quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Contribuições da Igreja à civilização ocidental.


A IGREJA E A CIVILIZAÇÃO

Pe. W. Devivier S. J.

“A missão primária e essencial da Igreja, obra imortal de um Deus misericordioso, é a de salvar as almas e de as levar à posse dos bens celestes. Mas, torna-se ela, ainda mesmo quando aos interesses puramente materiais, uma fonte, donde naturalmente brotam vantagens tantas e tão estimáveis, que não as poderia oferecer maiores, ainda quando ela fosse fundada só com o fim de, sobretudo, promover a felicidade desta vida presente”.

O presente capítulo não vai ser senão um comentário das palavras, que acabamos de citar da Encíclica Immortale Dei. Seria mister demonstrar aqui o que a Igreja fez em prol da civilização e da felicidade temporal dos povos; mas seria preciso um grosso volume, para se dar a este interessante e vasto assunto o desenvolvimento que deveria ter. Procuraremos, contudo, dizer o bastante para que nos benefícios que a Igreja trouxe ao mundo, se reconheça mais uma nota característica da sua origem divina; pois que pelo fruto se conhece a árvore.

Tem a civilização por objeto o desenvolvimento, aperfeiçoamento, o bem-estar do homem completo, no percurso da sua vida terrestre; e tem em vista proporcionar-lhe a satisfação às justas aspirações da sua alma e do seu corpo; proporcionar-lhe, tanto na família como na sociedade, a ordem, a paz, a alegria e tudo o que pode suavizar-lhe a vida; ou, por outras palavras, é necessário que o bem-estar e o progresso se estendam, na devida proporção e justo equilíbrio, aos interesses materiais, intelectuais e morais.

A missão própria e direta da Igreja é guardar o tesouro da fé ou verdades reveladas e encaminhar os homens para a felicidade eterna. E por isso, ainda que se desse o caso dela não ter feito nada pelo bem intelectual e material da humanidade, ninguém teria o direito de por esse lado a acusar. Quem poderia com razão censurar uma associação comercial de não dar impulso aos trabalhos literários, ou a uma academia de ciências, o não promover a escultura ou a música? E, contudo, nunca a Igreja, como no-lo mostra a história, deixou de contribuir poderosamente para o bem-estar da humanidade cá na terra. “É coisa admirável, exclama Montesquieu, que, não tendo a religião cristã, ao parecer, outro objeto senão a felicidade na outra vida, ainda nesta faz a nossa felicidade”. Não seria realmente difícil provar, quanto são verdadeiras estas palavras. Mas, afinal, não são mais que uma espécie de comentário do dito profundo de S. Paulo: “A piedade é útil para tudo; ela tem as promessas da vida presente, como da vida futura” (I Tim. IV, 8).

Provemo-lo, apresentando como em quadro o que era o mundo antes da vinda de Jesus Cristo, e o que ele ficou sendo após a sua transformação operada pelo Evangelho.

ART. I. — ESTADO DO MUNDO ANTES DE CRISTO, OU A CIVILIZAÇÃO PAGÃ.

§ I. Uma visão geral

Fácil é, hoje que o Evangelho transformou e regenerou tudo, votar ao esquecimento todos os seus benefícios, e logra-los, entretanto, com soberba ingratidão. Fala-se com ostentação em fraternidade, igualdade e filantropia, e até em caridade; e facilmente se esquece, que é a Jesus Cristo e à sua Igreja, que se estão devendo estes sentimentos generosos e estas virtudes civilizadoras.

Não seremos certamente nós que iremos negar ao mundo romano a sua civilização material na alvorada do cristianismo. Reconhecemos mesmo que ela tinha chegado a um grau de esplendor, sob certos aspectos, extraordinário. E nem os nossos tempos modernos, não obstante, se podem facilmente comparar com os daquela época. Leia-se com efeito Os Césares pelo conde Franz de Champagny, para se ver, num como quadro deslumbrante, o grau de prosperidade exterior, a que Roma tinha chegado. Nem também negaremos a Roma pagã a situação privilegiada, que ela ocupa no mundo das letras. Quem de fato ousaria negar aos escritores do século de Augusto o mérito superior da forma? Têm o encanto do estilo, e a arte neles alcançou o seu auge.

Força é, entretanto, reconhecer que sob esse exterior brilhante, sob essa forma encantadora, quase se não encontram senão uns fragmentos de verdade; algumas lições de bom senso prático, algumas idéias elevadas; mas não um corpo de doutrina, nem luz formando um foco. No que em particular diz respeito às verdades religiosas, as mais fundamentais e as mais necessárias à felicidade do homem neste e no outro mundo, que de dúvidas, de incoerências, de contradições, e de erros grosseiros!

Não são, em verdade, esta grandeza material e esta superioridade intelectual as que geram a verdadeira civilização, nem jamais poderão tornar uma sociedade feliz. Não é em tais gozos que se encontra a felicidade dos indivíduos ou das nações; porque a felicidade do homem está na verdade e na virtude. Foi ele criado para conhecer, servir e amar a Deus neste mundo e a gozar eternamente no outro; a sua inteligência e o seu coração foram conformados para a Verdade e para o Bem, isto é, para o Infinito e para o Eterno. Por mais que ele procure desviar-se do seu fim, por mais que procure esquecê-lo ou ignorá-lo, nunca será menos verdade, ser este o seu fim e nunca deixará de ser verdadeiro o dito de Santo Agostinho: Fecisti nos ad te, Domine, et irrequietum est cor nostrum, donec requiescat in te. E a própria experiência nos mostra, por outra parte, como o nosso coração é de uma capacidade como que infinita, e os nossos desejos sem limites. O que valem todos os bens criados para lhe saciarem a sede de felicidade, que o atormenta? São-lhe todos eles como uma gotinha de água para o vasto mar.

E, demais disto, mesmo quanto à prosperidade material, que triste era a realidade das coisas no mundo pagão! Quem não sabe que o número de favorecidos pela chamada fortuna era grandemente restrito? Cícero nos assegura, que na populosa Roma havia apenas dois mil proprietários; e no tempo de Nero seis cavalheiros eram donos de metade da província romana da África, isto é, de uma superfície muito maior que a da Inglaterra. A grande massa popular vivia em muita miséria, e só conhecia as fortunas e os prazeres de seus senhores para os cobiçar. O pauperismo dominava o organismo social ao modo de uma chaga nojenta e profunda.

Quanto aos costumes, não se lê sem horror e profunda tristeza, o que a história antiga nos conta acerca da degradação moral, a que descera o mundo pagão antes do advento do Cristianismo. Concedamos ter havido no mundo antigo boas falas, sentimentos generosos e ações humanitárias e caritativas; apesar de horrivelmente desfiguradas, nunca a imagem de Deus, no homem, se chegou a apagar por completo. O que, porém, se não pode negar é que a nota saliente ou o caráter dominante e universal na sociedade anterior a Cristo era uma crueldade por vezes feroz junta com uma espantosa imoralidade nas instituições e nos costumes. A realidade vai muito além do que a imaginação se pode representar, de modo que nem a corrupção dos tempos modernos se pode comparar com ela. Havia nos homens humanizados e nos povos mais policiados uma insensibilidade do coração, um menosprezo pela humanidade, uma aversão para com os pobres, um horror para com os infortunados e um gosto pelo sangue, pela carnificina e pelas infâmias de toda sorte, a tal ponto que hoje, no meio cristão em que vivemos, e já tão longe daqueles tempos, dificilmente podemos fazer idéia de tão vis e tão cruéis costumes. Toda a humanidade estava dominada por um orgulho sem limites, por um egoísmo desenfreado e por um sensualismo ferino, que sacrificava tudo, sem remorsos, aos seus desejos.

Vejamos como S. Paulo resume a história do mundo antigo. Falando aos romanos, cuja civilização dominava o mundo, e em si absorvera todas as energias e vícios dos povos subjugados, ousa ele dizer-lhes em rosto, sem receio que o contradigam: Vós não tendes afeto nem fidelidade nem comiseração, sine affectione, absque foedere, sine misericordia; cheios de toda a sorte de iniqüidades e maldades, malícias; iniquitate, malitia, nequitia, plenos invidia, homicidio, malignitate; odientos e odiosos; odibiles, odientes invicem.

E ainda S. Paulo é de todos os escritores antigos o mais comedido. Platão, Aristóteles, Aristofanes, Plauto, Tito, Lívio, Tácito, Juvenal, Suetonio, Plutarco, Sêneca, todos, enfim, nos contam os horrores da sociedade pagã com uma sinceridade e franqueza no falar, que faz estremecer. E eram as nações mais civilizadas as que tinham estes costumes públicos e comumente recebidos. Os estranhos, os prisioneiros, os vencidos, os escravos, os enfermos, os endividados, os pobres, as crianças, os velhos, as mulheres, os operários, todos os fracos, os sofredores, os trabalhadores, a grande maioria, enfim, do gênero humano, era objeto de ódio, de zombaria e destruição. Os demais entregavam-se a toda sorte de vícios, que tinham as honras de deidades, com seus templos, altares e sacerdócio em todas as grandes cidades do mundo, de modo que a desmoralização era uma como obrigação social e a imoralidade tinha um culto público.

Assim se encontrava o mundo antes de Jesus Cristo. E a este mundo sem amor, sem comiseração, sem entranhas de piedade e sem virtudes, imerso em todo o gênero de erros e torpezas, veio a suceder outro, este que nós conhecemos aureolado com as luzes da verdade, da pureza e da caridade. E donde lhe veio esta transformação magnífica e impossível de prever? O que se depara no ponto de contato entre os dois mundos, tão diferentes um do outro? Uma cruz, e nesta cruz o divino Fundador do Cristianismo, Jesus Cristo, que morre para redimir e regenerar o gênero humano decaído e aviltado. Que mais se pode exigir para se reconhecer a divindade de Jesus Cristo e da Igreja obra sua?

Não basta, porém, esta vista geral para se poder avaliar a grandeza dos benefícios de que a Jesus Cristo e à sua Igreja, nossa mãe, nos devemos reconhecer devedores. É mister descer a algumas particularidades, para que se não vá imaginar que sobrecarregamos com cores demasiado tétricas o quadro dos horrores da sociedade pagã; calando, está claro, certas particularidades que causam asco.

§ II. — Condição dos indivíduos antes de Jesus Cristo

Vamos referir-nos aqui de um modo especial aos escravos, aos gladiadores, aos pobres e aos operários, isto é, à grande maioria do gênero humano.

I. — Os escravos

A MULTIDÃO DOS ESCRAVOS. — Falando um dia Duruy, ministro da instrução em França, aos operários, fez-lhes notar, e com razão, que se eles tivessem vivido nos antigos tempos, quiçá nenhum deles pertenceria ao pequeno número dos homens livres; todos teriam passado a vida sob o jugo da escravidão[1]. O seu número era realmente espantoso. Na Ática, segundo um recenseamento oficial apresentado por Demétrio de Phalereu, 20.000 cidadãos livres para 400.000, que eram escravos. E em Roma, no fim da república e começo do império, não era raro encontrarem-se cidadãos romanos que possuíam bastantes milhares de escravos. Um dos mais opulentos deles, Marco Crasso, costumava dizer: “Não se pode verdadeiramente chamar rico senão quem pode sustentar um exército à sua custa”. O não ter mais de três escravos era, mesmo nas cidades provincianas, considerado como um sinal de pobreza. E, segundo Châteaubriand e Mons. De Salinis, seis milhões de homens, a que chamavam o povo-rei, espremiam, esmagavam, pisavam aos pés cento e vinte milhões de escravos. O número destes era, em suma, tão notável que, como diz Sêneca, nunca o senado quis se lhes desse um traje especial, com receio de que os viessem a contar. “Teria causado horror, observa ele, o ver-se o pequeno número dos cidadãos livres”.

A escravidão existia por toda a parte; e por isso se pode dizer que antes de Jesus Cristo a grande maioria dos homens se achava reduzida à escravidão.

IDÉIA QUE SE FAZIA DOS ESCRAVOS. — Era doutrina concordemente ensinada pela antigüidade, ser de direito natural a escravidão entre os homens; isto é, que uns deles nascem para a liberdade e outros para a escravidão. O escravo era considerado como coisa e não como homem. Varrão, depois de o enumerar entre os instrumentos de trabalho, acrescenta: “Há, contudo, uma diferença entre eles, e é que os bois mugem, os escravos falam e o arado não diz nada”. “Um proprietário hábil, diz Catão, o censor, deve desfazer-se de todos os instrumentos já postos de parte, os arados gastos, os cavalos velhos e os escravos idosos”. E, por isso, quando pela doença e pela velhice ficavam inutilizados, ou lhes davam a morte ou os deixavam morrer à fome.

E não se vá julgar que a lei tomava sob a sua proteção a sorte destes infelizes; pois que, pelo contrário, aprovava esta doutrina bárbara, considerando o escravo não como um simples criado, mas como uma coisa, pertencendo a um dono. “Era antes um nulo do que um vil, non tam vilis quam nulus; não havia para ele descanso, non est otium servis; assemelha-se a um morto, servitus morti assimilatur” (P. Allard). O escravo não tinha, por direito, família; era esposo, pai ou mãe, tanto quanto o interesse ou a humanidade do seu senhor lho permitiam, e os filhos ficavam também pertencendo a este. Convém dizer-se que ao começar a era cristã, se promulgaram algumas leis em prol dos escravos.

CONDIÇÃO EM QUE SE ACHAVAM OS ESCRAVOS — Era geral este modo de pensar, mesmo entre gente de autoridade, pensar que estava de acordo com a legislação vigente. E qual era na prática a sorte dos míseros que viviam em servidão? Sente-se um estremecimento de horror, quando se lêem as particularidades narradas por Fr. De Champagny nos Cesares acerca da escravidão. É coisa fácil de imaginar a que excessos chegariam aqueles senhores bárbaros ou monstros, como um Calígula, que, achando ser demasiado cara a alimentação das feras do circo, ordenou que os escravos lhes servissem de pasto.

E, como a lei romana não reconhecia direito algum ao escravo, servus nullum jus habet; julgava-se o senhor com direito de o tratar como um animal doméstico, para o maçar com pancadas, para o torturar e para lhe tirar a vida sem ter que dar por isso contas a ninguém, in personam servilem nulla cadit oblitatio. Mas, preceituava essa lei, no caso de algum dos escravos dar a morte ao seu senhor, todos os outros, fossem quanto fossem, com tal que habitassem sob o mesmo teto, deviam ser condenados a morrer crucificados.

Não se vá, contudo, julgar que os senhores iam geralmente a esses extremos que as leis lhes facultavam ou que esses atos de barbárie, a que os autores se referem, fossem a norma ordinária. Muitos dos escravos eram empregados em serviços de casa mais limpos e eram mais poupados; mas a corrupção e a depravação doméstica supria o que faltava à crueldade. Ainda quando, porém, a sua condição material fosse mais suave, sempre viviam excluídos dos direitos da personalidade humana, e, como se expressava um autor antigo, um escravo possuía apenas metade da sua alma[2].

II — Os gladiadores

A par da escravidão havia ainda outra coisa mais horrível, antes de a religião cristã vir ao mundo: eram os jogos do circo e os combates dos gladiadores. O grande espetáculo, o sumo prazer do povo-rei era ver os homens matarem-se uns aos outros, ou ver as feras a rasgarem-lhes os corpos. E, quando a luz do dia não bastava, supria-se com a luz dos fachos, para assim se poder gozar o fero espetáculo pela noite adiante. E, em compensação da sua honra perdida, aquele povo pedia aos seus soberbos e tirânicos senhores pão e jogos circenses: panem et circenses. Afim de se satisfazer a esta sede de sangue humano é que se construíam esses imensos recintos, cujas ruínas ainda hoje nos causam espanto, e se faziam as grandes batidas nas longínquas províncias do império para se obterem as feras, com que haviam de lutar as pobres vítimas humanas. E entre os grandes senhores existiam rivalidades sobre qual deles apresentaria maior multidão destas feras, que estraçalhassem maior número de vítimas humanas.

Os combates humanos eram os mais horríveis. Citemos só um fato. Para celebrar o triunfo de Tito, a quem chamaram as Delícias do gênero humano, foram milhares de homens obrigados a mutuamente se degolarem, durante cem dias; e este prudente imperador, por ocasião dos funerais de seu pai, apresentou 5.000 gladiadores, para a morte, no circo. E o bom Trajano, para celebrar o seu triunfo contra os Dacios, ofereceu jogos ao público, em que perderam a vida 10.000 homens e 11.000 feras, durante o espaço de cento e vinte e três dias. Nas naumachias, para as quais se cavavam vastos lagos, onde se simulavam combates navais, eram por milhares as vítimas, que morriam afogadas. Calculou Loudun que os espetáculos dos gladiadores vinham a custar, termo médio, 30.000 vítimas por cada ano. E meses houve em que mais de 20.000 homens se mataram, só para o povo se divertir.

Estes espetáculos horrorosos, que ao princípio eram só usados pelos romanos, estenderam-se depois por todo o império, nas Galias, nas Hespanhas, na Grécia e na Ásia. E estes espetáculos bárbaros eram sancionados pelas leis e celebrados pelos homens mais respeitáveis; e nenhum pagão pensava em derramar uma só lágrima pela triste sorte de tantos infelizes. E até as vítimas, esquecendo os seus direitos à vida, adoravam pela última vez o deus César e se encaminhavam para a morte. E os Cíceros, os Plínios e as outras grandes mentalidades do seu tempo, só viam nestas diversões bárbaras uma instituição nobre, uma disciplina excelente para tornar o povo corajoso contra a dor. Plínio, no seu Panegyrico de Trajano, chega mesmo a achar matéria de louvor a este príncipe, em ele não ter dado os próprios espectadores como espetáculo nestes jogos; pois que, de feito, nem sempre a humanidade chegava e este ponto de perfeição. Faltavam, diz com efeito Tácito, um certo dia gladiadores para as feras; mas Calígula remediou esta falta, aproveitando os primeiros espectadores que se apresentaram, mandando-lhes antes cortar as línguas para não poderem manifestar a sua desgraça. E para o povo-rei poder saciar a sua sede de sangue, ordenou o Senado, como conta aquele historiador, que os gladiadores gladiassem não mais por pares, mas sim por grupos, como se fossem verdadeiros combatentes.

III — Os pobres e os infelizes

Marco Aurélio, imperador filósofo, que passa por um dos mais atilados do paganismo, afirma com sinceridade que o apiedar-se dos desgraçados e o chorar com os que choram, é um sinal de fraqueza. E Sêneca diz que a misericórdia é um vício do coração; e as pessoas honradas devem evita-la: Misericordia animi vitium est; boni misericordiam vitabunt. O homem prudente não tem comiseração, diz ele ainda: homo sapiens non miseretur. Eis, segundo Cícero, alguns preceitos do estoicismo: só os tontos ou os néscios é que são compassivos; o homem verdadeiramente homem nunca se deixa comover nem dobrar; dar ouvidos à compaixão, é um crime e uma maldade.

Bom seria não relembrar estas coisas, que enchem a alma de tristeza; mas convém renovar a memória delas, para que melhor, se veja de que profundo aviltamento Nosso Senhor Jesus Cristo veio livrar o gênero humano.

Numa sociedade, em que universalmente se ensinavam tais máximas, está claro que os miseráveis e os desgraçados não só não excitavam a comiseração pública, senão que, pelo contrário, só causavam desprezo, aversão e horror. “Dar de comer e de beber a um pobre, diz Plauto, é uma dupla loucura: para si porque é perder o que se tem; e para ele, porque é prolongar a sua miséria”. “O pobre, afirma Epiteto, está abandonado como um poço inútil, vazio, infecto, que a vista contempla com nojo”. Em Atenas e no Egito um homem, que não tinha pão e que o ia pedir, era pela lei condenado à morte.

IV. Os operários

Quanto ao trabalho, pode em geral dizer-se, que ele era geralmente olhado como uma coisa desprezível: a agricultura e todos os ramos da indústria eram considerados como ocupações servis e desonrosas. Cícero com dificuldade excluía desta classe a medicina e a arquitetura. E já muito antes tinha Aristóteles o trabalho como indigno de um homem livre; e semelhante era o pensar e falar de Platão, de Herodoto, de Xenofonte, de Cícero, de Sêneca. Os obreiros não eram considerados pelos gregos como dignos do nome de cidadãos; e, segundo Terêncio, para alguém ser respeitado, devia levar uma vida ociosa, e não ser obrigado a trabalhar para poder viver.

Muitas outras coisas se houveram de dizer sobre a triste sorte dos velhos, dos devedores e dos prisioneiros; mas o que, baseando-nos em testemunhos incontestáveis, deixamos indicado, é mais que bastante, para se poder fazer uma idéia da triste condição em que se encontravam numa sociedade sem sentimentos de humanidade.

§ III — A família antes de Jesus Cristo

Bastante conhecida é a degradação, em que caíra a família no meio do paganismo. Devendo haver nela um afeto recíproco maior, não se encontrava nela senão um egoísmo desumano. Por isso mesmo que a mulher e os filhos eram mais fracos, é que se viam condenados a uma como servidão enervante, perante o chefe de família, que não era pai e esposo como na família cristã, senão senhor imperioso e déspota. Afinal este estado de coisas era uma conseqüência lógica das doutrinas, que na sociedade pagã corriam.

A mulher, aos olhos dos pagãos, não era a companheira do homem e a sua consorte, mas um ser inferior por sua natureza e pelo seu destino; era uma escrava, um ser abjeto e mau. E desta idéia acerca da mulher provinha a sua condição de abatimento e degradação, assim como a poligamia na maior parte dos povos, com os muitos males de que anda acompanhada, e entre os gregos e romanos a prática habitual dos divórcios, que não trazem menores infortúnios, e que eram ocasionados por quaisquer motivos insignificantes e mesquinhos. E, por isso, o poder do marido sobre a sua esposa e o pai sobre a sua filha era discricionário, dando-se ainda a circunstância agravante de até entre os povos mais civilizados ser reconhecido e garantido pelas leis o direito de vida ou morte que, nos tempos do paganismo, sobre ela se arrogava. Os pais de ordinário vendiam-na ao que a devia desposar, e assim se tornava uma propriedade mobiliária do marido e ficava sujeita a todas as contingências de uma tal situação.

A criança não se achava em circunstâncias mais favoráveis, porque era tratada segundo as disposições e capricho do autor dos seus dias. Quando em Roma nascia uma criança, estendiam-na aos pés do pai dela; e, se ele a tomava nos braços, era-lhe permitido o viver; e daqui veio entre os latinos a expressão, suscipere liberos. Mas, se, pelo contrário, ele deixava a criança no chão, era ou estrangulada ou atirada para as imundícies da grande cloaca ou exposta no Velabro, onde o mais freqüente era morrer de fome. O infanticídio e mil outras atrocidades, que hoje nos horrorizam e cortam o coração de cristãos, tinham universal aceitação e eram comumente praticados entre os pagãos. Muito certo devia estar Tertuliano de não poder ser desmentido, quando, dirigindo-se aos pagãos do seu tempo, lhes perguntava: “Entre os que nos rodeiam, sedentos do sangue de cristãos e entre vós mesmos, magistrados austeros e tão rigorosos para conosco, qual é o que não deu a morte a seu próprio filho?” E afinal “nada é mais razoável, diz a este propósito o filósofo Sêneca, do que desembaraçar o lar doméstico dos trastes inúteis”; e o sisudo Quintiliano declara que “matar um homem é muitas vezes um crime; mas matar os seus próprios filhos é muitas vezes uma ação digna de louvor”.

§ IV — A sociedade ou o Estado antes de Jesus Cristo e as relações entre os povos

1. Se o chefe de família se mostrava opressor em tudo quanto dele dependia, também, em compensação, se via muito oprimido pelo Estado. Não havia entre os pagãos o verdadeiro sentimento da independência individual e da dignidade humana; porque os indivíduos eram somente para o Estado, e tinham tanta valia, quanta era a sua capacidade em servirem pela força e destreza à causa da pátria. A pátria era para eles uma como que divindade, a cujas ordens, fossem quais fossem, todos se deviam submeter. “O Estado, diz F. de Coulanges, olhava como seus haveres o corpo e a alma de cada cidadão, e por isso cuidava em lhes amoldar os corpos e as almas de modo que lhe servissem o mais possível. A personalidade humana perdia quase todo o seu préstimo ante a santa e quase divina autoridade, a que chamavam pátria ou Estado. A personalidade humana perdia todos os seus foros, logo que se tratasse dos interesses da cidade. Pensava-se que o direito, a justiça, a moral, tudo, enfim, devia ceder ante os interesses da pátria. Ou se sucedessem a monarquia ou a aristocracia ou a democracia, nenhuma destas revoluções concedia aos homens a liberdade verdadeira, a liberdade individual”. “Os pagãos, afirma Balmes, parece que nem sequer sonhavam que o fim, o destino da sociedade é o bem e a felicidade da família e dos indivíduos”. E por isso, não sem razão, pode Corneille pôr nos lábios de um dos seus heróis as seguintes palavras:

Graças, deuses, vos dou; não sou romano;

E assim conservar posso algo de humano.

E efetivamente todos os direitos, todos os sentimentos da natureza eram menosprezado, mutilados e violados nas ferrenhas constituições da antigüidade pagã. “Todo o direito dos romanos vinha a cifrar-se no César. O César era a lei viva e a verdadeira divindade da cidade”, escrevia Périn. “Nem sequer temos notícia, observa Laboulaye, de que os antigos disputassem ao senhor do mundo o que hoje se nos antolha como o mais sagrado dos direitos individuais, o de consciência, de inteligência, de trabalho. Religião, educação, instrução, comércio e indústria, tudo, enfim, ficava entregue nas mãos do imperador, logo que ou por vontade ou sem ela, a soberania era conferida ao César. Nem um Trajano nem Marco Aurélio suspeitaram sequer que o seu poderio não podia ser ilimitado. Governavam em nome do povo; e limitar-lhes este poder ilimitado seria olhado como um crime de lesa-majestade”.

Pôde, confessamo-lo, o culto ao Deus-Estado, assim como a adoração dos imperadores dar ocasião a certos atos de patriotismo feroz, mas estavam muito longe de trazerem a felicidade aos cidadãos e às famílias.

Não eram menos lastimosas as relações de uns com os outros povos. Debalde se procurariam entre os povos pagãos os sentimentos de fraternidade entre as nações ou uma sombra sequer dos princípios de justiça em suas relações. Para um romano a sociedade era em Roma; e para um ateniense era Atenas; e afora Roma ou Atenas, não havia senão bárbaros, condenados a viverem insociáveis e incultos.

Como tudo se devia sacrificar pela pátria, tudo era lícito, quando se tratava de um povo estranho. Cada uma das nações considerava as outras como inimigas e só se pensava em as submeter; e por isso eram as guerras incessantes e as vitórias acompanhadas de grandes crueldades; e o morticínio ou a escravidão eram a sorte que estava reservada aos vencidos. A marcha dos exércitos era freqüentemente assinalada pelas ruínas a ferro e fogo. Cartago, Numancia, Corinto e muitas outras cidades, completamente arrasadas, bastantemente atestam a crueldade desumana dos vencedores. “No dia em que Atenas decretou que todos os Mitylenos, sem distinção de sexo e de idade, deviam ser exterminados, não julgava ela extralimitar-se nos seus direitos; e por isso, quando no dia seguinte achou melhor modificar o decreto e dar a morte só a mil cidadãos e confiscar-lhes os bens, julgou praticar um ato de humanidade e de comiseração” (F. Coulanges).

ART. II — ESTADO DO MUNDO DEPOIS DE JESUS CRISTO OU A CIVILIZAÇÃO CRISTÃ.

§ I. Vista geral.

“Se Jesus Cristo não tivesse vindo ao mundo, observa Laboulaye, não sei como este teria podido resistir ao despotismo que o oprimia. E não estou falando como cristão; prescindo dessa qualidade, para só falar como historiador. E é como historiador que eu afirmo que tanto em política, como em moral e em filosofia, foi o Evangelho que renovou as almas. E por isso é que de Cristo datamos a era nova, pois foi do Evangelho que proveio a nova sociedade”.

Já acima dissemos quão rápida e maravilhosa foi a propagação do Evangelho por toda a terra conhecida dos antigos. E ante ela era impossível que o mundo ficasse, como antes estava. Não podia, porém, esta transformação realizar-se de um dia para o outro; mas tinha que efetuar-se por meio de um trabalho progressivo e perseverante. Tinha que dar-se, está claro, uma luta de morte de um paganismo de muitos séculos com uma religião recente, e do domínio de Satanás com o reinado de Cristo. De um lado combatiam as paixões armadas da força bruta, e do outro achava-se a verdade armada apenas de uma paciência invencível. Correu, pois, abundante durante três séculos o sangue dos cristãos; mas a vitória não podia deixar de declarar-se pela parte que tinha a Deus por si. A Cruz, sinal de ignomínia, tornou-se um sinal de honra com a conversão de Constantino, herdeiro dos Césares, que por uma providência especial de Deus transportou para Bysâncio a capital do seu império, como que para permitir que a sede do poder espiritual se estabelecesse naquela mesma Roma, que até então fora a sede o poder civil.

Não esperara, entretanto, a Igreja por este brilhante triunfo para efetuar a transformação do mundo pagão; pois que este trabalho da civilização dos povos teve começo no mesmo dia em que o chefe dos apóstolos, amparado por uma força soberana, operou as primeiras conversões ao cristianismo. Operava efetivamente a Igreja a transformação da humanidade pelo fato mesmo de modificar as almas e de reformar as idéias, os sentimentos e os costumes dos indivíduos e das famílias. Estão a sua doutrina, as suas leis e instituições em completa oposição com as da sociedade pagã, ao modo da luz com as trevas; pelo que, à medida que ela se ia propagando, necessariamente ia ou suprimindo ou modificando as leis e as instituições iníquas e cruéis das nações, que ela ia submetendo ao seu império espiritual. “À medida que o cristianismo se desenvolvia e se realizava o milagre da sua propagação mundial, diz Deschamps, devia ir também modificando, e se modificou de fato, a jurisprudência romana, sob a influência dos ensinamentos cristãos, influência no começo, sob os imperadores pagãos, indireta; e depois diretamente, durante o domínio dos imperadores convertidos à nova religião”.

§ II. — A sorte dos indivíduos após a vinda de Cristo

I. Os escravos e os gladiadores

Forçosamente devia a Igreja, em virtude dos seus ensinamentos e das instituições, melhorar a condição dos escravos, levanta-los do seu estado de abatimento e degradação e desembaraça-lo, enfim, dos seus grilhões. Ensina ela, de fato, que o escravo se iguala ao seu senhor, tanto pela sua origem e natureza, como pelo seu destino; que a sua alma imortal tem aos olhos de Deus o mesmo valor; que também ele foi redimido pelo sangue de Jesus Cristo, que tem o direito de participar da mesa eucarística e que pode até ocupar um lugar mais alto que o se senhor no reino dos céus, em que o grau de glória se mede unicamente pela virtude e pelas obras. “Já não há, diz S. Paulo, nem judeu, nem grego; já não há nem escravo nem homem livre; já não há nem homem nem mulher; porque não sois senão uma pessoa em Cristo”. “Deus não faz acepção de pessoas”. E, escrevendo o mesmo apóstolo a um senhor, em favor de um seu escravo fugitivo, lhe diz: “Venho interceder por meu filho Onesimo, que eu gerei estando em ferros... Acolhei-o, não já como a escravo, mas como a um muito amado irmão... Se voz fez mal, se de algo vos é devedor, debitai-o na minha conta”. Esta é em suma a doutrina evangélica. Proclama ela altamente a nobreza do homem, feito à imagem de Deus, mas sem de nenhum modo perturbar a hierarquia das pessoas e dos poderes, sem esquecer os deveres recíprocos dos inferiores e dos superiores. Como não havia de ela assim suavizar a sorte dos escravos e concorrer pouco a pouco para o completo desaparecimento da própria escravidão?

Note-se, porém, que, não obstante a sua solicitude pela sorte dos infelizes, nunca a Igreja pensou em acabar de vez para sempre com a escravidão; porque nem ela primeiramente tinha o direito nem o poder para o fazer. Se havia, na maneira como se tratavam os escravos, muitas injustiças e muitas coisas contrárias à natureza, não se pode, contudo, afirmar de um modo absoluto que a servidão em si fosse essencialmente contrária à natureza[3].

Nem, por outra parte, as circunstâncias políticas houveram permitido uma alforria simultânea para todos os escravos; um decreto geral da sua libertação teria originado muitas graves perturbações. O organismo social estribava-se na escravidão; porque a atividade industrial, agrícola e comercial corria pelos escravos. E nem estes estavam educados ou preparados para a sua libertação; pelo que o proclama-los livres antes de os tirar do seu estado de grosseria, ante de os fazer homens e cristãos, antes de se lhes assegurar os meios de subsistência, houvera ocasionado um transtorno geral, houvera excitado um morticínio mundial, e condenado os próprios escravos a um estado de miséria ainda maior.

Quem não sabe o que sucedeu no fim do século último, quando a república francesa aboliu a escravidão nas suas colônias? E a guerra desumana e sanguinolenta que, em 1861, rebentou nos Estados Unidos, entre o Norte e o Sul, teve, como é sabido, por causa razões de interesse, que se relacionavam com a escravidão. O Norte e o Sul só viam nos negros umas como que máquinas domésticas; mas o Sul queria manter este estado de coisas para salvaguardar a agricultara; e o Norte, pelo contrário, tendo em vista a indústria manufatureira, estava empenhado na abolição da escravatura. Mais atiladamente pensavam os bispos dos Estados Unidos que, reunidos em concílio, mostraram publicamente o seu desejo de que fosse fazendo pouco a pouco esta libertação dos escravos.

Preparou assim a Igreja, tanto pela sua doutrina como por outros meios de que dispunha, o caminho para a abolição total da escravatura. Movidos por suas palavras e exemplos foram os governos e os particulares acabando com esta chaga da humanidade, auxiliados pelas leis dos príncipes cristãos. Mas nunca cessou de protestar contra quaisquer abusos manifestamente contrários aos preceitos da moral cristã, nem deixou nunca de trabalhar por tornar mais suportável a vida daqueles infortunados[4].

Os combates dos gladiadores eram sob todos os respeitos condenáveis aos olhos dos cristãos; e por isso deviam naturalmente desaparecer antes da escravatura. Foram estes jogos bárbaros proibidos em 392 por um decreto dos imperadores Honório e Arcadio; mas não se extinguiram logo de todo, por estar muito arraigada nos povos a paixão por eles. E para se por termo a essa selvageria, foi necessário se derramasse o sangue de um mártir. Enquanto Roma, no primeiro de janeiro de 404, celebrava com estes jogos a posse de novos consules, viu-se aparecer no Coliseu um monge por nome Almachio; que viera do oriente e que se meteu por entre os gladiadores, para os separar. Depois, voltando-se para a multidão, disse: “Celebramos hoje a oitava da vinda do Filho de Deus, rei da paz, ao mundo; e por isso acabai com estes jogos desumanos, inventados pela crueldade pagã”. Ao ouvirem-se estas palavras levantou-se uma vozeria por todo o anfiteatro; e a multidão furiosa precipitou-se sobre o Almachio e fê-lo em pedaços. No dia seguinte acabou Honorio com os combates de gladiadores.

Quanto ao chamado comércio da escravatura, logo a Igreja, fiel à sua doutrina, se insurgiu desde o seu começo, com toda a energia, contra esta vil exploração do homem por um homem seu semelhante. E a prova temo-la na linguagem nobre e desassombrada das letras apostólicas de Pio II, de Paulo III, de Urbano VIII e de Bento XIV (1462; 1637; 1639; 1741). Ainda no começo do século último moveu Pio VII os principais governos europeus a se unirem numa como cruzada santa em prol da emancipação dos escravos; e Gregório XVI mostrou ainda mais uma vez a maternal solicitude da Igreja pelas vítimas da cobiça humana, pelas suas letras apostólicas de 23 de novembro de 1839. E quem, enfim, não conhece a cruzada organizada pelo cardeal Lavigerie, sob os auspícios e grande autoridade do papa Leão XIII, para libertar a África do horrendo flagelo que, cada ano, lhe roubava muitos milhares de homens livres para os entregar aos ferros de uma cruel escravidão?

II — Os pobres e os infelizes

Os pobres, os desgraçados e os perseguidos pelos infortúnios viram mudar-se-lhes a sorte no dia em que dos lábios divinos se ouviram estas palavras: “Tudo o que fizerdes ao ínfimo dos meus, fa-lo-eis a mim”; ou as relativas ao galardão prometido na sentença do juízo final: “Tive fome e vós me destes de comer...”. E durante toda a sua vida não cessou de repetir o que o Senhor chamava o seu preceito, um preceito novo para o mundo pagão, o de todos os homens se amarem como irmãos, como nós mesmos nos amamos, ou antes como Jesus Cristo nos amou.

E Ele mesmo nos quis dar o exemplo, nascendo e vivendo pobremente; viveram também pobres os seus apóstolos; para com os pobres testemunhou sempre uma predileção especial; em favor deles é que principalmente operou os seus milagres; e só se mostrou severo para com o rico desumano e duro de coração. Assim que, não é nada para admirar logo desde os primeiros tempos do cristianismo os indigentes, os abandonados, os velhos e todos os que eram abjeção dos homens e vítima dos infortúnios, fossem por parte dos cristãos objeto de carinhos e de um especial cuidado. Acudiam-lhes em toda a sorte de necessidades com tal desvelo e tamanha ternura, que nem os próprios pagãos podiam deixar de reclamar: Vede como os cristãos se amam uns aos outros! E eram muitos os atraídos à nova religião só com verem aquele espetáculo até então desconhecido. E que de instituições de beneficência de toda a sorte se não fundaram depois, e quantas não foram as ordens religiosas, que se formaram com o fim de acudir às inúmeras misérias que afligem o gênero humano?

Mas não insistamos mais sobre esta matéria, de uma verdade a todos patente, de que já acima também nos ocupamos.

III. — Os operários

A reabilitação do trabalho e do operariado apresentava-se como um problema não menos difícil de realizar-se do que o da abolição da escravatura. Só o cristianismo podia operar semelhante prodígio, porque só ele podia expungir a marca aviltante do trabalho e imprimir-lhe uma como que nota divina. Ante os exemplos de Jesus Cristo, filho de um operário, e também operário, e o dos apóstolos, dos primeiros bispos, e mais tarde dos monges, foi o trabalho manual, tomando pouco a pouco na sociedade cristã um lugar de honra, que o paganismo e a filosofia antes lhe tinham recusado. Deixou de ser um mister de ignominia apenas confiado aos escravos, e se tornou uma ocupação digna de homens livres e até de gente nobre.

Muitas foram as instituições e as leis inspiradas pela Igreja, durante vinte séculos para aliviar a sorte dos trabalhadores, para harmonizar as diversas classes e para manter entre elas, por meio da caridade cristã, um laço de união íntima e indissolúvel. As obras admiráveis por ela fundadas a favor das classes laboriosas chegaram ao seu maior auge por meio das corporações operárias da Idade Média.

As funestas doutrinas, que se espalharam durante o penúltimo século, vieram infelizmente abalar o edifício pela Igreja pacientemente edificado; e as desordens e perturbações, de que foram causa, conhece-as e experimenta-as toda a gente. Mas não desanima a Igreja e os seus filhos, que também em nossos dias não cessam de trabalhar com ardor e ternura por salvar a sociedade dos males que continuamente a ameaçam. Quem não leu com admiração a memorável encíclica de Leão XIII: De conditione opificum, em que este Papa, com uma precisão e prudência admiráveis, aponta os remédios mais eficazes para se poder melhorar a condição realmente lastimosa da classe trabalhadora? Apresenta esta encíclica um verdadeiro programa de economia cristã, que faz um perfeito contraste com as doutrinas de um egoísmo anárquico, como o que a Revolução Francesa propagou. Interveio assim, ainda uma vez, sempre fiel às suas tradições, o papado, como mediador nas formidáveis lutas sociais dos tempos modernos; o ponto está em que lhe ouçam os ensinamentos.

§ III. — A família depois de Jesus Cristo

I. A MULHER. — Para a Igreja já a mulher não é, como nos tempos do paganismo, um ser inferior, desqualificado, uma escrava do seu marido e objeto de desprezo para os seus próprios filhos; mas sim a companheira do homem, carne da sua carne, osso dos seus ossos; recuperou no lar doméstico o lugar de honra que lhe cabe, e nele domina pelo amor, assim como seu marido domina pela autoridade. Restabelecendo deste, e elevando-o à dignidade de sacramento, devolveu à mulher toda a sua dignidade moral. E não foi a Igreja que apresentou ao culto dos fiéis uma mulher Virgem e Mãe, a quem o próprio Salvador testemunhou um profundo acatamento e quem honrou as viúvas, e fez das virgens cristãs objeto de um culto especial? Por este modo ficou a sociedade logrando um dos seus mais indispensáveis elementos.

II. OS FILHOS. — São as crianças, aos olhos do cristão, filhos de Deus e destinadas a logra-lo para sempre no céu; ficam sendo, depois do batismo, templos do Espírito Santo; o próprio Jesus Cristo se dignou descer à terra com as fraquezas e indigências próprias da infância, e testemunhou durante a sua vida pública uma peculiar ternura para com as crianças; chegou mesmo a declarar que era mister nos assemelhássemos a elas para conseguirmos o reino dos céus; e, enfim, lançou tremendos anátemas contra os que lhes fossem ocasião de escândalo. E assim é que a criança, depois de Jesus Cristo, se tornou objeto das mais ternas solicitudes: as creches, os asilos, os orfanatos, as escolas, os colégios e mil atenções de uma dedicada caridade.

§ IV. — A sociedade pública depois de Jesus Cristo e as relações internacionais

A. Do sobredito claramente se deduz que a sociedade pública foi corrigindo as idéias acerca dos indivíduos e reformando a família, foi também transformando as opiniões e costumes públicos. Não desapareceram totalmente dentre os cristãos, está claro, os homens viciosos, visto conservar sempre o homem, com a sua liberdade imperfeita, a sua possibilidade de faltar ao seu dever; mas desde então ficou o vício, por se ter tornado vergonhoso, obrigado a esconder-se, o que não acontecia quando as sociedades eram pagãs.

Ao proclamar que “Todo poder vem de Deus” e ao ensinar que nem os príncipes por ocuparem um trono, nem outros governantes, estão dispensados de obedecer as leis do Supremo Legislador e Senhor universal e onipotente, e que hão de governar os seus povos por leis justas e prudentes, veio a Igreja pôr termo à tirania do Estado, o qual até ali não reconhecia vontade alguma superior à sua.

Regulou também a Igreja os deveres dos vassalos para com os príncipes, repetindo-lhes as palavras bem claras de Jesus Cristo: “Daí a Cesar o que pertence a Cesar”. De bom grado se submete um cristão à legítima autoridade; mas a sua obediência não tem nada de humilhante, porque a rende ao representante de Deus; e, a par dela, conserva assim mesmo uma nobre independência; e, assim, quando o poder humano se extralimita, e se põe positivamente em contradição com as leis divina e natural, o vassalo, acedendo à voz da sua consciência, repete nobremente as palavras dos apóstolos: Non possumus, não podemos. Devemos obedecer antes a Deus que aos homens.

B. Está claro que também, ante os ensinamentos da Igreja, houveram de suavizar-se muito as relações internacionais entre os povos e tomar um caráter mais humano. E como podiam, de feito, os povos, persuadidos de que todos eram irmãos e filhos de Jesus Cristo e da Igreja, continuar a tratar-se como bárbaros e a destruir-se uns aos outros com desumanidade?

§ V. — Transformação os bárbaros após a vinda de Jesus Cristo

Resta-nos dizer algo sobre o modo como a Igreja civilizou os povos bárbaros que, nos séculos IV e V, sobretudo, invadiram por todos os lados o império romano.

A sociedade romana parecia estar de tal modo viciada pela ação deletéria do paganismo que, para a tornar susceptível de uma completa restauração, se serviu Deus dos bárbaros como de ministros da sua vingança contra o império perseguidor, e para ao mesmo tempo, por meio da sua conversão, fazer reviver o decrépito império do Ocidente. O espetáculo que a Europa no século V ofereceu, depois que estes povos a percorreram em todos os sentidos, nos mostra com quão horrorosa crueldade estes flagelos de Deus levaram a cabo a sua obra. Leia-se, a este propósito, a obra de Ozanam: Os Germanos antes do Cristianismo. Contentemo-nos só com algumas citações.

“Em Espanha, é o cronista Idaco que fala, às passadas sangrentas dos bárbaros seguiram-se a peste e a fome; e tão grande foi o aperto, em que se viu a gente, que os homens se nutriam da carne dos seus semelhantes e as mães devoravam os seus próprios filhos”.

Santo Agostinho ficou tão penalizado com os males, que houveram de sofrer dos vândalos os habitantes de Hipona e em geral de toda a África, que chegou a pedir a Nosso Senhor que o levasse desta vida. “Via ele de fato, diz Possídio, as cidades arruinadas, as aldeias destruídas e os habitantes ou mortos ou fugitivos. Uns tinham expirado nos tormentos e outros tinham morrido, passados à espada; e outros reduzidos à escravidão, estavam servindo a senhores sem piedade. Os que, fugindo aos vencedores, se tinham refugiado nos montes ou acolhidos às cavernas, morriam à fome e à mingua de tudo”.

A Itália não foi mais poupada, porque viu todo o seu território arruinado. Alarico entregou Roma ao saque durante três dias; e Genserico, caudilho dos Vândalos, durante duas semanas; e tão grandes foram os excessos destes nas suas invasões que o seu mesmo nome de vândalos veio a ser sinônimo de destruidores.

Conta o historiador Gildas que o “incêndio varria com as suas rubras línguas a Grã-Bretanha de um ao outro mar; viam-se de mistura nas praças públicas as ruínas das torres e das muralhas, as pedras dos altares, os corpos ensangüentados, sem que se lhes desse outra sepultura senão as ruínas das casas ou então as entranhas dos animais carnívoros e aves de rapina”.

Mas nem eram para admirar estes estragos, quando se consulta a história sobre o que eram estes bárbaros filosófica e, sobretudo, intelectual e moralmente considerados. Leia-se sobre este ponto a supracitada obra de Ozanam; no cap. III se verá como a família, para estes povos, quase não se diferençava da família pagã, de que acima demos um esboço. O pai de família entre eles era para a mulher, para os filhos, para os escravos, um déspota. Os próprios guerreiros, a única força viva e de importância para a nação, eram com as mulheres os encarregados dos trabalhos domésticos, logo que a idade ou as doenças os tornavam inaptos para manejar a acha nas batalhas; e quando já não serviam para nada, ou serviam só de peso, libertavam-se deles pela morte. Na Suécia, aos velhos precipitavam-nos do alto dos rochedos; os herulos acabavam com eles pelo fogo; noutras partes ou os estrangulavam ou os passavam à espada, porque para serem recebidos, diziam, pelo Odin no Walhalha era preciso levar a marca do ferro.

Nada possuíam aqueles povos, que os tornasse aptos para regenerar a caduca sociedade romana, quer se considerem os seus instintos bárbaros, os seus costumes, as suas instituições políticas, quer se lhes estude a religião, eivada de um fetichismo grosseiro e encaminhada a fomentar neles os instintos de crueldade e da carnificina. As suas invasões houveram aniquilado por completo a civilização, a não intervir a Igreja, para domar estes povos e para fazer confraternizar ambas as raças, a dos vencedores e a dos vencidos.

Não temos nós que expor aqui, especializando-os, os meios de que se serviu a Igreja, para fazer destes povos invasores e grosseiros, nações cristãs, que a história nos apresenta como merecedoras da nossa admiração. Imbuindo-se dos mesmos ensinamentos, regulando-se pelas mesmas leis religiosas, obedecendo a pastores indistintamente escolhidos de ambas as raças, ajoelhando-se ante os mesmos altares e à mesma mesa eucarística, não podiam aqueles povos romanos e bárbaros, deixar de confraternizar-se, formando uma só e grande família destinada a recolher os benéficos frutos da civilização cristã. Entre as instituições especialmente apropriadas para efetuar a civilização dos povos bárbaros, podem também citar-se as Tréguas de Deus, o Direito de asilo e a Cavallaria.

Não se fez, contudo, esta transformação num dia, está claro. Muito custou à Igreja esclarecer a inteligência e domar a vontade daqueles homens naturalmente ferozes, suavizar os seus costumes e corrigir as suas instituições políticas. Foram precisos alguns séculos para se polir a selvagem rudeza daquelas naturezas duras, e para temperar o calor do seu sangue a ferver; ainda muito depois, a par das mais heróicas virtudes e de verdadeiros prodígios de santidade, continuavam persistindo em costumes sanguinários e crimes horrorosos; mas a Igreja triunfou ao fim, com perseverança e paciente firmeza, do mundo bárbaro, como antes tinha triunfado do mundo pagão.

Um destes costumes bárbaros, muito em voga na Idade Média, eram as Ordalias ou duelos judiciais. Eis o que sobre este ponto diz o sábio padre bolandista C.de Smedt: “Nunca a Igreja, no seu começo nem em todo o percurso da Idade Média, deu a sua aprovação a este ato do duelo judicial; e não só isto, senão que contra ele protestou pelos ensinamentos dos seus doutores, e dos bispos, mais assinalados pelas suas virtudes e talentos, e pelos concílios, e pelos soberanos Pontífices. Nunca a legitimidade do duelo foi proclamada ou formalmente admitida por nenhum Papa, por nenhum concílio, nem por nenhum bispo, falando como pastor de almas”.

As nações católicas e as nações protestantes

A questão das nações católicas, postas em comparação com as nações protestantes, nem sempre tem sido bem proposta; e, por isso, convém expô-las nos seus verdadeiros termos.

Uma coisa convém, antes de tudo, ter-se bem presente, a saber, que a religião foi dada ao homem para o encaminhar ao seu fim sobrenatural e para ele alcançar os bens desta ordem, incomparavelmente avantajados aos bens terrestres: esta foi a missão que ela recebeu de Deus. E não bastará já à sua glória o tornar inteiramente felizes, por toda a eternidade, os que fielmente a tiverem posto em prática? Na antiga lei, quando tudo era sombra e figura, pôde, sim, Deus atrair um povo carnal pelas gulodices dos bens temporais prometidos[5]. Mas somos já regidos por uma economia mais perfeita; e seria rebaixar a obra de Jesus Cristo o querê-la avaliar pelos benefícios que ela nos presta na esfera dos bens transitórios.

Ninguém ignora que a felicidade de um povo é constituída de elementos multíplices, e que a sua prosperidade material está dependente de mui diversos fatores. “A religião e a ciência, observa muito bem M. Worms, nunca só por si poderão dar a explicação de toda a história social”. Quanta não é a influência do solo, do clima, da situação geográfica e do vigor da raça! Quereremos acaso ir pedir à verdadeira religião que transforme as charnecas em vergéis, ou que dê ao subsolo as riquezas minerais exigidas pelas grandes indústrias, ou que transforme um clima insalubre, ou que faça de preguiçosos e obtusos de entendimento gente perspicaz e ativa?

Sempre, porém, será verdade, que a felicidade é a grande amiga da virtude e que a verdadeira religião sempre há de exercer uma grande influência sobre a felicidade da nação. Seria facílimo demonstrar que em tudo quanto a Igreja católica quer se faça, há sempre o fator de alguma influência benéfica para a sociedade, tendente a tornar um povo honrado, laborioso e contente[6].

Mas será semelhantemente fácil encontrar nos fatos uma configuração clara desta verdade? Algumas breves reflexões nos farão ver que assim é realmente.

Se a humanidade se achasse separada em dois imensos grupos, um dos quais seguisse fiel, e docilmente a verdade completa, e o outro cegamente abraçasse toda a sorte de erros, dar-se-ia entre os seus destinos um tão manifesto contraste, como o que existe entre a luz do meio-dia e as trevas da meia-noite. Mas isto não passa de uma mera hipótese: pois muito outra é a realidade. As falsas religiões conservaram por uma parte um conjunto maior ou menor de verdades, que Deus, segundo os desígnios da sua misericórdia e amor, lhes permite possuam; e é, guiando-se por elas, ainda que imperfeitas, que os homens de fé sincera de boa vontade se podem salvar e até santificar. E porque não poderão estas virtudes contribuir para a felicidade temporal de um povo? Pode, por outra parte, a observância da verdadeira religião ser antes aparente que real. E neste caso que influência pode exercer a religião sobre os que praticamente lhe voltam as costas? Não se consegue melhor resultado com poucos meios, que se põem em prática, do que com muitos, que se votam ao desprezo?[7]

Quando o confronto se faz entre a sociedade cristã e a sociedade pagã, a primeira ostenta-se refulgente como o sol; mas, quando se trata de comparar as nações protestantes com as nações católicas, já as conclusões se não apresentam logo tão evidentes e concludentes, para o que concorrem várias razões.

E, de feito, a história nos mostra que as nações se assemelham aos homens; têm também elas a sua juventude cheia de esperança, a sua idade madura, acompanhada de vigor, e a sua idade decrépita. Enquanto umas sobem ao apogeu da grandeza, vão outras descendo. Basta, pois, que umas determinadas nações católicas tenham entrado em decadência, para, defrontadas com uma nação herética ainda nova e mais vigorosa, se acharem sob diversos aspectos desvantajosamente colocadas.

Mas dá-se, demais disto, o fato de certas nações protestantes terem conservado uma vida pública mais religiosa do que a de vários povos, que, sob o rótulo de católicos, dificilmente encobrem uma horrenda apostasia.

Acrescentemos ainda que a sociedade, a que preside um governo protestante, encerra muitas vezes uma grande multidão de católicos; e assim a coroa britânica tem por vassalos um grande número de católicos, tanto na própria Inglaterra, como na Irlanda, no Canadá, na Austrália e outras partes. Mais de 17 milhões de católicos vivem nos Estados Unidos; e nenhuma das seitas reformadas da importante república, é tão numerosa nem está tão coesa como eles estão. Os católicos da Alemanha elevam-se a mais de 20 milhões, um terço da população total; e dominam em vários estados e em algumas das mais ricas províncias; formam até o partido mais poderoso do Reichstag. Ora, sendo assim, será justo por a prosperidade destas nações somente no ativo do protestantismo? Cotejem-se as províncias rhenanas católicas e a Westphalia com a protestante Pomenaria e o Brandeburgo!

Tenha-se ainda presente que a vida particular de cada indivíduo é o principal campo de ação para a religião; mas é também o mais difícil de se examinar. A par da imoralidade, que vem a público, há mil formas de perversão e das piores, que se furtam às pesquisas de quaisquer estatísticas.

A questão é, pois, grandemente enredada e complexa. Não queremos com isto dizer que não se possa demonstrar pelos efeitos a influência salutar da religião sobre a felicidade dos povos; mas o que só queremos mostrar é como este benefício pode ser ou verificado ou ignorado. Podemos, todavia asseverar, sem receio de sermos desmentido, a verdade das afirmações que passamos a expor.

Se se tratasse de saber qual dos dois povos adquiria em igualdade de circunstâncias, maiores riquezas, o protestante ou o católico, houvéramos de vacilar ao dar a resposta; porque a sofreguidão do ganho é naturalmente maior no que menos conta com a vida futura. Se porém, se quisesse saber qual dos povos, dispondo de meios de fortuna semelhantes, seria o mais feliz, ou qual seria o que teria a riqueza nacional melhor distribuída, sem hesitar responderíamos que era o povo católico, em razão de sua fé e da sua caridade. A visão nítida e a confiança efetiva acerca da sua vida futura, que a religião lhe ministra, dão-lhe a paz interna e o tornam sobranceiro às fementidas impressões da vida e das coisas humanas, levadas aos excessos de um exclusivismo ardente. E tornam-no, ao mesmo tempo, esforçado contra as desgraças. Estes são, por assim dizer, os efeitos naturais da religião católica, não falando da ação sobrenatural e misteriosa da graça. Assim se explica também, por exemplo, a relativa raridade dos suicídios entre os verdadeiros católicos. Aos grandes ensinamentos da paciência cristã acrescenta o catolicismo as sublimes lições da caridade, que é o melhor remédio contra as desigualdades sociais; e nenhuma outra religião tem igual poder para fazer amar os homens e lhes acudir com os preciosos socorros.

Aos que, enfim, quisessem imaginar qualquer incompatibilidade entre a religião católica e as diversas formas de progresso moderno, bastaria apresentar-lhes o exemplo da Bélgica, onde, segundo confessam os sociólogos, o progresso alcançou o seu apogeu, governando-se por homens verdadeiramente católicos, e onde, confessam os economistas, o avanço industrial e comercial chega às raias do prodígio. A sua prosperidade vai a par da sua fé.[8]

Acrescentemos ainda algumas reflexões para elucidar esta questão controversa.

É coisa sabida que muitos dos fundadores do protestantismo ousaram formalmente negar o livre arbítrio, e professaram a inutilidade das boas obras. Ora, está claro, uma semelhante doutrina não é evidentemente apta para civilizar os povos, nem para lhes assegurar a tranqüilidade e a felicidade da sociedade e dos indivíduos. A que ficará reduzida ante tais princípios a moralidade pública e a individual, se se proceder em conformidade com eles?

Tenha-se, além disto, presente que, sendo o cristianismo o que fundou a civilização moderna, de que nos vamos ocupar no capítulo seguinte, já assim superabundantemente demonstrou o poder civilizador, que lhe é próprio. Pelo que, ainda quando houvéssemos de admitir que hoje em dia as nações protestantes levam vantagem em prosperidade material e influência política, de nenhum modo poderíamos admitir que esse resultado se atribua à religião; pois que, se as mesmas causas produzem os mesmos efeitos, já essa preeminência devia ter existido em cada um dos séculos precedentes, que se sucederam ao aparecimento da Reforma. Ora, a história nos demonstra ter passado exatamente o contrário. No começo do século passado era Napoleão o árbitro dos destinos da Europa. E antes dele não eram de certo a Prússia, nem a Inglaterra as que tinham a hegemonia política; mas sim as nações mais profundamente católicas, a Espanha, a França, e a Áustria. E era exatamente quando a Espanha se mostrava mais dedicada à Igreja que ela expulsava os mouros, e se anexava os grandes territórios da América e triunfava nos campos de batalha europeus[9]. E quem ousará afirmar que é ao protestantismo que se devem atribuir as vitórias da Prússia em Sadow e Sedan?

E note-se ainda que teria sido quando o protestantismo deixou de ser o que era, quando os princípios cederam o lugar aos seus contrários, é que ele teria realizado a grandeza da Alemanha! E, coisa muito digna de reparo, foi exatamente quando os seus governos deixaram de inspirar-se nos princípios católicos, é que sobreveio a decadência das nações católicas. É um fato incontestável, que uma parte mais ou menos considerável da sua população vive sujeita às influências de forças muito anti-católicas, a revolução, o livre pensamento, a maçonaria, o protestantismo e o judaísmo financeiro. E, sendo assim, como se podem, sem restrição, chamar nações católicas estes países? Se a França, por exemplo, perdeu grande parte da sua influência política, não se poderá certamente dizer que foi por seu governo ser grandemente dedicado à Igreja. E se o protestantismo possui essas qualidades eminentemente civilizadoras, porque é que a Suécia, a Noruega e a Dinamarca, há tanto tempo dominadas pela Reforma, não vão à frente das nações civilizadas?

ART. III — A IGREJA E A CULTURA INTELECTUAL

§ I. Influência da Igreja sobre as letras e as ciências

Não foi só reformando a sociedade antiga e modificando os costumes dos povos bárbaros, que a Igreja eficazmente concorreu para a felicidade dos indivíduos e das sociedades; adquiriu também títulos ao reconhecimento dos homens em razão dos benefícios de ordem intelectual, que lhes trouxe.

1. Zelando a Igreja, como boa mãe, o aperfeiçoamento total e completo do homem, nunca deixou de ministrar-lhe, não somente os ensinamentos da religião e da moral, que fazem parte da sua divina missão, senão que procurou sempre acrescentar-lhes também o ensino dos conhecimentos humanos. Bem sabe ela que estes conhecimentos auxiliam uma alma reta, e mais pronta e perfeitamente compreender os fundamentos da fé e as verdades da religião. E assim é que ela inscreveu no seu direito canônico, aquelas duas máximas que, com grande precisão e energia, exprimem o seu pensamento: “A ignorância é a mãe dos erros. — A ignorância é apenas tolerável no leigo; mas é inescusável e imperdoável no sacerdote”. E quem não conhece a homilia de S. Basílio sobre as vantagens que o jovem pode tirar da leitura dos autores profanos? O mesmo era o sentir de S. Gregório Nazianzo, de S. Crisostomo, de S. Jerônimo, os quais empregavam os seus ócios em propagar a instrução no meio das sociedades, que eles procuravam atrair para Deus. “O primeiro dos bens é a ciência, diziam um dos principais doutores da Igreja, S. Gregório Nazianzo; e por esta entendo não somente a nossa, relativa à salvação e à beleza dos bens espirituais, mas também a ciência profana. Ter só os costumes ou só a ciência, é não ter senão um olho. Mas os que se apresentam brilhando com os dois é que são os perfeitos”.

De acordo com estas normas e procedimentos se houve sempre a Igreja Católica. E assim é que o Concílio do Vaticano, referindo-se na sua primeira constituição dogmática aos estudos científicos, declarou solenemente que “não só a Igreja se não opõe ao estudo das artes e das ciências, senão que lhes dá o apoio e as estimula por muitos modos; pois não ignora nem menospreza as vantagens que delas resultam para a vida dos homens. E o que é mais, reconhece ela que, vindo as ciências de Deus, deve o seu emprego regrado, com os socorros da sua graça, levar o homem a Deus”.

2. Não contente com promover tudo o que pode dilatar a esfera dos conhecimentos humanos, sempre a Igreja se apresentou ao mundo como o foco mais intenso de atividade da mente humana. “Não havia comparação, diz o protestante Guizot, entre o estado da sociedade religiosa e o da sociedade civil, a partir do século IV; porque de uma parte tudo era decadência, lassidão e inércia; e de outra tudo movimento, ardor e progresso”. “Não estavam as inteligências de aperfeiçoar-se no seio do cristianismo por meio de discussões sérias e profundas. Tinha prática ampla a máxima em voga: In necessariis unitas, in dubiis libertas”. “Examine-se o governo da Igreja, escreve o mesmo homem de Estado, e ver-se-á, que é para a razão que ela sem cessar apela, e que é de fato a liberdade que nela domina. Quais são as instituições, os seus meios de ação? Os concílios provinciais, os concílios nacionais, os concílios gerais, uma correspondência ininterrupta de cartas, de admoestações e de escritos. Nunca um governo assim se houve nas discussões e deliberações em comum”. Nos concílios gerais é que, sobretudo, se manifestava esta vida intelectual; e assim é que, com de Decker, se pode afirmar que, “se as suas decisões não tivessem sido o fruto da inspiração divina, ficariam ainda assim como os mais belos monumentos da sabedoria humana”.

3. Que magnífica plêiade de pensadores e escritores nos apresentam os anais da Igreja! Saía apenas das catacumbas, e já se apresentam em campo para defende-la homens como Orígenes, Atenagoras, Justino, Tertuliano; um pouco mais tarde apareciam as obras dos Crisóstomos, dos Basílios, dos Gregórios Nazianzenos, dos Jerônimos, dos Ambrósios, dos Agostinhos, dos Leões Magnos; e ainda mais tarde saíram do seu grêmio as obras primas dos Albertos os Grandes, dos Anselmos, dos Boaventuras, dos Aquinos, dos Bossuets, dos Fénelons, dos Massilons, dos Boudaloues[10]. E quem poderia contar as inúmeras obras publicadas em todos os idiomas para expor, demonstrar, desenvolver e defender as verdades da religião? Quem ignora que as mais belas obras literárias foram inspiradas pelo espírito de fé cristã? Apontemos como exemplo só a Jerusalém Libertada, a Divina Comédia, Polieuto e Atalia. E, se o paganismo teve o século de Péricles e de Augusto, também o cristianismo teve os de Leão X e de Luiz XIV; e, se os primeiros se distinguem pelo estilo e correção da forma, os outros se avantajavam imenso pela verdade e pela elevação das idéias e pela sublimidade dos sentimentos.

4. Com razão notam os historiadores, que a sério estudaram a Idade Média, que foi a influência da Igreja a única, que subsistiu através deste longo período, e a única que exerceu a preponderância na cultura da inteligência. “Já a sociedade pagã tinha desaparecido, mas sobreviveram-lhe os seus conhecimentos, observa o abade Ant. Pirenne. A Igreja fez suas as duas línguas, que haviam sido os instrumentos do seu pensamento e os veículos do seu saber; e, apropriando-as, imortalizou-as; e, imortalizando-as, salvou-lhes as idéias de que elas eram portadoras, e os conhecimentos de que elas eram o receptáculo, ou numa palavra, o tesouro intelectual completo, que nelas se achava encerrado; porquanto uma língua é como uma corrente, que vai levando em suspensão todos os elementos da vida de um povo”. Ainda que a Igreja não tivesse feito mais que salvar as obras-primas da literatura pagã, já com isso ficaria credora aos reconhecimentos de todos.

Nos lastimosos tempos, em que a Europa, saqueada pelos bárbaros, via todas as suas bibliotecas destruídas, foram os monges os que salvaram do incêndio e da rapina esses preciosos manuscritos. E, enquanto tudo faltava para a multiplicação dos manuscritos, eram os monges os que nas suas celas ou no scriptorium transcreviam e espalhavam grande número de cópias. Empregavam neste trabalho os ócios, que lhes ficavam da oração, da educação das crianças e da mocidade, do desbravamento das terras, esgotamento dos pântanos e da construção de muitas dessas catedrais admiráveis que cobrem o solo da Europa. E assim é que, enquanto por um lado Guizot afirma que os beneditinos desbravaram a Europa, ousa por outro lado o protestante Gibbon afirmar que um só convento destes religiosos prestou maiores serviços às letras do que as duas universidades de Oxford e de Cambridge. “Não era uma abadia, dizia A.Thierry, um lugar de oração e de contemplação somente, mas era também um público asilo contra a invasão da barbárie. Além de serem recintos para os livros e para as ciências, encerravam também oficinas de todas a sorte, e quanto às suas terras eram elas uns verdadeiros modelos de cultura. Eram as abadias a escola, aonde iam instruir-se os conquistadores que, olhando a interesse bem entendidos, procuravam cultivar e colonizar os seus territórios[11].

5. E quanto não fizeram pessoalmente os Papas pelo desenvolvimento dos conhecimentos humanos? “Seria um nunca acabar se eu quisesse, diz Mons. Freppel, fazer uma resenha dos grandes benefícios que o papado fez à causa das ciências e das letras. Ver-se-iam um papa à frente na renascença das literaturas grega e latina; os refugiados de Constantinopla procurarem um abrigo à sombra do trono Pontifício; um Lascaris ensinando o grego à admirada Europa, no monte Esquilino, ao lado do palácio de Leão X; um Nicolau V sustentando uma legião de sábios para irem recolher manuscritos pelo mundo inteiro; um Pio II, o doutor Enéas Sylvio, associando as luzes da sua ciência às dos seus protegidos. E, para me referir a tempos mais chegados a nós, apontar-vos-ia um Paulo III animando Copérnico nas suas imortais descobertas; um Gregório XIII pedindo à astronomia um cálculo para melhor regular os dias e os meses; um Sixto V dando desenvolvimento à biblioteca do Vaticano, que é a admiração do mundo; um Urbano VIII, cujas obras poéticas merecidamente figuram entre as melhore que no seu gênero possuem os tempos modernos; e, enfim, um Bento XIV, a quem o próprio Voltaire tributava grande respeito, saudando-o como o homem mais sábio do século XVIII”.

Em todo o percurso dos tempos cristãos nos mostra a história ter o papado presidido sem cessar ao movimento científico e literário, do mesmo modo que presida ao movimento religioso e social. E quem não relembra ainda a memória de Leão XIII, que pela sua ciência, seus escritos e suas obras ia à frente da civilização contemporânea? Ninguém pôde deixar de admirar-lhe a zelo com que este grande Pontífice favoreceu e recomendou os estudos sólidos e conscienciosos quer da literatura quer da lingüística, quer da história ou das ciências naturais, quer da filosofia e da teologia, e em suma, de todos os ramos do conhecimento humano[12]. “Nada há mais nobre do que a glória da letras”, escrevia ele. E assim é que preconizava o estudo da literatura romana e dos autores gregos, dizendo: “Os modelos da Grécia brilham e se avantajam em todos os gêneros, de modo que nada se pode imaginar mais polido e mais perfeito”.

§ II. — A Igreja e as Belas Artes

Não podemos deixar de dizer algumas palavras realmente bem significativas acerca da influência da Igreja no progresso das Belas Artes. “Suprimi mentalmente, diz Armengaud, os monumentos da arte cristã desde os tempos das catacumbas até os nossos dias; suprimi tudo o que resta das coleções públicas e particulares, as maravilhas da pintura e da escultura inspiradas pelos gênios cristãos, e tereis a melhor demonstração de que foi a religião a única inspiradora da grande arte, a fundadora de todas as escolas rivais, a mãe nutrícia dos artistas. A ela e só a ela toca o completar a beleza das formas pagãs, adicionando-lhes a beleza, ainda muito maior, do sentimento cristão; a arte antiga tinha divinizado a matéria, a arte moderna deu-lhe uma alma”. Para não sair da Itália, que nomes os dos pintores cristãos que ilustraram o século que vai de Leão X a Urbano VIII! Fra bartolomeo, Leonardo da Vinci, Raphael, André del Sarto, Corregio, Julio Romano, Daniel de Volterra, Miguel Angelo, Palma o Antigo, Ticiano, Paulo Veronese, Tintoreto, os Carracis, Guido, Dominiquino. “Todas as religiões dão vida às artes, mas nenhuma o faz tanto como a nossa”, escrevia a Napoleão o grande estatuário moderno, Canova. Ainda bem que os tempos de um vergonhoso abandono passaram; e o nosso século de novo celebra com entusiasmo e se empenha em imitar as maravilhas medievais da arquitetura, da escultura e da pintura. Admiram-se também e com muita razão as majestosas e comovedoras harmonias do canto gregoriano e as belas composições de um Rollando de Lattre, dos Palestrinas e dos Allegris, de que dizia um mestre, depois de as ter ouvido na Capela Sixtina: “Não fiz mais que escutar os anjos e repetir o que eles cantavam”.

Enquanto por um lado a Igreja dava às almas as luzes da verdade e nelas assim infundia o sentimento do belo e o desejo de o exprimirem pelas artes, olhavam por outro lado os reformadores do século XVI como uma superstição a pompa dos altares, e como idolatria as inúmeras obras primas que decoravam os nossos templos, e se obstinavam em destruir essas maravilhas da arte cristã. “Eivando-se do espírito do seu fautor, frade invejoso e bárbaro, declarou-se a reforma, diz Chateaubriand, a inimiga das artes. Ao suprimir a faculdade imaginativa do homem, cortou as asas do gênio e o atirou por terra... Se a reforma no seu começo houvera alcançado um êxito pleno, ter-se-ia apresentado, ao menos, durante certo tempo, com outra forma de barbárie!... A Europa, ou antes o mundo, achava-se coberto de monumentos da religião católica. Foi ela a que nos deu essa arquitetura gótica que nas suas minuciosidades iguala e na sua grandeza suplanta os monumentos da Grécia”.

§ II. — A Igreja e o Ensino

I. — Ensino Popular

A verdadeira civilização, ou melhor, a sociedade em si, tem como base o ensino religioso e moral; se ela não estiver assente em determinadas verdades fundamentais admitidas e praticadas pelas multidões, achar-se-á incessantemente ameaçada não só quanto à sua prosperidade, mas ainda quanto à sua própria existência. Esta verdade patenteia-se de um modo particular nos agitados tempos que vão correndo. Declarou-o o próprio V. Hugo, em 1850, em plena Assembléia Nacional. “O ensino religioso é, a meu ver, hoje em dia, mais do que nunca necessário. Quanto mais o homem cresce mais deve crer. Há um grande mal em nossos tempos; diria mesmo que quase não há outro mal: é uma certa tendência a limitar tudo a esta vida. Dando-se ao homem por fim e por objetivo a vida terrestre e material, vêm agravar-lhe todos os seus males com a negação, com que lha rematam; ao acabrunhamento dos infelizes acrescentam ainda o peso insuportável do nada, e o que só é sofrimento, ou uma lei de Deus, transformam-no em desespero, que é uma lei do inferno. Daqui provêm as grandes convulsões sociais. Está claro que eu sou dos que desejam, se melhore a sorte material dos que sofrem; mas o que não quero é que se esqueça que a maior das melhorias está em dar-se-lhes a esperança. Quanto se não atenuam os males finitos, quando lhes anda associada a esperança de um bem infinito! O dever de todos nós, legisladores, bispos, padres, escritores, é... fazer com que todos levantem os olhos para o céu, é encaminhar as almas, dirigir-lhes todas as esperanças para uma outra vida, em que se fará justiça, em que a encontrarão. Digamos bem alto: ninguém injustamente, ninguém inutilmente, haverá sofrido. Não o esqueçamos, e ensinemo-lo a todos: nada de nobre teria o viver, se tudo houvesse de morrer conosco. O que aligeira os trabalhos, o que santifica o trabalho, o que torna o homem forte, bom, ajuizado, paciente, benévolo, justo, o que o torna ao mesmo tempo humilde e grande, digno da inteligência e digno da vontade livre, é ter ante si incessantemente a visão de um mundo melhor a radiar através das trevas desta vida”.[13]

Há, todavia, homens que pensam diversamente; cegam-se voluntariamente e obstinam-se em crer que a salvação dos povos está nos conhecimentos meramente humanos e na difusão das ciências e das letras. Mas ainda neste mesmo terreno hão de confessar, se estão de boa fé, que a Igreja é merecedora de todo do reconhecimento dos amigos do povo. Não há, com efeito, um fato histórico mais solidamente comprovado que a solicitude da Igreja em difundir a instrução entre o povo.

1. Não se pode negar ser em primeiro lugar a pregação evangélica um meio de uma eficácia maravilhosa para a cultura intelectual dos povos. Ora, esta pregação é uma coisa essencial para a Igreja. O Espírito do Senhor, diz Jesus, me enviou para evangelizar os pobres; e por isso foi sua vida apostólica uma contínua pregação às turbas. Imitaram-no os seus discípulos, percorrendo a terra e anunciando a verdade que ilumina e purifica. “Ai de mim, se eu não evangelizar”, exclamava o Apóstolo das gentes. O conhecimento das verdades religiosas, ensinadas pela Igreja, constitui só por si o mais rico tesouro da inteligência humana. Afirmou-se, e com muita verdade, que o catecismo é a filosofia do povo. Não pôde deixar de reconhece-lo Theodoro Jouffroy, um dos melhores da filosofia incrédula. Falando ao seu numeroso auditório da Sorbonne, e referindo-se à suma desta doutrina, o catecismo, diz ele: “Há um livrinho, que se dá a estudar às crianças e acerca do qual se lhes fazem interrogatórios na Igreja; lede este livrinho, o catecismo, e nele encontrareis a solução de todas as questões que eu vos propus, para todas sem exceção. Perguntai a uma criança qual é a origem da espécie humana, e sabe-o; para onde vai, e sabe-o; como vai, e sabe-o. perguntai a uma pobre criança, para que está cá na terra, o que lhe acontecerá depois da morte, e vos dará uma resposta sublime, que ela não compreenderá, mas que não deixará por isso de ser menos admirável. Perguntai-lhe como foi o mundo criado e qual é o seu destino; para que formou Deus os animais e as plantas; como foi povoada a terra; se foi por uma só família, se por muitas; por que falam os homens diversas línguas, por que sofrem, por que se guerreiam, como virá isto a acabar, tudo ela o sabe. A origem do mundo, a origem das espécies, a questão das raças, o destino do homem nesta e na outra vida, as relações do homem para com Deus, os deveres do homem para com os seus semelhantes, os direitos do homem sobre a criação, nada disto ignora; e, quando for grande, já não hesitará acerca do direito natural, do direito político, do direito das gentes, por que tudo se deduz, tudo majestosamente flui, como por si mesmo, do próprio cristianismo. Aqui está o que eu chamo uma grande religião: reconheço-a assinalada com esta marca, a de não deixar sem resposta qualquer das questões que interessam à humanidade”.

2. Em toda a parte onde a Igreja levantou um templo, construiu também uma escola. Logo desde os primeiros tempos cada episcopado tinha a sua escola episcopal. Assim o afirma o anglicano Bingham no seu célebre livro sobre as Antiguidades eclesiásticas; e o mesmo assegura o douto Thomassino na sua obra, ainda mais conhecida, a Antiga e a Nova disciplina da Igreja; e do mesmo modo pensam Launoi, Lingard, Luiz Nardi, e muitíssimos outros. Referindo-se ao estado da instrução nas Gallias, nos primeiros séculos, dizem os sábios beneditinos, autores da História literária da França: “Eram tantas as igrejas que se levantavam, quantas as escolas cristãs”. E, depois de dizerem que no século VI “a Igreja e a Ordem monástica eram os portos aonde do naufrágio se acolhiam os restos da instrução e das ciências”, acrescentam: “As igrejas catedrais possuíam ainda as suas escolas, onde persistia a mesma maneira de ensino que nos primeiros tempos”. Importa observar aqui que antes do triunfo de Constantino ainda não existiam as igrejas paroquiais; então havia só bispados; e era o bispo que, auxiliado por alguns presbíteros sujeitos à sua jurisdição, governavam o nascente rebanho. Mais tarde é que, divididas as dioceses em freguesias, vieram acrescentar-se as escolas paroquiais às dos bispados.

No seu erudito estudo acerca da Instrução primária em França, antes da revolução, nota muito bem Alain que “a História da instrução dos diferentes graus nos primeiros tempos da Idade Média é unicamente a dos esforços, empregados pela Igreja em conservar as ciências e em salvaguardar a civilização em perigo. Desde o V ao XII século somente o clero se ocupou das coisas relativas ao ensino”. Abra-se a Coleção dos concílios e ver-se-á quanto estas doutas e santas assembléias se preocupavam com as questões de ensino, e as recomendavam aos cuidados e prudência dos pastores de alma. Já desde o século VI o concílio de Vaison apelava para o exemplo, já antigo, da Itália, para relembrar aos padres das Gallias a grave obrigação que tinham de educar e instruir a juventude.

Em termos análogos se exprimem uma multidão de concílios, como, por exemplo, o de Aix-la-Chapelle em 789, o de Thionville em 805, o de Moguncia em 813, o de Roma em 826, o de Paris em 829, o de Valença em 855. O sentir geral da Igreja acha-se expresso no 28° cânon do 3° Concílio Ecumênico de Latrão em 1178: “Está a Igreja de Deus, como mãe terna, obrigada a procurar que os pobres, não podendo receber dos seus pais recursos suficientes, não fiquem por isso privados da faculdade de aprender e de adiantar nas letras e nas ciências. E por isso ordenamos que em todas as igrejas catedrais se proveja para que haja um mestre conveniente dotado, o qual esteja encarregado de ensinar gratuitamente os clérigos desta igreja e todos os alunos pobres”.

Em conformidade com esta ordem de idéias se houveram os bispos e outros personagens, dedicados amigos da Igreja, em lhe secundarem os esforços. Theodulfo, bispo de Orleães, estimado de Carlos Magno, pelo seu saber e virtudes, publicou no século VIII o seguinte decreto que à letra reproduziram os regulamentos eclesiásticos de Inglaterra naquele tempo: “Que os padres tenham as escolas em todas as aldeias e nos campos; e, se qualquer dos fiéis (quislibet) lhes quiser confiar os seus filhinhos para aprenderem a ler, não se recuse a recebe-los e a os instruir; mas antes, pelo contrário, os ensinem com muita caridade. E, ao ensina-los, não exijam nenhuma remuneração nem levem nada, a não ser que os seus pais voluntariamente a ofereçam por afeto ou reconhecimento”. Bastante conhecida é a solicitude do imperador Carlos Magno acerca do ensino. “Quis Carlos, diz Ansegiso, na coleção dos capitulares deste imperador, que houvesse escolas em todos os mosteiros e bispados, para que tanto os filhos dos homens livres, como os dos servos, nelas aprendessem a gramática, a música e o cálculo”.

Na Alemanha o pensar acerca do ensino era o mesmo que na França. Eis como se expressa E. Randu, inspetor geral da Universidade em França, na sua publicação A instrução popular na Alemanha do Norte, referindo-se aos tempos que antecederam a Reforma: “Tinha o catolicismo povoado a Alemanha de escolas populares, à semelhança do que fizera no resto da Europa; tinha procurado que o clero atraísse às suas escolas tanto os filhos dos livres como os dos servos; que todo o padre, cura d’almas, ministrasse a instrução ou por si ou por um clérigo; que os bispos em suas visitas pastorais, tivessem cuidado em levantar escolas, lá onde elas não existissem; que o pároco de cada freguesia proporcionasse aos pobres o ensino gratuito. Mais ainda tinha feito o catolicismo; antes de J. B. de la Salle já os discípulos de Gerardo van Groote ensinavam às crianças pobres a ler, a escrever, a religião e algumas artes mecânicas. Dos Países Baixos, donde estes irmãos eram naturais, levaram no século XIV as luzes da sua caridade às duas margens do Reno, à Westphalia, à Saxônia, à Pomerania, à Prússia e à Silésia. Pelos mesmos tempos davam os conventos de religiosas às meninas do povo as professoras, que a reforma depois lhes havia de retirar... Lançara assim o catolicismo a pedra angular do ensino, tanto para os filhos do povo como para os dos letrados”.

Não estava nada em decadência a obra do ensino nos dois séculos seguintes. Anteriormente ao ano de 1789 achava-se, por exemplo, a França coberta de escolas destinadas à instrução do povo. Só Paris possuía quinhentas pelo menos. Havia escolas até nas pequenas aldeias, como o demonstra o artigo 25 do edito de 1615, que se expressa nestes termos: “os inspetores, os preceptores, os mestres e as professoras das pequenas aldeias serão aprovados pelos vigários das paróquias ou por outros eclesiásticos que o possam fazer”. “Os nossos últimos reis, escrevia em 1771 Guido Rousseau de Lacombe, advogado do Parlamento de Paris, reuniram nas suas ordenações as determinações dos seus predecessores e as dos concílios, e, achando as escolas estabelecidas por toda a parte, o que procuraram foi manter-lhes a disciplina nelas e torna-las mais freqüentadas”. “Cada paróquia, escrevia Daniel Jousse em 1709 possui ordinariamente duas escolas de caridade para crianças pobres, uma para meninos e outra para meninas”.

Num trabalho de pacientes indagações, feito por C. de Robillard de Beaurepaire, vemos que as 1159 paróquias da antiga diocese de Ruão, visitadas por mons. De Aubigné, contavam 835 escolas de meninos e 306 de meninas. Outros trabalhos análogos nos atestam igual solicitude da Igreja para as outras dioceses de França. “Antes da Revolução, diz Taine, eram inúmeras as pequenas escolas”.

M. Alain, na sua obra sobre a Instrução Primária antes da Revolução Francesa, termina o capítulo nono intitulado A Igreja e a instrução em França, com estas palavras: “Quem ler desapaixonadamente os extratos de nossas antigas ordenações sinodais, facilmente se convencerá, julgo eu, do zelo com que a Igreja de França trabalhou pela difusão do ensino primário, e da grande prudência que revela nos regulamentos que deu aos mestres e aos discípulos. São as compilações dos estatutos diocesanos dos dois últimos séculos um monumento imorredouro da sua dedicação pelos interesses da instrução e nos mostram até que ponto ela se preocupou desta importante obra, e quão judiciosas industrias ela soube para esse fim empregar. Os que ousassem dizer que, se alguma coisa se fez em França pela instrução, se fez independentemente da Igreja e contrariamente a ela, mostram ignorar por completo a sua legislação e os seus trabalhos”.

Estes serviços foram tão relevantes que nem a própria Revolução, no famoso preâmbulo à lei de 18 de agosto de 1792, duvidou proclamar que “os Irmãos das Escolas cristãs eram beneméritos da pátria”. Nem este insuspeito testemunho deve causar admiração, pois que, quando S. J. B. de la Salle morreu havia escolas dos Irmãos em quase todas as províncias de França; e é sabido que o seu ensino era gratuito. Chegaram mesmo a queixar-se da grande profusão delas. “Os nossos casais e aldeias estão cheias de escolas, diziam em 1773 os magistrados e os principais de Saint-Dié, e não há lugarejo que não tenha o seu gramático”. Não deviam ignorar isto os caluniadores da Igreja que ousam afirmar, sem darem prova nenhuma, ter a Igreja dominado por muitos séculos sem se importar nada com a instrução.

Não será fora de propósito dar aqui a conhecer o que pensava Voltaire acerca da instrução popular. Dentre as muitas máximas, com que sobre esta matéria se saiu este grande desprezador do povo, escolhamos apenas as seguintes: “O camponês não merece ser instruído. É mais que bastante para ele o saber manejar a enxada, a plaina ou a lima”. “O essencial é que haja pobretões ignorantes”. “Não é o operário que se há de instruir, mas sim o bom burguês”. Quanto ao povo “é necessário faze-lo carregar continuamente o jugo e fazer-lhe sentir a aguilhada”.

II. — O ensino superior e secundário

O ENSINO SUPERIOR. — É coisa sabida que todas as universidades, muito numerosas e florescentes durante a Idade Média, foram desde o XI e o XII século ou fundadas pela Igreja ou lhe pediam a confirmação e a proteção. É certo que também foram amparadas pelo favor dos reis, mas não é menos certo que elas se engrandeceram e prosperaram à sombra da Igreja romana. Um dos motivos que os papas aduzem nas suas bulas de ereção, é a obrigação que têm de dissipar as trevas da ignorância e de estimular o ensino de todas as ciências. Desde o século XIII ficaram-se ensinando nelas mesmo as línguas orientais; e em 1311 tornou o concílio universal de Viena este ensino obrigatório para todas as principais universidades. A primeira coleção para o estudo das ciências foi um papa, S. Pio V (1566-1572) que a mandou fazer, e já no século XIII havia no Vaticano um jardim botânico e médico.

É assim, enquanto estas universidades se governavam pelos estatutos dos papas, e deles tinham os seus poderes, se impunham à admiração do mundo pelos seus lentes insignes, tais como Santo Anselmo, S. Boaventura, Alexandre de Ales, Alberto o Grande, Duns Scoto e S. Tomás de Aquino.

A freqüência nas universidades estava em harmonia com a excelência do ensino nelas ministrado. Quando a Reforma protestante no século XV introduziu a perturbação na Europa católica, eram as universidades de Zwoll, de Bois de le Duc, de Colonia e Deventer freqüentadas, respectivamente por 800, 1200, 2000, 2200 estudantes. A universidade de Viena contava 3000 alunos e até 7000, no governo de Maximiliano I; e a de Paris, dizem, e a de Cracovia eram cursadas por 15000. Como era universal o uso da língua latina no ensino universitário, não havia nenhuma dificuldade em que a qualquer destas universidades afluíssem alunos das diferentes nações.

A universidade de Lovaina na Bélgica, fundada por Martinho V, no século XV, brilhou com o maior grau de esplendor. Recebiam nela instrução, como afirma Justo Lipsio, sete a oito mil alunos e dois mil estudantes de direito. A nenhum aluno pobre se vedava o curso universitário; porque a caridade católica se achava habilitada a prover a todas as suas precisões. Só nesta cidade havia para cima de quarenta casas destinadas a recolher e a fornecer o alimento a estudantes sem recursos, mas de bons costumes e inclinação para o estudo. Só a universidade de Paris, afirma Laurentie, contava seiscentos e dezenove pecúlios, instituídos pelo clero a favor dos estudantes pobres.

ENSINO MÉDIO. — Quanto aos colégios em que com a religião se ensinava principalmente a antigüidade clássica, havia-os até nas cidades mais somenos. Os magistrados é que geralmente lhes fiscalizavam a administração, mas o ensino era quase todo ministrado pelo clero, ao qual por outra parte se reconhecia direito incontestado de inspeção. Também era a caridade cristã que generosamente dotava estas numerosas instituições, e provia os pecúlios destinados aos estudantes pobres e abria bibliotecas públicas.

Seria um agravo o querer contrapor à ação benéfica da Igreja, o que em prol da instrução fez a Revolução Francesa, à qual certos escritores se comprazem em atribuir, ainda que falsamente, muitas coisas excelentes. Não podemos nós aqui estudar este ponto; mas foi feito, em relação às escolas primárias, por Victor Pierre, na Revista das Questões Históricas, abril de 1880. Limitemo-nos só a observar que a Revolução de 1793 começou por abolir todas as escolas primárias. E com que veio a substitui-las? Com belos decretos e nada mais; e tanto assim que não pôde o sábio Chaptal, ministro do Interior, deixar de confessar, em 1801, que: “A instrução pública em França quase não existe em parte alguma; a geração a entrar nos vinte anos está sem remédio condenada à ignorância; as escolas primárias em quase nenhuma parte existem”. “Em 1789 havia 47 homens por 100, e 26 meninas ou mulheres, que sabiam ler e podiam escrever ou pelo menos assinar o seu nome, afirma Taine. Nos últimos tempos do Diretório e mesmo nos primeiros do Consulado, o ensino era quase nulo em França; e cessou de fato oito ou nove anos depois”.

Ao mesmo tempo que acabaram com as escolas do povo, destruíram também os quinhentos e sessenta e dois colégios que existiam em França. “Antes de 1789, escreve Duruy na sua notável obra sobre a Instrução Pública e a Revolução, contavam-se em França 562 colégios com 72.747 alunos para uma população de 25 milhões de habitantes. Deste número uns 40.000 recebiam a instrução gratuita ou quase gratuita”. “Só o colégio de Luiz o Grande, diz Taine, tinha para isso 40.000 libras de renda. Hoje, segundo os documentos oficiais, há só 81 liceus e 325 colégios com 79.231 alunos para uma população de 38 milhões de habitantes; e só 4.949 são subsidiados por pecúlios mais ou menos importantes. Numa só província de França, o Franco-Condado, havia mais destes pecúlios do que hoje há em toda a França. Estes algarismos por si eloqüentes dispensam-nos de quaisquer comentários”. Por aqui se vê quanta razão tinha Miguel Chevalier, quando disse que, “com a revolução e a supressão das ordens religiosas, recuou-se extraordinariamente quanto ao ensino secundário”[14]. Taine dá os mesmos algarismos, e acrescenta que alguns anos depois de rebentar a Revolução, estava o número dos alunos reduzido apenas a 7 ou 8 mil; e que, além disso, de 7 alunos, 6, em lugar de irem procurar a cultura nos colégios, iam a aprender um ofício. Quanto às universidades, uma só, a de Strasburgo, pôde subsistir, em razão de ser protestante; as outras vinte e quatro foram suprimidas. Os bens e as rendas destes venerandos estabelecimentos foram, está claro, confiscados e o seu pessoal reduzido à miséria ou à apostasia. O império e os governos que se sucederam aplicaram-se a reparar os males causados pela Revolução, mas o seu trabalho limitava-se a acudir, bem ou mal, aos estragos acumulados pelo livre-pensadeirismo revolucionário. E hão de estes louváveis esforços dar a alguém o direito de injuriar a Igreja que durante o correr dos séculos tinha feito mais e melhor?

Concluamos pois, com Hurter: “Só os homens superficiais, que não estudaram os documentos e que ou estão cegos pela imaginada superioridade da sua época, ou são inspirados por seu ódio sistemático, é que ousam assacar à Igreja o ter fomentado a ignorância”.

III. — A Igreja e a paz social

Rematemos este capítulo, lançando os olhos sobre o estado da sociedade contemporânea. No regaço da abundância e de uma prosperidade material inaudita, num século ufano com as suas invenções e os seus progressos, desenvolvem-se os germens de descontentamento que ameaçam abalar a paz e até a existência da própria sociedade. Vozes, ao princípio isoladas, tornaram-se depois as vozes das turbas; e o murmúrio confuso tornou-se um ruído ensurdecedor. Chega-se mesmo a aceitar como um princípio a guerra entre as classes. As reivindicações que se propõem são nítidas e precisas: a sociedade acha-se viciada nos seus fundamentos, dizem: é necessário refaze-la pelas bases. A bem ou a mal a sociedade tem que constituir-se sobre este princípio fundamental: nem Deus, nem imperantes.

Ante estas ameaças e perigos que são realmente sérios, o que fez a Igreja, sempre inspirada pelo Espírito Santo? Prossegue o exercendo incessantemente a sua gloriosa missão da caridade por meio de seus filhos espalhados por todas as partes do mundo. Quem poderia contar as maravilhosas invenções da sua fé e do seu amor? As conferências de S. Vicente de Paulo, as congregações de S. Francisco de Régis, as Irmãzinhas dos Pobres, as Damas do Calvário, as Servas dos Pobres, os Esmoleres do trabalho e mil outras novas instituições vieram pôr à disposição do infortúnio as mãos, as bolsas, a inteligência e a generosidade de corações católicos. E quantas feridas morais e físicas não cicatrizaram! Quantas lágrimas não enxugaram, quantos desesperados não consolaram, e quantas amarguras não suavizaram!

Não bastava, porém, isto; porque a tempestade continuava rugidora e o pavor subsistia. Foi então que se fez ouvir a voz de um prisioneiro, de Leão XIII, já encanecido pelos anos e pelos trabalhos, e sua voz ecoou por toda a terra. Fez ele uma confissão dos coevos, dos agravos ao povo, aos operários. Perscrutando as almas dos proletários, viu nelas queixas e ambições, e formulou a seguinte norma para a regeneração social, baseada no Evangelho: “Quem recebeu da divina Bondade uma abundância maior ou dos bens exteriores e do corpo, ou de bens internos da alma, recebeu-os com o fim de os fazer servir ao seu próprio aperfeiçoamento e também para servir como ministro da Providência ao alívio dos outros”. Era um chamamento às almas generosas mas ao mesmo tempo era um sinal de alarma: “Ou dedicação ou morte”.

As Encíclicas Rerum Novarum de 1891 e de 1901, Graves de communi, que é um complemento e explicação daquela, marcam uma data na história. Deram princípio a um movimento social católico, o que é muito natural; mas o que é muito para admirar, como reconhecem homens estranhos à nossa religião santa, é que viessem abalar o mundo inteiro. E, se a Igreja tivesse universalmente sido escutada e obedecida, que irresistível impulso não teriam estes documentos papais dado à obra da pacificação social![15]

A Revolução Social iminente veio, entretanto, opor um obstáculo à Reforma social, a qual está ainda longe de ser uma realidade: a paz não se conclui, o ódio não desarma, e os perigos e males vão-se agravando. Mas, se a ação em prol do bem, para ser eficaz, tem que estender-se e generalizar-se e, se as verdadeiras dedicações têm que multiplicar-se mais, é pelo menos um ponto muito assente que elas só surgem numerosas entre os povos católicos e que os padres católicos são os principais mantenedores das obras sociais. Os próprios socialistas confessam que o grande, o único obstáculo sério aos seus desígnios é a Igreja Católica, com a sua fé e a sua caridade; é ela o único inimigo que temem, e por isso é contra ela que devem dirigir todos os seus esforços.

Pe. W. Devivier S. J., Curso de Apologética Cristã, cap. V,

Notas:

[1] Havia, contudo, em Roma ainda um terceiro elemento, a que segundo o falar jurídico chamavam os humildes, os pequenos, e que hoje chamamos povo. Como, porém, o trabalho forçado estava confiado quase só aos escravos, estes pobres plebeus, quase um quarto da população, não viviam do que ganhavam, mas do que lhes davam, e eram de peso ao Estado, aos imperadores e ricos.

[2] Não foram os escravos em todos os tempos tratados com a mesma crueldade. A desumanidade contra aquelas pobres criaturas manifestou-se, sobretudo, quando Roma em decadência começou a abismar-se no luxo e na devassidão. O direito absoluto dos senhores sobre os escravos devia dar naturalmente ocasião nos tempos de decadência a horrendos abusos.

[3] Nunca foi permitido igualar um homem a uma coisa ou arrogar-se um poder absoluto sobre a consciência e sobre a vida do seu próximo e tirar-lhe os sus direitos de esposo e de pai. E não era esta, note-se bem, a servidão sancionada pela lei de Moisés, como nem também a sorte do rendeiro e do servo, qual ela existia na Idade Média; pois não implicavam desacato algum à sua vida moral ou social.

[4] É mister distinguir duas espécies de alforrias, uma relativa às pessoas e outra relativa ao trabalho. A primeira relaciona-se com a ordem moral e a segunda com a ordem econômica e política. A primeira, estava, pode dizer-se, preparada ou quase preparada, pelo menos, antes da segunda metade do V século. Sob o influxo benefício da Igreja deixou o escravo de ser olhado como uma coisa; e foi recobrando um após outro, os direitos da sua personalidade. Na sociedade religiosa recuperou-os todos logo desde o começo da pregação evangélica; e na sociedade civil foi-os recuperando pouco a pouco, à medida que a legislação se ia influenciando pelo espírito do cristianismo.

[5] A fazer-se juízo só pela grandeza política e pela riqueza material, não seria fácil demonstrar que durante os longos períodos do Antigo Testamento, fosse Israel o povo de Deus, antes que os do Egito ou da Síria. E sem embargo, regendo-se os hebreus por uma especial providência de Deus, eram-lhes certas prosperidades terrestres prometidas como uma mercê especial, reservada aos fiéis adoradores do verdadeiro Deus. Onde, porém, se encontrará na Nova Aliança, no Cristianismo, uma sombra só de promessas deste gênero?

[6] Nunca, porém, o divino Salvador, a sua Igreja, deixou de, como vimos, empregar todos os meios para reabilitar e santificar o homem todo inteiro. E tanto não menospreza os bens materiais e o bem-estar da sociedade que antes os estimula, e abençoa as descobertas da ciência e as maravilhas da indústria. Mas nunca ela pode esquecer que o homem não veio à terra com o fim principal de lograr os bens dela; nem vai querer que a alma se vá sacrificar ao corpo. O decálogo e o sermão da montanha, que são o princípio de toda a civilização, ninguém os ensinou com mais eficiência do que a Igreja Católica.

“A experiência nos mostra, diz o eminente economista Le Play, que a acumulação de riquezas em mãos indignas, e uma aplicação demasiado exclusiva delas a interesses materiais, são causas certas de decadência. Mais se engrandece um povo aplicando-se a regrar os seus apetites e enfrear as suas paixões do que em aperfeiçoar a produção dos objetos necessários às suas precisões”.

[7] Vid. Flamérion. S. J. De la prospérité comparée des nations catholiques et des nations protestantes, Paris, 1899; Baudrillart, L’Eglise catholique, la Renaissance, le Protestantisme, Paris.

[8] A população da Bélgica, observa um escritor francês subiu, entre os anos de 1840 e 1900, de 4.337.000 a 6.744.000. O comércio deste país era em 1870, de 139.229:000 francos; em 1902, de 1.858.883:000; e em 1903, de 1.949.503:000, quase de dois bilhões de francos. As finanças anuais rematam com saldos que iam acima de 6, 9, 12, 17 milhões... Em nenhuma outra parte a vida pública se nos apresenta mais intensa, e em nenhuma outra se mantém mais suave a harmonia da liberdade com a autoridade. E, enfim, leva a Bélgica a dianteira na Europa pelas suas instituições sociais, como são as cooperativas, a mutualidade, os sindicatos, as pensões para os velhos e as casas operárias.

[9] Quiçá em nenhum país se veja mais palpavelmente a grande influência da religião em lhe robustecer e fazer prosperar a nacionalidade como em Portugal. Compare-se a sua história do século XVI ou a da pujante simbiose das duas sociedades civil e religiosa com a da separação (escravização) da Igreja no primeiro quartel do século XX: naquele subiu a um grau quase incrível de esplendor e poderio para um povo de pouco mais de três milhões de almas; e neste desceu o mais baixo a que parece se pode descer.

Um grande passo para a decadência de Portugal deu-o o Marquês de Pombal com a expulsão dos jesuítas das quatro partes do mundo; e tanto que chega um eminente escritor brasileiro a dizer, ter Portugal perdido mais com a expulsão dos jesuítas do que a própria derrota de Alcacer-Kebir.

Na introdução à interessante obra do protestante Cristovão von Murr, Geshichte der Jesuiten in Portugal, ou História dos Jesuítas em Portugal, durante o governo de Pombal, pergunta o P. Hafkmeyer (Rio Grande do Sul, 1909) referindo-se a esta mesma questão da decadência das nações latinas, se esta decadência se deu, quando nelas florescia a Igreja e nelas exercia livremente a sua benéfica ação, ou se foi, pelo contrário, quando ela viu manietada pelos grilhões de um duro regalismo, quando se expulsaram as ordens religiosas, quando deram entrada aos princípios do liberalismo?

A resposta com relação a Portugal, diz ele, está no presente livro agora reeditado. “Portugal grande, acrescenta ele, citando a Taine, com os seus santos e fortes laços de união à Igreja subiu, podemos afoitamente afirma-lo baseando-nos na história absolutamente fidedigna: mas desceu também grandemente este reino, logo que estes laços de gratidão, que o deveriam estreitar com a Santa Sé, se quebravam aleivosamente”.

[10] E quem nos poderá apontar, em qualquer das literaturas modernas, um tão extraordinário engenho e uma tão rara capacidade para resolver as mais intrincadas questões como a de um religioso jesuíta, Pe. Antonio Vieira? E quem há anos lembrou sequer seu nome em algum dos Congressos anti-escravistas? E, contudo, nunca os pobres escravos tiveram tão eloqüente defensor.

Referindo-se a este por muitos respeito assinalado e incomparável varão, afirmava, o Pe. Antonio Honorati, como eu mesmo ouvi, ter sido a maior inteligência, que, depois de S. João Crisóstomo, subiu à tribuna sagrada. (Nota do Tradutor).

[11] Acerca dos muitos e mui diversos benefícios prestados à sociedade pelas ordens religiosas, podem-se consultar Hettinger, t. V; o t. VI dos Moines d’Occident, de Montalembert; e para o desenvolvimento das ciências, abade Pirenne, De l’Eglise dans ses rapports avec le développement intellectuel, etc.

[12] Há, sem embargo uma ciência que Leão XIII rejeita: é a “Ciência que não enxerga mais que a matéria e a imagina eterna; a ciência que rebaixa o homem até ao nível dos brutos, e que pelas suas extravagâncias arruina os fundamentos da ordem moral, doméstica e civil”. Há também uma civilização que dele repudia: “Não é certamente aquela que aperfeiçoa o homem quanto à tríplice relação que apontamos, porque a esta dá a Igreja o seu mais eficaz concurso. Mas é a civilização que procurar arruinar o Cristianismo, e com ele destruir todo o bem com que ele nos veio enriquecer”.

[13] “Não vos acompanheis, dizia o próprio Rosseau, com os que, a pretexto de explicarem a natureza, vão semeando nos corações doutrinas contristadoras. Derrubando, arruinando, pisando aos pés tudo quanto os homens respeitam, tiram aos aflitos toda a esperança nas suas misérias, aos poderosos e ricos os únicos freios às suas paixões; arrancam do fundo dos corações os remorsos do crime, a esperança da virtude, e ainda por cima se ufanam de ser os benfeitores da humanidade. Nunca, dizem eles, a verdade fez mal aos homens. Eu creio como eles; e é esta para mim a grande prova de que eles não estão ensinando a verdade”.

[14] “O ensino do Estado, que o Jacobino apresentou para substituir os antigos estabelecimentos livres, não passou do papel. Instalou ou decretou uma escola central por cada departamento, oitenta e oito colégios para o território da antiga França; não podem substituir os oitocentos ou novecentos colégios tanto mais que estas escolas nem eram praticáveis, estavam arruinadas, mal arranjadas e desmobiladas... E por isso a maior parte dos cursos estavam desertos”. Taine, Les origines de la France contemporaine.

[15] Julgue-se o que teria acontecido pelo que se realizou num pequeno país, o qual não obstante não lhe ser inteiramente fiel, mas por ter um governo católico, publicou no espaço de 25 anos mais de 25 leis sociais. Eis como um estimado escritor se exprime, resumindo a ação deste governo católico da Bélgica: “Em virtude das leis posteriores a 1884 500.000 belgas foram dispensados da contribuição pessoal; quinze milhões de francos foram aplicados a pensões operárias e a mutualidades. Gasta o Estado cada ano 14 milhões para convenientemente remunerar os milicianos da classe trabalhadora, e sacrifica 13 milhões para ser reduzir o preço dos bilhetes a operários nas linhas férreas. O ensino profissional lhe custa mais de um milhão; três milhões são empregados em beneficiar a agricultura. Não falemos dos trabalhos públicos, em que se gastam centenas de milhões. Qual é o país que pode, proporcionalmente, apresentar iguais algarismos?

Talvez se queiram ver os resultados. Pode o governo belga ufanar-se, parece, em mostrar as suas minas subterrâneas, onde não trabalha uma só mulher; mais de 7000.000 milhões de francos, consignados em mais de dois milhões de cadernetas da caixa econômica; 500.000 a caixa dos inválidos; 6.000 sociedades de mutualistas; 25.000 alunos nas escolas ou cursos profissionais; mais de 30.000 casas adjudicadas a operários.

Quanto à agricultura os resultados são assombrosos. Que atividade se nota nos campos! As associações aqui prosperam sob todas as suas formas; a ciência agrícola em nenhuma parte está como lá espalhada. As terras belgas pareciam esgotadas; mas os aperfeiçoamentos nos métodos lhes deram uma nova fecundidade (as boas terras dão 25 a 30 hectolitros de trigo por hectare!) a abundância ressurgiu em regiões que pareciam abandonadas a uma irremediável crise”.

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