sexta-feira, 9 de outubro de 2009

S. Paulo da Cruz: missionário e sua metodologia (lições para os dias de hoje). Cortesia dos padres passionistas.













Mauro Odoríssio CP


O MISSIONÁRIO PAULO DA CRUZ
METODOLOGIA MISSIONÁRIA


Índice
Considerações iniciais
I - Dados incontestes
1.1-Paulo da Cruz, o apostolado pessoal e congregacionall
II - Antes de Paulo da Cruz
2.1-Itinerantes como o Verbo
2.2-Fonte bíblica da itinerância
2.3-Logo depois do início
2.4-Um salto na história
2.5-O Crucificado Ressuscitado
2.6-Meditação por Leitura
2.7-Um livro por outro
2.8-Quando eu for elevado
2.9-Celebrando os dados
2.10-Antecipando as conclusões
III - O missionário Paulo da Cruz e a missão passionista
3.1-O contexto histórico de Paulo
3.2-Paulo missionário, Congregação missionária
3.3-O específico no genérico
3.4-A Memória da Paixão
3.5-Agora, o específico
3.6-O específico congragacional
3.7-Paulo, o missionário
3.8-Paulo e o agir missionário
IV - Os recursos humanos na Missão
4.1-Pré-missão, Missão, Pós-missão
4.2-Usos, costumes, mudanças
4.3-A Palavra
4.4-Em função da Palavra
4.5-E os missionários?
V - E agora?
Bibliografia


Considerações iniciais

Quando nos foi solicitada a elaboração deste estudo, pareceu-nos que a empresa seria pouco demandante e facilmente exeqüível; em suma, de rápida elaboração. Todavia, o respeito para com os leitores, a importância e o significado do tema, e um pouquinho, o hábito que nos acompanha de longa data, exigiriam um mínimo de investigação. A partir daí, patenteou-se a riqueza e a complexidade da obra.
Todavia é importante deixar de antemão claro: não o abordamos unicamente como algo passado que mereça ser conhecido, como se fora uma peça de museu. Tivemos presente a possibilidade de ver na investigação, um mínimo de luz para um ministério válido e atualíssimo. Ministério que jamais poderá ser olvidado pelos e pelas passionistas. Ministério a ser atualizado, adaptado às novas realidades, aos novos desafios destes novos tempos.
O estudo não poderia ir além de um determinado número de páginas. Surgiu, então, um dilema: que e como fazer se, de um lado o tema exigia um mínimo de profundidade, e do outro, o objetivo proposto pela Coleção "Paixão pela Vida" é oferecer um trabalho ao serviço do grande público, e não uma investigação especializada, pormenorizada?
O estudo, mesmo limitado, levou a se considerarem as circunstâncias temporais, locais, assim como o fluxo ideológico, teológico, espiritual, social e pastoral, que precederam, e que afluíram em Paulo da Cruz. E não poderia ser diferente, pois o Santo nem caiu do céu, nem surgiu como geração espontânea. Ele é também fruto de uma história que precisa ser conhecida. Só assim emergirá, numa dimensão mais aproximativa, o porte gigantesco do Fundador e de sua obra que, lamentavelmente, não é devidamente conhecido pelo Povo de Deus e até mesmo por muito de seus filhos e de suas filhas espirituais, consagrados ou não
Elementos determinantes e circunstanciais, genéricos e específicos do missionário Paulo da Cruz, bem como de sua metodologia missionária foram emergindo, sendo conhecidos e avaliados no seu devido contexto vital. Evidenciou-se o grande Pregador bem como o pensamento que o animava, seu projeto de vida, seu posicionamento no mundo que vivia. A partir de então se torna mais ponderável a missionariedade paulocruciana, a metodologia que usou como missionário. Fica mais fácil compreender, ainda, como surgiram as missões passionistas.
A melhor compreensão do espírito e da visão do Fundador exigiu que buscássemos longe a fonte onde se abeberou. E ela é encontrável no projeto divino da Encarnação, a base de toda missão, de todo missionário. Como coroa de tudo se colocou o que era próprio do Fundador, de sua Congregação e, logicamente, da missão passionista. Fala-se do "fazer memória da Paixão" pois foi ela que transformou Paulo Francisco em Paulo da Cruz.
Concluindo: o Santo, inegavelmente, foi fruto de um tempo. Mas, marcado indelevelmente por especial carisma preencheu um espaço vazio na Igreja. Daqui surgiram o Missionário Paulo da Cruz e a Missão Passionista.
A investigação deu os seguintes passos: constatou-se que Paulo Danei nasceu por excelência, apóstolo ou missionário. Missionária surgiu a sua Congregação; e um dos meios escolhido para exercê-la, foram as Missões Populares.
Mas, que é ser missionário? Como surgiram as missões? Que é missão, que é ser missionário passionista? A resposta não poderia ser meramente histórica. São realidades teológicas que devem ser abordadas como tais. Assim, entramos na esfera da revelação e da história salvífica. Esta, porém, acontece no espaço humano. Então, ambos os aspectos foram abordados conjuntamente.
No mundo, concebido teologicamente como espaço da salvação, emergem pessoas, fatos, acontecimentos, ideias. Nesse fluxo constante surge Paulo Danei que se transformará no Missionário Paulo da Cruz; surge a Missão Passionista entre tantos outros missionários, entre tantas outras missões. Que os caracterizam? A pergunta pede uma resposta que não pode ser demasiadamente apressada. Essa resposta e saber como era a metodologia das Missões Passionisstas constituem o centro de nossas atenções.
Então, o estudo, em sua totalidade considera a missionariedade de Paulo da Cruz e da Congregação (I Parte). Estuda-se, a seguir, o período que os antecederam (II Parte). Na III Parte se fala mais especificamente do Fundador como missionário e da Missão Passionista. A partir daí se está em condições de tecer considerações sobre o desenvolvimento da Missão Passionista e sua metodologia (IV Parte).
Este estudo do passado não foi feito como mera investigação histórica, mas antes, teológica. O que foi, o que é, e o que será devem encontrar-se num grande presente, ao mesmo tempo imanente e transcendente. O missionário Paulo da Cruz e a Missão Passionista, deixam, assim, de ser peças de museu. Por isso, a parte final do trabalho é colocada nas mãos dos leitores.
Isso no leva, de imediato, à ideia da oliveira, tida como árvore perene. As folhas mudam, adaptam-se às estações. O tronco que sustenta e as alimenta permanece o mesmo. É a continuidade no fluxo inexorável. Haverá continuidade nas adaptações e adaptações na continuidade.
Esperamos que o trabalho, longe de onerar a bondade de nossos leitores, abra as portas para estudos posteriores mais amplos, mais aprofundados e de maior vulto.
Mauro Odoríssio CP


I - DADOS INCONTESTES

Abordar os temas "O missionário Paulo da Cruz" e "Metodologia Missionária" implica, inicialmente, interrogar se o Personagem central de nossos estudos foi por natureza ou circunstancialmente pregador de missões populares. Os dados históricos confirmam: ele realmente as pregou numerosíssimas e com grande êxito.
Entretanto, foi ele que se programou para ser um arauto do Senhor? Ou melhor falando, foi chamado a exercer tal apostolado? Esta última interrogação se justifica: o Santo foi quem foi, não por arte e sabedoria e, menos ainda, fruto de pura iniciativa humana. Ao contrário, é resposta a um chamado. E sendo vocação, a iniciativa é de quem chama. E Ele ama primeiro: 1Jo 4,10.
Paulo Francisco nasceu sabendo-se chamado ao apostolado. Comprovam-no as diversas atividades pastorais por ele exercidas. E assim o foi no decurso de sua caminhada até discernir claramente o que o Senhor esperava dele.
E a Congregação por ele fundada, também foi querida apostólica? Missionária? De antemão respondemos afirmativamente, evitando a distinção dicotonômica entre vida espiritual e vida apostólica.
Passemos, pois, a investigar a apostolicidade e a missionariedade de Paulo da Cruz e da Congregação.


1.1 - Paulo da Cruz, o apostolado pessoal e congregacional

Falar de Paulo da Cruz implica evocar necessariamente conotações que lhe são inseparáveis: fundador, místico, diretor de almas, apóstolo, e sobremaneira, exímio missionário. Tudo mereceria considerações aprofundadas. Inicialmente nos deteremos em sua apostolicidade, carisma e vocação por ele abraçados coerente e consequentemente. Mas nos limitaremos a uma única modalidade apostólica. Enfim, ninguém é chamado a exercer todas elas! Seu homônimo e padroeiro, o Apóstolo das Gentes, disse explicitamente não ter sido enviado para batizar, mas para evangelizar: 1Cor 1,17. E ajunta: através do Crucificado: Gl 6,14.
Desde a juventude o Santo dedicou-se à catequese de jovens e de adultos, e ao serviço dos associados na Confraria de S. Antônio da qual era “prior”. Jovem, era solicitado a pregar exercícios até para monjas. Contudo era-lhe claro: não fora chamado para "ficar no mundo". Mas até discernir-se claramente o que o Senhor queria dele houve uma caminhada. Acompanhando-a, fica mais fácil saber o que ele pensava de si mesmo, e como imaginava a Congregação que fundaria.
No conflito entre turcos e cristãos (1714-1715) alistou-se como cruzado, em parte querendo ser mártir, e por outra querendo difundir, ou ao menos, impor, pela força das armas, o Evangelho. Discerniu de imediato não ser aquele o caminho correto para que o nome do Senhor fosse acatado e amado. Deixou a cruzada. Todavia, esse espírito batalhador e aguerrido, tanto viveu como o legou à vida apostólica de sua Congregação.
Logo a seguir, em 1717, sentiu-se atraído para a vida penitente, solitária. Sabia-se chamado a deixar o mundo, mas as luzes não lhe eram ainda suficientemente claras e problemas familiares o impediam de partir.[1] Manteve para sempre, possivelmente a partir daí, o amor à solidão, querendo, igualmente, que sua Congregação fosse solitária. Todavia sem afetar a vida apostólica pessoal ou congregacional. Ao contrário, deveria ser fonte para a apostolicidade de ambos.
No período de maior discernimento, que ousamos chamar de caminhada abraâmica,[2] pensou na fundação dos Pobres de Jesus. O grande objetivo era difundir o temor de Deus nos corações das almas mais distantes.[3] Seriam uma plêiade de apóstolos. Sentia-se chamado ao apostolado. Em meio a tantas interrogações uma coisa lhe era clara: seria um missionário, como missionários deveriam ser seus companheiros.
Em 1720-1721 o bispo D. Gattinara, seu diretor espiritual, lhe dá a túnica de eremita. Com a aprovação e assistência episcopal, não apenas começa o longo retiro, como se dá ao trabalho de escrever as constituições dos Pobres de Jesus. Na ocasião o carisma passiológico não avassalava o seu coração. Tanto que no longo diário que escreveu, por solicitação do bispo, são poucas as referências à Paixão.[4]
Ante o fracasso no Vaticano, não sendo recebido pelo Papa para a aprovação das constituições que escrevera em Castellazzo para os Pobres de Jesus, Paulo Danei compreendeu que sua caminhada seria árdua. Na necessidade de adequar-se às prudentes exigências eclesiásticas devia discernir mais claramente a vontade divina. Foi precisamente nesse período que o carisma passiológico se evidenciou em seu coração. Essa iluminação celeste seria a fonte a abastecer a apostolicidade específica da Congregação, de cada um de seus membros, e do apostolado que exerceriam.
A partir de então, não teve mais dúvidas. Tinha ideia clara do que o Senhor dele queria.[5] Seu coração, sua vontade, sua mente estavam suficientemente iluminados e fortalecidos. Começava a ocupar seu lugar na Igreja.
É de se enfatizar que temos dois elementos preciosos em mãos e que jamais poderão ser esquecidos: o apostolado pessoal e congregacional, e a Paixão. E não somente devem ser constantemente lembrados, como também aprofundados.
Sintetizando, pois: Paulo Danei, desde jovem foi uma alma apostólica. Dedicou-se integralmente à catequese, à formação das pessoas. Sabia-se chamado por Deus, mas não para as coisas deste mundo. Seu período de discernimento foi longo. Antes de fundar a Congregação pensou, inicialmente, ser mártir, como cruzado. Depois em dedicar-se à vida de solidão como anacoreta. Enfim, reunir companheiros que pregassem o santo temor de Deus.
Mais tarde o céu se lhe fez mais claro e pôde nitidamente distinguir o chamamento do Senhor. Entrementes orava e trabalhava na vinha do Pai.
Uma vez fundada a Congregação a quis solitária e orante. Mas, como fruto da vida de intimidade com o Pai e de fraternidade entre os irmãos, ela deveria ser apostólica.[6] Estaria a serviço do Reino. E cada um de seus membros seria igualmente apóstolo. Apóstolo inflamado e impelido pelo amor que procede de Cristo e que a Cristo se direciona: 2Cor 5,14. Esse amor seria melhor conhecido na meditação e na contemplação do Crucificado.[7]
A colocação anterior não pode ficar comprometida pelo dualismo grego que marca o pensamento ocidental. É de se revestir de toda cautela ao se fazer a distinção entre ação e contemplação. Com razão se diz que o dualismo "vida ativa" e "vida contemplativa" é uma falsa alternativa, e que não existe vida espiritual autêntica se não por uma contemplação superabundante em ação.[8]
Mais tarde Paulo se revelaria um grande missionário, assim como missionários seriam seus filhos devotados. Como fundamento de tanto zelo é de se afirmar: o Fundador foi essencialmente apostólico, como quis apostólicos tanto a Congregação como os seus membros.[9]



II - ANTES DE PAULO DA CRUZ

Antes de o Verbo ser o missionário do Pai, ele assumiu a missão no seio da Trindade Santa. Era o único a poder executar o projeto divino: Ap 5,1-7. E o executou através de sua Morte e Ressurreição. Então, a missionariedade vem do céu. Cristo, independentemente de critérios cronológicos, é o primeiro missionário. Ele o foi antes dos tempos, a ponto de se tornar o Cordeiro imolado antes da constituição do mundo: Ap 13,8. Aos moldes dele foram plasmados os outros incontáveis missionários.
Entre tantos missionários do Verbo que se sucederam, através dos tempos, é de se dar especial destaque a Paulo Danei. Sim, porque entre ele e a Trindade há um precioso fio condutor que merece ser descoberto.
Como a primeira comunidade cristã, o Santo foi marcado pela experiência do Crucificado-Ressuscitado. Devia anunciar essa mensagem de vida plena: Jo 10,10. Mas, os pregadores itinerantes que o antecederam passavam por processos formativos que marcavam seu modo de ser, e consequentemente o de missionar. O ponto de partida, no início, era o texto sagrado (Leitura Orante da Bíblia). Posteriormente as Escrituras foram perdendo seu espaço, sendo substituídas, inicialmente por outros escritos. No final, o crucifixo passou a centralizar as atenções.
Paulo da Cruz, contudo, foi original em meio a tanta generalização.


2.1 - Itinerantes como o Verbo

Estudar Paulo da Cruz como missionário, o conceito que fazia da missão, e como era exercido esse ministério, não é tarefa apenas sociológica, histórica, cultural. Não é regressar a um tempo e a um lugar determinados e que envolvem algumas pessoas razoavelmente conhecidas. A questão é também teológica. Como tal exige um mergulho na eternidade. É necessário considerá-la sob a ótica da fé. Ele não foi simplesmente missionário, mas sim, vocacionado a sê-lo. Urge, então, penetrar no seio da Trindade, onde a vida, o amor e a comunhão se abrem ao mundo e ao ser humano que nele estava. E o Verbo se torna o grande missionário, o missionário por excelência: “Outrora, muitas vezes e de diversos modos falou Deus aos nossos pais pelos profetas. Ultimamente nos falou por seu Filho...”: Hb 1,1-2.
Missão e missionário o são, em sentido pleno, apenas em Cristo Jesus. É nele que encontrarão a própria razão de ser. Por sua vez o Divino Missionário envia em missão os que deverão dar continuidade à obra por ele iniciada: “Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio...”: Jo 20,21. O envio de agora é como o que aconteceu no seio da Trindade.
Jesus, o Missionário do Pai, exerceu suas atividades de modo singular. Procurava os que mais dele precisavam (Lc 5,31), acolhia, perdoava, anunciava. Não como os doutores da lei, pois pregava com autoridade: Mt 7,29. Enviando os seus, fez exigências que os caracterizariam: Mt 10,5ss.
O Mestre tinha inúmeros seguidores, pois muitas pessoas conviviam com ele ou o procuravam. Que as animava a tanto? Qual era o movente, o interesse? Estavam todas imbuídas do mesmo espírito? Responder estas interrogações não é mero academismo ou recreação cultural. É importante até mesmo para a melhor compreensão do estudo ora abordado.
Inicialmente havia a massa, a multidão informe, descaracterizada, a "óklos". Na verdade, nada queria com o Mestre, mas se interessava apenas com o pão que a empanturrava: Jo 6,22-27. Praticamente pouco dela se esperaria. Era mais um amontoado amorfo de egoístas que se ajuntavam, que se acotovelavam ao redor do Mestre, cada qual pensando em si mesmo, nos próprios interesses. E lá estava Jesus que poderia solucionar-lhes o problema. Depois, tomariam seus caminhos como os nove leprosos por ele curados: Lc 17,11-19
Além da massa (óklos), existia o povo, (laós), pessoas animadas por um espírito que os unia entre si e com o Mestre e sua causa. Tinham um ideal comum. Eram verdadeiramente mais próximos de Jesus. Faltava-lhes muito, eram imperfeitos, avançavam e retrocediam. Mas os corações estavam mais abertos, mais receptivos.
Do seio do povo emerge a ekklesia, a igreja, isto é, os seguidores mais conscientes, amalgamados, unidos e vivificados por Cristo, pelo Espírito Santo. Mesmo em suas limitações procuravam se identificar com o Mestre. Deste grupo pequenino, grupo grão de mostarda, insignificante mas carregado de esperança e de potencialidade (Mt 13,31ss), saem os discípulos (mathetés), os apóstolos, grupo sal, luz e fermento (Mt 5,13-16; Lc 13,21), os pastores (poimenes), isto é os que dedicavam ao serviço dos irmãos (Ef 4,11), os que davam continuidade à ação de Jesus.
Dentre estes florescem almas inflamadas que serão a semente dos itinerantes, dos missionários: Mt 28,18-20. Aqui é o lugar de se colocar Paulo da Cruz e seus filhos e filhas que, com ele e como ele, abraçaram uma missão original e única.
O melhor conhecimento desse mistério vocacional implica que voltemos no tempo e no espaço, sempre a partir do contexto bíblico, sempre a partir do contexto da história salvífica. Sim, é importante esse retorno, pois o mundo, sobremaneira com a Encarnação do Verbo, deixou de ser um espaço físico, tornando-se igualmente o palco da história da salvação. Nele se digladiam o bem e o mal, Deus e o príncipe das trevas.
Jesus, assumindo um corpo humano, assumiu igualmente a humanidade com seus problemas, com suas necessidades. Deixando esta terra transformou-a em espaço teológico, enviando seus discípulos para que dessem continuidade ao que iniciara. Os pregadores, então, se tornam os itinerantes que anunciam a boa nova trazida do céu, pelo Senhor.
E quantos irmãos, conscientemente ou não, aguardam a proclamação da mensagem da grande caminhada. Precisamente como os judeus aguardavam o anúncio do tempo de peregrinação a Jerusalém, ao templo de Javé: Oh! Que alegria quando me disseram: vamos subir à casa do Senhor (Sl 122 (121),1. Esses arautos eram tão ansiosamente aguardados pelos judeus piedosos que eles chegavam a proclamar formosos os pés dos anunciadores de tão esperadas alvíssaras: Is 52,7.
Mas continuam sendo poucos tais operários. E a messe se multiplica, se diversifica. Mais que nunca é de se concretizar a ordem do Mestre: "... A messe é grande, mas os operários são poucos. Pedi , pois ao Senhor da messe que envie operários para a sua messe.": Mt 9,37-38.
Paulo da Cruz foi um operário que se caracterizou pela sua doação, pela herança deixada, pelo espírito e modalidade de trabalho. Merece ser melhor conhecido.


2.2 - Fonte bíblica da itinerância

O ministério missionário do Verbo Encarnado, que lançaria luz suficiente para iluminar o dos seus discípulos, não se originou do nada. É possível descobrir uma fonte eloqüente nas atividades dos levitas itinerantes na teologia deuteronomista. Esses missionários judeus do Reino Norte, não vinculados a funções litúrgicas, se viam libertos para levar a mensagem aos que não freqüentavam os santuários: Dt 18,6-8. Iam espontaneamente ao lugar escolhido pelo Senhor. A eles os israelistas deveriam dar idêntica atenção e assistência, como faziam com os outros, com os que trabalhavam nos santuários, com os que estavam mais ligados ao serviço do altar.
A única herança que levavam era o Senhor: Dt 12,12. Portanto, comeriam do que lhes fosse oferecido: Dt 12,18-19. Freqüentemente são colocados entre os pobres e os desamparados. Era um desapossado entre os desapossados, entre os que nada tinham: Dt 14,27-29. O levita itinerante fazia causa comum com os deserdados, com os estrangeiros, com os órfãos e as viúvas, com os famintos.
O fiel israelita, cumpridor das preciosas mensagens deuteronômicas estava atento aos necessitados. A festa dos Tabernáculos, que evocava o tempo dos amores entre Javé e seu povo, em pleno deserto, seria uma ocasião especial para concretizar o preceito do atendimento aos mais pobres. Mais uma vez o levita - missionário itinerante - era colocado entre os que nada tinham, e que, não obstante, se punha a serviço da Palavra: Dt 16,14. Quem, em ação de graças ante Javé, se alegrara com a bênção da colheita, faria a oferenda do dízimo que na realidade pertencia aos necessitados, entre os quais é colocado o levita que estava entre os muros da cidade: Dt 26,11-13.
Tais pregadores itinerantes, logicamente não se restringiam ao serviço litúrgico ou cultual dos pequenos santuários existentes no Reino Norte, em Israel. Transformavam-se em arautos, não somente ensinando a lei de Deus, como atualizando-a para as diversas circunstâncias da vida. Catequizavam as pessoas que não tinham tanto acesso aos pequenos lugares sagrados de então, quer por causa das distâncias, quer por serem marginalizadas, ou pela condição social, ou ainda, por serem consideradas impuras, portanto, merecedoras da segregação. A melhor compreensão disto tudo exige que tenhamos presentes as leis e suas respectivas interpretações de Lv 11-16. Elas oneravam a vida religiosa dos judeus. Basta um único exemplo: o fato de alguém ter nascido pobre e cego era o suficiente para ser considerado pecador: Jo 9,1-2. Conseqüentemente, merecedor de ser relegado, de ser colocado de escanteio. Portanto, pessoa evitável.
Tais levitas eram também conselheiros. Levavam a todos palavras de conforto, de ânimo, de fidelidade, e de confiança no Deus misericordioso. O que os outros encontravam freqüentando os santuários locais, ou a eles indo, em peregrinação, não chegava aos pobres, aos doentes, aos estrangeiros. O acesso a esses lugares santos lhes era vedado, precisamente por serem “pecadores”. Então, os levitas itinerantes se tornavam os portadores do amor, da mensagem divina. Mostravam-lhes que eram amados por Javé. De certa maneira eram eles quem integravam ou lutavam pela integração dos excluídos, na vida social, religiosa.
Ao mesmo tempo se transformavam em benzedores. Por meio desses servos do Senhor, acreditavam, chegariam as bênçãos divinas das quais a população de todos os tempos, principalmente as pessoas mais sofridas, têm fome. Tornavam-se um bálsamo no meio da população mais sofrida, mais carente. Eram uma réstia de luz em meio a tanta escuridão.
Portanto, os judeus não estranharam quando viram Jesus, percorrendo vilas, aldeias, campos e cidades (Lc 8,1), acolhendo os excluídos, levando o bem e conforto aos sofridos, sendo o conforto de Deus no meio dos que eram como ovelhas sem pastor: Mt 9,36. Tiveram o exemplo dos levitas ambulantes que aproximadamente fizeram algo do que o Mestre fazia.
Assim também os cristãos, como o Senhor, e ao mandado dele, tornam-se pregadores itinerantes. Até mesmo os que foram dispersados pela perseguição levavam a semente do Evangelho por onde passavam. Foi assim que entre tantas comunidades surgiu a de Antioquia (At 11,1ss), precisamente a que mais tarde se tornaria o centro irradiador das viagens apostólicas de Paulo: At 13,1ss.
Desta maneira, quer enviados oficialmente pela Igreja, como foi o caso de Paulo e Barnabé, quer partindo aparentemente por iniciativa própria, todos se sentiam apóstolos, portanto, portadores de um especial mandato. Assim, no seio da Igreja, e como herança dos levitas, mas escolhidos carismaticamente pelo Senhor, foram surgindo pregadores que generalizadamente chamamos de itinerantes. Não se detinham necessariamente em atividades num determinado lugar. Não se comprometiam com serviços cúlticos, celebrativos, pastorais, no seio de uma específica comunidade. Iam à procura dos irmãos mais distantes, mais afastados da mesa da Palavra.
Os historiadores, porém, costumam datar o surgimento dos mendicantes como pregadores ambulantes só a partir do séc. XIII.[10] Não discordamos, mas preferimos ver a itinerância bem anterior ao surgimento da vida religiosa como tal.


2.3 - Logo depois do início

Todos têm uma relativa informação da missionariedade que animava os primeiros cristãos. Mateus não deixa por menos: coloca nos lábios do Senhor esse preceito para toda a Igreja: "ide, pois a todas as nações, pregai... batizai... ensinai...". E prometeu estar com os seus missionários até a consumação dos tempos: Mt 28,19-20. A Igreja nasceu missionária.
Atos dos Apóstolos concretiza, em cada página o mandamento do Senhor. Os discípulos receberiam a força do Espírito Santo que deles fariam testemunhas em Jerusalém, na Judéia e na Samaria, até a extremidade da terra: At 1,8. Autenticados pelo mandado do Mestre, fortalecidos pelo Divino Paráclito, eles partiam. Além disso, circunstâncias históricas fizeram muitos deles deixar a Palestina. Aonde iam, quer partindo voluntariamente, quer enviados pela comunidade ou por quem a representasse, quer coagidos por necessidades prementes, como fugir das perseguições, os discípulos de Cristo passaram a irradiar a mensagem de salvação. Chamemos esse tempo de era apostólica, pois muitos dos chamados diretamente ao apostolado pelo Mestre, ainda viviam.
Com o desaparecimento dos Doze, surge uma nova etapa na Igreja: o período patrístico. É a época dos primeiros pais, dos imediatos sucessores dos Apóstolos. Numa palavra, são os cristãos da segunda geração: sucederam os primeiros seguidores do Mestre, e antecederam as gerações posteriores dos discípulos de Jesus. É possível detectar a existência de missionários itinerantes, então.
Entre tantos documentos extra-neotestamentários emerge o Didaqué ou Doutrina dos Apóstolos. É, talvez, o documento mais vetusto, contemporâneo de textos sagrados, exarado, ao que tudo indica, na década 90-100. Não somente fala de missionários itinerantes, como dá critérios para distinguir os verdadeiros dos falsos.
Observou-se que o precioso manuscrito não fala em presbíteros, mas apenas em bispos e diáconos. Ao lado da jerarquia constituída sobressaíam os profetas.[11] Resistir à palavra, quando falavam inspirados, era resistir ao Espírito Santo. Mas é justo interrogar: quem eram esses profetas?
O texto deixa entrever claramente tratar-se ordinariamente de pregadores ambulantes, de mensageiros da palavra. Diz textualmente: "Se, portanto, alguém chegar a vós com instruções conformes com tudo aquilo que acima é dito, recebei-o." [12]
Pelo fato de não pertencerem à jerarquia, e serem assim mesmo tidos por fidedignos e merecedores de acolhida, e mais ainda, precisamente pelo fato de serem tidos como portadores da Palavra, é sinal de que eram pessoas carismáticas, impregnadas de zelo e ardor missionário, que as impeliam. Tratava-se, portanto, de um ministério pacificamente aceito e incorporado na vida eclesial.
Esse itinerante chega a ser chamado de apóstolo; porém, se a permanência na comunidade hospedeira chegar a três dias, deixará de ser considerado verdadeiro pregador ambulante. Será tido como falso profeta. Didaqué, não obstante a exigüidade de páginas, entra em detalhes que demonstram como eram numerosos e bem aceitos tais missionários. Evidencia-se que a itinerância estava incorporada nas primevas comunidades cristãs. Os Capítulos 11 a 13 confirmam o que se diz.
Apenas como exemplo e reforço: "Todo o apóstolo que vem a vós seja recebido como o Senhor. Mas ele não deverá ficar mais que um dia, ou, se necessário, mais outro. Se ele, porém, permanecer três dias é um falso profeta. Na sua partida, o apóstolo não leve nada, a não ser o pão necessário até a seguinte estação; se, porém, pedir dinheiro é falso profeta." [13]
Esses pregadores poderiam se estabelecer no seio da comunidade. A eles, uma vez nela integrados, era dado um especial tratamento. Seriam por elas mantidos e a eles era dado o direito de "bendizer", durante a ceia. Pergunta-se: era-lhes dada a possibilidade de presidir a Eucaristia?[14]
As comunidades apostólicas e patrísticas, ao que parece, receberam com a maior naturalidade tais pessoas que, mesmo não pertencendo à jerarquia, eram reconhecidas como eleitas, especialmente escolhidas pelo Senhor. É o caso de Silas e Barnabé, na comunidade de Jerusalém: At 15,22.32. Viam, assim, concretizadas as palavras do Senhor que prometera enviar profetas, sábios e doutores, não somente aos renitentes fariseus, mas a todos os missionados: Mt 23,34.
Pelas colocações até agora feitas descobre-se facilmente a origem e o desenvolvimento da atividade hoje conhecida como missão popular. Sendo uma vocação, é divina; logo tem sua origem em Deus. O primeiro missionário itinerante é o Verbo, quando na vida intra-trinitária aceitou executar o projeto salvador do Pai: Ap 5,1ss. Essa vocação e mandato, se concretizaram, ao mesmo tempo, na história, com a Encarnação.
No Verbo têm sentido os outros missionários populares. No Antigo Testamento são encontráveis os profetas, mas de modo especial, determinados grupos levíticos. O mesmo espírito, o mesmo movimento é comprovado no seio da Igreja. O antiquíssimo documento Didaqué é uma prova eloquente.
Pergunta-se, embora extemporaneamente, nesta altura da presente investigação: não seria este o espírito que animou Paulo da Cruz quando quis uma Congregação missionária e leiga?


2.4 - Um salto na história

A exigüidade de espaço e a especificidade da matéria não permitem detalhar a evolução e a consolidação dos pregadores ambulantes, dos missionários, na história da Igreja. É de se dar um salto aproximando-nos do Santo Fundador.
O cristianismo estabelecido na Europa, fruto de muito trabalho apostólico e de sangue derramado, sofreu o impacto da invasão dos bárbaros que exigiu novos esforços após a era patrística. O desafio era grande, pois urgia evangelizá-los, acolhê-los na Igreja. Além do mais havia o choque de culturas. Como seria o diálogo entre o paganismo permissivo e o cristianismo com suas exigências de heroicidade? Como uma cultura aceitaria as manifestações religiosas da outra? Os valores existentes nos diversos modos de ser e de pensar de cada uma delas seriam respeitados, assimilados? Evitar-se-ia a tentação de identificar o que era puramente cultural com o Evangelho que se anunciava?
Não faltaram pregadores que se dedicaram ao ingente trabalho de evangelização dos bárbaros. Entre erros e acertos foram novos modos de ser, novos modos de pensar e de pregar que, por sua vez transformaram-se em tradições e criaram raízes.
Essa experiência foi de grande valia na história da Igreja, pois no futuro surgiriam novos problemas a serem enfrentados. Na primeira linha estarão os missionários com muita bagagem e tarimba no ministério da Palavra.
Servindo-se das novas experiências adquiridas no ministério em favor dos bárbaros, e sensíveis à moção do Espírito Santo, foram surgindo, na Igreja de Deus, pessoas ou grupos que se colocavam ao serviço dos irmãos menos assistidos eclesiasticamente, ou por morarem distantes, ou por estarem em lugares inacessíveis, ou por falta de clero, ou mesmo, por falha da jerarquia. No século XIII surgem entre os religiosos de vida apostólica, pregadores itinerantes. Eram grupos bem estruturados que logo foram aceitos e acolhidos com simpatia pela população. A pobreza radical por eles vivida, a doação ao evangelho, faziam-nos apreciados pregadores. Uns eram clérigos, outros, leigos.
Muitas almas apostólicas se foram reunindo em ordens ou congregações religiosas, ou como clérigos regulares que se dedicavam de modo especial ao anúncio da Palavra. Estamos agora no século XVI. Esses grupos se especializam mais e mais nas missões populares, por sinal, bastante aceitas pelos bispos e pelo povo em geral, principalmente pelas pessoas mais humildes. Era um modo novo de servir o povo de Deus e de proclamar a Palavra. O século XVII os apresenta não só especializados, como muito dedicados a esse tipo de pregação.
É de se recordar que por séculos a fio a zona rural recebia pouca ou nenhuma assistência pastoral. A distância e as dificuldades de acesso lançavam-nas no esquecimento, quer pelo clero diocesano, quer pelo clero regular. Praticamente eram os missionários itinerantes quem se achegavam a essa população carente buscando-a nas regiões mais distantes, mais inacessíveis, mais inóspitas. Alcançavam-nas e as atingia no modo de ser, de pensar, de falar. Principalmente pelo testemunho.
Mesmo nas cidades o apostolado era deficiente. Aconteciam celebrações imponentes, grandiosas procissões, pregações mirabolantes, que pouco atingiam os corações. Não se podia falar em assistência pastoral profunda e eficaz. O espetáculo sobressaía nas celebrações, sufocando o mistério proposto pela liturgia. Ele podia encher os olhos com a apresentação marcadamente coreográfica, cênica. Porém as pessoas praticamente saíam como haviam entrado. A mensagem da Palavra raramente ocupava o devido espaço, a devida importância. Sufocada pela exterioridade, pela muita falação teatral e prosopopéia, deixava de produzir o esperado fruto. Com facilidade descambava, se transformando em peça oratória e exibição literária.
Dessa maneira, também a população urbana, a começar pelos mais simples e humildes, passou a acolher com carinho os missionários. Esses sabiam falar-lhes ao coração, testemunhavam o Evangelho com a vida pobre e humilde que levavam.
Ao nascer, o Fundador encontrou na Itália de seu tempo destacados missionários, como é o caso de S. Leonardo de Porto Maurício e outros. Encontrou ainda, ordens e congregações que se dedicavam intensamente às missões populares: franciscanos, capuchinhos, jesuítas, teatinos, barnabitas. Basta recordar que em seu tempo foi fundada por S. Afonso (1732), a primeira casa dos redentoristas. Esses pregadores não se dedicavam tanto à difusão do Evangelho entre os povos chamados pagãos ou entre os heréticos, mas ao afervoramento da piedade entorpecida ou pouco vivificada no seio da Igreja.[15]
Mas... que faziam, que anunciavam essas ordens, essas congregações, esses missionários? A resposta a esta pergunta a encontraremos percorrendo um longo caminho histórico, teológico. Nele descobriremos elementos para que se compreenda melhor a Congregação e o Fundador que tanto se doaram a tão santo ministério. E que o fizeram com características próprias. Não por quererem ser diferentes. Mas no cumprimento de um especial mandado.


2.5 - O Crucificado Ressuscitado

A experiência do Mistério Pascal transformou radicalmente a pequenina comunidade dos discípulos de Jesus. Antes, interesseiros, fracos, e com visão limitada, seguiam o Mestre sem ser verdadeira e completamente comunhão com ele e com sua mensagem. Estavam imbuídos por um messianismo nacionalista. Mas a experiência da cruz e a do Ressuscitado transformou aquelas pessoas rudes, mas sinceras.
A partir de então não anunciavam outra coisa a não ser que o Senhor fora predito pela Lei e pelos Profetas, que ele morrera na cruz, mas que ressuscitara e estava vivo entre os seus. Que todos se preparassem para o reencontro definitivo com ele. Este anúncio era o núcleo da pregação apostólica. Fiéis ao mandado do Senhor tudo faziam para dilatar o Reino de Deus. Repletos do Espírito Santo e por ele fortalecidos testemunhavam, a partir de Jerusalém até os confins do mundo (At 1,8), que o Crucificado-Ressuscitado era o portador de uma nova vida a ser vivida em plenitude.
A Palavra que anunciavam era antes refletida pessoal e comunitariamente, meditada, celebrada, orada e contemplada: At 13,1-3. Assim alimentados, só restava aos discípulos partilharem-na, como partilhavam o pão: At 2,42. A comunidade apostólica foi a fonte inspiradora e o modelo escolhido por Paulo da Cruz, ao fundar a Congregação.[16]
Essa comunidade ideal foi luz para inúmeras outras. Nas monacais, que delas mais se aproximavam, surge um modo de ser e de viver que durante séculos exerceria grande influência no clero e entre os leigos. De modo bastante sistematizado são enfatizadas as celebrações dos divinos mistérios. No início, entre os monges orientais, e a seguir, entre os ocidentais, o dia foi sendo organizado em horas fortes de oração, quer pela recitação coral dos Salmos, quer pela meditação da Palavra de Deus que os unia, os instruía, e os elevava.
Nesta tem lugar destacado a "Leitura Orante da Bíblia". O ponto de partida da “Lectio divina”, é a leitura atenta e reflexiva das páginas sagradas. O passo subsequente, a “meditatio” ou meditação. O contato com a Palavra de Deus pede e estimula a reflexão mais aprofundada. Este processo é tido como o início de uma caminhada, ou o subir os degraus de uma escada que leva a alturas inimagináveis. Nada planejado, muito menos estereotipado e fixo: é caminhar no Espírito, deixando-se por ele conduzir. A grande preocupação é sugar até a última gota o néctar que destila do texto sagrado. A leitura e a meditação se completavam na oração e na contemplação.[17]
Por longos séculos, ou mais precisamente, do V ao IX, a leitura da Escritura era o ponto de partida na oração monacal, método este, que de uma maneira ou de outra, atingia determinados círculos de cristãos. Recomendava-se insistentemente, sobremaneira aos monges que, de maneira alguma, estivessem onde estivessem, mesmo absorvidos por atividades avassalantes, jamais olvidassem ou omitissem a leitura sagrada. Sem ela, não haveria verdadeira oração.
A leitura como tal pode se transformar em estudo interessante, mas menos eficaz, uma espécie de recreação intelectual. Portanto sem maior objetividade, se não for seguida pela meditação. Esta, mais que uma reflexão identificável com a dos estudiosos ante um texto desafiador, é um sintonizar-se com a mensagem divina que chega de um plano superior. A leitura que poderia ser identificada com simples estudo como os demais, é elevada a um plano superior, ao da fé, pela meditação.
A oração, fruto natural da leitura divina, é abrir o próprio coração ao querer celestial que sempre é salvífico, benéfico às criaturas racionais. É a participação humana no diálogo proposto pelo Senhor. Mas a oração poderia ficar um tanto presa às categorias puramente racionais, numa visão demasiadamente horizontalista. É necesário um passo a frente, um passo para o alto. É necessária uma postura que envolva o ser humano como um todo. Este passo, ou este estar ante o Senhor, é a contemplação que o leva a estar no Senhor.
A contemplação é um ir achegando-se aos umbrais da comunhão com Deus. É, no dizer de Paulo da Cruz, um deixar-se consumir pelo amor nos braços do Amado. É um deixar-se possuir pelo divino, um “experienciar” o Senhor. Acontece, então a comunhão, acontece a união mística. É a gotinha de água, mais uma vez, recorrendo ao Fundador, que não apenas almeja correr em direção ao mar, mas lá chegando, sem perder sua identidade, mergulhar e se confundir com a imensidão das águas.
Portanto, os passos então dados lenta e aprofundadamente, eram: leitura, meditação, oração e contemplação. Isto implicaria a ação; o ponto alto do místico é o apostolado.
A literatura monacal, no passado, querendo explicar os passos sucessivos da verdadeira vida de oração, dizia que a leitura é um procurar, a meditação é um encontrar, a oração é um pedir, e a contemplação é o degustar. Ou então, a leitura é a preparação do alimento e levá-lo à boca; a meditação é o mastigar, transformando-o em bolo gástrico; a oração é o deglutir, sendo que a contemplação é o processo de assimilação e de comunhão.[18]
Quem assim se abeberava na fonte da água viva era conseqüentemente impulsionado ao serviço dos irmãos, a trabalhar em prol do Reino, à ação.
O que era vivido intensamente nas comunidades monacais se tornava um patrimônio eclesial. A vida contemplativa, vivida pelos monges, chegava aos leigos mais conscientes e atentos que se beneficiavam da experiência de tantas pessoas que, de modo mais radical, se doavam à vida de oração e de contemplação, partindo do texto sagrado.
Concluindo: a Leitura Orante da Bíblia, originária dos claustros, alimentou gerações durante séculos. Por meio dela legiões de orantes atingiram os mais elevados graus de perfeição.
Como suas luzes chegariam a Paulo da Cruz?


2.6 - Meditação por leitura

A Leitura Orante da Bíblia usada durante séculos comprovou sua eficácia plasmando corações e formando apóstolos. Enfim, todos os passos eram dados partindo da revelação. Deus era o ponto de partida, e conhecer a vontade divina era o objetivo último de quem dela se servia. Todavia, ela tem suas exigências. A base para tão santo e seguro crescimento era a leitura do texto sagrado que deveria ser iluminado por outras passagens escriturísticas. À luz da Palavra se meditava, orava, contemplava e agia.
Depois de séculos de vida espiritual-apostólica tendo as Escrituras como ponto de partida, começaram a soprar novos ventos. Nos séculos XI-XII elas passam a perder terreno. Uma inexplicável pressa para se chegar à meditação foi eliminando paulatinamente a leitura bíblica. Das Escrituras bastariam, pensava-se, a salmodia e os textos oferecidos pela liturgia diária.
O "quadripé" leitura, meditação, oração e contemplação, se transforma em "tripé", com a eliminação da primeira. É certo que com a eliminação da leitura, também a meditação tida como tal ficou comprometida. Até grandes santos, por incrível que pareça, pareciam manifestar certa fadiga, ao menos certo distanciamento das páginas sagradas. Para complicar mais ainda, meditação e oração vão se tornando sinônimo.[19]
O distanciamento foi paulatino. Inicialmente aconteceu com o Antigo Testamento. Com o passar do tempo, cada vez era menos usado, pois parecia muito distante, com "histórias" e preceitos superados pela Nova Aliança. Além disso, seriam pouco condizentes com a realidade que se vivia. Os Escritos no Novo Testamento pareciam bastar. A recitação dos Salmos no longos momentos passados na capela, isto é, na vida coral, compensaria o devido espaço reservado ao texto vétero-testamentário.
Porém, a salmodia não estaria mais chegando ao coração de boa parcela de monges. O ofício divino ia-se transformando em ato de observância a ser cumprido no seu devido momento. A salmodia, como se chegou a afirmar, impedia a meditação dos Salmos, pois eles eram cantados com a boca, sem que chegassem ao coração.[20] Talvez fosse uma reação ao pouco tempo atribuído a outras atividades comunitárias em favor das longas horas de canto coral. O equilíbrio beneditino entre o tempo para a prática da oração e para o trabalho, aceito em inúmeros mosteiros, foi perturbado por se dar importância apenas à vida coral.
Não é o caso de se falar em queda da vida espiritual, mas em afastamento de uma prática comprovada, por outra que pecava em sua base: não levar devidamente em conta a Palavra inspirada. Acreditava-se corrigir o exagero de se ocupar o tempo dedicado à oração pelo muito ler e estudar as Escrituras. E como se disse, todos estavam apressados em chegar logo à oração, como se essa dependesse mais do esforço e da iniciativa humanos.
Para preencher o vazio deixado pela "lectio divina" já um tanto desconsiderada, foram surgindo diversos e fervorosos tratados de meditação. A leitura desses livros espirituais parecia inflamar mais prontamente os corações monacais. Portanto, substituiriam, na compreensão de muitos, os textos bíblicos não suficientemente inflamados, para não se dizer, "inflamadores".
A meditação vai assumindo temas teológicos mais explícitos. Não se chegou a descobrir que também as passagens vétero-testamentárias, o são. Lenta, mas inexoravelmente, são incluídos muitos outros com fortes conotações antropológicas que caminhavam cada vez mais para aspectos morais e até moralizantes. São carregadas as tinturas assustadiças ao se falar da morte, do juízo, do inferno, da ira de Deus, quando não do próprio Deus. Essas ideias todas, sem dúvida bíblicas, eram tiradas diretamente das Escrituras. Surgiam de livros para meditação. Nestes, nem sempre a apresentação e a argumentação, o espírito, numa palavra, eram segundo o espírito do texto sagrado. A afirmação pode parecer estapafúrdia, mas contém uma grande verdade: não é pelo fato de o Demônio citar as Escrituras e até de se colocar em seu contexto (Mt 4,1-11), que ele estava animado pelo espírito bíblico.
É importante enfatizar: o que era então meditado e vivido nos conventos, por meio das pregações, de publicações e de direção espiritual, vai sendo passado para fora. O povo de Deus é influenciado por esse novo modo de pensar, de agir. Os pregadores itinerantes e os missionários populares disseminarão essas novidades todas nas comunidades por onde passam.
Estas considerações são importantes para a melhor compreensão das missões existentes no tempo de S. Paulo da Cruz. Mais importantes, ainda, para saber qual foi a postura do Santo ante o modo generalizado de ser missionário, de serem estruturadas as missões populares. Deixou-se ele influenciar pelo novo modo de pensar? Os missionários formados nessa escola teriam deixado marcas nas missões passionistas?
O não assumir, ao menos o não assumir na totalidade, indicaria um modo diferente de pensar próprio, uma postura ante o que era comumente aceito.
Uma resposta mais abalizada implica darmos continuidade às nossas investigações.


2.7 - Um Livro por outro

Falou-se que com a pressa de se chegar logo à meditação, o contato inicial com o texto sagrado da Leitura Orante da Bíblia, foi sendo lentamente omitido. No início foi preterido o Antigo Testamento. Mas lenta e inexoravelmente foi chegando a vez de o Novo ser também substituído, quando não, relegado. Já não se partia mais das Escrituras, na oração, mas da leitura de algum livro piedoso ou do episódio da vida de algum santo. E nem sempre tais livros tinham o devido equilíbrio, a devida iluminação bíblica.
Considerou-se, ainda, que os temas propostos para a meditação eram bíblicos nas suas formulações, mas nem sempre no espírito que os animava.[21] Até grandes servos de Deus, santos e santas venerados por gerações sucessivas, também foram dispensando as Escrituras. Entre outros pode ser citado S. Francisco de Assis que recomendava ser melhor nada ter a possuir o Saltério ou a Bíblia. Enfermo, interrogado se desejava ouvir a leitura de alguma passagem bíblica, dispensou-a, dizendo ao confrade, que já as tinha lido e meditado suficientemente.[22]
Cristo Jesus era bastante meditado, bastante celebrado em sua humanidade. Os mistérios que mais se faziam presentes na meditação e, conseqüentemente na pregação, eram o nascimento, bem como a Paixão e Morte do Senhor. Basta recordar que é dessa época a origem do presépio, bem como a veneração que ainda perdura.
Também as atitudes e os ensinamentos do Mestre eram meditados e pregados; todavia, dedicava-se maior atenção ao sofrimento e à morte de Jesus. Devoções anteriormente pouco consideradas ganham grande destaque, e vão surgindo outras, como a veneração à coroa de espinhos, aos cravos, à lança, à cruz, às chagas... Coroinhas ligadas à Paixão surgem e se multiplicam. Não faltavam exageros: detalhadas descrições e insistências sobre o peso da cruz, sobre a agudeza dos espinhos ou o tamanho dos cravos, sobre a gravidade dos agravos, das humilhações infligidas ao Mestre, etc. Tudo "fundamentado" em "revelações" ou "visões" que pululavam em muitos lugares e com piedosas pessoas. E que eram pacificamente aceitas.
Multiplicam-se outras devoções à Paixão, como Via Sacra, Relógio da Paixão, procissões penitenciais. Publicações sobre os sofrimentos e morte de Jesus, apresentadas das mais variadas maneiras encontravam leitores ávidos e garantidos. Eram encontráveis abundantemente, e logicamente muito veneradas, as mais estranhas e vetustas "relíquias" ligadas à Paixão: fragmentos do madeiro, cravos, espinhos...
Por meio dos pregadores itinerantes e dos inúmeros missionários populares, a nova vivência e reflexão conventual, celeremente atingiam até mesmo as populações mais distantes. Estes pregadores carregavam nas tintas e nas dramatizações, assim como nas práticas e nas procissões penitenciais. Encontravam ambiente propício e pessoas prontas, para não se dizer ávidas em ouvi-los. E é bom mais uma vez enfatizar: inconscientemente deslocava-se a graça da redenção advinha da maior intensidade do sofrimento de Jesus, vale dizer, quanto maior ela fosse, maior a graça. Com isso preteria-se o fundamental, isto é, sua obediência à vontade do Pai, que o levou a doar sua vida em oblação.[23] Oblação obediencial base amor oblativo. A Ressurreição, logicamente. Ficava relegada a um segundo plano.
Neste modo todo de pensar, era difícil descobrir a Paixão como a mais estupenda obra do amor divino, como ensinaria Paulo da Cruz. Ao contrário, o Crucificado parecia ter sido imolado para satisfazer e aplacar a ira do Pai. A oblação do Senhor deixava de ser a epifania, a revelação do amor divino, para ser um mero sacrifício satisfatório, aplacador, como se Deus fosse como os deuses pagãos.
É importante também repisar: pelo século XIII a leitura bíblica praticamente desaparece nos momentos fortes de oração. Nem sentiam tanta necessidade, pois ela “estaria escrita”, e de modo mais “legível”, nas inúmeras pinturas que adornavam as igrejas, assim como nas ilustrações que chegavam às mãos dos fiéis. Para agravar, o analfabetismo era grande, e então, a Bíblia, sobremaneira o Novo Testamento, eram “lidos” nas pinturas, na ilustrações, na meditação do mistérios apresentados por meio de muitas práticas religiosas, como a Via Sacra, o Rosário, o Relógio da Paixão, as diversas Coroinhas, etc. Livros com ilustrações da Sagrada Escritura eram conhecidos como a Bíblia dos pobres: Biblia pauperum. Da mesma maneira como o Rosário foi chamado de o Evangelho dos pobres, dos analfabetos.
Nestas alturas o Crucifixo é tido como o livro que substituía o Livro, a saber, a Escritura. S. Boaventura em seu escrito Vitis mystica faz Jesus dizer: “Leia-me, pois, eis que sou o livro da vida escrito por dentro e por fora, e depois de me haver lido, procure me compreender.”[24] O Santo cita Ap 5,1 que em si se refere ao projeto salvífico do Pai. Ninguém podia executá-lo, nem no céu, nem na terra, nem nas profundidades. Tanto que estava lacrado com sete selos (sete = abundância, perfeição), “super-lacrado”, portanto inviolável. Isto ocasionou uma consternação geral. Mas um anjo anunciou que o descendente de Davi, o Leão da tribo de Judá, teria condições de fazê-lo.
Portanto, a imagem usada pelo Autor do Apocalipse ao falar do projeto redentor do Pai, S. Boaventura aplica ao Crucifixo. Poder-se-ia compreender o sentido dado pelo Santo se a afirmação não se prestasse para dispensar a leitura da Palavra de Deus.
À guisa de curiosidade, e para demonstrar como a afirmação se generalizou, é útil recordar o que é sobejamente conhecido: também S. Paulo da Cruz se referia ao Crucifixo com as mesmas palavras do Doutor Seráfico.
Sem estudar no texto e no contexto o sentido dado pelo Fundador, apenas nos interessa abrir as portas para o que será investigado, a seguir. São luzes necessárias para a melhor compreensão do tema que estudamos.


2.8 - Quando eu for elevado...

A quase ausência do contato direto com o texto sagrado fez com que surgissem muitas Histórias Sagradas ou Vidas de Cristo. Estas, mais difundidas e aceitas. As pregações se detinham nas obras e nos ensinamentos do Mestre, reservando o período natalício para se considerar o mistério da Encarnação e do Nascimento. A Paixão e Morte do Senhor eram o centro das atenções durante o ano todo, e não apenas no período quaresmal.
A Morte e a Ressurreição de Cristo, sempre consideradas como um mistério único (Rm 4,25), após Ambrosiaster, passaram a ser encaradas separadamente pela patrologia latina. Aquela era tida na categoria do merecimento, enquanto que esta, na da credibilidade. Resumindo: a redenção teria acontecido pelo sofrimento e pela morte do Senhor. Daqui a ênfase dada à intensidade dos sofrimentos de Jesus.[25] Ou então, a redenção viria da Paixão, enquanto que a Ressurreição apenas fudamentaria a fé. Naquela aconteceria a redenção objetiva; nesta, a subjetiva.[26]
A partir de então, nas clebrações, nas pregações, nas práticas devocionais e ascéticas, passou-se a enfatizar o aspecto mais dramático da Paixão. Nisto se destacavam os missionários que mais impactavam a multidão atônita, para levá-la "à conversão".
Em Jo 12,32 o Mestre diz que quando fosse elevado atrairia todos a si. É bem conhecida a mensagem rica e ampla contida nesse versículo. A epifanicidade da Paixão, precisamente "a mais estupenda obra do amor divino", no dizer apurado do Fundador, descambou no "dolorismo".
Publicações traziam centenas de meditações sobre os sofrimentos de Jesus, às quais se ajuntavam outras sobre Nossa Senhora das Dores. Obviamente, nada de mal nisso. Mas é de se reconhecer que o conjunto é no mínimo empobrecedor, para não dizer, equivocado, por considerar o sofrimento do Mestre como causa única do merecimento redentor.
É neste ambiente que Paulo da Cruz exercerá seu ministério missionário. Assimilará o conteúdo das missões de então? Adotará a metodologia então vigente? Como reagirá? São interrogações que merecem resposta para melhor ser avaliado.
Mas informações de outras realidades se impõem para que o ajuizemos de maneira mais cabal e corretamente.
Em várias regiões da Europa os anos 1348-1350 foram dolorosamente marcados por muitas vidas ceifadas pela tremenda peste negra. Os conventos não foram poupados, sendo que muitos deles ficaram praticamente vazios. Após esse período doloroso a seleção vocacional deixou de ser mais criteriosa e severa. Isto trouxe um certo relaxamento na vida religiosa, quer nos conventos e nos claustros, quer no clero diocesano. Como efeito ou consequência, se iniciou um movimento de reforma, ao menos nas ordens ou congregações mais observantes. É nesse momento que surge, ou como remédio, ou concomitantemente, a oração metódica.
Tornaram-se célebres os almejados estados purgativo, iluminativo, e unitivo, pelos quais se devia passar constantemente, na oração. Não de uma vez para sempre, mas iterativamente, ascendentemente. O objetivo último era a comunhão sempre crescente com Deus. A etapa purgativa envolvia mais a consciência; a iluminativa, a inteligência. A unitiva, a sabedoria, à qual se podia ajuntar o afeto.[27] Surgia um modo novo de orar.
A leitura da Sagrada Escritura é reassumida, e a vida do Senhor é profundamente meditada. Sobremaneira a devoção à Paixão alcança renovado vigor. Os manuais de meditação sobre o sofrimento e a morte de Jesus se multiplicam. Os célebres questionamentos metodológicos de meditação passiológica “Quem sofre? Por quem sofre? Quanto sofre? De que forma sofre? Por que sofre? Como sofre? Que sofre? Para que sofre?”, passaram a alimentar as pregações e a vida de oração através dos séculos.
Da Leitura Orante da Bíblia aconteceu uma evolução que não pode ser ignorada. Inicialmente se buscava conhecer, nas Escrituras lidas integralmente, a vontade salvadora do Pai, operada por Cristo. Com a ênfase dada pelas “Vida de Cristo”, as atenções se voltaram mais para os Evangelhos. Meditava-se profundamente cada passo da existência do Senhor, a começar pelo mistério da Encarnação até a Morte do Redentor. Com destaque, como se viu, à Paixão do Senhor.
Agora, com a oração metódica, se reflete como Jesus, o único caminho para o Pai, culmina sua missão e sua atividade salvadora na cruz que abraçou. Por ela manifestou eloqüente e radicalmente a obediência que sempre abraçou: Hb 10,5-10. Então, a Lectio Divina viu a Bíblia ser substituída pelo Evangelho, quando da meditação da Vida de Cristo. Agora, na plenitude da Oração Metódica ou Devoção Moderna, é o Crucifixo que substituirá tanto as Escrituras como o Evangelho. Basta-me o Crucifixo, dirão muitas almas de Deus.
Entre tantas almas de Deus que se serviram e enriqueceram a chamada devoção moderna estão S. Boaventura, S. Tomás de Aquino. É de suma importância colocar entre eles, Taulero, o grande místico dominicano que dispensa comentário, e que se tornou uma fonte na qual S. Paulo da Cruz bebia avidamente. É impossível falar das missões pregadas pelo Fundador, sem falar da Oração Metódica, que de uma maneira ou de outra, chegou a ele, sobremaneira por quem ele considerava ser um de seus mestres, o grande místico Taulero.


2.9 - Coletando os dados

Refletimos nas páginas anteriores que Jesus enviou seus discípulos como missionários. Deixou-lhes recomendações claras para que se servissem do testemunho pessoal, e principalmente da eficácia da Palavra. Evitariam a imponência na apresentação, seriam simples e humildes entre os demais simples e humildes. Seriam meros servidores da mesma Palavra, seriam servidores dos irmãos, seriam portadores da paz, fautores do bem: Lc 10,1-9.[28]
Essa visão do Mestre encontrava certa fundamentação no modo de ser dos levitas que seriam desapossados entre os demais desapossados. Desprendidos dos bens terrenos, não tendo herança, a não ser o Senhor, seriam mais sensíveis para com os que viviam da mesma maneira. Seriam servos de todos, mas de modo especial dos mais necessitados. No fundo, os discípulos de Jesus seriam como ele também enviados, e também como ele, seriam igualmente pobres para enriquecer os demais com a própria pobreza.[29]
Surgem, assim, na Igreja, almas inflamadas que percorriam vilas, lugarejos e cidades, a todos anunciando o Reino de Deus. São os pregadores itinerantes.[30] Podemos imaginar: inúmeros eram impelidos pelo amor de Cristo: 2Cor 5,14. O Amor que dele vem é a ele devotado. Partiam como Paulo e Barnabé, segregados pelo Espírito Santo, para levar a mensagem salvadora: At 13,1ss. Mas possivelmente não faltariam os que assim se arvoravam, levando mais confusão que auxílio ao rebanho em si tão carente. Sob a orientação da Igreja vão surgindo normas para missionários regulares. Desta maneira despontam os pregadores das missões populares.[31]
Contemporaneamente ao surgimento e à evolução dos pregadores itinerantes, que lentamente se juntarão para formar ordens e congregações missionárias, aparecem os conventos e os mosteiros que se tornam celeiros fecundos de vida e reflexão espiritual. Assim, a Leitura Orante da Bíblia era religiosa e profundamente seguida. O ponto de partida para se chegar à contemplação, e como consequência lógica ao apostolado, era a lectio divina, a leitura do texto sagrado. Esta prática, por sinal ainda muito acatada nos tempos atuais, não ficava encerrada entre os muros conventuais. De um modo ou de outro, chegava ao clero, em geral, e aos leigos mais dedicados às práticas religiosas.[32]
A leitura do Antigo Testamento foi aos poucos sendo substituída pela do Novo. Meditava-se a Vida do Senhor. A oração ou as considerações não eram tiradas, não se originavam diretamente do texto sagrado, mas de inúmeras publicações que foram surgindo, numerosíssimas. Para todos os gostos, com as mais variadas profundidade e fidelidade. As meditações praticamente chegavam facilitadas, prontas para o consumo. Mas não é de se negar: empobrecidas, quando não comprometidas. Inconscientemente se tornava uma iniciativa puramente humana.[33]
A isto se somava a pressa de chegar logo à oração que atropelava ou dispensava o texto bíblico. A Devoção Moderna ou Oração Metódica, com as etapas purgativa, iluminativa e unitiva, parecia responder bem a essas necessidades. Resumindo: há um paulatino afastamento das Escrituras.[34]
Os livros sobre a vida do Senhor se detinham e insistiam mais na Paixão e na Morte de Jesus, o que é compreensível. Ofereciam mais temas para meditações, e atendiam aos sentimentos não somente dos religiosos, mas também da população que mais e mais se identificava com os sofrimentos do Mestre. Tudo facilitava as pregações dramáticas, as lágrimas, o surgimento de devoções ao Crucificado, bem como outras a ele atinentes: cruz, chagas, coroa de espinhos, via-sacra... Os sofrimentos de Jesus eram de tal maneira fragmentalizados, detalhados a ponto de se pormenorizar a veneração e a devoção a cada ferimento, e a meditação e o culto a cada uma delas.
As chagas de cada membro, a do ombro direito, a aberta pela lança, por mais dignas de veneração que eram, no fundo levava os devotos não só ao dolorismo, mas ao que era mais grave: perder de vista o aspecto epifânico do holocausto do Senhor, perder de vista a mensagem central da Paixão.
Nessa altura e em tal ambiente, para a grande maioria, o Crucifixo passa praticamente a substituir as páginas do Evangelho.
A Paixão passou a ocupar um lugar preponderante, nas missões. Ela facilitava os missionários a tocar os corações mais empedernidos. Mas também a alimentar determinadas encenações e práticas penitencias que nem sempre significavam verdadeira conversão. Era comum a ênfase externa sem ir a fundo na mensagem do Pai por meio do Crucificado
As pregações sobre os novíssimos, sobre a vida sacramental, sobre o pecado, sobre os deveres cristãos e a superação do ódio tinham lugar destacado. A tudo isso se ajuntava algum aprofundamento catequético, orientação minuciosa sobre a confissão, etc. Mas, ao se deixar a Leitura Orante da Bíblia, como acontecia na vida de oração, caía-se num certo afastamento das Escrituras. Os manuais e os diversos livros devocionais, em grande parte ocupavam o lugar devido à Palavra de Deus.
Em poucas palavras é este o contexto espiritual e pastoral encontrado por S. Paulo da Cruz, sobremaneira nas missões populares. Como reagirá a tudo isso? Seu posicionamento propiciará penetrar no coração do Santo e melhor conhecê-lo como missionário e como queria a missão passionista.


2.10 - Antecipando as conclusões

Antes de abordar mais especificamente Paulo da Cruz como missionário e a Missão Passionista, para facilitar os leitores, convém acenar panoramicamente o que será tratado a segir.
A primeira grande observação a ser feita é que ele tinha tudo para seguir a linha, o estilo, para não dizer, a teologia, e conseqüentemente, a pastoral de seus contemporâneos. Nasceu e cresceu como grande devoto da Paixão. Em primeiro lugar é de se destacar a ação educadora da mãe Ana Maria. Era ela quem colocava nas mãos infantis do pequeno Paulo Francisco o crucifixo, fazendo, logicamente, suas piedosas considerações maternas.
Crescendo, respirou a devoção à Paixão de Jesus, que a tudo e todos impregnava. Como se considerou, tudo girava ao redor do drama do Calvário. Desde o século XII cada vez mais crescia e se difundia essa devoção. Com o arrefecimento da Leitura Orante da Bíblia, o crucifixo vai tomando o lugar da Palavra inspirada. As pregações, as celebrações, as devoções, eram marcadamente passiológicas. E diga-se, não sem exageros crescentes, mesmo evitando generalização.
Afetivo como era, normal seria a adaptação aos melodramas que aconteciam ao se celebrar os mistérios da Paixão. Era o que o povo esperava, do que gostava; era o que provocava lágrimas. Então, era o que mais se oferecia. Era o que juntava multidões ao menos aparentemente contrita e piedosa.
Precisamente nesse ambiente, que poderia ser considerado avassalador e envolvente, o Santo reage e tem uma atitude única, marcante. Sem deixar a devoção à Paixão, ele opta decididamente por "fazer Memória da Paixão". Elas não se excluem, mas estão longe de se identificarem. Esta, por sinal, é mais rica e mais completa que aquela. Fazer memória é "presentizar" Javé libertador, no Egito, e Cristo, redentor e santificador no Calvário para que atualizem nos dias atuais o que operaram no passado. Sempre, até a redenção plena.
O intrigante é identificar onde Paulo da Cruz foi buscar com a visão profunda que teve, ideia evidentemente bíblica, mas que passou desapercebida durante gerações, até pelos estudiosos. Tendo penetrado no segredo dessa última recomendação de Cristo (Lc 22,19), é compreensível como não sobrevalorizasse a exterioridade que acontecia entre tantos missionários de seu tempo que se detinham longa, ou quase que exclusivamente, na exterioridade da Paixão.
Manifestos são o equilíbrio e a visão completa do Santo Fundador que nunca deixou a Sagrada Escritura, mesmo quando todos os demais a haviam substituído pelo crucifixo. Ambos eram para ele as fontes onde buscava a sabedoria que supera a sabedoria humana. Jesus Crucificado lhe era o livro escrito por dentro e por fora; a Bíblia, porém, continuava sendo o Livro das luzes.
Tendo a Escritura e a Memória da Paixão como bandeiras encarou, os demais recursos pastorais e pedagógicos, válidos, mas devidamente relativizados. Assim, sendo de práticas penitenciais desde sua infância, não as abandonou, mas deixou de supervalorizá-la, como aconteceu nos primeiros tempos. Continuou penitente em sua vida pessoal e também como missionário. Jamais desvalorizou a ascese. Contudo, sabia que os apelos divinos vêm da Palavra que deve ser ouvida e acatada. E que cabia a ele, à sua Congregação, e às Missões Passionistas, darem continuidade à redenção operada por Cristo, por meio da Memória. Enfim, a solução de todos os males está, como bem diagnosticou, em fazer memória da Paixão de Jesus.
Paulo da Cruz não foi um estranho em seu tempo. Não se fechou ao que acontecia, não o ignorou. Mas não se enquadrou a ele como se fora desprovido de senso crítico. Deu seu contributo, deixou sua marca, preencheu um vazio que existia na Igreja. Concretizou a recomendação feita por Cristo pouco antes de deixar esta terra.



III - PAULO, O MISSIONÁRIO E A MISSÃO PASSIONISTA

É impossível não viver valores ou contra-valores quando se está inserido num determinado contexto vital. Mas é dos menos expressivos quem passa pela história sem deixar seu contributo, as marcas de suas pegadas.
Assim, Paulo da Cruz não foi uma "mônada sem janelas", incomunicável, tendo que viver uma espécie de harmonia preestabelecida para não ser dissonância, como dizia Leibnitiz. Não viveu isolado, alheio a tudo o que acontecia. Não se omitiu quando lhe coube deixar seu posicionamento crítico. Ao contrário, ele soube tomar posição entre valores e contra-valores. Assimilou uns, lutou contra os outros. Criou, preencheu vazios.
Preenchendo vazios, lutando pelo bem, batalhando contra o mal, ele deixou as marcas de sua passagem pela história. São pegadas originais, profundas, significativas. Viveu uma época dificílima; detectou a fonte dos problemas e deixou a receita e o remédio para curar os males que avassalam a humanidade. A Memória da Paixão encontrou seu lugar na Igreja, e uma Família a assumiu como bandeira de luta. E o preceito deixado pelo Senhor, pouco antes de morrer, encontrou quem o acolhesse em vaso preciosíssimo.
Todas estas afirmações merecem um mínimo de considerações.


3.1 - O contexto histórico de Paulo

S. Paulo da Cruz viveu 81 anos fecundos e que deixaram marcas na história. Contudo, mais da metade dessa longa e laboriosa existência foi realmente borrascosa. As guerras se sucediam como que programadas, cronometradas. Pareciam ser sazonais, como muitas do Antigo Testamento: 2Sm 11,1.
O Santo nasceu em 1694, no Norte da Itália. Os anos que antecederam e os subsequentes ao seu nascimento, foram conturbados, sangrentos, belicosos. A região se transformou em palco onde franceses, espanhóis, austríacos, alemães, e italianos, se digladiavam, levando sofrimento e morte à população indefesa; Carlos II da Espanha, além de doente e fraco, por não conseguir ter herdeiros, nomeou, então, Filipe d´Anjou que o sucederia com o nome de Filipe V. Seu tio, Luís XIV da França, praticamente anexaria a Espanha ao seu reino. Isto não foi do agrado de Leopoldo I, da Áustria, que, como cunhado de Carlos II, se considerava com direitos sucessórios.
As pretensões expansionistas da França trariam instabilidade à Europa, contrariando a paz de Westfalia (1648) que propunha o equilíbrio entre as nações europeias. A Holanda e a Inglaterra se sentiram ameaçadas em seus comércios, quer na Europa, quer na América. O atrito entre as duas dinastias, assim como interesses comerciais, fizeram com que reis e príncipes europeus, signatários da Liga de Augusburgo, incluindo o Papa Inocêncio II, se levantassem contra Luís XIV da França, entre 1686-1697. Os franceses devastaram a região onde nasceu e viveu o Fundador, incluindo as cidades de Castellazzo e Alexandria. Lucas e Ana Maria Danei, pais do recém-nascido Paulo Francisco, foram da legião de prófugos e desabrigados que tentavam sobreviver em clima desesperador.
Quando, em novembro de 1700, Filipe d´Anjou subiu ao trono espanhol com o nome de Filipe V, eclodiu a guerra da sucessão espanhola que durou até 1714. Leopoldo I da Áustria, cunhado do falecido Carlos II, também tinha suas pretensões ao trono espanhol. Nesses 14 anos a região do Fundador foi novamente arrasada pelas tropas belicosas que lá se encontravam.[35]
Os tempos eram realmente conturbados e de insegurança total: em 1714 uma guerra cede lugar a outra. O turcos estão para tomar Veneza. A Europa cristã se sente ameaçada. Clemente XI convoca uma cruzada. O jovem Paulo Francisco atende ao apelo. Com ele, milhares de jovens se tornam cruzados. Com a paz assinada em Passarowitz, em 1718, terminou o estado de beligerância. [36]
Diz a antiga e aparentemente ingênua fábula que quando os touros brigam, as rãs sofrem as consequências. Dinastias lutam pelo poder e o povo humilde, mesmo distante e de tudo ignaro, arca com o sofrimento. Com a morte de Augusto II da Polônia, surgem dois pretendentes: Augusto III e Estanislau Leszczynski. Este último era apoiado pela França e Espanha, e aquele, pela Áustria e Russia. A guerra, que mais uma vez atinge a Itália, dura de 1733-1738. Espanhóis e austríacos lutam ferozmente para apossarem-se da região do Monte Argentário. Paulo, em pleno fogo cruzado, destemida e apostolicamente atende os feridos, independentemente da cor da bandeira.[37]
De 1740-1748, novos movimentos de tropas agitam a região por causa da sucessão austríaca. O Monte Argentário, berço da jovem Congregação, era a base militar donde partiam tropas e navios de guera em direção ao sul.
Essas sucessivas crises políticas e militares deixaram marcas profundas na sociedade, pois as guerras jamais vêm sozinhas. Os campos ficam abandonados, a fome prolifera, a subnutrição abre as portas para epidemias, pestes, mortalidade, principalmente a infantil. Mais uma vez o lar de Lucas e de Ana Maria pode servir de exemplo: de quinze crianças que nele nasceram, apenas seis atingiram a idade adulta.
A isto tudo é de se somar a queda na moralidade. Proliferam o egoismo, a descrença, o descompromisso com as coisas mais sérias. Os valores morais são questionados. Os interesses escusos e imediatistas encontram, então, campo fértil. Também nos conventos a vida religiosa sente os golpes dos desmandos humanos. As pessoas, abrutalhadas e descrentes, perdem a visão do transcendental. Até mesmo os sentimentos mais fundamentais, como o respeito pelo outro, a solidariedade humana, o sentido da vida ficam diminuídos.
Essas épocas clamam por almas de visão ampla e generosa, pessoas com liderança que levem luzes e critérios à população tresmalhada. As pessoas se transformam em massa e ficam como um rebanho em desordenada debandada. Como ovelhas desgarradas e sem pastor se tornam presas fáceis das feras vorazes. É nessa ocasião que o Senhor suscita líderes, ou melhor falando, profetas.
Para uma época tão difícil e sofrida, surgiu Paulo da Cruz com a Congregação que fundara. Tinha alguma coisa a dizer? Que disse no contexto que viveu? Que é transitório do que disse e fez? Seria mensagem apenas para uma época, para uma cultura? Que é definitivo? Que acolheu? Que deixou de lado? Que alterou? Que criou?
Como estas, tantas outras interrogações poderiam ser levantadas. Mas tendo presentes algumas considerações já feitas, é de se continuar o processo de investigação, pois há muitas interrogações a serem levantadas e inúmeras respostas a serem dadas. Tudo para o melhor conhecimento de Paulo da Cruz e das missões que legou aos pósteros.


3.2 - Paulo missionário, Congregação missionária

Paulo Francisco teve muitas interrogações em seu longo período de discernimento. Mesmo experiente das coisas de Deus, e precisamente por isso, rezava, insistia, procurava, batia, atento aos sinais do céu. Quem sabe, um tanto afoitamente, mas de acordo com seu zelo, se engaja na cruzada. Pensava, ser assim, o esperado soldado de Cristo: 2Tm 2,3. Imaginou discernir, no apelo papal, o chamado divino para o algo extraordinário que o céu queria dele.
Não passou de um rebate falso; e ele o descobriu perante o Santíssimo, em Crema. Logo depois de dar baixa sentiu, como que uma voz interior, a chamá-lo para a vida de anacoreta. Viver em solidão, entregar-se à vida de oração. Mais outro equívoco?
Os meandros divinos, algum tempo depois, se revelam ser verdadeiramente estradas reais de luz. Ao nosso ver, nas tentativas de discernir o caminho a seguir, o jovem Paulo Francisco apenas radicalizava o parcial, tomava a parte pelo todo. Na verdade coletava elementos constitutivos e imprescindíveis para uma obra que ele mesmo afirmaria ser de Deus.[38] Em outras palavras: ele, e a Congregação que fundaria, seriam inflamados pelo ardor de cruzado, e impregnados pela introspecção reflexiva e meditativa do eremita entregue às coisas do Senhor.
Antes de descobrir o caminho definitivo chegou a dar passos concretos ao fundar os Pobres de Jesus, cuja finalidade seria difundir nos corações o santo temor a Deus.[39] Dessa experiência lhe sobraria a missionariedade que legaria à Congregação da Paixão. Compreenderia, depois, concretizando 1Jo 4,18, que o amor perfeito lança fora o temor. Esse amor seria abeberado na Paixão que seria o centro de seu ser, de seu agir e de seu pensar. E que anunciaria apaixonadamente aos irmãos
O processo evolutivo do pensamento paulocruciano, longo e demorado, desaguou, ou se cristalizou na "grande maravilha de Deus",[40]: a Congregação da Paixão.
Concluindo: uma coisa lhe era certa: sabia-se chamado e enviado para a vida apostólica.[41] E sabia, igualmente, que sua Congregação, como ele, também seria apostólica.
Entre outros apostolados, a missão popular (como desejou ser missionário na Inglaterra!) lhe estava no coração. Basta dizer que pregou cerca de 200.[42] Doente e avançado em anos, solicitado pelo Papa, não pode furtar-se de pregar uma, em Roma, o verdadeiro canto de cisne do grande Arauto do Senhor. Todos queriam vê-lo, transformado pelo ardor de sua santidade e de seu entusiasmo, pregando do alto do tablado, como costumava
A Congregação que fundou nasceu missionária como missionário era seu coração. Bento XIV foi explícito na aprovação das Constituições de 1741: ela deveria especificamente dedicar-se às missões. Algo semelhante aconteceu quando da nova aprovação em 1746. Ajunta-se que tal atividade dever-se-ia dar nas ilhas, nos lugares insalubres, nos lugares afastados e abandonados. Esse apostolado seria por ele chamado de fim secundário, mas primário, também, da Congregação.[43] Ou mais precisamente, afirma que é dela formar pessoas de oração, mas completamente voltados ao apostolado.[44]
Não alimentava a menor dúvida a respeito: seus religiosos deveriam viver profundamente a vida de oração, de penitência e de jejum, na solidão, capacitando-se melhor para a vida apostólica. Nisto imitariam os apóstolos que, depois das atividades, eram chamados por Jesus, para a vida recolhida, no deserto. Um único operário, dizia ele, assim formado, produziria frutos mais abundantes que mil outros, desprovidos da vida de recolhimento.[45]
O afastamento do mundo proposto pelo Fundador se inspira em Jesus que, com os seus, procurava o “deserto”, em meio às atividades apostólicas. Tomamos a liberdade de insistir no sentido profundo da palavra deserto, como lugar ou espaço teológico de encontro com o Pai, mas também de encontro com o demônio, lugar de luta e de se retemperar o coração.[46] Para o Fundador, a necessária solidão não é intimismo. Não é mera fruição espiritual. Não é ascese individualista e alienada. O atleta de Cristo deve retemperar as forças, estabelecer estratégias e buscar luzes para as lutas futuras.
O Santo, antes mesmo de ser ordenado, dera-se ao trabalho apostólico de missionário. Pensou fundar uma Congregação leiga, isto é, sem clérigos. Todavia, convenceram-no a abraçar a vida clerical para poder, canonicamente, desempenhar tão santo ministério. E o desempenhava de tal maneira que foi distinguido com o privilégio de missionário apostólico.[47]
Tanto zelo e tão sublime exemplo só poderiam formar uma plêiade de almas igualmente ardentes. Com ele, inúmeros co-irmãos se dedicaram de corpo e alma a esse tipo de serviço ao povo de Deus: as missões populares.
Mas que as caracteriza entre outras missões, entre outras congregações? Responder a esta questão é distinguí-las entre as demais, é conhecê-las melhor, é ainda penetrar no mais profundo do coração paulocruciano.


3.3 - O específico no genérico

Os tempos vividos por Paulo da Cruz foram fecundos em missionários populares. É verdade que não poucos deles transformavam os púlpitos em passarela de vaidade. A Palavra não chegava aos corações insensíveis dos ouvintes, porque de um lado podiam estar o chão pedregoso, os espinheiros, as aves vorazes: Mt 13,1ss. Mas doutro, e isto não era menos grave, estavam os pregadores mais interessados nas bolsas, nas túnicas, nos calçados (Mt 10,9-10; Lc 10,4): eram os recursos frívolos que enchiam os olhos dos ouvintes, mas que não tocavam os corações que permaneciam frívolos, duros e fechados.
Como tantos missionários conscientes das reais necessidades pelas quais passava o povo de Deus, o Santo sensibilizou-se pelos mais humildes e abandonados. Por isso, um dos campos prediletos da sua ação missionária foi a insalubre e abandonada Marema. Nela, além da malária, campeavam a injustiça, a miséria, a exploração e a violência. Também seus missionários deveriam privilegiar as ilhas, os lugarejos esquecidos, afastados, e desassistidos. A língua e a pregação deviam se adaptar às populações carentes.
Nas missões dedicava especial atenção aos mais necessitados entre os carentes: os encarcerados, os doentes, os trabalhadores sazonais, sem eira nem beira, jogados de um lado para o outro, segundo as necessidades agrícolas. Nem os bandos armados que infestavam matas e montanhas eram excluídos.
Mas não diríamos que isso caracterizava o Santo, a Congregação, assim como as Missões Passionistas. Tantos outros pregadores e grupos seguiam, mais ou menos, a mesma linha. O que chamamos de específico no genérico é ter optado pela Paixão de Cristo. Todavia, é de se evitar um possível equívo: o de nivelar ou de identificar memória da Paixão e devoção à Paixão.
Paulo herdou o que chamamos de substituição de um Livro pelo outro. Com o declínio da Leitura Orante da Bíblia, o contato com a Escritura foi cedendo lugar a livros piedosos. Para muitos, na oração, e a seguir, na pregação, não era mais necessário o texto inspirado (o Livro), bastando o crucifixo. Era a troca do "Livro" pelo "livro".[48]
O Fundador, em primeiro lugar, dirá que o crucifixo, ou mais precisamente, o Crucificado, será seu livro escrito por dentro e por fora.[49] Isto, sem dispensar as Escrituras de que conhecia grandes trechos de cor. Não as abandonava jamais, sendo que para ele, era o Livro dos livros, o Livro das luzes.[50] Diferentemente do usual em seu tempo, ele jamais se afastou das Escrituras. Para ele o crucifixo e as Escrituras eram seus dois grandes livros, é certo; todavia dava a devida precedência e a merecida primazia ao texto inspirado.
Não se pode afirmar que nos tempos vividos por Paulo da Cruz, a Paixão fosse olvidada. Ao contrário, como foi dito, chegou-se ao exagero de se substituir a Bíblia pelo crucifixo. As dramatizações sobre o sofrimento de Cristo eram muito usadas e aceitas, a ponto de se chegar ao paroxismo, como se verá. Não obstante, ele insistia que a causa de todos os males estava no esquecimento da Paixão, enquanto que na sua memória, a solução de todos eles.
Os tempos por ele vividos foram realmente difíceis. Como exemplo basta citar as guerras que se sucediam deixando as inevitáveis marcas das quais a família Danei sorveu o amargo cálice.[51] Isto não obstante a intensa devoção à Paixão, então difundida. Ele mesmo a bebeu juntamente com o leite materno, no regaço da piedosa mãe Ana Maria. Quantas vezes seus prantos de criança cessavam quando a mãe, dando-lhe o crucifixo, falava-lhe dos sofrimentos do bom Jesus.
Contudo, a aparente contradição revela a visão profunda do Santo: era-lhe absolutamente clara a distinção entre "Memória da Paixão" e "Devoção à Paixão". Nisso ele é absolutamente original; e a distinção que faz é mais profunda, mais consequente, e mais transcendente do que se pode imaginar.
O tema merece alguma consideração. Aliás, mereceria muita consideração, muito aprofundamento que a limitação deste trabalho nos impede de fazer.
Merece alguma consideração porque, sabendo Jesus que tinha chegado "sua Hora", sentou-se à mesa, precisamente para celebrar a grande memória dos judeus, a ceia pascal: Jo 13,1. Foi uma ceia ardentemente desejada, diferentemente das que tomara anteriormente com os seus. Era a ceia de "sua Hora", a ceia que fazia parte do Mistério Pascal, Morte e Ressurreição de Jesus. Desejou comê-la ardentemente: Lc 22,15. E foi nessa ocasião que deixou o preceito de fazer Memória: 1Cor 11,25-26.
Merece alguma consideração por ser o objetivo da Congregação que o Santo fundou. Muito lutou para que o voto específico feito pelos passionistas não fosse tanto propagar a devoção à Paixão, como queria a comissão cardinalícia ao aprovar as Constituições, e sim, "Fazer Memória".
Merece alguma consideração por fazer da Congregação (e logicamente as missões que prega), diferente das demais.
Merece alguma consideração, porque "Fazer Memória" era o movente do coração paulocruciano. Ser carente dessa visão é deixar de penetrar o mais profundo do coração de Paulo da Cruz.


3.4 - A Memória da Paixão

Diferentemente de seus contemporâneos, Paulo da Cruz distinguia claramente a "Memória da Paixão" da "Devoção à Paixão". Era assíduo leitor e estudioso das Escrituras, a ponto de saber de cor os Salmos, e grande parte dos escritos paulinos. Então, não ignorava 1Cor 11,24-25 que insiste em "fazer memória".
Mas não seria de esperar que o Fundador chegasse a compreender, a valorizar tanto o conceito, distinguindo-a claramente de "devoção" pois se trata de um modo característico e original do pensamento judeu. Isto praticamente não era dado conhecer nem mesmo aos estudiosos de seu tempo. Em que fonte bebeu ele tal conhecimento?
É sabido que seus estudos teológicos não foram sistematicamente aprofundados, pois, ao que tudo indica, não pensava em seguir a carreira eclesiástica.[52] Fez seus estudos teológicos, bastante apressadamente, com os frades de S. Bartolomeu da Ilha Tiberina, em Roma.[53] Não é de se imaginar, nem mesmo hipoteticamente, tivesse ele aprendido num curso seminarístico, o que não era investigado e considerado até mesmo pelos estudiosos de então.
Embora a questão seja um desafio interessante a ser enfrentado, não é o momento de nele determo-nos mais demorada e aprofundadamente. Basta-nos, no momento, constatar e aceitar o fato que o Santo tinha noções bastante claras do que estava abraçando.
Mesmo dentro da limitação a que se propõe este estudo, o tema merece ser ao menos acenado, pois é do interesse de todos os cristãos, mas de modo especial de todos os passionistas. Trata-se de uma interrogação desafiadora e apaixonante. Já a investigamos com maiores detalhes e com relativo aprofundamento. [54]
Que é "Fazer memória" no sentido bíblico? Equivale pura e simplesmente ao "recordar" das línguas e culturas modernas? Sem mais é de se dizer "não"! Mesmo não abordando a questão mais demoradamente é necessário que dediquemos um mínimo de nosso tempo e de nossa atenção a algo que foge do puro academismo, do puro deleite intelectual, principalmente em se tratando de passionistas.
"Fazer memória" ou "recordar", no sentido bíblico, antes de tudo, são verbos que estão vinculados a um contexto histórico salvífico, libertador. Javé ouvira o clamor do povo escravo e desce para libertá-lo: Ex 3,7. Apresenta-se como "O que é", e o nome divino se torna memorial; portanto a ser invocado, e no significado que isso tem para as Escrituras: Ex 3,13-15. Mais detalhadamente o nome significa: Aquele que é está aqui para salvar, e se fará salvificamente presente toda vez que for assim invocado.
Libertado da escravidão e partindo para a liberdade os israelitas deveriam celebrar a páscoa que, por sua vez também se tornou um "memorial". Como o nome de Javé. E o fariam de geração em geração: Ex 12,1-14. Mal comparando, o memorial seria como que um ato mágico pelo qual o Senhor se faria presente, e através dessa presença, daria continuidade ao processo libertador iniciado no Egito. O tempo passaria, as circunstâncias seriam outras, outras também seriam as pessoas. Mas o povo seria sempre o mesmo, como povo, e muito mais o seria o Deus-libertador.
No celebrar a memória da libertação, pela ceia pascal, o judeu abraçava a história (e nisto são absolutamente originais), fazendo-se presente nos antepassados que saíram do Egito, mas se projetando no futuro, nos filhos dos filhos. Tornou-se, dessa maneira, um povo histórico, mas histórico-salvífico. O judeu de hoje, que celebra a páscoa, faz com que Javé os continue libertando, e os faça mais livres que os pais o foram, quando saíram do Egito. Mas se sentem igualmente presentes nos pósteros que estarão mais próximos da liberdade, que em Javé será definitiva e completa.
É muito questionador constatar que povos poderosos, ricos, progressistas, numerosos, guerreiros, grandes potências, grandes impérios, numa palavra, desapareceram. É o caso da fortíssima Assíria, da soberba Babilônia, dos poderosos medo-persas, do culto império grego, do organizado império romano, e de tantos outros. Ao lado de todos estão os judeus de hoje que se identificam com os de ontem. Tudo o que viveram inclinava-os ao desaparecimento. Mas permanecem e continuam fazendo memória.
Mais tarde, na celebração pascal os judeus tomariam quatro taças de vinho correspondendo aos quatro verbos com sentido libertador encontráveis em Ex 6,6-8: "...eu vos salvarei... vos libertarei... vos resgatarei... vos tomarei como meu povo." Esses versículos terminam com um verdadeiro juramento: "E sabereis que eu sou o vosso Deus... Eu, o Senhor!"
Sem a menor conotação mágica, Javé seria como que despertado pela celebração do memorial pascal, e com isso desencadearia sua ação libertadora, no presente, como fizera no passado, dando, dessa maneira, continuidade ao que operara quando da saída do Egito. E em vista da libertação escatológica, da libertação do futuro. Portanto, fazer memória é colocar o Deus libertador do passado, presente no agora para que continue libertando, e com isso projetando a liberdade definitiva, completa.
Bem diferente é o modo ocidental e moderno de "fazer memória". No máximo é um retorno puramente reflexivo ou emocional, retorno que ignora tanto o presente como o passado. Seria voltar a um fato que simplesmente antecedente no tempo, nada tendo a ver com o que viria, depois, nem mesmo com o que o aconteceu antes dele. Ou ainda, é um fato que se fechou no tempo e no passado, não podendo mais ser "presentizado" segundo novas exigências, novas necessidades.
Então, por meio da ceia pascal, um ato tão singelo e aparentemente sem maiores consequências, o povo "presentizava" em todos os tempos, o Deus que liberta. Isto, em força da palavra divina.
Eis aí a páscoa judaica. Que dizer então da cristã, que também surgiu como memorial?: (1Cor 11,24-26).
Jesus tomou muitas vezes refeição com seus discípulos. Ao menos atendo-nos a João, provavelmente, mais de uma vez teria comido a páscoa com eles.
A última ceia pascal, quando instituiu a Eucaristia, foi por ele ardentemente desejada. "Desejei com desejo comer esta páscoa convosco", diz o texto original, ordinariamente traduzido por: "desejei ardentemente comer esta ceia convosco": Lc 22,15. É importante enfatizar: esta ceia está intimamente ligada ao que iria acontecer logo depois: a Paixão e Morte do Senhor. Sobremaneira Lc 22,19 e 1Cor 11,24-26 enriquecem os conceitos anteriores de memória e de memorial com o de memória da Paixão. São usados termos técnicos e do ritual de sacrifícios: "corpo dado... sangue derramado por vós". As duas expressões evocam as vítimas imoladas nos sacrifícios, ou mais precisamente, o cordeiro pascal que era sacrificado no templo (sangue derramado), tendo o corpo dado ao ofertante para o levasse para a casa, a fim de ser devidamente cosido para a esperada ceia.
Jesus diz que o sangue oferecido para ser bebido é o da nova aliança. Evidentemente relaciona o que faz com o que acontecera com o povo que saíra do Egito e que celebrou a antiga aliança. E como a ceia pascal anterior era iterativa, também a nova deveria ser repetida: "todas as vezes que comerdes... todas as vezes que beberdes...": 1Cor 11,25-26.
A ceia pascal judaica "presentificava" Javé que libertara, e que continuaria libertando. Agora, a ceia pascal cristã "presentifica" o Senhor em seu processo redentor. É mais apropriado falar em processo redentor para que não nos fechemos apenas no ato da redenção histórica conhecida como redenção objetiva.
É oportuno abrir um parêntesis para evitar mal entendidos ou empobrecimento doutrinário. A palavra "redentor" pode se prestar a distorções dado o uso muitas vezes equivocado que dele se faz. Redentor é quem liberta um escravo. No conceito grego a libertação se dava mediante uma soma versada para se conseguir a carta de alforria a ser dada ao escravo. Mediante a soma versada, adquiria-se o escravo ao qual era dado o documento libertador a quem fora pouco antes adquirido.
No modo bíblico de pensar, não é necessário que se pague soma a alguém, pois Javé libertou com seu poder, com mão forte e braço estendido: Dt 5,15. Assim também Jesus. Ele nos liberta sem usar recursos monetários. Todavia, o faz onerosamente, a saber, com seu sangue, com sua vida: Ef 1,7; Ap 5,9.
Celebrar a Eucaristia, a ceia pascal cristã, é "presentificar" Cristo Redentor, o Crucificado-Ressuscitado, o que liberta todos os seres humanos e o ser humano todo de qualquer tipo de opressão, venha do faraó que vier. Externa ou internamente o ser humano carente de libertação. Celebrar o Memorial da Paixão, é também "presentificar" o Redentor na nossa caminhada pelo deserto da vida, até a Terra da Liberdade, a terra da liberdade definitiva.
Fazer memória, sobremaneira no Novo Testamento, é lutar por uma liberdade plena, crescente. Então, Paulo da Cruz, ao dizer que a causa de todos os males é a ausência da memória da Paixão, como a solução de todos eles depende dessa mesma memória, ele não está dando uma opinião apenas piedosa. Ao contrário, manifesta uma extraordinária acuidade teológica, exegética.
Assim mesmo é de se continuar perguntando: o Santo realmente tinha consciência plena do que afirmava? Esta resposta se tornará mais clara com o desenvolver de nossas investigações.


3.5 - Agora, o específico

Como tantas crianças, o pequeno Paulo Francisco teve a felicidade de nascer num lar desejável a todos os que vêm ao mundo. Lar pobre, humilde, sofrido e provado, mas lar-fonte de vida. Fonte de vida não tanto pelos numerosos filhos que lá nasceram, como também pelo amor que lá circulava alimentando os corações de todos. Principalmente por parte de sua santa mãe, Ana Maria, cedo a criança foi iniciada no caminho da santidade. No regaço materno aprendeu a amar Jesus, mas Jesus Crucificado.
Crescendo, não tinha ideia clara sobre o que Deus dele queria. Algo, porém, no seu coração era nítido: não nascera para as "coisas do mundo". Pensou em ser cruzado para melhor difundir o nome do Senhor, ou até mesmo para morrer mártir. Depois teve veleidades de se retirar e viver como ermitão.
Em 22 de novembro de 1720 deu o passo decisivo; deixou a casa paterna, recebeu uma túnica negra, pensando fundar os Pobres de Jesus. Orientado pelo diretor espiritual, o bispo D. Gattinara fez o célebre retiro de 40 dias, em Castellazzo. É importante notar: partindo do seu Diário Espiritual não é possível concluir que estivesse envolvido pela Paixão como ideia dominante, como acontecerá no futuro.[55] Na ocasião, o Fundador não tinha ainda em mente fundar a Congregação da Paixão. Pensava reunir companheiros, os Pobres de Jesus, para que, animados pelo mais generoso espírito de missionariedade, difundissem entre as pessoas o santo temor a Deus.
Baseando-se no depoimento que Rosa Calabrese fez no processo canônico, passou-se a aceitar, na Congregação que, antes do retiro de Castellazzo, a Virgem, vestida com o hábito e sinal passionistas, aparecera ao Santo, mandando-o fundar a Congregação da Paixão.[56] Acontece que o jovem retirante se recolheu pensando na fundação dos Pobres de Jesus cuja finalidade nada tinha a ver com a Paixão.
Além disso, não somente o Diário Espiritual de Castellazzo[57] faz pouquíssimas referências aos sofrimentos do Senhor, como também o seu epistolário da ocasião. As cartas que escrevera na ocasião não dão mostras de terem sido escritas por alguém inflamado pela Paixão de Jesus. Significativamente, no distintivo que trazia no peito estava escrito apenas o nome de Jesus. E não Paixão de Jesus Cristo como aconteceria depois.
Seria ainda de se esperar que na carta escrita na oportunidade a D. Gattinara, prestasse conta de fato tão relevante: a aparição de Nossa Senhora vestida de passionista, mandando que se fundasse a Congregação. Diretor e dirigido discerniam o que o céu queria de Paulo. E nada mais seguro que uma mensagem tão clara da Virgem.
Contrariando o depoimento de Rosa, há o do Pe. João Maria de S. Inácio, que foi o 3o. superior geral da Congregação, e também confidete do Fundador. A ele o Santo teria dito que, por iluminação subsequente ajuntou, no sinal, ao nome de Jesus, as palavras XTI PASSIO.[58]
O mesmo Pe. João Maria confirma que o voto de propagar a Paixão, feito na Capela Borghese, não aconteceu na primeira, mas em uma viagem posterior feita a Roma, para a aprovação das Constituições.[59] Então, entre a fracassada tentativa da aprovação das Constituições dos Pobres de Jesus, cuja finalidade era a de promover o santo temor a Deus,[60]e outras idas a Roma, deve ter acontecido algo muito importante na vida do Santo. Insistindo: recebendo verbalmente do Papa autorização para reunir companheiros, deveria dar uma fisionomia ao grupo que surgia. É nesse momento que o então devoto da Paixão, faz da "Memória", seu centro gravitacional.
Assim mesmo fica a grande interrogação: donde lhe veio ao coração dar essa finalidade à Congregação?[61] Teria o céu se manifestado extraordinariamente ao zeloso e santo Fundador para que uma Família de homens e de mulheres assumisse esse carisma em prol do povo de Deus? É válida a interrogação, porque humanamente falando, é difícil explicar como Paulo tenha chegado à compreensão e à decisão que chegou.
Sintetizando: Paulo Francisco, a partir do regaço materno, foi grande devoto da Paixão. Antes mesmo de abandonar o lar paterno, era leitor assíduo de grandes místicos cultuadores do Crucificado, como S. João da Cruz, e principalmente Taulero, o célebre estudioso da teologia da cruz.
Mas não é tudo: num determinado momento, Paulo deixa de ser apenas devoto da Paixão. Fica como que obcecado pela Memória da Paixão, o riquíssimo legado deixado por Jesus pouco antes de ser preso. Onde teria descoberto tamanho tesouro se os estudiosos e escritores de então ignoravam essa riqueza? É uma interrogação que dá margem às mais variadas hipóteses, não excluindo a de iluminações celestiais. Não raramente os santos, com a intuição que lhes é própria, chegam antes que os pensadores, que os investigadores. Não teria acontecido isso com Paulo da Cruz?


3.6 - Específico congregacional, específico missiológico

Não é de se identificar a missionariedade congregacional com as missões populares. Uma não se esgota na outra. Mas é possível detectar que o específico da Congregação deve penetrar o espírito missionário, seja qual for a missão. Contudo, é de se ter presente, ao prosseguirmos em nossas investigações, que a missão popular foi realmente abraçada pelo Santo e por seus religiosos. A seguinte pequena introdução elucidadora ajudará a acompanhar os passos subsequentes de nossa caminhada.
Bento XIII, em 1725, deu licença verbal a Paulo para congregar companheiros. Cabia-lhe, agora, dar um rosto à Congregação que começava a dar os primeiros passos. Possivelmente a partir daí se assessorou de pessoas experientes, como seria o caso de D. Emílio Cavallieri, tio de S. Afonso de Liguori, e bispo de Tróia. Entre as duas almas de Deus cresceu profunda amizade e admiração. O prelado, com sua experiência canônica, burocrática e pastoral, terá ajudado Paulo; enfim, a aprovação das Constituições dependia do cumprimento de certas exigências jurídicas.[62] O bispo tinha seus conhecimentos de Direito Canônico e o jovem Fundador um carisma que lhe inflamava o peito.
Mas, além das valiosas mediações que orientavam Paulo da Cruz no aspecto jurídico das Constituições, a Congregação precisava de uma alma. E esta, ao que parece, foi dada por meio de luzes especiais ao Fundador: fazer Memória da Paixão como já se relatou.[63]
Se a alma da nova Família que fundava era "fazer Memória" (Lc 22,19), conforme o último legado de Cristo, também as missões passionistas deveriam ser vivificadas por tal alma. Ele afirmava explicitamente que a Paixão era a alma e o miolo das missões.[64] Aceitava substituir, nas missões, práticas e meditações sobre outros temas, assim como recursos metodológicos. Porém, jamais a Paixão.
Para que não fiquemos somente em afirmações a respeito do específico da Congregação, e logicamente das suas missões, é de acompanharmos os passos que ele deu, depois de 1725, quando conseguiu a licença papal para reunir companheiros. A partir dessa época os escritos paulocrucianos passam a insistir crescentemente na Paixão de Jesus. As Constituições de 1736 já eram nitidamente passiológicas.
Apenas para refrescar a memória dos leitores recordamos que Paulo da Cruz preparou 5 textos das Constituições: 1736; 1741; 1746; 1769; 1775.[65]
As Constituições de 1736 não deixam lugar para dúvidas: o Crucificado é central na vida de Paulo e na alma da Congregação. Referindo-se à Paixão se nota que "devoção" e "memória" não são tomadas como sinônimo. Nem sempre é fácil detectar o sentido mais profundo dado a ambas as palavras, mas ao se referir ao carisma congregacional, ao aspecto estrutural, se usa "memória". Devoção se reserva ao aspecto mais visível e em função de alimentar o carisma. Esta distinção é muito significativa.
Depois de alguns anos de experiência vivida pelos primeiros passionistas já era possível apresentar o texto para uma primeira aprovação eclesiástica. Trata-se do texto de 1741. "Devoção" ganha mais espaço em detrimento de "memória" que os perde. Sem dúvida, isso causa muita espécie e é de se perguntar: que teria acontecida para essa mudança radical? Com um agravante: os espaços perdidos são nos lugares mais importantes das Constituições. Anotemos esta particularidade para retomá-la no seu devido momento.
O texto de 1746 é o que foi apresentado ao Papa para aprovação pontifícia. A nova Congregação já tinha feito suas experiências e podia ser avaliada pela Igreja que a aprovaria, ou não. Nesse texto desaparece o termo "devoção", sendo substituído ou por "memória" ou por "culto e memória". Algo extraordinário voltou a acontecer. As mudanças são muito radicais e aconteceram em pouco tempo.
Resumindo: no primeiro texto (1736), sobressai o termo "memória", sendo que no texto seguinte (1741) ele cede lugar e importância para "devoção". Agora, no definitivo (1746), aprovado pelo Papa, "memória" volta a ocupar seu lugar destacado. É justo que se pergunte: qual foi a razão de tantas mudanças num período de 10 anos?
O texto de 1736 era provisório. Regularia a vida dos primeiros religiosos que praticamente estavam então, vivendo comunitariamente. Ele deveria passar por experiências concretas, recebendo, posteriormente, as devidas correções, e assim ser apresentado às autoridades eclesiásticas. Era esse o procedimento canônico. O Fundador vivia o arrebatamento carismático. Colocou, então, livre e conscientemente a palavra "memória" no texto, pois foi o que recebera do céu. Dessa maneira ele traduzia realisticamente a grande experiência pela qual passara. Enfim, depois de longos anos de discernimento, o Senhor lhe concedera as luzes que tanto procurara. Sabia estar cumprindo a vontade celestial.
Interessante que seus escritos da época revelam-no levado igualmente por esse espírito.
Todavia, depois de uns anos de experiência bem concreta nas comunidades, o texto passaria por uma comissão de cardeais para ser devidamente aprovado em caráter experimental. Estes, levados por razões jurídicas e não tanto carismáticas, se interrogaram: como transformar em voto o "fazer memória", segundo o propósito das Constituições? Optaram, então, por "devoção", pois esta é mais fácil de ser enquadrada juridicamente. E não deixaria margem para escrúpulos ou dúvidas no cumprimento do voto.
Sem dúvida, o texto revisto pela comissão cardinalícia ficou empobrecido. Juridicamente seria mais preciso, mas discordava da iluminação e do chamado que para o Santo vieram do céu. Mas... cabia-lhe obedecer aos superiores; todavia, sentira-se igualmente chamado por Deus ao qual todos devem obediência. Este drama por ele vivido é retratado em seu epistolário, na correspondência que manteve com muitas pessoas. Se de um lado lhe era necessário obedecer as autoridades, doutro, não podia ser infiel à missão recebida. Não haveria uma terceira alternativa nesse doloroso dilema? Não seria possível salvar o aspecto carismático e o jurídico, igualmente?
Além de rezar e refletir, o Santo procurou quem o pudesse auxiliar, como confirmam cartas da época.[66] O texto de 1741 foi revisto e veio um novo, agora aprovado pela Santa Sé, em 1746. Nele "memória" reassume seu peso e vigor, bem como o devido e esperado destaque. Desapareceu o termo "devoção"; de tanto em tanto, ao lado de "memória" aparece a palavra "culto". Salvaram-se, assim, as duas partes: a carismática, tanto querida pelo Fundador, e a jurídica, proposta pelos cardeais. Na ocasião pôde escrever ao influente Cardeal Gentili, falando de seus religiosos: "...a fatigar na vinha de Jesus Cristo e a promover a devoção e a memória da Paixão Santíssima do Senhor." [67]
Mais uma vez, e não poderia ser diferente, as cartas do Fundador passaram a retratar o novo estado de ânimo, o novo modo de ser e de pensar da Congregação, agora aprovada pelo Papa.
Concluindo: S. Paulo da Cruz sabia o que dizia quando afirmou que a causa dos males, na face da terra, está em não se fazer memória da Paixão. Sua época foi marcada pela devoção a Jesus torturado e morto. Mas era necessário "fazer memória" vivenciar a força redentora e libertadora de Cristo.
Podem ficar no ar o "onde", o "como", e o "com quem" buscou ele a profunda interpretação da Bíblia a esse respeito. Não se chegou ainda a uma resposta conclusiva. Mas não se pode duvidar: Paulo distinguia bem uma coisa da outra.
Ainda como conclusão: ele e as missões passionistas deviam ser impregnadas por esse espírito. E é esse, precisamente, o específico no genérico, o absolutamente novo trazido pelo Fundador. Nisto ele é diferente de todos os missionários de seu tempo.


3.7 - Paulo, o missionário

Desde jovem Paulo se envolveu em atividades pastorais, não obstante terem os leigos pouco espaço para exercerem o sacerdócio batismal. A visão marcadamente clericalista, de então, impedia-os de serem sujeitos na construção do Reino. O clero era numeroso. A vida religiosa se limitava mais à administração dos sacramentos, o que obrigava só a presença de ministros ordenados. As mulheres, então, nem podiam se aproximar do altar. Esse espaço era aberto apenas aos coroinhas.
A sociedade praticamente era considerada cristã. Os erros e as injustiças eram vistos mais como desvios pessoais. Então, insistia-se na conversão individual, atividade reservada também ao clero.
Assim mesmo, Paulo Francisco se dedicava à catequese, servindo aos irmãos associados na Confraria de S. Antônio, da qual era prior. Era de tal maneira aceito, considerado e solicitado, que se viu na necessidade de pedir ao bispo D. Gattinara, seu diretor espiritual, licença para pregar às monjas de Castellazzo e para doutrinar o povo.[68] Era tão destacado e conhecido na comunidade que cabia a ele atender aos pobres, catequizar as crianças e os jovens, visitar os doentes, a sepultar os mortos da cidade.[69]
O espírito missionário está na origem da vocação de Paulo. A esse chamado respondeu com profundo ardor apostólico. E nem podia ser diferente, pois todo chamamento tem como fonte o Senhor que é o primeiro a amar, cabendo a ele, portanto, a iniciativa de escolher, de propor, de enviar: 1Jo 4,19. Ser missionário não é escolha pessoal, mas vocação, a ser exercida no Senhor, com o Senhor, e por ele. Aos grandes vocacionados o Senhor propõe um "não temas... eu estarei contigo" (Ex 3,12; Jz 6,12; Lc 1,28.30). A missão, foi, então, fruto do grande zelo que impelia o Santo: 2Cor 5,14. Portanto, pode-se dizer que a santidade gera o missionário, e não o contrário.
Antes de ser padre dedicou-se às missões. E se depois aceitou, o presbiterato, o fez para que pudesse juridicamente desempenhar suas atividades apostólicas, como lhe fizeram compreender o Pe. Lami e o Cardeal Corradini.[70] A missionariedade impregnava seu coração, com ela se identificava. E não a improvisava. Vivia retirado mas em função desse apostolado.
A solidão, para ele, era o espaço espiritual onde Deus pode "falar ao coração palavras de vida eterna", e para que, uma vez inflamado, o operário do Senhor se transforme em "trombetas sonoras animadas pelo Espírito Santo a despertar as almas adormentadas no pecado".[71] Longa e profunda era sua preparação remota para ser um bom operário na vinha do Senhor: oração, estudo, penitência, vida em fraternidade. Nada disso dispensava a preparação próxima que fazia antes de sair para novos ministérios: abastecer-se de todos os recursos inerentes de um bom pregador.
É certo que um missionário desse quilate somente poderia suscitar fervor, entusiasmo, inflamando a todos, levando pecadores empedernidos à conversão. Somente vê-lo, testemunharam seus coetâneos, era o suficiente para comover-se. Tido por muitos como o Paulo Apóstolo do século, era disputado pelas dioceses e paróquias que o queriam como anunciador da Palavra de Deus, como missionário. Mais uma vez é oportuno recordar que, ancião, alquebrado e doente, precisou atender ao apelo papal para pregar missão em Roma. Este acontecimento merece considerações à parte, pois testemunham a estrutura do Santo como missionário de Cristo.
O venerando Ancião estava com 75 anos. Além da idade pesavam-lhe nos ombros os desgastes de tanto trabalho, de preocupações sem fim, e por doenças que não eram poucas, entre as quais, a gota que o imobilizava, precisando ser carregado para se mover de um lado para o outro. Somente assim podia se fazer presente na capela, nos momentos de oração. Debilitado, há 5 anos não pregava mais missões. Prisioneiro no leito, mal podia dirigir a Congregação como superior geral.
Mas Clemente XIV proclamara um ano jubilar em 1769. Roma se prepararia com missões. Paulo da Cruz é uma exigência popular. Elas seriam inconcebíveis sem a presença do venerando Santo que era uma prática à parte, presença que falava de per si. Mas ele ardia em febre e com outros achaques que mais o deixavam prostrado no leito. Diariamente o papa queria saber como passava o grande missionário. Chegou a mandar-lhe o próprio médico para que dele cuidasse.
Pensou-se, em vista de seu estado geral, e pela idade avançada, fazê-lo pregar na Igreja S. Maria da Consolação. Era pequena, não exigiria maiores esforços do já desgastado missionário. Mas ela não teria condições de abrigar a multidão que seguramente acorreria para ouvi-lo. A piedosa prudência poderia se transformar numa irresponsável imprudência: o demasiado concurso popular poderia criar sérios problemas, quer para as pessoas que se acotovelariam, quer para o Santo no qual queriam tocar, pedir bênçãos, aproximar objetos de piedade, peças de roupa.
Segundo o Cardeal Colonna, o ideal seria que ele pregasse na Igreja de S. Carlos, na Via del Corso. O acesso era mais fácil, o templo era amplo e acolhedor. Mas seria exigir demais de um ancião em estado tão precário, concluiu. Mas a última palavra dependia do Padre ainda febril e acamado.
No final, tendo uma melhora repentina, Paulo pode acatar o pedido papal e do Cardeal Vigário. As alvíssaras correram céleres pelas ruas de Roma. De boca em boca as pessoas foram passando a boa notícia para gáudio da população que o aguardava. Pregou na Igreja S. Maria no Transtibre (Trastevere). No final o Cardeal Colonna teve que providenciar policiais para manter a ordem. Milhares de pessoas se comprimiam na igreja, na praça, e até atrás do templo. Clero, prelados, nobres, povo em geral, sem excluir pessoas "transviadas" afluíam avidamente, querendo ouvi-lo. Era a grande oportunidade para ouvir um santo, para ouvir um mensageiro de Deus.[72]
Seguramente não passava desapercebido ao grande missionário o que Deus operava por seu intermédio. Em uma de suas cartas ele se trai: "Fico espantado em me ver trabalhando em coisas tão sublimes, o que jamais me passou pela mente. Ah! Confesso que isso tudo me faz ficar sepultado no meu horrível nada, e estar no temor e no tremor, pela grande conta que devo prestar por ter sido despenseiro dos tesouros do Altíssimo... que me confiou missões em muitas dioceses... Quem imaginou que este asqueroso pecador deveria caminhar por esses caminhos?" [73]
Acreditamos que, para se avaliar a estatura missionária do Fundador, mais que milhares de palavras, basta a narração desse acontecimento edificante. Com os olhos penetrantes de quem crê, logicamente olhos iluminados pela luz da fé, o povo enxergava muito além das aparências. O povo contemplava um ancião alquebrado, quase prostrado, mas sabia estar diante de um anjo. E via-o, não obstante tudo, agigantar-se no palco, levado em parte pela natural eloquência, em parte pela convicção que o transformava, e muito mais pela santidade que o incendiava. Sentia-se ante o novo Paulo Apóstolo, ante um verdadeiro missionário.
A natureza o brindara com muitos dotes: era alto, atlético, de boa apresentação, dotado de eloquência inflamada, arrebatadora. Todavia, o mais importante era seu coração trabalhado pela correspondência à graça, pois além de desembaraçado, era igualmente atencioso, afável, educado. Mas não eram propriamente essas as qualidades que o faziam missionário procurado, disputado, arrebatando multidões. Todos nele descobriam a fonte de santidade alimentada no poço de água viva: Cristo Crucificado.
Paulo, o missionário, é o fruto do especial amor divino que encontra um coração aberto. Na abertura do coração, a graça se concretiza. E a concretização da graça forma, no caso, o missionário, o santo, o homem de Deus, o servidor dos irmãos. O missionário o é na medida em que há uma resposta a um chamamento. É absolutamente coisa entre Deus e um vocacionado, não fruto de dotes naturais, ou do querer humano, ou efeito de circunstâncias. Com a resposta ao chamado, há necessariamente o envio. No envio, o Senhor está com o enviado: eu estarei contigo. Dificilmente o povo, em sua intuição simples, mas profunda, deixa de reconhecer quem fala com a chancela de Deus.
Assim mesmo, o ser missionário implica estar com o Senhor. Acima se considerou que os vocacionados precisam contar com a presença, com o acompanhamento de Deus: Ex 3,12; Jz 6,12; Lc 1,28. Então, há de se considerar Paulo missionário, não tanto porque subia no palco. Ele o era a partir, e sobremaneira, pela vida de união que levava com os mistérios celestes e isso, mereceria um tratado à parte.
Sem o menor titubeio é de se distinguir entre o ser missionário e o agir missionário. É verdade que estão intimamente vinculados os dois conceitos, as duas realidades. Mas seguramente não se identificam. Paulo, então, foi missionário por ter sido a tal chamado, e por ter respondido com seu ser, com seu pensar, com seu agir.


3.8 - Paulo e o agir missionário

Da boa árvore só pode vir bom fruto, assim como a árvore má não os produz sadios: Lc 6,43.
Paulo foi missionário pela especial vocação que recebeu, além da comum a todo o batizado. Ele o foi, por ter respondido ao apelo do Senhor, por ter vivido a experiência de Deus, tendo, consequentemente algo a dizer aos irmãos. Estava em condições de ser enviado. Do missionário vem a missionariedade.
Mas a missionariedade é encarnada, como o Verbo que se encarnando não assumiu apenas um corpo, mas também um povo, uma cultura, uma língua, uma história. O mesmo aconteceu com o nosso Santo: nasceu no tempo e no espaço. Logicamente assumiu muito do que era próprio de seu ambiente, mas deixou, igualmente, sua marca, as pegadas de sua passagem.
Dedicou-se, juntamente com seus co-irmãos, sobremaneira ao serviço dos mais necessitados, dos menos assistidos social, política e religiosamente. Mas tudo fez sob a luz da Memória da Paixão. Tanto que inicialmente se assemelhou a tantos outros missionários que, pregando a Paixão, enfatizavam os sofrimentos do Senhor, não faltando os exageros que levavam ao "dolorismo". Eram comuns as auto flagelações, os sacrifícios exagerados, as penitências chocantes. Por sinal toda essa "teatralidade" fazia parte do contexto, e era por muitos, esperada.
Seu primeiro biógrafo, S.Vicente Strambi, o descreve pregando sobre o inferno, com uma corda no pescoço, uma coroa de espinhos na cabeça, de tal maneira assentada que fazia o sangue brotar abundantemente. E explica que era a maneira escolhida para tocar as pessoas mais insensíveis e resistentes aos apelos divinos.[74] Mas o Santo o fazia, arrependido de seus pecados, julgando-se o maior pecador do mundo. Um "nada".
Pode parecer estranho, mas o considerar-se um "nada" é comum em quem mais se aproxima de Deus. Quem se avizinha da santidade, sente-se pecador. Um papel branco será tido como amarelado se for colocado perto de um que o supere muito em alvura. Quem se distancia de Deus se absolutiza ridiculamente, não se reconhecendo pecador e limitado.
Depois, mais avançado em anos e com mais experiência, Paulo da Cruz dispensou a maioria dos instrumentos de penitência e os demais recursos tão usados pelos missionários de então. Afirmou terem sido exageros da juventude. Passou, então a valorizar mais ainda, para não dizer, unicamente, a força da Palavra. Nela reconhecia a eficácia, pois penetrava o coração levando à conversão e não a emotividades passageiras. Reconheceu que nela estava a base para a conversão. Deixou de multiplicar as procissões, abandonou o uso exagerado de imagens e de outros recursos mais.
O Crucifixo continuou sendo seu "livro escrito por dentro e por fora", todavia, sem por de lado a Escritura Sagrada. Voltamos a insistir: numa época em que se fazia completamente o contrário. É conhecida a pergunta que lhe foi dirigida por alguém querendo saber onde o Santo buscava tanta sabedoria. Ele, então, mostrou seus dois grandes livros: a Bíblia e o Crucifixo. Sim, em ambos os livros encontrara o muito que iluminava e inflamava aquela mente e aquele coração apostólicos.
Portanto, se em parte ele aceitou algo que era corrente entre os demais missionários, como flagelar-se em público durante determinadas pregações, soube, por outro lado, e diferentemente do que era comum, então, descobrir e viver o valor das Escrituras. Jamais trocou o Livro pelo livro.[75]
Viveu uma época marcadamente passiológica, tendo em Ana Maria, a piedosa e santa mãe, a grande mestra na devoção ao Crucificiado. A Providência o colocou no caminho de outros grandes mestres que o levaram a identificar-se mais e mais com Paixão.[76] Dada sua marcada afetividade, dada a grande insistência de sua época nos aspectos mais dramáticos e "dolorísticos" dos sofrimentos do Mestre, dada ainda a insistência dos pregadores de então nas penitências corporais, no que, por sinal, eram seguidos por legiões de penitentes, nem por isso o Santo se deixou envolver. Soube ser ele mesmo, soube distinguir as coisas. Soube, ainda, no devido tempo moderar-se contra possíveis exageros.
Essa moderação tinha um fundamento teológico que não pode passar em branco: o radicalismo na penitência foi abandonado por causa do valor dado à Palavra de Deus. Descobriu que a primeira chocava, causava grande impacto, enquanto que era esta a que penetrava como espada de dois gumes, levando à conversão.
Mas é de se destacar sua originalidade em distinguir devoção e Memória da Paixão.[77] Não ignorava que seus contemporâneos se dedicavam a uma generalizada e sentida devoção aos sofrimentos e à Morte do Senhor. Não obstante isso não titubeou em afirmar que os males de seu tempo derivavam do não se fazer memória da Paixão. Compreendeu que Jesus não sofreu e morreu para que tivessem pena dele, e sim, para que, descobrindo o amor divino, através da cruz, todos se colocassem ao serviço da redenção libertadora e santificadora. Acabaria, assim, na face da terra, o desamor que oprime e mata. Por isso lutou para que essa fosse a característica de sua Congregação. Portanto, nisso não somente se distinguiu, como também superou seus coetâneos.
Por essa mesma razão, os sofrimentos do Amado Mestre, tão explorados dramaticamente pelos pregadores e missionários de então, não foram maximizados pelo Fundador. Sabia que seria duro vencer o enfoque dado aos sofrimentos de Cristo. Mas, enfrentou a realidade, com umaverdade que não podia ser omitida. Fê-lo com denodo, equilíbrio emocional, sabendo de que o grande apelo à conversão está na Palavra revelada. Trata-se de proposta divina à qual se deve responder livre e serenamente, sem imposições e impactos.
Era-lhe claro que as Escrituras se concretizam no Crucificado. É ele a mais estupenda obra do amor do Pai. O Crucificado é a epifania do amor divino.[78] Nada e ninguém revela melhor o amor paternal de Deus pela humanidade, que o Filho imolado. O Santo soube, a todos superando, conjugar a Palavra de Deus revelada, com a Palavra de Deus feita carne e imolada. Tornou-se, então, o missionário do Crucificado porque este também o foi, ao assumir o projeto divino (Ap 5,1-7) e como tal se revelando no alto da cruz.[79]



IV - OS RECURSOS HUMANOS NA MISSÃO

O Verbo que assumiu carne, assumiu igualmente a história, conseqüentemente, ou principalmente, os seres humanos como irmãos. Veio para ter um diálogo amoroso com eles. É impossível a história salvífica sem o diálogo divino-humano. E o diálogo não acontece quando deixa de haver amor, liberdade e cooperação.
Paulo da Cruz foi diálogo permanente com o Crucificado-dialogante. Com o Crucificado vínculo de amor entre o Pai e a humanidade pecadora. Sabia que toda a iniciativa vem de Deus, sabia que a salvação é dom do alto. Assim a anunciou.
Sabia, ainda, que sem a abertura humana ao Deus que vem, nada de extraordinário acontece na criatura racional. Tudo depende da graça celestial. Graça que é dom, como diz o nome, graça que é abertura e proposta de diálogo.
A graça não dispensa, e muito menos aniquila as pessoas. Deus jamais oprime: ele eleva, e elevando, liberta. Libertando e elevando, faz com que aconteça a plena realização da humanidade.
Foi assim que em Cristo, com Cristo, e por Cristo, colaborou, trabalhando na própria santificação, e na dos irmãos. Compreendeu que a história salvífica precisa, e muito, da colaboração humana. Então, mesmo anunciando a Palavra que liberta e santifica, por si, usou nas missões, recursos que considerou importantes, segundo as circunstâncias.
O conjunto desses recursos é adiante apresentado como metodologia missionária. Alguns deles são encontráveis em outros missionários, em outras missões. Outros eram próprios de Paulo da Cruz, próprios das Missões Passionistas. Conhecendo-os se tem uma visão mais completa do passado que pode ser luz para o presente. Conhecendo-os, se passa a ter uma ideia mais completa de Paulo da Cruz missionário e das Missões que gerou com seus trabalhos e em seu coração.


4.1 - Pré-missão, Missão, e Pós-missão

O Fundador cresceu numa época de grande vicejar missionário. Ordens e congregações dedicadas às missões populares podiam atender a todas as exigências e solicitações. Missionários zelosos e inflamados atendiam ao povo santo de Deus, a começar pelos mais abandonados, pelos que estavam mais à margem da assistência pastoral.
Ele teve algo próprio, característico e original, como se viu, mas também se serviu de experiências de outros. A obra do franciscano Amadeu Castrovillari , "O zelo apostólico" ter-lhe-ia sido de grande valia.[80]
Todavia o Santo tinha muito de pessoal, assim como sua Congregação era detentora de algo específico no seio da Igreja. Intervenção especial do céu o fez assumir a Paixão como centro de sua vida.[81] Mas sentiu-se igualmente chamado a fundar uma Congregação com a mesma finalidade. Uma vez aprovada ela tinha um fim específico e não podia identificar-se com as demais. Então, para ele, quer a Congregação, quer as Missões Passionistas, tinham algo próprio a dizer. Não podiam ser idênticas às demais. Por isso ele organizava as Missões atendendo, quer às necessidades do povo de Deus, quer à finalidade da Congregação no seio da Igreja.
Independente da preparação dos missionários, a Missão Passionista tinha três etapas: a pré-missão, a missão propriamente dita, e a pós-missão.

a-Pré-Missão.

Na pré-missão eram dados os primeiros passos quando se combinava sua realização com o bispo diocesano. A seguir as tratativas e os planejamentos eram com o pároco. Este deveria ter sido avisado pelo seu ordinário. Providenciava-se, desde a acomodação e número dos missionários até a construção de um palco que faria as vezes do púlpito. Como acima de tudo estava o bem do povo, levavam-se em consideração suas necessidades e seus problemas: tempo mais favorável, situação das pessoas, das famílias, horários...
Os períodos de "ócio" nos campos eram levados em consideração, também. Jamais aconteciam as missões em épocas intensivas de trabalho: preparo do terreno, semeaduras, colheitas. As estações, sobremaneira, o verão ou o inverno, com seus momentos extremados, eram considerados com cuidado e seriedade.
A acomodação para os missionários era outra grande preocupação para Paulo. O objetivo não era que tivessem privilégios ou regalos mas, para que pudessem repousar no pouco tempo que lhes era dado fazê-lo, e principalmente, para que mantivessem a vida de solidão e de oração. Embora reduzida e adaptada, os missionários tinham seus momentos de observância. Era comum serem acompanhados por irmãos para que providenciassem a parca alimentação, conforme as Constituições.

b-Missão.

A Missão propriamente dita começava com o ingresso solene que acontecia, ordinariamente, ao entardecer. Não é de se impressionar muito com palavra "solene". No local predeterminado, o clero e o povo esperavam respeitosamente os pregadores. Todos se dirigiam processionalmente para a igreja, cantando o Sl 85 (84). Á frente, o crucifixo; mais que cruz processional, servia para indicar a mensagem central da missão.
Um particular digno de nota: faziam parte do cortejo os piedosos missionários que, descalços, após terem vencido a pé dezena de quilômetros, caminhavam com o bastão de viagem nas mãos. A pobreza e o desapego que os caracterizavam, faziam-nos admirados e acatados pela população, principalmente pelos mais simples.
De um palco montado na nave central, um dos missionários, depois do Veni Creator, falava sobre o momento de graça que lhes era dado viver. Que ninguém se fechasse aos apelos divinos. Eram dados os avisos oportunos. A partir daquele momento as imagens do Crucificado e da Virgem das Dores passam a dominar do palco donde eram feitas as prédicas ou as instruções.
Os dias começavam cedo, antes mesmo que surgissem os primeiros raios do sol. As pessoas deviam cuidar dos animais, enfrentar as labutas do dia. Antes, porém, era celebrada a Missa, após o que, durante um quarto de hora, todos eram incentivados a meditar a Paixão de Jesus. Era o chamado "motivo da Paixão". A linguagem, os recursos usados, deveriam ser simples, acessíveis a todas as categorias de pessoas. Reinava o espírito de piedade e de elevação. A partir de então era a vez do missionário catequista. Abordava os Mandamentos e as principais verdades da fé, as normas práticas de vida cristã. A linguagem era coloquial, elucidativa, eivada de exemplos. O resto da manhã era dedicado aos doentes e às confissões.
Após as fainas do trabalho, a população se reunia para o momento mais forte da Missão. As atividades diárias que começavam antes do raiar do sol, terminavam um pouco mais cedo para que todos pudessem usufruir o momento de graça que estava sendo oferecido a todos. Deus visitava o lugar e era de se aproveitar integralmente tanta bênção. No mínimo havia a curiosidade, como a dos atenienses, em ouvir os "estrangeiros" que trariam novidades: At 17,18. Durante uma hora o missionário catequista insistia em temas sacramentais, morais, enfatizando a confissão e a comunhão. Seu modo de ser e de agir, não obstante toda a circunspecção, era mais descontraído, não faltando algum chiste, alguma expressão hilariante.
A seguir vinha o pregador de máxima. Sério, solene, procurava atingir diretamente os corações levando-os à conversão. Como o nome diz, explorava o anúncio das máximas eternas. No final tornava-se menos patético e mais parenético, encaminhando a compungida assembleia a meditar a Paixão de Jesus. Isto tudo era o ponto alto do dia.
As confissões, que começavam antes da catequese, prosseguiam após a pregação. Os homens eram atendidos também na residência ocupada pelos missionários. Os exemplos de uns levavam inúmeros outros a se aproximarem da reconciliação.
Eventualmente missionários acompanhados por alguns homens, altas horas da noite, saíam para o chamado "despertador": processionalmente ou em grupos, paravam em pontos estratégicos da localidade para cantar e repetir máximas questionantes, convidando à conversão, à mudança de vida.[82] Era usual, também, sempre tardas horas da noite, "repicar os mortos", isto é, tocar funebremente os sinos, quer para os devidos sufrágios, quer para recordar a brevidade da vida.
Segundo as circunstâncias, eram promovidos encontros com grupos diversificados: homens, mulheres, irmandades, crianças, eclesiásticos. Aconteciam comunhões gerais, ou para grupos separados, ou para todos, indistintamente, conforme as necessidades ou possibilidades. Sempre considerando os problemas locais, batia-se firme contra a blasfêmia, contra o ódio. Eram formados grupos de "apaziguadores" que, com os missionários, procuravam os que estavam divididos pelo ódio, para superar pendências, reaproximar pessoas e famílias.
Uma prática solene convidando os mais renitentes a se abrirem aos últimos apelos da graça e encorajando todos à perseverança, encerrava as Missões. Era dada a bênção papal, como fecho final.
No dia seguinte, ainda escuro, partiam os missionários, humildes e recolhidos, como haviam chegado. Evitava-se qualquer manifestação popular, e tudo o que pudesse romper o clima de piedade. [83] Punham-se a caminho quando a população ainda dormia ou se preparava para os trabalhos.

c-Pós-Missão.

Não havia propriamente uma atividade que poderia ser chamada de Pós-missão. Ao contrário, os missionários não deveriam voltar novamente, no decurso de pouco tempo, aos lugares por eles missionados. Os frutos da Missão não deveriam descambar em amizades com grupos de pessoas. Esperava-se que o clero local, aos qual os missionários dedicavam especial atenção, desse continuidade ao que nela fora conquistado. Além da formação de grupos de reflexão e de oração, ficavam ainda pequenos escritos para dar sustentação à piedade cristã. No tempo do Fundador foram editadas pequenas publicações: as lembranças das Missões.
Inicialmente, ao término das missões, os passionistas deixaram as "recordações" missionárias, folhetos ou opúsculos então usados por outros missionários. A partir de 1764, pelo que se sabe, foi editado um pequeno livro, pelo Pe. João Maria Cioni, com meditações sobre a Paixão e ensinamentos de como meditá-la. Algo semelhante foi feito por S. Vicente Maria Strambi.[84]
Pode-se dizer que os missionários se contentavam em deixar sementes: sensibilidade à vida em Deus e com os irmãos, necessidade interior de se meditar a Paixão de Jesus, fidelidade à vida sacramental. A devoção mariana era muito inculcada. Ficava ainda o hábito de tocar os sinos às sextas feiras, às 15 h. recordando a morte de Jesus.[85] O objetivo era manter acesa a chama da Missão e a devoção à Paixão.
A Pós-missão de maneira mais organizada e estruturada foi surgindo com o tempo, atingindo maior importância após a morte do Fundador.


4.2 - Usos, costumes, mudanças...

As missões visam à conversão, ao progresso na santidade, ao aprimoramento das pessoas, de grupos, das famílias, da sociedade. Logicamente mexem com os corações, com a emotividade. No esforço de se chegar mais rápida e seguramente a tais objetivos são usados os mais variados recursos. Nem sempre com o devido equilíbrio.
Em algumas missões se explora mais o aspecto intelectual enfatizando a doutrina, o dogma. Em outras, a emotividade, para reações mais imediatas, mais sensíveis. Usava-se e abusava-se de práticas de impacto. Outras, ainda, o aspecto volitivo, o querer humano ante a graça oferecida. Este visa à consciência, ao bom uso da liberdade. Mas a radicalização ou a cristalização de uma delas, deixava a missão manca. O ideal é a síntese de tudo, pois o ser humano é um todo indivisível.
O Fundador viveu numa época e num ambiente marcados pela Paixão. Tornou-se comum, também, no intuito de se identificar com os sofrimentos de Cristo (Col 1,24) e, como sinal de arrependimento e de conversão, a prática penitencial pública. Auto flagelações, não excluindo as sangrentas, cilícios, coroar-se com espinhos, carregar cruzes, pedras.
São suficientemente conhecidos usos e costumes penitenciais que atravessaram séculos e chegaram aos tempos atuais, ao menos em determinadas regiões, causando espécie em uns, curiosidade em outros, condenação, de tantos. O Santo foi marcado por esse ambiente bem mais envolvente do que se pode imaginar. Serve de exemplo: nas procissões penitenciais das quais participou, as jovens se punham à frente com coroas de espinho nas cabeças, o clero, com cordas no pescoço e cinza na cabeça.
Por sua vez, Paulo, na mesma procissão carregava uma pesada cruz, enfrentando as ladeiras e as dificuldades do terreno. Estava também coroado de espinhos. Correntes de ferro envolviam seu pescoço. Ao final de tudo, durante a pregação flagelava-se espargindo muito sangue.[86]
Chegou a flagelar-se com correntes que pesavam vários quilos sendo necessária a intervenção de um padre para que cessasse tanta maceração. Durante um desses flagelos, foi atingido por um golpe que lhe deixou cicatriz permanente. [87]
Alias, seus biógrafos são unânimes em afirmar que desde criança Paulo Francisco era dado à práticas ascéticas. Muitas delas as conservou durante anos. Mais ainda, quando inflamado, pregava missões. Não somente as praticava como as recomendava, é certo, com moderação.
Todavia, chegando a certa altura de sua vida teria lançado fora certos instrumentos penitenciais, dizendo: "Uma vez que você me estropiou, não quero que faça a mesma coisa com os outros".[88]
A grande verdade é que, com o andar dos tempos, e melhor observando e refletindo, quis que nas missões passionistas certas penitência bastante usuais e pacificamente aceitas, não fossem mais empregadas. A exterioridade deveria ceder lugar à reflexão e à reflexão da Palavra da qual destila lenta e suavemente a graça no coração. As Escrituras, assim, deixavam de ser apenas pontos referenciais, tornando-se a fundamentação, a base para toda a vida religiosa.
Também os aspectos cênicos, dramáticos, coreográficos sobre a Paixão, muito usados, então, e que mais realçavam a exterioridade do drama do Calvário, foram aos poucos sendo substituídos pela mensagem profunda da cruz. Seu primeiro biógrafo, S. Vicente M. Strambi, por sinal, seu contemporâneo e que com ele conviveu, afirmou textualmente: "Deixando as procissões e outras funções que diferentes missionários louvavelmente praticavam, e que ele, no passado as havia feito, insistia principalmente no instruir, em pregar e em atender as confissões."[89]
S. Vicente Strambi nos dá uma síntese que mereceria uma reflexão mais aprofundada e ampliada. Todavia, basta recordar que para Paulo da Cruz as missões não poderiam se fundamentar na exterioridade ou na - sem conotação pejorativa - teatralidade. Tanto que insistia em três pontos de suma importância. O primeiro é instruir, atingir as mentes para que, uma vez iluminadas, Cristo e sua mensagem fossem melhor acolhidos. O segundo é a catequese: que as mentes iluminadas fossem fortalecidas pelos corações inflamados. Finalmente a vida sacramental. Que a pessoa, como um ser iintegral, fosse igualmente toda de Cristo e toda dos irmãos.
A síntese apresentada por S. Vicente Strambi, e que retrata o Paulo da Cruz missionário e as Missões Passionistas deixam entrever, em primeiro lugar, que a conversão, que o crescimento contínuo em Cristo, objetivo das Missões Passionistas, são obra da graça. Por mais importantes que sejam os recursos pedagógicos, estes não devem ir além de sua instrumentalidade. Jamais devem substituir a ação da graça e nem mesmo ofuscá-la.
Outro ponto subjacente e importante deixado pela síntese deve ser evidenciado: as Escrituras como fundamento de tudo. Afastando-se das exterioridades usadas por outros missionários, o Fundador manteve-se fiel ao "livro escrito por dentro e por fora", mas sem olvidar o outro Livro. A saber, se era comum a troca das Escrituras pelo crucifixo, em sua época, [90] Paulo não dispensava a Palavra de Deus por ele chamada de o Livro das luzes.[91]


4.3 - A Palavra

Considerou-se como para S. Vicente Maria Strambi, a instrução, a pregação, e o atendimento sacramental eram fundamentais para o grande Missionário Passionista.[92] Mas é de se enfatizar que as procissões e outras funções foram trocadas conscientemente pelo Fundador. O Santo Bispo não as condena, pois diz textualmente serem "louvavelmente usadas em outras missões", mas penetrando no pensamento de seu biografado, compreendeu como fora sábia a troca que fizera.
Sabia que o missionário Paulo da Cruz dispunha, ele, sua Congregação e suas Missões, de duas grandes "armas": o Crucificado e a Bíblia Sagrada. Tendo a Palavra, ela produziria seu fruto, uma vez que é como uma espada de dois gumes que em tudo penetra: Hb 4,12. É como a chuva que cai do céu e a ele volta, não sem antes produzir o devido fruto.
A Palavra era semeada primeiramente pelo testemunho dos missionários. Eram homens de profunda vida interior, pois antes de irem ao campo apostólico, passavam por longos momentos no deserto, como o Mestre, em profunda intimidade com o Pai: Lc 4,1-12. Eram realmente pessoas conduzidas pelo Espírito Santo, como conduzido por essa força misteriosa e avassaladora foi Jesus, ao iniciar seu ministério: Lc 4,14-15. Tinham consciência que o ramo destacado do tronco jamais poderia produzir o fruto de vida eterna: Jo 15,1ss.
A Palavra que semeavam, além do testemunho de vida autêntica, era em forma de Catequese e de Pregação, conforme a terminologia então usual. Às duas, é de se acrescentar e destacar, a Meditação da Paixão. Cada uma delas mereceria um tratado à parte.
A Catequese consistia em instrução feita por missionários que mantinham um contato mais próximo com o povo. Evocam o Mestre no meio da multidão que, de modo simples, mas profundo, atingia todos, principalmente por meio de parábolas. Àquelas pessoas rudes, entregues às fainas da roça, do pastoreio, da pesca, dos cuidados domésticos, ilustrava por meio de exemplos que lhes eram acessíveis. Assim, ilustrava aqueles corações a respeito do Reino: é semelhante ao semeador que semeia a semente... ao pastor que vai à procura da ovelha... ao pescador que lança a rede... à mulher que usa o fermento...
A pregação catequética era dirigida a todos, mas de modo especial aos que pouco ou mal conheciam os ensinamentos de Deus e da Igreja, bem como a prática e a vivência sacramental. Portanto, atingiam mais o conhecimento. Era luz para a inteligência, se é permitido fazer tal distinção dicotômica. Além de esclarecer e aprofundar o conhecimento das verdades cristãs, cabia ao catequista solidificar a aceitação dessas verdades, fundamentá-las, e até mesmo destruir os óbices, as desculpas, o temor, e o respeito humano que afastavam as pessoas da vida religiosa. Eram dadas ilustrações para que as dificuldades da vivência sacramental fossem superadas.[93]
A Catequese, como já se falou, ocupava dois momentos especiais na jornada: um, pela manhã, após a Missa e Meditação da Paixão.[94] O outro era à noite, antes da Pregação das Máximas. A uma população rural e sem outras alternativas de variedades e de diversões, distante dos burburinhos da vida moderna, livre da escravidão do relógio, nada custava ficar cerca de uma hora ouvindo o missionário catequista. Auxiliavam a linguagem falada, a praticidade dos temas abordados, e os enriquecedores exemplos que se sucediam. Eram inúmeros, jocosos, alguns, e todos ao gosto do povo.
Após a Catequese era a hora da Prática de Máximas. Se com a primeira se procurava tocar a inteligência, a compreensão, com esta, a vontade era fortemente solicitada. Perante o que era exposto, seria de se tomar uma decisão. Aos olhos de todos, aos olhos da comunidade, eram colocados dois caminhos sem outras alternativas: o do bem e o do mal. Um leva ao duradouro e que sempre produz seus frutos; o outro fenece como a árvore não irrigada. As folhas secas são carregadas pelo vento e nada produzem: Sl 1.
O ambiente descontraído deixado pelo missionário catequista mudava num estalar de dedos. Surgia um missionário aparentemente mais austero: o pregador de Máximas. O porte, a impostação vocal, a gravidade e a imponência da voz, a postura sóbria, séria, a eloqüência, impunham-se de imediato. Se o missionário catequista evocava Jesus contando parábolas, o de agora se aproxima mais de Jesus vituperando a hipocrisia ou a impenitência de seus ouvintes: Mt 11,20-14; Lc 6,24ss.
O ambiente se tornava eletrizado. A mudança de um para outro pregador era radical, mas o interesse da comunidade, longe de diminuir, atingia o máximo de tensão. Ninguém se movia. Os corações se escancaravam visivelmente à graça.
Os temas eram os mais fundamentais da fé cristã: novíssimos, o amor de Deus, a gravidade do pecado, as consequências da impenitência. Cada pregação abria a expectativa para o anúncio a ser feito no dia seguinte. Era o momento da decisão. Nada de fugir ao apelo de conversão que era proposto naquele preciso momento. Poderia ser a última ocasião da qual dependia a salvação eterna.
Pela prática das Máximas a vontade era questionada pronta e totalmente. Não bastava apenas aceitar teoricamente os apelos e os ensinamentos do Senhor; era a hora da decisão. A cada colocação do missionário a tensão crescia. Ao final, no momento de se atingir o paroxismo, quando a reação poderia ser inesperada, era colocado o amor misericordioso do Pai, Jesus que como bom pastor procura e acolhe as ovelhas, sem se olvidar o manto protetor de Maria. Mas era colocado o amor misericordioso do Crucificado.
O impacto recebido anteriormente permanecia: mas aos quase amedrontados e desesperados ouvintes era dada uma tábua de salvação. Do possível medo de Deus se passava ao santo temor: 1Jo 4,18. Com o temor confiante no coração, as portas para os filhos pródigos estavam abertas. Bastava levantar-se e voltar à casa do Pai.
As pregações das Máximas eram eivadas de exemplos, assustadores uns, alentadores, outros. Não faltavam fatos das vidas de santos, de almas de Deus, de grandes convertidos, da constância e da perseverança dos mártires, da misericórdia do Senhor. Partia-se do princípio: "Em tudo o que fizeres, lembra-te de teu fim, e nunca pecarás (Eclo 7,40)."
A mente fora iluminada pela Catequese, a vontade, pela Pregação de Máximas. E o coração? Era a hora da Meditação da Paixão. Esta tinha lugar, pela manhã, logo depois da Missa.[95] Mas era usual o pregador das Máximas terminar seu sermão com referências ao amor divino manifestado pelo Crucificado. Se até então o pregador de Máximas parecia Jesus vituperando os infiéis, agora o evocava em sublime colóquio com os irmãos e com o Pai: Jo 15,9ss.
A Meditação sobre a Paixão, como dizia S. Vicente Maria Strambi, formador dos missionários passionistas, tema a ser abordado, não podia levar "apenas a uma terna compaixão e que tudo lavasse com algumas lágrimas." Ao contrário, "deveria levar à esperança na misericórdia divina... à correspondência ao amor de Deus que por nós deu o sangue e a vida sobre um patíbulo infame."[96]
Ela era, além de uma meditação, também um ensinamento de como meditar as dores, os sofrimentos e a morte de Jesus, e principalmente a obediência do Senhor: Hb 10,5-10. O Fundador queria que seus religiosos fossem grandes orantes, mas que além disso, fossem, também, mestres de oração. O missionário encarregado da Meditação sobre a Paixão se postava ante o Crucificado, recolhido, e inflamado, mas pausada e claramente, considerava algum dos sofrimentos do Senhor, como a traição de Judas, a infidelidade dos discípulos, os ultrajes, a flagelação... Assim, a comunidade atenta e recolhidamente meditava e aprendia meditar.
Neste momento se usava muito do que ensinavam os manuais de meditação que proliferaram por ocasião da oração metódica.[97] Ante os sofrimentos do Senhor se interrogava: Quem sofre? Por quem sofre? Quanto sofre? Quando sofre? De que forma sofre? Por que sofre? Como sofre? Que sofre? Para que sofre? Estas e outras interrogações mais eram longamente refletidas, respondidas. Evidenciava-se, na meditação, a enorme distância entre o amor de um Deus que sofre, e o ódio ou a indiferença do pecador que ousadamente se mantinha insensível aos apelos amorosos feitos pelo Crucificado. Indiferença do pecador como a indiferença dos tíbios, que num estado de morte, aparentavam estar vivendo.
Cada sofrimento de Jesus - escárnios, flagelação, crucifixão - podia ser e era longamente refletido, seguindo mais ou menos, o esquema acima. Mas a meditação não era uma consideração meramente afetiva, distante. Ao contrário, levava o orante a se envolver, a assumir o amor de Deus, a assumir-se a si mesmo. A cada participante era dada a possibilidade de considerar-se como ator no doloroso drama da Paixão.
Foi bem observado que a diferença entre Catequese, Pregação de Máximas e Meditação da Paixão está mais na graduação desses e de outros elementos que auxiliam a tornar o anúncio frutuoso. O objetivo não era criar comoções, tocar irresponsavelmente nos sentimentos humanos, mas que, por meio dos afetos, se consiga a conversão, a transformação de vida. Por isso, as três deviam estar profundamente concatenadas, partindo sempre da Paixão de Jesus.[98]
No fundo, eram recursos distintos que deveriam tocar o ser humano como um todo em suas diversas potencialidades. Inteligência, vontade e coração eram atingidos pela Palavra que transforma.
Esses recursos metodológicos da Missão Passionista eram algo original num ambiente de fragmentação, de radicalização. O equilíbrio antropológico é marcante e, sem dúvida, merece ser refletido nos dias atuais, sobremaneira por todos os que querem seguir as pegadas de Paulo da Cruz.


4.4 - Em função da Palavra

Paulo reduziu muito a exterioridade usada por outros missionários, como as chocantes cenas públicas de penitência, as apresentações cênicas de impacto, principalmente as referentes à Paixão. Isso não significa que eliminasse simplesmente os chamados recursos metodológicos, pedagógicos, didáticos. A moderação sempre o caracterizou, embora nos primeiros tempos tivesse cometidos seus exageros, principalmente no uso de atos penitenciais públicos ou privados. Preferiu não chocar os ouvintes. Ministrava o pão da Palavra, confiando, a seguir, na graça de Deus e no uso criterioso da liberdade humana. Na prática, os recursos metodológicos não eram uma finalidade em si, mas deles lançava mão em função da Palavra.[99]
Tomou tal decisão conscientemente, considerando que muita exterioridade distraía e desconcentrava o povo, impedindo-o de refletir e considerar as verdades que lhe haviam sido passadas. A mensagem divina dissipava-se em meio a tanta coreografia teatral. Grande parte das encenações foram então, eliminadas do cerimonial adotado missionário passionista.[100]
Assim mesmo eram usados vários recursos, mas em função da Palavra. Esta permanecia sempre destacada, e aqueles estavam em função desta.
Era marcante nas missões passionistas o uso de um palco, uma espécie de mesa grande substituindo o púlpito.[101] Ordinariamente ficava mais próximo do povo, perto da balaustre ou mesa da comunhão. De lá os missionários dirigiam a Palavra à multidão. O pregador era visto de corpo inteiro, sem cansar a comunidade, como acontecia quando a pregação era do púlpito, ordinariamente bastante alto. Havia um grande equilíbrio entre estar próximo e estar destacado. Estar destacado, sem se impor. Destacar-se sem se exaltar, isto é, sem estrelismo. A distinção era para melhor servir. O ambiente solene, de peso, dado o destaque, todavia um grande aconchego era sentido pelos que tomavam parte na missão, pela vizinhança do missionário no meio da comunidade.
O palco tirava o possível ar de empáfia ou de altivez, acabava com a expectativa de peça oratória, de encontro com um tribuno. Era uma espécie de barca donde Jesus pregava ao povo que o comprimia.
O missionário assim destacado não era "peça" única no cenário. Nem o centro das atenções, não obstante a dignidade diaconal de ser o porta-voz de Deus. Destacava-se a imagem do Crucificado que atraía a devoção de todos. Ao lado da cruz, junto ao Filho, estava a Mãe: Nossa Senhora das Dores. O conjunto era realmente belo, mas sóbrio e piedoso.
Algumas vezes o pregador, como porta voz da Palavra se tornava o centro das atenções. Mas, de tanto em tanto, olhos e corações, incluindo os do missionário, se voltavam para o Crucificado, para Nossa Senhora das Dores, conforme o caso. Era quando o missionário se dirigia a Jesus, a Maria. Nessa hora, empaticamente a comunidade se sentia elevada e levada a dialogar com eles por meio de quem a representava, no palco. Outras vezes, contrita e confiante, sentia no fundo do coração que o Senhor e a Mãe Dolorosa lhes dirigia a palavra, por meio do ministro que lá estava. Amiudadamente quem falava alto eram os momentos de silêncio. Silêncio completo não fôra os soluços sufocados, cá e lá. Com o pregador todos se prostravam confiantes ante o Crucificado misericordioso, ante a Mãe Dolorosa e compassiva.
O missionário genuflexo e recolhido ante o crucifixo, falando com o Senhor na cruz, durante a Meditação sobre a Paixão, constituía uma pregação à parte. Nada de maior dramaticidade. Era deixar o coração falar ao Coração lancetado, era ouvir o Coração que, tendo amado, amou até o fim: Jo 13,1. Simplesmente rezava; e rezando, ensinava a rezar.
Piedosos cânticos criavam um clima especial, antes das pregações. Eram de arrependimento, de exaltação à cruz, em louvor a Maria. Além de servirem para relaxar um pouco, depois de uma hora ouvindo o missionário catequista, preparavam os corações para a nova pregação que teria lugar: a pregação de Máximas. Os corações se predispunham para o novo tema que seria exposto, a seguir.
Não que os cânticos fossem breves e raros. Ao contrário, eram não só numerosos, como pastoral e pedagogicamente conhecidos e apropriados. Muitas vezes eram litânicos, avivando a participação popular. E entre um e outro eram repetidas jaculatórias, palavras de ordem das quais a mais frequentemente usada era: Senhor, eu vos agradeço o terdes morrido na cruz pelos meus pecados. Meu Jesus, misericórdia! Virgem das Dores, rogai a Jesus por mim. A insistência, a cadência, a solenidade da repetição marcava indelevelmente o coração do povo. Com isso os ânimos se inflamavam, criava-se uma atmosfera de expectativa, e até de sacralidade. Era quando entrava circunspecto, composto e sério, o pregador de Máximas.
Além do uso de jaculatórias entre os cânticos, entre uma pregação e outra, e também ao se iniciar uma nova atividade, era comum mencionar alguns lembretes ou dizer sentenças bem escandidos. Rimados e ritmados, condensados, mas substanciosos, repetidos pausada mas solenemente, pareciam golpes de aríetes que derrubavam os muros de resistência no coração humano. Usavam-nos segundo o tema, segundo as circunstâncias, sendo que alguns deles eram repetidos sistematicamente todos os dias.
Exemplo de alguns, escolhidos por rimarem em português:
· "Uma alma só, nós temos. Oh! Que horror se a perdemos!"
· "A vida é breve. A morte é certa. Do morrer, a hora é incerta"
· "Deus sempre está presente. A todos vê o Onipotente"
· "Pensemos bem que quem pecou, a morte de Jesus causou"
· "Esta vida breve acabará. E a eternidade nunca findará"
Esses lembretes, quais provérbios, eram facilmente gravados até por mentes não tão ilustradas. Além disso, as poucas palavras valiam por uma pregação. Todos, solene e convictamente, repetiam o que era proposto pelo missionário.
E não é de se esquecer de Nossa Senhora das Dores. Sua invocação era férvida e cadencialmente cantada: "Em meu peito, em minha mente, imprimi ó Mãe Dolente, as chagas do Crucifixo.
Vale à pena fazer com que alguns desses lembretes cheguem a nós, no original, para melhor saborearmos a mensagem e o recurso pedagógico. Lembremo-nos de que esse recurso, usual em todos os povos, chegou às Escrituras, principalmente nos Livros Sapienciais. Ele parte da experiência do povo e fala mais que mil palavras:
· "Vi prego, o Gesù buono. Per la vostra Passion. Darci il perdono!"
· "Ascolta, o peccator oggi la vocce. Di Gesù per tuo amor confitto in croce!"
· "Gesù a pianger t´invita i tuoi peccati; per non piangerli poi com i dannati!"
· "Deh! Pentiti or, ché perdonarti brama, e da sordo non far mentre ti chiama!"[102]
Não há como ignorar a sabedoria presente em tais "provérbios", não há como desconhecer a origem popular dessas pílulas de sabedoria, não há como refutar a atualidade e a eficácia de seu uso. Basta ter um mínimo de empatia com a alma popular para descobrir a perenidade pastoral dessas fagulhas do céu. Basta, ainda, um mínimo de experiência pastoral para se descobrir o alcance da validade de tais recursos.


4.5 - E os Missionários?

O Santo Missionário deixou escrito que, fundando sua Congregação a queria em nada diferente da comunidade apostólica, e em condições de formar homens integralmente de Deus, apostólicos. O ser de Deus e o ser apostólico levariam os religiosos a se tornarem fecundos, gerando, assim, muitos filhos para o céu.[103]
Para ele, portanto, antes de tudo, o passionista devia ser um ramo intimamente ligado ao tronco da Divina Videira, dela recebendo a seiva vital, e conseqüentemente, em condições de produzir a uva sazonada: Jo 15,1ss. Para ele, o apostolado é fruto necessário e único da vida de íntima união com Deus. Seja ele qual for, missão, retiro, vida claustral, é antes uma realidade celeste.
Todavia, permanece a pergunta: o apostolado, que é realidade celeste, pode deixar de ser também terrestre? Se no momento é oportuna a distinção, contudo, é de se ter presente o que foi dito anteriormente: ambas devem formar um todo indissolúvel.[104] Para Paulo da Cruz o apostolado é a resposta a um chamado especial que vem do alto com o conseqüente envio, com o conseqüente "eu estarei contigo"; mas como encarava ele essa vocação como realidade terrestre?
Para ser necessariamente apóstolo não exigia que seus seguidores fossem unicamente pregadores de missões populares. Estas eram uma das muitas modalidades de apostolado. Como apóstolos todos deveriam ter uma preparação comum aos demais religiosos, a saber, a intensa vida de oração, de partilha comunitária, de reflexão, de estudo. Sem olvidar seu carisma caracterizante: a memória da Paixão.
Os passionistas que abraçavam a vida clerical fariam, logicamente o currículo exigido, então. Uma vez ordenados, principalmente em vista das missões populares, dedicariam um ano a estudos específicos. Era o conhecido curso de Sagrada Eloquência. Não era um período dedicado apenas à aprendizagem dos recursos de retórica como pode sugerir o nome. Os futuros missionários se preparavam para as atividades que caracterizavam as missões passionistas.
Falou-se, anteriormente, que a missão popular passionista atingia o ser humano como um todo. Principalmente no que o especifica: a inteligência, a vontade, o afeto ou o coração. [105] Nada era mini ou maximizado. São Vicente Maria Strambi, precisamente um dos professores de Sagrada Eloquência da primeira geração de futuros missionários escreveu que a pregação missionária deveria procurar que, por meio dos afetos se chegasse a uma decidida resolução de correção dos costumes ou melhoramento do teor de vida.[106] Sem os exageros em voga naqueles tempos, entretanto.
Os clérigos passionistas passavam pela preparação exigida, então: após o noviciado tinham lugar a filosofia e a teologia que duravam seis anos. Após a ordenação, os recém-ordenados passavam pelo ano de Sagrada Eloquência. Era um ano dedicado mais intensamente aos estudos de pastoral própria da Congregação. A arte oratória, quer para pregadores, quer para conferencistas, quer para catequistas, ocupava lugar destacado. Tudo era levado na devida consideração: desde a postura corporal, passando pela impostação vocal, pela califonia, pela califasia. Os jovens padres faziam apresentações à comunidade que os auxiliava, corrigia, dava opiniões e os avaliava. Ao término do curso eram submetidos, bem como seus escritos, à análise de uma banca com três examinadores.[107]
Jamais se enfatizará suficientemente que um dos mestres de Sagrada Eloquência foi S. Vicente Maria Strambi. O Santo, preparando os futuros missionários, sobremaneira para o que era específico da Congregação, a saber, a Paixão de Jesus, ia além do que fazia grande parte de outros missionários. Estes se detinham e enfatizavam o que se convencionou chamar de dolorismo ou de teatralidade. O Santo partia das narrações evangélicas, insistindo nos ensinamentos paulinos ou tidos como tais, não olvidando os Profetas. Passava pelos Santos Padres, pelos documentos eclesiásticos.[108]
Para felicidade dos pósteros alguma coisa escrita por tão insígne e fecundo mestre chegou aos dias atuais. Assim, são conhecidos esquemas de sermões, orientações, sínteses, resumo de aulas dadas aos jovens religiosos que se preparavam para semear a Palavra ao povo faminto.[109]
Eram, então, preparados os missionários que se encarregavam da Catequese, da pregação de Máxima e da Meditação sobre a Paixão. Objetivava-se, então, atingir a inteligência, a vontade e o coração, respectivamente, dos que participavam das missões, como já se disse.
Os missionários catequistas procuravam ilustrar e aprofundar os conhecimentos doutrinais, falando sobre a lei de Deus e a lei da Igreja, sobre a vida sacramental, sobre as verdades fundamentais da fé. O supracitado Santo, tão considerado pelo Fundador, e precisamente professor de Sagrada Eloquência, recomendava que os meios usados deveriam ser os mais fáceis para que se atingisse o que estava sendo ensinado.[110] O Missionário Catequista era preparado com o fim de usar uma linguagem coloquial, carregada de bom humor, ilustrada com exemplos e fatos.
Mesmo mantendo a postura que convinha a um anunciador da Palavra, deveria ser mais acessível, mais chegado ao povo, sabendo usar expressões populares típicas. Saberia, no momento certo, com palavras certas, misturar o sério e o jocoso. Ensinando, manteria a comunidade descontraída, interessada, envolvida.
O Pregador de Máxima, sem se assemelhar a um irado Júpiter dardejando raios e trovões, apresentava-se mais sério, mais circunspecto. Sem se colocar acima ou distante do povo, impunha um certo respeito, uma profunda seriedade. Tocava com seu porte, com seu testemunho, com suas palavras o mais profundo da vontade humana para que respondesse pronta e sem reservas ao apelo divino. Enfim, abordava temas que deveriam atingir diretamente a inteligência: as máximas eternas, o pecado, a Paixão...
É ainda do santo e prático professor de Sagrada Eloquência a recomendação de que o Pregador de Máximas devia visar à compreensão dos ouvintes e aos seus corações, para que a Palavra lhes atingisse a alma. Atingir o íntimo das pessoas com palavras claras, vigorosas, mas com respeito, doçura e caridade. Não para suscitar sentimentos passageiros, mas sincera conversão de vida.[111]
Embora aparentemente discreto, era dada grande importância ao missionário que fazia a Meditação sobre a Paixão, também conhecido como "Motivo da Paixão".[112] A meditação sobre os sofrimentos e morte de Cristo era feita depois da missa matutina, ou também pelo Pregador de Máximas, ao término de sua alocução. Essa meditação era típica da missão passionista. Era um diálogo de coração a coração, prostrado ante as imagens do Crucificado, da Virgem das Dores, que estavam no palco. Na ocasião o missionário meditava em voz alta, pausada e piedosamente a Paixão de Jesus. Rezava e ensinava rezar. O momento era de grande elevação, de muito fervor. Nesse momento de profunda piedade e de intensa comoção, confrontava a gravidade e a malícia do pecado e o amor misericordioso de Deus manifestado pela cruz de Jesus. Nada de dolorismo ou de "teatralidade" como soía acontecer entre outros pregadores, então.
A preparação recebida pelos missionários era séria e especializada. Nota-se que a Teologia da Cruz, atualmente redescoberta, e que Paulo buscou em Taulero, adaptando-a, aprofundando-a, foi assimilada também por Vicente Strambi que a passava aos seus alunos. Assim, ela chegava ao povo de Deus que, sutilmente descobria o alcance do mandamento deixado pelo Senhor: fazei-o em minha memória.



V - E AGORA?

O retorno ao passado geralmente é acompanhado de gratas novidades, pois mostra um modo de ser, de pensar, de agir, das pessoas. É cultura, é experiência, é vida que chegam de alguma maneira ao presente. Enfim, o rio, mesmo na fecundidade de seu percurso, na grandiosidade de seu desaguar no mar, jamais pode olvidar a fonte. Na sua aparente insignificância ela traz a riqueza que surge do seio da terra. Traz a luz de um mundo aparentemente mergulhado em trevas.
A fonte deve prolongar-se na piscosidade do rio, na comunicabilidade de seu curso avolumado por outros afluentes, na fecundidade dadivosa que leva aos campos que corta, na luz, na energia, no calor e no frio, gerados pelas águas represadas. A fonte se prolonga na vida que leva, na limpeza e no frescor que propicia, na alegria do lazer.
Mas é do rio vincular-se a ela, ai buscando a esperança, a força de um sonho, de um ideal.
Algo semelhante é encontrável nas Famílias Passionistas, sobremaneira aqui no Brasil, que com renovado vigor reassumem o que tanto nos destinguiu e nos caracterizou: as Missões Populares.
Depois de uma dolorosa hibernação por parte do ramo masculino, elas começam a surgir, cá e lá, neste país continente. De maneira nova, um tanto timidamente, mas sem dúvida, enriquecida. Enriquecida por novas ideias, por renovado entusiasmo, pela comunhão existente entre as diversas Famílias Passionistas. Religiosos, religiosas, leigos e leigas, com ou sem votos, estão assumindo conjuntamente as Missões Populares Passionistas.
O entusiasmo no seio do povo não é menor. É só interrogar quem delas pode participar. Os frutos... bem os frutos da graça, quem os pode ponderar? Assim mesmo não há exagero e nem contradição em dizer: são fecundos. Quem "missioneia" se sente, agradecido, instrumento de Deus, mas também se sente "missionado". Crescem o fervor, o entusiasmo. Descobre-se a fecundidade da Família.
Algo novo acontece também no entusiasmo-comunhão entre os poucos missionários do passado e a força jovem, numerosa, que vai surgindo. Uns querendo colaborar com os outros, estes querendo aprender daqueles. Tudo em duas mãos. Ou melhor, tudo em comunhão.
Agora, a Coleção "Paixão pela Vida" está oferecendo um espaço para Paulo da Cruz como missionário, para a metodologia missionária. Sem a menor dúvida, como no rico diálogo fonte-rio. É o que apresentamos neste pequeno volume. Foi uma riqueza, para nós, a investigação proposta. Tivemos que nos limitar ao espaço que nos foi dado, e o entusiasmo e a solicitação para aprofundamentos dificilmente eram mantidos pelas margens impostas, limitadoras, é verdade, mas também direcionadoras.
Oferecemos este trabalho com tantas limitações, mas na esperança de que proporcione novas investigações, e principalmente, novos entusiasmos missionários. Que o entusiasmo seja alimentado pelo que chamamos de diálogo fonte-rio. Novidades, adaptações devem surgir. Mas a fidelidade a uma esperança, a um objetivo, ou melhor, a um carisma tão bíblico, tão do Senhor, devem ser mantidos: fazei-o em minha memória.
Refletindo a caminhada do Fundador ousaríamos adiantar algo a ser pensado, pois são valores perenes:
· Como assumir a Devoção e a Memória da Paixão, sem identificá-las, sem torná-las excludentes, valorizando-as e na devida proporção para que cada uma produza seu devido fruto?
· Como incorporar equilibradamente os valores da teologia popular sem cair na "minimização" ou na "maximização"?
· Como equilibrar o devido tempo entre Palavra e Celebração? O forte da Missão não seria o espaço maior a ser reservado à Palavra (1Cor 1,17)?
· Como, à maneira do Fundador, manter a Missão antropologicamente equilibrada, valorizando a mente, a vontade, o coração atingindo o ser humano como um todo?
· Como transformar a Missão em escola de oração?
A busca das respostas justifica o objetivo deste estudo: O missionário Paulo da Cruz - Metodologia missionária.


BIBLIOGRAFIA

BRETON Stanislas - La Passion du Christ e sa Vertu - Cúria Geral Passionista - Roma - 1991.
BROVETTO Costante - Struttura Apostolica della Congregazione dei Passionisti – Cúria Geral Passionista – Roma – 1978.
DI BERNARDO Flavio - La “Meditatio Vitae et Passionis Domini” nella spiritualità cristiana – Cúria Geral Passionista – Roma – 1980.
GIORGINI Fabiano - La Congregazione della Passione di Gesù – Cúria Geral Passionista – Roma – 1986.
GIORGINI Fabiano - Coondizioni per diventare uomini d´orazione nella dottrina de S. Paolo della Croce – Cúria Geral Passionista – Roma – 1980.
GIORGINI Fabiano - La Missione Popolare Passionista in Italia –Cúria Geral Passionista – Roma – 1986.
LYONNET Stanislas - Etudes sur L´Epître aux Romains - Pontificio Istituto Biblico - Roma -1989.
ODORÍSSIO Mauro - S. Paulo da Cruz - Uma leitura bíblica - Loyola - S. Paulo - 1993.
ODORÍSSIO Mauro - Fazeio-o em minha memória - Ave Maria - S. Paulo - 2000.
ODORÍSSIO Mauro - S. Paulo da Cruz 300 Anos - CLAP - 1994 - Ano 3 - Nº 1.
PAULO DA CRUZ - La Congregazione della Passione de Gesù Cristo – Cos´è e cosa vuole – Paulo della Croce – Cúria Geral Passionista – 1978.
PAULO DA CRUZ - Lettere di S. Paolo della Croce (5 vol.) – Cúria Geral Passionista – Roma – 1977.
STRAMBI Vicente Maria - Vita del Servo di Dio P. Paolo della Croce - Lazzarini - Roma - 1786.
VVAA - Le fonti della spiritualità de S. Paolo della Croce – Ed. C.I.P.I. – Roma – 1994.
ZILLES Urbano - Didaqué - Catecismo dos Primeiros Cristãos - 2ª Ed. - Vozes - Petrópolis - 1971.
ZOFFOLI Enrico - S. Paolo della Croce (3 vol.) - Cúria Geral Passionista – Roma – 1968.

Fontes manuscritas. Arquivo Geral Passionista (AG) - Roma - Santos João e Paulo:
STRAMBI Vicente Maria - Manuscritos do Santo.


[1] - Paulo da Cruz - Let IV, 217.
[2] - Odoríssio M - S. Paulo da Cruz. Uma leitura bíblica - págs. 20-22.
[3] - Paulo da Cruz - Let IV,217.
[4] - Odoríssio M - Fazei-o em minha memória - pág. 66.
[5] - Odoríssio M - Fazei-o em minha memória - pág. 74.
[6] - Giorgini F - Condizione per diventare uomini d´orazione - pág. 18.
[7] - Paulo da Cruz - La Congregazione della Passione di Gesu cos´é e cosa vuole - pág. 11.
[8] - Breton S - págs. 25-29.
[9] - Brovetto C - págs. 13-16.
[10] - Brovetto C - pág. 10.
[11] - Zilles U - Didaqué - pág. 79.
[12] - Ibid. pág. 35.
[13] - Ibid. pág. 35.
[14] - Ibid. págs. 34.38.
[15] - Broveto C - pág.10
[16] - Paulo da Cruz - La Congregazione della Passione di Gesù cos´é e cosa vuole - pág. 7.
[17] - Di Bernardo F - pág. 13.
[18] - Ibid. - pág. 17.
[19] - Ibid. - pág. 17.
[20] - Ibid. - pág. 18.
[21] - Cf. pág. 12.
[22] - Di Bernando F - pág. 22.
[23] - Ibid. pág. 22.
[24] - Ibid. pág. 22.
[25] - Ibid. pág. 20.
[26] - Lyonnet S - págs. 16-35.
[27] - Di Bernardo F - pág. 40.
[28] - Pág. 8.
[29] - Pág. 10.
[30] - Pág. 12.
[31] - Pág. 14.
[32] - Pág. 16.
[33] - Pág. 18.
[34] - Pág. 22.
[35] - Zoffoli E - I Vol. - pág. 39.
[36] - Ibid. - pág. 128.
[37] - Ibid. - pág. 425.
[38] - Paulo da Cruz - Let I - pág. 421.
[39] - Ibid . Let IV - pág.220.
[40] - Zoffoli E - S. Paolo della Croce II - pág. 1041
[41] - Odoríssio M - S. Paulo da Cruz - Uma leitura bíblica - pág. 20.
[42] - Zoffoli E - S. Paolo della Croce III. O Autor traz um alentado elenco das atividades missionárias do Santo. Cf págs. 1223 a 1406.
[43] - Paulo da Cruz - Let II - pág. 272.
[44] - Paulo da Cruz - La Congregazione della Passione - n. 2-3.
[45] - Ibid. Let. III - 417.
[46] - Odoríssio M - S. Paulo da Cruz - Uma leitura bíblica - pág. 26.
[47] - Zoffoli E - Vol. I - pág. 396.
[48] - Pág. 13.
[49] - Zoffoli E - Vol II - pág. 1441.
[50] - Ibid. Vol. II - pág.89, e Paulo da Cruz - Let. IV - pág. 79.
[51] - Ibid. pág. 18.
[52] - Paulo da Cruz - Lettere - Vo I - pág. 73.
[53] - Zoffoli E - Vol. I - pág. 344.
[54] - Odoríssio M - "Cuadernos Pasionistas Latino Americanos" - CLAP e "Fazei-o em minha Memória". Ver Bibliografia, pág. 60. Citamos o texto em português.
[55] - Odoríssio M - Fazei-o em minha memória - pág. 66.
[56] - Zoffoli E - Vol I - pág. 161.
[57] - Paulo da Cruz - Let - Vol I - Pág. 1.
[58] - Ibid. - Let. IV - págs. 217-222
[59] - Ibid. Let. I - pág 160.
[60] - Ibid. Let IV - pág. 218.
[61] - Pág. 34.
[62] - Zoffoli - I Vol - pág.343.
[63] - Pág. 34.
[64] - Ibid. III Vol - pág. 1077
[65] - Odoríssio M - Fazei-o em minha memória. Nesse estudo tecemos considerações mais detalhadas e profundas: págs. 85ss.
[66] - Paulo da Cruz - Let IV - pág. 325.
[67] - Ibid. - Let IV - pág. 328.
[68] - Ibid. Let I - pág. 21.
[69] - Zoffoli E - II - pág. 1005.
[70] - Pág. 34.
[71] - Paulo da Cruz - Let I - pág. 19, e Let IV - pág. 229.
[72] - Zoffoli E - I - págs. 1257.1261 - Aconselharíamos, a leitura de Let III - pág. 294. Na carta o piedoso Ancião pede a um religioso que envie seus escritos que praticamente estavam aposentados.
[73] - Paulo da Cruz - Let. II - 276.
[74] -Zoffoli E - II - pág. 802.
[75] - Pág. 16.
[76] - Odoríssio M - Fazei-o em minha memória - pág. 74.
[77] - Ibid. - págs. 83ss.
[78] - Odoríssio M - S. Paulo da Cruz 300 anos - pág. 61.
[79] - Pag. 19.
[80] - Giorgini F - La missione popolare passionista - pág. 4.
[81] - Zoffoli E - S. Paolo della Croce - Vol. I - pág. 239.
[82] - Giorgini F - La missione populare passionista - pág. 6.
[83] - Ibid - pág. 8.
[84] - Ibid. pág. 13.
[85] - Ibid - pág. 8.
[86] - Zoffoli E - I Vol. - pág. 398.
[87] - Zoffoli E - II Vol - pág. 44.
[88] - Ibid - pág. 779.
[89] - Giorgini F - La missione populare passionista - pág. 50.
[90] - Pág. 16.
[91] - Odoríssio M - S. Paulo da Cruz - pág. 77.
[92] - Pág. 40.
[93] - Giorgini F - La missione popolare passionista - pág. 14.
[94] - Pág. 37.
[95] - Pág. 37.
[96] - cit. em Giorgini F - La missione popolare passionista - pág. 15.
[97] - Pág. 18.
[98] - Giorgini F - La missione popolare passionista - pág. 14.
[99] - Zoffoli E - Paolo della Croce - Vol. 2 - pág. 803.
[100] - Giorgini F - La missione popolare passionista - pág. 7.
[101] - Ibid - pág. 4.
[102] - Zoffoli E - Paolo della Croce - Vol. 3 - pág. 1186
[103] - Paulo da Cruz - La Congregazione della Passione di Gesù - pág. 7.
[104] - Pág. 6.
[105] - Pág. 52.
[106] - AG - Strambi V.M. - págs. 46-47; 65-67.
[107] - Giorgini F - La Missione Popolare Passionista - pág. 16.
[108] - Ibid. pág. 15.
[109] - AG - Strambi V. M. págs. 48-65.
[110] - ibid - págs. 58-59.
[111] - Strambi V. M. - Vita del Servo di Dio - pág. 346.
[112] - P ág. 47

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