quarta-feira, 6 de maio de 2009

Cura dos Pecados: como combatê-los.


Cura dos pecados: “Um Olhar Que Cura “, Pe. Paulo Ricardo.

Amor próprio em exagero = gostar e preferir a si mesmo = philia – autos ( filáucia ).
“Amor próprio” :
gula ( que leva à luxúria ),
avareza ( desejo de poder e riqueza ),
vaidade/ vanglória ( conceito inflacionado de si , que leva ao orgulho – Eclo 10,15 ).
Pecados:
1.Vaidade.
2.Avareza.
3.Inveja ........tristeza.
4.Ira.
5.Luxúria.
6.Gula.
7.Preguiça..........acídia .
*Soberba ( Eclo 10, 15 ) : raiz do “amor próprio”.
O irado ( ira ) luta para satisfazer os pecados de 1 a 5 .
O deprimido = tristeza e acídia por não ser feliz.
“Amor próprio” = amor irracional pelo próprio corpo , gera gula, avareza, vanglória ( tentações de Cristo no deserto ).
Prole da gula ( pecado de Adão no Gênesis: “comer o fruto proibido ) : espírito de fornicação ( luxúria e pecados sexuais ) , dureza de coração, sono, maus pensamentos, embotamento da mente, imundície, impureza, tagarelice, preguiça, mexerico, atrevimento, chacota, bufonaria, contestação, alegria inepta, birra, desobediência, insensibilidade, escravidão , auto-suficiência, arrogância, exibicionismo, oração impura, pensamentos agitados.
Gula = comer e se esquecer de Deus ( apego à criatura ) X comer em ação de graças ( gratidão e importância da oração às refeições ):
1.loucura da boca ( prazer da boca: paladar ),
2.loucura do ventre ( encher a barriga ).
“Esposa louca” = amar o anel e não o esposo que lhe deu o anel.
Pecados capitais = pensamentos.
Pecado original = filhos da mentira ( Jô 8 ,44 ) = dificuldade nossa para acolher a verdade, mentiras para justificar o próprio pecado, enganar-se.
Felicidade = necessidade ( Fl 3, 18-20 ) X prazer = idolatria ( Rm 6,23 ) .
Gula ( S.Gregório Magno ):
1.alegria inepta = alegria alucinante e sem fundamento, ilusória, oca,simulação de alegria;
2.escurrilidade = palhaçada, atos humilhantes, palavras desonrosas ( mas os orgulhosos e fanáticos são mal-humorados ) ;
3.impureza = relação entre gula e luxúria ;
4.tagarelice = falar em excesso, prazer em falar ( silêncio = jejum de palavras );
5.embotamento da mente = alma pesada, sonolência, falta de penetração e de profundidade.
Guloso = desobediente, cabeçudo, obstinado, surdo.
Cura da gula = jejum ( temperança ).
Ordenação = freio em carro ( para evitar excessos perigosos de velocidade e colisões ).
Dominar o corpo para vencer a gula ( 1 Cor 9, 25-27 ) = mortificação ( 1 Tm 4, 1-5 ) :
1.jejum ( 2 Cor 11, 27 ) - quartas e sextas-feiras - restrição alimentar ascética , moderada e perseverante ( “sair da refeição ainda com apetite” : a) uma refeição em horário tardio ( jejum ) ou b) abster-se de alimentos saborosos ( abstinência );
2.vigília ( disciplinar sono );
3.trabalho.
Outras práticas:
1.lectio divina;
2.arrependimento dos pecados;
3.meditação sobre a morte (recordação da morte e julgamento ).
Pornéia = luxúria = fornicação = uso patológico da sexualidade ( a causa não é do corpo mas da alma pervertida e viciada ).
Sexualidade não é divina ( não é Deus ) mas é sagrada ( leva o homem a um contato maior com Deus – simbologia sexual mostra o relacionamento entre Deus e seu povo ) .
Contra a luxúria : 1 Ts 4 , 3-5 ; 1 Tm 4, 1-5 ; Gn 1 , 31.
Puritanismo = heresia, parcialidade por censurar as criações puras de Deus ( S.João Crisóstomo ).
Pessoa “ordenada” = sexualidade orientada para o amor ( matrimônio único, indissolúvel, heterossexual ).
Desordem = trocar Deus pelos bens deste mundo:
1.distância de Deus e dos gostos espirituais para desejar a gratificação sexual;
2.longe de Deus = longe de si = fora do centro = excêntrico = alienado = centro em paixões ( =pecados ) e desejos ( = si mesmo como ponto de referência, fora da realidade,distraído, disperso, faculdades da alma submetidas ao instinto );
3. parcial, insensível à totalidade do que existe;
4.o outro não é pessoa, é meio de satisfazer desejos ( 2 Sm 13 , 14-16 );
5.relacionamento egoísta ( senhor X escravo ), sadomasoquista ( idolatria ).
Ordenação :
1.homem criado para Deus, desejar união com Deus;
2.amar o próximo pelo amor de Deus;
3.amar e ser livre ( ídolos devem ser quebrados );
4.virtude da castidade = confiança em Deus e desconfiança de si mesmo .
Matrimônio ( três bondades ):
1.fé: fidelidade matrimonial;
2.prole: filhos educados e recebidos com amor, nutridos com bondade e religião;
3.sacramento: aliança com Cristo, selada pela Graça do Espírito Santo para que não se desfaça ).
Verdade : o caminho mais seguro é a revelação ( distorções possíveis no pensamento filosófico por falta de virtudes – parcialidade – do pensador ).
Verdade Divina = de acordo com o projeto de Deus, a verdade a respeito da criação . Afastamento da Verdade Divina = morte.
Verdade humana = não podemos criar a verdade. Buscar a verdade já criada ( = pensada ) por Deus , encontrá-la , obedecê-la.
“Verdade conhecida = verdade obedecida”!
Medida da verdade: coisas precisam se adaptar a Deus, homem precisa se adaptar às coisas adaptadas a Deus.
Pecado original = tendência a ocupar o lugar de Deus ( = “sereis como deuses!” ), desobediência à verdade, criar ele mesmo a “sua” verdade, ser como Deus criador ( Mt 7, 27 ).
Terapia da castidade:
1.combate vigilante: sofrer, esforçar-se ( não ficar “tranqüilo na mediocridade” );
2.reconhecer limitações, pobreza, para experimentar amor misericordioso;
3.abandonar egocentrismo e narcisismo, esvaziar-se para Deus;]
4.”concede-me o que me ordenas e ordena o que quiseres” – S. Agostinho = vencer a natureza por Aquele acima da natureza ( Deus ) – superior sobre o inferior.
Combate físico:
1.trabalho manual: evitar ócio, obter cansaço físico ( “ganhar o pão com o suor de seu próprio rosto” ); esportes são opções;
2.vigílias: ascese do sono – dormir e acordar cedo, em horário determinado; fazer o sinal da cruz ( ser chamado por Deus ao dormir e acordar ) ; humildade e disciplina – Sl 127, 2 ;
3.jejum ( há ligação entre gula e pornéia );
4.fugir de ocasiões de sedução ;
5.guardar os sentidos ( olhar e tato ): cuidado com a qualidade e a quantidade de estímulos – Sl 42 ( 41 ) , 8 .
Combate espiritual:
1.guardar o coração = uso da palavra de Deus contra tentações ( “método antirrético” ) ou simplesmente fugir sem debater com o demônio ( que também conhece mas distorce a palavra – ver as tentações de Cristo ) ;
* táticas do diabo:
-antes de pecar, induz ao erro : “Deus misericordioso que tudo perdoa”;
-depois de pecar, afunda no desespero : “juiz terrível que tudo condena”;
2.humildade = combate a soberba, princípio do mal; a humildade vem da verdade e da sinceridade ( = somos vulneráveis );
Jejum e humildade = braços do nadador
3.contrição = coração contrito é fonte de humildade;
Contrição ( sofre pelo mal causado e pela ofensa a Deus, leva ao arrependimento ) X complexo de culpa ( não chora o pecado, mas a auto-imagem ferida, orgulho ferido )
4.oração e recordação da morte ;
a) oração de Jesus:
-inspira: “Senhor Jesus Cristo, filho de Deus vivo...”
-expira: “...misericórdia de mim, pecador!”;
b) lectio divina ;
c) não confiar no corpo.
Avareza = amor exagerado pelo possuir.
1.vontade de possuir cada vez mais;
2.dificuldade de se desprender das coisas, falta de generosidade.
Cl 3, 5 ; Ef 5, 5 ; Lc 16, 13; Mt 6, 24; 1Tm 6, 10; Lc 12, 20.
Causas da avareza:
1.amor ao prazer: pagar e sustentar prazer;
2.vaidade: adquirir prestígio social, vanglória;
3.falta de fé: quem não deposita em Deus sua fé e confiança procura segurança nas coisas ( falsa previdência ).
Conseqüências da avareza:
1.relacionamento com Deus: falta de fé e esperança ( idolatria das coisa = falso deus );
2.relacionamento consigo mesmo: confiança no falso deus = ao invés de se apaziguar, fica mais agitado, medroso, ansioso, triste, depressivo, sem liberdade, alienado e possuído pelos bens do mundo;
3.relacionamento com o próximo ( 1 Tm 6, 10 ) : traição, fraude, falácia, perjúrio, inquietação, violência, dureza de coração, falta de misericórdia, relacionamento interesseiro, crueldade , etc. = pessoa é meio para enriquecer;
4.supervalorização das coisas perecíveis e destrutíveis ( Mt 6, 19-20 ) .
Sintomas da avareza:
1.prazer de possuir coisas;
2.preocupação em conservá-las;
3.dificuldade e angústia de doá-las e de se separar delas.
Virtudes opostas à avareza:
1.pobreza ( = não possuir );
2.esmola ( doação );
3.justiça, liberalidade, magnificência.
Ciclo “vanglória - avareza - vanglória( altivez )” .
Riqueza = bem útil, meio ( não fim ).
Terapia da avareza (pecados devem ser cortados antes da instalação do vício) :
1.conhecer a doença, preservar saúde( profilaxia );
2.conhecer as coisas = são meios passageiros ( Mt 6, 20 ; 1 Cor 7, 29-31 ) ;
3.fé sólida em Deus( Mt 6, 19-34 ) para se acalmar ;
4.contentar-se com o que possui ( = freio - Hb 13, 5-6 );
5.desapego, não possuir ( Mt 5, 3; Fl 2, 6-11 ) = ser pobre e desapegado de si para ser capaz de amar ( Mt 19, 21 );
6.magnificência = coragem, espírito empreendedor, fazer grandes coisas, não ser acanhado ( não confundir acanhamento, modéstia com humildade ) = Deus é o verdadeiro capital;
7.esmola = piedade, compaixão ( Lc 11,41 ), imitar o Deus de amor ( 1Pd 1, 17; Ef 2, 4 Mt 4, 4; Dt 8, 3 ).

OS 7 PECADOS CAPITAIS http://www.derradeirasgracas.com/2.%20Segunda%20Página/Documentártio%20da%20Igreja/Os%207%20pecados%20Capitais%20.htm
A. Boulenger
(Doutrina Católica – Manual de Instrução Religiosa – Moral)
Vocábulos
1º. Pecados capitais. 1º. O termo pecado tem, nesta lição, duplo sentido. Significa: a) vício, quando se consideram a soberba, a avareza, a luxúria, etc., como maus hábitos que levam ao pecado; b) pecado atual, quando se trata de um ato transitório, seja ele causado por uma disposição habitual ou não. Assim muitos cometerão o pecado de orgulho, sem ter o vício de soberba.
2º. Capitais (do latim "caput": cabeça, fonte). De acordo com a própria etimologia da palavra, esses pecados tem tal nome: a) porque podem ser pecados gravíssimos, dignos da pena de morte; b) porque, nos primeiros séculos da Igreja, eram equiparados a outros muito graves, como a idolatria, o homicídio, o adultério, e condenados a uma penitência pública; c) porque são origem, fonte de vários outros, ainda que não sejam necessariamente e sempre, pecados mortais.
PECADOS CAPITAIS
Há sete pecados, ou vícios, que podem ser tidos como graves, quer quanto à sua natureza, quer quanto às suas conseqüências. Estes sete pecados capitais são:1) Soberba; 2) Avareza; 3) Luxúria; 4) Inveja; 5) Gula; 6) Ira; 7) Preguiça. Alguns: soberba, avareza, inveja, ira e preguiça, quando desídia do intelecto, são mais especialmente pecados do espírito. A luxúria e a gula, pelo contrário, são pecados do corpo.
1. SOBERBA
1º. Natureza. Soberba é a estima excessiva da própria pessoa. Manifestase principalmente de três maneiras:
a) o soberbo mostra-se ufano das qualidades que tem, não se lembra que deve por elas dar glória a Deus: "Que tens tu, diz São Paulo, sem o teres recebido? E se o recebeste, como é que te glorias, como se aquilo fosse teu?" (I Cor IV, 7);
b) atribui-se dotes que não possui;
c)rebaixa as vantagens dos outros. É parecido com o fariseu que coteja suas virtudes com os senões do próximo.
2º. Derivadas da soberba. A soberba produz a ambição, a presunção, e a vanglória.
A. Ambição é o desejo descomedido de glória, honras, fortuna, poder, etc. o ambicioso anda atrás das posições de destaque e das dignidades. "Apreciam o primeiro lugar nos banquetes, os assentos mais elevados nas sinagogas" (Mt XXIII, 6) diz Nosso Senhor, falando dos Escribas e dos Fariseus.
B. Presunção é a demasiada confiança em si próprio. Presunção e ambição não raro andam a par. O presunçoso exagera seus talentos, julga-se preparadíssimo para qualquer encargo. E trata de meter-se em negócios e empregos altos, para os quais lhe falecem habilidades e competência.
C. Vanglória é a mania de se envaidecer por predicados, mais brilhantes e espalhafatosos, do que reais e sólidos; de colher louvores, e pasmar os circunstantes, quanto não há motivo para tanto. Este gaba-se de uma estirpe nobre, de linhagem ilustre; aquele é altaneiro por causa do palacete; este outro, é pela roupa, ou pelo automóvel. Esquecidos, todos, de que se houver glória nisso, não é a eles que deve ninbar (não quer dizer que todo luxo é soberba e impostura. Não é, quando fica em relação natural com a posição que se ocupa na sociedade. Então, justifica-se no ponto de vista hierárquico e econômico. Quem não atendesse às exigências da fortuna que possui cairia no excesso oposto que entra no segundo pecado capital [avareza]).
A vanglória, por sua vez, gera:
a) a jactância. A jactância, a bazófia, ou gabolice está doida pelos elogios. Baba-se por eles, suplica-os. E quando não os consegue logo, vai-se, o sujeito, encomiando a si mesmo. Nas palestras, não deixa os outros falar. Só ele, só dele. Não aprecia os companheiros, nem se importa com eles, e por isso, conta, o que fez e não fez, mandou e desmandou, suas boas obras, virtudes, esmolas (em dois casos é permitido dar a conhecer o bem que se obrou: a) para livrar-se de censura imerecida; b) para instruir e edificar o próximo, como o pratica São Paulo na Epístola aos Gálatas);
b) a hipocrisia é outro fruto espúrio da vanglória. As felicitações que os gabolas se outorgam nos seus alardes palavrosos, o hipócrita quer granjeá-las por seus atos fiteiros, e suas virtudes de aparato. Anda deslembrado dos conselhos de Nosso Senhor: "Tende cuidado em não fazer vossas boas obras para serdes vistos pelos homens ... quando dais esmola, não toqueis trombeta, como costumam os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para que vos honrem os homens’ (Mt VI, 1,2);citemos, ainda, o aferro, a obstinação, a teimosia, três vocábulos mais ou menos sinônimos, exprimindo o apego que se tem ao próprio parecer, não querendo que vingue a opinião dos outros, nem até quando a razão está com eles.
3º. Malícia da soberba. É pecado grave, quando o orgulho quer elevar-se acima de Deus e dos superiores. É tido como fonte de todos os males.
4º. Remédios. Os meios para curar a chaga do orgulho são:
a) um exame atento, demorado, sincero, das nossas misérias, das nossas falhas e fraquezas; da inconsistência dessas coisas que nos envaidecem;
b) a contemplação da humildade de Nosso Senhor, que, sendo Deus, se rebaixou a ponto de revestir-se da humanidade, e sujeitar-se a todas as contingências mais triviais e vis da nossa natureza; depois, a todos os ultrajes.

2. AVAREZA


1º. Natureza. Avareza é o amor desregrado às riquezas. Assume duas modalidades:
a) É avarento o que anda aflito por ganhar mais dinheiro, sempre excogita artes de aumentar seus cabedais, e antes trata os bens como donos do que como servos. A fortuna, para ele, é um fim, e não o meio de prover às necessidades da existência.
b) É avarento mais encontradiço, o que está afeiçoado a seus tesouros. Sovina. Não dá nada. E quando precisa gastar, parece que lhe arrancam um pedaço da alma. A economia é outra coisa. Consiste em regular as despesas pelos rendimentos,: aquelas não excedendo estes. Não é vício. É virtude preciosa, estímulo do trabalho, e mãe da prosperidade. A avareza tanto se aninha no coração do pobre, como no do rico. Avulta, não raro, com a idade. Recrudesce com a velhice.

2º. Efeitos. Da avareza nascem:
a) a injustiça para com o próximo: fraudes, trapaças, roubos;
b) a traição: Judas vendeu seu Mestre por trinta moedas;
c) o empedernimento do coração para com os indigentes. O avarento não se compadece da miséria: nunca abre a mão para obsequiar, para dar esmola aos pobres.

3º. Malícia. A avareza pode vir a ser pecado grave:
a) contra Deus: o avarento prefere, com efeito, a tudo, o dinheiro. Adora o ouro. É seu ídolo. Deus não existe mais para ele.
b) contra o próximo: o avarento, certo é que não cumpre o dever de caridade. E este dever, em determinados casos, constitui obrigação imperiosa.

4º. Remédios. Dois remédios podem fazer bem ao avarento:
a) lembre-se amiúde que tudo passa neste mundo; que são perecedouros, frágeis, e de pouquíssimo valor, os bens da terra. Caducam rapidamente. Única riqueza de verdade é amar a Deus.
b) medite nos exemplos de Jesus Cristo. Era riquíssimo, quis nascer, viver e morrer, paupérrimo.


3. LUXÚRIA

Luxúria, ou lascívia, é o vício contrário à pureza, proibido pelo 6º e 9º Mandamentos da Lei de Deus.
I. A pureza. 6º e 9º Mandamentos

1º. Excelência da virtude da pureza. A castidade, ou pureza, consiste na abstenção dos prazeres carnais ilícitos. Nenhuma virtude tem mais valor do que a castidade, porque ela, melhor que as outras, é o domínio do espírito sobre a carne, da alma sobre o corpo. Por isso, não é de estranhar que esta virtude, preceito ou lei natural muito embora, fique sendo como que apanágio e monopólio da religião católica. É a pura verdade afirmar que não a conheceu o mundo pagão, e que, hoje em dia, desabrocha e viceja apenas no ambiente do Catolicismo.

2º. Objeto do 6º e 9º Mandamentos. O 6º e 9º Mandamentos da Lei de Deus proíbem os pecados de luxúria, contrários à virtude da pureza. Única diferença entre os dois, é que o 9º, repetindo o 6º, vai além, reforça a proibição, abarcando a mais os maus pensamentos e maus desejos. Assim, enquanto o 6º Mandamento veda atos, olhares e palavras ofensivas da modéstia cristã, o 9º atalha o mal na própria fonte, e condena o simples pensamento impuro, o simples desejo desonesto: de um lado, pois, os atos exteriores, e do outro, os atos interiores, como sendo, estes, causa daqueles, e comparáveis à fagulha que ateia o incêndio. Na explanação desta matéria, andaremos lembrados, de contínuo, dos prudentes avisos de Santo Afonso de Ligório e São Francisco de Sales, concordes nisso, e ambos com São Paulo, dizendo que não é bom, tocar em termos muito explícitos nestes assuntos, e que já se ofende a castidade, só com o nomear a impureza.

II. O que é proibido pelo sexto Mandamento da Lei de Deus.

O 6º Mandamento da Lei de Deus proíbe:

1º. As más ações. Há certas coisas indecentes que o menino não se atreveria a praticar à vista de seus pais ou de seus mestres, e que desonram e envergonham os autores, quando essas coisas vêm a ser conhecidas. Ora, aquilo, ainda que fique ignorado dos homens, não está escondido aos olhos de Deus. Logo, é pecado mortal por natureza. Sempre. Esteja, o culpado, só, ou na companhia de outras pessoas. Entretanto, a malícia varia segundo a qualidade destas pessoas e segundo as coisas más que se fazem.

2º. Maus olhares. Consistem em demorar a vista, por gosto e sem necessidade, nos objetos ou nas pessoas que podem excitar as paixões: por exemplo, estátuas, imagens ou pessoas que não têm a devida decência.

3º. Escritos e palavras desonestas. Quer dizer, qualquer escrito (maus livros e maus jornais), qualquer palavra (cantigas ou conversas despudoradas) que ofendem o recato, ou abertamente, às escâncaras, ou disfarçadamente, por meio de equívocos, ambigüidades, reticências. Nada mais prejudicial do que as más leituras. Quanto às más conversas, afirma São Paulo (I Cor XV, 33) "que corrompem os bons costumes".
III. O que proíbe o 9º Mandamento
O 9º Mandamento proíbe:

1º. Os maus pensamentos. O pecado de pensamento, que os teólogos, chamam de "deleitação morosa", consiste em se demorar, voluntariamente, na imaginação de uma coisa ruim, sem querer mesmo chegar à prática da mesma. Tal deleitação, ou gozo, é chamada morosa, do vocábulo latim "mora" atraso, diz Santo Tomás, porque a razão, em lugar de repelir sem tardança, como fôra de mister, as cogitações impuras que se apresentam, se demora nelas (immoratur), as acolhe com agrado, e nelas se compraz livremente (por aí se vê que vai grande diferença entre "deleitação morosa" e "sugestão má". Esta independe da vontade. É uma tentação, nem mais nem menos). Quem se entregou à deleitação morosa tem que declarar na confissão, a natureza específica deste pensamento; por exemplo, se tem voto de castidade, ou se as cogitações diziam respeito a uma parenta, ou a uma pessoa casada. É pecado mortal, quando a coisa é mesmo ruim, e o consentimento pleno. Do contrário, é venial. E não há pecado nenhum, quando se combate e se afugenta a representação do mal, e se reprova.

2º. Os maus desejos. O desejo é mais do que o pensamento, porque, com a imaginação do ato mau, está a intenção e vontade de praticá-lo. Perante Deus, é a mesmíssima coisa: querer ver, ouvir ou fazer, coisas impudicas, e ver, ouvir, ou fazer. Agora os desejos desonestos são como os pensamentos: culpados, exatamente na proporção em que são voluntários.
IV. Gravidade dos atos contra a pureza.
É facílimo avaliar a gravidade dos atos contra a pureza, pela meditação das conseqüências desastradas que acarretam na alma e no corpo:
a) Na alma. Nublam, entenebrecem, e materializam, a inteligência. Cegam-na para as coisas de Deus (I Cor II, 14). Desmoralizam e embrutecem o coração que, então, se separa e afasta de Deus, abandona a religião, cai na impiedade.
b) No corpo. A impureza estraga a saúde, exaure as forças, traz as doenças mais repugnantes e vergonhosas, as enfermidade mais asquerosas, e não raro, fim prematuro. Portanto, são mortais, geralmente, os pecados de impureza, a não ser que a irreflexão diminua esta gravidade.
V. Causas que levam à impureza.

As causas determinantes de pecados contra a castidade podem se classificar em: exteriores e interiores.

1º. Causas exteriores. São as que deparamos fora do nosso espírito viciado e do nosso coração corrupto pelo pecado original:

a) As más leituras. Esta rubrica geral abrange os livros ímpios, licenciosos, jornal ruim, revista ruim, e em especial, folhetins e romances que pintam ou encarecem o vício: denominam-se realistas ou naturalistas, e o que querem, é estadear o crime em todos seus pormenores, toda a hediondez, sem rebuços; ou denominam-se psicológicos, pretendendo escalpelar as almas com seus sentimentos mais abjetos, em todos seus refolhos. Uns e outros provocam desgraças. Não há iludir ou anestesiar a consciência. Ninguém se imuniza contra este tóxico violento, traiçoeiro e fatal. Dirão que procuram unicamente as belezas literárias, o encanto das descrições, a magia do estilo. É verdade. Isca fementida. Engodo. Procura-se tudo isso, e encontra-se mais alguma coisa: o veneno, que a alma engole por doses pequenas ou grandes, e que mata. Não se hão de perlustrar pântanos lodosos e pestilenciais sem apanhar pingos de lama. É absurdo. E será mesmo tão minguada a nossa literatura, que só nesses charcos se poderão descobrir modelos de estilo, de bela dição, de alta cultura clássica?

b) Espetáculos. Teatros e cinemas não são maus por índole, por natureza, é claro. Haveriam mesmo de aformosear a alma, educar a vontade, e nobilitar o coração. Infelizmente, sucede quase sempre o contrário. E passam a ser verdadeiras escolas do crime e da imoralidade. Glorificação do vício, apoteose e triunfo da impureza, e menosprezo ou escárnio da virtude, isto é que é. Alexandre Dumas o disse alto e bom som: a mãe prudente não assiste aos espetáculos, e muito menos levaria aí sua filha.

c) Dança e baile. Sendo exercício corporal, a dança é ginástica nada reprovável. A Bíblia refere, em muitas passagens, sem nota alguma pejorativa, as danças praticadas pelas moças e senhoras de Israel, para divertimento (Juízes XXI, 21, 23; Jerem. XXXI, 4,13) antes religioso, manifestação de piedade, do que mundano. A filha de Jefté vai ao encontro do pai, e vai dançando com uma porção de companheiras (Juízes XI, 34). Quando Davi, vencedor de Golias, regressa triunfante, as mulheres de Israel o ovacionam e celebram, com danças, a glória dele (Reis XVIII, 6, 7; XXI, 11). Davi ia dançando diante da Arca da Aliança, que ele mandava recolher, com inaudita pompa (II Reis VI, 5). Nota-se, entretanto, que, as mais das vezes, dançavam, as jovens, sozinhas, separadas dos moços (Ex XV, 20; I Samuel XVIII, 6).

A dança moderna, conhecida por nomes variadíssimos, é outra coisa. Altamente condenável, por causa da liberdade infrene que nela reina, dos encontros que ali se realizam. Excetuando determinadas reuniões de família, a regra geral é que não se deve dançar. Muito menos ainda, se hão de freqüentar bailes públicos, ou bailes mascarados, que são os mais perigosos. Em que conta teremos os tais bailes de caridade? São organizados para angariar donativos, para aliviar os desamparados, ou as vítimas de alguma calamidade: inundação, seca, incêndio, etc.; motivo de beneficiência. Ora, para saber o que vale este sistema, examinemos o caso. Será, um baile, mais puro e menos arriscado, porque o fim é a esmola? Que tem uma coisa com outra? Onde é que se viu alterada a essência de uma coisa porque se lhe mudou o destino?

d) Reuniões mundanas e más companhias. "Dize-me com quem andas, que te direi quem és". A freqüentação, os passeios, as amizades, ou familiaridade com pessoas levianas, frívolas, em busca de passatempos quaisquer, e que gastam o dia no ócio e na moleza, são também causas de muitos pecados de impureza.

e) Modas desonestas. Nos trajes femininos, a moda apresenta, por vezes, excentricidades que constituem verdadeiro desafio e insulto ao bom gosto e ao pudor. Tais modas são reprovadas pela religião, pela moral, e até pelo senso comum.

2º. Causas interiores. As causas provenientes de nós mesmos são:

a) Orgulho. Deus não ama os que "se ensoberbecem nos seus juízos", desampara-os, e deixa-os "entregues a paixões de ignomínia" (Rm I, 21,26).
b) Intemperança. "Não vos embebedeis com vinho, diz São Paulo, isto é, fonte de devassidão: mas inebriai-vos do Espírito Santo" (Ef V, 18). Quem anda atrás dos deleites dos festins, dá a mão às tentações da carne e da concupiscência.
c) Ócio. A preguiça é mãe de todos os vícios, e São Jerônimo afirma, desassombrado que, se está um demônio solicitando ao mal o homem que trabalha, estão mais de cem demônios tentando o que está desocupado.

VI. Remédios contra a impureza.
1º. Meios naturais.

a) é preciso lembrar, primeiro, a fuga das ocasiões que podem levar ao pecado, quer dizer, a supressão, de vez, de todas as causas acima mencionadas.
A ocasião se diz remota ou próxima.
a) Ocasião remota é a que conduz, de modo muito indireto, até a ofensa a Deus. Tais ocasiões enxameiam pelo mundo, não há como evitá-las sempre, porque se alastram por todas parte. A melhor boa vontade não o conseguiria. Fugir delas não constitui obrigação.
b) Ocasião próxima é a que provoca a tal ponto que é quase certo cometermos o pecado, se ela não for removida. (1) A ocasião próxima será necessária de necessidade física ou moral: necessidade física, quando é de todo impossível suprimi-la; necessidade moral, quando a dificuldade é grande. Em ambos estes casos, é preciso lançar mão de todos os preservativos e orações, recepção dos Sacramentos da Penitência e Eucaristia. Renovar, amiúde, o propósito de nunca mais pecar. (2) Ou a ocasião próxima pode ser afastada, e então, há obrigação imperiosa de removê-la. É condição "sine qua non" para obter a absolvição. A Igreja impõe esta regra, porque conhece o que diz a Sagrada Escritura: "Quem ama o perigo, há de cair no abismo" (Ecl. III, 24).
b) a vigilância é guarda dos sentidos, da imaginação e das afeições;c) a humildade;d) a mortificação;e) o trabalho, são outros tantos meios naturais e auxiliares poderosos na luta pela pureza.

2º. Meios sobrenaturais. Com os meios naturais, é indispensável ainda, o emprego dos meios sobrenaturais. Os principais são:
a) Oração. Deus nada recusa a quem pede.b) Confissão. Desvendar a chaga é curá-la.c) Comunhão freqüente. A Eucaristia é o alimento da força.d) Devoção a Maria Santíssima. Vendo perigo, a criancinha recolhe-se junto da mãe. Maria Santíssima é mãe de todos nós, e ela tanto estima a virtude de pureza, que protegerá seus devotos que lhe suplicam auxílios, que se recolhem pela prece, à sombra benéfica de sua égide maternal.


4. INVEJA


1º. Natureza. A inveja deriva-se da soberba. Consiste no regozijo pela desgraça que sucede ao próximo e no pesar pela boa sorte dele, como se a felicidade alheia perturbasse a nossa. Logo, a inveja tem duas caras: expandida e risonha perante o mal dos outros; amarrada e tristonha diante da prosperidade alheia.
O distintivo essencial da inveja é a falta de caridade. Portanto, não tem inveja:
1. quem se entristece porque vê que é feliz e passa bem uma pessoa que não o merece. Não é inveja, é "zelo desatinado" porque a repartição dos bens deste mundo é da conta exclusiva de Deus;
2. quem fica triste com a promoção de fulano, porque isto poderá causar transtornos; é "temor legítimo", se não ajuizado;
3. quem anda acabrunhado, porque outro ganhou o lugar que ele mesmo havia pleiteado por seus esforços; chama-se "brio, emulação".

Ciúme é uma face da inveja. Não se alegra com os reveses e dissabores alheios. Mas tem o receio exacerbado de perder o bem que possui, e cobiça violentamente o bem dos outros.

2º. Efeitos. Da inveja nascem a calúnia, a maledicência, a delação, as rivalidades, as discórdias, o ódio e até o homicídio.

3º. Malícia. A inveja ofende a caridade que devemos ao próximo. É tanto mais culpada quanto mais avultado fôr o dano que ela causar aos outros.

4º. Remédios.
a) primeiro meio para tratamento desta enfermidade moral é recordarmos que todos os homens tem igual natureza e igual destino. Não são irmãos em Cristo todos os católicos? E não são todos eles membros da mesma sociedade que é a Igreja?
b) segundo meio, é ponderarmos as conseqüências nefandas que formam o séquito da inveja.
5. A GULA.


1º. Natureza. Gula é o amor desordenado ao alimento. Quando se aplica de modo especial à bebida chama-se embriaguez, alcoolismo.

A. Considerada em geral, a gula manifesta-se de duas maneiras:
a) pelo excesso na quantidade. O guloso multiplica as refeições; come a torto e a direito; ou então come demais, ou muito depressa, avidamente;
b) por excessiva exigência na qualidade. Peca por gula o que procura iguarias finas, e requinta nos prazeres do paladar; e até, quem repisa, a toda hora, na conversa, esses tópicos.

B. Embriaguez é a forma mais torpe e repugnante da gula. Com efeito, quem cai neste vício até ficar bêbado, perde o uso da razão e resvala abaixo dos brutos.

C. Alcoolismo é a paixão dos excitantes, das bebidas fortes. O alcóolico não chega a embebedar-se; mas, em doses exageradas e múltiplas, ingurgita o temível veneno. Tornou-se hábito, necessidade fatal.

2º. Efeitos. A gula em geral provoca:
a) o abandono das obrigações religiosas;
b) a transgressão das leis do jejum e da abstinência;
O alcoolismo tem conseqüências ainda mais desastradas. Com efeito, o alcoolismo não é senão embriaguez no estado crônico:
a) no indivíduo viciado por este funestíssimo hábito, aparecem as doenças mais impiedosas (...) As faculdades intelectuais embotam-se gradualmente, e breve, a vítima acha-se como que bestificada. No ponto de vista moral destrói o pudor e os brios, deixando apenas a medrar os instintos da animalidade.
b) na família é fautor de anarquia. O alcóolico foge do lar; deixa no desamparo mulher e filhos. E se, porventura ainda trabalha, gasta com o vício tudo o que vai ganhando.
c) para a sociedade também o alcoolismo é um flagelo, um cancro. Nos países onde grassa, queima as veias de um povo inteiro, dessora e desfibra a raça mais profundamente do que a chacina das batalhas.

3º. Malícia.
O amor exagerado do comer e do beber não é, em si, pecado grave. Adquire, porém, este caráter, quando levado ao ponto de menosprezar e transgredir o preceito da penitência.
Com a embriaguez, o caso é outro. Quando acidental e involuntária, desculpa-se; mas se for propositada, é pecado mortal. Quanto às faltas cometidas pelo bêbado, ele é responsável no grau em que as previu: a culpabilidade não está no ato, está na causa.
Tanto mais culpado é o alcoolismo quanto mais lamentáveis são os estragos que produz.

4º. Remédios. Para sanar este defeito da gula são eficazes as seguinte receitas:
a) evitar tudo o que lisonjeia demais o paladar, como as iguarias saborosas e muito finas;
b) pensar que isto de comer e beber não é o fim da atividade humana. Existe o alimento para a vida, não a vida para o alimento.
c) os pais devem incutir no ânimo dos filhos o amor da temperança e sobretudo dar-lhes bons exemplos a respeito.
d) as donas de casa zelem por ter um lar confortável e atraente, que agrade às visitas, ao esposo e aos filhos, desviando-os da freqüentação de tabernas e botequins.


6. IRA


1º. Natureza. Ira é um movimento desordenado da alma que se revolta contra o que não lhe apraz. Muitas vezes, é o resultado do orgulho que se julga melindrado, e quer desforçar-se. Mas é também uma paixão proveniente da índole, e que a vontade custa a senhorear.
Nem sempre alcança, a ira, o mesmo grau de violência. Por isso distinguem-se:
a) a impaciência;b) a raiva;c) o arrebatamento, que se derrama em berros e desaforos;d) o furor, que se traduz por insânias, acessos próximos da loucura;e)a vingança, que é o desejo cultivado de prejudicar a quem nos desagradou.
Há certa cólera que não é pecado. Vem a ser, apenas, justa indignação, quando se manifesta dentro de limites razoáveis: na hora azada, contra quem a merece, e com intensidade prudente. Um pai de família se mostrará oportuna e eficazmente irritado com o comportamento mau do filho, e infligirá uma correção enérgica que produza frutos de emenda. Um superior de comunidade, no desempenho do seu cargo, castiga publicamente uma ofensa à regra. A cólera, então, não é vício, é virtude.
Na Sagrada Escritura, temos muitos fatos destes. Moisés, ao deparar com o bezerro de ouro, deixa-se arrebatar pelo furor da ira santa, e quebra as tábuas da Lei (Ex XXXII, 19). Deus, muitas vezes, ira-se contra os pecadores (Sl CV, 40). Nosso Senhor lança mão do chicote, e tange para fora, irado, os vendilhões do Templo (Mt XXI, 12). Zanga com os Fariseus, que andavam espiando, para ver se haveria de curar, em dia de Sábado, o enfermo com a mão ressequida (Mc III, 5). São cóleras santas que têm justificativa no fim almejado: debelar ou fustigar o mal, e emendar os pecadores.

2º. Efeitos. A ira gera as disputas, as quisílias, doestos e vitupérios, brados e invectivas, rancor, ódios, assassínios e demandas.

3º. Malícia. Quando a cólera provém da índole, do gênio, é culpa venial só, a não ser que se desmande em crises, e seja deliberada. Quando inclui o desejo desnorteado de vingança, ofende a justiça ou a caridade, e então é pecado grave.

4º. Remédios. Para amordaçar e refrear a cólera, é preciso:
a) atalhar logo o primeiro ímpeto;b) lembrar-se do preceito do Senhor: "Amai vossos inimigos ... fazei o bem aos que vos odeiam" (MT V, 44);c) meditar o exemplo do divino Mestre, Cordeiro manso e humilde de coração.


7. PREGUIÇA


1º. Natureza. Preguiça é o apego desmedido ao descanso que leva a omitir nossas obrigações, ou a descuidá-las. O espírito e o corpo do homem que trabalha necessitam de repouso. Mas, este não pode vir a ser regra geral, e com que o único fruto da existência.
Distinguem-se:
a) preguiça espiritual;b) preguiça corporal.
Aquela é falta de ânimo, de coragem no cumprimento dos deveres religiosos, na oração. Esta é desleixo das nossas obrigações de estado.

2º. Efeitos. A preguiça faz ociosa a vida, e franqueia, a todas as tentações, os caminhos da alma. "A preguiça é a mãe de todos os vícios". A preguiça espiritual põe em perigo a salvação eterna, pois "cada um há de receber a própria remuneração, conforme o próprio trabalho" (I Cor III, 8).

3º. Malícia. É pecado grave, a preguiça, quando chega até o esquecimento de Deus e das nossas obrigações mais importantes.

4º. Remédios. Para extirpar a preguiça, reflita-se que o trabalho é lei universal imposta pelo Criador. Os ricos não são dispensados. Existe, para eles, o grande dever da caridade, que os manda trabalhar a fim de aliviar, mais eficazmente, a sorte dos pobres.

“Convivendo com o Mal”, Anselm Grun, OSB, Ed.Vozes.

Seres racionais ( e sua predominante força da alma ):
a) anjos: espírito;
b) homens: desejo;
c) demônios: emoções.
Ponto de contato entre homem e demônio = fantasia ( imagens acompanhadas de violentas emoções ), imagens da memória, maus pensamentos ( carregados de afetos ) , pensamentos de caráter emocional ( paixão e emoção ).
Demônio = exteriorização do inconsciente com um nome para o monge poder combatê-lo.

Técnicas dos demônios ( tentações ):

Pessoas do mundo : através de coisas , pessoas , acontecimentos. Coisas provocam reações. O que importa são as reações, projeções, desejos, emoções provocados.
Monges: pensamentos , fantasias, lembranças, feridas passadas, sonhos, etc. ( monges não têm coisas ).
Pelo o que o objeto suscita, sabemos qual demônio nos visita.
Demônios procuram as fraquezas das pessoas, inclinações, apegos, virtudes negligenciadas, etc.. Ampliam-nas e escravizam as pessoas, cegam-nas para a realidade.
Nossas atitudes e palavras precisam ser controladas por nós para não sermos controlados por elas ( e elas nos denunciam aos demônios mostrando nossas fraquezas ).
Outra técnica: demônios nos levam aos extremos rigorosos para nos enfraquecer. “Todo excesso vem dos demônios”. (Apo. 703 ).
Falta de moderação: extremos rigores de injustiça, falta de sensatez , abuso do bem para esgotar e cansar.
Espalhar disputas inspirando maus juízos ou curiosidades sobre os outros. Criticar os outros = projetar sobre os outros os próprios erros ( cegueira para os próprios erros ).
Contra pessoas jovens: demônios agem através das paixões do corpo , instintos e desejos . É preciso dirigir energias para o caminho reto.
Contra pessoas idosas: demônios agem pela parte emocional ( emoções e paixões, estados de ânimo , caprichos ). É preciso não se deixar jogar dum lado para o outro por estados de ânimo.

Espécies de demônios (doutrina dos oito vícios que atacam o corpo-alma-espírito):

a) desejos: gula, luxúria, cobiça;
b) emoções excitáveis: tristeza, ira, acídia ( preguiça, tédio, depressão );
c) parte espiritual: vaidade, orgulho.
Espécies de demônios:
a) leves, atacam de repente ( ex.: luxúria );
b) pesados, atacam aos poucos ( ex.: acídia ).
Vícios dos desejos ( gula, luxúria, cobiça ) são instintos básicos da natureza humana que não podem ser eliminados. Devem ser-lhe impostos a reta medida.
Vícios de ânimo ( tristeza, ira, acídia ) se combatem com maturidade interior ( via vigilância de pensamentos e estados de ânimo, e a abertura total a Deus ).
Vícios de espírito ( vaidade, orgulho ) enganam facilmente. Combatidos com humildade e obediência.

Como agem os demônios.
1.Demônio da gula. Não instiga para comer em excesso, apenas racionaliza contra o jejum. O demônio esconde-se atrás da razão (= racionalização ) para não ser abertamente mau.
2.Demônio da luxúria. Enche a fantasia de imagens e pensamentos impuros, obscurecendo a razão. Desperta paixões violentas.
3.Demônio da cobiça ( avareza ). Racionalização contra a pobreza e a generosidade, lembrando perigos de idade avançada, incapacidade para trabalhar, tempos de necessidade e doença, amargor da pobreza e a vergonha da indigência, causando medo e timidez para refrear o instinto e ordená-lo ( “infantil necessidade de possuir mais” ). Remédio: adaptar-se à realidade , renunciar.
4.Demônio da tristeza. Desejos frustrados, apego ao mundo (“quem ama ao mundo há de experimentar muita tristeza”), excesso de desejos ( facilmente se decepciona ), apego aos prazeres passados confrontados com a dureza do presente.
5.Demônio da ira. Fervura da alma contra quem nos parece ter feito uma injustiça, ressentimento, pensamentos numerosos ( obscurece clareza do pensamento e do espírito, impedindo do pensar com clareza ). “Ira clama por vingança. Quando a vingança não é possível, a ira se transforma em ressentimento, um estado de ânimo de permanente e raivosa insatisfação, mas também em tristeza”.
6.Demônio da acídia. Aversão contra o lugar em que se vive, a forma de vida, o trabalho manual. Descrença na bondade das pessoas, desejo de ser consolado. Abatimento de corpo e espírito, moleza e frouxidão, acompanhado por tentações e pensamentos ( sufoca a razão e tira a força da alma ). Tédio, opressão interior, temor do coração. Falta de vontade que leva ao sono, à fuga, a procurar agitação.
Conseqüências da acídia ( S. Gregório Magno ): desespero, desânimo, mau humor, azedume, indiferença, sonolência, tédio, fuga de si próprio, aborrecimento, curiosidade, dispersão no falar, agitação da alma e do corpo, inconstância, pressa, vacilação. Alma confusa, questionadora, sem impulso interior, sem esperança, busca consolação ( cuidado com loucura, ruína espiritual, decadência psíquica ) , cansaço,falta de sentido para a vida. Por trás da paralisação e estagnação da personalidade, há um impulso poderoso que não se manifesta ( poder , amor, expansão, agressões,etc.) e pode levar à depressão.
Solução: perseverar até um intenso interesse pela vida voltar.
7.Demônio da vaidade. Pensamento sutil que se infiltra entre os virtuosos. A vaidade surge quando os outros vícios parecem ter sido superados. A vaidade é como uma bolsa de dinheiro furada ( o salário dos combates se esvai ). Faz o monge agradar aos homens ao invés de agradar a Deus. Perde a sinceridade de olhar a si próprio. Identifica o monge com elevados ideais ( que conta com o apreço dos homens ). Glorificar o eu e não se entregar a Deus.
8.Demônio do orgulho. Não reconhece a ajuda de Deus e crê ser ele próprio a causa das boas ações. Olha os irmãos de cima para baixo. O orgulhoso se considera Deus e renega sua condição de homem, inchando-se e terminando em confusão de espírito, desequilíbrio da alma.
Solução: admitir necessidades e desejos para não ser “atacado” por eles ( 3 impulsos básicos – ordená-los ). Estados de ânimo: integrar, não reprimir.
Solução da vaidade e orgulho: sinceridade e honestidade consigo mesmo e com Deus – usar a Deus e os homens para minha própria glória ou servir a Deus e os homens, renunciar aos meus ideais e minhas imagens de Deus para me entregar ao Deus verdadeiro.

Luta contra os demônios.

!.Observar pensamentos e imagens, como se relacionam e se seguem ( = conhecer os demônios para vencê-los ) , conexões entre pensamentos e sentimentos ( mecanismos ), suas táticas, nossas disposições interiores – circunstâncias de espaço-tempo, ocorrências sociais, comportamento de outras pessoas, próprios pensamentos para descobrir como agem os demônios.
Exame: reconstituir a situação após a tentação. Descobrir o “nome do demônio” : “quem és, de onde vens?” ( perguntar para não se deixar arrastar por pensamentos e impulsos).
Acusar os pensamentos: se fugirem, são demoníacos; se resistirem, são bons. Acusar os pensamentos = examinar até onde o pensamento pode ser vivido (mesmo enfrentando dificuldades): sim=de Deus, não=do demônio.
Reconhecemos os demônios pelos pensamentos ( que surgem das coisas ) para retornarmos ao estado que nos convém, pronunciemos palavras contra eles e reconheçamos qual demônio nos ataca ( nome de pensamento, intenção, paixão para nos afastarmos dele ).
2.Método antirrético. Lançar contra os demônios palavras de determinadas cheio de ira ( a ira trava os pensamentos e a razão - lutar contra os demônios é de natureza emocional ). Na ira surge a coragem para o combate.
Tirar vantagem das inimizades dos demônios entre si ( ex. vaidade X luxúria ).
Usar o escárnio e a zombaria, o desprezo pela covardia do demônio (fé na Presença do Senhor, que garante a vitória : “conosco está o Senhor que expulsava os demônios” ).
Método antirrético: variedade de palavras da Sagrada Escritura que podem ser usadas pelo monge na luta contra os demônios ( os oito vícios ).
1º Enumerar os diversos pensamentos que podem ser inspirados aos monges pelos demônios (de acordo com a situação).
2º.Apresentar uma palavra da Escritura contra cada um desses pensamentos ( empregando os sentimentos). A palavra da Escritura contém a superação do pensamento opressor: penetra a situação, revela as ciladas do demônio e traz a vitória, não refutando com argumentos, mas é o próprio Deus que combate ao lado do homem. Isto é:
-acreditar na Palavra,
-arremessar com ira,
-crer, fé no auxílio divino pois Deus está presente.
Contra a gula ou avareza: Sl 22/23, 1.
Contra a luxúria: Sl 6, 9.
Quem é mais forte, a tentação ou o pensamento da Presença de Deus? A Presença de Deus é a verdadeira motivação para agir.
Contra a cobiça/avareza: Dt 15, 7 s.
Palavra=mandamento contrário (= agir contra). Há sempre razões inspiradas pelo demônio. Palavra é ordem de Deus! Repetindo a Palavra, nosso agir passa a se orientar por elas aos poucos, a Palavra se torna uma ordem interior, uma motivação inquestionável.
Contra a tristeza , temor e sensação de abandono (depressão) : Dt 4, 31 .
Contra a lembrança de pecados antigos: 2 Cor 5, 17. É preciso aceitar e descartar esse passado sem culpar pessoas: há uma nova realidade.
Contra a ira e a mágoa: Ef 4, 26.
Os demônios usam a técnica da racionalização. A Palavra tem uma autoridade que não pode ser contestada por racionalizações.
Contra a acídia: Sl 37, 3 (“Confia no Senhor...”). Preservar contra a auto-compaixão e a lamúria, levar à confiança e à entrega.
Contra a acídia por causa de doença: Mq 7, 9. Doença como meio para passar das trevas à luz. A falta de sentido dos acontecimentos obscurece o sentido de nossa vida, tira-nos a força interior e precipita-nos na acídia, na inércia, na depressão. Mas a Palavra de Deus pode nos prejudicar se fizermos má interpretação da mesma.
Contra a vaidade: Pr 23,9; Pr 26,22 ( contra a presunção de ser mestre ); Tg 3, 1 ( a tentação do orgulho se reveste de uma roupagem de fazer o bem); Pr 13, 20 ( para melhorar a sabedoria e ter a humildade dos aprendizes).
Pensamentos dos anjos provocam alegria, tranqüilidade e paz interior.
Pensamentos dos demônios provocam agitação, confusão.
Recursos contra os diversos vícios.
Desconcentração: leitura, vigílias, oração.
Ira: canto dos salmos, paciência, misericórdia.
Desejos e instintos: privação.
Parte emocional: sentimentos positivos, generosidade, misericórdia.
Confusão de pensamentos: canto de salmos (que alegra a alma, gera paz, acalma pensamentos confusos e agitados, alegra irados e ordena o que estiver confuso).
Gula: evitar a saciedade.
Luxúria: beber pouco.
Cobiça: dar esmolas, caridade, doar e presentear.
Tristeza: superar o apego a coisas, pessoas, etc..
Tristeza é frustração de um prazer. Não recorrer a consolos (que serão cada vez mais necessários, como vícios ). Cantar salmos, oração.
Ira: misericórdia e mansidão para alargar o coração e restaurar o emocional represado ( o coração se alegra ). A ira infla o lado emocional do homem e o torna demoníaco. “Os sentimentos não permanecem apenas como algo exterior, mas criam em nós uma disposição interior, que determina nosso pensar e agir. Por isso, é importante desenvolver sentimentos positivos”.
Ira não resolvida leva a pesadelos, a acordar angustiado e enfraquecido, incapaz de lutar contra emoções negativas. Cuidado: para o raivoso, a solidão é veneno ( leva à confusão do coração ). Solução: alegrias espirituais.
Acídia: tudo ou nada (ataca a alma inteira).
Solução: lágrimas (contra a secura e a dureza interior, falta de sentimentos, vazio devido a sentimentos reprimidos para não sentir dor). Lágrimas = chuva que umedece a alma ressequida.
Outra solução: método antirrético: a alma se divide em parte que consola (fala) e parte que é consolada (ouve), levando a sério os próprios sentimentos e necessidades. Enfrentar corajosamente seus demônios, não fugir. O combate fortalece a alma, a fuga torna-a covarde, esquiva e inepta ( não fugir de si mesmo ).
“Todo homem, em algum momento, tem que passar pelo ponto mais fundo do abismo para poder chegar ao que interessa”. Levar o conflito interior até o extremo, a causa, e não os sintomas.
Outro remédio contra a acídia: pensamento da própria morte ( preparar-se para morrer amanhã –alma, usar o corpo como se fosse viver muitos anos ), que liberta da tristeza ( morte como redenção ) e conserva corpo em boa saúde.
Vida ordenada = ordem à confusão interior.
Vaidade : a contemplação espiritual e o conhecimento de Deus . Nossa única meta se torna chegar a Deus. Quem tem a experiência de Deus não tem necessidade de gloriar-se diante dos homens! “Aquele a quem Deus manifestou-se, para ele toda glória humana deixou de ter sentido”.
Observar a ascese e as práticas aconselhadas pelos monges. Imitar os exemplos dos patriarcas e suas regras. A pessoa se torna um fraco combatente na multidão dos monges.
Lembrar-se dos erros passados, como estava sujeito às paixões, e da libertação pela misericórdia de cristo ( = humildade ) . Compreender que o que há de bom em nós é dádiva de Deus, não mérito próprio ([42] O que achar de bem em si, atribuí-lo a Deus e não a si mesmo. [43] Mas, quanto ao mal, saber que é sempre obra sua e a si mesmo atribuí-lo. RB, cap 4). Dons foram doados e devem ser usados com responsabilidade.

Sinais de vitória.

Pureza de coração (Cassiano), humildade (Bento), equilíbrio e tranqüilidade (Atanásio), ausência de paixões – “apatheia” (Evágrio).
1.Orar sem distrações ( sem perturbações emocionais ). .Tranquilidade frente às recordações que não nos angustiam com emoções ( logo, podemos orar sem distrações ).
2.Razão calma diante de imagens de fantasia (ver coisas com equilíbrio e tranqüilidade). As coisas não despertam paixões no homem, que não projeta sobre elas suas próprias emoções e desejos.
Conclusão: não é possível chegar a Deus sem enfrentar esses impulsos e emoções. É importante enfrentar essas resistências e não esquecer a realidade com excessos de idealismo. Lutar pela pureza e para a abertura a Deus.

Esquema de transformação (de...para...):

Egocentrismo – caridade – castidade
Posse – desapego – pobreza
Soberba – humildade – obediência.

Evágrio Pôntico : sobre os oito vícios.

I. A GULA http://www.veritatis.com.br/article/3790

I. A Gula (1)
Capítulo 1
A origem do fruto é a flor e a origem da vida ativa (2) é a moderação (3); quem domina o próprio estômago, diminui as paixões; pelo contrário, quem é subjugado pela comida, aumenta os prazeres.
Assim como Amalec é a origem dos povos, também a gula é a origem das paixões. Assim como a lenha é alimento do fogo, a comida é o alimento do estômago. Muita lenha proporciona uma grande chama e a abundância da comida nutre a concupiscência. A chama se extingue quando há menos lenha e a miséria de comida apaga a concupiscência.
Aquele que domina a boca, confunde os forasteiros e desata facilmente as suas mãos. Da boca bem coordenada brota uma fonte de água e a libertação da gula gera a prática da contemplação.
A estaca da tenda, atacando, matou a boca inimiga e a sabedoria da moderação mata a paixão (4).
O desejo de comida gera desobediência e uma deleitosa degustação afasta do Paraíso. As comidas saborosas saciam a garganta e nutrem o glutão de uma imoderação que nunca cochila.
Um ventre indigente prepara para uma oração vigilante; ao contrário, um ventre bem cheio convida para um longo sono.
Uma mente sóbria se alcança com uma dieta bem pobre, enquanto que uma vida cheia de delicadezas lança a mente no abismo.
A oração daquele que jejua é como um pintinho voando mais alto que uma águia, enquanto que a [oração] do glutão está envolta nas trevas. A nuvem esconde os raios do sol e a digestão pesada dos alimentos ofusca a mente.

Capítulo 2
Um espelho sujo não reflete claramente a imagem daquele que se põe diante dele e o intelecto, tonto pela saciez, não acolhe o conhecimento de Deus.
Uma terra não cultivada gera espinhos e de uma mente corrompida pela gula germinam maus pensamentos.
Como na lama não emana boa cheiro, tampouco no glutão é possível sentir o suave perfume da contemplação.
O olho do glutão explora com curiosidade os banquetes, enquanto que o olhar do moderado observa os ensinamentos dos sábios.
A alma do glutão enumera a lembrança dos mártires, enquanto que a do moderado imita os seus exemplos.
O soldado fraco foge ao som da trombeta que preanuncia a batalha; da mesma forma, o glutão foge dos chamados à moderação.
O monge guloso, submetido às exigências do seu ventre, faz questão de sua parte cotidiana. O caminhante, que caminha com afinco, alcançará logo a cidade e o monge glutão não chegará à casa da paz interior (5).
O vapor úmido do incenso perfuma o ar, tal como a oração do moderado deleita o olfato divino.
Se te abandonas ao desejo de comida, já nada te bastará para satisfazer o teu prazer; o desejo de comida, com efeito, é como o fogo que sempre envolve e sempre se inflama. Uma medida suficente enche o prato, mas um ventre mal acostumado jamais dirá: "Basta!". A extensão das mãos pôs em fuga a Amalec e uma vida ativa elevada submete as paixões carnais.

Capítulo 3
Extermina tudo o que for inspirado pelos vícios e mortifica fortemente a tua carne. Com efeito, uma vez morto o inimigo, este não mais produz medo; assim, um corpo mortificado não perturbará a alma. Um cadáver não sente a dor produzida pelo fogo; e, menos ainda, o moderado sente o prazer do desejo extinto.
Se matardes o Egípcio (6), esconda-o sob a areia e não engordes o corpo por uma paixão vencida; assim como na terra preparada germina o que está escondido, também no corpo gordo revive a paixão.
A chama que se reduz é reacendida quando a alimentamos com lenha seca e o prazer que está se atenuando revive com a saciedade da comida; não te compadeças do corpo que se lamenta pela carestia e não te agrades com comidas suntuosas; com efeito, se te reforças, encontrareis uma guerra sem trégua, que escravizará tua alma e te fará servo da luxúria.
O corpo indigente é como um cavalo dócil que jamais derrubará o cavaleiro; [o cavalo], com efeito, dominado pelas rédeas, se submete e obedece a mão daquele que as detém; assim, o corpo, dominado pela fome e vigília, não reage por um pensamento que o cavalga, nem relincha excitado pelo ímpeto das paixões.
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Notas:
1. Ao que hoje chamamos gula, Evágrio chamava gastrimargia, literalmente "loucura do ventre".
2. "Vida ativa" é a tradução mais próxima para praktiké, a disciplina espiritual que, segundo Evágrio, se encontra no princípio do processo de conformação com o Senhor Jesus e que tem por fim purificar as paixões da alma humana. A isto Evágrio dedica o seu "Tratado Prático".
3. Enkráteia é um conceito muito mais rico que o termo "moderação", se por este se entende apenas a virtude contrária à gula. Pela raiz krat, que significa "força" ou "poder", esta virtude implica "domínio de si" ou "senhorio de si".
4. Trata-se de uma comparação obscura, mas a mensagem é clara.
5. O termo usado por Evágrio é Apátheia, que em sua espiritualidade equivale ao estado de plenitude espiritual, alcançado mediante o domínio das paixões e o silenciamento do interior.
6. O "Egípcio" é o nome dado, pelos Padres do Deserto, a um demônio especialmente voraz na tentação.
Inimigas aquele
II. A LUXÚRIA
II. A Luxúria
Capítulo 4
A moderação gera a regra, enquanto que a gula é a mãe do desenfreio; o óleo alimenta a luz da lamparina e o freqüentar mulheres atiça a chama do prazer.
A violência da onda se desencadeia contra o mercador mal ancorado, assim como o pensamento da luxúria [se desencadeia] sobre a mente do imoderado. A luxúria virá aliada à saciez, lhe concederá licença, se juntará aos adversários e combaterá, finalmente, do lado dos inimigos.
Permanece invulnerável às flechas Inimigas aquele que ama a tranqüilidade (7); ao contrário, aquele que se mistura com a multidão recebe golpes continuamente.
O olhar para uma mulher é semelhante a um dardo venenoso: fere a alma, nos injeta veneno e, quanto mais perdura, tanto mais espalha a infecção. Aquele que busca defender-se destas flechas se mantém alheio das multitudinárias reuniões públicas e não divaga com a boca aberta nos dias de festa; é muito melhor ficar em casa, passando o tempo orando, do que fazer a obra do inimigo, crendo honrar as festas.
Evita a intimidade com as mulheres se realmente desejas ser sábio e não lhes dê liberdade para falar-te, nem confiança. Com efeito, no início têm ou simulam uma certa cautela; porém, a seguir, ousam fazer tudo descaradamente: na primeira aproximação, mantêm olhar baixo, falam docemente, choram comovidas, tratam seriamente, suspiram com amargura, fazem perguntas sobre a castidade e escutam com atenção; na segunda vez, levantam um pouco mais a cabeça; na terceira vez, aproximam-se sem muito pudor; tu sorris e elas se põem a rir desaforadamente; a seguir, se embelezam e se te mostram com ostentação; seus olhares passam a anunciar o ardor, levantam as sobrancelhas e os olhos, desnudam o pescoço e abandonam todo o corpo à fraqueza, pronunciam frases abrandadas pela paixão e te dirigem uma voz fascinante ao ouvido até apoderarem-se por completo da [tua] alma.
Ocorre que estas ciladas te encaminham à morte e estas redes entrelaçadas te arrastam à perdição; portanto, não te deixes enganar sequer por aquelas que se servem de discursos discretos; nestas, com efeito, se oculta o maligno veneno das serpentes.

Capítulo 5
Aproxima-te antes do fogo ardente que de uma mulher jovem, sobretudo se também sois jovem; com efeito, quando te aproximas da chama e sentis um bom calor, te levantas rapidamente, enquanto que, quando sois seduzido pelas conversas femininas, dificilmente conseguireis fugir.
A erva cresce quando está cercada pela água; assim, germina a imoderação freqüentando as mulheres.
Aquele que enche o ventre e faz profissão de sabedoria se parece com alguém que afirma ser possível frear a força do fogo usando palha. Assim como efetivamente é impossível apagar a mutável agitação do fogo com a palha, também é impossível limitar na saciedade o ímpeto inflamado da imoderação.
Uma coluna se apóia sobre uma base e a paixão da luxúria tem sua base na saciez.
O navio, presa da tempestade, se apressa em chegar ao porto e a alma do sábio busca a solidão; um foge das ameaçadoras ondas do mar, e a outra, das formas femininas, que trazem dor e ruína.
Um belo rosto de mulher afunda mais que um maremoto; mesmo assim, este último te oferece a possibilidade de nadar, para que salveis a vida, enquanto que a beleza feminina traz o engano e te persuade a desprezar inclusive a própria vida.
A sarça solitária se subtrai intacta à chama e o sábio, que tem consciência que deve manter-se afastado das mulheres, não incinde na imoderação; assim como a lembrança do fogo não queima a mente, também nem sequer a paixão tem êxito se lhe falta a matéria.

Capítulo 6
Se tens piedade para com o inimigo, esta será sempre tua inimiga; e se facilitas à paixão, esta se te revelará.
Ver mulheres excita o imoderado, enquanto empurra o sábio a glorificar a Deus; porém, se no meio das mulheres a paixão é tranqüila, não dês crédito a quem te afirma terdes alcançado a paz interior (8).
O cão abana o rabo justamente quando está no meio da multidão, mas quando é espantado, mostra a sua maldade. Apenas quando a recordação da mulher surgir em ti separada da paixão, então poderás considerar-te próximo dos confins da sabedoria. Ao contrário, quando a imagem dela te levar a vê-la e os seus dardos cercarem a tua alma, então poderás considerar-te afastado da virtude.
Porém, não deves manter-te assim, nesses pensamentos, nem tua mente deve familiarizar-se muito com as formas femininas, pois a paixão será reincidente, levando perigo junto a si.
Efetivamente, assim como uma fundição apropriada purifica a prata, enquanto que, quando prolongada, a destrói facilmente, assim uma insistente fantasia com mulheres destrói a sabedoria adquirida; não tenhas, portanto, familiaridade prolongada com um rosto imaginado, para que não se lhe adiram as chamas do prazer e venham a queimar a auréola que circunda a tua alma; assim como a faísca próxima da palha desencadeia as chamas, assim a lembrança da mulher, persistindo, acende o desejo.
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Notas:
7. Refere-se à paz interior, à tranqüilidade de recolhimento ou solidão, no caso do monge.
8. Trata-se, novamente, do termo Apátheia. Ver nota 5.
III. A AVAREZA
III. A Avareza (9)
Capítulo 7
A avareza é a raiz de todos os males e nutre, como arbustos malignos, as demais paixões, não permitindo que estas se sequem, eis que florescidas daquela.
Quem deseja exterminar as paixões, que arranque a raiz; se para o bem tu podas os ramos, a avareza, porém, permanece; [esta providência] não te servirá de nada, porque estes [ramos], apesar de terem sido cortados, rapidamente florescem.
O monge rico é como um navio extremamente carregado que é atingido pelo ímpeto de uma tempestade; assim como um navio que deixa entrar a água é posto à prova por cada onda, também o rico se vê submergido pelas preocupações.
O monge que não possui nada é, ao contrário, um viajante ágil que encontra refúgio em todos os lados. É como a águia que voa alto e que desce somente para buscar o seu alimento quando necessita; está acima de qualquer prova, ri do presente e se eleva às alturas, afastando-se das coisas terrenas e juntando-se às celestes; tem, efetivamente, asas ligeiras, jamais carregadas pelas preocupações; sobrepassa a opressão e deixa o lugar sem dor; a morte chega e ele vai com ânimo sereno; a alma, com efeito, não está amarrada a nenhum tipo de atadura.
Quem, ao contrário, muito possui, se submete às preocupações e, como o cão, está preso à corrente e, se é obrigado a ir embora, leva consigo, como um grave peso e inútil aflição, a lembrança das suas riquezas, é vencido pela tristeza e, quando pensa nisso, sofre muito em perder as riquezas e se atormenta com o desânimo.
E quando lhe chega a morte, abandona miseravelmente suas tendências, entrega a alma, embora o olho não abandone os negócios; de má vontade é arrastado como um escravo fugitivo; se separa do corpo, mas não dos seus interesses, porque a paixão o atinge mais do que o arrasta.

Capítulo 8
O mar jamais se enche, embora receba a grande massa de água dos rios; da mesma maneira, o desejo de riquezas do ávaro jamais se sacia: ele o duplica e, imediatamente, deseja quadruplicá-los e não cessa jamais esta multiplicação, até que a morte venha pôr fim a tal interminável pretensão.
O monge sensato terá cuidado das necessidades do corpo e proverá com pão e água o estômago indigente; não adulará os ricos pelo prazer do ventre, nem submeterá sua mente livre a muitos senhores; com efeito, as mãos são sempre suficientes para satisfazer as necessidades naturais.
O monge que não possui nada é como um lutador que não pode ser golpeado fortemente e um atleta veloz que alcança rapidamente o prêmio do convite celeste.
O monge rico se regozija nas muitas rendas, enquanto que o que nada tem se regozija com os prêmios que vêm das coisas bem obtidas.
O monge ávaro trabalha duramente, enquanto que o que nada possui dedica seu tempo para a oração e a leitura.
O monge ávaro enche os buracos de ouro, enquanto que o que nada possui acumula tesouros no céu.
Seja maldito aquele que forja o ídolo e o esconde, da mesma forma que aquele que é afeto à avareza; com efeito, o primeiro se prostra diante do falso e inútil, e o outro carrega em si a imagem (10) da riqueza, como um simulacro.
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Notas:
9. Philargyria, ou amor ao ouro, ao dinheiro. Evágrio dá especial importância a este vício e apresenta seu demônio como particularmente astuto, pois apresenta ao monge uma série de raciocínios que fazem parecer a acumulação de bens como um ato de sensatez e prudência.
10. Para Evágrio, o apaixonado possui no coração a imagem do objeto que o domina.
IV. A IRA

IV. A Ira
Capítulo 9
A ira é uma paixão furiosa que, com freqüência, faz perder o juízo àqueles que têm o conhecimento, embrutece a alma e degrada todo o conjunto humano.
Um vento impetuoso não derruba uma torre e a animosidade não arrasta a alma mansa.
A água se move pela violência dos ventos e o homem irado se agita pelos pensamentos irracionais. O monge irado vê alguém e range os dentes.
A difusão da neblina condensa o ar e o movimento da ira torna nublada a mente do irado.
A nuvem que avança ofusca o sol e, assim, o pensamento rancoroso entorpece a mente.
O leão na jaula sacode continuamente a porta tal como o violento, em sua cela, quando é acometido pelo pensamento da ira.
É deliciosa a vista de um mar tranqüilo, porém, certamente não é mais agradável que o estado de paz; com efeito, os golfinhos nadam no mar calmo e os pensamentos voltados para Deus emergem um estado de serenidade.
O monge magnânimo é uma fonte tranqüila, uma bebida agradável oferecida a todos, enquanto que a mente do irado se vê continuamente agitada e não dará água a quem tem sede e, se a der, será esta turva e nociva; os olhos do irado estão arregalados e cheios de sangue, anunciando um coração em conflito. O rosto do magnânino mostra tranqüilidade e os olhos benignos estão voltados para baixo.

Capítulo 10
A mansidão do homem é lembrada por Deus e a alma pacífica se converte no templo do Espírito Santo.
Cristo recosta sua cabeça nos espíritos mansos e apenas a mente pacífica se converte em morada da Santa Trindade.
As raposas montam guarda na alma rancorosa e as feras se agasalham no coração rebelde.
O homem honesto se afasta das casas de mal conduta e Deus [se afasta] de um coração rancoroso.
Uma pedra que cai na água a agita, tal como um discurso maligno no coração do homem.
Afasta da tua alma os pensamentos de ira, não permita a animosidade no recinto do teu coração e não te perturbes no momento da oração; efetivamente, como a fumaça da palha ofusca a visão, assim a mente se vê perturbada pelo rancor durante a oração.
Os pensamentos do irado são descendentes das víboras e devoram o coração que lhes gerou. Sua oração é um incenso abominável e seus salmos emitem um som desagradável.
A oferta do rancoroso é como um doce cheio de formigas que certamente não encontrará lugar nos altares aspergidos pela água benta.
O irado terá sonhos perturbadores e se imaginará assaltado pelas feras. O homem magnânimo, que não guarda rancor, se exercita com discursos espirituais e, durante a noite, recebe a solução dos mistérios.
V. A TRISTEZA
V. A Tristeza
Capítulo 11
O monge atingido pela tristeza não conhece o prazer espiritual; a tristeza abate a alma e se forma a partir dos pensamentos da ira.
O desejo de vingança, com efeito, é próprio da ira; o fracasso da vingança gera a tristeza; a tristeza é a boca do leão e facilmente devora aquele que se entristece.
A tristeza é um glutão de coração e se alimenta da mãe que o gerou.
Sofre a mãe quando dá à luz um filho; porém, esta, tendo dado à luz, se vê livre da dor. A tristeza, ao contrário, enquanto é gerada, provoca fortes dores e, sobrevivendo, após o esforço, não traz sofrimentos menores.
O monge triste não conhece a alegria espiritual, como aquele que acometido por forte febre não reconhece o sabor do mel.
O monge triste não saberá como manter a mente na contemplação, nem brota nele uma oração pura: a tristeza impede todo o bem.
Ter os pés amarrados impede a corrida; assim é a tristeza: um obstáculo para a contemplação.
O prisioneiro dos bárbaros está preso com correntes; a tristeza amarra aquele que é prisioneiro (11) das paixões.
Na ausência de outras paixões, a tristeza não tem força, assim como não tem força uma corda se lhe faltar quem amarre.
Aquele que está atado pela tristeza é vencido pelas paixões e, como prova de sua derrota, vem acrescentada a atadura.
Efetivamente, a tristeza deriva da falta de êxito do desejo carnal, porque o desejo é co-natural a todas as paixões. Quem vence o desejo, vence as paixões; e o vencedor das paixões não será submetido pela tristeza.
O moderado não se entristece pela falta de alimentos, nem o sábio quando é atacado por um lapso de memória, nem o manso que renuncia a vingança, nem o humilde que se vê privado da honra dos homens, nem o generoso que sofre uma perda financeira; com efeito, eles evitam, com força, o desejo destas coisas, como efetivamente aquele que corajosamente rejeita os golpes. Assim, o homem carente de paixões não é ferido pela tristeza.

Capítulo 12
O escudo é a segurança do soldado e os muros são a [proteção] da cidade; mais seguro que ambos é, para o monge, a paz interior (12).
De fato, freqüentemente uma flecha lançada por um braço forte traspassa o escudo e a multidão de inimigos abate os muros, enquanto que a tristeza não pode prevalecer sobre a paz interior.
Aquele que domina as paixões se tornará senhor sobre a tristeza, enquanto que quem foi vencido pelo prazer não se desatará das suas ataduras.
Aquele que se entristece facilmente e simula uma ausência de paixões é como o doente que finge não estar enfermo; assim como a enfermidade se revela pela vermelhidão, a presença de uma paixão se demonstra pela tristeza.
Aquele que ama o mundo se verá muito afligido, enquanto que aqueles que desprezam o que há nele serão felizes para sempre.
O ávaro, ao receber algo ruim, se verá extremamente entristecido, enquanto que aquele que despreza as riquezas estará sempre livre da tristeza.
Quem busca a glória, ao chegar a desonra, se verá em dores, enquanto que o humilde a acolherá como que a um companheiro.
O forno purifica a prata impura e a tristeza perante Deus livra o coração do erro; a fusão contínua empobrece o chumbo e a tristeza em razão das coisas do mundo diminui o intelecto.
A névoa diminui o poder dos olhos e a tristeza embrutece a mente dedicada à contemplação; a luz do sol não chega aos abismos marinhos e a visão da luz não ilumina o coração entristecido; doce é para todos os homens o nascer do sol, porém também isto desagrada a alma entristecida; a coceira elimina o sentido do gosto tal como a tristeza subtrai da alma a capacidade de percepção. Porém, aquele que despreza os prazeres do mundo não se verá perturbado pelos maus pensamentos da tristeza.
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Notas:
11. Evágrio utiliza o termo Aikhmálotos, que significa "prisioneiro de guerra", porém, ao mesmo tempo, faz referência à aikhmálosia que, em sua teoria espiritual, é o estágio final de escravidão da alma aos demônios, que chega como conseqüência de deixar-se vencer sistematicamente por eles.
12. Outra vez, a Apátheia.

VI. O ABORRECIMENTO
VI. O Aborrecimento
Capítulo 13
O aborrecimento é a debilidade da alma que irrompe quando não se vive segundo a natureza, nem se enfrenta nobremente a tentação. Com efeito, a tentação é para uma alma nobre o que o alimento é para um corpo vigoroso.
O vento do norte nutre os brotos e as tentações consolidam a firmeza da alma.
A nuvem pobre de água é afastada pelo vento tal como a mente que não persevera no espírito do aborrecimento.
O orvalho da primavera aumenta o fruto do campo e a palavra espiritual exalta a firmeza da alma.
O fluxo do aborrecimento expulsa o monge de sua morada, enquanto que aquele que é perseverante está sempre tranqüilo.
O aborrecido aduz como pretexto a visita aos doentes (13), coisa que garante seu próprio objetivo.
O monge aborrecido é rápido em terminar suas tarefas e considera um preceito sua própria satisfação; a planta doente é dobrada por uma brisa leve e imaginar uma saída [justificadora] distrai o aborrecido.
Uma árvore bem plantada não é sacudida pela violência dos ventos e o aborrecimento não submete a alma bem sustentada.
O monge que anda em círculos, como uma solitária fibra seca, está pouco tranqüilo e, sem querer, é interrompido aqui e acolá a todo tempo.
Uma árvore transplantada não frutifica e o monge vagabundo não produz fruto de virtude. O doente não se satisfaz com um só tipo de alimento e o monge aborrecido não se satisfaz com uma só ocupação.
Não basta uma só mulher para satisfazer ao voluptuoso e não basta uma só cela para o aborrecido.

Capítulo 14
O olho do aborrecido se fixa continuamente nas janelas e sua mente imagina que chegam visitas; a porta gira e ele sai, escuta uma voz e olha pela a janela e dali não se afasta até que, sentado, se canse.
Quando lê, o aborrecido boceja muito, se deixa levar facilmente pelo sono, pesam-lhe os olhos, deita-se e, tirando o olhar do livro, o fixa na parede e, voltando a ler mais um pouco, fatiga-se inutilmente ao final de cada palavra; passa, então, a contar as páginas, calcular os parágrafos, desprezar as letras e belezas de estilo; finalmente, fechando o livro, o põe debaixo da cabeça e cai em sono não muito profundo. Pouco depois, a fome desperta na alma e, com ela, todas as suas preocupações.
O monge aborrecido é frouxo para a oração e certamente jamais pronunciará as palavras da oração; como efetivamente o doente jamais carrega peso excessivo, assim também o aborrecido seguramente não se ocupa diligentemente dos deveres para com Deus: primeiro, porque lhe falta efetivamente a força física; segundo, porque estranha o vigor da alma.
A paciência, o fazer tudo com muita constância e o temor de Deus curam o aborrecimento.
Dispõe para ti mesmo uma justa medida em cada atividade e não desistas antes de tê-la concluído; reza prudentemente e com força, e o espírito de aborrecimento se afastará de ti.
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Nota:
13. Na tradição dos monges do deserto, o abandonar a cela era uma das principais tentações do aborrecimento. Visitar doentes era, portanto, a maneira de encobrir sob o manto da caridade o desejo de sair da solidão.
VII. A VANGLÓRIA

VII. A Vanglória (14)
Capítulo 15
A vanglória é uma paixão irracional que facilmente se enraíza em todas as obras virtuosas.
Um desenho traçado na água desaparece tal como a fadiga da virtude na alma vangloriosa.
A mão escondida no bolso apresenta-se inocente e a ação que permanece oculta resplandece com uma luz mais brilhante.
A hera adere à árvore e, quando chega ao ponto mais alto, seca-lhe a raiz; assim, a vanglória se origina nas virtudes e não se afasta enquanto não lhes tiver consumido as forças.
O cacho de uvas caído sobre a terra murcha facilmente e a virtude, se apoiada na vanglória, perece.
O monge vanglorioso é um trabalhador sem salário: esforça-se no trabalho, porém, não recebe qualquer pagamento; o bolso furado não guarda com segurança o que nele é colocado e a vanglória destrói a recompensa das virtudes.
A moderação do vanglorioso é como a fumaça na estrada: ambas desaparecem no ar.
O vento apaga a pegada do homem tal como a esmola do vanglorioso. A pedra lançada ao ar não atinge o céu e a oração de quem deseja comprazer aos homens não chega a Deus.

Capítulo 16
A vanglória é um obstáculo submerso: se chocas contra ele, corres o risco de perder a carga.
O homem prudente esconde seu tesouro tanto como o monge sábio [esconde] as fadigas da sua virtude.
A vanglória aconselha rezar nas praças, enquanto que quem a combate reza em sua pequena habitação.
O homem pouco prudente torna evidente a sua riqueza e faz com que muitos a queiram tomar para si. Tu, ao contrário, esconde as tuas coisas: durante o caminho, encontrarás assaltantes, mas, ao chegardes à cidade da paz, poderás usar dos teus bens tranqüilamente.
A virtude do vanglorioso é um sacrifício extenuante, que não é oferecido no altar de Deus.
O aborrecimento consome o vigor da alma, enquanto que a vanglória fortalece a mente daquele que se esquece de Deus, torna robusto o fraco e torna o velho mais forte que o jovem, mas somente enquanto sejam muitas as testemunhas que os assistem. Então serão inúteis o jejum, a vigília, ou a oração, porque é apenas a aprovação pública que excita o seu zêlo.
Não mostres tuas fadigas para colher a fama, nem renuncies a glória futura para seres aclamado. Com efeito, a glória humana habita na terra e na terra extingue-se a tua fama, enquanto que a glória das virtudes permanecem para sempre.
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Nota:
14. O termo Kenodoxía deriva de kenós "vazio, vão" e dóxa, "opinião": uma imagem de si que se projeta aos demais com base em valores inexistentes ou insignificantes por sua trivialidade.
VIII. A SOBERBA

Por Evágrio Pôntico
Tradução: Carlos Martins Nabeto
Fonte: VE Multimedios
VIII. A Soberba (15)
Capítulo 17
A soberba é um tumor da alma, cheio de pus. Se maduro, explodirá, emanando terrível fedor.
O resplandor do relâmpago anuncia o estrondo do trovão e a presença da vanglória anuncia a soberba.
A alma do soberbo alcança grandes altitudes e, daí, cai no abismo.
Sofre de soberba o apóstata de Deus, quando atribui às suas próprias capacidades as coisas bem sucedidas.
Como aquele que cai numa teia de aranha [e aí fica preso], assim cai aquele que se apóia nas suas próprias capacidades.
A abundância de frutos dobra os ramos da árvore; a abundância de virtudes humilha a mente do homem.
O fruto caído na terra é inútil para o lavrador e a virtude do soberbo não é aceita por Deus.
A cana sustenta o ramo carregado de frutos e o temor de Deus [sustenta] a alma virtuosa. Como o peso dos frutos quebra o ramo, também a soberba abate a alma virtuosa.
Não entregues tua alma à soberba e não terás fantasias terríveis. A alma do soberbo é abandonada por Deus e se converte em objeto de maligna alegria dos demônios. À noite, imagina manadas de bestas que o assaltam e, durante o dia, vê-se alterado por pensamentos vis. Quando dorme, facilmente se sobressalta e, quando vela, se assusta com a sombra de um pássaro. O sussurar das copas das árvores aterroriza o soberbo e o som da água destroça a sua alma. Aquele que efetivamente tem se oposto a Deus, rejeitando sua ajuda, vê-se depois assustado por vulgares fantasmas.

Capítulo 18
A soberba precipitou o arcanjo do céu (=Lúcifer) e, como um raio, o fez espatifar-se [junto com outros] sobre a terra.
A humildade, ao contrário, conduz o homem para o céu e o prepara para fazer parte do côro dos anjos.
"De que te orgulhas, ó homem, quando por natureza sois barro e pó e por que te elevas sobre as nuvens?
Contempla tua natureza, porque sois terra e cinza, e em breve voltarás ao pó, agora soberbo e, dentro de pouco, verme.
Para que elevas a cabeça que daqui a pouco cairá por terra?"
Grande é o homem socorrido por Deus; uma vez abandonado, reconheceu a debilidade da natureza. Não possuís nada que não tenhas recebido de Deus; não desprezes, portanto, o Criador.
Deus te socorre; não rejeites ao Benfeitor. Chegaste ao topo da tua condição, porém, Ele te tem guiado; tens agido retamente, segundo a virtude, e Ele te tem conduzido. Glorifica a quem te elevou, para permanecerdes seguro nas alturas; reconhece Aquele que tem a mesma origem que a tua, porque a substância é a mesma e não rejeites, por jactância, este parentesco.

Capítulo 19
Humilde e moderado é aquele que reconhece este parentesco; porém, o Criador (16) fez tanto a Ele como o soberbo.
Não desprezes o humilde: efetivamente ele está mais seguro que tu, caminha sobre a terra e não se precipita; porém, aquele que se eleva mais para o alto, quando cai se espatifa.
O monge soberbo é como uma árvore sem raízes e não suporta o ímpeto do vento.
Uma mente sem jactância é como uma cidade bem fortificada e quem a habita será incapturável.
Um sopro arrasta a pena e o insulto leva o soberbo à loucura.
Uma bolha [de sabão] levada pelo vento desaparece e a memória do soberbo perece.
A palavra do humilde adoça a alma, enquanto que a do soberbo está cheia de jactância.
Deus acolhe a oração do humilde; ao contrário, se exaspera com a súplica do soberbo.
A humildade é a coroa da casa e mantém seguro quem ali entra.
Quando te elevares ao topo da virtude, precisarás de muita segurança. Aquele que efetivamente cai, rapidamente se recupera; porém, aquele que se atira de grandes alturas, corre risco de morte.
A pedra preciosa brilha no bracelete de ouro e a humildade humana resplandece nas muitas virtudes.
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Notas:
15. O termo Hyperephanía provém do superlativo hypér e phaíno, "o que aparece": aquele que aparece como mais do que é, arrogância, orgulho.
16. Evágrio emprega o termo Demioyrgós que, na tradução grega, equivale ao trabalhador manual ou a divindade que criava o mundo a partir de uma matéria pré-existente. Parece que aqui é usado no sentido de "Deus Criador", embora esta acepção não seja totalmente clara.

OS 7 PECADOS CAPITAIS E AS 7 VIRTUDES OPOSTAS

Todo ser humano é, em essência, bom. Todos nó trazemos inscritas em nossa mente e na nossa consciência a moral e as leis de Deus. Mas nós podemos anestesiar esse instinto divino a partir do pecado ( Rom 7, 16-20 ), que está presente como um mácula em nossa alma desde Adão e Eva, como nos mostra a Bíblia ( Gen 3, 1-13 )
Quando pecamos, nós preferimos a nossa lei à lei de Deus, fazer o que bem entendemos, muitas vezes não levando em conta as conseqüências.
Pecado Capital ( de ?capita? = cabeça, o pecado que é a cabeça ) é o pecado que leva a outros pecados, outros vícios.
Virtude ( de ?vir? = varão, homem, que significa firmeza ) é uma disposição habitual e firme para fazer o bem. Não apenas pratiquemos atos bons ( pois até o pior criminoso é capaz de ter atos bons ocasionalmente ), mas sim sejamos bom, verdadeiros cristãos.
A Igreja ensina: temos 7 pecados capitais e 7 virtudes opostas.
7 Pecados Capitais 7 Virtudes Opostas

Orgulho ou soberba Humildade
Avareza Generosidade
Inveja Caridade
Ira Mansidão
Luxúria ou Impureza Castidade
Gula Temperança
Preguiça Diligência
1 ? Orgulho
O Princípio de todo pecado é o orgulho, a vaidade, pois é a tentativa de se igualar a Deus de ser auto-suficiente senhor de si, passando por cima da autoridade de Deus. O Orgulho caracteriza-se por acharmos que os dons de Deus vêm de nós mesmos. Leva aos pecados da presunção, da vanglória ( Gn 11 ? O episódio de Babel ). Nós passamos a procurar sempre reconhecimento, elogios, por nossos atos e acabamos nos gabando das coisas que fazemos. Com orgulho, a pessoa desanima no fracasso, pois acha-o impossível.
Humildade
É o reconhecimento de nossa pequenez. No final das contas. É e verdade sobre nó mesmos, sabendo que tudo é Dom de Deus. Devemos recorrer a Nossa Senhora, que foi exemplo de humildade, para pedir essa virtude.
2 Avareza
Desejo desordenado dos bens deste mundo. Os bens deste mundo foram feitos pra suprir nossas necessidades e a de nossos irmãos. A avareza é a síndrome de acumular, juntar, empilhar coisas. É o culto ao dinheiro. Leva a fraudes, roubos, mesquinharia e ambição ? passar por cima dos outros. Em vez de senhores das coisas passamos a ser escravos delas ( Mt 6, 23-34 )
Generosidade
É o despojamento quanto aos bens materiais, compartilhando-os com aqueles que necessitam. Daí e vos será dado-disse Jesus. Deus ama o que dá com alegria. Deus é generoso com seus filhos, portanto, todo cristão deve ser generoso com seu próximo.
3 Inveja
É a tristeza diante do bem próximo. O invejoso está sempre de olho nos outros, no bem dos outros. O invejoso:
Não valoriza seus bens
Desenvolve o espírito critico, diminuindo o outro
Calunia aquele que inveja
Histórias de inveja na Bíblia: Caim e Abel, José e seus irmãos, Saul e David
Caridade
É o olhar bom para o próximo, o amor para o próximo. Amar nosso irmão sem julgá-lo. Ter paciência, perdoar sempre o irmão e a comunidade.
O desafio da caridade é se alegrar com o bem do irmão. Devemos amar nosso irmão com palavras e obras.
4 Ira.
Estado emocional desordenado, é a raiva excessiva. A ira é um mal em si mesma, pois tira a paz do indivíduo. Leva à impaciência, furor, violência, ódio e assassinato. Devemos deixar bem claro que força é diferente de violência. Ser violento não significa que a pessoa seja forte. A paciência é a maior prova de força.
Mansidão.
É a força revestida de veludo. É a calma, a tranqüilidade e o equilíbrio emocional. A mansidão é necessária para agradar a Deus, para a convivência e para manter a paz.
5 Luxúria ou Impureza
É a erotização exacerbada e o mal uso da sexualidade. Vivemos num mundo altamente erotizado. A moda, os espetáculos, os shows, os programas televisivos tem sempre apelo sexual.
Não sabeis que vossos corpos são membros de Cristo?? Somos templo da Santíssima Trindade. A sexualidade deve ser governada pelo amor. O sexo, o amor e a transmissão da vida são três coisas que estão intimamente ligadas, mas forram separadas de forma lastimável pelo homem moderno.
Castidade
É o respeito de nosso corpo e ao corpo do próximo. É o 6º mandamento da Lei de Deus.
6 Gula
É um vício em que há busca de um prazer desordenado na comida e na bebida.
· Comer excessivamente
· Comer com os olhos
· Comer se preocupando com gostos requintados
· Vícios como o fumo, álcool, tranqüilizantes, etc.

Perde-se a força de vontade de se livrar dos vícios.
Temperança
Consiste em conservar o nosso corpo,a paz interior, a saúde. Por exemplo, ter uma alimentação balanceada, se livrar de substâncias que envenenem nosso organismo, etc.
7 Preguiça
É a negação do esforço, é o comodismo:
· Fazer tudo de qualquer jeito
· Não fazer as coisas com amor
· Cansaço constante
· Pelo fato de não podre fazer o excelente, não faz nada
· Falta de Tempo.
Diligência.
A palavra diligência vem de diliger = amar. É não se cansar de fazer as coisas, valorizando-as sempre. Caracteriza-se pela garra, força e amor.

FAZER A VONTADE DE DEUS SEGUNDO SANTO AFONSO DE LIGÓRIO

Afonso de Ligório, jovem advogado, teve sua fama aumentada quando começou a pregar, realizando uma revolução nos corações dos pobres e humildes de Nápoles, pois acreditava com todo fervor, que quando se “ propõe adequadamente o bem”, qualquer pessoa a ele se entrega e se transforma. Seu apostolado crescia e muitos aderiam à força de sua mensagem, pois sabia que todos somos chamados, em grau maior ou menor a ser santos.

Assim, qualquer “alma redimida pelo Batismo, tornando-se pela graça templo do Espírito Santo, possui em potência o indispensável para atingir a santidade”. Alertava a todos que só as orações vocais e atos externos de piedade dificilmente levam à santificação, e que por isso deveriam recorrer a uma vida de intensa piedade interior, estimulando-os à oração mental, tão necessária ao crescimento das virtudes, pois coloca a alma contantemente na presença de Deus e da insuficência própria, iluminando-a a respeito das perfeições de Deus e das limitaçoes e defeitos próprios. Nesta sua caminhada de santidade e de profundo amor a Deus e as almas, descobre como se deve conduzir para se fazer a vontade de Deus que é sempre soberana e que conduz o homem ao seu fim último que é santidade e perfeição. Esta caminhada que percorreremos, pedindo à Santíssima Virgem que nos ajude a compreender tal vontade, para sermos também, como Santo Afonso, santos e irrepreensíveis aos olhos do Pai, que é Santíssimo.

O Caminho da Santidade

O mais importante é fazer a Vontade de Deus, nos diz Santo Afonso de Ligório, e nos revela que toda perfeição ou santidade consiste no amor a Deus, entretanto, toda a perfeição do amor consiste em conformar nossa vontade a Sua vontade , porque no dizer de São Basílio, “o efeito principal do amor é: unir as vontades dos que se amam de maneira que tenham uma só vontade”. Não há dúvida que agradam a Deus nossos sacrifícios, renúncias e meditações, obras de misericórdia, exercícios de piedade, contanto que tudo esteja de acordo com a sábia vontade do Senhor. Caso contrário, Deus os reprova e são merecedores de castigo. Se nossas obras e atividades não se realizam segundo o agrado divino, como poderiam agradar a Deus?

O profeta Samuel quando disse: “A obediência vale mais que sacrifícios” (I Samuel 15,22), mostrou que obedecendo a Deus o agradamos mais que se fizermos sacrifícios, já que o homem que deseja agir por conta própria, comete uma espécie de idolatria, porque neste caso, adora sua própria vontade, não a vontade de Deus. Pode-se dizer seguramente que a maior glória que damos a Deus é quando fazemos Sua vontade, foi o que fez Jesus quando veio a este mundo, justamente para glorifica-lo, pois disse várias vezes que não veio para fazer a Sua vontade mas a do Pai que o enviou e isso se cumpriu quando entrou no mundo se fazendo vítima de expiação para a remissão dos pecados da humanidade. Deus recusou todos os sacrifícios dos homens para receber a vítima perfeita, esta vítima era Cristo. O mundo haveria de entender este amor imenso pela vontade do Pai, que era remir os homens que estavam nas trevas do pecado e da condenação eterna, por isso, a cruz foi o caminho escolhido. Antes de se entregar disse: “ Para que o mundo saiba que eu amo o Pai, e faço como o Pai me mandou, levantai-vos e saiamos daqui”(Jo 14, 31). Seus seguidores seriam identificados como tal se fizessem como Ele, a vontade do Pai: “Pois todo aquele que fizer a vontade de Meu Pai que está nos céus, este será meu irmão, irmã e mãe”(Mt 12,50).

Se tem algo que os santos descobriram, é que ninguém se torna santo sem a busca da perfeição cristã e que toda sua luta consistiu nisso, em fazer sua vontade se conformar à vontade de Deus. Eles são exemplos para nós, que participamos da Igreja militante rumo ao céu, o seu amor puro e perfeito, e a glória a que se encontram há de nos estimular a buscar também fazer a vontade de Deus, amando-o acima de qualquer coisa, o que então facilitará muito em aceitarmos Sua vontade seja ela qual for. Jesus nos ensinou a pedir a graça de fazer Sua vontade na terra, como o fazem os santos no céu: “Seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu”(Mt 6,10). Santa Tereza nos diz: ”Toda a aspiração de quem começa a rezar deve ser esta: quero trabalhar, quero me esforçar para em tudo conformar minha vontade com a vontade do Pai. Nisto consiste a maior perfeição que se pode alcançar no caminho espiritual”(Moradas, 2). O bem-aventurado Henrique Suso dizia que: “Deus não exige de nós que tenhamos muitas idéias luminosas, mas que façamos sua vontade” e que “Preferia ser o mais desprezível verme na terra por vontade de Deus do que um anjo no céu por sua própria vontade”.

Nossa vontade seja também a vontade de Deus, esta é a mais alta perfeição que podemos aspirar e para isso é preciso que entreguemos tudo a Ele, porque se assim o fizermos estamos nos dando a Ele por inteiro. “Quem dá esmolas, entrega ao Senhor parte de seus bens, que se sacrifica, lhe dá um pedaço de si próprio. Quem pratica o jejum, oferece seu alimento, mas aquele que lhe oferece sua vontade, se consagra totalmente a Deus. Não reserva nada para si” e por isso pode verdadeiramente dizer a Deus: ‘Meu Deus e meu Senhor, sou pobre, mas eu vos dou tudo o que tenho, tudo o que sou, porque dando-vos minha vontade, nada mais me sobra para vos dar’, e é precisamente isto que o Senhor nos pede quando diz: “Meu filho, dá-me teu coração”(Pr 23, 26), isto é, tua vontade. Santo Agostinho nos lembra que não podemos fazer oferenda mais agradável a Deus do que lhe dizer: “Tomai, Senhor, posse de mim; eu vos dou toda a minha vontade; dai-me entender o que quereis de mim, e dai-me disponibilidade para realizá-lo”.

O Caminho da Paz

O bem-aventurado João de Ávila diz que “mais vale um muito obrigado, Meu Deus, na adversidade, do que mil Graças a Deus na prosperidade”, constatanto que é exatamente nas provações que se avalia se estamos mesmo conformando nossa vontade à vontade d’Ele. A perfeição desta virtude consiste nesta união, tanto na prosperidade como na adversidade, na alegria e na tristeza, no sucesso e no fracasso, na saúde e na doença. Quando se trata de sucesso e prosperidade, até os pecadores sabem aceitar gostosamente as disposições de Deus, mas os santos sabem unir sua vontade aos desejos do Senhor, mesmo que contrariem seu amor próprio. Certo e de fé que nada sucede no mundo senão por permissão de Deus, entendendo isso poderemos receber com resignação cristã o que diretamente vem de Suas mãos, independente do que seja, como também é preciso receber o que vem por meio das criaturas, da maldade dos homens: desprezo, calúnias, injustiças, perseguições de toda a sorte. O Senhor nunca aprova o pecado e a manifestação de injúrias por parte das pessoas, mas se utiliza e até as permite, para delas tirar um bem maior para seus servos e amigos. O Cristão que se exercita no cumprimento desta virtude, não somente se santifica, mas gozará na terra de uma paz impertubável, porque sabe que ”tudo concorre para o bem daqueles que O amam, daqueles que segundo seu desígno, são eleitos”. (Rm 8,28). Diz o livro dos Provérbios: “Nenhum mal atingirá o justo, mas para os ímpios tudo serão males”(Pr 12,21).

As pessoas que se esforçam por querer o que Deus quer, são muitas vezes humilhadas, mas amam as humilhações; padecem pobreza, mas amam a pobreza, enfim, aceitam com amor o que lhes acontece e levam assim uma vida calma, tranquila e feliz. Vem o frio, vem a chuva, vem o calor, vem o vento, o bom cristão aceita tudo por Deus, porque assim Deus o quer. Jó ao receber a notícia de toda a tragédia de sua vida disse categoricamente: “O Senhor mo deu, o Senhor mo tirou; bendito seja o nome do Senhor”(Jó 1,21), se ele perdeu algo, não culpou pessoas, porque sabia que nada acontece se não for da vontade do Senhor. Jó olhou com o olhar de Deus as provações e tribulações que pesou sobre ele, não como fruto do azar ou do destino, mas como sinal da vontade soberana de Deus. Santo Agostinho gostava de dizer: “Tudo o que acontece contra nossa vontade, devemos nos convencer que sucede por vontade de Deus”. Esta é a liberdade tão admirável que gozam os filhos do Altíssimo. Liberdade interior que vale mais que todos os tesouros e poderes no mundo dos homens. É aquela paz que os santos experimentaram, “paz que supera todo o entendimento”(Fl 4,7).

O homem santo permanece na sabedoria como o sol, mas o insensato muda como a lua. O pecador é como ela: hoje cheia, amanhã, minguante; hoje ri, amanhã chora de remorso, de angústia e tristeza; hoje parece tranquilo e sereno, amanhã furioso como o tigre. E por que? Porque seu contentamento depende das coisas boas ou más que lhe acontecem, e, por isso, mudam segundo sopram os ventos favoráveis ou contrários. O justo é como o sol, sempre sereno e tranquilo, porque sua paz está fundada na conformidade de sua vontade com a vontade de Deus. Podemos gozar aqui na terra de um paraíso antecipado, pois esta paz causa alegria plena, e foi exatamente o que aconteceu aos santos, independente do que passavam; é uma alegria que o mundo não compreende mas que pode e deve estar no coração daquele que tudo se conforma a Deus, e nada, nem a dor, nem a fome, nem a tribulação, haverá de tirar esta paz e impedir que se cumpra de fato a vontade de Deus em sua vida.

Seja Feita a Vossa Vontade

“Quem poderá resistir à vontade de Deus?”(Rm 9,19) diz São Paulo constatando que ninguém pode impedir que se cumpram os decretos divinos, e que por isso, sábio é aquele se deixa conduzir por Deus em todos as ocasiões de sua vida, e que todos os homens, grandes ou pequenos, ricos e pobres deverão carregar sua cruz. Os que carregam cheios de revolta, sem amor, terão neste mundo uma vida inquieta, vazia, e na outra terão sofrimentos maiores, é o que se lê no livro de Jó: “Deus é sábio de coração, forte e poderoso, quem lhe poderá resistir impunemente?”(Jó 9,4). “Que buscas, ó homem – dizia Santo Agostinho -, buscando bens e mais bens? Ama e busca, o único bem verdadeiro, no qual estão todos os bens. Busca Deus, entrega-te a Ele, abraça a sua santa vontade e viverás sempre feliz, nesta e na outra vida”.

Poderemos encontrar um amigo que nos ame mais que Deus? Todo seu desejo e empenho é de que ninguém se perca, pois sendo Ele por natureza, a bondade infinita, a própria bondade, e sendo próprio dela se comunicar a outros, Ele só deseja nos fazer participantes de seus bens e de sua eterna e infinita felicidade. Depois que Deus ofereceu ao mundo a salvação em Seu Filho Jesus Cristo pela Igreja, poderá negar-nos alguma coisa? “Se Deus é por nós, quem será contra nós?”(Rm 8,31). Se queres ser agradável ao Senhor e levar neste mundo vida feliz e tranquila, procura estar unido, sempre e em todas as coisas, à vontade do Senhor e permanece fiel à oração nunca se esqueçendo de que todos os pecados, desordens e angústias de tua vida passada tem raiz e fundamento o te haveres separado da vontade de Deus. Apega-te de hoje em diante à vontade divina e em tudo que te acontece reza como Jesus Cristo: “Sim, ó Pai, porque isso foi do teu agrado” (Mt 11,26). Quando as humilhações e depressões pesarem, que teu espírito cheio de humildade e de conformidade diga a Deus: “Calo-me, já não abro a boca, porque sois Vós que operais” (Sl 38,10.) A isto deves orientar todos os teus pensamentos e orações, pedindo sempre ao Senhor, na meditação, na comunhão, na visita ao Santíssimo Sacramento, que tudo te ajude a cumprir a vontade d’Ele, dizendo: “Aqui me tendes, Meu Deus, fazei de mim o que quiserdes!” Santa Teresa assim o fazia, oferecendo-se a Deus muitas vezes por dia.

Assim Na Terra Como No Céu

A enfermidade é a pedra de toque dos espíritos humanos, porque a seu contato se descobre a virtude, o valor que uma alma tem em si. Se suporta a provação sem perturbar-se, sem lamentar-se nem inquietar-se; se obedece ao médico e aos superiores; se permanece tranquila e resignada à vontade de Deus, é sinal que sua virtude é sólida. De nada adiantará a murmuração, o lamento, as queixas, já que sua alma não crescerá em virtude e não fará com isso a santa vontade de Deus, tornando seus tormentos maiores e pouco frutuosos, já que poderia te-los usados para sua própria santificação.

Devemos também resignar-nos à vontade de Deus nas desolações e securas espirituais. Quando uma alma se entrega à vida de justiça e santidade, o Senhor constuma mandar-lhe todo o gênero de sofrimentos e de desolações espirituais. Por que? – Para desprende-la dos prazeres da vida. Para ver se nosso amor é verdadeiro, desinteressado; para testar nossa fé e nossa fidelidade; para ver se procuramos “O Deus das consolações ou as consolações de Deus”. Os santos sofreram muitas desolações e securas espirituais. “Que duro está meu coração, exclamava São Bernardo; não tenho gosto nem para ler, não encontro consolo nem na oração nem na meditação”. Mas eles sabiam que as verdadeiras alegrias, santas e ternas, Deus as reserva para o céu. Esta terra é lugar de merecimento, ao passo que o paraíso é o lugar de prêmio e descanso, de repouso no Senhor.

Finalmente, devemos nos resignar-nos à vontade de Deus, quando a morte nos visitar, seja quanto ao tempo, ao lugar e ao modo. Viver procurando a Sua vontade em todas as circunstâncias de nossa vida é sinal de grande sabedoria cristã. Quer na vida, quer na morte, quer no tempo, quer na eternidade, minha felicidade está na realização da vontade divina. Assim procediam Jesus, Nossa Senhora e todos os santos, querem exemplos melhores? O temor de perder a Deus nos faz sermos vigilantes e sempre dispostos a jamais perder a graça alcançada. Quem ama deseja a presença da pessoa amada. O amor requer presença. E como “quem não morre não vê a Deus”, devemos suspirar e não temer, como os santos pela hora da morte libertadora para entrarem no paraíso. Santo Agostinho rezava pedindo a salvação: “Morra eu, Meu Deus, para ir ver-te!”…E São Paulo desabafou: “Desejo partir para estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor”( Fl 1,23). E o profeta Davi, muitos séculos antes do Apóstolo, suspirava: - “A minha alma tem sede do Senhor, do Deus Vivo. Quando poderei chegar, para contemplar a face de Deus”(Sl 41,3). Assim falavam e rezavam todas as almas enamoradas do Senhor da vida.

Os Bens Espirituais

Esta é a ambição que deves cultivar no coração: amar a Deus o máximo que puderes. Todavia não se deve desejar um grau de amor maior do que aquele que o Deus de amor determinou nos conceder desde toda a eternidade. Disse o bem-aventurado Pe. João de Ávila: - “Não creio que tenha existido um santo que não desejasse ser melhor do que era. Mas isso não lhe tirava a paz e estava sempre contente com os dons recebidos”. Por outro lado, sejamos diligentes e fervorosos em procurar nossa perfeição, usando todos os meios ao nosso alcance. Não devemos permitir jamais que a rotina e a tibieza invadam nossa vida espiritual e religiosa, dizendo: “Se Deus quiser, tudo vai dar certo”…”Deus é Pai e misericordioso”.

Não devemos nos deixar levar pelo desânimo e arrastar fraquesas, sem fazer esforço algum para romper com o egoísmo e os pecados. Sem perder a coragem, o ânimo e a confiança em Deus, com humildade, paciência e firmeza, procura valer-te da oração e dos sacramentos, do Evangelho e da devoção a Nossa Senhora, prosseguindo a caminhada para o alto. Não percas tempo desejando coisas sublimes como êxtases, visões, revelações, arroubos e outros dons sobrenaturais, o que interessa é a graça da oração, o amor de Deus e zelo pela salvação dos irmãos. E se não for do agrado de Deus levar-nos a tão sublime grau de perfeição e glória, tudo bem; o mais importante é o cumprimento de Sua vontade santa e santificadora.

Conclusão

Em suma, devemos olhar como vindas das mãos de Deus todas as coisas que nos sucedem ou nos podem atingir. Todas as nossas ações sejam orientadas ao único fim de agradar a Nosso Senhor e de cumprir sua santa vontade, ela é o caminho mais seguro e firme que nos leva à justiça e à santidade. Para termos êxito neste caminho deixemo-nos guiar por nossos superiores e pela direção caridosa e sensata de nosso conselheiro espiritual. Esforcemo-nos por servir ao Senhor do modo que Ele deseja. Digo isto para que evitemos um engano muito comum, engano e erro em que muitos ainda estão, perdendo lastimosamente seu tempo precioso, alimentando fantasias, pensamentos tolos e dizendo ainda: “Se eu entrasse para o convento, para a vida religiosa, se me retirasse para um lugar solitário, fora de casa e longe dos amigos e dos parentes, eu me faria santo; eu me dedicaria mais à oração e à penitência!”…Contentam-se com dizer: “Eu me faria santo…eu me faria santo!” E, no entanto, não levam a cruz com amor, paciência e conformidade; não aceitam a vontade de Deus.

Meu amigo, cumprindo à risca a vontade do Senhor, certamente seremos santos, em qualquer estado ou situação de vida. Não queiramos mais do que Deus quer e, então, Ele levará o nosso nome gravado em suas mãos e em seu coração. Tenhamos sempre em mente algumas passagens da Escritura, que nos convidam a entrar no esquema da vontade divina: ”Senhor, que queres que eu faça?”( At 22,10); “Sou vosso, salvai-me”(Sl 118,94); Sim, Pai, eu vos bendigo, porque foi do vosso agrado fazer isto”(Mt 11,26). Mas entre todas as orações, é esta que devemos repetir e viver todo dia e todo momento: ”Seja feita a vossa vontade” – Seja para sempre bendita e louvada a vontade do Senhor, como também a Imaculada e bem-Aventurada Virgem Maria”.
Referência:
LIGÓRIO, Santo Afonso Maria de Ligório. Conversando Sobre a Vontade de Deus. Editora Santuário: Aparecida. 1986.

O que pedimos quando rezamos o Angelus? Aplicação prática em nossa vida cotidiana
Meditando nessa cena evangélica, tão sucintamente descrita quanto fundamental para a realização do plano divino da salvação da humanidade, podemos perceber como se dá o processo de manifestação da vontade de Deus no mundo. Primeiro mostra o que quer, convidando o homem a decidir-se. Depois o homem dá sua anuência - ou não. Positiva a resposta da vontade do homem à vontade de Deus, torna-se fato o desígnio do Senhor. Pela conjugação das duas vontades - divina e humana -, a terra contempla o espetáculo da realização do plano de Deus.
Não podemos esquecer, entretanto, que mesmo a vontade humana - que impele o intelecto à responder positivamente ao chamado de Deus -, é iluminada pela graça. "Porque é Deus quem, segundo o seu beneplácito, realiza em vós o querer e o executar." (Fl 2,13) Deus, portanto, participa, num primeiro momento, propondo a Sua vontade, convidando o homem a aceitar Sua graça. Num segundo momento, participa ainda Deus iluminando, novamente com a graça, a nossa vontade, para que livremente correspondamos à primeira.
Portanto, duas coisas tiramos como fruto dessa meditação sobre o Angelus: a) a primeira é que devemos, aos convites de Deus, responder com a nossa vontade livre para que a Sua se realize, e que desse modo é que procede o Senhor para manifestar Seus planos neste mundo; b) em seguida, que por essa nossa vontade, ainda que livre, ser iluminada pela graça, temos de dispor nossas almas aos influxos do amor divino, pois só responderemos ao anúncio de Deus de acordo com o Seu querer. Assim, precisamos, repetimos, adequar nossa vontade à de Deus para que esta última se realize plenamente, e desse consórcio magnífico entre o céu e a terra brotará o plano de Deus em ato, não somente em potência. E, como até sobre nossa vontade brilha a luz da graça do Senhor, devemos rogar a Ele que Se digne derramá-la sempre em nossos corações.
Esse é o teor da oração final, iniciada pela clássica invocação de que rogue a Santíssima Virgem por nós que nos aventuramos a rezar e meditar o Angelus: "V:/ Rogai por nós, Santa Mãe de Deus. R:/ Para que sejamos dignos das promessas de Cristo. Oremos: Derramai, ó Deus, a Vossa graça em nossos corações, para que, conhecendo pela mensagem do anjo, o mistério da Encarnação do Vosso Filho, cheguemos, por Sua Paixão e Cruz, à glória da Ressurreição. Pelo mesmo Cristo, Senhor nosso. Amém."
Belo resumo de tudo quanto expusemos até aqui. Pela reflexão do que houve no evento da Anunciação do anjo a Maria, tomamos conhecimento de que, agindo de maneira semelhante à Mãe de Deus, que correspondeu à vontade divina com a livre resposta da sua, e contemplando que, por causa da atitude da Virgem, Deus Se fez carne, podemos também nós proporcionar que os planos do Criador se concretizem, bastando, para isso, que imitemos a atitude de Nossa Senhora. Contribuindo para que o desígnio divino seja fato - como a vontade do Pai de que o Verbo Se Encarnasse contou com a correspondência da Virgem em seu "sim" -, o homem responde à graça, e, dessa sorte, se salva. Eis aí o que diz a oração, traduzida em palavras talvez mais simples. Não esquece a prece, todavia, que quem ilumina a nossa vontade para que corresponda à revelação de Deus, e assim seja nossa alma salva pela contribuição na realização do plano divino na terra, é a graça, pelo que, por isso mesmo, imploramos que seja ela derramada em nossos corações. "Portanto, para que corra ao encontro do Senhor, deseje ser dirigido por ele, submeta à dele a sua vontade e se torne com ele um só espírito, conforme o Apóstolo, pela adesão constante, Deus infunde piedade em que ele quer, e somente o homem piedoso é capaz de realizar toda essa obra." (Santo Agostinho. De gratia Christi et peccato originali, I, XLVI)
E o que é corresponder com nossa vontade à vontade de Deus? Um bom resumo está nas obrigações derivadas do Batismo: esforçar-se por ser santo e por fazer apostolado. Santificação pessoal e empenho apostólico, portanto, devem ser a regra de vida mais comum de todo que, dizendo-se cristão, quer imitar Nossa Senhora, e dizer "sim" ao plano de Deus. Na sua vida cotidiana, diante das situações colocadas por Deus, precisa o crente indagar-se sobre a Sua vontade e, então, corajosamente, levado pela graça, mas sempre respeitada sua liberdade, dar uma resposta à chamada divina.
Desse modo, ao lado da grande vontade de Deus, que deve reger nossa vida sempre - santificar-se, fazer apostolado -, o fiel irá, nas situações concretas, com seus atos, seus pensamentos, suas palavras, responder "sim" ou "não" ao que o Senhor propõe. Não basta aceitar colaborar com a graça uma vez, de modo geral. Não bastam bons propósitos de santidade e apostolado. É preciso que sejam essas duas resoluções renovadas no dia a dia, com profissões de fé, claro, mas também com atitudes práticas. Até disso nos dá exemplo, novamente, a Santa Mãe do Salvador: "A vida de Maria foi o cumprimento até às últimas conseqüências daquele primeiro fiat (faça-se) pronunciado no momento da Anunciação" (Sua Santidade, o Papa João Paulo II. Exortação Apostólica Redemptoris Custos, 17)
Temos de ser santos! É uma ordem de Deus! Para isso, não nos resta alternativa senão obedecer. E o faremos se soubermos, como nos ensina essa oração do Angelus, dizer, como Maria, ecce ancilla Domini, eis a escrava do Senhor. Temos, outrossim, de fazer apostolado. E a receita é a mesma: fiat mihi secundum verbum tuum, faça-se em mim segundo a vossa palavra.
O texto da oração do Angelus, sobre o qual meditamos com estas linhas, é uma explanação da obra feita por Deus a partir da resposta da Virgem ao convite transmitido pelo anjo. Por essa razão, a finalidade de rezarmos o Angelus consiste em refletir sobre a obra da Encarnação - essencial na História da Salvação, e, portanto, na teologia e piedade católicas! -, sobre as disposições da Mãe do Céu à revelação de São Gabriel, sobre o "sim" firme e corajoso de Maria Santíssima, e sobre nossa obrigação de imitá-la em sua atitude decidida de submeter-se ao Senhor, colaborando com a graça; rezar o Angelus é evocar as maravilhas nascidas da união da vontade do homem à vontade de Deus, mediante a entrega de nossas potências a Ele pela fé sobrenatural; enfim, rezar o Angelus é pedir que o Salvador nos ajude a agir da mesma maneira que agiu a Beatíssima Virgem.
Disposto para ser recitado duas vezes por dia, criam-se condições de sua mensagem estar sempre à nossa lembrança. Pois não somente em momentos especiais é que devemos dizer "sim" a Deus, porém a cada instante de nossa curta existência na terra.
Tenhamos certeza de que, à semelhança do que houve na Encarnação, o fruto de nossa livre associação à vontade de Deus, santificando-nos e fazendo apostolado, será maravilhosamente belo!
Uma última recomendação a dar é que, sendo uma oração com uma marca acentuadamente mariana, o Angelus deve ser recitado com um coração cheio de confiança em que Nossa Senhora irá nos auxiliar, pondo-se entre Cristo e nós, para rogar do Senhor, seu filho, que, por Seus méritos, Se digne infundir a graça em nós, predispondo-nos para respondermos sempre ao convite celeste de acordo com a vontade divina, fazendo bom uso de nossa liberdade para a execução dos planos do Criador na terra. "A Igreja sabe e ensina que 'todo o influxo salutar da Santíssima Virgem em favor dos homens se deve ao beneplácito divino e ... dimana da superabundância dos méritos de Cristo, funda-se na sua mediação, dela depende absolutamente, haurindo aí toda a sua eficácia; de modo que não impede o contato imediato dos fiéis com Cristo, antes o facilita.' Este influxo salutar é apoiado pelo Espírito Santo, que, assim como estendeu a sua sombra sobre a Virgem Maria, dando na sua pessoa início à maternidade divina, assim também continuamente sustenta a sua solicitude para com os irmãos do seu Filho." (Sua Santidade, o Papa João Paulo II. Encíclica Redemptoris Mater, 38)
A reza do Glória, por fim, demonstra a esperança do cristão de que o que foi pedido será alcançado, e que por isso deve ser bendito o nome do Senhor. "Àquele que se assenta no trono e ao Cordeiro, louvor, honra, glória e poder pelos séculos dos séculos." (Ap 5,13)

As sete palavras na cruz ( S. Pedro de Alcântara ).

1.”Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem.” Lc 23,34 = caridade para com os inimigos.
2.”Hoje estarás comigo no Paraíso.” Lc 23, 43 = misericórdia para com os pecadores.
3. “Mulher, eis aí teu filho.” Jô 19, 26 = piedade para com os pais.
4. “Tenho sede.”Jô 19, 28 = desejar salvar o próximo.
5. “Meu Deus, por que me desamparaste?” Mt 27, 46 = oração na tribulação.
6. “Tudo está consumado.” Jô 19, 30 = obediência e perseverança.
7. “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.” Lc 23, 46 = entrega total a Deus ( a perfeição ).

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