quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Legião de Maria: manual de espiritualidade (parte 1).



MANUAL OFICIAL DA LEGIÃO DE MARIA

1ª edição no Brasil
conforme nova edição revista
e aumentada publicada pelo
Concilium em 1993

CONCILIUM LEGIONIS MARIAE
De Montfort House
North Brunswick Street
Dublin – Ireland

NOVA EDIÇÃO REVISADA NO BRASIL – 1996

Concilium Legionis –Dublin / Irlanda

Nada obsta:
Joseph Moran, O.P.
Censor Theologicus Deputatus

Imprima-se:
+ Desmond Connell
Arcebispo de Dublin
Hiberniae Primas

Dublin, 8 de dezembro de 1993.


SENATUS DO BRASIL

Nada obsta:
Pe. Antonio Carlos Rossi Keller
Censor “ad hoc”
Imprima-se:
Paulo Evaristo Card. Arns
Arcebispo Metrop. de São Paulo
São Paulo, 14. 6. 1996.
_____________________________________________________________
DISTRIBUIÇÃO DE MATERIAIS:
Vide relação anexa no final deste Manual.

Índice Geral dos Assuntos
Página
Abreviaturas dos livros da Bíblia........................................................... 3
Abreviaturas dos Documentos do Magistério........................................ 4
João Paulo II à Legião de Maria............................................................. 5
Nota Preliminar....................................................................................... 7
Perfil de FRANK DUFF......................................................................... 8
Fotografias: Frank Duff........................................................ face à pág. 8
[Altar] Legionário............................................. face à pág. 106
Vexilla........................................................... face às págs.146-7

Capítulos:
1. Nome e origem.................................................................................... 9
2. Finalidade da Legião........................................................................... 11
3. O espírito da Legião............................................................................ 12
4. Serviço legionário............................................................................... 13
5. Espiritualidade da Legião.................................................................... 17
6. Os deveres dos legionários para com Maria........................................ 25
7. O legionário e a Santíssima Trindade.................................................. 41
8. O legionário e a Eucaristia................................................................... 44
9. O legionário e o Corpo Místico de Cristo............................................ 50
10. Apostolado da Legião......................................................................... 57
11. O plano da Legião............................................................................... 67
12. Fins externos da Legião....................................................................... 71
13. Condições de admissão na Legião....................................................... 80
14. O Praesidium....................................................................................... 83
15. Compromisso legionário...................................................................... 89
16. Graus suplementares da Legião........................................................... 91
17. As almas dos legionários falecidos...................................................... 102
18. Ordem a observar na reunião do Praesidium....................................... 104
19. A reunião e o membro......................................................................... 115
20. O sistema legionário não deve ser alterado......................................... 124
21. O místico lar de Nazaré....................................................................... 126
22. Orações da Legião............................................................................... 129
23. As orações são invariáveis................................................................... 133
24. Padroeiros da Legião............................................................................ 134
25. O Quadro da Legião............................................................................. 143
26. A Tessera.............................................................................................. 146
27. Vexillum Legionis................................................................................ 147
28. Administração da Legião...................................................................... 150
29. Lealdade legionária............................................................................... 168
30. Solenidades legionárias......................................................................... 170
31. Expansão e recrutamento....................................................................... 177

Página
32. Antecipando objeções prováveis............................................................ 180
33. Principais deveres dos legionários.......................................................... 188
34. Deveres dos oficiais do Praesidium........................................................ 207
35. Receitas e Despesas................................................................................ 217
36. Praesidia que exigem tratamento especial............................................... 219
37. Sugestões de trabalhos............................................................................. 227
38. Os Patrícios.............................................................................................. 257
39. Principais diretrizes do apostolado legionário......................................... 269
40. “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura”.............. 304
41. “A maior das três é a caridade” ............................................................... 324
APÊNDICES:
Apêndice 1: Cartas e mensagens papais.......................................................... 327
Apêndice 2: Alguns extratos da Constituição
Lumen Gentium do Vaticano II ................................................. 332
Apêndice 3: Trechos do Direito Canônico sobre as
obrigações e direitos dos fiéis leigos na Igreja............................. 334
Apêndice 4: A Legião Romana......................................................................... 336
Apêndice 5: A Arquiconfraria de Maria, Rainha dos Corações....................... 338
Apêndice 6: A Medalha da Imaculada Conceição
chamada “Medalha Milagrosa” .................................................... 340
Apêndice 7: A Confraria do Santíssimo Rosário............................................... 342
Apêndice 8: O ensino da Doutrina Cristã........................................................... 344
Apêndice 9: Associação de Pioneiros da Temperança
Total em honra do Coração de Jesus............................................... 345
Apêndice 10: O estudo da Fé.............................................................................. 346
Apêndice 11: Síntese marial............................................................................... 349
Oração de S. Bernardo........................................................................................ 352
Índice das referências bíblicas............................................................................. 353
Índice dos Documentos do Magistério................................................................. 355
Índice das referências papais................................................................................ 356
Índice dos Autores e outras pessoas de interesse.................................................. 357
Índice geral dos assuntos (pormenorizado) .......................................................... 360
Índice alfabético dos assuntos............................................................................... 366
Nota sobre as referências a Jesus Cristo................................................................ 373
Poema de José Maria Plunket................................................................................ 374

Abreviaturas dos Livros da Sagrada Escritura
Antigo Testamento
Novo Testamento

GN Gênesis
EX Êxodo
JS Josué
1 SM 1 Samuel
1 Cr 1 Crônicas
Sl Salmo
Ecl Eclesiastes
Ct Cântico dos Cânticos
Eclo Eclesiástico
Is Isaías]
Dn Daniel
Mt Mateus, Mc Marcos, Lc Lucas
Jo João , At Atos dos Apóstolos, Rm Romanos
1 Cor 1 Coríntios, 2 Cor 2 Coríntios, Gl Gálatas
Ef Efésios
Fl Filipenses
Cl Colossenses
1 Ts 1 Tessalonicenses
1 Tm 1 Timóteo
2 Tm 2 Timóteo
Hb Hebreus
1 Pd 1 Pedro
1 Jo 1 João
Jd Judas
Abreviaturas dos Documentos do Magistério

DOCUMENTOS DO VATICANO II (1962-1965)

AA Apostolicam Actuositatem (Decreto sobre o Apostolado dos Leigos)
DV Dei Verbum (Constituição Dogmática sobre a Divina Revelação)
GS Gaudium et Spes (Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo)
LG Lumen Gentium (Constituição Dogmática sobre a Igreja)
PO Presbyterorum Ordinis (Decreto sobre o Ministério e Vida dos Sacerdotes)
SC Sacrosanctum Concilium (Constituição sobre a Sagrada Liturgia)
UR Unitatis Redintegratio (Reintegração da Unidade)

OUTROS DOCUMENTOS DO MAGISTÉRIO

AAS Acta Apostolicae Sedis (Atos da Sé Apostólica)
AD Ad diem illum (Jubileu da definição da Imaculada Conceição, S. Pio X, 1904)
AN Acerbo Nimis (Ensino da Doutrina Cristã, S. Pio X, 1905)
CIC Catecismo da Igreja Católica, 1992.
ChL Christifideles Laici (A vocação e a missão dos fiéis leigos na Igreja e no Mundo, João Paulo II, 1988)
CT Catechesi Tradendae (A catequese no nosso tempo, João Paulo II, 1979)
EI Enchiridion Indulgentiarum (Lista oficial das indulgências e das leis que as regem. Sagrada Penitenciaria, 1968)
EN Evangelii Nuntiandi (Evangelização do mundo moderno, Paulo VI, 1975)
FC Familiaris Consortio (A família cristã no mundo moderno, João Paulo II, 1981)
JSE Jucunda Semper (O Rosário, Leão XIII, 1894)
MC Mystici Corporis (O Corpo Místico de Cristo, Pio XII, 1943)
Mcul Marialis Cultus (A reta ordenação e desenvolvimento da devoção à Bem-aventurada Virgem Maria, Paulo VI, 1974)
MD Mediator Dei (A Sagrada Liturgia, Pio XII, 1947)
MF Mysterium Fidei ( O Mistério da Fé – sobre o mistério da Eucaristia, Paulo VI, 1965)
MN Mens Nostra (Retiros, Pio XI, 1929)
PDV Pastores Dabo Vobis (A formação dos sacerdotes nos tempos atuais, João Paulo II, 1992)
RM Redemptoris Missio ( A validade permanente do mandato missionário, João Paulo II, 1990)
RMat Redmptoris Mater (Maria, Mãe do Redentor, João Paulo II, 1987).
SM Signum Magnum (Consagração a Nossa Senhora, Paulo VI, 1967)
UAD Ubi Arcano Dei (A paz de Cristo no Reino de Cristo, Pio XI, 1922).






João Paulo II à Legião de Maria

Palavras do Santo Padre João Paulo II
A um grupo de legionários italianos em
30 de outubro de 1982.

1. As minhas boas-vindas são dirigidas a cada um de vós. É um motivo de alegria para mim ver-vos nesta sala em tão grande número, vindos das várias regiões da Itália, tanto mais que sois apenas uma pequena parte do movimento apostólico, que, no espaço de sessenta anos, se espalhou rapidamente pelo mundo e hoje, a dois anos da morte do seu Fundador, Frank Duff, está presente em muitíssimas dioceses da Igreja universal.

Os meus predecessores, a começar por Pio XI, dirigiram palavras de reconhecimento à Legião de Maria, e eu próprio, no dia 10 de maio de 1979, quando recebi uma das vossas primeiras delegações, recordei com grande prazer as ocasiões em que tinha estado com a Legião, em Paris, Bélgica, Polônia e agora, como bispo de Roma, no decurso das minhas visitas pastorais às paróquias da cidade.

Hoje, portanto, ao receber em audiência a peregrinação italiana do vosso movimento, gostaria de realçar aqueles aspectos que constituem a substância da vossa espiritualidade e o vosso modo de ser e de trabalhar dentro da Igreja.

Chamados a ser fermento

2. Sois um movimento de leigos que vos propondes fazer da fé a aspiração da vossa vida, para conseguirdes a santidade pessoal. Sem dúvida que é um ideal sublime e difícil. Mas hoje a Igreja, através do Concílio, chama todos os cristãos leigos a este ideal, convidando-os a participar do sacerdócio real de Cristo, que eles exercem pelo testemunho da santidade de vida, pela abnegação e caridade concreta; a ser no mundo, com o esplendor da fé, esperança e caridade, aquilo que a alma é para o corpo (Lumen Gentium, 10 e 38).

A vossa vocação própria, como leigos, isto é, a vocação a serdes um fermento no Povo de Deus, uma força inspiradora no mundo moderno, a conduzir o sacerdote ao meio do povo, é eminentemente eclesial. O mesmo Concílio Vaticano Segundo exorta todos os leigos a aceitarem com pronta generosidade, o chamamento a uma mais íntima união com o Senhor; considerando como de todos, aquilo que lhes é próprio, participam na mesma missão salvífica da Igreja, tornam-se seus instrumentos vivos, sobretudo onde, por causa das particulares condições da sociedade moderna – o aumento constante da população, a redução do número de sacerdotes, o surgimento de novos problemas, a autono-

mia de muitos setores da vida humana – a Igreja dificilmente pode estar presente e ativa (ibidem, 33).
A área do apostolado dos leigos está nos dias de hoje extraordinariamente dilatada. Por isso, o compromisso da vossa típica vocação torna-se mais urgente, estimulante, vivo e relevante. A vitalidade do laicato cristão é sinal da vitalidade da Igreja. O vosso compromisso legionário torna-se por isso mais urgente, considerando, por um lado, as necessidades da sociedade italiana e das nações de antiga tradição cristã, e, por outro, os brilhantes exemplos que vos precederam no vosso próprio movimento. Quero lembrar-vos apenas alguns nomes: Edel Quinn, com a sua atividade na África negra; Afonso Lambe, nas áreas marginalizadas da América Latina e, finalmente, os milhares de legionários assassinados na Ásia ou que terminaram a vida nos campos de trabalho.

Com o espírito e a solicitude de Maria

3. A vossa espiritualidade é eminentemente mariana, não só porque a Legião se gloria do nome de Maria como sua bandeira desfraldada, mas, acima de tudo, porque baseia a sua espiritualidade e apostolado no princípio dinâmico da união com Maria, na verdade da íntima participação da Virgem Maria no plano da salvação.

Por outras palavras, vós pretendeis servir cada pessoa, imagem de Cristo, com o espírito e solicitude de Maria.

Se o nosso único Mediador é o homem Jesus Cristo, como declara o Concílio, “a função maternal de Maria em relação aos homens de modo algum enfraquece o brilho ou diminui esta única mediação de Cristo; manifesta antes a sua eficácia” (LG 60). Por isso, a Virgem é invocada na Igreja com os títulos de Advogada, Auxiliadora, Perpétuo Socorro, Medianeira, Mãe da Igreja.

Daqui vem, que no seu nascimento e crescimento e no seu trabalho apostólico, olha para Aquela que deu Cristo à luz, concebido pela ação do Espírito Santo. Onde está a Mãe, aí está também o Filho. Aquele que se afasta da Mãe acaba, mais cedo ou mais tarde, por se distanciar do Filho. Não é de admirar que hoje, em vários setores da sociedade, notamos uma difundida crise da fé em Deus, precedida de uma queda na devoção à Virgem Mãe.

A vossa Legião faz parte dos movimentos que se sentem pessoalmente comprometidos a propagar ou fazer nascer a fé, mediante a expansão ou o renascimento da devoção a Maria. Deste modo, será sempre capaz de fazer quanto puder para que, pelo amor à Mãe, seja mais conhecido e amado o Filho – caminho, verdade e vida de cada pessoa.

É nesta perspectiva de fé e de amor que vos concedo, de todo o coração a Bênção Apostólica.

NOTA DE ESCLARECIMENTO

A presente edição deste Manual recebeu revisão de linguagem a partir da edição de Portugal, traduzida diretamente do original inglês (Dublin – Irlanda).

A equipe responsável não fez qualquer alteração no conteúdo (não se contemplaram outros aspectos como: normas, orientações pastorais etc., bem como os nomes em latim, que foram mantidos), visto ser isso competência exclusiva do Concilium Legionis.

Buscou-se, sempre sendo fiel ao original, tão somente simplificar a linguagem, de modo a torná-la mais acessível e mais clara. Procurou-se adequar o vocabulário, o máximo possível, à realidade de comunicação e expressão do Brasil.

Que o mesmo Divino Espírito, que iluminou e animou este trabalho, venha a suprir, no coração e no entendimento da família legionária, as falhas que nossas limitações não conseguiram sanar.

Com carinho, pelas mãos de Maria,
EQUIPE DE REVISÃO


1921 – 1996
“LEGIÃO DE MARIA:
75 anos no Mundo e
45 Anos de Caminhada no Brasil”

Nota Preliminar

A Legião é um sistema que pode ser desequilibrado pela supressão ou alteração de qualquer das suas partes. Dela poderiam ter sido escritos os seguintes versos de Whittier:

“Arrancai um só fio, e danificareis a teia.
Quebrai uma que seja dos milhares de teclas,
e o estrago há de repercutir-se em todas elas”.

Por isso, se não estais dispostos a pôr em prática o sistema como vem escrito nestas páginas, por favor, não fundeis a Legião. Lede cuidadosamente a este respeito o capítulo 20: “O sistema legionário não deve ser alterado”.

Além disso, ninguém pertence à Legião, sem nela se haver filiado, através de um Conselho devidamente aprovado.

Se a experiência passada pode servir de exemplo, nenhum ramo da Legião falhará, no caso de se conformar fielmente com as normas aqui traçadas.

FRANK DUFF

Fundador da Legião de Maria

Frank Duff nasceu em Dublin, na Irlanda, a 7 de junho de 1889. entrou para o Funcionalismo Civil aos 18 anos. Aos 24, alistou-se na Sociedade de S. Vicente de Paulo, onde foi levado a um mais profundo compromisso com a sua Fé Católica e adquiriu, ao mesmo tempo, uma grande sensibilidade às necessidades dos pobres e desfavorecidos.
Juntamente com um grupo de senhoras católicas e o Padre Michael Toher, da Arquidiocese de Dublin, fundou o primeiro Praesidium da Legião de Maria, a 7 de setembro de 1921. A partir desta data até a morte, a 7 de novembro de 1980, orientou a extensão mundial da Legião, com heróica dedicação. Assistiu ao Concílio Vaticano II, como observador leigo.
Os seus ímpetos de profunda compreensão do papel da Santíssima Virgem no plano da Redenção, bem como do papel dos fiéis leigos na missão da Igreja, refletem-se no Manual, quase inteiramente, obras das suas mãos.


Frank Duff

[página 9]
LEGIÃO DE MARIA

“Quem é esta que avança como a aurora, formosa como a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército em ordem de batalha?” (Ct 6, 9).

“O nome da Virgem era Maria” (Lc 1, 27).
“Legião de Maria! Que nome bem escolhido!” (Pio XI).

1

NOME E ORIGEM

A Legião de Maria é uma Associação de católicos que, com a aprovação da Igreja e sob o poderoso comando de Maria Imaculada, Medianeira de todas as graças, (formosa como a lua, brilhante como o sol e, para Satanás e seus adeptos, terrível como um exército em ordem de batalha), se constituíram em Legião para servir na guerra, perpetuamente travada pela Igreja contra o mal que existe no mundo.

“Toda a vida humana, quer individual quer coletiva, se apresenta como uma luta dramática entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas” (GS 13).

Este exército, hoje tão numeroso, teve a mais humilde das origens. Não proveio de longas meditações: surgiu espontaneamente, sem premeditações de regras e práticas. Surgiu a idéia. Marcou-se uma tarde para a reunião de um pequeno grupo cujos componentes dificilmente supunham que estavam a ser instrumentos da Divina e amorosa Providência. O aspecto daquela reunião foi idêntico ao das reuniões legionárias que depois viriam a se efetuar em toda a terra. No meio do grupo, sobre uma mesa,

[Capítulo 1 Nome e Origem página 10]

com uma toalha branca, erguia-se uma imagem da Imaculada Conceição (igual à da Medalha Milagrosa) ladeada por dois vasos de flores e duas velas acesas. Esta disposição, tão expressiva no seu conjunto, fruto da inspiração de um dos primeiros a chegar, refletia perfeitamente o ideal da Legião de Maria. A Legião é um exército. E, antes mesmo de os legionários se reunirem, ela, a Rainha, já aguardava, de pé, aqueles que certamente atenderiam ao seu chamado. Não foram eles que a adotaram: foi ela que os adotou. E desde então, com ela marcharam e combateram, certos de que haviam de vencer e perseverar, precisamente na medida em que estivessem unidos a ela.

O primeiro ato coletivo destes legionários foi ajoelhar. Aquelas cabeças jovens e ardentes inclinaram-se. Rezou-se a Invocação e a Oração ao Espírito Santo; e depois, aqueles dedos que, durante o dia, haviam trabalhado arduamente, desfiaram as contas do terço, a mais simples das devoções. Terminadas as orações, sentaram-se e, sob a proteção de Maria (representada por sua imagem), aplicaram-se a procurar os meios de mais agradar a Deus e de O tornar mais amado neste mundo, que lhe pertence. Desta troca de impressões nasceu a Legião de Maria, com a fisionomia que hoje apresenta.

Que maravilha! Quem, considerando a humildade de tais pessoas e a simplicidade do seu procedimento, poderia prever, mesmo num momento de entusiasmo, o destino que em breve as esperava? Quem, dentre elas, poderia imaginar que estava sendo inaugurado um sistema que, sendo dirigido com fidelidade e vigor, possuiria o poder de comunicar, através de Maria, a doçura e a esperança às nações? Entretanto, assim havia de ser.

O primeiro alistamento dos legionários de Maria realizou-se em Myra House, Francis Street, Dublin, Irlanda, às vinte horas do dia 7 de setembro de 1921, véspera da festa da Natividade de Nossa Senhora. A organização nascente ficou conhecida no início como “Associação de Nossa Senhora da Misericórdia”, em virtude de o primeiro grupo ter tomado o título de “Senhora da Misericórdia”.

Circunstâncias, aparentemente casuais, determinaram o dia 7 de setembro, que parecia menos indicado que o seguinte. Só alguns anos depois – quando provas sem número de um verdadeiro amor maternal, levaram à reflexão – é que se compreendeu que, no ato do nascimento da Legião, esta recebera das mãos de sua Rainha uma enternecedora carícia. “Da tarde e da manhã

[Capítulo 2 Finalidade da Legião página 11]

se fez o primeiro dia” (Gn 1, 5); e com certeza os primeiros e não os últimos perfumes da festa da sua Natividade eram os mais apropriados aos momentos iniciais de uma organização, cujo principal e constante objetivo consiste em reproduzir em si própria, a imagem de Maria, de maneira a glorificar melhor o Senhor e a comunicá-lO aos homens.

“Maria é a Mãe de todos os membros do Salvador, porque ela, pela sua caridade, cooperou no nascimento dos fiéis, na Igreja. Maria é o molde vivo de Deus, porque foi só nela que um Deus-Homem se formou, de verdade, sem perder qualquer traço da sua divindade; e porque só nela é que o homem pode verdadeiramente e de uma maneira viva, formar-se em Deus, na medida em que a natureza humana disto é capaz, pela graça de Jesus Cristo” (Santo Agostinho).

“A Legião de Maria apresenta a verdadeira face da Igreja Católica” (João XXIII).

2

FINALIDADE DA LEGIÃO

A Legião de Maria tem como fim a glória de Deus, por meio da santificação dos seus membros, pela oração e cooperação ativa, sob a direção da autoridade eclesiástica, na obra de Maria e da Igreja: o esmagamento da cabeça da serpente e a extensão do reino de Cristo.

A menos que o Concilium aprove e as reservas apontadas no Manual Oficial da Legião, a Legião de Maria está à disposição do Bispo da Diocese e do Pároco para toda e qualquer forma de serviço social e de Ação Católica que estas autoridades julguem convenientes aos legionários e útil à Igreja. Os legionários nunca tomarão sobre si qualquer destas atividades numa Paróquia sem a aprovação do Pároco ou do Ordinário. Por “Ordinário”, nestas páginas, entende-se o Ordinário local, isto é, o Bispo diocesano ou outra autoridade eclesiástica competente.

[Capítulo 3 O Espírito da Legião página 12]

a) “O fim imediato de tais organizações é o fim apostólico da Igreja, isto é, destinam-se à evangelização e à santificação dos homens e à formação cristã da sua consciência, de modo que possam fazer penetrar o espírito do Evangelho, nas várias comunidades e nos diversos ambientes.

b) Os leigos, cooperando a seu modo com a Hierarquia, contribuem com a sua experiência e assumem a sua responsabilidade no governo destas organizações, no estudo das condições em que a ação pastoral da Igreja se deve exercer e na elaboração e execução dos planos a realizar.

c) Os leigos agem unidos, como um corpo orgânico, para que se manifeste com maior evidência a comunidade da Igreja e para que o apostolado seja mais eficaz.

d) Os leigos, quer se ofereçam espontaneamente quer sejam convidados à ação e à direta colaboração com o apostolado hierárquico, trabalham sob a superior orientação da mesma hierarquia, a qual pode aprovar essa cooperação com um mandato explícito” (AA 20).

3

O ESPÍRITO DA LEGIÃO

O espírito da Legião é o próprio espírito de Maria, de quem os legionários se esforçarão, de modo particular, por adquirir a profunda humildade, a obediência perfeita, a doçura angélica, a aplicação contínua à oração, a mortificação universal, a pureza perfeita, a paciência heróica, a sabedoria celeste, o amor corajoso e sacrificado a Deus e, acima de tudo, a sua fé, virtude que só ela praticou no mais alto grau, jamais igualado. Inspirado nesta fé e neste amor de Maria, a Legião lança-se a toda a tarefa, seja ela qual for, “sem alegar impossibilidades, porque julga que tudo lhe é possível e permitido” (Imitação de Cristo, L. III: 5).

“O modelo perfeito desta vida espiritual e apostólica é a bem-aventurada Virgem Maria, Rainha dos Apóstolos: levando na terra uma vida semelhante à do comum dos homens, cheia de cuidados

[Capítulo 4 Serviço Legionário página 13]

domésticos e de trabalhos, a todo o momento se mantinha unida a seu Filho e de modo singular cooperou na obra do Salvador... Prestem-lhe todos um culto cheio de devoção e confiem à sua solicitude materna a própria vida e apostolado” (AA 4).

4

SERVIÇO LEGIONÁRIO

1. O legionário deve “revestir-se da armadura de Deus” (Ef 6, 11).

A Legião Romana, cujo nome foi adotado pela organização, atravessou os séculos com uma gloriosa tradição de lealdade, de coragem, de disciplina, de resistência e de triunfos, embora a serviço de causas por vezes indignas, ou, pelo menos, puramente terrenas (Conferir Apêndice 4: A Legião Romana). Evidentemente que a Legião de Maria não pode apresentar-se à sua Rainha com menos virtudes que a Legião Romana, como se fosse uma jóia, mas sem as pedras preciosas que a enfeitam. As velhas virtudes daquele exército são, por conseguinte, o mínimo exigido para o serviço legionário.

S. Clemente, que foi convertido por S. Pedro e trabalhou com S. Paulo, propõe a Legião Romana como modelo a ser imitado pela Igreja.

“Quem são os inimigos? São os perversos que resistem à vontade de Deus. Lancemo-nos pois, resolutamente na batalha de Cristo e sujeitemo-nos às suas gloriosas ordens. Atentemos bem para os que servem na Legião Romana, debaixo das autoridades militares e notemos a sua disciplina, a sua prontidão, a sua obediência na execução das ordens. Nem todos são prefeitos ou tribunos ou centuriões ou chefes de cinqüenta homens ou de outro grau inferior de autoridade. Mas cada homem, na sua escala, executa as ordens do Imperador e dos seus Oficiais superiores. O grande não pode existir sem o pequeno, nem o pequeno, sem o grande. Uma certa unidade orgânica liga todas as partes, de modo que cada uma ajuda as demais e é ajudada por todas. Tomemos o exemplo do nosso corpo. A cabeça não é nada sem os pés e os pés não são nada sem a cabeça. Mesmo os mais pequenos órgãos do nosso corpo são necessários e de grande


[Capítulo 4 Serviço Legionário página 14]

valor para o corpo inteiro. Com efeito, todas as partes trabalham unidas, em mútua dependência, e aceitam uma obediência comum para bem de todo o corpo” (S. Clemente, Papa e Mártir: Epístola aos Coríntios (AD. 96), cap. 36 e 37).

2. O legionário deve ser “uma hóstia viva, santa, agradável a Deus... não conformado com este século” (Rm 12, 1-2).

Deste alicerce, brotarão, no legionário fiel, virtudes tanto mais elevadas, quanto mais sublime é a sua causa, e, acima de tudo, uma nobre generosidade que será o eco das palavras de Santa Teresa d’Ávila: “Receber tanto e dar tão pouco em troca! Oh! É um martírio que me leva à morte”. Contemplando o Senhor Jesus crucificado que ofereceu por ele o último suspiro e a última gota de sangue, o legionário deverá esforçar-se por reproduzir no seu apostolado uma doação completa semelhante.

“Diz-me, meu povo: que mais devia eu ter feito pela minha vinha, além do que fiz?” (Is 5, 4).

3. O legionário não deve furtar-se ao “trabalho e à fadiga” (2Cor 11, 27).

Como recentes acontecimentos comprovam, haverá sempre lugares na terra, em que o zelo católico deve estar preparado para enfrentar a tortura ou a própria morte. Assim muitos legionários passaram o limiar da glória de maneira triunfal. Mas, em geral, a dedicação do legionário encontrará um campo de ação mais modesto, embora lhe ofereça ampla oportunidade para um heroísmo pacífico, que não será por isso, menos verdadeiro. O apostolado da Legião obrigará o contato com muitos que, preferindo ficar longe de qualquer influência salutar, manifestarão o seu desagrado ao receber a visita daqueles cuja única missão é espalhar o bem. É claro que todos poderão ser conquistados, mas somente o serão, à custa de um trabalho corajoso e paciente.

Olhares malévolos, injúrias e repulsas, caçoadas e críticas agressivas, o cansaço do corpo e do espírito, ânsias torturantes provenientes de insucessos e de dolorosas ingratidões, frio cortante, chuva que cega, lama e vermes, mau cheiro, ruas escuras, ambientes asquerosos, renúncia voluntária a prazeres legítimos, aceitação do sofrimento, próprio a todo o trabalho de apostolado, a angústia

[Capítulo 4 Serviço Legionário página 15]

provocada em toda a alma delicada, perante a falta de religião e a libertinagem, a dor de quem partilha sinceramente o sofrimento do próximo – tudo isto não encerra encanto algum para a natureza; mas, suportado com doçura e até com alegria, levado com perseverança até o fim, aproximar-se-á, na balança divina, daquele amor, o maior de todos, que consiste em dar a vida pelo amigo.

“Que darei eu ao Senhor por todos os benefícios com que Ele me cumulou?” (Sl 116, 12).

4. O legionário deve “andar no amor, como também Cristo nos amou e se entregou a Si mesmo por nós” (Ef 5, 2).

O segredo do bom êxito junto do próximo está em estabelecer com ele um contato pessoal, contato de amor e de simpatia. Este amor deve ser mais do que aparência. Tem se de ser capaz de resistir às provas da verdadeira amizade, o que obrigará freqüentemente, a certo número de sacrifícios. Cumprimentar, em meios de certa distinção, alguém que pouco antes visitamos na cadeia; acompanhar publicamente pessoas andrajosas, apertar efusivamente mãos pouco limpas; compartilhar de uma refeição oferecida numa casa pobre ou suja: eis o que pode ser custoso para muitos. Mas, se assim não procedermos, a nossa amizade passará por simulação: perde-se o contato e a alma que estava a ser elevada afunda-se de novo na desilusão.

Na raiz de todo o trabalho verdadeiramente fecundo deve estar o firme propósito de uma doação total de nós próprios. Sem esta disposição, o apostolado não tem base. O legionário que delimita o seu zelo declarando: “Sacrificar-me-ei até aqui, mas não mais”, embora gaste grandes energias, realizará apenas um trabalho insignificante. Pelo contrário, se esta boa vontade existe, ainda que nunca ou só em pequena escala, seja chamada a atuar, não deixará de ser poderosamente produtiva em grandes obras.

“Jesus respondeu-lhe: darás a tua vida por Mim? (Jo 13, 38).

5. O legionário deve “acabar a sua carreira” (2Tm 4, 7).

Assim, o serviço a que a Legião chama os seus soldados, não tem limites nem restrições. Não se trata de um simples conselho de perfeição, mas de uma necessidade, porque, se não visamos a um tal objetivo, a perseverança no organismo é impossível. Man-

[Capítulo 4 Serviço Legionário página 16]

ter-se durante uma vida inteira, no trabalho de apostolado, constitui por si mesmo, heroísmo que só será atingido por uma série contínua de atos heróicos que encontram a sua recompensa, na própria perseverança.

Mas a perseverança não é uma característica própria só do indivíduo. Todo e cada um dos múltiplos deveres da Legião deve levar o cunho de um esforço constante. Mudanças acontecerão necessariamente: pessoas e lugares diferente que se visitam, trabalhos que terminaram, substituídos por novos empreendimentos. Tudo isto, porém, é o resultado da variação constante da vida e não o fruto de inconstância caprichosa e de uma curiosidade sedenta de novidade, que acaba por arruinar a melhor disciplina. Receosa deste espírito de instabilidade, a Legião apela incessantemente para um espírito cada vez mais firme dos seus membros, mandando-os depois de cada reunião para as suas tarefas, levando consigo uma senha imutável: “Firme!”

A execução perfeita depende de um esforço contínuo que, por sua vez, é o resultado de uma vontade indomável de vencer. Para obter esta firmeza da vontade é essencial nunca ceder, nem pouco, nem muito. Por isso a Legião impõe a todos os seus ramos e a todos os seus membros, uma atitude firme que não combine com a aceitação de qualquer derrota ou com a tendência que leve a qualificar este ou aquele pormenor do trabalho legionário com os termos de “prometedor”, “pouco prometedor”, “desesperador”, etc. A facilidade de classificar de “desesperador”, este ou aquele caso, acaba permitindo que uma alma de preço infinito continue livre e desenfreadamente a sua corrida descuidada para o inferno. Além disso, esse comportamento mostra que existe um desejo irresponsável de mudanças e de progresso visível, que tende a substituir o motivo mais sublime do apostolado, por outro menos elevado. E então a não ser que a semente brote debaixo dos pés do semeador, surge o desânimo e cedo ou tarde o trabalho é abandonado.

Mais ainda: a Legião declara com insistência que o ato de classificar qualquer caso de desesperado enfraquece automaticamente a atitude a assumir perante outros casos. Consciente ou inconscientemente, iniciar-se-á qualquer trabalho com espírito de dúvida, perguntando-nos se vale ou não o esforço a ser empregado. A menor sombra de dúvida paralisa a ação. E o pior é que a fé deixará de atuar com a intensidade que se espera dela nos empreendimentos da Legião, pois apenas se lhe permite modesta interferência, quando alguma coisa parece razoável. Então a fé, bloqueada dessa maneira e barrada as suas resoluções, apare-

[Capítulo 4 Serviço Legionário página 17]

cerão imediatamente a timidez natural, a mesquinhez, a prudência do mundo, até ali abafadas, e a Legião vai se encontrar diante de um serviço feito por acaso ou indiferente, que constitui oferta vergonhosa, indigna do Céu.

Eis porque a Legião não se interessa senão secundariamente pelo programa de trabalho; ela se preocupa em primeiro lugar, com a intensidade do ardor colocado na sua realização. Não exige dos seus membros, riqueza ou influência, mas uma fé firme, não exige grandes feitos, mas, unicamente um esforço que não esmoreça; não exige talento, mas um amor que nunca se satisfaça; não exige uma força gigantesca, mas uma disciplina contínua. O trabalho do legionário deve ser inflexível e firme, recusando-se sempre a admitir qualquer desânimo. No momento da crise, deve ser uma rocha e em todos os momentos, constante. Deve esperar o bom êxito de maneira humilde, mas nunca ser seu escravo. Na luta contra os insucessos, deve ser um corajoso combatente, jamais desanimando, colocando-se sempre acima das dificuldades e monotonias, porque elas lhe oferecem ocasião de provar a sua energia e a sua fé. Pronto e resoluto, se o chamam; sempre alerta, quando na reserva; e mesmo sem combate, sem inimigo à vista, sempre de sentinela, pela causa de Deus. Com o coração cheio de ambições insaciáveis, mas contente com a função humilde de tapar uma brecha; nenhum trabalho excessivo; nenhuma tarefa desprezível demais; em tudo, a mesma cuidadosa atenção, a mesma paciência inesgotável, a mesma coragem férrea; em cada tarefa a marca profunda da mesma firmeza inalterável. Sempre a serviço do próximo, sempre à disposição dos fracos para os ajudar a atravessar as horas difíceis de desânimo, sempre de guarda, à espera do momento em que surpreenda naquele que até então teimava no erro, um sinal de sensibilidade; e sempre incansável à procura dos transviados. Esquecido de si mesmo: permanecendo junto da cruz de seus irmãos e não abandonando o seu posto, senão quando tudo estiver consumado.

Nunca o desânimo deve penetrar nas fileiras de uma associação consagrada à “Virgem Fiel” e que – para honra ou desonra – usa o seu nome.

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