segunda-feira, 5 de outubro de 2009

TV: MODO DE DEFORMAR O CARÁTER E DESTRUIR A SOCIEDADE (parte II).


A TV educa?

Leia mais em http://www.ime.usp.br/~vwsetzer/tv-antieducativa.html#62 .
A tabela abaixo compara o que deveria o que deveria ser uma educação. Baseado no que foi exposto até aqui, pode-se comparar o que deveria ser uma educação ideal com o que faz a televisão. A tabela abaixo apresenta essa comparação suscintamente.

EDUCAÇÃO
TELEVISÃO [capítulos ou itens que abordam o assunto]
1.
Processo muito lento
Tudo rápido [2, 3, 5.3]
2.
Processo ativo e interativo
Produz passividade física e mental [2, 5.3]
3.
Desenvolvimento lento da individualidade
Massificação [2, 5.24]
4.
Desenvolvimento da cooperação
Induz mentalidade competitiva [4, 5.4, 5.18, 5.21]
5.
Desenvolvimento harmônico de todas capacidades e habilidades humanas
Não desenvolve nenhuma capacidade e habilidade [3]
6.
Desenvolvimento de sensibilidade social, compaixão e responsabilidade social
Isola socialmente, dessensibiliza os sentimentos, desenvolve atitudes anti-sociais [5.4, 5.21]
7.
Interesse pelo mundo e pela natureza
Interesse por um mundo virtual [4, 5.12, 5.13, 5.15]
8.
Formar indivíduos calmos, contemplativos, com capacidade de introspecção
Produz agitação interior, vício de receber uma avalanche de imagens [2, 4, 5.11]
9.
Formar pessoas sem medo infundado
Induz medo [5.5]
10.
Formar indivíduos com coragem para enfrentar as agruras da vida e buscar seus ideais
Prejudica a força de vontade e induz ideais sem substância [3, 5.5, 5.18, 5.19]
11.
Educar para uma alimentação sadia, e consumo de alimentos in natura (cozidos, quando isso for necessário ou útil)
Induz consumo exagerado de alimentos industrializados e sem valor nutritivo [5.18]
12.
Formar indivíduos com imaginação e criatividade
Prejudica a imaginação e a criatividade [3, 5.3, 5.10, 5.15]
13.
Desenvolvimento de amor à leitura
Prejudica a leitura [5.10]
14.
Educar para o consumo do que é necessário e de qualidade
Induz um consumismo inconsciente e desenfreado [5.18]
15.
Altamente contextual
Sem nenhum contexto em relação ao telespectador [6.1]
16.
Desenvolvimento da consciência e da autoconsciência
Abafa e prejudica a consciência [3]
17.
Dirigida para a consciência
Dirigida para o subconsciente e o inconsciente [3]
18.
Aquisição de conhecimentos teóricos (informação) e práticos (vivências)
Condicionamento (gravação no subconsciente e no inconsciente) [5.4, 5.18, 5.19]
19.
Desenvolvimento lento da liberdade e da independência de idéias e ações
Prejudica a liberdade e provoca dependência [5.4, 5.18, 5.19]
20.
Desenvolvimento gradual da capacidade de julgamento e de crítica
Prejudica o julgamento e a crítica conscientes [3, 5.18]]
21.
Incentivo à atividade fisica
Força inatividade física [3]
22.
Incentivo à vida familiar
Destrói a vida familiar [5.22]
23.
Desenvolvimento de admiração e veneração pelo mundo
Induz desrespeito pelo mundo, apresentado como uma caricatura (desenhos animados) [5.4]
24.
Respeito à maturidade da criança e do adolescente
Não respeita a maturidade [2, 5.24, 6.1]]
25.
Orientação para se evitar fumo e bebidas alcoólicas
Indução ao consumo de cigarros e de bebidas alcoólicas [5.2, 5.18]
26.
Resolução de conflitos por consenso pacífico
Resolução de conflitos por violência [4., 5.6, 5.9]
27.
Incentivo a uma vida com ritmo
Destrói os ritmos pessoais e familiares [5.23]
28.
Desenvolvimento de paciência e serenidade
Indução de impaciência, impulsividade e falta de auto-controle [5.25]
29
Desenvolvimento de positividade (procurar o lado bom das coisas)
Desenvolvimento de negatividade [5.25]
30.
Desenvolvimento de atitude objetiva e crítica frente às máquinas
Endeusamento das máquinas [5.26]
Esgotei nessa tabela todos os aspectos antieducativos da TV? Certamente não. Quem sabe os leitores poderiam ajudar-me a aumentar esta lista.
Examinando-se essa tabela, pode-se concluir que a TV transmitida (não estou aqui me referindo à reprodução de DVDs; ver 8.2 para um caso particular a esse respeito) não só não educa. Ela deseduca o que foi educado, e prejudica o desenvolvimento da educação. Assim , ela é claramente antieducativa, isto é, ela é contra a educação. Como eu tenho procurado mostrar, isso não depende dos programas transmitidos. O conteúdo antieducativo dos programas apenas piora a situação.
8. O que fazer com a TV
Neste artigo, não fico apenas na crítica. Já dei algumas indicações práticas de como a educação poderia ser completamente diferente do que é. Neste capítulo, vou me concentrar no problema da TV e dar algumas ideias do que poderia ser feito em relação a ela, tanto nos lares como nas escolas.
8.1 O que fazer com a TV no lar
Vou partir do pressuposto que o leitor concorda comigo que a TV traz muitíssimos mais prejuízos do que benefícios, principalmente para crianças e adolescentes, mas também para adultos. Levando em conta que a atração que a TV exerce sobre as pessoas é imensa, chegando a tornar-se um vício (ver a história das 25 famílias de Denver no item 5.17) tenho as seguintes recomendações.
a) O mais fácil é não ter. Com isso, corta-se o mal pela raiz, evitando-se problemas de controle de uso e a luta interior para resistir à tentação de vê-la. Isso é especialmente benéfico para as crianças, pois elas não conseguem entender por que alguns programas fazem mal, ou mesmo que ver TV é um mal em si, como procurei mostrar. O problema com elas ainda se agrava quando os pais assistem TV e dizem que elas não devem assisti-la.
b) Em alguns casos, alguém da família acha absolutamente necessário ter um aparelho, para assistir algo específico. Por exemplo, o pai adora ver futebol pela TV. (A propósito, não consigo compreender como alguém pode torcer para um time de futebol, conhecendo o comércio que existe por detrás desse jogo profissional; além disso, já que essa pessoa gosta de futebol, por que não vai jogar, para fazer algum exercício físico?) Ou, então, os pais adoram ver filmes em DVD – eu achei uma interessante aplicação para isso, assistir espetáculos de óperas; mas eu e minha esposa estamos tão acostumados a não ligar a TV, e temos tantas outras coisas para fazer, como estudar, ler, escrever e fazer nosso exercício físico diário, que não lembro no momento quando foi a última vez que assistimos uma ópera em DVD. Nesses casos, o aparelho de TV não pode estar disponível. O nosso é de 21" (ou 24"?), instalado num canto da estante do escritório, coberto com um paneau e ainda um quadro – eu acho o aspecto de uma TV horroroso; o vidro escuro não combina com nenhum móvel. Um dos piores lugares para instalá-la é a sala de estar, pois nesse caso qualquer pessoa, principalmente a criança e o adolescente, pode passar por lá e ter a tentação de ligá-la. Nesse caso, uma possibilidade é instalar um dispositivo com chave de tambor, talvez no meio do cabo de força do aparelho, desligando a TV. Antigamente eu recomendava que se guardasse a TV em um armário, tendo-se um bom trabalho para tirá-lo de lá para ver apenas os tais programas específicos, mas com as telas grandes isso em geral é inviável.
c) Não instalar um aparelho de TV na sala de comer. Essa questão já foi abordada no item 5.1, em relação a estatísticas e o excesso de peso. Vejamos outros aspectos. Qualquer pessoa vai concordar que uma refeição deveria sempre ser uma atividade tranquila, agradável e lenta, uma oportunidade para que a família ou parte dela se reúna, tendo uma conversa agradável, trocando impressões e experiências. Imagine-se o que acontece se a TV estiver ligada no recinto das refeições. Em primeiro lugar, não haverá mais conversa entre as pessoas, a não ser que não se preste atenção à imagem que o aparelho está transmitindo e se consiga ignorar o ruído do som (e tudo ficará gravado no inconsciente). Em segundo lugar, imaginem-se os problemas digestivos provocados pelas emoções fortes sendo transmitidas, como violência (cf. capítulo 4) e a tensão entre pessoas de filmes e novelas!
A hora da refeição deveria ser sagrada para a família, uma hora essencialmente familiar. A TV é uma verdadeira intrusa nesse ambiente.
d) Não instalar, de modo algum, um aparelho de TV no quarto das crianças. O relatório da Associação Americana de Pediatria sobre crianças, adolescentes e televisão recomenda explicitamente "Remover aparelhos de TV dos dormitórios das crianças." (AAP 2001.)
e) Não instalar TV a cabo, pois as tentações serão ainda maiores. Quem quer ter uma TV por que gosta de assistir DVDs, não precisa dos canais da TV a cabo, e a TV aberta é muito pouco atraente.
f) Refeições e ir deitar-se devem ser rituais (ver o item 5.23, onde descrevi como fazíamos com nossos filhos e minhas filhas fazem com nossos netos).
Um artigo de Ledingham, Ledingham e Richardson (1993) contém 12 recomendações aos pais em relação ao hábito de ver TV de seus filhos, principalmente levando em conta os prejuízos causados pelos programas violentos. Nenhuma das recomendações é de cortar a TV das crianças, não ter TV em casa ou usá-la apenas em ocasiões especiais. Vale a pena mencionar que eles citam um estudo de Williams e Hanford (1986), feito no Canadá, examinando o que ocorria com famílias vivendo em uma pequena cidade antes de a TV ser lá introduzida e depois. "As pessoas passaram a despender menos tempo falando, tendo contatos sociais fora de casa, fazendo tarefas caseiras, engajando-se em atividades de lazer como leitura, tricô, escrever, e envolvendo-se em atividades comunitárias e esportes, depois que a televisão ficou disponível. Elas até dormiram menos." E aposto que, apesar dessa constatação, continuaram a assistir TV. A atração exercida por esse aparelho e seus programas é infernal.
É muito interessante notar que, como esse artigo citado, em nenhuma das outras referências mencionadas aqui sobre problemas causados pela TV, os autores tem coragem de ir às últimas consequências, recomendando que se desligue a TV e ponto final. Esse é justamente o caso do relatório da AAP citado em (d) acima: "Limitar o tempo total de uso de TV (em programas de entretenimento) a não mais do que 1 a 2 horas de programas de [boa] qualidade por dia." (AAP 2001.) Como já escrevi no item 5.17, se limitar a 1 ou 2 horas é bom, eliminar completamente é muito melhor! Além disso, quero ver quantos pais escolhem para seus filhos "programas de [boa] qualidade". Aliás, eles são raríssimos, pois, como escrevi em 4, programas com conteúdo educacional seriam monótonos demais, fazendo o telespectador mudar de canal ou passar do estado normal de sonolência para o de sono profundo. Há muitos anos, o primeiro governo socialista da França, se não me engano de François Miterrand, tentou mudar a programação da TV (é possível que naquela época a TV francesa fosse só estatal) para que fosse exclusivamente cultural. Lembro-me que o jornal France Soir fez uma enquete, e a grande maioria dos telespectadores protestou. Uma senhora, entrevistada, afirmou algo como: "Para o inferno a cultura! Existem outros meios de divulgar a cultura. TV é para lazer!" Não, ela estava enganada: o lazer devia ser construtivo, e a TV é essencialmente destrutiva. Mas estava correta quanto ao fato de a TV não ser um veículo de cultura.
É comum ouvir-se o argumento de que restringir o uso da TV por crianças e adolescentes é introduzir a censura no lar. Acontece que não se deve confundir censura para adultos com censura para crianças e adolescentes. Esta sempre existiu e deverá existir. Por exemplo, se os pais reconhecerem comigo que revistas em quadrinhos são péssimas para crianças e adolescentes (pois apresentam sempre uma caricatura do mundo), elas não deveriam existir no lar – o que é uma censura.
g) Como a TV induz consumismo, os pais não deveriam comprar tudo o que os filhos pedem, como vimos no item 5.18. Pelo contrário, só deveriam comprar algo se necessário e, se for um presente, somente em ocasiões especiais.
6.2 A educação no lar
Baseado no que foi visto acima, pode-se concluir que a educação no lar deve seguir certas diretivas para que seja sadia e efetiva:
a) Respeito à idade e maturidade de cada criança. Nesse sentido, a Pedagogia Waldorf parece-me dar a conceituação mais profunda e abrangente no sentido de se saber o que é mais apropriado para cada idade. Minha filha mais velha foi com seus filhos ainda mais rigorosa nesse sentido do que nós; por exemplo, ela não deixava que segurássemos as mãozinhas de nossos netinhos para que eles se erguessem, dizendo que os nenês iriam fazê-lo sozinhos quando tivessem o impulso para isso, a coordenação motora e a musculatura suficientes. Ela estava absolutamente correta. O caso mais triste em relação a isso é usar o 'andador', em que a criança não tem no início nem capacidade para ficar sentada, quanto mais em pé, e acaba 'remando' com os pezinhos, em vez de andar. Não há nenhuma criança sadia que não aprendeu a andar, para que acelerar esse processo, forçando atitudes físicas impróprias para a maturidade? Já está provado que o uso do andador ode provocar distúrbios posteriormente. A propósito, nesse sentido, chamo o computador usado por crianças de 'andador mental'.
b) Incentivo à imaginação. Isso pode ser feito por meio de contar histórias, mostrar livros com figuras bonitas e artísticas, e brincando de fingir. Vou relatar aqui um caso pessoal. Minha netinha Luana quando tinha quase 4 anos, morou com seus pais um tempo conosco. Ela sempre sentava na mesma cadeira em nossa sala de jantar. Uma vez ela decidiu mudar de cadeira. Aí eu comecei a falar com a cadeira vazia, como se ela estivesse sentada lá, oferecendo comida, perguntando o que ela tinha feito, etc. A Luana divertia-se à bessa com esse fingimento, e quando eu parava ela dizia "De novo!".
c) Despertar amor aos livros. Para isso pode começar desde cerca de um ano de idade, mostrando-se às crianças livros com ilustrações artísticas. Contar histórias lendo de livros (contos de fadas dos irmãos Grimm são particularmente recomendáveis, mas o melhor seria contá-los sem ler), repetindo muitas vezes a mesma história. Quando a criança já aprendeu a ler, incentivá-la a ler, dando livros atraentes e adequados para a idade. A criança pode ler para os irmãos menores, e até para toda a família.
d) Falar muito com os filhos, principalmente até a puberdade.
e) Manter ritmos e rituais. Horários mais ou menos rígidos para comer e para dormir são essenciais para uma criança, talvez até uns 12 anos de idade. Dormir cedo, para aproveitar o melhor do sono noturno (cf. item 5.23). As férias deveriam ser de preferência sempre na mesma localidade.
f) Vida calma. Evitar todo tipo de agitação, como ir ao supermercado, sair com frequência de casa. Lembrar que o trânsito nas grandes cidades é sempre muito barulhento e nervoso. Evitar estímulos visuais e auditivos em demasia, como música de fundo, TV e video games.
g) Para crianças até uns 10-12 anos, criar um ambiente de religiosidade, respeito pelas pessoas, e veneração pela natureza. No apêndice, são dadas orações ecumênicas para as refeições e para a hora de dormir, inclusive com som de canções.
h) Quando as crianças já aprenderam a fazer contas, fazer com elas contas 'de cabeça', isto é, sem escrevê-las. Por exemplo, "2 mais 5" (a criança deve fazer essa conta mentalmente, sem dizer o resultado), "menos 3", "mais 8", etc. Ir fazendo contas mais complexas, com números maiores, à medida que a criança as aprenda, usando por exemplo multiplicações e divisões.
i) Depois dos 7 anos, se a escola infelizmente não a ensina, ensinar flauta doce (o instrumento mais fácil de ser aprendido). Levar a criança a concertos orquestrais, assim que ela puder ficar quietinha prestando atenção. Incentivar a criança a escolher um instrumento de orquestra para aprender; piano pode ser começado relativamente cedo; instrumentos de corda, ao redor dos 10 anos; os de sopro, aos 13, depois que os pulmões se desenvolveram (note que isso não se aplica à flauta doce, que exige muito pouco sopro).
j) Se a escola não tiver aulas de artes, fazer a criança frequentar essas aulas, mas escolher alguma escola de artes ou professora que saiba adequar a atividade artística à idade e use um método lúdico até os 10 anos. Incentivar a criança a pintar e desenhar em casa.
k) Não fazer cursos de esportes antes da puberdade. Natação e equitação são exceções, desde que sejam lúdicos e não competitivos.
l) Não sobrecarregar a criança no primeiro setênio com atividades. Deixar espaço e tempo para ela brincar sozinha, pois brincar é coisa extremamente séria para crianças. Brincadeiras infantis são universais, refletindo a universalidade da criança. A respeito da necessidade das brincadeiras infantis na escola, ver o excelente relatório da Alliance for Childhood de Miller e Allmond (2009).Leia mais! Fonte: http://www.ime.usp.br/~vwsetzer/tv-antieducativa.html#62

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