo não se erguer, à vista dos homens, com raios numerosos e fulgurantes, quer dizer, através dos exemplos práticos de uma vida realmente cristã, não só há o perigo, mas a certeza de não se refletir no padrão comum da vida dos católicos. Estes se deixarão afundar até o último escalão que os separa do inferno. A religião ficaria assim sem o seu caráter nobre e desinteressado ou, por outros termos, seria o inverso ridículo do que dela se espera, incapaz de atrair e defender quem quer que seja.

Serviço significa disciplina. Estar sempre de serviço significa manter uma disciplina constante. Por isso, a linguagem do legionário, o modo de se vestir, as maneiras, todo o seu porte, por mais simples, nunca devem trair a sua fé. Muitas pessoas procuram apanhar em falta aqueles que elas vêem trabalhar a favor da religião. Quedas, que em outros dificilmente atrairiam a atenção, serão julgadas vergonhosas no legionário e hão de inutilizar em grande parte os seus esforços de fazer o bem. Não há nada que estranhar: é razoável exigir de quem quer que anime os outros a um ideal superior um tipo de vida que sirva de exemplo.

Mas nisto, como em tudo, deve prevalecer o bom senso. Os bem intencionados não devem deixar-se afastar do apostolado pela consciência das suas próprias deficiências; seria acabar com todo o trabalho apostólico. Nem pensem que seja hipocrisia aconselhar uma perfeição que eles mesmos não possuem. “Não, diz São Francisco de Sales, não é ser hipócrita falar melhor do que agir. Se assim fosse, Deus meu! Aonde isso nos levaria? Teríamos de ficar calados”.

[Capítulo 33 Principais Deveres dos Legionários página 200]

“A Legião quer simplesmente viver o catolicismo normal. Dizemos normal e não medíocre. Hoje em dia pensamos comumente que católico normal é aquele que pratica a religião em proveito próprio, sem interesse algum ativo pela salvação de seus irmãos. Ora, semelhante indivíduo é a caricatura do católico fiel e do próprio catolicismo. O católico medíocre não é o católico normal. Deveríamos sujeitar a uma crítica cerrada, a um processo de revisão, a noção de “bom católico” ou de “católico praticante”. Há um mínimo de trabalho apostólico, abaixo do qual ninguém pode se dizer católico, e este mínimo indispensável por que seremos julgados no juízo final não é atingido pela massa dos católicos ditos praticantes. Nisto reside um drama e um equívoco fundamental.” (Cardeal Suenens: Teologia do Apostolado).

12. O legionário deve unir a oração ao trabalho

Embora o Membro Ativo tenha como única obrigação diária a reza da Catena Legionis, aconselha-o vivamente a Legião a incluir no seu programa cotidiano todas as orações da Tessera. Obrigatórias para o Auxiliar, seria reprovável que os Ativos contribuíssem menos neste ponto para a causa comum do que os seus incontáveis cooperadores espirituais. Os Auxiliares, é certo, não trabalham ativamente, mas também é indiscutível que melhor serve a Rainha da Legião o Auxiliar que reza do que o legionário Ativo que trabalha mas não reza. Este age contra as intenções da Legião que, no ataque, reserva aos Ativos a função de pontas de lança e aos Auxiliares, apenas a função de haste.

Mais: o fervor e a perseverança dos Auxiliares dependerão, em grande parte, da convicção de que, pela sua colaboração, completam um serviço sacrificado e heróico, muito superior ao deles. Por mais este motivo, o Ativo deve ser para o Auxiliar um exemplo e um estímulo. Mas como é pouco animador o exemplo do Ativo que nem sequer cumpre o dever de piedade exigido do Auxiliar, deixando-nos na dúvida sobre qual dos dois serve melhor a Legião!

Todo legionário Ativo ou Auxiliar deve alistar-se na Confraria do Santíssimo Rosário. As vantagens são imensas. (Veja-se Apêndice 7.)

“Em toda prece se invoca, ao menos implicitamente, o Santíssimo Nome de Jesus, embora as palavras ‘por Jesus Cristo, Nosso Senhor’,

[Capítulo 33 Principais Deveres dos Legionários página 201]

não sejam ditas expressamente: Jesus é o Mediador único, a quem todo pedido tem de ser apresentado. O mesmo deve dizer-se, também, da Mãe de Deus: quer uma pessoa dirija a sua súplica diretamente ao Pai, quer a confie a um anjo ou a um santo, sem recorrer ao nome santíssimo de Maria, nem por isso este nome bendito deixa de ser implicitamente invocado, em virtude da associação necessária com Jesus Cristo, único Mediador. A invocação de Deus é invocação virtual de Maria; a invocação do Filho, como Homem, é invocação da Mãe; a invocação dos santos é também invocação da Senhora.” (Canice Bourke, O. F. M. Cap.: Maria)

13. A vida interior dos legionários

“Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20). A vida interior orienta os nossos pensamentos, desejos e afetos para o Senhor. O modelo desta vida é Nossa Senhora. Maria progredia continuamente na santidade: o progresso espiritual é, acima de tudo, avanço na caridade e no amor, e Maria cresceu na caridade a vida inteira.

“Todos os cristãos, em qualquer estado ou modo de vida, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição do amor... Todos os cristãos são chamados e devem tender, à santidade e perfeição do próprio estado” (LG 41, 42). A santidade consegue-se pela prática da vida. “Toda a santidade consiste no amor a Deus e todo o amor a Deus consiste em fazer a Sua vontade” (Santo Afonso M. de Ligório).

“Para poder descobrir a vontade concreta do Senhor sobre a nossa vida, são sempre indispensáveis a escuta pronta e dócil da palavra de Deus e da Igreja, a oração filial e constante, a relação com uma sábia e amorosa direção espiritual, a leitura, feita na fé, dos dons e dos talentos recebidos, bem como das diversas situações sociais e históricas em que nos encontramos” (ChL 58).

A formação espiritual dos legionários a nível de Praesidium concorre poderosamente para o desenvolvimento da própria santidade. Convém que nos lembremos, porém, de que a orientação espiritual é coletiva. Uma vez que cada membro é um indivíduo único com necessidades próprias, é desejável que a direção coletiva seja completada por uma orientação individual, por “uma sábia e amorosa direção espiritual” (Op. C).

Para a vida cristã há três exigências necessárias, ligadas entre si: a oração, o espírito de sacrifício e os sacramentos.

[Capítulo 33 Principais Deveres dos Legionários página 202]

a) A oração

Como cada um de nós é, por natureza, indivíduo e ser social, a nossa oração deve abranger necessariamente dois aspectos: tem de ser individual e social. O dever da oração obriga-nos, antes de mais nada, como indivíduos; mas obriga também o todo, em que os indivíduos se ligam entre si por vínculos sociais. A Liturgia – como a Missa e o Ofício Divino – é o culto público da Igreja. O Vaticano II comenta, no entanto: “O cristão, chamado a rezar em comum, deve entrar também no seu quarto para rezar a sós ao Pai, e até, segundo ensina o Apóstolo, deve rezar sem cessar” (SC 12). Os exercícios pessoais incluem: “A meditação, o exame de consciência, os retiros espirituais, a visita ao Santíssimo Sacramento e as orações particulares em honra de Nossa Senhora, entre as quais destaca-se a do Rosário” (MD 186). “Nutrindo intensamente nos fiéis a vida espiritual, dispõem-nos a tomar parte frutuosamente nas sagradas funções e evitam o perigo de que as preces litúrgicas se reduzam a vão ritualismo” (MD 187).

A leitura espiritual, em particular, concorre para desenvolver as convicções cristãs e ajuda muito a vida de oração. Devemos preferir a leitura do Novo Testamento, com um comentário católico conveniente (DV 12), e os clássicos católicos, escolhidos de acordo com as nossas necessidades e capacidades. É aqui que um “sábio” guia é especialmente importante. As Vidas dos Santos bem escritas constituem uma boa introdução à vida espiritual. Fornecem orientações que nos atraem para o bem e o heroísmo. Os Santos são a concretização visível das doutrinas e exercícios da santidade. Se conhecermos suas vidas, imitaremos em breve as suas virtudes.

Dentro do possível, todo legionário deve fazer um retiro fechado uma vez por ano. O fruto dos retiros e recolhimentos é uma visão mais clara de nossa vocação pessoal no mundo e uma decisão firme de viver essa vocação com fidelidade.

b) Espírito de sacrifício

O espírito de sacrifício de que falamos aqui tem como fim libertar-nos do egoísmo, para que Cristo possa viver plenamente em nós. Podemos chamá-lo de autodisciplina para amar a Deus de todo o coração e, aos outros, por amor a Deus. A necessidade do sacrifício brota do pecado original, que turva a inteligência, enfraquece a vontade e facilita as paixões para o mal.

O primeiro passo a dar é o cumprimento voluntário daquilo que a Igreja estabelece nos dias e estações do ano consagrados à penitência e a forma como devemos observá-la. O sistema da

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Legião, devidamente seguido, constitui um exercício válido de sacrifício.

Vem depois a amorosa aceitação, das mãos de Deus, das “cruzes, trabalhos e decepções da vida”. Segue-se o domínio positivo dos sentidos, especialmente do olhar, ouvir e falar. Estes exercícios ajudam a controlar a memória e a imaginação. O sacrifício envolve também a vitória sobre a preguiça, o mau humor e as atitudes egoístas. Leva-nos a um comportamento delicado e amável com aqueles que vivem ou trabalham conosco. O apostolado pessoal – a amizade levada à sua conclusão lógica – implica, por outro lado, o espírito de sacrifício, pois o apóstolo assume o incômodo de ajudar os amigos a endireitar a vida, de uma forma bondosa e delicada. “Fiz-me tudo para todos para salvar alguns a todo custo” (1Cor 9, 22), diz S. Paulo. Os esforços necessários para reprimir as tendências perigosas e cultivar os bons hábitos servem também para reparar os pecados pessoais e os dos outros membros do Corpo Místico. Se Cristo, a Cabeça, sofreu por causa dos nossos pecados, é normal que sejamos solidários com Ele; se Cristo, inocente, pagou por nós, culpados, devemos fazer alguma coisa com certeza. Toda prova clara de pecado inspira o cristão generoso a fazer atos positivos de reparação.

c) Sacramentos

A união com Cristo tem a sua fonte no Batismo, o seu desenvolvimento posterior na Confirmação, e a sua realização e poderoso alimento na Eucaristia. Como estes Sacramentos são tratados em diversas partes do Manual, vamos tratar aqui do Sacramento em que Cristo continua a exercer o seu misericordioso perdão através de alguém que age em seu lugar – o sacerdote católico. Este Sacramento tem vários nomes: Confissão, Penitência e Reconciliação. Confissão, porque é o franco reconhecimento dos pecados cometidos; Penitência, porque envolve mudança de vida; Reconciliação, porque mediante este Sacramento o penitente reconcilia-se com Deus, com a Igreja e com todo o gênero humano. Está intimamente ligado à Eucaristia, porque o perdão de Cristo nos chega pelos méritos da Sua morte – morte que celebramos na Eucaristia.

Aproveite cada legionário o convite de Cristo para se encontrar com Ele pessoalmente no Sacramento da Reconciliação, de forma freqüente e regular, “Sacramento que aumenta o conhecimento próprio, desenvolve a humildade cristã, arranca pelas raízes os maus costumes, combate o descuido e a fraqueza

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espiritual, purifica a consciência, fortifica a vontade, presta-se à direção espiritual e aumenta a graça” (MC 87). Depois de experimentar os benefícios do Sacramento da Reconciliação, os legionários se sentirão estimulados a partilhá-los com as outras pessoas, convidando-as para a Confissão.

Resumindo: a salvação do gênero humano e a sua santificação, assim como a transformação do mundo, resultam da vida de Cristo nos corações e na vida das pessoas. Nisto reside, por excelência, o problema vital.

“A espiritualidade mariana, assim como a devoção correspondente, tem riquíssima fonte na experiência histórica das pessoas e das diversas comunidades cristãs que, no seio de vários povos e nações, vivem sobre a face da terra. A este propósito, gratifica-me recordar, dentre as muitas testemunhas e mestres de tal espiritualidade, a figura de S. Luís Maria Grignion de Montfort que propõe aos cristãos a consagração a Cristo pelas mãos de Maria, como meio eficaz para viverem fielmente os compromissos batismais” (RMat 48).

“Existe uma ligação orgânica entre a nossa vida espiritual e os dogmas. Os dogmas são luzes no caminho da nossa fé: iluminam-no e tornam-no seguro. Por outro lado, se a vida é reta, a nossa inteligência e coração estarão abertos para acolher a luz dos dogmas da fé” (CIC 89).

14. O legionário e a vocação cristã

Mais do que a execução de um trabalho apostólico, a Legião propõe uma forma de viver a vida cristã. A formação legionária destina-se a influenciar todos os aspectos e horas da vida. Quem é legionário só durante a reunião e a distribuição do trabalho semanal não vive o espírito da Legião.

A Legião tem como objetivo ajudar os seus membros e aqueles com quem eles estão em contato a viver a vocação cristã de forma perfeita. Esta vocação tem a sua fonte no Batismo. Pelo Batismo, tornamo-nos um com Cristo. “Tornamo-nos não só outros Cristos, mas o próprio Cristo” (Santo Agostinho).

Incorporados em Cristo pelo Batismo, cada membro da Sua Igreja participa do Seu sacerdócio, profetismo e realeza.

Participamos da missão sacerdotal de Cristo pelo culto particular e público. A forma mais elevada de culto é o sacrifício. Pelo sacrifício espiritual, oferecemos-nos e oferecemos todas as nossas atividades a Deus, nosso Pai. Falando dos fiéis leigos, diz

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o Concílio Vaticano II: “Todos os seus trabalhos, orações e empreendimentos apostólicos, a vida conjugal e familiar, o trabalho de cada dia, o descanso do espírito e do corpo, se forem feitos no Espírito, e as próprias dificuldades da vida, suportados com paciência, se tornam outros tantos sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus por Jesus Cristo (1Pd 2, 5); sacrifícios estes que são piedosamente oferecidos ao Pai, juntamente com o oferecimento do Corpo do Senhor, na celebração da Eucaristia. Deste modo, os leigos, agindo em toda a parte santamente, como adoradores, consagram a Deus o próprio mundo.” (LG 34)

Participamos também da missão profética (ensinar) de Cristo, que proclamou o reino de Seu Pai, pelo testemunho da vida e pela força da palavra (LG 35). Como fiéis leigos, recebemos a capacidade e a responsabilidade de aceitar o Evangelho com fé e proclamá-lo por palavras e ações. O maior serviço que podemos prestar às pessoas é apresentar-lhes as verdades da fé – dizer-lhes, por exemplo, quem é Deus, quem é o homem, qual a finalidade da vida e o que se segue à morte. Acima de tudo, falar-lhes de Cristo, Nosso Senhor, que contém em si toda a verdade. Não é necessário saber argumentar, apresentar provas do que dizemos; basta conhecer e viver estas verdades e ter consciência da diferença que representam; falar delas de forma inteligente, comunicar suficientemente o seu sentido, de modo a despertar o interesse e levar as pessoas a procurarem, talvez, uma informação mais completa.

Pertencer à Legião ajuda a melhor conhecer e viver a fé. Ajuda também, com forte motivação e experiência, a falar da religião a estranhos. Mas aqueles que têm mais direito à nossa caridade apostólica são os que encontramos habitualmente em casa, na escola, no trato dos negócios, no exercício da profissão, nas atividades sociais e nas horas livres. Normalmente, não fazem parte do trabalho legionário que nos é atribuído, mas, apesar disso, as pessoas com que nos relacionamos nos foram confiadas por Deus.

Participamos também da missão real de Cristo vencendo o pecado em nós mesmos e servindo os companheiros de jornada, pois reinar é servir. Cristo disse que tinha vindo para servir e não para ser servido (Mt 20, 28). Participamos desta missão de Cristo sobretudo fazendo bem o trabalho, qualquer que ele seja, em casa ou fora, por amor a Deus e como serviço prestado aos outros irmãos. Com o nosso trabalho bem feito, ajudamos a construir um mundo melhor, um lugar mais agradável para nele

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viver. Fazer com que o espírito do Evangelho penetre e aperfeiçoe a ordem temporal – os trabalhos terrenos – é tarefa privilegiada dos cristãos.

No Compromisso Legionário pedimos a graça de ser instrumento dos soberanos desígnios do Espírito Santo. É certo que as nossas ações devem ser sobrenaturalmente motivadas, mas a nossa natureza humana deve oferecer ao Espírito Santo um instrumento perfeito, tanto quanto possível.

Cristo é uma Pessoa Divina, mas a natureza humana de que era dotado cumpria a parte respectiva nas suas ações: a sua inteligência humana, a sua voz, o seu olhar, o seu comportamento. As pessoas, mesmo as crianças, que percebem as coisas melhor que todos, gostavam da sua companhia. Era um hóspede bem-vindo a todas as mesas.

S. Francisco de Sales era alguém que tinha uma postura e um jeito de tratar as pessoas que o ajudavam a guiá-las no caminho da conversão. Recomenda ele, a quem quiser praticar a caridade, o dever de cultivar o que chama “as pequenas virtudes”: a benevolência, a cortesia, as boas maneiras, a delicadeza, a paciência e compreensão, especialmente com as pessoas difíceis.

“A identidade de sangue implica, entre Jesus e Maria, uma semelhança de formação, de feições, de tendências, de gostos e de virtudes; não só porque a identidade de sangue causa, com freqüência, tal semelhança, mas porque, no caso de Maria, – em virtude de a sua maternidade ser um fato inteiramente de ordem sobrenatural, efeito duma graça transbordante – esta graça se apoderou do princípio mais ou menos comum da natureza e o desenvolveu a ponto de a tornar uma imagem viva, um retrato perfeitíssimo, sob todos os aspectos, do Seu Divino Filho; de sorte que, em Maria, se contemplava a mais delicada imagem de Jesus Cristo. Esta mesma relação de maternidade estabeleceu, entre Maria e seu Filho, uma intimidade não só de trato mútuo e comunhão vital, mas também de intercâmbio de corações e segredos; e de tal modo que ela era o espelho refletor de todos os pensamentos, sentimentos, anelos, desejos e propósitos de Jesus, assim como Ele refletia, por Seu turno, de forma esplêndida, em espelho imaculado, o prodígio de pureza, de amor, de dedicação, de imensa caridade, que era a alma de Maria. A Virgem podia, por conseguinte, com mais razão do que o Apóstolo das Gentes, exclamar: ‘Eu vivo, mas não sou eu quem vive: é Jesus que vive em mim.’” (De Concílio: O Conhecimento de Maria)

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DEVERES DOS OFICIAIS DO PRAESIDIUM

1. Diretor Espiritual

É em face das qualidades espirituais desenvolvidas nos seus membros e postas em prática que a Legião julga os seus próprios êxitos. O Diretor Espiritual torna-se, por isso mesmo, a mola real do Praesidium. Sobre ele recai, primariamente, a responsabilidade de colocar essas qualidades no coração dos Legionários.

Participará das reuniões e, com o Presidente e os outros Oficiais, velará pelo cumprimento do espírito e da letra dos regulamentos e métodos legionários. Deve se opor aos abusos e apoiará toda autoridade legionária legitimidade constituída.

Se o Praesidium for digno do seu nome, há de reunir os melhores elementos da paróquia me zelo e possibilidades. Mas o Praesidium depende do Diretor Espiritual na realização do sei trabalho – trabalho substancial que exigirá sérios esforços. Ele deve animar os legionários, lançando por terra a barreira das coisas que lhe desagradam, interiores ou exteriores. O Diretor Espiritual é para o Praesidium o princípio animador da sua vida espiritual. O Papa Pio XI chegou a aplicar-lhe as palavras do Salmista: “A minha sorte está nas tuas mãos”. Que tristeza, se tal confiança se frustrasse num único caso e se um grupo de apóstolos desejosos de trabalhar o melhor possível, por Deus, por Maria e pelos irmãos, fosse deixado ao abandono, como rebanho sem pastor! Que diria o Pastor Supremo do Diretor Espiritual sem zelo, a quem dera a tarefa de ser “a alma da associação, o inspirador de todas as boas iniciativas, e fonte de zelo?” (Pio XI).

O Diretor Espiritual há de considerar os membros do Praesidium como Mestre de noviços considera os que estão entregues aos seus cuidados, procurando, sem cessar, formá-los espiritualmente e levá-los a atos e virtudes próprias do legionário de Maria. Assim se verificará que as qualidades espirituais dos membros atingem os mais altos níveis propostos ás suas elevadas aspirações. Não receie, pois, o Diretor Espiritual, chamá-lo a uma virtude suprema ou propor-lhes trabalhos cuja execução requeira o heroísmo. Até o que humanamente parece impossível cede á da graça, e esta, é concedida por Deus a quem a pede. Para isso, o Diretor Espiritual deve insistir com cada legionário para que seja sempre fiel a cada um dos pormenores dos seus de-

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veres, como fundamento absolutamente necessário de toda grande obra. Embora o caráter se manifeste nos grandes momentos críticos, é nas pequeninas ocasiões que ele se forma.

Velará para que os membros não empreendam qualquer trabalho com espírito egoísta, para que não voltem orgulhosos com os triunfos, nem deprimidos com os reveses aparentes, e se mantenham sempre prontos, se forem mandados, a voltar mil vezes á mesma tarefa, por mais desagradável e dura que seja.

Cuidará que os legionários juntem a oração e o sacrifício á execução corajosa e completa do trabalho encomendado. E lhes dirá que é justamente quando todos os meios comuns falharem e a situação for humanamente desesperada que eles devem voltar-se com inabalável confiança para a Rainha da Legião e sua Mãe, certos de que lhes conseguirá a vitória.

Um dos deveres essenciais do Diretor Espiritual da Legião de Maria é infundir em todos os membros o amor esclarecido e ardente à Mãe de Deus e, em particular, àqueles Seus privilégios que a Legião honra de modo especial.

Desta sorte, com um trabalho de construção paciente, ajustando pedra sobre pedra, poderá alimentar esperança de erguer em cada legionário uma fortaleza espiritual que coisa nenhuma conseguirá desintegrar.

Como membro do Praesidium, o Diretor Espiritual toma parte na administração dos negócios e na sua discussão, e será, “conforme a necessidade o exija, mestre, conselheiro e guia” (Papa Pio X). Que não tome para si, porém, os direitos do Presidente: qualquer tendência neste sentido seria prejudicial ao Praesiduim. Como efeito, se ao prestígio de sacerdote e ao seu conhecimento muito mais vasto da vida se juntasse a direção dos negócios do Praesidium, o efeito sobre a assistência seria esmagador. O exame de cada caso particular acabaria num diálogo entre ele e o legionário interessado; o Presidente e os outros participantes, calados não tomariam parte, com receio de que a sua intervenção fosse tomada como oposição ao juízo do Diretor Espiritual. Suprir assim a discussão livre e geral dos casos é tirar á reunião do Praesidium o seu mais poderoso atrativo, o seu principal valor de formação, a mais benéfica fonte de bem-estar. Na ausência do Diretor Espiritual, o Praesidium deixaria de funcionar e haveria de acabar definitivamente com a sua partida.

“Deve interessar-se –como é exigido, aliás, dos demais membros – por tudo quanto se diz na reunião. Não aproveite, porém, todas as palavras como outras tantas oportunidades para

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colocar seus pontos de vista pessoais. Há de fazê-lo, é certo, sempre que se requeiram claramente o seu conselho ou os seus conhecimentos. Faça-o todavia, com bom senso e na medida certa, sem diminuir a ação do Presidente e sem abafar a participação dos membros com as suas intervenções excessivas; e por outro lado, intervindo tanto e de tal forma que sirva de modelo aos demais no interesses pelos casos que não lhes são pessoais” (Mons. Helmsing, Bispo).

Sempre que o Praesidium se consagrar ao trabalho se estudo, o Diretor Espiritual deve supervisionar na seleção dos livros a ler. Exercerá vigilante censura sobre os trabalhos a apresentar, nunca deixando expor doutrinas que não concordem plenamente com os princípios autênticos da Igreja.

Imediatamente a seguir à reza da Catena, o Diretor Espiritual fará uma breve palestra, de preferência a modo de comentário do Manual. No caso de estar ausente, esta obrigação compete ao Presidente.(Ver capítulo 18, “Ordem a Observar na Reunião”, n°11, Alocução).

Logo depois das Orações Finais da reunião, o Diretor Espiritual dará a bênção aos membros.

“Cristo fundou, de verdade, um sacerdócio, não só para O representante e substituir, mas de certo modo, para ser Ele mesmo, quer dizer que Ele exercerá os Seus poderes divinos por intermédio dos sacerdotes. Por isso, afeto e a reverência para com o sacerdote são uma homenagem direta ao Eterno Sacerdócio, de participa o ministro humano.” (Benson: A Amizade de Cristo)

“O sacerdote ao anoitecer, vai para a praça pública chamar os trabalhadores para a vinha do Senhor: Sem o chamamento dele, a maior parte corre o grande risco de ficar ali ‘todo o dia ociosos’ (Mt 20,6)” (Civardi)

2. Presidente
1. O principal dever do Presidente consiste em participar das reuniões da Cúria de que depende o Praesidium e, por este e outros meios, manter o seu núcleo firmemente unido ao Conselho Superior.

2. Compete a ele presidir e dirigir aos assuntos nas reuniões do Praesidium. Distribuirá o trabalho semanal e receberá os relatórios dos membros sobre os trabalhos de que foram incum-

[Capítulo 34 Deveres dos Oficiais do Praesidium página 210]

bidos. Deve mostrar-se consciente da sua responsabilidade, como administrador da Legião, para aplicar fielmente os regulamentos legionários em todos os pormenores. Faltar a este encargo é ser infiel à Legião. Para os exércitos da terra ele seria um traidor e receberia o mais tremendo castigo.

3. É ele o principal encarregado de velar para que a sala esteja devidamente preparada (no que diz respeito à luz, aquecimento, assentos, etc.), a fim de que a reunião comece à hora marcada.

4. Deverá começar a reunião pontualmente à hora fixada, interrompendo-a no momento devido. Para este é conveniente ter um relógio em frente, sobre a mesa.

5. Na ausência do Diretor Espiritual é ele que faz a Alocução ou designa para fazê-la.
6. Instruirá nas suas obrigações os diversos Oficiais e velará pelo perfeito cumprimento dos seus cargos.

7. Esteja sempre atento para descobrir os membros especialmente qualificados e poder recomendá-los à curia, quando se tratar de preencher as vagas de Oficiais , dentro ou fora do Praesidium. E como o valor do Praesidium depende das elevadas qualidades dos seus Oficiais, é glória do Presidente fazer surgir e formar estes, preparando assim o futuro da Legião.

8. Dará a todos os seus companheiros exemplo de elevado nível de espiritualidade e de zelo, mas a ponto de tomar sobre si o trabalho deles. Neste caso, daria prova de zelo mas não o bom exemplo, pois os impossibilitaria de segui-lo.

9. Deve recordar-se de que os relatórios apresentados a meia voz ou indistintamente são inimigos da reunião; ele próprio falará num tom de voz que se ouça claramente em toda a sala. Descuide-se neste dois pontos e há de verificar que os relatórios se farão um voz que quase não se percebe, cansando os participantes, obrigados, para ouvi-los, a um tal esforço que o interesse pela reunião não tardará a diminuir.

10. Velará com cuidado para cada membro apresente um relatório completo da sua atividade; ajudará os inexperientes, e os tímidos com perguntas apropriadas; e, por outro lado, abre-

[Capítulo 34 Deveres dos Oficiais do Praesidium página 211]

viará os relatórios que, embora excelentes, ameacem estender-se demais.

11. Em conformidade com o que a correta direção da reunião possa exigir, o Presidente deverá falar o mínimo possível, mantendo um justo meio termo entre dois extremos. Um extremo consiste em conduzir a reunião sem fazer um reparo nem dar estímulo, deixando-a correr por si mesma. Resultando: alguns membros contentam-se com relatórios curtos de mais, enquanto outros nunca se calam. A média destes dois excessos pode criar a ilusão de que o Praesidium trata dos seus assuntos no tempo devido. Mas será preciso acentuar que a combinação dos dois erros não dá uma verdade, assim como uma desordem disfarçada não pode ser considerada como ordem perfeita.

O outro extremo consiste me falar demais. Presidente há que falam com entusiasmo durante a reunião inteira, apossando-se do tempo pertencente aos outros membros, e deturpando assim o propósito do Praesidium, que não se assenta num sistema de conferência, mas numa consideração harmônica dos “negócios do Pai” (Lc 2,49). Mais do que isso: a fala em excesso da Presidência leva os participantes a uma atitude de relaxamento, que tira a todos a vontade de abrir a boca.

A formação dos membros, resultante destes dois processos, é péssima.

12. Cultivará no Praesidium o espírito de fraternidade, com a certeza de que tudo estará perdido se este não existir. Pode e deve contribuir para desenvolvê-lo, mostrando mais profundo afeto a todos e a cada um dos membros, sem distinção; e, de modo geral, esforçando-se por dar exemplo de verdade humildade. Tome para si as palavras do Salvador: “O que entre vós quiser ser o primeiro, esse seja o vosso servo” (Mt 20,27).

13. Anime o Presidente todos os membros a expressarem as suas opiniões e a oferecerem voluntariamente a sua ajuda para trabalhos de que não foram oficialmente encarregados. Deste modo despertará neles o mais vivo interesse por todos os trabalhos de Praesidium.

14. Deverá se certificar de que cada legionário trabalha:

a) segundo o verdadeiro espírito;

b) segundo os verdadeiros métodos da Legião;

[Capítulo 34 Deveres dos Oficiais do Praesidium página 212]

c) realizando, de fato, todo o bem que a Legião deseja ver realizado em cada caso participar.

O presidente deverá ainda certificar:

a) de que se recomeçam, de vez em quando, antigos trabalhos;

b) e se mantém ardente o espírito de conquista, investindo-se regularmente em novas tarefas, onde isso é possível.

15. Procure obter dos membros à soma de esforços e de sacrifícios que eles podem dar. Exigir de um legionário de grandes possibilidades uma tarefa insignificante é ser injustíssimo para com ele, é prejudicar os seus interesses eternos. Sem alguém que nos anime, qualquer um de nós cai no relaxamento. Deve, pois o Presidente estimular todos os membros a servirem generosamente a Deus, que reclamam de cada uma das Suas criaturas o rendimento máximo.

16. As falhas do Praesidium são, habitualmente, as falhas do Presidente. Se o Presidente admite falhas, estas hão de repetir-se e agravar-se.

17. Como o Presidente se encontra à testa da reunião cerca de cinqüenta vezes por ano, será inevitável, em algumas ocasiões, carta irritação. Procure, então, não demonstrar isso, pois nada há de mais contagioso do que o mau humor. Partindo o exemplo de uma pessoa, sobretudo de autoridade, se lastrará rápido e desastrosamente pelo conjunto.

18. Se o Presidente notar que o Praesidium começa a cair no desleixo e a perder o seu verdadeiro espírito, consulte, em particular, os Oficiais da Cúria sobre a melhor solução a adotar. No caso de o aconselharem a deixar o seu cargo, submeta-se humildemente a tal decisão, certo de que, procedendo assim, alcançará de Deus abundante graças.

19. Como todos os outros Oficiais e membros do Praesidium, o Presidente satisfará as suas obrigações, e fará o trabalho ordinário do Praesidium. Talvez pareça inútil enunciar este ponto do regulamento, visto tratar-se do Presidente. A experiência, porém, prova o contrário.

20. Finalmente, procure o Presidente cultivar as qualidades que, no dizer do Cardeal Pizzardo – autoridade indiscutível em matéria de apostolado dos leigos – devem caracterizar todos os

[Capítulo 34 Deveres dos Oficiais do Praesidium página 213]

chefes deste movimento: submissão dócil à Autoridade Eclesiástica, espírito de dedicação, de caridade e de caridade e de harmonia com as outras organizações e as pessoas que a elas pertencem.

“Logo que me encarregaram da direção das almas, verifiquei imediatamente que a tarefa ultrapassava as minhas forças; e, lançando-me depressa nos braços de Deus, imitei aquelas criancinhas que, levadas por qualquer receio, escondem a cabecinha contra o pescoço de seu Pai; e, disse: ‘Senhor, bem vedes que sou pequenina demais para alimentar as Vossas filhas; se quereis dar-lhes, por mim, aquilo de que precisam, enchei a minha mão; e, sem largar os Vossos braços, sem mesmo voltar a cabeça distribuirei os Vossos tesouros à alma que viver pedir-me o alimento. Quando ela achar saboroso, reconhecerei que a Vós e o deve e não a mim; pelo contrário, se queixar, porque lhe amarga, não me inquietarei, tratarei de persuadi-la de que esse alimento vem de Vós, e aguardar-me-ei de lhe oferecer outro’ ” (Santa Tereza do Menino Jesus)

3. Vice-Presidente

1. É dever do Vice-Presidente participar das reuniões da Curia.

2. Presidirá à reunião do Praesidium, na ausência do Presidente. Saiba-se, porém , que os eu posto não lhe dá direito algum se sucessão ao cargo de Presidente.

O aviso seguinte, tirado do Manual das Conferências de São Vicente de Paulo, aplica-se igualdade ao Vice-Presidente do Praesidium: “Na ausência do Presidente, sobretudo se esta for prolongada, o Vice-Presidente tem todos os poderes daquele e faz em tudo as suas vezes. Não pode uma Associação ser reduzida à inatividade, porque à reunião falta algum dos seus membros; ora, tal sucederia, se os presentes nada ousassem fazer na ausência do Presidente. É, pois, não só um direito, mas um dever de consciência, por parte do Vice-Presidente, substituir plenamente o Presidente quando este estiver ausente, a fim de que, quando este estiver ausente, a fim de que, quando ele voltar, não encontre um clima de desânimo por causa de sua ausência.”

3. O Vice-Presidente tem a obrigação de ajudar o Presidente na administração do Praesidium e na direção dos trabalhos. Supõe-se, muitas vezes, que esta obrigação só começa quando o

[Capítulo 34 Deveres dos Oficiais do Praesidium página 214]

Presidente se ausenta. Erro que, se não fosse esclarecido, se tornaria desastroso para o Vice-Presidente e para o Praesidium. A verdade é que o Vice-Presidente deve cooperar intimamente em toda a atividade presidencial. Os dois são, em relação ao Praesidium ,como o pai e mãe dentro do lar, ou como, no exército, o Comandante e o seu Chefe de Estado Maior. O papel de Vice-Presidente é não só substituir o Presidente, mas completá-lo. Isto quer dizer que ele é um Oficial honorário. Durante as reuniões, o seu cuidado é, especialmente, atender a inumeráveis pormenores que, escapando à atenção do Presidente, são, todavia, condições absolutas da boa marcha do Praesidium.

4. O Vice-Presidente está participando encarregado de tudo que se relaciona com os membros do Praesidium. Tratará de receber os novos, quando participarem pela primeira vez da reunião, e de ao apresentar aos outros legionários antes ou depois da reunião. Cuidará para que lhes seja designado um trabalho, pela sua instrução nos deveres próprios (incluindo a reza diária da Catena), lhe dará conhecimento da existência e condições de admissão ao grau de Pretoriano.

5. Durante a reunião marcará as presenças no Caderno de chamada.

6. Terá em seu poder e em dia as listas dos membros Ativos, Pretorianos, Adjutores e Auxiliares, subdividindo-se em cada caso em duas seções, uma para se certificar do modo como cumpriram as suas obrigações e, no caso de haverem sido fiéis, transferirá os seus nomes para os registros definitivos do Praesidium.

7. Aos membros Ativos em experiência dará conhecimento da aproximação do fim do respectivo período e tomará as providencias necessárias para que prestem o Compromisso Legionário.

8. Anotará as ausências dos membros ás reuniões e fará esforços, por escrito ou por outro meio, para impedir o seu afastamento definitivo.

Temos, de um lado, membros que não deixam dúvidas de que são firmes. De outro lado, os que logo deixam a Legião por falta de condições ou vocação. Mas é claro que, entre esses dois

[Capítulo 34 Deveres dos Oficiais do Praesidium página 215]

extremos, existem muitos e muitos que dependem de cuidados e de um Oficial atencioso que os anime para que perseverem nas fileiras legionárias. Ao Vice-Presidente cabe este papel. Convém notar aqui que, para a Legião, é mais importante a perseverança de um membro antigo do que o recrutamento de um novo. O Oficial que se consagra com fidelidade a este encargo, tornando-se diretamente responsável por inúmeras boas ações e vitórias espirituais, concorrerá para rápida formação de novos Praesidia, exercerá, deste modo, um apostolado único no seu gênero.

9. O Vice-Presidente não deixará esquecer a obrigação de rezar pelos membros falecidos, como está determinado em capítulo próprio.

10. Visitará os legionários enfermos ou cuidará de que os outros membros os visitem.

11. Dirigirá os esforços de todos, quando se trate de arranjar membros Auxiliares – especialmente Adjutores – e de manter-se em relação com eles.

“As noviças, ao verem como Santa Teresa adivinhava os seus mais íntimos pensamentos, não puderam calar um dia o seu espanto. ‘Aqui está o meu segredo, explicou ela. ‘Nunca vos faço uma observação, sem invocar antes a Santíssima Virgem, para que me ilumine sobre aquilo que vos pode fazer maior bem: e fico admirada diante das coisas que vos ensino. Sinto, quando vos falo, que não me engano, ao pensar que Jesus vos pela minha boca.’’’(Santa Teresa de Lisieux)

4. Secretário

1. O Secretário deverá participar das reuniões da Curia.

2. Sobre o Secretário recai a responsabilidade de redigir e guardar as Atas do Praesidium. Ponha na sua elaboração o máximo cuidado e leia-as muito claramente. Desempenham papel importantíssimo, quer pelo seu conteúdo, quer pela maneira como são lidas. Bem feitas, nem longas nem breves demais - graças à boa vontade que nelas se empregou – as Atas exercem uma poderosa influência sobre os resto da reunião e muito contribuem para o seu bom êxito.

[Capítulo 34 Deveres dos Oficiais do Praesidium página 216]

3. Para produzir bons resultados, deverá prestar atenção aos instrumentos de seu trabalho. Está provando – é assim a natureza humana!- que nem o melhor Secretário faz coisa digna de apresentação, se escrever com caneta ou lápis defeituosos em papel de qualidade inferior. Redijam-se, pois, as Atas a tinta ou máquina e em livro apropriado de boa qualidade.

4. O Secretário não cumpre com a obrigação de trabalho semanal do Praesidium com o desempenho dos seus deveres de Secretário.

5. Expedirá prontamente todos os relatórios e informações requeridos pela Curia e, e, geral, será responsável pela correspondência do Praesidium. Tenha sempre na sede uma boa reserva de papel, caneta, etc.

6. O Presidente poderá delegar a outros membros do Praesidium certas atribuições do Secretário.

“Diz o Evangelho: ‘Maria conserva todas estas coisas em Seu coração’(Lc 2,51). E por que não, também, em pergaminho? Pergunta Botticelli. E, sem entrar na profunda exegese do assunto, pinta-nos o mais perfeito de todos os hinos de transporte e gratidão: um Anjo oferece um tinteiro com a direita, enquanto com a esquerda segura um manuscrito, em que a Santíssima Virgem transcreveu o Magnificat em iluminados caracteres góticos; o menino, rechochundo, tem um ar de profeta e a sua mão frágil permanece guiar os dedos de Sua Mãe – esses dedos nervosos, impressionáveis, quase espirituais, que o Mestre Florentino associa sempre intimamente com a expressão da sua idéia da Virgem. O tinteiro tem, outrossim, o seu significado. Embora não seja de ouro, nem encrustado de gemas, como a coroa que os Anjos sustentam, simboliza, no entanto, o destino triunfal da rainha do Céu e da Terra. Representa tudo quanto no decorrer dos tempos há de ser escrito no anais humanos, em confirmação do que esta humilde serva do Senhor predisse da Sua própria glória.”

5. Tesoureiro

1. O Tesoureiro participará das reuniões da Curia.

2. Ao Tesoureiro pertence fazer e receber os pagamentos do Praesidium e guardar em caixa as receitas, escrevendo tudo em livro apropriado, detalhada e ordenadamente.

[Capítulo 34 Deveres dos Oficiais do Praesidium página 217]

3. Não se esquecerá de fazer a coleta secreta em cada reunião.

4. Não fará pagamentos sem autorização do Praesidium e depositará o dinheiro a crédito deste, conforme as diretrizes que tiver recebido.

5. Procurará não esquecer a advertência referente à acumulação de fundos, feita no capítulo 35, “Receitas e Despesas”, e proporá de tempos em tempos o assunto ao Praesidium.

“Maria é a despenseira da Santíssima Trindade, repartindo o vinho do Espírito santo a quem Ela quer e na medida em que Ela quer.” (Santo Alberto Magno)

“Maria é a tesoureira, cujo tesouro é Jesus Cristo: é o Salvador que Ela possui, o salvador que Ela dá.” (S. Pedro Julião Eymard)

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