quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Legião de Maria: manual de espiritualidade (parte 3).


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O LEGIONÁRIO E A SANTÍSSIMA TRINDADE

Não deixa de ser significativo o fato de o primeiro ato coletivo da Legião ter sido a invocação e a oração ao Espírito Santo, logo seguidas do Terço à Virgem e a seu Divino Filho.

Quando alguns anos mais tarde, se decidiu modelar o Vexillum, o Espírito Santo passou a ser a característica predominante do novo emblema. O projeto (coisa estranha!) havia sido fruto, não de uma preocupação teológica, mas artística. Tratava-se de transformar o estandarte da Legião Romana, que não tinha nenhum sentido religioso, em estandarte da Legião de Maria. A pomba substituiria a águia e a imagem de Nossa Senhora substituiria a do Imperador ou do Cônsul. Daí a representação final, em que o Espírito utiliza Maria como canal das Suas influências vivificadoras e toma posse da Legião.

A pintura da Tessera, mais tarde, veio ilustrar a mesma atitude de devoção: o Espírito Santo aparece pairando sobre a Legião. Por Seu poder onipotente se trava um combate sem fim: a Virgem esmaga a cabeça da Serpente, enquanto os seus batalhões avançam, vitoriosos, sobre as forças adversas.

Secundária, mas interessante, é a circunstância de a cor da Legião ser a cor vermelha e não a cor azul, como era lícito esperar. Assim foi decidido, em relação à cor do halo da imagem de Nossa Senhora, no Vexillum e na Tessera. Requeria o simbolismo a representação da Virgem, cheia do Espírito Santo e, por conseqüência aureolada de vermelho. Daqui surgiu a idéia de a cor da Legião ser a cor vermelha. A Tessera, em que a Senhora aparece radiante como a bíblica Coluna de Fogo e envolta nas chamas do Espírito Divino, sublinha ainda o mesmo pensamento.

Assim, ao compor a fórmula do Compromisso, impunha-se logicamente – embora de início causasse surpresa – que ela fosse dirigida ao Espírito Santo e não à Rainha da Legião. Batia-se assim na mesma tecla: o Espírito Santo é o regenerador do mundo, não havendo graça concedida aos indivíduos, por mínima que escape à Sua ação e Maria é sempre a Sua Medianeira. Por virtude do Espírito, o Eterno Filho de Deus faz-se homem no seio de Maria. O gênero humano uniu-se desta forma à Santíssima Trindade e Maria passou a ligar-se, por uma relação única e distinta, a cada uma das Pessoas Divinas. É um dever para nós procurar entrever esta tríplice relação. A compreensão

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do Plano Divino é sem dúvida uma grande graça, que não está fora do nosso alcance.

Insistem os Santos na necessidade de bem distinguir as Três Divinas Pessoas e de prestar a cada uma delas a devida atenção. A este respeito, o Credo Atanasiano (1) é absoluto e estranhamente ameaçador, pois se trata do fim último da Criação e da Encarnação – a glória da Santíssima Trindade.
(1) Profissão de Fé cuja forma surgiu com o I Concílio Ecumênico (Nicéia – ano 325); quando Santo Atanásio defendeu brilhantemente a divindade de Jesus contra aqueles que o consideravam uma simples criatura do Pai, inferior a Ele e não o Filho de Deus.

Mas como poderemos nós penetrar, embora obscuramente, em tão incompreensível mistério? Com certeza, só pela luz divina, que podemos solicitar confiadamente da Virgem Maria, a quem pela primeira vez foi exposto, com clareza o mistério da Trindade. A revelação teve lugar no momento histórico da Anunciação. Pelo seu Arcanjo, a Trindade Santíssima assim se manifestou a Maria: “O Espírito Santo descerá sobre ti e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a Sua sombra. E, por isso mesmo, o Santo que há de nascer de ti será chamado Filho de Deus” (Lc 1, 35).

Aparecem nesta revelação de modo evidente as Três Divinas Pessoas. Primeiro, o Espírito Santo, a quem é atribuída a obra da Encarnação; em seguida, o Altíssimo,o Pai d’Aquele que há de nascer; e finalmente a Criança que “será grande e chamada Filho do Altíssimo” (Lc 1,32).

A consideração das diferentes relações da Virgem com as Divinas Pessoas vai nos ajudar a distingui-las de maneira mais perfeita.

A relação de Maria com a Segunda Pessoa Divina – a maternidade – é a mais acessível ao nosso entendimento. A sua maternidade, porém, é de natureza mais íntima, mais contínua e infinitamente mais elevada que a maternidade humana normal. No caso de Jesus e de Maria, a união das almas ocupa o primeiro plano, e a da carne, o segundo; de tal forma que, embora se tenham separado fisicamente na ocasião do nascimento de Jesus, a união dos dois não só não se interrompeu, como progrediu até, por graus incompreensíveis de intensidade, a ponto de Maria poder ser declarada pela Igreja, não apenas “aliada” da Segunda Pessoa Divina – Correndentora na obra da Salvação, Medianeira da Graça – mas de fato, “semelhante a Ele”.

Do Espírito Santo, Maria é comumente chamada, o templo ou o santuário. Semelhantes termos, todavia, não exprimem

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totalmente a realidade, a união íntima e profunda do Espírito Santo com a Virgem, união que a elevou à dignidade tão sublime que só Ele a excede. O Espírito Divino apossou-se de Maria, fez uma só coisa com ela, e animou-a de tal sorte que pode ser considerada a sua verdadeira alma. Maria não é um mero instrumento ou canal da Sua atividade divina; é, antes, a Sua Cooperadora inteligente, consciente, a ponto de se poder afirmar que a ação de Maria é a ação do Espírito Santo e que a rejeição da intervenção de Maria é a rejeição simples da intervenção do Espírito Divino.

O Espírito Santo é Amor, Beleza, Poder, Sabedoria, Pureza e tudo quanto é divino. Quando desce em plenitude a uma alma, desaparecem as dificuldades e os mais graves problemas encontram solução de acordo com a Vontade Divina. Aceitando a Sua colaboração, o homem entra no domínio da onipotência (Sl 77). Ora, uma das condições para O atrair a nós é a compreensão da relação da Virgem com Ele. Outra, porém, existe e vital, uma especial consideração pelo Espírito Santo como Pessoa real e distinta, com a Sua missão específica junto do gênero humano. Um tal apreço não conseguirá manter-se sem que o nosso espírito se volte com freqüência para Ele. Se lançarmos mão desta prática nas nossas devoções à Santíssima Virgem, todas elas se poderão orientar para o Espírito Santo. O Rosário, por exemplo, é uma oração que os legionários poderão utilizar especialmente desta forma. É que o Rosário constitui uma excelente devoção ao Espírito Santo, não só por ser a principal forma de oração a Nossa Senhora, como também pelo fato de conter os quinze mistérios em que se celebram as mais importantes intervenções do Espírito de Deus, no drama da Redenção.

A relação de Maria com o Eterno Pai é usualmente definida como a de Filha. Semelhante título propõe-se designar:

a) a posição de Maria como “a primeira de todas as criaturas, a mais grata Filha de Deus, a mais próxima e a mais querida”. (Newman);

b) a plenitude da sua união com Jesus, pela qual contraiu uma nova relação com o Pai (1), que lhe dá direito a ser chamada misticamente, a Filha do Eterno Pai;
(1) “Como Mãe de Deus, Maria contrai uma certa afinidade com o Pai” (Lépicier).

c) a semelhança sublime com o Pai, que a tornou capaz de dar ao mundo a Luz Eterna que nasce do seio deste Pai amoroso.

A designação de “Filha” talvez não nos dê a entender bastante, a influência que a sua relação com o Pai lhe permite exer-

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cer em nós, filhos d’Ele e dela. “Deus Pai comunicou a Maria a Sua fecundidade, tanto quanto era possível comunicar a uma simples criatura, para lhe dar o poder de produzir Seu Filho e todos os membros do Seu Corpo Místico” (S. Luís Maria de Montfort). A sua relação com o Pai é um elemento fundamental, sempre presente, no fluxo de vida que verte para as almas. Deus exige que os Seus dons ao homem se traduzam, por parte deste, em apreço e cooperação. Por conseguinte, esta união vivificante deve ser objeto freqüente dos nossos pensamentos. O Pai Nosso, que os legionários repetem tantas vezes, rezado com esta especial intenção, dará satisfação plena a este dever. Composto por Jesus Cristo, nele pedimos o que nos é mais necessário e do modo mais perfeito. Rezado com inteira consciência e no espírito da Igreja Católica, realizará perfeitamente o propósito de glorificar o Eterno Pai e de prestar-Lhe a homenagem do nosso reconhecimento, pelo dom superabundante com que nos presenteou, por Maria.

“Recordemos para confirmar a dependência que devemos ter da Santíssima Virgem, o exemplo que nos deram as Pessoas da Santíssima Trindade.

O Pai não deu e não dá o Seu Filho senão por Maria; não adota filhos senão por ela, nem comunica as Suas graças senão por ela. Deus Filho não foi formado para todo o mundo, senão por Maria, nem é formado e gerado todos os dias senão por ela, em união com o Espírito Santo e só por meio dela comunica os seus merecimentos e virtudes. O Espírito Santo não formou Jesus Cristo senão por ela, e só por meio dela distribui os Seus dons e favores. Depois de tantos e tão manifestos exemplos da Santíssima Trindade, poderemos nós, sem uma cegueira extrema, dispensar-nos de Maria, não nos consagrarmos a ela, nem dela depender?” (S. Luís Maria de Montfort: Tratado de Verdadeira Devoção, 140).

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O LEGIONÁRIO E A EUCARISTIA

1. A Santa Missa

Como já acentuamos, a santidade dos membros é de fundamental importância para a Legião. Além disso é também o seu principal meio de ação. É que o legionário não pode ser canal

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de graças para os outros, senão na medida em que ele próprio as possui. Por isso, ao ingressar na Legião, cada membro pede insistentemente por intermédio de Maria a plenitude do Espírito Santo e a graça de ser instrumento do Seu poder divino, que há de renovar a face da terra.

As graças assim pedidas brotam todas, sem exceção, do Sacrifício de Jesus no Calvário. É pela Santa Missa que o Sacrifício da Cruz se perpetua entre os homens. A Missa não é, pois, uma simples representação simbólica do passado: ela torna real e atualmente presente no meio de nós essa ação sublime que Nosso Senhor consumou no Calvário e pela qual remiu a humanidade.

A Cruz não vale mais do que a Missa, porque são um e mesmo sacrifício, afastados o tempo e o espaço pela mão do Onipotente. O Sacerdote e a Vítima são idênticos, difere apenas o modo de oferecer o Sacrifício. A Missa contém tudo quanto Jesus Cristo ofereceu a Deus e tudo quanto alcançou para os homens; e o oferecimento dos que participam da Missa torna-se um só com o próprio sacrifício do Salvador.

O legionário deverá recorrer à Missa, se deseja, para si e para os outros, uma participação abundante nas riquezas da Redenção. A Legião não impõe aos seus membros qualquer obrigação concreta sobre a participação na Missa, pois as ocasiões e circunstâncias da vida de cada membro são muito diferentes. Todavia, preocupada com eles e com seus trabalhos, insiste com todos e suplica-lhes que tomem parte nela, com freqüência – diariamente se for possível – e recebam nessa ocasião a Sagrada Comunhão.

Se os legionários são obrigados a agir sempre em união íntima com Maria, é sobretudo no ato solene da participação na Santa Missa que o devem fazer.

Como sabemos, a Missa compõe-se de duas partes principais, a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística. É importante ter presente que estas duas partes estão tão intimamente unidas que formam um só ato de culto (SC 56). Por isso, os fiéis devem tomar parte na Missa inteira, onde estão a mesa da Palavra e a mesa do Corpo de Cristo, para que por elas sejam instruídos e alimentados (SC 48, 51).

“O sacrifício da Missa não é tão somente uma recordação simbólica da Cruz. Ao contrário, a Missa torna atualmente presente o sacrifício do Calvário, como uma excelsa realidade não sujeita a tempo e a espaço. O espaço e o tempo desaparecem, pela mão do Onipotente. O mesmo Jesus que morreu na Cruz está ali presente. Os participantes unem-se à Sua vontade santíssima e sacrifical; e,

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por Jesus presente no meio deles consagram-se ao Pai celeste como uma viva oblação. A Santa Missa é, pois, uma tremenda realidade, a realidade do Gólgota: torrente de dor e de arrependimento, de amor e de devoção, de heroísmo e de espírito de sacrifício, que brota do altar e corre sobre a comunidade em oração” (Karl Adam: O Espírito do Catolicismo).

2. Liturgia da Palavra

A Missa é, acima de tudo, a celebração da fé, daquela fé que nasceu em nós e foi alimentada pela audição da Palavra de Deus. Recordemos a este respeito as palavras da Instrução Geral sobre o Missal (nº 9): “Quando na Igreja se lê a Sagrada Escritura, é o próprio Deus que fala ao Seu povo, é Cristo presente na Sua palavra quem anuncia o Evangelho. Por isso, as leituras da Palavra de Deus, que oferecem à Liturgia um dos elementos de maior importância, devem ser escutados por todos com veneração”. A homilia é também de grande importância: parte necessária da Missa nos Domingos e Dias Santos, e também desejável nos outros dias. Pela homilia, o sacerdote explica o texto sagrado à luz dos ensinamentos da Igreja, para o crescimento da fé dos presentes.

Nossa Senhora é o modelo da nossa participação na palavra, porque “é a Virgem que sabe ouvir, que acolhe a palavra de Deus com fé, fé que foi para Ela a preparação e o caminho para a maternidade divina” (MCul 17).

3. A Liturgia da Eucaristia em união com Maria

Nosso Senhor não começou a obra da Redenção, sem o consentimento de Maria, solenemente pedido e livremente dado; nem a completou no Calvário, sem a sua presença. “Por esta comunhão de sofrimentos e de vontades entre Maria e Cristo, mereceu ela, com justíssima razão, tornar-se a Restauradora do mundo perdido e a Despenseira de todas as graças, que Jesus alcançou com a Sua morte e com o Seu sangue” (AD 9). Junto a Cruz do Salvador esteve Maria, representando o gênero humano; também agora, em cada Missa está presente, cooperando com Jesus, como sempre, ela, a Mulher anunciada desde o princípio, Aquela que esmaga a cabeça da Serpente infernal. Por isso, uma amorosa união a Maria deve fazer parte de toda a Missa bem participada.

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Com Maria, no Calvário, estiveram também os representantes de uma Legião – o centurião e a sua coorte – que desempenharam um fúnebre papel no oferecimento da Vítima, embora não soubessem que estavam crucificando o Senhor da Glória (1Cor 2, 8). E ó maravilha! a graça desceu, em torrentes, sobre os seus corações. “Contemplai e vede”, diz S. Bernardo, “como a fé tem o olhar penetrante. Reparai bem nos seus olhos de lince! Por ela, no Calvário, o Centurião reconheceu a vida na morte; e, num último suspiro, o Espírito soberano”. Contemplando a sua Vítima morta e desfigurada, os legionários romanos proclamaram-na Verdadeiro Filho de Deus (Mt 27, 54).

A conversão destes homens grosseiros e cruéis foi o fruto repentino e inesperado das orações de Maria. Estranhos filhos, os primeiros que a Mãe dos homens recebeu no Calvário e que lhe tornaram para sempre tão querido, o nome de legionários. Depois disto, quem poderá duvidar de que ela, quando os seus legionários – unindo-se às suas intenções, elemento integrante da sua cooperação – participam todos os dias da santa Missa, os reúna à volta de si e lhes dê aqueles olhos penetrantes de fé e o seu Coração transbordante para que, assim, tomem parte de maneira mais íntima e proveitosa na continuação do sublime sacrifício do Calvário?

Quando virem levantar o Filho de Deus, os legionários hão de unir-se a Ele, para com Ele formarem uma só Vítima. A Missa, sacrifício de Jesus Cristo, é também o deles. Deveriam, em seguida, receber o Corpo adorável do Senhor: para obter a plenitude dos frutos do Divino Sacrifício é absolutamente necessário que os participantes comunguem com o sacerdote a carne da Vítima imolada.

Hão de compreender então, a parte essencial de Maria, a nova Eva, nestes mistérios sagrados – parte e cooperação tão íntima que, “quando o seu amado Filho consumava a Redenção do gênero humano no altar da Cruz, lá estava a Seu lado, sofrendo e remindo com Ele” (Pio XI). Ao se retirarem, Maria acompanhará os legionários, dando-lhes parte das suas graças e da distribuição que se segue, derramando através deles, em todos quantos encontrarem ou, naqueles por quem trabalharem, os infinitos tesouros da Redenção.

“A sua maternidade é particularmente notada e vivida pelo povo cristão no Banquete Sagrado – celebração litúrgica do mistério da Redenção – no qual se torna presente Cristo, no seu verdadeiro Corpo, nascido da Virgem Maria.

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Com muita razão, a piedade do povo cristão percebeu sempre uma ligação profunda entre a devoção à Virgem Santíssima e o culto da Eucaristia: pode-se comprovar este fato, na liturgia tanto ocidental como oriental, na tradição das Famílias religiosas, na espiritualidade dos movimentos contemporâneos, mesmo dos movimentos juvenis e na pastoral dos santuários marianos: Maria conduz os fiéis à Eucaristia (RMat 44).

4. A Eucaristia, nosso tesouro

A Eucaristia é o centro e a fonte da graça: por isso, deve constituir também a pedra angular do sistema legionário. A mais ardente atividade não fará nada que preste, se esquecer, por um só momento, que o seu motivo principal é o estabelecimento em todos os corações do reino da Eucaristia. Deste modo será atingido o fim para que Jesus veio ao mundo: comunicar-se às almas, para as fazer uma só coisa com Ele. Ora, o meio principal para conseguir tal união é a Eucaristia. “Eu sou”, diz Jesus “o pão vivo que desceu do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente; e o pão que Eu darei é a minha carne, para a salvação do mundo” (Jo 6, 51-52).

A Eucaristia é o bem infinito. Neste sacramento, com efeito, está o próprio Jesus tão presente como outrora em Nazaré ou no Cenáculo de Jerusalém. A Sagrada Eucaristia não é o símbolo da Sua pessoa ou um instrumento do Seu poder: é o mesmo Jesus, vivo e inteiro. Por isso, Aquela que O concebeu e nutriu “encontrava na hóstia adorável o fruto bendito do seu ventre, e renovava na sua vida de união com Jesus Sacramentado os ditosos dias de Belém e Nazaré” (S. Pedro Juliano Eymard).

Muitos, para quem Jesus não passa de um homem inspirado, O honram e imitam; e maiores homenagens Lhe renderiam, se n’Ele vissem algo de mais elevado. Como deveríamos nós nos comportarmos, visto possuirmos o inestimável benefício da fé? Como são indesculpáveis os católicos que crêem mas não praticam. Aquele Jesus, que os outros tanto admiram, possuem-n’O os católicos, vivo, na Eucaristia. Têm livre acesso a Ele; podem e devem recebê-l’O, mesmo todos os dias, como alimento das suas almas.

À vista disto, como é triste verificar a vergonhosa negligência com que é tratada tão rica herança e como pessoas que crêem na Sagrada Eucaristia, por pecados e desleixos, se privam deste alimento vital da alma, que Jesus, desde o primeiro instante da

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Sua existência terrestre, pensava em dar-lhes. Logo em Belém (Casa do Pão) foi reclinado na palha de que Ele era o Trigo Divino, destinado a tornar-se em breve o Pão Celeste que havia de unir a Ele todos os homens (e uns aos outros), no seu Corpo Místico.

Maria é a Mãe deste Corpo Místico. E assim como outrora cuidava dedicadamente de todas as necessidades de Jesus Menino, assim deseja agora ardentemente nutrir o Corpo Místico, do qual é Mãe, tanto quanto o é de Jesus. Que angústias para o seu Coração maternal, ao ver a fome – às vezes extrema – de seu Filho, no Seu Corpo Místico, porque poucos se alimentam como devem do Pão Divino, e muitos, absolutamente nada. Que todos quantos desejam de fato unir-se a Maria, para participar dos seus cuidados maternais para com as almas, partilhem também das suas angústias e se esforcem, com ela, por matar a fome do Corpo Místico de Jesus. O legionário deve aproveitar todos os recursos para despertar nas pessoas com quem realiza o seu apostolado, o conhecimento e o amor ao Santíssimo Sacramento, e também aproveitar para destruir o pecado e a indiferença que d’Ele afastam tanto, os homens. Cada comunhão obtida representa um lucro incomensurável, porque, alimentando a alma individual, nutre todo o Corpo Místico de Cristo e o faz crescer em sabedoria, em estatura e em graça diante de Deus e dos homens (Lc 2, 52).

“Esta união da Mãe com o Filho na obra da Redenção alcança o ponto culminante no Calvário, onde Cristo ‘se ofereceu a si mesmo, vítima sem mácula, a Deus’ (Hb 9, 14), e onde Maria esteve de pé, junto à Cruz (Cf. Jo 19, 15), ‘sofrendo profundamente com o seu Unigênito e associando-se com ânimo maternal ao seu sacrifício, consentido amorosamente na vítima que havia gerado’, e oferecendo-a também ela, ao eterno Pai. Para perpetuar ao longo dos séculos o Sacrifício da Cruz, o divino Salvador instituiu o Sacrifício Eucarístico, memorial da sua Morte e Ressurreição, e confiou-o à Igreja, sua Esposa, a qual, sobretudo aos domingos, convoca os fiéis para celebrar a Páscoa do Senhor, até que ele volte: o que a mesma Igreja faz em comunhão com os Santos do céu e, em primeiro lugar, com a bem-aventurada Virgem Maria, de quem imita a caridade ardente e a fé inabalável” (MCul 20).

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O LEGIONÁRIO E O CORPO MÍSTICO DE CRISTO

1. O serviço legionário é baseado nesta doutrina

Já na primeira reunião de legionários ficou bem claro o caráter sobrenatural do serviço a que iam se dedicar. A sua convivência com o próximo devia transparecer cordialidade, não por motivos meramente naturais, mas porque deveriam ver nesse próximo a mesmíssima Pessoa de Cristo, tendo sempre presente que tudo o que fizessem aos outros, ainda que de maneira fraca ou desprezível, o faziam Àquele mesmo Senhor que afirmou: “Em verdade vos digo que o que fizestes ao mais pequeno dos meus irmãos, a mim próprio o fizestes” (Mt 25, 40).

Ora, o que se deu com a primeira reunião tem-se dado com todas as que se lhe seguiram. Nenhum esforço tem sido poupado na intenção de fazer ver aos legionários que tal critério deve ser, não só a pedra basilar do seu serviço, mas o alicerce da disciplina e da harmonia na vida interna da Legião. O legionário deve ver e respeitar nos Oficiais e nos companheiros, o próprio Cristo. Que ele tenha sempre presente esta verdade transformadora. Para ajudá-lo a atingir tal fim é que se inscreve esse princípio na Ordem Permanente, lida mensalmente na reunião do Praesidium. Essa Ordem insiste ainda neste outro princípio fundamental da Legião: devemos trabalhar em tão estreita união com Maria que seja ela quem de fato, por meio do legionário, execute a sua obra.

Estes princípios básicos da Legião não são mais, afinal, do que a conseqüência da Doutrina do Corpo Místico de Cristo, doutrina que constitui o tema principal das Epístolas de São Paulo: e isto nada tem de singular, sabendo-se que a conversão do Apóstolo se deve à declaração dessa doutrina. Perante o clarão que baixara do céu, o grande perseguidor dos cristãos caiu por terra, cego, e ouviu estas aterradoras palavras: “Saulo, Saulo, porque me persegues?” E Saulo interrogou: “Quem é tu, Senhor?” E uma voz respondeu-lhe: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues” (At 9, 4-5). Que maravilha que estas palavras ficassem gravadas a fogo vivo na alma do Apóstolo e que este se sentisse a todo momento compelido a falar e a escrever sobre a verdade nelas contida.

[Capítulo 9 O Legionário e o Corpo Místico de Cristo página 51]

São Paulo compara a união entre Cristo e os batizados àquela que existe entre a cabeça e os outros membros do corpo humano. Neste, cada membro tem a sua finalidade, a sua função especial; uns são mais nobres, outros menos, mas todos, dependendo uns dos outros, são animados pela mesma vida. Deste modo, o dano sofrido por um deles reflete-se em todos; mas, se um recebe benefício, todos dele participam.

A Igreja é o Corpo Místico de Cristo e a Sua plenitude (Ef 1, 22-23); Cristo é a Cabeça, a parte principal, indispensável e perfeita, onde todos os membros vão buscar as suas energias e a sua própria vida. O batismo une-nos a Cristo com laços de tal forma estreitos, que ninguém poderá imaginá-los. O termo “místico” não significa, de forma alguma, irreal. De acordo com as vibrantes palavras da Sagrada Escritura – “somos membros do Seu corpo, formados da Sua carne e dos Seus ossos” (Ef 5, 30). Daqui resultam certos deveres sacratíssimos de amor e de serviço, não só entre os membros e a Cabeça, mas entre os próprios membros (1Jo 4, 15-21). A comparação do corpo ajuda-nos poderosamente a compreender esses deveres, e tal conhecimento constitui já meio caminho andado para o seu cumprimento.

Com razão se tem afirmado ser este o dogma central do Cristianismo. De fato, toda a vida sobrenatural, todas as graças concedidas ao homem são fruto da Redenção. Esta se baseia no fato de Cristo e a Sua Igreja constituírem uma única pessoa mística; e assim é que as reparações operadas por Cristo, a Cabeça, e os méritos infinitos da Sua Paixão pertencem também aos Seus membros, os fiéis. Deste modo se explica como é que Nosso Senhor pôde sofrer pelo homem, conseguindo o perdão de culpas que não cometera. “Cristo é a Cabeça da Igreja, Seu Corpo, do qual ele é o Salvador” (Ef 5, 23).

A atividade do Corpo Místico é a do próprio Cristo. Os fiéis são n’Ele incorporados e n”Ele vivem, sofrem e morrem, e, em Sua Ressurreição, ressuscitam. O batismo santifica, precisamente, porque estabelece, entre Cristo e a alma, essa comunicação de vida, por onde flui, da Cabeça para os membros, a santidade. Os outros Sacramentos, sobretudo a Divina Eucaristia, destinam-se a estreitar a união entre o Corpo Místico e a Cabeça. Tal união, entre a cabeça e os membros, intensifica-se ainda pelo exercício da fé e da caridade, pelos vínculos da autoridade e do serviço mútuo na Igreja, pelo trabalho e pelo sofrimento, aceitos com resignação; resumindo: por qualquer ato de vida verdadeiramente cristã. Tudo isto, porém, será mais eficaz, se a alma atuar decididamente sob a proteção de Maria Santíssima.

[Capítulo 9 O Legionário e o Corpo Místico de Cristo página 52]

Maria, pelo seu privilégio de Mãe da Cabeça e dos membros, passa a ser um eminente laço de união do Corpo Místico. Se é certo que “somos membros do Seu Corpo, formados da Sua carne e dos Seus ossos”, somos também, com igual verdade e plenitude, filhos de Maria, Sua Mãe. A Santíssima Virgem foi criada para conceber e dar à luz o Cristo total, quer dizer, o Corpo Místico com todos os seus membros, perfeitos e ligados entre si (Ef 4, 15-16), e unidos com a Cabeça, Jesus Cristo; e ela cumpriu seu destino, em colaboração e mediante o poder do Espírito Santo, que é a vida e a alma do Corpo Místico. No seio maternal de Maria, e dócil aos seus cuidados, a alma irá crescendo em Cristo, até chegar à idade perfeita (Ef 4, 13-15).

“Maria desempenha um papel único e sem igual na economia divina. Ela preenche, entre os membros do Corpo Místico, um lugar à parte – o primeiro depois da Cabeça. Neste organismo divino do Cristo Total, a sua função está intimamente ligada à vida de todo o Corpo. É o Coração... Servindo-nos de uma imagem mais popular, ela assemelha-se, por motivo da sua função – é o que diz S. Bernardo – ao pescoço, que liga a cabeça aos membros do Corpo. A figura suficientemente clara demonstra o porquê da mediação universal de Maria, entre Cristo – a Cabeça Mística – e os Seus membros. No entanto, a comparação do pescoço é menos vigorosa que a do coração, para significar a enorme importância da influência de Maria e do seu poder, o maior depois de Deus, nas operações da vida sobrenatural; e isto, porque o pescoço não passa de simples ligação, nada fazendo para iniciar ou influenciar a vida. O coração, pelo contrário, é um centro de vida, o primeiro a receber os tesouros que imediatamente distribui a todo o organismo” (Mura: O Corpo Místico de Cristo).

2. Maria e o Corpo Místico

Os cuidados postos por Maria na alimentação, no cuidado e no carinho do Corpo físico do seu Divino Filho, continuam a ser dispensados agora, em favor de todos e de cada um dos membros do Corpo Místico, dos mais humildes aos mais nobres. E assim é que, “agindo os membros com mútua solicitude” (1Cor 12, 25), jamais o fazem independentemente de Maria, mesmo quando deixem, por descuido ou ignorância, de reconhecer a sua presença. Nada mais fazem do que unir os seus esforços aos esforços de Maria. É uma

[Capítulo 9 O Legionário e o Corpo Místico de Cristo página 53]

obra que lhe pertence e à qual se tem entregado por completo desde a Anunciação até hoje. Considera-se, assim, que não são propriamente os legionários que se valem do auxílio da sua Rainha para melhor servir os restantes membros do Corpo Místico, mas é ela que se digna utilizá-los. E, por tratar-se de uma obra que pertence a Maria, ninguém pode cooperar nela, sem que a Senhora benevolente, se digne permiti-lo. Tal fato, conseqüência lógica da doutrina do Corpo Místico, deve ser meditado por todos os que se dedicam ao serviço do próximo, mas não reconhecem o lugar e os privilégios de Maria. Constitui, além disso, uma boa lição para os que confessam acreditar nas Escrituras, mas desconhecem e menosprezam a Mãe de Deus. Cristo – fiquem todos sabendo – amou Sua Mãe, sujeitando-se a ela (Lc 2, 51); e o seu exemplo obriga todos os membros do Seu Corpo Místico a fazerem o mesmo: “Honrarás... tua Mãe” (Ex 20, 12). Por mandamento divino, cabe a nós amá-la filialmente. Todas as gerações hão de bendizer tão boa Mãe (Lc 1, 48).

Portanto, assim como ninguém poderá pensar em colocar-se a serviço do próximo a não ser com Maria, assim também não poderá realizar dignamente tal missão, se não tiver , ainda que imperfeitamente, as mesmas intenções de Maria. Quanto maior for a nossa união com ela, tanto mais perfeitamente cumpriremos o divino preceito de amar a Deus e de servir o próximo (1Jo 4,19-21).

A função própria dos legionários dentro do Corpo Místico é guiar, consolar e esclarecer os outros. Tal missão, note-se, só será devidamente cumprida, quando os legionários se compenetrarem por completo, da doutrina do Corpo Místico e da identificação deste com a Igreja. A posição e os privilégios da Igreja, a sua unidade, a sua autoridade, o seu desenvolvimento, padecimentos, milagres, triunfos, o seu poder de conferir a graça e o perdão dos pecados: tudo isto não será apreciado no seu justo valor, se não se compreender que Cristo vive na Igreja e que é por intermédio dela, que continua a Sua missão na terra. A Igreja reproduz verdadeiramente a vida de Cristo.

Cada membro da Igreja é intimado por Cristo, sua Cabeça, a desempenhar determinada missão dentro do Corpo Místico.

“Jesus Cristo” – lemos na Constituição Lumen Gentium – “comunicando o Seu Espírito, fez dos Seus irmãos, chamados de entre todos os povos, o Seu Corpo Místico. Nesse corpo a vida de Cristo difunde-se naqueles que nEle crêem...” Como todos os membros do corpo humano, apesar de serem muitos, formam, um só corpo, assim também os fiéis em Cristo”

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(Cf. 1Cor 12, 12). “Na organização do Corpo Místico de Cristo existe igualmente diversidade de membros e funções. É um único Espírito que distribui os seus vários dons para bem da Igreja, na medida das riquezas e exigências dos serviços” (Chl 20).

Para saber a forma de serviço que deve caracterizar os legionários na vida do Corpo Místico, fixemos os olhos em Maria. Ela foi-nos apresentada como o coração do Corpo Místico. A sua função, como a do coração humano, é fazer circular o sangue de Cristo, levando às diversas partes do corpo, a vida e o crescimento. Acima de tudo, é um trabalho de amor. Por conseguinte, os legionários, ao exercerem o seu apostolado em união com Maria, são chamados a fazer uma só coisa com Ela, no Seu papel vital de coração do Corpo Místico.

“Não pode dizer a vista à mão: não preciso da tua ajuda; nem a cabeça aos pés: não me sois necessários” (1Cor 12, 21). Tais palavras revelam ao legionário, a importância da sua cooperação na obra do apostolado. E isto, não devido apenas à sua união com Cristo, com o qual forma um só Corpo e de quem depende, mas ainda porque o próprio Cristo, que é a cabeça, depende verdadeiramente do legionário a quem bem poderia se dirigir nestes termos: “Eu necessito da tua ajuda na Minha obra de santificar e salvar as almas”. São Paulo destaca, a propósito, a dependência em que se encontra a cabeça em relação ao corpo, quando fala de completar em sua carne, o que falta à Paixão de Cristo (Cl 1, 24). A frase, estranha, não significa de modo algum que a obra de Cristo ficasse imperfeita; ela salienta apenas a idéia de que, cada membro do Corpo Místico tem de contribuir, na medida do possível, para a própria salvação e para a salvação dos restantes membros (Fl 2, 12)

Essa doutrina instrui o legionário sobre a sublime vocação, a que foi chamado, como membro do Corpo Místico: a de completar o que falta à missão de Nosso Senhor. Maravilhoso pensamento este: Jesus Cristo necessita de mim para levar a luz e a esperança aos que vivem nas trevas, o consolo aos aflitos, a vida aos mortos no pecado. Inútil seria acrescentar, conseqüentemente, que o legionário tem de agir dentro do Corpo Místico, copiando de modo singular o amor e a obediência incomparáveis que Cristo, a Cabeça, dedicou à Sua Mãe; amor que o Seu Corpo Místico tem de reproduzir.

“Assim como São Paulo nos assegura completar em seu próprio corpo a medida dos sofrimentos de Cristo, assim podemos afirmar que um verdadeiro cristão, membro de Jesus e a Ele unido pela grã-

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ça, continua e vai até o fim, através do seu trabalho comprometido com o espírito de Jesus, as ações do próprio Salvador, durante a Sua vida mortal. E isto de tal forma que, quando um cristão reza, dá continuidade à oração iniciada por Jesus sobre a terra; quando trabalha, completa o que faltou à vida apostólica de Jesus. Temos de ser assim outros tantos Cristos sobre a terra, continuando-O na Sua Vida e nas suas ações, agindo e sofrendo tudo, no espírito de Jesus, isto é, com santas e divinas disposições” (São João Eudes: O Reino de Jesus).

3. O sofrimento no Corpo Místico

A missão dos legionários coloca-os em íntimo contato com todos os homens, especialmente com os que sofrem. Necessário é, pois, que conheçam a fundo aquilo que o mundo é inclinado a chamar, o problema do sofrimento. Ninguém pode fugir nesta vida à sua Cruz. A maior parte revolta-se contra ela, procurando desviá-la dos seus ombros, e, porque isso é impossível, ficam esmagados sob o seu peso. Inutilizam assim os planos da Redenção, que exigem o complemento da dor para que a vida resulte frutuosa, do mesmo modo que, qualquer tecido exige o cruzamento de fios para se obter o tecido. A dor só aparentemente contraria e impossibilita a vida do homem. Na realidade, ela a favorece e a aperfeiçoa. Assim o ensina a Sagrada Escritura, em cada uma das suas páginas, quando proclama a necessidade “não só de crer em Cristo, mas também a de sofrer por Ele” (Fl 1, 29); e ainda: “Se morrermos com ele, com Ele viveremos; se com Ele padecermos, com Ele reinaremos” (2Tm 2, 11-12).

A nossa morte em Cristo, de que fala o Apóstolo, está representada por uma cruz salpicada de Sangue – aquela em que Cristo, nossa Cabeça, acaba de consumar a Sua obra. Ao pé da Cruz e imersa em tal desolação que parecia impossível continuar a viver, estava a Mãe do Redentor e dos remidos, aquela de cujas veias tinha vindo o sangue que tão abundantemente molhava a terra, para resgate da humanidade. Este Sangue Precioso é o mesmo que é destinado a circular pelo Corpo Místico, conduzindo a vida até as mais pequenas células; levando à alma a perfeita imagem de Cristo, de um Cristo completo; não apenas do de Belém e do Tabor, feliz e refulgente de glória, mas também do Cristo doloroso, do Cristo vítima, do Cristo do Calvário. Para que os maravilhosos frutos desta torrente redentora possam ser aplicados às almas devemos conhecê-los.

[Capítulo 9 O Legionário e o Corpo Místico de Cristo página 56]

Saibam todos os cristãos que não podem selecionar em Cristo o que agrada e rejeitar o restante. Saibam-no tão bem como o soube Maria nas alegrias da Anunciação. Ela já então sabia que não era convidada a ser somente mãe venturosa, mas também mãe dolorosa; tendo-se entregado a Deus sem a menor reserva desde sempre, aceita o Cristo completo. Ao acolher o Menino no seu seio, ela tinha perfeito conhecimento de tudo quanto estava contido no mistério; estava disposta tanto a esgotar com o seu Filho o cálice da amargura, como a compartilhar com Ele, as Suas glórias. Nesse momento, se uniram aqueles dois Corações Sacratíssimos tão estreitamente, que chegaram quase a identificar-se. Foi, então, que começaram a pulsar em conjunto dentro do Corpo Místico e em seu benefício; e, Maria se tornou a Medianeira de todas as Graças, o Vaso Espiritual que recebe e espalha o Precioso Sangue do Senhor. Ora, o que aconteceu à Mãe, acontecerá com aos filhos. O homem será tanto mais útil a Deus, quanto mais íntima for a sua união com o Sagrado Coração, a fonte, onde ele irá beber o Sangue Redentor, para o derramar com grande fartura sobre as almas. É necessário porém, que esta união com o Sangue e o Coração de Cristo, abranja totalmente a vida de Jesus; não basta que se aproprie de uma ou de outra fase. Seria tão leviano como indigno receber de braços abertos o Rei da Glória e rejeitar o Homem das Dores, porque Um e Outro são o mesmo Cristo. Aquele que não acompanhar o Cristo sofredor, não tomará parte na Sua missão junto das almas nem participará da Sua glória.

Conclui-se, portanto, que sofrer é sempre uma graça: graça que, quando não cura, fortifica. Nunca podemos conceber o sofrimento como castigo do pecado. “Fica sabendo” diz S. Agostinho, “que as aflições do gênero humano não são uma lei penal, pois o sofrimento tem caráter terapêutico”. Por outro lado, a Paixão do Senhor transborda, por privilégio todo especial, sobre os santos e os justos, a fim de os tornar mais semelhantes ao Redentor. Este intercâmbio e esta fusão de sofrimentos é a base de toda a mortificação e reparação.

Uma simples comparação com a circulação do sangue no corpo humano dá a idéia perfeita da função e da finalidade do sofrimento. Tomemos para exemplo a mão. A pulsação que ali se nota corresponde ao bater do coração – fonte do sangue quente que nela circula. É que a mão está unida ao corpo de que faz parte. Se a circulação diminui, as veias se encolhem e o sangue encontra maior dificuldade em correr; e essa dificuldade aumenta à medida que o frio se torna mais intenso. Se o frio for de tal

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intensidade que faça cessar a pulsação, a mão gelará e os seus tecidos morrerão. Ficará caída, sem sangue e não tardará a surgir a gangrena, caso esta situação se prolongue.

Estes diversos graus de frio ajudam-nos a compreender melhor as possíveis situações espirituais do Corpo Místico. Em alguns a capacidade de receber o Precioso Sangue é tão limitada, que correm perigo de morte, como membros gangrenados que têm de ser amputados. O remédio para um membro gelado é evidente: provocar de novo a circulação para que recupere a vida. Introduzir o sangue à força, nas veias e artérias constitui, sem dúvida processo doloroso, mas a dor é anúncio de futura alegria. Acontece que a maioria dos católicos praticantes não são de fato membros gelados; contentes consigo, dificilmente se considerarão até membros frios. No entanto, o Precioso Sangue não circula neles no grau desejado pelo Senhor, o que o obriga a introduzir neles à força, a Sua vida.

O Sangue Divino, circulando e dilatando as veias endurecidas, causa dores ao paciente: são os sofrimentos da vida. Estas dores, porém, bem compreendidas, não deveriam constituir uma fonte de alegria? A consciência da dor converte-se, então, na consciência da presença real e íntima de Nosso Senhor Jesus Cristo.

“Jesus Cristo sofreu tudo quanto tinha de sofrer, nada faltou para fazer transbordar a medida dos Seus padecimentos. No entanto, a Sua Paixão não terminou ainda... Terminou, sim, no que ser refere à Cabeça, mas continua nos membros do Seu Corpo. Com muita razão, pois, Nosso Senhor, que ainda sofre no Seu Corpo, deseja ver-nos tomar parte no seu sacrifício redentor. Exige-o a nossa união com Ele: porque, se somos o Corpo de Cristo e membros uns dos outros, tudo quanto sofra a Cabeça, os membros também deveriam sofrer em solidariedade com ela” (Santo Agostinho).

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APOSTOLADO DA LEGIÃO

1. Dignidade do Apostolado

Para descrever a dignidade do apostolado, para o qual a Legião convida os seus membros, e demonstrar a sua importância para a Igreja, não podemos encontrar palavras mais expressivas do que a seguinte declaração:

[Capítulo 10 Apostolado da Legião página 58]

“O dever e o direito dos leigos ao apostolado, se originam da sua mesma união com Cristo Cabeça. Com efeito, pertencendo pelo Batismo ao Corpo Místico de Cristo e robustecidos pela Confirmação com a força do Espírito Santo, é pelo Senhor mesmo que são destinados ao apostolado. São sagrados em ordem a um sacerdócio real e a um povo santo (cf. 1 Pd 2, 4-10) para que todas as suas atividades seja oblações espirituais e por toda a terra dêem testemunho de Cristo. E os Sacramentos, sobretudo a Sagrada Eucaristia, comuniquem e alimentem neles, aquele amor que é a alma de todo o apostolado” (AA 3).

Pio XII dizia: “Os fiéis, e mais propriamente os leigos, encontram-se na linha mais avançada da vida da Igreja; para eles, a Igreja é o princípio vital da sociedade humana. Por isso, eles devem ter consciência, cada vez mais clara, não só de pertencerem à Igreja, mas de serem a Igreja, isto é, a comunidade dos fiéis sobre a terra, sob a orientação do chefe comum, o Papa, e dos Bispos em comunhão com ele. Eles são a Igreja” (ChL 9).

“Maria exerce sobre o gênero humano uma influência moral que não podemos definir melhor, senão comparando-a às forças físicas de atração, afinidade e coesão, que na Natureza unem entre si, os corpos e as partes componentes... Parece-nos ter demonstrado que Maria tomou parte em todos os grandes movimentos, que constituem a vida das sociedades e a sua verdadeira civilização” (Petitalot).

2. Absoluta necessidade do Apostolado dos Leigos

Não temos dúvida em afirmar que a saúde moral de uma comunidade católica depende da presença no seu seio de um grupo numeroso de apóstolos que, embora formado por leigos, partilha do espírito do sacerdote, assegurando-lhe estreito contato com o povo e constante controle da realidade. A segurança resulta desta perfeita união entre o sacerdote e o povo.

Ora, o apostolado exige ardoroso interesse pela prosperidade da Igreja e pela sua obra, interesse que dificilmente existirá sem o desejo de trabalhar pessoalmente, na extensão do Reino de Deus. A organização apostólica torna-se assim o molde de verdadeiros apóstolos.

Onde estas qualidades de apostolado não forem cuidadosamente cultivadas, a nova geração terá de enfrentar inevitável-

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mente um sério problema: a falta de sincero interesse pela Igreja e a ausência de sentido de responsabilidade. Deste Catolicismo infantil, o que se poderá esperar? Só está seguro, em tempo de tranqüilidade. A experiência ensina-nos que, ao menor sinal de perigo, o rebanho sem energia se deixa dominar pelo desespero, pisoteando, na fuga, até o próprio pastor, ou é devorado pela primeira alcatéia de lobos que aparece. “Em todos os tempos” – diz um princípio formulado pelo Cardeal Newman – “os leigos têm sido a justa medida do espírito católico”.

“Fomentar entre os leigos o sentido de uma vocação própria – eis o importantíssimo papel da Legião de Maria. Nós, os leigos, corremos o risco de identificar a Igreja com o clero e os religiosos, a quem Deus concedeu o que chamamos, em sentido demasiadamente exclusivo, uma vocação. Somos tentados, inconscientemente a olhar-nos como multidão anônima, salvando-nos por grande sorte, se cumprirmos o mínimo exigido. Esquecemo-nos de que o Senhor chama as suas ovelhas pelo nome (Jo 10, 3) e que – usando as palavras de S. Paulo (Gl 2, 20), que como nós não esteve fisicamente presente no Calvário: – “O Filho de Deus amou-me e se entregou a Si mesmo por mim”. Cada um de nós, seja ele carpinteiro de aldeia como o próprio Jesus ou uma humilde dona de casa, como a Virgem Maria, tem uma vocação; é chamado individualmente por Deus a amá-lO e a servi-lO, a fazer um trabalho particular que outros poderão talvez, realizar melhor, mas nunca substituir. Só eu e mais ninguém posso dar o meu coração a Deus ou executar o meu trabalho. Ora, a Legião de Maria cultiva exatamente este sentido pessoal da religião. O legionário não se contenta com uma atitude passiva ou irresponsável: homem ou mulher, tem de ser e de fazer alguma coisa por Deus. A religião não é coisa de menor importância, mas a inspiração da vida inteira, por mais simples que ela seja aos olhos humanos. A convicção de uma vocação pessoal cria, inevitavelmente, o espírito apostólico, o desejo de prosseguir a obra de Cristo, de ser outro Cristo, de servi-lO no mais pequenino de seus irmãos. A Legião é assim o substituto leigo de uma ordem religiosa, a tradução da idéia cristã de perfeição, na vida dos leigos; a expansão do Reino de Cristo no mundo do dia-a-dia” (Alfredo O’Rahilly).

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3. A Legião e o Apostolado dos Leigos

Como tantos outros grandes princípios, o apostolado é em si mesmo uma teoria fria e abstrata. Daí o perigo real de não exercer atração sobre as pessoas, de tal maneira que poderão não corresponder ao elevado destino que lhes foi imposto ou, pior ainda, poderão ser julgados incapazes de lhe corresponder. O resultado desastroso seria o abandono do esforço exercido, para levar os leigos a desempenharem, na batalha da Igreja, a sua parte própria e indispensável.

Ora, – diz um qualificado juiz, o Cardeal Riberi, então Delegado Apostólico nas Missões da África e depois Internúncio na China: “A Legião de Maria é o apostolado apresentado de forma atraente e fascinante; tão palpitante de vida que a todos encanta; realizado conforme o desejo de Pio XI, isto é, em inteira dependência da Virgem Mãe de Deus; exigindo a qualidade como elemento básico para o recrutamento; protegido pela oração assídua, pelo sacrifício de si próprio, por uma organização perfeita e por uma estreita cooperação com o sacerdote. A Legião de Maria é um milagre dos tempos modernos”.

A Legião respeita o sacerdote e obedece-lhe com acatamento que deve aos legítimos superiores. Mais ainda: o seu apostolado baseia-se no fato de que os principais canais da graça são a missa e os sacramentos, de que o sacerdote é o ministro oficial. Todos os esforços e trabalhos deste apostolado devem dirigir-se para este elevado fim: levar o alimento divino à multidão doente e esfomeada. Isso significa que um dos objetivos principais da ação legionária é conduzir o sacerdote ao meio do povo, se não em pessoa, o que às vezes é impossível, ao menos tornando compreensível a sua função e valorizando a sua influência.

Esta é a idéia essencial do apostolado da Legião. Apesar de leiga na massa dos seus membros, trabalhará em união com o sacerdote, sob a sua direção e em plena identificação de interesses. Procurará ardentemente apoiar os seus esforços e conseguir-lhe um lugar mais vasto na vida dos homens, de sorte que, recebendo-o, recebam Aquele que o enviou.

“Em verdade, em verdade vos digo: quem recebe aquele que Eu enviar recebe-Me a Mim, e o que Me recebe, recebe Aquele que Me enviou” (Jo 13, 20).

[Capítulo 10 Apostolado da Legião página 61]

4. O Sacerdote e a Legião

A idéia do sacerdote, assistido por um grupo dedicado de apóstolos que participa dos seus trabalhos, tem a mais santa das aprovações: o exemplo do próprio Jesus Cristo que, preparando-se para converter o mundo, rodeou-se de homens escolhidos aos quais instruiu e encheu do Seu espírito.

Esta divina lição aprenderam-na e aplicaram-na os Apóstolos, chamando em seu auxílio todos os fiéis para os ajudarem na conquista dos seres humanos. Como muito bem disse o Cardeal Pizzardo, é possível que os estrangeiros vindos de Roma (At 2, 10) que ouviram a pregação dos Apóstolos no dia de Pentecostes, fossem os primeiros a anunciar Jesus Cristo naquela cidade, lançando assim as sementes da Igreja-Mãe, que São Pedro e São Paulo haviam de fundar oficialmente. “Que teriam feito os Doze, perdidos na imensidão do mundo, se não estivessem rodeado de colaboradores – homens e mulheres, velhos e novos – dizendo-lhes: Trazemos conosco o tesouro do Céu, ajudai-nos a reparti-lo” (Pio XI).

A estas palavras de um grande Pontífice podem ajuntar-se as de um outro, como demonstração de que o exemplo de Nosso Senhor e seus Apóstolos, na conversão do mundo foi dado por Deus como modelo a seguir por cada sacerdote (um outro Cristo) no seu pequenino mundo, paróquia, bairro ou obra especial.

Falando um dia o Papa S. Pio X com um grupo de cardeais, dizia-lhes: “Que coisa é mais necessária nos tempos presentes para a salvação da sociedade?” – “Levantar escolas católicas”, respondeu um. – “Não”, retorquiu o Papa. – “Multiplicar as igrejas”, tornou outro. – “Também não”. – “Intensificar o recrutamento sacerdotal”, sugeriu um terceiro. – “Não, não”, replicou o Papa: “O que há de mais necessário é a existência em cada paróquia de um grupo de leigos que sejam ao mesmo tempo virtuosos, instruídos, resolutos e verdadeiramente apostólicos”.

No fim da vida, este santo Pontífice contava, para a salvação do mundo, com grupos de católicos convenientemente treinados por um clero zeloso, que se entregaram ao apostolado pela palavra e pela ação, mas sobretudo, pelo exemplo. Nas dioceses em que exerceu o sagrado ministério antes de ser Papa, dava menos importância ao recenseamento dos paroquianos do que à relação dos católicos, capazes de irradiar a sua fé, dedicando-se ao apostolado. Era de opinião que em todas as classes, podia haver um grupo de especial destaque. Por isso, ele classificava os sacerdotes de acordo com os resultados obtidos nesta matéria,

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pelo seu zelo e pelos seus talentos (Chautard: A alma de todo o apostolado, 4).

“A missão de pastor não se limita ao cuidado singular dos fiéis, mas estende-se também propriamente à formação da verdadeira comunidade cristã. Para que seja cultivado devidamente o espírito de comunidade, deverá abraçar não só a Igreja local, mas também a Igreja inteira. A comunidade local, porém, não deve se preocupar somente com o cuidado pelos seus fiéis, mas também, cheia de ardor missionário, deve preparar, para todos, o caminho para Cristo. Considere, todavia, como recomendados de modo especial, os que estão se preparando para o Batismo e os recém-batizados, que devem ser educados gradualmente, no conhecimento e na vivência da vida cristã” (PO 6).

“Deus feito homem achou necessário deixar o Seu Corpo Místico na terra. Se não o tivesse feito, a Sua obra teria terminado no Calvário. A Sua morte teria merecido a salvação para o gênero humano, mas como é que tantos homens teriam ganho o Céu sem a Igreja para lhes comunicar a vida da cruz? Cristo identifica-se, de modo especial, com o sacerdote. O sacerdote é como um coração a mais, que abre caminho para os corações, ao sangue da vida sobrenatural. É uma parte essencial do sistema de transmissão espiritual no Corpo Místico de Cristo. Se ele falha, o sistema é bloqueado, e aqueles que dele dependem não recebem a vida que nos planos de Cristo deveriam receber. O sacerdote, dentro dos devidos limites, deveria ser para o seu povo o que Cristo é para a Igreja. Os membros de Cristo são um prolongamento d’Ele mesmo e não simplesmente empregados, agregados, partidários. Os membros de Cristo possuem a vida de Cristo. Partilham da atividade de Cristo. Deveriam ter a maneira de ver de Cristo. Os sacerdotes, por sua vez, deveriam ser uma só coisa com Cristo, sob todos os aspectos possíveis. Se Cristo achou necessário formar um Corpo espiritual para si, o sacerdote deveria fazer o mesmo. Deveria formar, para si, membros que fossem uma só coisa com ele. Se um sacerdote não tiver membros vivos, formados por ele, unidos a ele, o seu trabalho se reduzirá a dimensões insignificantes. Ficará só e desamparado. “O olho não pode dizer à mão: não necessito do teu serviço; nem a cabeça pode dizer aos pés: vós não me sois necessários” (1Cor 12, 21).

De sorte que, se Cristo fez do Seu Corpo Místico o princípio do Seu caminho, da Sua verdade, da Sua vida para os homens, isto tudo vai agir, exatamente, através do novo Cristo, o sacerdote. Se ele não exerce a sua função de modo que ela seja verdadeiramente a

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perfeita construção do Corpo Místico, a que se refere a Carta aos Efésios (4, 12 – texto habitualmente traduzido por “edificação dos fiéis”), a vida divina só em pequena quantidade penetrará nos corações e neles frutificará. Além disso, o sacerdote ficará empobrecido, porque, embora a missão da cabeça seja ministrar a vida ao corpo, não é menos verdade que a cabeça vive pela vida do corpo, crescendo com o seu crescimento, partilhando da sua fraqueza se ele perde as forças.

O sacerdote que não compreende esta lei da missão sacerdotal, avançará pela vida afora, realizando apenas uma pequena parte das suas possibilidades, quando o seu verdadeiro destino em Cristo é abraçar os horizontes” (Padre F.J. Ripley).

5. A Legião na Paróquia

“Nas atuais circunstâncias, os fiéis leigos podem e devem fazer muitíssimo para o crescimento de uma autêntica comunhão com a Igreja no seio das suas paróquias e para o despertar do impulso missionário com relação aos que em nada acreditam e também com relação àqueles que por ventura abandonaram ou diminuíram a prática da vida cristã” (ChL 27). Logo se perceberá que, com a fundação da Legião de Maria se desenvolverá enormemente um verdadeiro espírito de comunidade. Através da Legião, os leigos acostumam-se a trabalhar na paróquia em íntima união com os sacerdotes e a participarem das responsabilidades pastorais. A regulamentação das várias atividades paroquiais, mediante uma reunião regular semanal, traz vantagens evidentes. Todavia uma consideração mais elevada se impõe: as pessoas envolvidas nas atividades paroquiais, pertencendo à Legião, receberão uma formação espiritual que as ajudará a compreender que a paróquia é uma comunidade Eucarística e que por meio de um sistema bem organizado, se tornarão capazes de atingir cada um dos paroquianos, com o objetivo de elevar a comunidade. Alguns dos trabalhos em que a Legião pode se empenhar na paróquia, são apresentados no capítulo 37: Sugestões de Trabalhos.

“O apostolado dos leigos deve ser considerado pelos sacerdotes como parte integrante do seu ministério, e pelos fiéis, como uma exigência da vida cristã” (Pio XI).

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6. Um idealismo forte e uma ação intensa, frutos da Legião

Se a Igreja se prendesse a uma rotina demasiadamente cautelosa, colocaria a Verdade de que é guarda, em situação desfavorável. A natureza generosa necessita de um ideal de ação; e se a juventude se acostumar a procurá-lo nas organizações ou sistemas não religiosos, isso constituirá uma desgraça terrível, cujas conseqüências atingirão as gerações futuras.

A Legião pode remediar este mal, realizando os seu programa de iniciativa, de esforços e de sacrifícios, ajudando a Igreja a apropriar-se destas duas palavras que dão vida: “Idealismo” e “Ação”, de modo a torná-las preciosas auxiliares da sua doutrina.

No dizer do historiador Lecky, o mundo é governado pelos ideais. Sendo assim, aqueles que criam um ideal mais alto, arrastam por ele, o gênero humano. Trata-se, é evidente, de um ideal prático e suficientemente claro, que possa ser atingido por todos. Admitamos que os ideais apresentados pela Legião correspondam a estas duas exigências.

Uma das mais importantes características da Legião será o desabrochar de numerosas vocações religiosas entre os legionários e os seus filhos.

Alguém poderá apresentar a objeção de que ninguém quererá assumir, no egoísmo universal em que vivemos, o “pesado” compromisso de membro da Legião. É um erro. A multidão daqueles que preferem uma vida vulgar passa sem deixar rastro. Pelo contrário, os poucos que correspondem, enérgicos, ao esforço exigido por um ideal mais elevado, permanecerão, transmitindo lentamente o seu ardor a outros.

Um Praesidium da Legião pode constituir um meio poderoso para ajudar o sacerdote no recrutamento cada vez maior de leigos que colaborem na evangelização dos que estão confiados aos seus cuidados. Deste modo, uma hora e meia, despendida por semana, a guiar os membros de um Praesidium, a encorajá-los, a sobrenaturalizá-los, vai lhe permitir estar em toda a parte, ouvir tudo, exercer influência em cada um, ultrapassando as possibilidades das suas forças físicas. Com efeito, a direção de vários Praesidia parece constituir uma das melhores aplicações do zelo de um pastor do rebanho.

O sacerdote, armado assim com os seus legionários, – armas humildes, como o bastão e a bolsa, a atiradeira e as pedras, mas tornados por Maria, instrumentos do Céu – pode avançar,

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como outro David, com a certeza antecipada da vitória, contra os mais provocadores Golias da descrença e do pecado.

“É a força moral e não a material que manterá o seu apostolado e assegurará o seu triunfo. Não são os gigantes os que mais fazem. Como era pequenina a Terra Santa! Todavia conquistou o mundo. E que insignificante não era a Ática! Não obstante formou o espírito humano. Um só era Moisés; um só, Elias; um só, David; um só, Paulo; um só, Atanásio; um só, Leão! A graça atua sempre por intermédio de poucos. Os instrumentos do Céu são: visão penetrante, convicção firme, resolução que não se deixa dominar; o sangue do mártir; a prece do santo, a ação heróica, a crise momentânea, a energia concentrada numa palavra ou num olhar. Não tenham medo, pequeno rebanho, porque é onipotente Aquele que está no meio de vocês e por vocês realizará prodígios” (Newman: A posição atual dos católicos).

7. Formação apostólica pelo método mestre e aprendiz

A formação de apóstolos é para a maior parte das pessoas um problema de fácil solução, mediante uma série de conferências e o estudo de livros de texto. A Legião julga, pelo contrário, que não pode haver formação efetiva sem trabalho correspondente que a acompanhe. A palestra sobre o apostolado, sem a realização de um trabalho real, levaria, talvez, a resultados apostos. Notemos que, ao expor o processo de concluir o trabalho, torna-se necessário descrever as suas dificuldades e apresentar motivos ou normas superiores para a sua perfeita realização. Falar desta maneira aos candidatos sem lhes mostrar ao mesmo tempo, de modo concreto, que o trabalho é fácil e está ao alcance das próprias forças, serviria apenas para intimidar e afastar. O sistema de conferência produz o teórico e também os homens que pensam converter o mundo com a atividade da inteligência. Tais pessoas perderiam o desejo de se consagrar aos serviços humildes e ao prosseguimento dedicado dos contatos individuais dos quais tudo depende, e que o verdadeiro legionário, diga-se de passagem, abraça prontamente.

A formação, no entender da Legião, deverá ser feita conforme o método mestre e aprendiz. É este o processo ideal de formação usado em todas as profissões e artes, sem exceção. Em vez de longas conferências, o mestre coloca a obra dian-

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te do aprendiz e, por demonstração prática, indica-lhe como se faz, explicando cada ponto à medida que o trabalho prossegue. Depois, sob o olhar do mestre que lhe corrige os desacertos, o aprendiz tenta por si mesmo, o trabalho. De tal método de formação surge o homem competente, o profissional. As palestras hão de basear-se, por conseqüência, no próprio trabalho, e cada uma das palavras se referirá a uma ação concreta, senão pouco fruto se há de colher. É estranho, mas há pouco aproveitamento de conferências, mesmo por parte de estudantes, regularmente aplicados!

Acrescente-se que, propor a pessoas desejosas de se iniciar numa organização apostólica, o sistema de conferências, seria afastar inúmeros candidatos. Poucos estariam dispostos a sujeitar-se a semelhante prova. A maior parte, ao deixar os bancos escolares, prometeu a si mesma, não voltar. Gente simples do povo fica apavorada diante da idéia de ter que voltar às aulas, mesmo “santas”. Daqui, a fraca atração exercida sobre as almas pelos métodos de estudo da estratégia apostólica. O processo legionário é mais simples e psicológico. “Venham conosco e trabalharemos juntos” – dizem os legionários. Convidam-nos não para uma aula, mas para o trabalho que eles mesmos estão fazendo. Certos de que a tarefa não excederá as suas energias, os novos operários alistam-se com entusiasmo na organização, tornando-se em breve apóstolos competentíssimos. Além de verem como os outros membros trabalham, os candidatos tomam parte nas atividades comum, e aprendem pelos relatórios e respectivos comentários, o melhor meio de os levar a bom fim.

“A Legião é muitas vezes criticada por falta de membros especializados ou por não insistir a que se dediquem a longos períodos de estudo. Digamos pois a este respeito: a) A Legião utiliza sistematicamente a contribuição dos seus membros mais bem qualificados. b) Evitando, embora, dar extrema importância ao estudo, esforça-se por preparar cada um dos seus membros, por métodos apropriados, para o seu apostolado particular. c) O objetivo dominante, porém, é apresentar uma estrutura com a qual a Legião possa dizer ao católico comum: ‘Venha, traga seu pouco talento e nós lhe ensinaremos a desenvolvê-lo e a usá-lo, por intermédio de Maria, para glória de Deus’. Não devemos esquecer que a Legião existe tanto para os humildes e desvalidos, como para os sábios e poderosos” (Padre Tomás O’Flynn, C.M., antigo Diretor Espiritual do Concilium Legionis Mariae).

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O PLANO DA LEGIÃO

1. A santificação pessoal: fim e meio

O meio comum e essencial de que a Legião de Maria se serve para atingir o seu fim, consiste na execução de um serviço pessoal sob o impulso do Espírito Santo, isto é, tendo como princípio motor e apoio, a graça divina e como último objetivo, a glória de Deus e a salvação das almas.

A santificação pessoal é assim não só o fim da Legião de Maria, mas, também o seu principal meio de ação: “Eu sou a videira, vós os ramos. O que permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto, porque sem Mim nada podeis fazer” (Jo 15, 5).

“A nossa fé crê que a Igreja, cujo mistério, o sagrado Concílio expõe, é infalivelmente Santa. Com efeito, Cristo, Filho de Deus, que é com o Pai “o único santo”, amou a Igreja como esposa, entregou-se por ela, para a santificar (cf. Ef 5, 25-26) e uniu-a a Si como Seu corpo, cumulando-a com o dom do Espírito Santo, para glória de Deus. Por isso, todos na Igreja, quer pertençam à Hierarquia ou quer por ela sejam pastoreados, são chamados à santidade, segundo a palavra do Apóstolo: “esta é a vontade de Deus, a vossa santificação” (1Ts 4, 3; cf. Ef 1, 4). Esta santidade da Igreja incessantemente se manifesta, e deve manifestar-se, nos frutos da graça que o Espírito Santo produz nos fiéis; exprime-se de muitas maneiras em cada um daqueles que, no seu estado de vida, tendem à perfeição da caridade, dando bom exemplo ao próximo; aparece de um modo especial na prática dos conselhos chamados evangélicos. A prática destes conselhos, abraçados sob o impulso do Espírito Santo por muitos cristãos, quer particularmente, quer nas condições ou estados aprovados pela Igreja, leva e deve levar ao mundo, admirável testemunho e exemplo desta santidade” (LG 39).

2. Um sistema perfeitamente organizado

As grandes fontes de energia natural, se não forem canalizadas, perdem-se. De modo semelhante, o zelo sem método e o entusiasmo sem direção nunca produzem grandes resultados, quer interiores quer exteriores, e mesmo assim, a maior parte das vezes, são de pouca duração. Consciente disso, a Legião apresenta aos seus membros mais um modo de vida do que uma simples tarefa a realizar. Baseia-se, para tal, num sistema perfeitamente

[Capítulo 11 O Plano da Legião página 68]

organizado, no qual, tem força de regra aquilo que em outras organizações é apenas aconselhado ou simplesmente sugerido, impondo, mesmo no que se refere a cada pormenor, a mais exata observância. Promete, como prêmio, a perseverança e um visível progresso nas virtudes da perfeição cristã, especialmente a fé, o amor a Maria, a intrepidez, a imolação de si próprio, a fraternidade, o espírito de oração, a prudência, a paciência, a obediência, a humildade, a alegria e o espírito apostólico.

“O desenvolvimento do que comumente chamamos apostolado dos leigos é uma das manifestações especiais do nosso tempo, tendo por si, se atendermos unicamente ao número dos que a ele se podem dedicar, possibilidades ilimitadas de expansão. Apesar disso, como nos parecem insuficientes as disposições tomadas para a manutenção e progresso deste movimento colossal! Quando se compara o grande número de congregações religiosas tão admiravelmente concebidas para atender às necessidades daqueles que abandonam o mundo, com a maneira pela qual estão organizados os que no mundo permanecem, – que contraste impressionante! De um lado, que escrupuloso cuidado e que sábia precisão – para fazer render ao máximo a atuação de cada um! Do outro, como são elementares e superficiais as disposições empregadas! A organização exige dos seus membros, inegavelmente, a realização de uma tarefa; mas esta, para a maior parte deles, não passa, na roda da semana, de simples distração, que dificilmente chegará a representar algo mais importante. Devemos ter, quanto a este serviço, o mais elevado conceito. Não deveria ele constituir, para cada um dos membros, a base de toda a sua vida espiritual, e ainda ser o seu bordão de peregrino na caminhada para o céu?”

Sem dúvida, as congregações religiosas devem servir de modelo aos leigos que trabalham em comum. Não é ousado afirmar que, em igualdade de circunstâncias, a qualidade de trabalho realizado aumentará na medida em que mais se aproximar dos métodos das congregações. Surge, porém, uma dificuldade: até que ponto se deve impor uma regra? Por mais desejável que seja a disciplina para se trabalhar com eficácia, corre-se constantemente o perigo de exagerar, diminuindo assim o poder de atração do organismo. Nunca devemos esquecer que se trata de uma organização permanente de leigos. Não equivale, de forma alguma, a uma nova ordem religiosa, nem pretende vir a ser, como outrora aconteceu, e muitas vezes, com outras organizações.

[Capítulo 11 O Plano da Legião página 69]

“O fim que se pretende atingir é este e não outro: levar a uma organização eficiente as pessoas que têm uma vida comum – como nós a conhecemos – e nas quais devemos ter em conta as diferenças de gostos e ocupações, que nem sempre são de caráter puramente religioso. A regulamentação a impor não deve ultrapassar aquilo que possa ser aceito pela maior parte das pessoas, a que a organização é destinada, mas, também não deve ficar aquém” (Padre Miguel Creedon, primeiro Diretor Espiritual do Concilium).

3. A perfeição dos membros

Segundo a Legião, a perfeição dos seus membros deve avaliar-se, não pelo prazer causado pelos êxitos reais ou aparentes, mas pela fidelidade exata ao seu método. Só merecem o nome de legionários na medida em que obedecem ao sistema.

Exortam-se os Diretores Espirituais e os Presidentes dos Praesidia a relembrar constantemente este ideal de perfeição àqueles que lhes foram confiados. Constitui o ideal que todos podem atingir e que não está no êxito nem na consolação conquistada pelo trabalho. Só na sua realização encontrar-se-á o remédio eficaz contra a monotonia, o trabalho enfadonho, a falta de êxito real ou imaginário que, aliás, podem reduzir a nada, no campo do apostolado, as mais prometedoras esperanças.

“Devemos notar que os nossos serviços à Sociedade de Maria se avaliam, não pela importância do cargo que nessa sociedade desempenhamos, mas pelo grau de espírito sobrenatural e de zelo por Maria, com que nos dedicamos ao dever que nos é imposto pela obediência, – por mais humilde e apagado que seja” (Pequeno Tratado de Mariologia, por um Marianista).

4. A obrigação principal

Como primeira obrigação e a mais importante no seu sistema, a Legião de Maria impõe aos seus membros a participação das reuniões. O que a lente é para os raios solares é a reunião para os membros: foco que os concentra, os incendeia, e inflama tudo quanto dele se aproxima. É a reunião que faz a Legião. Ela é o vínculo: se esse vínculo for partido ou relegado ao abandono, os membros desertam pouco a pouco e a obra desmorona.

[Capítulo 11 O Plano da Legião página 70]

Pelo contrário, quanto mais a reunião for respeitada, tanto mais se intensificará o benéfico poder da organização.

As seguintes palavras, traçadas nos primeiros tempos da Legião, representam ainda hoje, como outrora, o seu modo de pensar sobre o organismo e, conseqüentemente, sobre a importância fundamental da reunião, – foco, como acima se disse, do sistema: “Numa organização, o indivíduo, por mais categorizado que seja, desempenha o papel de dente numa roda. Cede, em parte, a sua independência à máquina, isto é, ao conjunto dos seus associados que deste modo produzem cem vezes mais. Um sem-número de indivíduos que, de outra maneira, permaneceriam inativos ou inferiores à sua tarefa, entram em movimento; e cada um deles trabalha, não mais com a sua reduzida força pessoal, mas com o ardor e a potência incalculáveis que lhe são transmitidos pelas melhores qualidades de cada associado. Reparem em um bocado de carvão caído por terra, e o imaginem depois, transformados em brasa, em uma fornalha ardente. Assim é com os homens.

A organização possui, desta maneira, independentemente dos indivíduos que a compõem, uma vida própria. Mais que a beleza ou a necessidade do trabalho realizado, esta característica parece ser, na prática, o ímã que atrai os novos legionários. O organismo estabelece uma tradição, gera a lealdade, impõe o respeito e a obediência, e inspira poderosamente todos os membros. Interroguem-nos e verão que eles confiam na Legião como em uma mãe cheia de sabedoria e de prudência. E tem razão. Não é ela que os defende de todas as armadilhas: das imprudências do zelo, do desânimo nas dificuldades, do orgulho no êxito, da hesitação na defesa de idéias rejeitadas por todos, da timidez na solidão e, em geral, da areia movediça onde se afunda a inexperiência? É ela que se apodera da matéria bruta da boa intenção, trabalha-a e a transforma; é ela, enfim, que empreende a ação num plano regular e lhe assegura a expansão e a continuidade” (Padre Miguel Creedon).

“Considerada em relação a nós, seus membros, a Sociedade de Maria é a extensão, a manifestação visível de Maria, nossa Mãe Celeste. Maria recebeu-nos na Sociedade, como em seu amoroso seio maternal, para nos formar à imagem e semelhança de Jesus e assim nos tornar seus filhos prediletos; para distribuir a cada um de nós uma tarefa apostólica, e associar-nos dessa maneira à sua missão de corredentora das almas. Para nós, a causa e os interesses da Sociedade identificam-se com a causa e os interesses de Maria” (Pequeno Tratado de Mariologia, por um Marianista).

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5. A reunião semanal do Praesidium

O Praesidium reúne-se semanalmente, numa atmosfera sobrenatural de oração, de práticas de piedade e de suave espírito fraterno. Nesta reunião, é marcada uma tarefa especial a cada membro e recebido o relatório do trabalho realizado. A reunião semanal é o coração da Legião, de onde jorra, para as veias e artérias, o sangue, que garante a vida, a fonte da luz e da energia; é um tesouro inesgotável que provê a todas as necessidades. É o grande exercício de comunidade, onde o Salvador, segundo a Sua promessa, assiste invisível, no meio dos Seus, e onde graças especiais são derramadas sobre o trabalho de cada um. É aí que os legionários são formados no espírito de religiosa disciplina que os leva, primeiro, a agir no propósito de agradarem a Deus e de se santificarem a si próprios; em seguida, a recorrer à organização como o meio mais apropriado para atingirem estes fins; e, por último, a entregar-se inteiramente à tarefa que lhes foi confiada, sem jamais a subordinar aos seus gostos pessoais.

Considerem os legionários a assistência à reunião semanal do Praesidium como o primeiro e mais sagrado dever para com a Legião. Nada a pode substituir. Sem ela, o trabalho será como um corpo sem alma. A razão mostra e a experiência comprova que o descuido no cumprimento deste dever primordial será seguido de um trabalho ineficaz e, em breve, de inevitáveis desistências.

“Àqueles que não marcham com Maria aplicam-se as palavras de Santo Agostinho: ‘Bene curris, sed extra-viam’: corres bem, mas por fora do caminho. Aonde irás assim parar?” (Petitalot)

12

FINS EXTERNOS DA LEGIÃO

1. O trabalho atualmente em curso

A Legião não se propõe este ou aquele trabalho especial: tem como objetivo principal a santificação dos seus membros. Para atingir esta finalidade apóia-se, em primeiro lugar, na assistência às diversas reuniões, em que a oração e outras práticas de

[Capítulo 12 Fins Externos da Legião página 72]

piedade estão tão unidas e entrelaçadas que moldam com suas características toda a atividade legionária. Mas a Legião procura desenvolver a santidade de um modo peculiar, dando-lhe o caráter de apostolado, aquecendo-a até o ponto de sentir a necessidade de se comunicar. Esta difusão não é apenas o aproveitamento de uma força em desenvolvimento, mas, por uma espécie de reação, é um elemento necessário ao desenvolvimento dessa mesma força: nada contribui mais para o progresso do espírito apostólico do que o exercício do apostolado. Daí, o motivo por que a Legião impõe a cada membro uma obrigação essencial da máxima importância: a de realizar semanalmente um trabalho ativo, determinado pelo Praesidium. A execução desta tarefa constitui um ato de obediência ao Praesidium. Salvas as exceções adiante indicadas, o Praesidium pode aprovar qualquer trabalho ativo que satisfaça a referida obrigação. Todavia, a Legião exige que o trabalho obrigatório seja orientado para reais necessidades e, entre estas, as mais graves, pois a intensidade do zelo que a Legião se esforça por inflamar nos seus membros exige um objetivo digno. Um trabalho insignificante provocará reações desfavoráveis: corações prontos a sacrificar-se pelo próximo, a pagar a Jesus Cristo amor com amor e, em reconhecimento pelos Seus trabalhos e por Sua morte, prontos a dar-Lhe o seu esforço e o seu sacrifício – acabarão por instalar-se na pobreza de uma rotina e na perda de entusiasmo pelo trabalho apostólico.

“Eu não fui recriado com a mesma facilidade com que fui criado. Deus disse uma palavra – e tudo foi feito; mas, se isto bastou para me criar, já para me recriar disse muitas palavras, obrou muitas maravilhas e sofreu muitas dores.” (São Bernardo).

2. O fim mais remoto e mais elevado: o fermento da comunidade

Por mais importante que seja o trabalho que esteja sendo realizado, a Legião não o considera como o fim último ou mesmo principal do apostolado de seus membros. O trabalho pode consumir uma, duas ou mais horas da semana do legionário; para a Legião, porém, que olha mais longe, cada hora deve constituir a irradiação do fogo apostólico aceso no seu lar. O sistema que inflama assim as pessoas lançou no mundo uma força poderosa. O espírito apostólico domina como senhor e tudo governa: pensamentos, palavras e ações. As suas manifestações externas não

[Capítulo 12 Fins Externos da Legião página 73]

são limitadas pelo tempo nem pelo espaço. Os indivíduos mais tímidos e os menos dotados adquirem uma capacidade especial para influenciar os outros, de modo que, onde quer que estejam, e mesmo sem terem a intenção de exercer apostolado, conseguem dominar o pecado e a indiferença. É a experiência universal que no-lo ensina. Tal como o general que contempla, satisfeito, a sólida ocupação dos pontos estratégicos, a Legião vê com alegria os lares, as oficinas, as escolas, os estabelecimentos comerciais e os lugares dedicados ao trabalho e ao recreio, onde um verdadeiro legionário foi colocado pelas circunstâncias. Mesmo onde a falta de religião e o escândalo se encontram fortemente entrincheirados, a presença desta nova Torre de David impedirá o seu avanço e fará com que recuem. A Legião nunca dará seu apoio à corrupção: antes, deverá se esforçar em remediá-la, tornando-a objeto das suas orações, lamentando-a com mágoa, combatendo-a contínua e decididamente, em busca de um êxito que certamente há de alcançar.

Assim, pois, a Legião começa por reunir os seus membros a fim de que, perseverem em oração, juntamente com a sua Rainha. Envia-os em seguida aos lugares de pecado e de aflição, para aí praticarem o bem e para que fazendo-o, se inflamem na vontade de realizar maiores coisas; e, finalmente, estende o seu olhar para os largos caminhos e pequenos atalhos da vida de cada dia, a fim de neles descobrir campo de ação para missões, cada vez mais gloriosas. Conhecedora das realizações operadas por pequeninos núcleos legionários; ciente das possibilidades ilimitadas de recrutamento; e convicta de que o seu sistema, se vigorosamente utilizado pela Igreja, constitui um meio extraordinariamente eficaz para purificar o mundo pecador, a Legião deseja ardentemente que os seus membros se multipliquem e se tornem Legião no número, como o são no nome.

Unindo os legionários ativos, os auxiliares e aqueles que estão sob sua influência, a Legião conseguirá abranger uma população inteira e erguê-la do nível de negligência e da rotina a uma entusiasmada fidelidade à Igreja. Imagine-se o que isto significa numa aldeia ou cidade! Os fiéis deixam de ser um peso morto na Igreja, para constituírem uma força motriz, cujos impulsos, diretamente ou através da comunicação dos Santos, atingem os confins da Terra e, até os lugares mais sombrios. Uma população inteira organizada pela causa de Deus – que ideal sublime! Ideal não apenas teórico, mas possível e prático no mundo dos nossos dias, se todos resolverem levantar os olhos para o alto e a pôr mãos à obra.

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“Sim, o laicado é uma ‘raça escolhida, um sacerdócio santo’, chamado a ser o ‘sal da terra’, e a ‘luz do mundo’. A sua missão específica é exprimir o Evangelho na vida pessoal e, desta forma, colocá-lo como fermento, na realidade do mundo, em que vive e trabalha. As grandes forças que moldam o mundo – a política, os meios de comunicação social, a ciência, a tecnologia, a cultura, a educação, a indústria e o trabalho – são precisamente as áreas em que os leigos gozam de uma especial competência no exercício da sua missão. Se estas forças forem guiadas por verdadeiros discípulos de Cristo, que sejam ao mesmo tempo inteiramente competentes nos conhecimentos humanos, podemos estar seguros de que o mundo será transformado, a partir de dentro, pelo poder redentor de Cristo.” (João Paulo II, Irlanda, Limerick, outubro de 1979).

3. A união de todos os homens

“Procurar primeiro o Reino de Deus e a Sua justiça” (Mt 6, 33), ou seja, trabalhar diretamente na salvação das almas, eis a preocupação maior da Legião de Maria. Não se deve esquecer, no entanto, que outras coisas lhe foram dadas por acréscimo, como, por exemplo, o seu valor como elemento social. Torna-se, assim, a Legião de Maria um tesouro nacional para o país onde se encontra, e converte-se, para os seus habitantes, em um valioso elemento de riqueza espiritual.

O exercício frutuoso da máquina social exige, como qualquer outro mecanismo, a cooperação harmoniosa de todas as suas peças. Cada uma, isto é, cada indivíduo, deve cumprir rigorosamente a função que lhe foi confiada causando o menor atrito possível. Aliás, se o indivíduo não cumpre com a sua obrigação, surge o desperdício de energia, o bom andamento é perturbado e os dentes da roda da máquina social deixam de se ajustar uns aos outros. Reparar o mal é impossível, pois torna-se dificílimo descobrir-lhe a extensão ou as causas. Por isso, o remédio a adotar consiste em aumentar a força motriz ou lubrificar a máquina com mais dinheiro. Este remédio leva a um fracasso progressivo, pois diminui a noção de serviço ou de colaboração espontânea. Há sociedades com tal vitalidade que podem continuar a funcionar mesmo quando metade de suas partes se encontram mal engrenadas. Mas à custa de quanta pobreza, de quanta frustração e infelicidade! Não se poupam dinheiro nem esforços para pôr em

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ação peças que deviam mover-se sem dificuldade ou ser, até mesmo, fontes de energia. Resultado: problemas, desordens, crises.

Ninguém ousará negar que isto se passa mesmo nos Estados mais bem governados. O egoísmo é a regra da vida individual; o ódio converte a existência de muitos em forças puramente destrutivas, e cada dia que desponta traz consigo uma nova e universal demonstração da verdade que pode ser expressa rigorosamente nestes termos: “Os homens que negam Deus, que Lhe são traidores, atraiçoarão igualmente todas as pessoas e tudo quanto existe abaixo de Deus – no Céu e na Terra” (Brian O’Higgins).

A que alturas podemos esperar que se eleve o Estado, se ele não é mais que a soma das vidas individuais? Se as são um perigo e um tormento para si próprias, que poderão oferecer ao mundo senão uma parte da sua própria desordem?

Suponhamos agora que uma força nova surge na sociedade, comunicando-se de indivíduo a indivíduo, como que por contágio, e converte em centro de atração os ideais generosos de abnegação e de fraternidade: – que transformação não seria operada! As chagas vivas cicatrizam-se e a vida passa a ser vivida num nível superior. Imagine-se ainda o aparecimento de uma nação em que a vida se ajuste por estas elevadas normas e apresente perante o mundo o exemplo de um povo inteiro que pratica unanimemente a sua Fé, e resolve, em conseqüência, todos os seus problemas sociais. Quem põe em dúvida que tal nação passaria a constituir, para o mundo, um farol luminoso, a cujos pés se sentaria a Terra para alimentar-se da luz dos seus ensinamentos?

Ora é indiscutível que a Legião possui a força capaz de interessar os leigos na sua própria religião, de forma vital e também de comunicar um idealismo ardente aos que vivem sob a sua influência, fazendo-os esquecer as divergências, as distinções e as rivalidades e fazendo com que se resolvam a amar o gênero humano e a servi-lo devotadamente. Este idealismo, que se encontra enraizado na religião, não é um simples sentimento, não se evapora: disciplina o indivíduo, educando-lhe a vontade de servir; anima-o a sacrificar-se e torna-o capaz de maiores heroísmos.

Por quê? A razão está na causa motriz. A energia deve ter uma fonte. A Legião dispõe de um motivo que força a servir a comunidade. E o motivo é este: Jesus e Maria eram cidadãos de Nazaré. Amavam a sua aldeia e o seu país com religiosa devoção, pois para os judeus a fé e a pátria estavam tão divinamente enlaçadas que formavam apenas uma só coisa. Jesus e Maria viveram perfeitamente a vida comum de sua localidade. Cada pessoa, cada coisa ali era para eles objeto do mais profundo interesse. Se-

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ria impossível imaginá-los indiferentes ou descuidados sob qualquer aspecto.

Hoje, o seu país é o mundo e cada lugar, a sua Nazaré. Numa comunidade de batizados, Jesus e Maria estão mais intensamente unidos às pessoas do que outrora aos seus próprios parentes. Mas o Seu amor tem agora de se exercer por meio do Corpo Místico. Se os membros deste corpo se esforçarem por servir o lugar em que vivem, Jesus e Maria virão a esse lugar e derramarão a sua benéfica influência, não só sobre as pessoas como também no meio-ambiente. Haverá progressos materiais e os problemas hão de diminuir. Nem há verdadeiros melhoramentos que possam vir de qualquer outra fonte.

A atenção ao nosso dever de cristãos em cada localidade seria mais uma manifestação de patriotismo. Esta palavra não é bem compreendida: que vem a ser de fato o verdadeiro patriotismo? Dele não existe no mundo nem mapa nem modelo. Um exemplo aproximado é a dedicação e o sacrifício pessoal que se desenvolve em tempo de guerra. Mas neste caso, a dedicação e o sacrifício são motivados mais pelo ódio do que pelo amor e, por conseguinte, orientados para a destruição. É imperioso, pois, estabelecer um modelo correto de patriotismo pacífico.

É este serviço da comunidade, feito por motivos espirituais, que a Legião vem estimulando com o nome de Verdadeiro Amor à Nação. Não só deve este serviço ser empreendido por motivos espirituais, mas ele e tudo o que origina nele deve ser utilizado para promover o bem espiritual. Atividades que só produzissem progressos materiais falsificariam a idéia do Verdadeiro Amor à Nação. O Cardeal Newman exprime perfeitamente esta idéia básica, quando diz que um desenvolvimento material, que não é acompanhado por uma manifestação correspondente de ordem moral é quase para inspirar medo. É indispensável garantir o verdadeiro equilíbrio.

O Concilium tem à disposição de quem o desejar, um folheto sobre este assunto.

Reparem, povos da Terra! Se assim é a Legião, não parece que ela nos oferece, pronta para o combate, uma Cavalaria dotada do poder mágico de unir os homens num sublime empreendimento pela Causa de Deus, serviço que supera infinitamente as lendárias campanhas do Rei Artur, o qual, segundo Tennyson, “na sua ordem da Távola Redonda, juntou a Cavalaria Andante de seu reino e de todos os reinos numa Companhia gloriosa, elite da humanidade, para servir de modelo ao mundo poderoso e constituir o início sorridente de uma nova era?”

[Capítulo 12 Fins Externos da Legião página 77]

“A Igreja, que é ao mesmo tempo ‘agrupamento visível e comunidade espiritual,’ caminha juntamente com toda a humanidade, participa da mesma sorte terrena do mundo e é como que o fermento e a alma da sociedade humana, a qual deve ser renovada em Cristo e transformada em família de Deus.

O Concílio incentiva os cristãos, cidadãos de ambas as cidades, a que procurem cumprir fielmente os seus deveres terrenos, guiados pelo espírito do Evangelho. Afastam-se da verdade os que, sabendo que não temos aqui na terra uma cidade permanente, mas que caminhamos em busca da futura, pensam que podem por isso descuidar dos deveres terrenos, sem atenderem a que a própria fé os obriga ainda mais, a cumprir esses deveres, segundo a vocação própria de cada um” (GS 40-43).

“Uma resposta prática a esta necessidade e obrigação realçadas na Constituição Conciliar encontra-se no movimento legionário começado em 1960 e conhecido como o Verdadeiro Amor à Nação. A medida dos bons êxitos já alcançados mostra as vastas possibilidades de desenvolvimento. Mas, note-se bem, o que a Legião tem para oferecer à ordem temporal não é um conhecimento ou competência excepcionais, não é uma habilidade extraordinária, nem mesmo um grande número de trabalhadores – mas o dinamismo espiritual que a converteu numa força mundial que pode ser aproveitada para elevar qualquer setor do Povo de Deus, que tenha a inteligência e o bom senso de aproveitar essa força. A iniciativa, porém, deve vir da Legião. Afastando embora tudo o que possa sugerir mundanismo, a Legião há de recordar-se sempre do mundo, no sentido do Decreto anterior. Tome consciência de que o homem tem de viver no meio das coisas materiais, das quais depende em larga escala, a sua própria salvação” (Padre Thomas O’Flynn, C.M., antigo Diretor Espiritual do Concilium Legionis Mariae).

4. A grandiosa campanha pela causa de Deus

Esta é a cavalaria de que a Igreja precisa neste tempo de extraordinário perigo para a religião. A preocupação com as coisas do mundo e a falta de consciência religiosa, animados por hábil propaganda, difundem a sua influencia corruptora, em círculos cada vez mais vastos, ameaçando submergir o mundo.

Comparada com estas forças formidáveis, vemos como a Legião é uma organização modesta! Não importa. Esse mesmo contraste torna-a mais audaz. A Legião é formada por almas estreitamente unidas à Virgem poderosíssima; encerra em si gran-

[Capítulo 12 Fins Externos da Legião página 78]

des princípios e conhece a forma eficaz de os aplicar. Tudo leva a crer, portanto, que o Onipotente se digne operar nela e por ela os maiores prodígios.

Os objetivos da Legião de Maria são totalmente opostos aos das legiões que negam “o nosso único Mestre e Senhor Jesus Cristo” (Jd 1, 4). O objetivo da Legião de Maria é levar Deus e a religião a todo o indivíduo; o das outras legiões é precisamente o contrário. Não se pense, no entanto, que o plano da Legião foi idealizado especialmente para opor-se a este império da descrença. As coisas passaram-se com extrema simplicidade. Um pequeno grupo de almas reuniu-se em torno de uma imagem de Nossa Senhora e disse-lhe: “Guiai-nos!” Unidos a Ela, começaram a visitar uma enorme enfermaria, cheia de aflitos, de doentes e miseráveis, de uma grande cidade, vendo em cada um deles o amado Filho de Maria. Compreenderam que Jesus estava presente em cada membro da humanidade e que deviam ajudar Maria na tarefa maternal de cuidar d’Ele. De mãos dadas com Ela, iniciaram o seu trabalho simples e humilde, e ei-los tornados Legião. Esta Legião entrega-se a atos simples de amor de Deus, no homem, e de amor dos homens por amor de Deus; em toda a parte este amor revela o seu poder de ganhar os corações.

Também os sistemas materialistas professam amar e servir o homem. Pregam um evangelho vazio de fraternidade, em que milhões e milhões de pessoas acreditam. Para o abraçar abandonam a religião que julgam sem vida. No entanto, esta situação não é desesperada. Há um meio de trazer de novo à fé estes milhões de homens e de salvar outros milhões incontáveis. A esperança baseia-se na aplicação de um grande princípio que São João Maria Vianney, o Santo Cura de Ars, formulava nestes termos: “O mundo pertence a quem mais o ama e melhor lhe testemunha o seu amor.” As pessoas não deixarão de ver e de ser impressionadas por uma fé real que atua, movida por um amor heróico a todos os homens. Convencei-os de que a Igreja os ama mais do que os outros, e hão de regressar à fé, apesar de todas as dificuldades e, se for preciso, derramar por ela o próprio sangue.

Para realizar uma conquista assim, não basta um amor vulgar, nem um Catolicismo pobre que dificilmente se agüenta a si mesmo. Tal obra só pode ser levada avante por um Catolicismo que ame de todo o coração a Jesus Cristo, seu Senhor, e saiba vê-lo e amá-lo em todos os homens, sem distinção. Mas esta suprema caridade de Cristo deve ser praticada em tão alto grau que leve os que a observam a considerá-la como uma verdadeira ca-

[Capítulo 12 Fins Externos da Legião página 79]

racterística da Igreja e não como manifestação isolada de alguns de seus membros. Deve manifestar-se na vida do conjunto dos leigos.

Não será demasiada ambição querer inflamar toda a Igreja neste sublime ideal? Sim, a tarefa é heróica. Os horizontes do problema são tão extensos e tão numerosas as hostes que dominam os povos, que até o coração mais valente pode ser levado a desanimar. Mas Maria é o coração da Legião, e este coração é fé e amor sem igual. Com esta firme convicção, a Legião estende os seus olhares sobre o mundo com inabalável esperança: “A terra pertence a quem mais a ama.” E voltando-se para a sua excelsa Rainha, diz-lhe como no princípio: “Guiai-nos!”

“A Legião e o materialismo que age na sociedade enfrentam-se mutuamente. Vamos compará-los. A verdadeira energia motriz do sistema materialista é a sua disciplina implacável, exercendo-se através de uma rede de espiões e denunciantes. Isto está de tal modo desenvolvido que os cidadãos em geral sentem que tudo quanto fazem ou dizem será denunciado. Utilizando este instrumento de terror universal, uma autoridade que oprime pode impor a sua vontade a uma nação inteira. É um sistema eficiente, mas horrível. A submissão completa a este controle absoluto significa a extinção da liberdade e finalmente da própria faculdade moral.

Nada consegue resistir a este domínio a não ser a mobilização total dos católicos. A Legião possui, para este fim, a engrenagem perfeita, fato admitido pelo exército contrário. Mas essa engrenagem por si, é inútil se lhe falta uma força que a movimente. Essa energia motriz reside na espiritualidade legionária, que consiste num real apreço pelo Espírito Santo e pela Verdadeira Devoção à Sua Esposa, a Bem-aventurada Virgem Maria, e numa verdadeira confiança nos mesmos, espiritualidade esta que se alimenta do Pão da Vida, a Eucaristia.

Quando estas duas forças, a Legião e o materialismo, entram em luta, este último pode matar e perseguir, mas falhará na tentativa de esmagar o espírito da Legião. Os legionários suportam os maus tratos e, mantendo vivas as chamas da liberdade e da religião, acabam, finalmente, por triunfar” (Padre Adão MacGrath, S.S.C.).

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