domingo, 21 de dezembro de 2014

Procurar e Encontrar Cristo - sermão de São João de Ávila.

Procurar e encontrar Cristo
Por São João de Ávila

Segundo sermão da Epifania proferido por São João de Ávila (1500-1569) e publicado pela primeira vez em 1596. São joão de Ávila foi um dos expoentes da Reforma levada a cabo pela Igreja após o Concílio de Trento, um dos maiores pregadores do seu tempo (tanto que foram os seus admiradores a transcrever os seus sermões) e autor de alguns tratados espirituais, entre os quais está o famoso Audi, Filia.

E, prostrando-se, o adoraram. (Mt 2, 11)


DOR E ALEGRIA

Ter filhos é uma grande alegria para as mulheres casadas, mesmo que sofram as dores do parto. Diz Jesus Cristo: Depois que deu à luz um menino, já não se lembra da aflição por causa da alegria que sente pelo filho (Jo 16, 21). O dia da alegria das mães é aquele em que dão à luz os seus filhos. Consideram-se grandes maravilhas de Deus tirar o pobre da imundície (Sl 112, 7) e fazer a mulher estéril dar à luz (cf. Is 54, 1 e 1 Sam 2, 5). Juntemos estas duas coisas e acrescentemos outra maior.

Quando dá à luz, a mulher sente dores, mas depois do parto se alegra; e, se não podia dar à luz, Deus faz a maravilha de lhe dar filhos. O filho depois da esterilidade é motivo de dupla alegria. Quantas causas de regozijo quereis que acrescentemos hoje à Virgem Maria? Uma mulher honrada, casada, desejosa de fazer o bem, que tem entre os braços um Menino que chega a tirar-nos a vontade de ver os céus; mãe de um filho cujo parto foi sem dores.

Oh, Senhora, se um filho que dá dor, depois do parto dá alegria, quanta alegria não Vos dará Aquele que no parto Vos deu duplo regozijo? Se a estéril sente tanta alegria quando dá à luz, quanta alegria não sentirá a que permaneceu virgem depois de ter dado à luz? Se a mulher que dá à luz se sente feliz sem saber que futuro espera o seu filho, até que ponto não se regozijará Aquela que deu à luz um filho que sabe ser o Filho de Deus? Bem o disse Isaías: Alegrar-se-á a terra deserta sem caminho e a estepe regozijar-se-á e florirá como o lírio (Is 35, 1), louvando Aquele que tanto bem lhe fez!

Pensais que, por muito que tenham madrugado os pastores e os reis para adorarem o Menino, Maria não acordou mais cedo ainda? Os pastores simbolizam os judeus, e os reis os pagãos. Antes que todos eles, adorou-o a Virgem Maria, dando-nos a entender que, se Abraão foi chamado o pai dos que crêem, mais razão há para que a Virgem Maria seja chamada a mãe da fé. Que alegre e honrada se sente Ela com este Menino, vendo os reis darem-lhe ouro, incenso e mirra! (Mt 2, 11). Riqueza que durará pouco tempo, porque Ela a dará aos pobres. Para que havia de querê-la? – “Se o meu filho ama a pobreza, para que eu hei de querer a riqueza?” Essa é, Senhora, a vossa situação: Vós a receber de Deus e a dar aos pobres o que Ele Vos dá; Deus a dar-Vos e Vós porfiadamente a repartir. Que tendes que não nos tenhais dado? Está desejosa de dar-nos; pois digamos-lhe com muita devoção: Ave, Maria...


A VOCAÇÃO DOS MAGOS

Jesus Cristo não é nada ocioso. Veio quando o mundo anoitecia, mas, como disse Davi, começou a trabalhar com toda a pressa (cf. Sl 18, 6-7). Os velhos que viveram mal durante toda a sua vida, dizem: – “Quero apressar-me e utilizar bem o tempo que me resta de vida, para compensar a má vida passada”. A quem sobra pouco tempo de sol, só lhe resta apressar-se. Jesus Cristo não fica de braços cruzados: é o amor que o faz ser tão diligente. Mal saiu o sol, e já o vemos trabalhando.

Senhor, todos Vos contemplamos nascido numa gruta e reclinado numa manjedoura. Que verá Deus nesse acúmulo de pó, que será que mantém sustido aos peitos de uma mulher Aquele que conserva na existência os homens e os anjos? Mas será uma novidade tão grande? Se não o entendeis, entendei-o agora. Esta festa, irmãos, em que Deus se faz pequenino por amor aos homens, foi feita para vós; alma, tu és a dama, é por ti que se realizam estes torneios, a fim de que a humanidade se cure e se salve. É por isso que, mal Deus nasce, vêm os anjos dar a boa-nova aos pastores: – “Nasceu-vos hoje um Salvador (Lc 2, 11), andai, ide até lá. Apressai-vos, correi até o Salvador para que sejais salvos”.

Já tinham sido chamados os pastores, mas Jesus Cristo viu que havia muito mais gente por chamar, e chamou os reis. Se aos pastores, que tinham fé, enviou um anjo, que é pura inteligência e espírito, aos reis pagãos enviou uma estrela impessoal, que surgiu na Pérsia, a leste de Jerusalém. Quer tenha sido pela sua grande misericórdia, que quis fazê-los esperar a estrela desde que Balaão a profetizara (cf. Núm 24, 17), quer por ter querido mostrar desse modo como tinha nascido, a verdade é que viram a estrela. São Mateus diz: Os magos viram a estrela (cf. Mt 2, 2).

“Magos” não significa homens dedicados à magia; “magos”, na língua persa, significa sábios. São chamados reis porque os sábios reinavam naquela época ou, talvez, porque fossem reis menores. Essa estrela não era das que estão fixas no firmamento, nem estava nos distantes céus em que se movem os outros planetas. Estava mais baixo que todas, não se movia com as outras, tinha um movimento particular e uma luz particular. Significava a luz e o conhecimento da fé, que está num nível diferente dos outros conhecimentos.

O conhecimento pelo qual sei que Jesus Cristo está sob as aparências do pão e do vinho, não é como os outros, não está ao alcance da razão natural. Que diz a estrela?: “Nasceu o Salvador”. O astrólogo não chega a alcançar esse saber. Os magos viram a estrela resplandecer nos ares; transmitia tanta alegria com o seu resplendor que, iluminados sobre o seu significado, se dispuseram a partir.


PROCUREMOS O SENHOR

Acompanhemo-los agora, pois temos estrela como eles, e adoremos Aquele que vão adorar, porque, se não procurarmos o Menino, morreremos. Empreguemos a vida acompanhando estes reis à procura de Deus. São Bernardo diz que o maior dos negócios de um cristão é buscar a Deus com todas as forças, deixando o sangue; e se alguém não o procura desse modo, poucos são os bens espirituais que possui. Dai-me uma alma desejosa de Deus, que não se incline diante das riquezas, da honra nem de qualquer coisa mundana: essa acompanhará os reis.
() Sermones de divers., 4, 1; 84, 1 e segs.

Não há nada que mais me desanime nem que mais me faça deixar cair a cara de vergonha do que ver o amor com que me procurastes, Senhor, e o descuido com que eu Vos procuro. Procurais-me como se a vossa vida consistisse em procurar-me, e eu fujo de Vós como se encontrar-Vos fosse para mim morrer, quando na verdade é o contrário: procurando-me, Vós encontrastes a Morte e, encontrando-Vos, eu encontro a Vida. Vê o que Ele fez por ti e o que padeceu por ti. Como pode ser que a torrente dos seus sofrimentos não consiga extinguir o fogo do seu amor (cf. Cânt 8, 7) e eu permaneça tão distraído e tão despreocupado, como se Ele não me tivesse vindo procurar?

Bem o percebeu São Paulo quando disse: Se alguém não ama Nosso Senhor Jesus Cristo, seja maldito (1 Cor 16, 22), pois o Senhor já veio! Não é próprio de um cristão que, tendo já chegado Deus, tu não o ames. Antes de Ele vir, não era de admirar que não o amasses, pois a condição humana é tão livre e excêntrica que não amaria nem mesmo o próprio Deus se não visse que Deus a ama; e Deus escondeu a sua onipotência e a sua onisciência precisamente para mostrar aos homens o seu amor. Acompanhemos os magos, portanto, à procura do Senhor.


PROCUREMOS COM DECISÃO

Caminham dia após dia até chegarem a Jerusalém. Perguntam: Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer?(Mt 2, 2) Vedes que nobre atitude? Ainda não viram Jesus Cristo e já desejam morrer por Ele. Não há dúvida de que estes são os homens que verdadeiramente procuram a Deus, e não esses outros que, por qualquer ninharia, deixam de procurá-lo.

Tu costumavas levantar-te cedo para rezar, mas agora, porque faz frio, já não te levantas; davas esmolas, mas agora, porque o preço do pão aumentou, já não a dás. Se alguém te encostasse uma espada à garganta, então haverias de procurá-lo melhor! Quem procura a Deus durante um tempo e depois o abandona deve ser chamado lunático, cana agitada pelo vento. Quem não está decidido a morrer por Deus, antes que abandoná-lo, não o procura de verdade. Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Que nobre testemunho! Não existia rei em Jerusalém? Herodes não era rei? Vinham decididos a arriscar a cabeça pelo Menino, e por isso o encontraram. Quem o procurar mentirosamente, não o encontrará, mas quem verdadeiramente o procurar, sem dúvida o encontrará.

O Senhor é bom para quem, nele confia, para a alma que o procura (Lam 3, 2). Estas são as palavras que nos colocarão diante dos olhos no dia do Juízo, para nossa maior condenação; se Deus é bom para quem o procura, como será para quem o encontra? Procurar alguma coisa é causa de sofrimento e aflição; procurar a Deus não é assim: mais prazer te dará a oração constante do que os deleites sujos da carne; mais deliciosos serão para ti os jejuns do que todas as vilezas da terra de que te sacies.
() Breviário Romano (versão tridentina), Festa do Santíssimo Nome de Jesus, hino de Vésperas.

Como o Senhor é bom para quem nele confia e para a alma que o procura! De nada vale procurar a Deus sem perseverança e esperança. Dois alforjes deves levar para procurar a Deus: a confiança e a perseverança. Às vezes, parece que Deus se faz surdo e diz: – “Se vens à minha porta, dou-te com ela nos olhos para ver se tens confiança; e se procuras deleites em mim, dou-te secura e tristeza para provar a tua confiança”. Assim como a castidade é provada quando te sentes perseguido e solicitado pela impureza, assim também a confiança é provada na perseguição.

O Senhor é bom para quem nele confia, para a alma que o procura. Estas são as palavras, como acabamos de ver, que nos dirão no dia do Juízo. E o que responderás a Deus quando te disserem: – “Nunca viste um homem que, por lhe terem dito que havia ouro nas índias, vendeu os seus bens e deixou a sua terra, mulher, filhos e amigos, e depois talvez nada tenha encontrado do que lá procurava, ou talvez se tenha afogado no mar e morrido frustrado, por ter posto a sua esperança em coisa incerta?” Senhor, se aprouvesse à vossa bondade que se apresentassem diante dessas pessoas as testemunhas que Vos procuraram verdadeiramente e lhes dissessem como chegaram a Vós, veriam elas que não houve ninguém que Vos tivesse procurado e não Vos tivesse achado. Todo aquele que o procura encontra-o. Não empenharei os meus bens na palavra de Deus?

Quero servir a Deus, quero procurar a Deus, quero fazer a sua vontade, pois tenho a sua palavra. Que direis, vós que sofreis tanto para procurar uma gota da água que não vos mata a sede, e que, para beber da fonte de água viva (cf. Núm 20, 6-8; Jer 2, 13 e Apoc 21, 6), para alcançar uma meta grande, não há quem vos faça refrear a língua nem acordar um pouco mais cedo?


OS QUE NÃO ACABARAM

Vinham os magos, decididos. Quem não se decide a servir a Deus por toda a vida ou a morrer à sua procura não está capacitado para a guerra. Deus ordenava aos israelitas que, à hora de entrarem em combate numa guerra, se anunciasse por meio de um arauto que todos os que estivessem construindo uma casa e ainda não a tivessem acabado, e todos os que tivessem plantado uma vinha e ainda não tivessem colhido os frutos, e todos os casados e todos os medrosos – voltassem para suas casas (Deut 20, 5 e segs.; 1 Mac 3, 56 e Jz 7, 3).

–“Padre, que quereis dizer com isso?” Que nem todos estão capacitados para a guerra. Porque dirás: – “Não acabei o que estava fazendo”. Tereis o corpo na guerra e o coração em casa (cf. Mt 6, 21). Esses são os homens sobrecarregados com as ocupações da vida: – “Que farei, que comerei, como sustentarei os meus filhos?” (cf. Mt 6, 25 e 31). Julgais que, preocupando-vos em demasia, conseguireis manter-vos. Infeliz o homem que não se apóia em Deus, mas que vive pensando se choverá muito ou se não choverá!

Dou-te este sinal para que vejas se estás apoiado em Deus: se nas dificuldades te afliges, se nos sofrimentos te encolhes, não estás apoiado em Deus. Na hora da angústia me reconfortastes (Sl 4, 2), diz Davi. – “Não posso Eu sustentar-te sem a chuva?”, diz-te o Senhor. Aquele que se apóia em Deus não se deixa abater nem pelos sofrimentos, nem pelas angústias, nem pela morte, nem pelo inferno. Quem não se apóia nEle, quanto medo sente, como anda preocupado!

Disse Jesus Cristo: Não vos preocupeis pela vossa vida, nem pelo vosso corpo, nem pelo que vestireis (Mt 6, 25-31). Estais tão cheios de preocupações com o muito comer e beber que, se a palavra de Deus entrar nos vossos corações, um minuto depois será sufocada! (cf. Mt 13, 22) Trabalhai e ganhai o suficiente para comer, que Deus assim o quer, mas essas preocupações e angústias desmedidas são sinal de que não estais apoiados em Deus. Quem se encontra nesse estado não irá para a guerra.


OS SENSUAIS E OS MEDROSOS

Em segundo lugar, os casados, que aqui quer dizer os sensuais. Diz o Sábio: Qualquer palavra sábia, ouvida por um homem sensato, será louvada por ele e dela se aproveitará. Que a ouça um luxurioso, e lhe parecerá desagradável e a arremessará para trás das costas (Ecli 21, 18). Não há pecado que mais entorpeça a alma do que este. Jovem lascivo, olha que dentro em pouco essa tua carne será alimento para os vermes e se transformará em cinzas. Podes retirar-te: não irás para a guerra.

Em terceiro lugar, estão os medrosos, os que se preocupam com o que se pode dizer deles. Observamos à esposa: – “Tens dez saias e a tua irmã apenas uma; tens seis mantilhas e a tua irmã apenas uma, com a qual vai à missa. Isso não é fraternidade: não pareces acreditar que Jesus Cristo está no pobre. Vende essa saia, contenta-te com uma ou duas, e com as outras compra para a tua irmã”. – “Mas que dirão os outros de mim? Compreendo que o que me mandas é bom, mas queres que eu pareça a empregada das outras? Se as minhas amigas fizessem o mesmo, eu também o faria”.

Ó louca! Como vives, com o mundo ou com Deus? Depois, ireis a Deus, dizendo: – “Paga-me”. E o Senhor te dirá: – “Os serviços que me prestastes, Eu vo-los pagarei, mas os que andastes prestando ao meu inimigo, como quereis que vo-los pague?”

É difícil encontrar quem ande só. E se é para ir só, então é melhor ir por onde foi Jesus Cristo. Não pelas pompas, jóias ou brocados, embora por aí sigam muitos reis. Não ousarás ir de mãos dadas com Jesus Cristo por onde Ele foi? É impossível que quem abriu uma conta com o mundo tenha outra aberta com Deus. Ninguém pode servir a dois senhores (Mt 6, 24 e Lc 16, 13). Quem é amigo deste mundo por isso mesmo tornou-se inimigo de Deus. O medroso diz: – “Dirão que sou um hipócrita!” Deves procurar a Deus com decisão, aconteça o que acontecer. Cortem-me a cabeça, que nem assim o abandonarei.

Disse Jesus Cristo: O que vos é dito ao ouvido, pregai-o sobre os telhados (Mt 10, 27). É com esta condição que Deus te dá a conhecer a verdade: que digas em público o que te disseram em segredo. Gostaríeis de ser como aqueles de quem fala São Paulo que retêm a verdade na injustiça? (Rom 1, 18). Quem tem a verdade e não a confessa nem se comporta de acordo com ela está prendendo a verdade na injustiça. Onde está o rei dos judeus? Nós já o conhecemos. Devemos professar esta verdade custe o que custar. Vede como é o mundo: os reis magos vêm de longe à procura do Salvador, e os que estão na terra dEle nem se dão conta da sua presença.


A INQUIETAÇÃO DE HERODES

O rei Herodes turbou-se, e toda Jerusalém com ele (Mt 2, 3). Que o rei se inquietasse não era muito, mas toda a cidade?

Por aqui vedes como é necessário que haja um bom rei na cidade e uma boa cabeça que reine. Se o bispo é mau, mau o magistrado, mau o pároco e mau o pregador, dificilmente haverá um bom povo. Esta é a intenção pela qual mais deveríeis rezar a Deus e é dela que mais vos esqueceis. “Senhor, dai-nos bons governantes; Senhor, dai-nos bons dirigentes. Que os reis Vos temam; dai-nos bons sacerdotes e pregadores”.

Toda a cidade turbou-se com o rei. Diz o rei: – “Então quereis outro rei além de mim?” E diz o criado: – “Que quereis que eu faça? O meu patrão ordena que eu o acompanhe nas suas noitadas”. E pensa o sacerdote: – “Se eu disser a Fulano que tem uma amante, se lhe disser que não comunga, encher-me-á de pancadas”. Ora, para quem quereis a honra, se não é para Jesus Cristo? Não vale a pena morrer pela honra de Deus? É uma grande honra morrer pela honra de tão grande príncipe!

Herodes perturbou-se, começou a tremer e, convocando todos os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo, perguntou-lhes onde havia de nascer esse rei. Disseram-lhe: Em Belém de Judá, porque assim foi escrito pelo profeta. Disse Herodes aos magos: Ide e informai-vos bem acerca do menino, e, quando o encontrardes, comunicai-me, a fim de que também eu vá adorá-lo (cf. Mt 2, 4-8); na verdade, para matá-lo.

Os reis partem e ele fica. Não vedes como está bem representado aqui o mau pregador? Prega onde se pode encontrar a Deus e depois fica onde está. O bom pregador e o bom confessor devem ir à frente. Ninguém deve dizer uma palavra boa sem que primeiro a tenha posto em prática. Lê-se na vida dos Santos Padres que, estando moribundo um daqueles santos anciãos, se aproximaram dele alguns religiosos e lhe pediram: – “Padre, deixai-nos algo; dai-nos algo que fique aqui conosco”. Respondeu-lhes ele: – “Sempre acreditei mais no parecer alheio do que no meu, e nunca tive a presunção de ensinar coisa alguma que antes não tivesse posto em prática. Este é o testamento que vos deixo”.


A LINGUAGEM DA ESTRELA

Ao entrarem em Jerusalém, a estrela escondeu-se deles. Há alguém aqui a quem a estrela se tenha escondido? – “Houve um tempo em que eu era tão devoto, em que os bons pensamentos me vinham sem que eu os procurasse; mesmo deitado, pensava em Deus”. Se a estrela se escondeu, reaparecerá.

A estrela reapareceu aos reis magos e eles a seguiram (cf. Mt 2, 9). E ao aproximarem-se de Belém, suspeito – pois não consta das Escrituras – que, vendo a estrela, teriam dito: – “O que há de mais alto neste lugar? Ei, deve estar ali naquelas torres!” Foi para lá a estrela? Não, mas à estalagenzinha, que talvez não tivesse telhas e fosse feita de palha. Ali estava o Rei dos reis, dentro de uma gruta escavada na pedra, reclinado numa manjedoura. Ali nascera o Salvador, naquele estabulozinho. A estrela colocou-se em cima daquela gruta. E penso que naquele momento irradiava fulgores mais claros e dizia mais claramente: – “Aqui está!” Como era possível?

Bem-aventurado aquele que entende o que é a fé! Disseste bem, Menino, quando cresceste: Bem-aventurados os que não viram e creram!(Jo 20, 29). Foi isso que a estrela disse. A razão dos reis magos dizia-lhes que o menino deveria estar numa casa grande e rica; a estrela dizia-lhes que não, que estava entre aquelas palhas, naquela manjedoura. A razão natural diz-nos: – “Como pode um corpo tão grande estar numa hóstia tão pequenina?” E a fé diz-nos que sim, que pode.

Ó Senhor! Que tendes a ver com uns paninhos? Que tendes a ver com uma manjedoura? Quem esperaria encontrar-Vos assim, sem casa, sem braseiro, sem cama? O vento entrava pelo lado e batia no rosto da Mãe e do Filho. Talvez Ele quisesse comer e não tivesse nenhum alimento – e eu não amarei a pobreza? Aí está Jesus Cristo. Não se encontra na riqueza, nem nos deleites e prazeres da carne. Não se encontra nas camas moles. Não tens nada que comer? Jesus Cristo está em tua casa. Passas as noites suspirando de aflição? És obrigado a fazer coisas que não quererias? Vences os teus caprichos? Submetes a tua vontade à de Deus? Aí está Jesus Cristo.

Já antes de nascer, submete-se a tudo. A Virgem Maria, que estava prestes a dar à luz, teve de percorrer trinta e duas léguas de Nazaré a Belém. Por quê? Porque assim o ordenara um homem, o imperador César Augusto, a fim de que todos os seus súditos se recenseassem, e Deus obedeceu-lhe. E eu não sentirei vergonha de Vos desobedecer? Jesus obedece antes de sair do ventre materno, e eu não. Se te parece difícil contrariar a tua própria vontade, aí está Deus que obedece, reclinado no lugar mais humilde que se possa imaginar, num estábulo; aí está o Menino.

A estrela parecia falar. Desceu até o telhado, e os reis desceram das suas montarias. Não é verdade, Senhora, que, quando ouvistes o barulho lá fora, ficastes um pouco assustada? – “Alguém quer pôr as mãos no Menino!” Talvez o tenhas escondido e te tenhas posto a costurar alguma coisa. Um dos pajens deve ter-se aproximado da Virgem e perguntado: – “Senhora, sabeis onde está o Rei dos judeus que acabou de nascer? Senhora, consolai-nos, dizei-nos pelo amor de Deus: Tendes filho?”

E Ela responderia, porque era vontade de Deus que o manifestasse: – “Sim, tenho”. – “Há quanto tempo destes à luz?” – “Há treze dias”. – “Fazei-nos o favor de no-lo mostrar”. E a Virgem Maria tomou-o nas mãos e mostrou-o. Vendo o Menino, os reis exultaram de alegria e compreenderam que estavam diante do Messias. E prostraram-se por terra e o adoraram.


ADORAR O DEUS-MENINO

Não se limitaram a descobrir a cabeça ou a dobrar o joelho, mas prostraram-se (cf. Mt 2, 11), de onde se vê que o fizeram porque estavam na presença de Deus. Adorar é lançar-se ao chão, isto é, reconhecer-se um punhado de terra e um nada diante de Deus. Se o Menino fosse somente rei, entre rei e reis bastaria que estes se descobrissem; mas se se prostraram no chão, foi porque viram no Menino o próprio Deus.

Vós passais por aquele sacrário tão indiferentes que nem sequer inclinais a cabeça. Parece que vos aproximais do altar como quem chega para se divertir. Muitas missas serão celebradas para vosso castigo ao invés de, como pensáveis, para premiar-vos. Celebra-se uma missa, e está aquela pessoa ali e outra acolá, paradas, interessadas em ver se o sacerdote chora ou não. O povo de Israel mantinha-se a uma distância de dois mil passos (cf. Jos 3, 4) da Arca da aliança, e vós estais em torno do altar: deveis assistir à missa com reverência e não vir à igreja logo depois de um divertimento, sem maiores preparações.

Os reis magos adoram o Menino de modo tão verdadeiro que penso que lhe terão beijado os pés. Abrem os seus tesouros, pois muito dá quem encontrou o Menino. Dirigem-se às suas arcas e, abertos os seus tesouros e não só as suas bolsas, oferecem-lhe cada um deles muito ouro, muita mirra e muito incenso.

E vós, que ofereceis a Deus? – “Mas eu nada tenho”. Pensais então que o céu está fechado para os que nada têm? Ao contrário, encontra-se mais aberto, porque o rico, sim, terá de prestar contas a Deus de como repartiu aquilo que lhe foi dado! Ai daquele que come muito e não faz uso das suas energias: acabará por ter um abscesso que o matará! O estômago não recebe a comida para ficar com ela, mas para reparti-la pelos membros do corpo.

Se tomares muitos bens e não os repartires com a energia de uma grande caridade, ficarás com eles dentro do estômago. Esses bens serão a corda com que te enforcarão. Davi tinha muito que oferecer a Deus, mas, quando veio fazer a sua oferenda, disse: As tuas oferendas, Senhor, estão em mim (cf. Sl 55, 12-13; Sl 49, 8-9 e Jer 6, 20). Mais aprecia Deus a oferenda do próprio eu do que de bezerros e carneiros.


OFERECER-LHE O NOSSO DOM

Abre-lhe o teu coração, e estará aberto o tesouro com que Ele mais se alegra. Deus já abriu as suas entranhas e o seu coração. Por aquela abertura do seu lado podes ver o seu coração e o amor que encerra. Abre-lhe o teu, não o deixes fechado. Detém-te a pensar: “Senhor, tens o coração aberto e trespassado por mim, e eu não Te amarei? Abriste-me o teu coração, e eu não Te abrirei o meu? No meu coração, Senhor, estão as tuas oferendas; se Te der desse coração, terei feito a minha oferenda”.

Vale mais diante de Deus um pedacinho do coração do que muitas oferendas sem coração. Dá-lhe um pedacinho do teu coração e ter-lhe-ás oferecido muito ouro. Vale mais um pouquinho de ouro do que muitas moedas. Vale mais um pouquinho de manjar branco do que muitas couves. Certo eremita perguntou a um ancião: – “Por que, fazendo tu menos jejum, menos orações e penitência do que eu faço, és mais santo do que eu?” E ele respondeu: – “Porque amo mais do que tu. Oferece ouro a Deus aquele lhe oferece amor”.

–”Mas eu tenho pouco amor”. Então reza muito. Não tens ouro? Oferece incenso. – “E o que é o incenso?” Oração. Disse Davi: A oração é incenso (cf. Sl 140, 2), como o é o suspiro que sobe a Deus em perfume de suave odor. Reza a Deus, mas não para lhe pedir trigo: – “Senhor, como é possível que eu não Te ame, não Te tema, não Te sirva?” Reconhece que és miserável e aproxima-te do presépio pedindo esmola. Se não tens ouro, oferece o incenso da oração. A casa daquele que não ora tem um cheiro horrível.

– “Mas não tenho ouro nem incenso”. Então oferece mirra. Oferecerei holocaustos com os cordeiros mais pingues, disse Davi; com incenso de cordeiros oferecer-te-ei touros e cabritos (cf. Sl 65, 15). Oferecer-te-ei pingues holocaustos de amor e devoção. A mirra é o espírito de sacrifício e abnegação, até o mais íntimo de nós mesmos. Como acontece com os touros pingues e os cordeiros, o tutano, que é o que têm de mais precioso, está encerrado nos ossos mais duros. Entrega pois o teu amor, envolto no osso duro e firme do propósito de nunca mais tornar a ofender a Deus, num propósito intocável. Só ama a Deus verdadeiramente aquele que lhe dá o seu coração, não guarda nada para si mesmo.

Com incenso de cordeiros. O cordeiro que vai à frente do rebanho é o guia. Para quem dirige os outros, não há nada que mais deva amar e cultivar que a oração. O sacerdote que não ora não aprendeu nada do seu ofício; se não ora, dar-me-á por conselho de Deus um conselho seu, por resposta divina uma resposta humana.

Oferece também touros e cabritos. Sim, o Senhor também aceitará cabritos, que são os luxuriosos. Oferecer-lhe-ei os meus pecados de sensualidade, mas mortos. Porque têm bom odor depois de mortos. Se te assalta um mau desejo, mata-o, ainda que te doa, e oferece-o a Deus. – “Senhor, quero beber este laxante por Vós”. Oferece a Deus um touro quem faz por Deus alguma coisa que muito lhe dói. Oferece um touro a Deus quem deixa a amante. E se, ao deixá-la, chorou, ofereceu um touro. E se tinha filhos com ela, ofereceu também um touro.

Que podes tu fazer pelo Menino? Sofrer um pouco. Ele padeceu por ti desde pequenino. Mais lhe doeu sofrer na cruz do que a ti sofrer o que agora sofres.

Para outros, a mirra será deixar de murmurar. Para outros ainda, abrir a bolsa e dar uma esmola. Oferece isso a Deus e terás oferecido um touro. Oferece a Deus um touro quem lhe oferece algo que muito lhe dói.

Oferece mirra amarga quem faz por Deus aquilo que o amargura. E se lhe ofereceres isso, Ele é tão bom que te dará incenso e ouro, a fim de que tenhas alguma coisa que oferecer-lhe, e dar-te-á aqui a sua graça e depois a sua glória, à qual lhe pedimos que nos conduza. Amém.

Fonte: O Mistério do Natal, Quadrante, 1994, págs. 54 e segs.
Tradução: Gabriel Perissé

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Falência espiritual: o princípio do fim.

Espiritualmente Falidos

A Nova Ordem Mundial do mundo capitalista não pode salvar o mundo da escravatura comunista: é criação da Maçonaria, e a ordem que iria impor ao mundo é substancialmente idêntica ao Comunismo.21 Os principais revolucionários que criaram o mundo comunista, como documenta Manfred Adler,22 eram maçons - o Comunismo é criação da Maçonaria. A luta entre os dois é a luta entre o "Império do Mal" e o "Grande Satanás". Não podemos esperar que o Ocidente salve o mundo do ‘Dragão Vermelho’, apenas para ser devorado pelo ‘Dragão Negro’, porque o Comunismo soviético e a imposição americana da Nova Ordem Mundial são, na realidade, a mesma Besta Maçónica.23

O Ocidente corrupto e decadente está carente da sua seiva espiritual, que é a fé em Jesus Cristo. A América não pode salvar o mundo - nem sequer se pode salvar a si própria. O ‘Século Americano’ foi o século passado, e a América, espiritualmente falida, está agora num declínio total e rápido, à medida que se afunda no seu próprio oceano de decadência moral: abortos, divórcios, contracepção, casamentos do mesmo sexo, direitos dos homossexuais, pornografia, etc.; a superpotência titânica sofre o destino do Titanic. A glória da América é a glória do passado.

Todavia, a grande nação da Rússia foi designada por Deus para ser um ‘vaso de eleição’, que Deus tenciona usar como o Seu instrumento escolhido para destruir a Besta Maçónica - a Nova Ordem Mundial. Chegou a vez da Rússia, e é por isso que Nossa Senhora de Fátima pediu que a Rússia fosse consagrada:

"É chegado o momento em que Deus pede para o Santo Padre fazer, em união com todos os Bispos do Mundo, a Consagração da Rússia ao Meu Imaculado Coração, prometendo salvá-la por este meio ..."24

Deus ordenou que S. Paulo fosse designado e consagrado porque Ele o tinha escolhido para ser um ‘vaso de eleição’ para a conversão das nações. Antes de se converter, S. Paulo era um perseguidor da Igreja. A Rússia tem sido também um grande perseguidor da Igreja, mas chegou a hora de se tornar o vaso de eleição, o instrumento nas mãos de Deus para matar o dragão, a Besta do Apocalipse. Deus dará à Rússia o poder de destruir a Nova Ordem Mundial, que não reconhece a Deus, mas só quando essa nação tiver sido designada, como S. Paulo, e consagrada. A Rússia foi escolhida, tal como David foi escolhido por Deus, mas David foi primeiro consagrado, e só depois partiu e matou o gigante filisteu. Assim, enquanto o pedido de Deus sobre essa consagração estiver por cumprir, a Rússia continuará a ser um instrumento de ódio.

Como explicou a Irmã Lúcia:

"A Santíssima Virgem disse muitas vezes aos meus primos Francisco e Jacinta, assim como a mim, que a Rússia será o instrumento escolhido pelo Céu para castigar todo o mundo (pelos seus pecados), se antes não alcançarmos a conversão dessa pobre nação ..."25

Nossa Senhora de Fátima disse à Irmã Lúcia em Maio de 1952:

"Participa ao Santo Padre que continuo à espera da Consagração da Rússia a Meu Imaculado Coração. Sem a Consagração, a Rússia não poderá converter-se, nem o mundo terá paz."26

Como vimos no início deste artigo, a Rússia está a mostrar publicamente a sua força nuclear. A política externa americana, ao promover a sua Nova Ordem Mundial, irritou a linha dura russa, hoje no poder, e que declarou sem ambiguidades: "Já chega!"

Só há uma alternativa a esta confrontação - ou seja, a consagração e a conversão da Rússia, que porá fim à Nova Ordem Mundial maçónica e levará à conversão de todo o mundo a Jesus Cristo.

O mundo está à beira de uma destruição incalculável: o aniquilamento nuclear. Deus prometeu que, por meio da consagração da Rússia, "por este meio", a Rússia será salva e haverá paz no mundo. Até agora, o Papa entendeu não fazer a única coisa, o único acto pelo qual Deus prometeu salvar o mundo. O engano diabólico propagado pelo Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Angelo Sodano, é a mentira de que o pedido do Céu já foi atendido.

O Cardeal Bertone, porque acredita na mentira de Sodano (assim como na sua), está convencido de que não há motivos para preocupação, porque o "pedaço de história, marcado por trágicas veleidades humanas de poder e de iniquidade" já foi "encerrado." Segundo eles, portanto, não há qualquer perigo de uma guerra mundial, nem perigo de um aniquilamento nuclear, nem qualquer razão para se perder tempo a pensar no pedido de Deus sobre a consagração da Rússia. Não é possível imaginar uma loucura maior.

O Papa João Paulo II declarou em Fátima que "a mensagem de Fátima impõe à Igreja uma obrigação." Devido às consequências incalculavelmente catastróficas de não se atender o pedido do Céu, o Bispo Rudolf Graber declarou que ignorar a mensagem e os pedidos de Nossa Senhora de Fátima é comparável a um "crime contra a humanidade." Não ouso julgar aqueles cortesãos do Vaticano que se opuseram ao pedido de Nossa Senhora para a Consagração da Rússia e impediram que o Santo Padre o cumprisse; mas seja como for - que Deus tenha compaixão das suas almas.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Socialismo x Socialização.

SOCIALIZAÇÃO E SOCIALISMO
Dom Fernando Arêas Rifan*

Todos defendemos a justiça social. Mas há distinções a fazer nesse campo, sobretudo entre socialização e socialismo. Socialização é o oposto de individualização. Consiste na multiplicação das relações dentro da convivência social, comportando a associação de várias formas de atividade e criação de instituições jurídicas, dando origem a grupos, movimentos e instituições de diferentes tipos. Tem muitas vantagens: torna possível satisfazer os direitos da pessoa humana, especialmente ao sustento, saúde, educação, trabalho, etc. Ela multiplica os organismos e torna possível uma regulamentação jurídica das relações entre as pessoas. Existe o perigo de ela diminuir a liberdade de ação dos indivíduos e sua responsabilidade. É preciso favorecer suas vantagens e evitar suas consequências negativas. Daí a necessidade de um ordenamento jurídico por parte das autoridades públicas, numa concepção exata do bem comum, no sentido de favorecer o desenvolvimento integral da pessoa humana (Cf. S. João XXIII, enc. Mater et Magistra, 59-67).

Assim sendo, a Igreja é a favor da socialização, na sua noção correta, no sentido do crescimento e interação de relações sociais e crescente desenvolvimento de formas associativas, se se precisar recorrer em tudo ao Estado, grande e paternalista.

Mas não é a mesma coisa socialização e socialismo. Para curar os males advindos da revolução industrial do século XVIII, que prejudicou os operários, foi proposta uma falsa solução: o socialismo, que é, em graus variados, contra a propriedade de bens particulares e a favor do Estado grande proprietário e controlador de tudo, inclusive da família (cf. Leão XIII, encíclica Rerum Novarum, 4 e 5). O socialismo chegou ao seu auge com o comunismo, que prega a luta de classes e a completa destruição da propriedade particular.

Alguns são contra o comunismo, mas se dizem a favor do socialismo, versão, segundo eles, mais mitigada do comunismo. Mas, na verdade e no fundo, são a mesma coisa. Basta lembrar que o nome do país onde se instalou oficialmente o comunismo marxista se chamava URSS, União das Repúblicas SOCIALISTAS Soviéticas. E o nome oficial do Nazismo é Nacional-SOCIALISMO. Ambos, regimes totalitários. Os extremos se tocam.

Eis o que ensina o Papa Pio XI: “O socialismo, quer se considere como doutrina, quer como fato histórico, ou como ‘ação’, se é verdadeiro socialismo, mesmo depois de se aproximar da verdade e da justiça, não pode conciliar-se com a doutrina católica, pois concebe a sociedade de modo completamente avesso à verdade cristã”. Mais: católico e socialista são termos contraditórios: “E, se esse erro, como todos os mais, encerra algo de verdade, o que os Sumos Pontífices nunca negaram, funda-se, contudo, numa concepção da sociedade humana diametralmente oposta à verdadeira doutrina católica. Socialismo religioso, socialismo católico são termos contraditórios: ninguém pode ser ao mesmo tempo bom católico e verdadeiro socialista” (Encíclica Quadragesimo Anno, n. 116 e 119 - 15/5/1931).

*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney
http://domfernandorifan.blogspot.com.br/

Sobre a Indolência dos Cristãos.

Carta de Louis Veuillot



Sobre a indolência dos cristãos

frente aos inimigos de Jesus Cristo e da Igreja



Ao Sr. [Victor-Charles-Maurice] de Foblant,
8 de agosto de 1843

Meu irmão Maurice, tendes coração e concebo o quanto vos faz sofrer a diarreia que acomete nossos católicos em Nancy assim como por toda parte. Tivemos esse espetáculo em Paris e o teremos ainda; estamos destinados talvez a ver a Igreja de França morrer desse mal tanto quanto Igreja pode morrer, e isso alguma hora vai longe.

Eu preferiria muito mais um daqueles tempos quando se crê que ela vá desaparecer em rios de sangue. Teria mais esperança de vê-la reerguer-se. Bem-aventurados os que ouviram Missa nas catacumbas, bem-aventurados os que serviram na Missa para algum padre fugitivo da Vendeia, em meio aos feridos, os órfãos e as viúvas! Esses puderam predizer triunfos. Em nossas catedrais, onde somos deixados em paz, só temos a contar com rebaixamentos. Não é a carne que vos fala e se revolta; é o espírito. Rebaixamentos, eu os quero para mim, com a graça de Deus; mas não os desejo para Jesus, e é a Ele que rebaixam.

Considerai bem isto: não creio que o mundo tenha visto nada de semelhante. Ultraja-se à Igreja, e não somos nem fugitivos, nem reduzidos a nos esconder, nem sem meio de agir. Muito pelo contrário, desfrutamos de nossos bens, de nossa liberdade, exercemos os poderes de cidadãos, somos festivos e de arma a tiracolo, enquanto ela é ultrajada. Nós assistimos passivamente e vamos comungar. O Padre Rohrbacher não citará outros exemplos disso, e, se quisermos refletir, isso é novo e assustador. Temo menos, para um templo, os furiosos que querem demoli-lo do que os fiéis que, em presença desse perigo, só pensam no seu feijão com arroz. Esses destroem verdadeiramente a Igreja, que não fazem para ela uma muralha com seus corpos, que não se fazem massacrar nos degraus dela pela menor de suas prerrogativas.

Outrora os pais cristãos antes que abjurar destinavam os seus filhos à miséria e viam-nos, com olhar firme, ser massacrados sob seus olhos: hoje a gente se expõe de melhor grado a vê-los perder a fé do que a ver-lhes faltar um diploma. Compra-se friamente um título de advogado ou de médico ao preço dos cem pecados mortais que poderão cometer antes de o obter. Chamam isso de “pensar no futuro deles”: essa palavra diz tudo. Quando se era cristão, o futuro estava no Céu; não está mais, está aqui nos comércios, nos negócios, nas transações, na lama: e, para alcançá-lo, pisa-se antes de tudo no crucifixo. Não há mais cristãos, porque não há mais fé. Se houvesse fé, se saberia que com tantas covardias expõe-se a própria alma, e se veria aquilo que não vemos: homens.

Eu vos declaro, cá entre nós, que as sociedades de São Vicente de Paulo e toda essa caridade dos vales-sopa e dos vales-batata, reduzida aos termos em que as vejo, me dão pena! Nada compreendo desse sistema de querer salvar almas mediante moedas de dez centavos e recusar uma palavra todas as vezes que é preciso dizê-la. Encontrou-se a arte de auxiliar os pobres sem auxiliar a Jesus Cristo. Se o Journal des Débats não tivesse inventado para nós o nome de neocatólico, deveríamos inventá-lo, nós, para essa raça poltrã, pois ela é realmente nova. Por toda parte onde eu a sonde, sob a mitra, sob a sotaina e debaixo do hábito burguês, diviso ali lacunas e excrescências que fazem dela uma espécie particular. São cristãos com muito ventre demais e muito coração de menos.

O que se deve fazer, prezado Maurice? Rogar ao Bom Deus antes de tudo; pedir-Lhe como única graça a de amá-Lo loucamente, sem nenhuma espécie de prudência nem de razão no que nos concerne; aceitar as cruzes, as afrontas, as solicitar, nos preparar para nada temer e nunca jurar que não nos aplicaremos um dia um pouco de disciplina. No que se refere aos nossos queridos irmãos, contemplar desancá-los o quanto antes, pois só então é que se defenderão e lembrarão de que são aqui a Igreja militante, e não a Igreja estagnante.

Quando vejo os Bispos suportarem a Universidade, os leigos só pensarem na sua comida quente, as ordens religiosas morrerem de inanição no meio dessa juventude que não tem nada que fazer e que se põe a sustentar os pobres porque custa menos do que raparigas e por ser mais honesto, eu digo que não há mais senão um perigo: o de deixar as coisas nesse pé. Ide atrás das dificuldades e fermentai-as.

Nada tenho de vocação monástica, principalmente beneditina; mas obterei, se aprouver a Deus, a vocação do devotamento. Não há senão servir a Deus. Todo o resto é miserável demais e perigoso demais num tempo como este, para uma alma que pôde uma vez entrever a Cruz em que Jesus morreu. Quando eu estiver de volta a Paris, tratareis de vir me visitar, e nós prepararemos uma campanha de inverno. Adeus, caro filho; eu vos amo de coração. Apresentai as minhas afetuosas saudações à vossa excelente e veneranda mãe. Dizei a ela que Deus a ama e que é-se ditoso de ser do número de Seus mártires numa época em que os cristãos não temem senão a Cruz; ou seja, aquilo que é o sinal mesmo do cristão. (…)



Excerto do boletim Notre-Dame de la Sainte-Espérance n.º 279 (abril de 2013)

O ano de 2013 marca o segundo centenário do nascimento de Louis Veuillot (11 de outubro de 1813). É para nós ocasião de desfrutar dessa pluma incomparável, posta ao serviço de um admirável espírito católico e de um grande coração. A correspondência que acabamos de ler foi escrita durante uma estadia na abadia de Solesmes. Sem dúvida alguma, Louis Veuillot faz-se aí eco dos colóquios que teve com Dom Guéranger e donde saíram as verdades que os dois queriam berrar às famílias católicas. Essa carta é de grande energia, de grande agudeza de pensamento e de uma franqueza que não cuida de precauções. Ela merece algumas explicações.



Os católicos não têm vocação (como se diz em vulgar) para ficar de fora da sociedade. Eles devem, mais do que todo mundo, desenvolver os talentos que Deus distribuiu a eles, devem ocupar postos de influência, para fazer ali reinar o Evangelho de Jesus Cristo, devem poder gozar de um modesto desafogo, para assegurar uma educação cristã a seus filhos.

É necessário que todos tenham aqui na terra um dever de estado preciso, é necessário que cada um ocupe um lugar onde desabroche intelectualmente e moralmente, é necessário que cada qual seja apto a trabalhar pelo bem comum da sociedade em que vivemos. É necessário que haja médicos, pessoal de enfermagem e parteiras, advogados e engenheiros, comerciantes e artesãos, dirigentes de empresas e cientistas, e tutti quanti, que sejam católicos, sem o que, a sociedade abandonará totalmente o que ela recebeu da Igreja, e o Cristianismo não será mais do que uma lembrança.

Tudo isso é verdadeiro. Mas não a qualquer preço. Não ao preço das almas, da virtude, da retidão, do fervor, da perseverança. “De que serve ao homem conquistar o universo se ele vier a perder a alma?” O problema se põe nestes termos: “Buscai primeiro o Reino de Deus e sua justiça, e todo o restante vos será dado por acréscimo.” Isso quer dizer não apenas que é preciso ter confiança filial e total em Deus, mas significa também que as coisas daqui da terra que não sejam ambicionadas como um acréscimo, como um dom de Deus e um meio de contribuir e de confluir para o Seu Reino, tornam-se veneno para a vida cristã.

É o que exprime vigorosamente Louis Veuillot, é o objeto de uma desgraçada experiência mil vezes repetida. É assim que se veem legiões de jovens partirem, um após outro, ao abatedouro; vão fazer seus estudos para conquistar situações lucrativas: não voltam jamais, porque perdem a fé, perdem a virtude cristã, perdem o Céu.

Ou ainda, se os vê partir cheios de boas intenções, mas sem formação da inteligência, sem armadura moral, sem temor do pecado: também estes, não os revemos jamais, enviscados no pecado ou na mundanidade como estão, inúteis para o Reino de Deus.

A responsabilidade dos pais está gravemente empenhada: no Juízo Final, lhes serão pedidas contas dos filhos que Deus lhes confiou. E aí, as ignóbeis desculpas mundanas não servirão mais para nada: ele ganha bastante dinheiro, ele tem uma bela situação, ele obteve um bom casamento, ele se saiu com o mal menor… E os filhos condenados arrastarão seus pais na sua perda.

É a triste história de apostasias individuais, da apostasia da sociedade nos países que outrora formaram a cristandade. Buscou-se a satisfação das concupiscências e imaginou-se que o Céu seria dado por acréscimo. Erro trágico.

É necessário, portanto, que os pais cristãos meçam a sua responsabilidade; é necessário que estudem os meios para estabelecer os filhos em uma situação que conduza ao Céu, que concorra para o reino de Jesus, quer por si mesma ou pela família que ela permite formar.

Quem, pois, refletiu nisso com a gravidade que isso supõe? Para atravessar uma periferia perigosa, a gente não entra sozinho, vai em grupo. Mas quem pensa nisso para encetar estudos superiores na universidade, que assassina as almas? “Não temei os que matam o corpo. Temei antes aquele que pode enviar o corpo e a alma à Geena.” Não é o Evangelho que foi esquecido?

Eis o que escrevia recentemente, a uma jovem pessoa que esse problema inquieta:

“Minhas incursões pelas dificuldades que as enfermeiras católicas encontram, tanto nos estudos como no exercício da profissão, são motivadas pelo fato de ser um exemplo fácil de expor: a gravidade dos problemas que elas podem ser levadas a encontrar, a cooperação que delas se solicita a jato contínuo, a estreiteza da margem de manobra que lhes é deixada, a promiscuidade incessante em que devem trabalhar: tudo isso realça bem como é difícil exercer uma profissão no mundo, quão necessário é armar-se e cercar-se de defesas espirituais e humanas, o quanto a presunção é suicida. Mas, de fato, problemas análogos se apresentam em mil ramos profissionais, de maneira menos intensa frequentemente, mas muito mais dissimulada também.

“A inconsciência de grande número de católicos faz com que não reflitam no problema apresentado, com que não contemplem soluções menos temerárias (reunir-se a três para lançar-se nos estudos, expatriar-se, entrar pela porta dos fundos, desistir, atuar na clandestinidade, ou outra) e com que vão, cada um a seu turno, para o matadouro. Alguns se saem bem, e é milagre, mas muitos deixam ali sua alma, ou a sua candura, ou o seu fervor.

“É um verdadeiro problema pelo qual as famílias católicas devem reunir-se entre elas e refletir. Os católicos, na medida dos dons que receberam de Deus, devem esforçar-se por ter influência social benéfica e eficaz: mas não a qualquer preço. Seria desastroso, ilusório e derrisório.

“Essa influência social pode aliás exercer-se de outras formas que não uma profissão ad hoc: a educação de uma família, o testemunho da fé, a consciência no dever de estado são ‘agentes sociais’ bem mais verdadeiros e profundos do que os gestos teatrais de um advogado ou os roncos de um deputado.

“Tudo isso exige reflexão, orações e tempo.”

Fonte: http://aciesordinata.wordpress.com/2014/11/08/luzeiros-da-igreja-em-lingua-portuguesa-xlviii/

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