terça-feira, 30 de setembro de 2014

Princípio da Inversão da Ordem: um modus operandi satânico.

Nós já estamos há algumas décadas dentro desta "revolução final", tal como a chamou Huxley, contra o próprio homem. Nesta guerra, uma das principais armas da destruição levada a cabo contra o homem, e uma arma que durante os últimos 50 anos tem causado uma devastação enorme, tem sido o feminismo.

Apoiado tanto pelos Rockefellers como pela CIA, o feminismo, estando directamente conectado ao Marxismo, é uma ideologia satânica. O princípio que rege o satanismo clássico tem sido sempre o princípio da inversão. A crença dentro da magia negra é a de que poder desce sobre o ocultista individual através da execução de actos de inversão ou actos de rebelião que desafiam de modo específico os projetos do Deus da Bíblia. Logo, se Deus diz para não assassinar, assassinar torna-se assim num potencial acto ritualista que armazena energia demoníaca no practicante sério.

Quanto mais sério for o practicante, mais sério será o acto de desafio.

Eu não falo aqui de satanistas populares ou jovens alienados, mas practicantes reais e da elite. A longa história de pactos humanos com os demónios, a feitiçaria genuína e o satanismo ritualista, são todos fundamentados no princípio fundamental da inversão. Embora geralmente venha por trás de promessas de liberdade, independência e poder, a artimanha do diabo é sempre a mesma - o homem acaba sempre por ser enganado, usado, prejudicado na sua estrutura psicológica, física, ou pior ainda, possuído por demónios.

A ascensão do Wiccanismo e das espiritualidades "Nova Era" ou "deusa" são manifestações deste mesmo princípio de oposição e desafio, todos com o grande objectivo de destruir o homem. Actualmente, adolescentes sem a mínima ideia e yuppies obcecados com o yoga, absorvem todo o tipo de prácticas espirituais alternativas, e tais espiritualidades irracionais e "femininas" estão directamente associadas à ideologia feminista. As massas ignorantes e mal-informadas normalmente não têm as capacidades de raciocínio necessárias para descobrir de onde vem o financiamento para tais "movimentos", e se soubessem, a maioria não seria capaz de discernir o arquitectado plano estratégico do feminismo, e do igualismo, de destruir a ordem existente como um acto de desafio satânico.

Para os praticantes sérios da magia negra, a inversão de toda a ordem e a promoção de sacrifícios em massa através do aborto, e a destruição da família nuclear, são oferendas ritualistas. Pode-se ver isto de modo claro na recente exposição de Jimmy Saville e do escândalo na Grã-Bretanha. O propósito é o de se cortar o joio do compostos por pessoas de cérebro fraco e com mentalidade de escravo, e forçar um equilíbrio pontual através dum salto Darwiniano, levando a que uns poucos selectos tecnocratas satânicos possam continuar com o futuro.

A mentira satânica tem como propósito a sua própria destruição, e não para o seu "empoderamento", visto que nenhum "empoderamento" pode vir que seja contrário às naturezas que Deus criou. A natureza só pode ser transformada e deificada por Deus, e não aniquilada e reformada através da energia humana, ocultista ou demoníaca.

Fonte: http://omarxismocultural.blogspot.com.br/

domingo, 28 de setembro de 2014

A Bíblia responde as acusações dos protestantes contra a Igreja Católica - parte 4.

4. A COMUNHÃO

ACUSAÇÃO : Por que os católicos comungam somente sob as espécies do Pão, e os protestantes sob espécie de Pão e Vinho, como Jesus fez na última ceia ?

RESPOSTA: A diferença entre católicos e protestantes é essencial e bem, maior do que parece :

A ) - Os protestantes desligaram-se da sucessão dos Apóstolos, por isso seus pastores não recebem o sacramento da ordenação e não têm nenhum poder espiritual a mais do que seus fiéis. Portanto, eles "presidem" a penas "a ceia", como memória - recordação da ÚLTIMA CEIA de Jesus. E nela comem simples pão e bebem vinho, acreditando que, por esta piedosa recordação, Cristo lhes comunica sua graça e o seu amor.

B ) - Os sacerdotes Católicos recebem no Sacramento da Ordem, o sacerdócio ministerial, (realmente distinto do sacerdócio comum dos fiéis, recebido no batismo), pelo qual realizam na Santa Missa o duplo efeito: 1o. - celebram a última Ceia de Jesus ; 2o. (Dentro desta comemoração fazem o que Jesus fez nela antecipadamente) : tornam , presente ( aqui e agora ) o sacrifício de Jesus na Cruz, consumado pela separação do sangue esgotejado do corpo, simbolizado pela consagração separada de pão e vinho. É isto que Jesus ordenou aos Apóstolos e seus legítimos sucessores no sacerdócio, com as palavras: "Fazei isto em memória de Mim ! ". (Lc 22,19).

Este sacrifício de Jesus na cruz, perpetuado em cada Santa Missa (que falta aos protestantes) - sendo a principal fonte de todas as graças - é de máxima importância. Por isso todos os católicos têm a grave obrigação, pelo 1o. mandamento da Lei da Igreja, de participar da Missa inteira nos Domingos e festas de guarda ( quando há possibilidade ).

C ) - As provas bíblicas sobre a real presença de Jesus na Eucaristia são as seguintes:

a ) Os Evangelhos foram escritos na língua grega, de alta cultura, em que existe muitas expressões para os verbos "simbolizar, significar, representar, lembrar, etc." No entanto, os três Evangelistas e S.Paulo, ao descreverem a Última Ceia de Jesus, usam exclusivamente a palavra " é " : "Isto é o meu Corpo; este é o cálice do meu sangue". ( Mt 26,26s; Mc 14,22s; Lc 22,19s; I Cor 11,23s).

b ) Jesus falava ao povo simples, com palavras claras e compreensíveis. Quando usava comparações, p.ex. : "Vós sois o sal da terra; vós sois a luz do mundo"; - ninguém reclamava, e não esperava os Apóstolos transformados em imagens de sal ou luz. Quando porém, Jesus lhes disse: "Este é o pão que desceu que desceu do céu, se alguém comer deste pão, viverá eternamente; e o pão que Eu vos darei é minha carne ( imolada ) pela vida do mundo". ( Jo 6,50-51 ) - então os judeus o entendem verbalmente e reclamam dizendo: "Como pode Ele dar-nos a comer sua carne ? " E Jesus reafirma : "Em verdade, em verdade Eu vos digo: se não comerdes carne do filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós... pois a minha carne é um verdadeiro alimento e o meu sangue é uma verdadeira bebida. Quem come deste pão viverá eternamente"; (Jo 6,52-58). Até muitos discípulos seus o entenderam assim verbalmente, e por isso murmuraram e se retiraram dizendo: "É dura tal linguagem; quem pode escutá-la ? ( Jo 6,60-66 ). Mas Jesus não se retrata, para os recuperar. Pelo contrário, pergunta aos doze Apóstolos: "Também vós quereis partir ?" E então Simão Pedro dá a bela resposta da fé, em nome dos Apóstolos e de todos os fiéis católicos: "Para quem iremos nós, Senhor ? Tu tens as palavras da vida eterna, e nós cremos e sabemos que és o Santo de Deus". ( Jo 6,67-71). Porém somente na Última Ceia foi lhes revelada a maneira de alimentar-se com o Corpo e o Sangue de Jesus, velado sob espécies de pão e vinho
consagrados.

c ) Outra prova bíblica sobre a verdadeira presença de Jesus na Eucaristia, são as admoestações de S. Paulo aos Coríntios: "E por isso, todo aquele que comer o pão ou beber do cálice do Senhor indignamente, tornar-se culpado do corpo e do sangue do Senhor... Pois quem come e bebe sem fazer distinção de tal corpo, come e bebe a própria condenação". ( I Cor 11,27-29 ).

d ) A Comunhão sob uma ou duas espécies não constitui essencial diferença já que em cada pedacinho de pão e em cada gota de vinho consagrado recebemos Jesus inteiro, vivo e ressuscitado; como consta claramente de suas palavras ( Jo 6,51-56): "Eu sou o pão vivo que desceu do céu... e o pão que hei de dar é a minha carne... Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece em Mim e Eu nele". Claro, não é um pouquinho de carne ou sangue que recebemos na santa Comunhão, mas o "EU" de Jesus: a Pessoa do Filho de Deus Encarnado - nosso Salvador.

Por isso os primeiros cristãos costumavam levar aos encarcerados pela fé, somente o pão consagrado; e os doentes que não conseguem engolir um pedacinho da hóstia consagrada, a Igreja recomenda administrar algumas gotas do vinho consagrado. E em grupos, menores e bem preparados, pode-se administrar a Santa Comunhão sob duas espécies. O que mais importa é a viva fé, humildade diante deste Santíssimo Sacramento do Amor ! Daí, o 3o. Mandamento da Lei da Igreja nos obriga: Comungar ao menos uma vez por ano, pela Páscoa da Ressurreição; e recomenda fazê-lo em cada santa missa !

Que pena que pela falta de fé no poder e no amor infinito de Jesus, tantos "crentes" se afastam desta "árvore da vida", presente entre nós até ao fim do mundo, - na Eucaristia; apesar de suas palavras claras: "Se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós" ( Jo 6,53).
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5 . CASAMENTO - SACRAMENTO INDISSOLÚVEL ?

ACUSAÇÃO : Por que a Igreja católica proclama o matrimônio como sacramento indissolúvel ? Os outros crentes adotam simplesmente a lei civil sobre o casamento e o divórcio. Qual é o ensinamento da Bíblia ?

RESPOSTA : a) A Bíblia não deixa nenhuma dúvida a respeito da indissolubilidade do matrimônio, como consta de Mt 19,3-9. Nesta disputa com os fariseus, acostumados a repudiar facilmente as sua mulheres, Jesus lhes responde : "Não leste que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher e disse: - Por isso deixa o homem pai e mãe e une-se com sua mulher e os dois formam uma só carne ?... Não separe, pois, o homem o que Deus uniu". - Acrescentaram eles: - "Então, por que Moisés mandou dar-lhes libero de repúdio e despedi-la ? Respondeu-lhes Jesus : - "Por causa da dureza do vosso coração, permitiu-vos Moisés repudiar as vossas mulheres, mas no princípio não era assim". - E agora, com a autoridade do divino Legislador, Jesus restabelece a ordem primitiva, declarando : "Ora, Eu vos digo : - Todo o que despedir a própria mulher, salvo de concubinato, ( e não adultério, como traduzia-se erradamente), e casar-se com outra, comete adultério; e quem casar-se com uma repudiada, comete adultério".

Em I Cor 7,10-11 S. Paulo reafirma a indissolubilidade do matrimônio, escrevendo : "Aos casados mando ( não eu, mas o Senhor ) Que a mulher não se separe do marido. E se ela estiver separada, que fique sem casar, ou se reconcilie com seu marido. Igualmente o marido não repudie sua mulher". Portanto, segundo as expressas declarações da Bíblia, não há mais lugar para o divórcio e novo casamento, entre os cristãos casados.

b ) Sacramento. Na carta aos Efésios ( Ef 5,25-33 ), S. Paulo recomenda aos maridos amarem suas esposas, "como Cristo amou sua Igreja e se entregou a si mesmo por ela, a fim de a santificar... para que seja santa e irrepreensível", - e acrescenta : - "Esse mistério ( = sacramento ) é grande, quero dizer, com referência a Cristo e a Igreja ".

Por esse mistério ( sacramento ) o contrato natural do matrimônio, e a convivência cotidiana do casal cristão, representando e encarnando o amor fecundado de Cristo à sua Igreja, é elevado a uma nova dignidade e realidade transcendental, ou ao plano sacramental.

É verdade que nos primeiros séculos, nos tempos da perseguição, o sacramento do matrimônio não tinha ainda fórmulas prescritas, e era contraído no ambiente familiar ; mas a Igreja Católica nunca o entregou às autoridades civis do Estado, ( como fazem muitos "crentes"), e depois prescreveu em pormenores as exigências para sua válida celebração na Igreja.

c ) Mesmo que a Igreja Católica nunca aprove o divórcio, em alguns casos o Tribunal Eclesiástico do Matrimônio pode declarar a nulidade dum "matrimônio", quando depois de séria investigação fica provado que, na celebração de tal "casamento" na igreja, faltaram condições essenciais para sua validade, exigidas pela lei da Igreja, ( idade, liberdade, etc. ). Isso não é concessão do divórcio, mas apenas uma declaração de que - apesar da cerimônia religiosa, - o tal "matrimônio" não era validamente contraído, isto é, nunca se realizou.

d ) Para todos os casados vale a exortação bíblica da carta aos Hebreus : " Seja por todos honrado o matrimônio, e o leito conjugal sem mácula ; porque Deus julgará os fornicadores e os adúlteros" ( Hb 13,4 ).

sábado, 27 de setembro de 2014

Requintes socialistas de crueldade - é isso que queremos para o Brasil?

Livro negro do comunismo: Revolução Francesa foi modelo

Para o Livro Negro do Comunismo, a emulação com a Grande Revolução –a Francesa de 1789– é que moveu os revolucionários vermelhos. Robespierre abriu o caminho, Lenine e Stalin lançaram-se nele, os Khmers Vermelhos do Camboja bateram recordes genocidas.
Para todos eles, a utopia igualitária e libertária tudo justificava. Exterminar milhões não importava, em sua opinião, porque assim nasceria um mundo novo, fraternal, para um homem novo liberto da canga da hierarquia e da lei.

O obstáculo a varrer era a propriedade privada. E o adversário a eliminar eram os proprietários. Os comunistas atiraram-se ferozmente sobre eles do mesmo modo como Robespierre encarniçara-se contra os nobres.

Da Reforma Agrária à Guerra Civil

Na Rússia – como em geral nos países que caem nas garras do comunismo ‒ tudo começou pela Reforma Agrária. Sob o tzarismo, os agitadores incitavam à partilha negra de terras invadidas. Era a luta de classes dos sem-propriedade contra os proprietários rurais, grandes ou pequenos.

O desastroso desenlace da I Guerra Mundial deixou a Rússia numa situação caótica. O tzar abdicou e foi substituído por políticos centristas, concessivos à esquerda. Em face disso, a minoria comunista ousou o inconcebível e apoderou-se do governo quase sem resistência.

Logo a seguir, Lenine declarou a Guerra Civil contra os proprietários. Comitês revolucionários de intelectuais comunistas conduzindo uma tropa de “elementos criminosos e socialmente degenerados” (p. 127) instauraram o terror. A droga corria farta entre eles. Os proprietários de milhares de fazendas invadidas foram mortos ou fugiram para o exterior. Os donos de roças ou chácaras ficaram, provisoriamente. Em 29 de abril de 1918, Lenine decretou “uma batalha cruel e sem perdão contra esses pequenos proprietários” (p. 83).

Os bolchevistas passaram a desarmá-los e a lhes confiscar o grão. Quem resistia era torturado ou espancado até a morte. Roubavam-lhes até a roupa interior de inverno e os sapatos, ateavam fogo nas saias das mulheres para que dissessem onde estavam sementes, ouro, armas e objetos escondidos. As violações praticadas então pelos comunistas foram sem conta.

Entretanto, em julho-agosto de 1918, os bolchevistas perderam o controle de quase todo o país. E na região que dominavam eclodiram 140 insurreições. Os proprietários agrícolas formaram exércitos de até dezenas de milhares de homens. Porém, estes não compreendiam a natureza ideológica do adversário e que era preciso opor-lhe uma ideologia anticomunista. Repetiam inadvertidamente o jargão dos bolchevistas, pensando com isso seduzi-los. Ingenuidade! Os comunistas maquiavelicamente propunham arranjos, atribuíam os excessos a funcionários e prometiam uma solução assim que os anticomunistas entregassem as armas. Isto feito, matavam-nos desapiedadamente.

(Fonte: “Livro Negro do Comunismo revela o maior crime da História”, Catolicismo, fevereiro de 2000).

Brutal nacionalização da indústria e primeira grande fome

Tendo confiscado o alimento, o governo reduziu o povo pela fome. Só comia quem possuísse o cartão de racionamento distribuído pelo partido... Havia seis categorias de estômagos excomungados. Os burgueses, os contra-revolucionários, os proprietários rurais, os comerciantes, os ex-militares, os ex-policiais foram condenados ao desaparecimento.
Nas cidades, as fábricas pararam. Os operários trocavam ferramentas e máquinas furtadas das oficinas por alimentos. A ditadura soviética nacionalizou, então, as indústrias e as militarizou. Trabalhava-se sob ameaça. A ausência podia acarretar a morte. O pagamento não ultrapassava um terço ou metade do pão necessário para a sobrevivência.

As inúmeras revoltas operárias foram afogadas em sangue. O paraíso igualitário estava começando... “As cidades devem ser impecavelmente limpas de toda putrefação burguesa .... O hino da classe operária será um canto de ódio e de vingança!”, escrevia o “Pravda” – jornal oficial -- em 31 de agosto de 1918.

A fome prostrou a população. Em 1922 não havia mais revoltas, apenas multidões apáticas implorando uma migalha e morrendo como moscas. Foi o início da primeira grande fome que ceifou 5 milhões de vidas.

Os cadáveres insepultos acumulavam-se nas estradas. Surgiu o canibalismo. Os comunistas deitaram a mão nos bens da igreja cismática (dita ortodoxa), majoritária na Rússia. O confisco ocorreu com profanações e carnavais anti-religiosos. Após sucessivas ondas aniquiladoras, pouquíssimos templos permaneceram abertos. Os “Popes” (chefes da igreja cismática) transformados em agentes do Partido.

(Fonte: “Livro Negro do Comunismo revela o maior crime da História”, Catolicismo, fevereiro de 2000).

A sangrenta estatização dos campos

A Reforma Agrária prometeu terra aos que não a possuíam. Mas na verdade o comunismo desejava implantar os kholkhozes, isto é, granjas comunitárias pertencentes ao Estado, onde os camponeses obedecem como servos à planificação socialista.
Stalin completou a estatização do campo decretando o extermínio imediato de 60 mil chacareiros e o exílio da grande maioria para campos de concentração da Sibéria.

Mesmo os simpatizantes do governo perderam tudo, sendo deslocados para terras incultas de sua região. Em poucos dias, a meta de 60 mil assassinatos foi superada. Em menos de dois anos foram deportados 1.800.000 proprietários e familiares.

A viagem mortífera, em vagões de gado, durava várias semanas, sem alimento nem água. Os comboios descarregavam os cadáveres nas estações. Os locais de acolhida eram ermos, sem instalações básicas. As baixas por inanição, doença ou frio atingiram mais do 30% dos deportados, no primeiro ano.

Como nas granjas coletivas os assentados desenvolviam resistência passiva às normas, Stalin decidiu submetê-los pela fome. As reservas de alimentos, sementes e ferramentas foram confiscadas. Carentes de tudo, os camponeses abandonavam os filhos na cidade próxima. Em Jarkov, crianças famintas lotavam as ruas. As que ainda não haviam inchado foram conduzidas a um galpão, onde agonizaram aproximadamente 8 mil crianças. As outras foram despejadas num local longínquo para morrerem sem serem vistas. Esta fase final da Reforma Agrária provocou 6 milhões de mortes.

(Fonte: “Livro Negro do Comunismo revela o maior crime da História”, Catolicismo, fevereiro de 2000).

O Grande Expurgo: 6 milhões de vítimas

Em janeiro de 1930, os pequenos comerciantes, artesãos e profissionais liberais foram “desclassificados”, isto é, privados de moradia e de cartão de racionamento. E, por fim, deportados.
Stalin excogitou também o Grande Expurgo nas fileiras do partido e da administração pública. Universidades, academias e institutos diversos foram quase esvaziados. Até Tupolev, inventor do tipo de avião que leva seu nome, foi vítima.

A alta oficialidade do Exército foi expurgada numa porcentagem de 90%. A mortandade causada pelo Grande Expurgo atingiu mais de 6 milhões de pessoas, embora oficialmente só tenha havido 681.692 execuções.

Durante a II Guerra Mundial, o comunismo russo dizimou as minorias étnicas. Mais de 80% dos 2 milhões de descendentes de alemães que moravam na URSS foram expurgados como espiões e colaboradores do inimigo. Várias outras etnias foram supressas.

Os expurgos alimentavam o gigantesco sistema de campos de concentração, onde os deportados funcionavam como mão-de-obra escrava para sustentar a economia soviética. Nesses locais, a alimentação era ínfima e nojenta, e a mortalidade pavorosa.

(Fonte: “Livro Negro do Comunismo revela o maior crime da História”, Catolicismo, fevereiro de 2000).

Na Europa Oriental: “requinte” do modelo russo e cruel perseguição anticatólica

Na Europa do Leste, ocupada pelos russos, reproduziu-se o mesmo drama. Em alguns países, o comunismo requintou a perversidade.
Na prisão romena de Pitesti os estudantes religiosos eram batizados todos os dias, enfiando-se-lhes a cabeça em baldes cheios de fezes, enquanto era rezada a fórmula batismal. Os seminaristas deviam oficiar missas negras, especialmente na Semana Santa. O texto litúrgico era “pornográfico e parafraseava de forma demoníaca o original” (p. 495).

A perseguição tornou-se encarniçada contra o clero católico. Um Bispo greco-católico escreveu este testemunho comovedor:

“Durante longos anos, suportamos, em nome de São Pedro, a tortura, os espancamentos, a fome, o frio, o confisco de todos os nossos bens, o escárnio e o desprezo. Beijávamos as algemas, as correntes e as grades de ferro das nossas celas como se fossem objetos de culto, sagrados; e a nossa farda de prisioneiros era o nosso hábito de religiosos. Nós havíamos escolhido carregar a cruz, apesar de nos proporem sem cessar uma vida fácil em troca da renúncia a Roma. .... Hoje, apesar de todas as vítimas, a nossa Igreja possui o mesmo número de Bispos que havia na época em que Stalin e o Patriarca ortodoxo Justiniano triunfalmente a declararam morta” (p. 486).

(Fonte: “Livro Negro do Comunismo revela o maior crime da História”, Catolicismo, fevereiro de 2000).

Enlouquecimento? Ou possessão diabólica coletiva?

Em plena Revolução bolchevista, a famosa revista francesa “L'Illustration” coleção 1920 a 1925, p. 38, publicou matéria inédita. Tratou-se de mórbida fotografia do cadáver de um oficial polonês empalado, contemplado pela soldadesca comunista. A revista quis ilustrar com essa fotografia a inexplicável e antinatural ausência de reflexos humanos, bem como a indiferença absoluta dos soldados vermelhos. O que teria anestesiado as reações instintivas daqueles homens?
“L'Illustration” acrescenta que o crime foi ordenado por uma pessoa que, na frívola Paris da época, distinguia-se como um gozador, cético em matéria de religião, mas bom rapaz, engraçado, grande jogador de bridge e freqüentador de bailes. Que fator misterioso transformou-o, subitamente, em feroz comissário bolchevista?

(Fonte: “Livro Negro do Comunismo revela o maior crime da História”, Catolicismo, fevereiro de 2000).

Oração a Nossa Senhora Aparecida pedindo afaste o flagelo do comunismo do Brasil

Oração a Nossa Senhora Aparecida pedindo afaste o flagelo do comunismo do Brasil
“Ó Rainha do Brasil, nesta hora de tantos perigos para a nossa Pátria, afastai dela o flagelo do comunismo ateu.
“Não permitais que consiga instaurar-se em nosso País, nascido e formado sob o influxo sagrado da civilização cristã, o regime comunista, que nega todos os Mandamentos da Lei de Deus.

“Para isso, ó Senhora, conservai viva, aumentai a rejeição que o comunismo encontrou em todas as camadas sociais do povo brasileiro. “Ajudai-nos a ter sempre presente que:

“1) O Decálogo nos manda “amar a Deus sobre todas as coisas”, “não tomar seu santo Nome em vão” e “guardar os domingos e festas de preceito”. E o comunismo ateu tudo faz para extinguir a Fé, levar os homens à blasfêmia e criar obstáculos à normal e pacífica celebração do culto;

“2) O Decálogo manda “honrar pai e mãe”, “não pecar contra a castidade” e “não desejar a mulher do próximo”. Ora, o comunismo deseja romper os vínculos entre pais e filhos, entregando a educação destes em mãos do Estado. O comunismo nega o valor da virgindade e ensina que o casamento pode ser dissolvido por qualquer motivo, pela mera vontade de um dos cônjuges;

“3) O Decálogo manda “não furtar” e “não cobiçar as coisas alheias”. O comunismo nega a propriedade privada e sua tão importante função social;

“4) O Decálogo manda “não matar”. O comunismo emprega a guerra de conquista como meio de expansão ideológica e promove revoluções e crimes em todo o mundo;

“5) O Decálogo manda “não levantar falso testemunho”, e o comunismo usa sistematicamente a mentira como arma de propaganda.

“Fazei que, tolhendo resolutamente os passos à infiltração comunista, os brasileiros de todas as classes sociais possam contribuir para que se aproxime o dia da gloriosa vitória que predissestes em Fátima com estas palavras tão cheias de esperança e doçura: “Por fim meu Imaculado Coração triunfará”.”

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Como e quando a Bíblia foi redigida?

Cronologia da era apostólica e o desenvolvimento do cânon

Esta cronologia apresenta uma seqüência dos eventos bíblicos e extrabíblicos que refletiram sobre a formação do cânon da Bíblia, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. Afirma-se por aí que dois pesquisadores da Bíblia não conseguem concordar sobre uma cronologia apostólica... Com efeito, a cronologia que apresentamos aqui é aceitável para alguns, mas não pode ser considerada "universal". Serve apenas para fornecer pontos de referência para os eventos que se sucederam e suas conseqüências [sobre o cânon das Escrituras].

EVENTO DATA OBRA
Pregação de João Batista 27
Vinda do Espírito Santo sobre a Igreja 30
Estêvão é martirizado por lapidação 36/37
Conversão de Paulo e sua primeira viagem missionária 45/49
Concílio [Apostólico] de Jerusalém 50
Segunda viagem missionária de Paulo 50/52
51 1ª e 2ª Epístolas aos Tessalonicenses
Terceira viagem missionária de Paulo 53/58
54-57 Epístola aos Gálatas
57 1ª e 2ª Epístolas aos Coríntios
58 Epístola aos Romanos
Viagem [de Paulo] a Roma 59/60
1ª prisão de Paulo em Roma 61-63
Epístola a Filemon
Epístola aos Colossenses
Epístola aos Efésios
Epístola aos Filipenses
Epístola de Tiago
65 Evangelho de Marcos
1ª Epístola a Timóteo
Epístola a Tito
O apóstolo Tiago é martirizado. Paulo é levado para Roma 63/64

Pedro em Roma (Pedro é o primeiro Bispo de Roma) 64 1ª Epístola de Pedro

2ª prisão de Paulo e martírio 67 2ª Epístola a Timóteo

Morte de Pedro. Lino é Bispo de Roma Epístola aos Hebreus

Destruição de Jerusalém 68-70
70s Evangelho de Mateus
Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos
Anacleto é Bispo de Roma 78
70s/90s Epístola de Judas
90s Evangelho de João
1ª, 2ª e 3ª Epístolas de João
Livro do Apocalipse

Clemente é Bispo de Roma 92-101 1ª Epístola de Clemente

Morte do [apóstolo] João em Éfeso 98

Sínodo dos rabinos/judeus em Jâmnia 99-100 Cânon palestinense em hebraico

1º Cânon Cristão do Antigo Testamento c. 100 Cânon alexandrino em grego


100-125 2ª Epístola de Pedro
Didaqué

Melitão, bispo de Sardes c. 170 Primeira tentativa cristã conhecida de relacionar o cânon do Antigo Testamento. Melitão lista os livros do AT segundo a ordem da Septuaginta, mas apresenta apenas os protocanônicos do AT, com exceção de Ester.

Ireneu, bispo de Lião 185 Apresenta um cânon do Novo Testamento (sem 3João, Tiago e 2Pedro)

c. 200 Fragmento de Muratori apresenta um cânon semelhante ao do [Concílio de] Trento

Eusébio, bispo de Cesaréia c. 325 Escreve a "História Eclesiástica"; refere-se a Tiago, Judas, 2Pedro e 2-3João como "controversos, ainda que aceitos pela maioria"

Concílio [Regional] de Laodicéia c. 360 Apresenta um cânon de livros semelhante ao de Trento

Papa Dâmaso 382 Decreto listando os livros canônicos, da mesma forma que em Trento

Concílio [Regional] de Roma 382 Aceitação do decreto de Dâmaso

Concílio [Regional] de Hipona (norte da África) 393 Aprovado um cânon do Antigo e do Novo Testamento (igual ao de Trento)

Concílio [Regional] de Cartago (norte da África) 397 Aprovado um cânon do Antigo e do Novo Testamento (igual ao de Trento)

Exupério, bispo de Toulouse 405 Escreve ao papa Inocêncio I pedindo uma lista dos livros canônicos. Papa Inocêncio oferece uma lista idêntica ao cânon de Trento

Autor: Charles the Hammer
Fonte: Catholicapologetics.Net
Tradução: Carlos Martins Nabeto

Nota da Confraria: repare que a Bíblia só tomou a forma atual a partir do século IV e muitos dos livros do Novo Testamento só foram redigidos bem depois do início da evangelização dos povos, realizada a partir da tradição oral. Como dizer que "só a Bíblia é fonte de doutrina", já que a doutrina cristão era divulgada antes que uma única linha fosse redigida?

Sola Scriptura e a Tradição Oral.

A Bíblia ou a Tradição?

Um argumento pouco bíblico


Os reformadores protestantes diziam que a Bíblia era a única fonte das verdades da fé e que, para entender sua mensagem, dever-se-ia tão somente ler as palavras do texto. É o que se chama de "teoria protestante da sola scriptura" ou, em português, "somente a Bíblia". Segundo esta teoria, nenhuma autoridade fora da Bíblia pode impor uma interpretação e nenhuma instituição extrabíblica - por exemplo, a Igreja - foi estabelecida por Jesus Cristo para fazer as vezes de árbitra em caso de conflitos de interpretação.

Como bons herdeiros dos reformadores, as seitas fundamentalistas trabalham sobre a base desta teoria e não perdem oportunidade para demonstrar seu princípio que, por outro lado, pareceria ser sua arma mais poderosa, algo que eles aceitam como o fundamento indiscutível dos seus pontos de vista.

Contudo, não existe coisa mais difícil no diálogo com os fundamentalistas que fazê-los provar o porquê crêem no princípio do "somente a Bíblia", separada de qualquer outra fonte de autoridade, e que esta (a Bíblia) seja suficiente nas questões de fé. A questão se resume em saber qual o motivo que faz um fundamentalista crer que a Bíblia seja um livro inspirado, já que é óbvio que ela pode tornar-se regra de fé apenas no caso de se comprovar sua inspiração e, também, sua inerrância.

Claro que essa questão não preocupa por demais a maioria dos cristãos e, certamente, são poucos os que tenham se atentado para isto alguma vez. Em geral, se crê na Bíblia porque é o livro aceito por todos os cristãos, cuja autoridade não se discute, eis que ainda vivemos em tempos em que os princípios cristãos têm influência na cultura e no modo de vida da maioria das pessoas.

Um cristão humilde, que não daria a mínima credibilidade para o Alcorão, pensaria duas vezes antes de falar mal da Bíblia, já que esta goza de certo prestígio, mesmo quando não pudesse explicá-la ou entendê-la bem. Poderia dizer-se que essa pessoa aceita a Bíblia como inspirada - qualquer que seja seu entendimento quanto à inspiração - por razões de tipo cultural, razões que, sem dúvida, são de escasso ou nenhum valor, já que pelas mesmas razões o Alcorão é tido por inspirado em países de cultura muçulmana.

"PARA MIM, É MOTIVO SUFICIENTE"

Diga-se o mesmo perante quem sustenta que a família pela qual veio ao mundo sempre considerou a Bíblia como livro inspirado e "para mim, isso basta". Seria um bom motivo somente para aquele que não pode fazer um trabalho de reflexão sério (e não devemos nunca desprezar uma fé simples, sustentada sobre fundamentos bem mais débeis). Porém, seja como for, o mero costume familiar ou local não pode estabelecer-se como base para a crença na inspiração divina da Sagrada Escritura.

Alguns sectários dizem que a Bíblia é um livro inspirado porque "é um livro que inspira". Porém, a palavra "inspiração" é precisamente o que se quer provar e observemos que há muitos escritos religiosos antigos que certamente são muito mais "inspirativos" ou "emotivos" do que muitos textos e até livros inteiros do Antigo Testamento. Não é falta de respeito afirmar que certas passagens dos escritos sagrados são tão secos quanto as estatísticas militares... e algumas partes da Bíblia (Antigo Testamento) são compostas realmente por isso: estatísticas militares!

Por isso, concluímos que não é suficiente crer na Sagrada Escritura por motivos culturais ou de costume, nem tampouco por seus textos emotivos ou sua beleza espiritual: há outros livros, alguns totalmente mundanos, que ultrapassam em beleza poética muitas passagens da Escritura.

QUE DIZ A BÍBLIA DE SI MESMA?

E que dizer do que a própria Bíblia ensina sobre sua inspiração? Notemos que são muito poucas as passagens onde a própria Bíblia ensina sua inspiração - mesmo que de modo indireto - e a maioria dos livros do Antigo e do Novo Testamento não dizem absolutamente nada sobre sua particular inspiração. De fato, nenhum autor dos livros do Novo Testamento diz estar escrevendo sob o impulso do Espírito Santo, exceto São João, ao escrever o Apocalipse.

Ademais, ainda que cada livro da Bíblia começasse com a frase: "Este livro é inspirado por Deus", semelhante frase não provaria nada: o Alcorão diz ser inspirado, assim como o Livro do Mórmon e vários livros de algumas religiões orientais. Mais: os livros de Mary Baker Eddy (a fundadora da Ciência Cristã) e de Ellen G. White (fundadora do Adventismo do Sétimo Dia) se auto-proclamam inspirados. Pode-se concluir - com grande senso comum - que o fato de um escrito atribuir a si qualidades de inspiração divina não quer dizer que assim o seja na realidade.

Ao dizer estes argumentos, muitos fundamentalistas recuam e nos afirmam que "o Espírito Santo me diz claramente que a Bíblia é inspirada", uma noção bastante subjetiva - para se dizer o mínimo - muito semelhante com aquela outra, tão comum entre os sectários, de que "o Espírito Santo os guia para interpretar as Escrituras". É, assim, que o autor anônimo do artigo "Como posso compreender a Bíblia?", um folheto distribuído pela organização evangélica "Radio Bible Class", apresenta doze regras para o estudo da Bíblia. A primeira é: "Busca a ajuda do Espírito Santo. O Espírito Santo foi dado para iluminar as Escrituras e fazê-las reviver para ti quando a estudas; deixa Ele te guiar".

Se com esta regra se entende que qualquer pessoa que pedir a Deus para o guiar na interpretação da Bíblia receberá essa condução do alto - e neste sentido entendem a maioria dos fundamentalistas - então o imenso número de interpretações contrárias e contraditórias, mesmo entre os próprios fundamentalistas, nos apresentaria a preocupante sensação de que o Espírito Santo não tem trabalhado direito...

NÃO COM SILOGISMOS

Grande parte dos fundamentalistas não dizem diretamente que o Espírito Santo lhes falou, assegurando-lhes que a Bíblia é um livro inspirado. Ao menos, não falam desse modo. Melhor, agem assim: ao ler a Bíblia, o Espírito "os convencem" que essa é a Palavra de Deus, recebem certa sensação interior de que é uma palavra divina e ponto.

De qualquer modo que se veja, a postura fundamentalista não resiste a um raciocínio sério. Conta-se nos dedos de uma mão os fundamentalistas que num primeiro momento se aproximaram da Bíblia como um livro "neutro" e, após sua leitura, a reconheceram como inspirado, segundo um raciocínio lógico. De fato, os fundamentalistas começam pressupondo o fato da inspiração - tal como recebem outras doutrinas das suas seitas - sem raciocinar sobre elas e, então, encontram partes da Sagrada Escritura que parecem fundamentar a inspiração, caindo assim num círculo vicioso, confirmando com a Bíblia o que eles já acreditavam de antemão.

A pessoa que quer refletir seriamente sobre o tema se defraudará com a posição fundamentalista da inspiração bíblica, percebendo que esta não possui uma base sólida para manter tal teoria. A posição católica é a única que, no final, pode dar uma resposta intelectualmente satisfatória.

A maneira católica de raciocinar, para demonstrar que a Bíblia é inspirada, é a seguinte: em um primeiro passo, consideramos a Bíblia como qualquer outro livro histórico, sem presumir que seja inspirado. Estudando o texto bíblico com os instrumentos da ciência moderna, chegamos à conclusão de que se trata de uma obra confiável, de grande precisão histórica, sendo que referida precisão ultrapassa em muito a de qualquer outro texto histórico.

UM TEXTO PRECISO

Frederic Kenyon, em "A História da Bíblia", faz notar o seguinte: "Para todas as obras da antigüidade clássica, nos vemos obrigados a nos socorrer de manuscritos redigidos muito depois do original. O autor que leva vantagem neste sentido é Virgílio, visto que o manuscrito mais antigo que dele possuímos foi escrito 350 anos depois da sua morte. Para todas as demais obras clássicas, o intervalo que existe entre a data do escrito original e a do manuscrito mais antigo que dele se conserva é muito maior: para Lívio, é de uns 500 anos; para Horácio, 900; para a maioria das obras de Platão, 1300; para Eurípedes, 1600". Mesmo assim, ninguém pode seriamente duvidar de que realmente possuímos cópias fiéis das obras desses autores.

Não somente possuímos manuscritos bíblicos mais próximos aos originais que os da antigüidade clássica, como também possuímos um número muito maior que aqueles. Alguns destes manuscritos são livros inteiros; outros são fragmentos; outros, tão somente algumas palavras; mas todos eles juntos somam milhares de manuscritos em hebraico, grego, latim, copta, siríaco e outras línguas. Tudo isso significa que possuímos um texto rigorosamente fiel, que pode ser usado com toda confiança.

TOMADO HISTORICAMENTE

Em um segundo momento, dirigimos nossa atenção para o que a Bíblia - considerada somente como um livro histórico - nos ensina, particularmente no Novo Testamento e nos Evangelhos. Examinemos o relato da vida de Jesus, sua morte e sua ressurreição.

Usando o que nos transmitem os Evangelhos, o que lemos em outros escritos extrabíblicos dos primeiros séculos e o que nos ensina nossa própria natureza - e o que de Deus podemos conhecer pela luz da razão - concluímos que Jesus ou era o que dizia ser (Deus) ou era louco. (Sabemos que não pode ter sido apenas um bom homem e ao mesmo tempo não ser Deus, já que nenhum bom homem poderia atribuir para si a divindade se realmente não fosse Deus).

Também podemos negar que era um louco, não apenas pelo que disse e ensinou - nenhum louco jamais falou como ele, da mesma forma que nenhum homem sábio tampouco já tenha falado assim... - mas ainda pelo que seus discípulos fizeram após a sua morte. Uma fraude (o túmulo supostamente vazio) poderia ter ocorrido, mas ninguém daria a vida por uma fraude, ao menos por uma fraude sem perspectiva de proveito. Logo, devemos afirmar que Jesus verdadeiramente ressuscitou e, portanto, era Deus como dizia ser e cumpriu o que prometeu fazer.

Outra coisa que Ele disse que faria seria fundar a sua Igreja; e tanto a Bíblia (ainda que tomada como simples livro histórico e não como livro inspirado por Deus) como outras fontes históricas antigas nos fazem saber que Cristo estabeleceu uma Igreja com as características que vemos hoje na Igreja Católica: papado, hierarquia, sacerdócio, sacramentos, autoridade para ensinar e, como conseqüência desta última, infalibilidade. A Igreja de Cristo deveria gozar da infalibilidade de ensinamento se fosse cumprir aquilo para o qual Cristo a fundou.

Tomando material meramente histórico, concluímos que existe uma Igreja - a Igreja Católica - protegida pelo Espírito Santo para que possa ensinar, sem erro, até o fim dos tempos. Vejamos agora a última parte do argumento.

Essa Igreja nos diz que a Bíblia é inspirada e podemos confiar em seu ensino porque se trata de um ensinamento autorizado, infalível. Só após sermos ensinados por uma autoridade propriamente constituída por Deus para nos transmitir as verdades necessárias para a nossa fé - tal como a inspiração da Bíblia - só então é que podemos usar as Escrituras como um livro inspirado.

UM ARGUMENTO EM ESPIRAL

Há que se notar que o nosso argumento não cai em um círculo vicioso: não estamos baseando a inspiração da Bíblia na infalibilidade da Igreja e a infalibilidade da Igreja na palavra inspirada da Bíblia; isso seria precisamente um círculo vicioso. O que temos feito se chama "argumento em espiral": por um lado, argumentamos sobre a confiabilidade da Bíblia como texto meramente histórico; dali sabemos que Jesus fundou uma Igreja infalível e só então tomamos a palavra dessa Igreja infalível que nos ensina que a Palavra transmitida pela Bíblia é uma Palavra inspirada, Palavra de Deus. Não se trata de um círculo vicioso, já que a conclusão final (a Bíblia é a Palavra de Deus) não é o enunciado do qual partimos (a Bíblia é um livro historicamente confiável), e este enunciado inicial não está baseado, em absoluto, na conclusão final. O que demonstramos é que, se excluirmos a Igreja, não teremos suficientes motivos para afirmar que a Bíblia é a Palavra de Deus.

É certo que o que acabamos de discutir não é precisamente o raciocínio que a gente habitualmente faz ao se aproximar da Bíblia, mas é a única maneira razoável de fazê-lo na hora em que se nos perguntam por que cremos na Bíblia. Qualquer outro raciocínio é insuficiente; talvez haja argumentos mais próximos da gente sob o ponto de vista psicológico, porém, são estritamente argumentos não convincentes. Na matemática aceitamos "por fé" (não no sentido teológico do termo, é claro) que dois mais dois é igual a quatro. É uma verdade que nos parece evidente e satisfatória sem maiores argumentos, mas para quem quiser fazer um curso de matemática, deverá estudar um semestre inteiro visando provar essa verdade tão "óbvia".

RAZÕES INADEQUADAS

A questão aqui é a seguinte: os fundamentalistas têm muita razão em crer que a Bíblia é um livro inspirado por Deus, no entanto, suas razões para crer são inadequadas, insuficientes, já que a aceitação da inspiração divina das Escrituras pode se basear satisfatoriamente apenas numa autoridade estabelecida por Deus que nos assegure isso; e essa autoridade é a Igreja.

E precisamente aqui encontramos um problema mais sério: pode parecer a alguém que mesmo que eu creia na Bíblia como Palavra de Deus, pouco importa o motivo dessa minha crença; o importante seria aceitar a Bíblia como a Palavra de Deus. Porém, o motivo pelo qual uma pessoa crê na Bíblia afeta substancialmente a maneira de interpretar a Bíblia. O fiel católico crê na Bíblia porque a Igreja assim o ensina e essa mesma Igreja tem a autoridade de interpretar o texto inspirado. Os fundamentalistas, por sua vez, crêem na Bíblia - mesmo baseados em argumentos pouco convincentes - porém, não aceitam nenhuma outra autoridade para interpretar o texto bíblico a não ser os seus próprios pontos de vista.

O cardeal Newman expressava isso em 1884, da seguinte maneira: "Certamente que se as revelações e ensinamentos bíblicos do texto sagrado se dirigem a nós de uma maneira pessoal e prática, se faz obrigatória a presença formal, no meio de nós, de um juiz e expositor autorizado dessas revelações e ensinamentos. É antecedentemente irracional supor que um livro tão complexo, tão pouco sistemático, em partes tão obscuro, fruto de várias mentes tão distintas, lugares e épocas diferentes, fosse nos dado do alto sem uma autoridade interpretativa do mesmo, já que não podemos esperar que interprete a si mesmo. O fato de que seja um livro inspirado nos assegura a verdade do seu conteúdo, não a interpretação do mesmo. Como pode o simples leitor distinguir o que é didático e o que é histórico, o que é fato real e o que é uma visão, o que é alegórico e o que é literal, o que é um recurso idiomático e o que é gramatical, o que se enuncia formalmente e o que ocorre de passagem, quais são as obrigações que vigoram sempre e quais vigoram em certas circunstâncias? Os três últimos séculos têm provado, infelizmente, que em muitos países tem prevalecido a interpretação particular das Escrituras. O dom da inspiração divina das Escrituras requer como complemento obrigatório o dom da infalibilidade da sua interpretação".

As vantagens do raciocínio católico são duas: em primeiro lugar, a inspiração é estritamente demonstrada, não apenas "sentida". Segundo, o fato principal que pulsa atrás deste raciocínio - a existência de uma Igreja infalível, que nos conduz pela mão a dar uma resposta à pergunda do eunuco etíope (Atos 8,31): como saber se as interpretações do texto são mesmo as corretas? A mesma Igreja que autentica a Bíblia, que estabelece a sua inspiração, é a autoridade estabelecida por Jesus Cristo para interpretar a Sua Palavra.


Autor: Catholic Answers
Fonte: http://www.apologetica.org
Tradução: Carlos Martins Nabeto

Bíblia e Tradição Oral da Igreja.

A Bíblia dispensa a Tradição oral da Igreja?

A Tradição oral remonta ao próprio Cristo e aos Apóstolos. Ela é anterior à Escritura e se exprime nela. O ponto em que mais aparece a necessidade de algo anterior à Escritura, é a que se refere ao Cânon Bíblico: Como saber se um livro é ou não inspirado?

O próprio protestantismo, que afirma só reconhecer a Escritura, recorre necessariamente à Tradição Oral em 2 ocasiões:
Sem a Tradição oral, não se pode definir o catálogo sagrado, pois em nenhuma parte da Escritura está escrito quais os livros que, inspirados por Deus, a devem integrar. É preciso procurar a definição dos livros sagrados fora da Escritura: na Tradição. Ora Lutero e o Protestantismo recorreram a tradição dos judeus da palestina, enquanto a Igreja Católica, seguindo o uso dos Apóstolos, optara pela tradição dos judeus de Alexandria.

Na sua maneira de interpretar a Biblia, os protestantes também recorrem a uma tradição. Pois embora o texto biblico seja o mesmo para todas as denominações evangélicas, estas não concordam entre si, por exemplo, no que toca ao Batismo de criança, à observância do sábado ou do domingo, etc. As divergências não provêm do texto biblico, mas da interpretação dada a este texto por cada fundador. Ou seja, dependem da tradição oral ou escrita que cada fundador quis iniciar na sua congregação. Assim, embora queiram rejeitar a Tradição Oral, o cristão a professa sempre: professa a Tradição oriunda de Cristo e dos Apóstolos, ou a tradição oriunda de Lutero, Calvino... Cada "profeta" protestante faz o que Lutero fez: rejeita a tradição protestante anterior e começa uma nova tradição: sim, lê a Bíblia ao seu modo e dela deduz proposições de fé e de moral que, segundo a sua intuição humana falível, lhe parecem mais acertada.
Assim, a Escritura, só, não pode ser, nem é no protestantismo, a única fonte de fé. Por outro lado, a Tradição Oral e o Magistério da Igreja só tem sentido se fazem eco à Sagrada Escritura.


Autor: Dom Estêvão Bettencourt, OSB
Fonte: Apostila "Diálogo Ecumênico" (Escola Mater Ecclesiae)

domingo, 21 de setembro de 2014

A Bíblia responde as acusações dos protestantes contra a Igreja Católica - parte 3.

3. CONFISSÃO.
ACUSAÇÃO : Os católicos confessam-se com os padres, que são pecadores ; os crentes confessam-se somente com Deus ! - porque lemos na Bíblia: "Quem pode perdoar os pecados, senão só Deus ?" (Mc 2,7).

RESPOSTA : Quem negava a Jesus o poder de perdoar os pecados, e até taxava de blasfemador, eram os orgulhosos escribas. Jesus , porém, lhes respondeu (Mc 2,10) : "Para que saibais que o Filho do homem tem na terra o poder de perdoar os pecados..."Jesus curou o paralítico perdoado à vista deles.

Este poder de perdoar os pecados, Jesus o confiou aos homens pecadores, aos Apóstolos e seus legítimos sucessores, no dia mais solene, na Ressurreição quando lhes apareceu e disse (Jo 20,21-23): "Assim como o pai me enviou, também eu vos envio a vós. Tendo dito estas palavras, soprou sobre eles e disse-lhes: "Recebei o Espírito Santo. Àquele a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados, e àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos".

Não resta dúvida que o sopro de Cristo ressuscitado e as palavras: "Recebei o (dom do) Espírito Santo..."expressam claramente que os Apóstolos não obtiveram o poder de perdoar os pecados em virtude de sua santidade ou impecabilidade, mas como um dom especial, merecido por Cristo e a ele conferido em favor das almas, remidas pelo sangue derramado na cruz.

Daí dizer: "Eu não me confesso com os padres, porque eles também são pecadores, demonstra igual insensatez, como afirmar: "Eu não vou, com minha doença, procurar conselho e remédio dos médicos, porque eles também ficam doentes".

Por isso os católicos, mesmo que sejam, cardeais e reis, dobram humildemente suas cabeças diante de tão claras palavras de Jesus e confessam seus pecados diante dum simples sacerdote, para receber o perdão de Deus.

Os outros crentes, porém, preferem ignorar estas palavras de Jesus, e desprezar o grande dom de Jesus, no sacramento da Penitência. Para motivar este procedimento, procuram na Bíblia vários textos no sentido: "Convertei-vos... fazei penitência... arrependei-vos, para que vossos pecados sejam perdoados,... para que sejais salvos".

Ninguém duvida de que o sincero arrependimento dos pecados, com firme propósito de não pecar mais, e satisfação feita a Deus e aos prejudicados, eram no Antigo Testamento condições necessárias e suficientes para obter perdão de Deus. O mesmo vale ainda hoje para todos os que desconhecem Jesus e seu Evangelho ; para os que não tem nenhuma ocasião de se confessar ; e são ainda condições necessárias para obter perdão na boa Confissão. Mas quem no seu orgulho não acredita na veracidade e obrigatoriedade das palavras de Cristo Ressuscitado, com as quais instituiu o sacramento da Penitência, e por isso não quer se confessar, dificilmente receberá perdão !

Cada pecado é um ato de orgulho e desobediência contra Deus. Por isso "Cristo se humilhou e tornou-se obediente até a morte na cruz" (Fl 2,8) para expiar o orgulho e a desobediência dos nossos pecados, e nos merecer perdão. Por isso ele exige de nós Confissão sacramental, na qual confessamos os nossos pecados diante do seu representante, legitimamente ordenado. E, conforme a sua promessa: "Quem se humilha, será exaltado, e quem se exalta, será humilhado" (Lc 18,14).

Alguns "crentes" aliciam os católicos para sua seita com a promessa de que, depois do batismo (pela imersão), estarão livres de qualquer pecado e nem poderão mais pecar ! (Conseqüentemente, não precisarão mais de nenhuma Confissão). Apóiam esta afirmação nas palavras bíblicas de I Jo 3, 6 e 9 "Quem permanece Nele, não peca; quem peca , não O viu, nem O conhece" e "Todo aquele que é gerado por Deus, não comete pecado, porque nele permanece o germe divino" (a graça santificante).

Em resposta, lembro o princípio bíblico de que entre as verdades bíblicas, reveladas por Deus, não pode haver contradições. Por isso, as palavras menos claras, devem ser esclarecidas por palavras mais claras ou pela autoridade estabelecida por Deus ( Magistério da Igreja ). Ora, o próprio Apóstolo escreve em ( I Jo 1,8-10): "Se dissermos que não temos pecados algum, enganamos a nos mesmos, e a verdade não está em nós, Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo, e nos perdoa os nossos pecados, e purifica de toda a iniqüidade. Se dissermos que não temos pecado, taxamo-lo de mentiroso, e a sua palavra não está em nós.

Por isso a Tradição Apostólica interpreta as palavras de I Jo 3,9: "Todo aquele que é gerado por Deus não peca", no sentido de "não deve pecar gravemente", já que possuindo a graça de Deus, tem suficiente força para vencer as tentações. Enquanto as claras palavras em I Jo 1,8-10 falam dos pecados leves - veniais; sendo somente Maria Imaculada livre de qualquer mancha do pecado original e pessoal, em previsão dos méritos antecipados de Jesus Cristo que a escolheu por sua Mãe.

Portanto, todos os homens adultos necessitam de Misericórdia Divina; e os sinceros seguidores da Bíblia receberam-na, agradecidos, no sacramento da Confissão.

sábado, 20 de setembro de 2014

Bíblia sem Tradição e o Magistério da Igreja = erros e heresias.

A necessidade da Tradição e do Sagrado Magistério da Igreja

A Igreja Católica, desde os tempos apostólicos ensina que além da Sagrada Escritura, também é necessário para a formação doutrinal e moral da Igreja, a Sagrada Tradição (compreendendo aí os ensinamentos dos apóstolos e dos primeiros cristãos) e o Sagrado Magistério ( compreendendo o que os Concílios, o Bispo de Roma em particular, e em comunhão com ele todos os Bispos definem e ensinam como verdades de fé e moral ).

Tal tríade abençoada ( Sagrada Escritura, Sagrada Tradição e Sagrado Magistério) foram e são os responsáveis pelo desenvolvimento e manutenção de toda a doutrina católica nestes vinte séculos de história cristã.

O Protestantismo nega tanto a Tradição quanto o Magistério legitimamente instituído por Jesus Cristo. Para eles, a única regra é a Sola Scriptura (ou seja somente a Bíblia e nada mais do que ela é regra de fé e de moral) interpretada livremente por qualquer pessoa ( método do livre exame ). Eis Martinho Lutero a dize-lo sem rodeios: "a todos os cristãos e a cada um em particular pertence conhecer e julgar a doutrina. Anátema a quem lhe tocar um fio deste direito" ( Conforme D. M. Luthers, Werke, Kritische Gesamtausgabe. Weimar, X. 2 Abt., p. 217, 1883 ss). Como se dissesse a cada um de seus seguidores: Eia pois, valoroso cristão! Tu és mestre de ti mesmo. Despreza tudo o que os primeiros cristãos, os Bispos e os Concílios definiram como verdade. Toma tu a bíblia, senta em tua saleta e defina tu mesmo o teu cristianismo!

Procuraremos demonstrar - Se Deus o consentir - que ao abandonar tanto a Sagrada Tradição quanto o Sagrado Magistério, o protestantismo provocou inadvertidamente sua própria dissolução doutrinária e orgânica. E hoje, infelizmente, sob o elástico nome de "protestantismo" se abrigam milhares e milhares de seitas doutrinariamente e disciplinadamente discordantes entre si. Causando um fragrante escândalo à causa ecumênica e ao desejo expresso de Jesus Cristo: " Para que todos sejam um (...) e o mundo creia que tu me enviaste" ( Jo 17, 20-21).

Com efeito, sabemos, a própria Bíblia não caiu pronta dos céus. Quem definiu que cada um dos livros que compõem a Sagrada Escritura, era de inspiração Divina foi o Espirito Santo agindo através da Tradição e do Magistério Católico. Isto são fatos históricos! Quem definiu o cânon completo, tanto do antigo quanto do novo testamento, foi o Espirito Santo através da Tradição e do Magistério. Quem definiu que o Novo Testamento e o Velho fosse enfeixado em um único volume dando portanto igual valor entre os dois testamentos foi a Tradição e o Magistério. Do que viveu a Igreja católica primitiva, durante os primeiros anos de pregação? Quando o Novo testamento ainda não havia sido escrito? Sobreviveu pela Tradição e pelo Magistério.

A própria Bíblia dá testemunho interno da necessidade de uma Tradição e de um Magistério vivo, para interpretá-la e ensiná-la. Transcrevo sobre isto, o magnífico comentário de Pe. Leonel Franca: "(a própria Bíblia) inculca a necessidade do ensino vivo, a importância de conservar a tradição, a insuficiência das Escrituras, que segundo afirma São João, não encerra tudo o que ensinou o Salvador (Jo 21,25). Jesus Cristo nunca mandou aos seus discípulos que folheassem um livro para achar a sua doutrina, mandou pelo contrário aos fiéis, que ouvissem aos que Ele mandara pregar: quem vos ouve, a mim ouve; se alguém não ouvir a Igreja, seja considerado como infiel e publicano, isto é, não pertencente a minha Igreja: se alguém não vos receber nem ouvir vossas palavras, saindo da casa ou da cidade sacudi até o pó dos sapatos; Pai oro não só por estes (Apóstolos) mas por todos os que hão de crer em mim mediante a sua palavra a fim de que sejam todos uma coisa só. Foi Jesus ainda quem prometeu o seu Espírito de Verdade, a sua assistência espiritual, todos os dias, até a consumação dos séculos, para que os apóstolos vivendo moralmente em seus sucessores (os bispos ) continuassem até o final dos tempos a ensinar sempre tudo o que ele nos mandou. Eis meus caros leitores, o que diz a Bíblia" ( Franca, P. Leonel, I.R.C., 1958, pg.216-7).

Quando se fala de Magistério, evidentemente se fala do magistério legítimo, constituído por Jesus Cristo, o qual prometeu assistência especial e infalível até o final dos tempos: "Recebei o Espírito Santo (...) Eu estarei convosco até o final do tempos". Hoje, qualquer papalvo se atribui a si mesmo o título de "bispo" e sai por aí a fundar seitas e pregar doutrinas. Evidentemente este não é um magistério legítimo. O indivíduo que a si mesmo se premia com o título de "bispo", nada mais é que um mentiroso sacrílego.

Os próprios apóstolos ensinaram à exaustão a respeito da necessidade da Sagrada tradição e do Magistério legitimamente constituído. Vejamos S. João em suas últimas duas epístolas dizer expressamente que não quis confiar tudo por escrito, mas havia outras coisas que comunicaria à viva voz ( II Jo., 12 ; III Jo, 14). O apóstolo São Paulo, inculca fortemente a necessidade de uma tradição e um magistério vivo: "Estais firmes, irmãos e conservai as tradições que aprendestes ou de viva voz..." ( II Tes 2,15 ); "que vos aparteis de todos os que andam em desordens e não segundo a tradição que receberam de nós" (II Tes 3,6); "O que de mim ouvistes por muitas testemunhas, ensina-o a homens fiéis que se tornem idôneos para ensinar aos outros" (II Tm 2,2). A Igreja fundada por Cristo, portanto, seria ela "a coluna e o firmamento da verdade" ( I Tm 15). A Igreja fundada por Cristo portanto é maior que a Sagrada Escritura. Pois a Igreja é quem a escreveu, a definiu, a interpreta e a ensina. Os primeiros cristãos seguindo os ensinamentos dos apóstolos e já de posse da Sagrada Tradição e do Sagrado Magistério, nem pensam ser a Bíblia a única regra de fé. Aqui, por falta de espaço, vamos respigar apenas algumas citações da vasta seara dos testemunhos primitivos: "Advertia, antes de tudo, as igrejas das diversas cidades, evitassem, sobre todas as coisas, as heresias que começavam então a se alastrar e exortava-as a se aterem tenazmente à tradição dos apóstolos" ( Eusébio resumindo o ensino de S. Inácio de Antioquia, martirizado no ano 107 DC cf. Euséb., Hist. Eccles., III, 36 / MG, 20, 287); "Antes exortei-vos a vos conservardes unânimes na doutrina de Deus, pois Jesus Cristo nossa vida inseparável, é a doutrina do Pai, como a doutrina de Jesus Cristo são os bispos constituídos nas diversas regiões da terra" ( clara alusão ao Sagrado Magistério) ( S. Inácio, + 107 DC in Ad Ephesios, 3-4) ; "Sob Clemente, havendo nascido forte discórdia entre os irmãos de Corinto, a Igreja de Roma escreveu-lhes uma carta enérgica, exortando-os à paz, reparando-lhes a fé, e anunciando-lhes a tradição que havia pouco tinham recebido dos apóstolos" ( S. Irineu, martirizado em 202 DC in Contra as Heresias III, c.3,n.3) ; "Aí está claro, a quantos querem ver a verdade, a tradição dos apóstolos, manifesta em toda a Igreja disseminada pelo mundo inteiro..."( S. Irineu mártir in Contra as heresias III, 3, 1) ; "Não devemos buscar nos outros a verdade que é fácil receber da Igreja, pois os apóstolos a mãos cheias, versaram nela, como em riquíssimo depósito, toda a verdade... Este é o caminho da vida" (Idem, In Contra as heresias III, 4, 1); "E se os apóstolos não nos houvessem deixado as Escrituras, não cumpria seguir a ordem da Tradição por eles ensinada aos a quem confiavam à sua Igreja?" ( Idem, In Contra as heresias III, 4,1) ; "De nada vale as discussões das Escrituras. A heresia não aceita alguns de seus livros, e se os aceita, corrompe-lhes a integridade, adulterando-os com interpolações e mutilações ao sabor de suas idéias, e se, algumas vezes admitem a Escritura inteira, pervertem-lhe o sentido com interpretações fantásticas..." ( Tertuliano séc III In De Praescriptionibus., c. 19 / ML, II,31). Na mesma obra assevera que onde estiver a verdadeira Igreja, "aí se achará a verdade das Escrituras, da sua interpretação e de todas as tradições cristãs" ( Idem, De Praescript., c. 19 ML, II, 31).

Jesus Cristo, instituiu para sua Única Igreja, um Magistério verdadeiro, pois disse à Pedro: "Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus; tudo o que ligares na terra será ligado nos céus..." ( Mt 16, 18-19), e em outro lugar "Eu estarei convosco até o final dos tempos". Para os católicos, se Jesus prometeu ficar conosco até o final dos tempos ele irá cumprir literalmente esta promessa. Se ele disse que a sua Igreja iria se manter firme por todo o sempre porque as portas do inferno não iriam prevalecer, nós cremos que ele está cumprindo concretamente esta promessa.

Pois não é exatamente isto que constatamos na Igreja Católica? Dois mil anos de existência ininterrupta. E que constância doutrinária e moral admirável! Quantas perseguições e vicissitudes e no entanto "as portas do inferno não prevaleceram". Parte desta unidade e estabilidade maravilhosa devemos certamente à instituição da Sagrada Tradição e do Sagrado Magistério por Cristo e pelos apóstolos.

O protestantismo negando tanto a Tradição quanto o Magistério sofre desde os seus primórdios uma desintegração doutrinária assombrosa. Onde Cristo fundou a Igreja Católica sobre a Rocha, Lutero e Cia fundaram a Igreja Evangélica sobre a areia movediça da sola scriptura e do livre exame. E logo nas primeiras ventanias, pôs-se a casa dos reformadores a desabar fragorosamente: tábuas lançadas aqui e ali, telha lá e acolá, junturas e cacos em todas as direções.

As divisões e subdivisões do Protestantismo desafiam hoje a paciência dos mais abnegados dos estatísticos.

Vejamos como no princípio deste século, o Reverendíssimo Pe. Leonel Franca já chamava a atenção para este fato, descrevendo lucidamente o processo de desagregação doutrinária do protestantismo, baseado no método da sola scriptura e do livre exame: "Na nova seita (protestantismo) não há autoridade, não há unidade, não há magistério de fé. Cada sectário recebe um livro que o livreiro lhe diz ser inspirado e ele devotamente o crê sem o poder demonstrar; lê-o, entende-o como pode, enuncia um símbolo, formula uma moral e a toda esta mais ou menos indigesta elaboração individual chama cristianismo evangélico. O vizinho repete na mesma ordem as mesmas operações e chega a conclusões dogmáticas e morais diametralmente opostas. Não importa; são irmãos, são protestantes evangélicos, são cristãos, partiram ambos da Bíblia, ambos forjaram com o mesmo esforço o seu cristianismo" ( In I.R.C. Pg. 212 , 7ª ed.).

Vejamos alguns exemplos práticos: um fiel evangélico quer mudar de seita? Precisa-se rebatizar? Umas igrejas dizem sim, outras não. Umas admitem o batismo de crianças, outras só de adultos, umas admitem a aspersão, infusão e imersão. Aquela outra só imersão, e mesmo há grupelho que só admite batismo em água corrente e sem cloro! Aqui e ali as fórmulas de batismo são tão variadas como as cores do arco-íris. Quer o sincero evangélico participar da Santa Ceia? Há seitas que consideram o pão apenas pão (pentecostais) outras que o pão é realmente o corpo de Cristo (Luteranos, Episcopais e outros). Uns a praticam com pão ázimo, outras com pão comum, aqui com vinho, lá com vinho e água, acolá com suco de uva. A Santa Ceia pode ser praticada diariamente, mensalmente, trimestralmente, semestralmente, anualmente ou não ser praticada nunca. Trata-se de ministérios ordenados? Esta seita constitui Bispos, presbíteros e diáconos. Àquela só presbíteros e pastores, ali pastores e anciãos, lá Bispos e anciãos, acolá presbíteros e diáconos, outras não admitem ministro nenhum. Umas igrejas ordenam mulheres, outras não. E por aí, atiram os evangélicos em todas as solfas quando o assunto é ministério ordenado. Após a morte, o que espera o cristão ? Pode um crente questionar seu pastor sobre isto? E as respostas colhidas entre as denominações seria tão rica e variada quanto a fauna e a flora. Há Pastor que prega que todos estarão inconscientes até a vinda de Cristo quando serão julgados; outros pregam o "arrebatamento" sem julgamento; outros, uma vida bem-aventurada aqui mesmo na terra; aqueles lá doutrinam que após a morte já vem o céu e o inferno; no outro quarteirão, se ensina que o inferno é temporário; opinam alguns que ele não existe; e tantas são as doutrinas sobre os novíssimos quanto os pastores que as pregam. Está cansado o fiel da esposa da sua juventude? Não tem importância, sempre encontrará uma seita a lhe abrir risonhamente as portas para um novo matrimônio. E de vez em quando não aparece um maluco aqui e ali aprovando a poligamia? Lutero mesmo admitiu tal possibilidade: "Confesso, que não posso proibir tenha alguém muitas esposas; não repugna às Escrituras; não quisera porém ser o primeiro a introduzir este exemplo entre cristãos" ( Luthers M.., Briefe, Sendschreiben (...) De Wette, Berlin, 1825-1828, II. 259 ). Não há uma pesquisa nos Estados Unidos que demonstra que entre os critérios para um evangélico escolher sua nova igreja está o tamanho do estacionamento? Eis o que é hoje o protestantismo.

Vejamos neste passo a afirmação de Krogh Tonning famoso teólogo protestante norueguês, convertido ao catolicismo, que no século passado já afirmava: "Quem trará à nossa presença uma comunidade protestante que está de acordo sobre um corpo de doutrina bem determinado ? Portanto uma confusão (é a regra ) mesmo dentre as matérias mais essenciais" ( Le protest. Contemp., Ruine constitutionalle, p. 43 In I.R.C., Franca, L., pg 255. 7ª ed, 1953)

Mas o próprio Lutero que saiu-se no mundo com esta novidade da sola scriptura viveu o suficiente para testemunhar e confessar os malefícios que estas doutrinas iriam causar pelos séculos afora: "Este não quer o batismo, aquele nega os sacramentos; há quem admita outro mundo entre este e o juízo final, quem ensina que Cristo não é Deus; uns dizem isto, outros aquilo, em breve serão tantas as seitas e tantas as religiões quantas são as cabeças" ( Luthers M. In. Weimar, XVIII, 547 ; De Wett III, 6l ). Um outro trecho selecionado, prova que o Patriarca da Reforma tinha também de quando em quando uns momentos de bom senso: "Se o mundo durar mais tempo, será necessário receber de novo os decretos dos concílios (católicos) a fim de conservar a unidade da fé contra as diversas interpretações da Escritura que por aí correm" ( Carta de Lutero à Zwinglio In Bougard, Le Christianisme et les temps presents, tomo IV (7), p. 289).

Gostaríamos de terminar por aqui para não sermos enfadonhos. Quando o Pai do Protestantismo, diante da dissolução das seitas, já há quinhentos anos atrás, confessa ao outro "reformador" que seria necessário receber de novo o Sagrado Magistério ( Concílios ) para manter a unidade, a regra do livre exame e da sola scriptura já está julgada por si mesma.

Autor: Dr. Udson Correia

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Interpretação da Bíblia.

A interpretação da Bíblia

Muitos escritores não levam em conta o sentido original, o gênero literário e a intenção dos autores sagrados; interpréta-os como se fossem textos modernos, que podem ser entendidos segundo as categorias de pensamento do homem de hoje. Os autores parecem mesmo desconfiar da exegese dita "científica".

Eis, porém, que é regra de sadia exegese procurar, antes do mais, o significado preciso do texto original; é necessário entender o texto como o autor sagrado o entendia e daí depreender a mensagem que ele queria transmitir. A inspiração do texto bíblico por parte do Espírito Santo não equivale a ditado mecânico; supõe sempre as categorias de pensamento do escritor oriental, antigo. Estas, portanto, têm que ser, primeiramente, detectadas e reconhecidas para que se possa compreender genuinamente a página bíblica. Este procedimento exegético tem sido enfaticamente recomendado pela Igreja desde Pio XII (encíclica Divino Afflante Spiritu, 1943) até o Concílio do Vaticano li, que em sua Constituição Dei Verbum ditou as normas seguintes: `Já que Deus falou na Sagrada Escritura através de homens e de modo humano, deve o intérprete da Sagrada Escritura, para bem entender o que Deus nos quis transmitir, investigar atentamente o que os hagiógrafos de fato quiseram dar a entender e aprouve a Deus manifestar por suas palavras.

Para descobrir a intenção dos hagiógrafos, devem-se levar em conta, entre outras coisas, também os gêneros literários Pois a verdade é apresentada e expressa de maneiras diferentes nos textos históricos, proféticos ou poéticos ou nos demais gêneros de expressão. Ora é preciso que o Intérprete pesquise o sentido que, em determinadas circunstâncias, o hagiógrafo, conforme a situação de seu tempo e de sua cultura, quis exprimir e exprimiu por meio dos gêneros literários então em uso. Pois, para entender devidamente aquilo que o autor sagrado quis afirmar por escrito é necessário levarem conta sejam aquelas usuais maneiras nativas de sentir, de dizer e de narrar que eram vigentes nos tempos do hagiógrafo, sejam as que em tal época se costumavam empregar nas relações dos homens entre si".

Verdade é que muitos dos exegetas científicos desde o fim do século XVIII têm cedido ao racionalismo, a ponto de esvaziarem por completo o texto bíblico. É o que vem provocando a réplica do chamado "Fundamentalismo" que se apega à letra do texto como ele soa em suas versões vernáculas e se fecha aos estudos de lingüística, arqueologia, história antiga... Ora o Fundamentalismo é posição extremada, errônea, como o racionalismo, pois ignora o mistério da condescendência divina, que assume as modalidades da linguagem e da cultura dos homens antigos para falar à humanidade. Assim se lê num documento da Pontifícia Comissão Bíblica intitulado "A Interpretação da Bíblia na Igreja" e datado de 15/4/1993: "O problema de base da leitura fundamentalista é que, recusando levar em consideração o caráter histórico da revelação bíblica, ela se toma incapaz de aceitar plenamente a verdade da própria Encarnação. O Fundamentalismo foge da estreita relação do divino e do humano no relacionamento com Deus Ele se recusa a admitir que a Palavra de Deus inspirada foi expressa em linguagem humana e que ela foi redigida, sob a inspiração divina, por autores humanos cujas capacidades e recursos eram limitados. Por esta razão, ele tende a tratar o texto bíblico como se ele tivesse sido ditado, palavra por palavra, pelo Espírito e não chega a reconhecer que apalavra de Deus foi formulada numa linguagem e numa fraseologia condicionadas por uma ou outra época. Ele não dá atenção ás formas literárias e às maneiras humanas de pensar presentes nos textos bíblicos, muitos dos quais são fruto de uma elaboração que se estendeu por longos períodos de tempo e leva a marca de situações históricas muito diversas.

O Fundamentalismo insiste também de maneira indevida sobre a inerrância dos pormenores nos textos bíblicos, especialmente em matéria de história ou de pretensas verdades científicas. Muitas vezes ele toma histórico aquilo que não tinha a pretensão de historicidade, pois ele considera como histórico tudo aquilo que é narrado ou contado com os verbos em tempo pretérito, sem a necessária atenção à possibilidade de um sentido simbólico ou figurativo". Por conseguinte, nem racionalismo nem fundamentalismo... Mas é necessário que o exegeta proceda sempre em duas etapas:

- procure, mediante os recursos da lingüística, da arqueologia, da história antiga... definir claramente o sentido do texto original ou aquilo que o autor humano queria dizer;

- a seguir, coloque esses resultados no conjunto das proposições da fé. A Sagrada Escritura é um longo discurso de Deus, homogêneo, que tem suas linhas centrais e seus acordes, que devem projetar luz sobre cada secção desse discurso. É o que São Paulo chamava "a analogia da fé ou a proporção da fé" (Rm 12,6). Esta fé é vivida e proclamada pela Igreja, cujo magistério recebeu de Cristo a garantia da autenticidade (cf. Jo 14, 26; 16,13-15). Assim o estudioso católico chega ao entendimento exato do texto sagrado. Não incute suas idéias ao texto (o que seria fazer in-egese), mas deduz do texto a mensagem objetiva (faz ex-egese). Quem assim não procede, corre o risco do subjetivismo ou de interpretações pessoais, semelhantes às que ocorrem no protestantismo.

As Revelações Particulares

Nenhuma revelação particular é endossada oficialmente pela Igreja. Esta não pode colocar no mesmo plano a revelação feita por Jesus Cristo e pelos autores bíblicos e qualquer revelação ocorrida em caráter particular após a era dos Apóstolos. A revelação oficial e pública termina com a geração dos Apóstolos; cf. Lumen Gentium n°- 25; Dei Verbum nº 4. Em conseqüência torna-se difícil crer que Deus queira continuar e explicitar a revelação outrora feita pelas Escrituras servindo-se de revelações não oficiais ou fazendo destas o complemento daquelas.

As revelações particulares, quando genuínas, geralmente corroboram o Evangelho, incutindo duas notas importantes: oração e penitência. Assim em La Salette, em Lourdes, em Fátima... Qualquer outra predição, principalmente se é muito minuciosa, torna-se suspeita. É não raro a satisfação que os "videntes" dão à sua própria curiosidade de saber o decurso do futuro; imaginam-no como se fosse revelado por Deus. Independentemente dessas minúcias, ficará sempre válida a exortação à conversão e à oração, tão recomendada pelo Evangelho e corroborada pelos sinais dos tempos atuais; estes pedem que os cristãos muito especialmente sejam o sal da terra, a luz do mundo (cf. Mt 5,13s), o fermento na massa (cf. Mt 13,33). A consideração dos nossos tempos, portanto, deve levar ao afervoramento da vida dos cristãos, abstração feita de predições sinistras.

Autor: Dom Estêvão Bettencourt, OSB
FONTE: http://www.bibliacatolica.com.br/conhecendo-a-biblia-sagrada/49/#.Uw3Y9-NdXFA

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Encíclica Mirari Vos - Papa Gregório XVI - contra os erros modernos liberais e revolucionários.


CARTA ENCÍCLICA
Aos Patriarcas, Primazes, Arcebispos, Bispos e outros Ordinários
em paz e comunhão com a Santa Sé Apostólica.

Veneráveis Irmãos, saúde e benção apostólica.

A Rebelião dos ímpios, causa de seu silêncio

1. Creio-vos admirados, porque desde que sobre Nós pesa o cuidado da Igreja universal, ainda não vos dirigimos Nossas cartas, como o costume arraigado da Igreja e Nossa benevolência para convosco o reclamam. Mui veemente era, em verdade, o desejo de abrir-vos Nosso coração e, ao comunicar-vos Nossa palavra, fazer-vos ouvir aquela mesma voz, pela qual Nos foi ordenado, na pessoa de Pedro, confirmar nossos irmãos (Lc 22,23). Mas bem sabeis que a procela de males e aflições que nos combateu desde os primeiros momentos de Nosso pontificado, ergueu-se, subitamente, qual vagalhão tão impetuoso que, se não Nos deplorais qual náufrago da terrível conspiração dos ímpios é mercê de um esforço da omnipotência divina. Com o coração alanceado pela tristíssima consideração de tantos males, não se tem ânimo para relembrar tamanha amargura; preferimos, pois, bendizer ao Pai de toda consolação que, humilhando os perversos, Nos livrou do presente perigo e, acalmando a turbulenta tempestade, Nos permitiu respirar. Então Nos propusemos a dar-vos conselhos para pensar as chagas de Israel, mas o grande número de cuidados que pesou sobre Nós, enquanto conciliávamos o restabelecimento da ordem pública, foi causa de mais tardança. A insolência dos ímpios que tentaram, de novo, arvorar a bandeira da rebelião, foi novo motivo de Nosso silêncio. E Nós, ainda que com tristeza indizível, vimo-Nos obrigado a reprimir, com pulso firme, (1 Cor 4,21), a contumácia daqueles homens, cujo furor se exaltava de mais a mais, longe de se abrandar pela constante impunidade e pela Nossa clemência. E desde então podeis muito bem deduzir que Nossos cuidados se tornaram mais constantes.

Mas, havendo já tomado posse do pontificado na Basílica de Latrão, consoante costume estabelecido por Nossos maiores, e que fora retardada pelas causas supraditas, sem dar azo a mais delongas, damo-Nos pressa em dirigir-vos a presente carta, testemunho de Nosso afeto para convosco, neste dia gratíssimo, em que celebramos a solene festa da gloriosa Assunção da Santíssima Virgem, a fim de que aquela que Nos foi protetora e salvadora em gravíssimas calamidades, Nos seja propícia, iluminando-Nos o intelecto com celeste inspiração, para dar-vos os conselhos mais conducentes à santificação da grei cristã.

Lamentação dos males atuais

2. Em verdade, triste e com o coração dolorido, dirigimo-Nos a vós, a quem vemos cheios de angústia, ao considerar a crueldade dos tempos que fluem para com a religião que tanto estremeceis. Na verdade, poderíamos dizer que esta é a hora do poder das trevas para joeirar como o trigo, os filhos de escol (Lc 22,53); "a terra ficou infeccionada pelos seus habitantes, porque transgrediram as leis, mudaram o direito, romperam a aliança eterna" (Is 24,5). Referimo-Nos, Veneráveis Irmãos, aos fatos que vedes com vossos próprios olhos e todos choramos com as mesmas lágrimas. A maldade rejubila alegre, a ciência se levanta atrevida, a dissolução é infrene. Menospreza-se a santidade das coisas sagradas, e o culto divino, que tanta necessidade encerra, não é somente desprezado, mas também vilipendiado e escarnecido. Por esses meios é que se corrompe a santa doutrina e se disseminam, com audácia, erros de todo gênero. Nem as leis divinas, nem os direitos, nem as instituições, nem os mais santos ensinamentos estão ao abrigo dos mestres da impiedade.

Combate-se tenazmente a Sé de Pedro, na qual pôs Cristo o fundamento de sua Igreja; forçam-se e rompem-se, momentaneamente, os vínculos da unidade. Impugna-se a autoridade divina da Igreja e, espezinhados os seus direitos, é submetida a razões terrenas; com suma injúria, fazem-na objeto do ódio dos povos, reduzindo-a a torpe servidão. O clamoroso estrondo de opiniões novas ressoa nas academias e liceus, que contestam abertamente a fé católica, não já ocultamente e por circunlóquios, mas com guerra cura e nefária; e, corrompidos os corações dos jovens pelos ensinamentos e exemplo dos mestres, cresceram desproporcionadamente o prejuízo da religião e a depravação dos costumes. Por isso, rompido o freio da religião santíssima, somente em virtude da qual subsistem os reinos e se confirma o vigor de toda potestade, vemos campear a ruína da ordem pública, a desonra dos governantes e a perversão de toda autoridade legítima; e a origem de tantas calamidades devemos buscá-la na ação simultânea daquelas sociedades, nas quais se depositou, como em sentina imensa, quanto de sacrilégio, subversivo e blasfemo acumularam a heresia e a impiedade em todos os tempos.

Para corrigi-los, os Bispos devem trabalhar unidos à Cátedra de Pedro

3. Estas coisas, Veneráveis Irmãos, e outras muitas, talvez de maior gravidade, que seria prolixo referi-las e que vós conheceis perfeitamente, Nos obrigam a experimentar dor amarga e constante, pois, constituído na Cátedra do Príncipe do Apóstolos, é mister que o zelo pela casa de Deus Nos consuma. E sabedores, em razão de Nosso múnus, de que não é suficiente deplorarem-se tantos males, mas que se faz necessário remediá-los com todas as nossas forças, recorremos à vossa fé e imploramos a vossa solicitude pela grei católica, Veneráveis Irmãos, porque a vós cabe a virtude e a religião, a singular prudência e constância, que Nos encorajam e consolam em meio a tantas desgraças.

A Nós toca o dever de levantar a voz e envidar todos os esforços, para que o javali não destrua a vinha e o lobo não destroce o rebanho; devemos dar-lhes pábulo tão salutar, que nem de leve sequer sejam suspeitos. Longe de Nós, e mui longe, que os pastores faltem ao seu dever, abandonando covardemente as ovelhas, quando tantos males nos afligem e tantos perigos nos cercam, e que, sem cuidar da grei, se manchem com o ócio e a negligência. Façamos, pois, causa comum, digo melhor, a de Deus e, de espírito uno, porfiemos contra o inimigo comum, com uma só intenção com um só esforço.

4. Tudo isto cumprireis plenamente, se, segundo vosso dever, cuidardes de vós mesmos e da doutrina, tendo sempre presente que a Igreja universal repele toda novidade (S. Caelest. PP., ep. 21 ad episc. Galliar.) e que, conforme conselho do Pontífice Santo Agatão, nada se deve tirar daquelas coisas que hão sido definidas, nada mudar, nada acrescentar, mas que se devem conservar puras, quanto à palavra e quanto ao sentido (Ep. ad imp. apud Labb. Tomo II, p. 235, Ed. Mansi). Daqui surgirá a firmeza da unidade, que se radica, em seu fundamento, na Cátedra de Pedro, a fim de que todos encontrem baluarte, segurança, porto bonançoso e tesouro de inumeráveis bens, justamente onde as Igrejas possuem a fonte de seus direitos (S. Innocent. Papa, ep. II, apud Constat.). Para reprimir, portanto, a audácia dos que ora intentam infringir os direitos desta Sé, somente na qual se apoiam e recebem vigor, preciso é inculcar um profundo sentimento de fidelidade e veneração para com ela, clamando, a exemplo de São Cipriano, que em vão protesta estar na Igreja o que abandonou a Cátedra de Pedro, sobre a qual está fundada (S. Cypr., De unitate eccles.).

5. Deveis, pois, trabalhar e vigiar assiduamente, para guardar o depósito da fé, apesar das tentativas dos ímpios, que se esforçam por dissimulá-lo e desvirtuá-lo. Tenham todos presente que o julgar da sã doutrina, que os povos têm de crer, e o regime e o governo da Igreja universal é da alçada do Romano Pontífice, a quem foi dado por Cristo pleno poder, para apascentar, reger e governar a Igreja universal, segundo os ensinamentos legados pelos Padres do Concílio de Florença (Sess. 25, in definit. apud Labb., tom. 18, col. 527. Edit. Venet.). Portanto, todo Bispo deve aderir fielmente à Cátedra de Pedro, guardar o depósito da fé santa e apascentar religiosamente o rebanho de Deus que lhe foi confiado. Os presbíteros estejam sujeitos aos Bispos, considerando-os, segundo aconselha São Jerônimo, como pais da alma (Ep. 2 ad Nepot., a. 1, 24); e jamais esqueçam que os cânones mais antigos lhes vedam o desempenho de qualquer ministério, o ensino e a pregação sem licença do Bispo, a cujo cuidado foi confiado o povo e de quem se hão de pedir contas das almas (Ex can., app 33 apud Labb., tomo I, p. 38, edt. Mansi.). Por fim, tenha-se por certo e estável que, quantos intentarem contra esta ordem estabelecida, enquanto depender de sua parte, perturbam o estado da Igreja.

Imutabilidade da doutrina e disciplina da Igreja

6. Reprovável seria, na verdade, e muito alheio à veneração com que se devem acolher as leis da Igreja, condenar, somente por néscio capricho de opinião, a doutrina que foi por ela sancionado, na qual estão contidas a administração das coisas sagradas, a regra dos costumes e dos direitos da Igreja, a ordem e a razão dos seus ministros, ou então acoimá-la de oposicionista a certos princípios de direito natural, julgando-a deficiente e imperfeita, ou ainda sujeitando-a à autoridade civil.

Constando, com efeito, como reza o testemunho dos Padres do Concílio de Trento (Sess. 13, dec. de Eucharistia in proœm.), que a Igreja recebeu sua doutrina de Jesus Cristo e dos seus Apóstolos, e que o Espírito Santo a está continuamente assistindo, ensinando-lhe toda a verdade, é por demais absurdo e altamente injurioso dizer que se faz necessária uma certa restauração ou regeneração, para fazê-la voltar à sua primitiva incolumidade, dando-lhe novo vigor, como se fosse de crer que a Igreja é passível de defeito, ignorância ou outra qualquer das imperfeições humanas; com tudo isto pretendem os ímpios que, constituída de novo a Igreja sobre fundamentos de instituição humana, venha a dar-se o que São Cipriano tanto detestou: que a Igreja, coisa divina, se torne coisa humana (Ep. 52, edit. Baluz.). Pensem, pois, os que tal supõem, que somente ao Romano Pontífice como atesta São Leão, tem sido confiada a constituição dos cânones; e que somente a ele, que não a outro, compete julgar dos antigos decretos dos cânones, medir os preceitos dos seus antecessores para moderar, após diligente consideração, aquelas coisas, cuja modificação é exigida pela necessidade dos tempos (Ep. ad. episc. Lucaniae).

Defesa do celibato clerical

7. Reclamamos, aqui, também a vossa invicta constância para combater a torpíssima conspiração que se tem tramado contra o celibato clerical, a qual, como sabeis, cresce de momento para outro, porque com os falsos filósofos do nosso século fazem coro alguns eclesiásticos que, esquecidos da sua dignidade e estado, e aliciados pela voluptuosidade, chegaram a licenciosidade tal, a ponto de em alguns lugares se atreverem a pedir publicamente faculdade aos príncipes para infringir tão santa disciplina. Mas causa-nos rubor falar extensamente de intentos tão torpes e, confiado em vossa piedade, pedimo-vos que, com todas as forças e apoiados nas prescrições dos sagrados cânones, custodieis, defendais, e vindiqueis, em toda sua integridade, aquela lei de tamanha gravidade, contra a qual os inimigos assestam seus dardos.

Caracteres do matrimônio cristão

8. Reclama também nosso especial cuidado aquela união santa dos cristãos, chamada pelo Apóstolo sacramento grande em Cristo e na Igreja (Ef 5,33; Heb 13,4), para que não se diga e nem se tente dizer algo quer contra a santidade quer contra a força indissolúvel deste vínculo. O mesmo Nos recordara Nosso antecessor Pio VIII, de santa memória, com não pouca insistência; mão obstante, seus esforços não foram bastantes para suster todo o mal. Devemos, pois, ensinar aos povos que o matrimônio, legitimamente contraído, já não pode ser dissolvido, e que os unidos pelo matrimônio forma, por vontade de Deus, sociedade perpétua com vínculos tão íntimos que só a morte os pode dissolver. Tenham presente que o matrimônio pertence às coisas sagradas, e está sujeito à Igreja; tenham-se presentes as leis que sobre ele há ditado a Igreja; obedeçam-lhe santa e escrupulosamente, pois dela dependem a eficácia, força e justiça da união. Não admitam, de forma alguma, algo que esteja em oposição aos sagrados cânones ou aos decretos dos concílios, pois não desconhecem o mau resultado que necessariamente hão de acarretar as uniões que se fazem contra a disciplina da Igreja, sem implorar a proteção de Deus, somente por leviandade, sem pensar no sacramento e nem nos mistérios que nele são significados.

Condenação do indiferentismo religioso

9. Outra causa que tem acarretado muitos dos males que afligem a Igreja é o indiferentismo, ou seja, aquela perversa teoria espalhada por toda parte, graças aos enganos dos ímpios, e que ensina poder-se conseguir a vida eterna em qualquer religião, contanto que se amolde à norma do reto e honesto. Podeis, com facilidade, patentear à vossa grei esse erro tão execrável, dizendo o Apóstolo que há um só Deus, uma só fé e um só batismo (Ef 4, 5): entendam, portanto, os que pensam poder-se ir de todas as partes ao porto da Salvação que, segundo a sentença do Salvador, eles estão contra Cristo, já que não estão com Cristo (Lc 11,23), e os que não colhem com Cristo dispersam miseramente, pelo que perecerão infalivelmente os que não tiverem a fé católica e não a guardarem íntegra e sem mancha (Simbol. Sancti Athanasii); ouçam S. Jerónimo, do qual se diz que quanto alguém tentara atraí-lo para a sua causa, dizia sempre com firmeza: O que está unido à Cátedra de Pedro é o meu (S. Hier., ep. 57). E nem alimentem ilusões porque estão batizados; a isto calha a resposta de Santo Agostinho que diz não perder o sacramento sua forma quando está amputado da vide; porém, de que lhe serve, se não tira sua vida da raiz? (In Ps. contra part. Donat.).

Delírio da liberdade de consciência

10. Dessa fonte lodosa do indiferentismo promana aquela sentença absurda e errónea, digo melhor disparate, que afirma e defende a liberdade de consciência. Este erro corrupto abre alas, escudado na imoderada liberdade de opiniões que, para confusão das coisas sagradas e civis, se estende por toda parte, chegando a imprudência de alguém se asseverar que dela resulta grande proveito para a causa da religião. Que morte pior há para a alma, do que a liberdade do erro! dizia Santo Agostinho (Ep. 166). Certamente, roto o freio que mantém os homens nos caminhos da verdade, e inclinando-se precipitadamente ao mal pela natureza corrompida, consideramos já escancarado aquele abismo (Apoc 9,3) do qual, segundo foi dado ver a São João, subia fumaça que entenebrecia o sol e arrojava gafanhotos que devastavam a terra. Daqui provém a efervescência de ânimo, a corrupção da juventude, o desprezo das coisas sagradas e profanas no meio do povo; em uma palavra, a maior e mais poderosa peste da república, porque, segundo a experiência que remonta aos tempos primitivos, as cidade que mais floresceram por sua opulência, extensão e poderio sucumbiram, somente pelo mal da desbragada liberdade de opiniões, liberdade de ensino e ânsia de inovações.

Monstruosidade da liberdade de imprensa

11. Devemos tratar também neste lugar da liberdade de imprensa, nunca condenada suficientemente, se por ela se entende o direito de trazer-se à baila toda espécie de escritos, liberdade que é por muitos desejada e promovida. Horroriza-Nos, Veneráveis Irmãos, o considerar que doutrinas monstruosas, digo melhor, que um sem-número de erros nos assediam, disseminando-se por todas as partes, em inumeráveis livros, folhetos e artigos que, se insignificantes pela sua extensão, não o são certamente pela malícia que encerram, e de todos eles provém a maldição que com profundo pesar vemos espalhar-se por toda a terra. Há, entretanto, oh que dor! Quem leve a ousadia a tal requinte, a ponto de afirmar intrepidamente que essa aluvião de erros que se está espalhando por toda parte é compensada por um ou outro livro que, entre tantos erros, se publica para defender a causa da religião. É por toda forma ilícito e condenado por todo direito fazer um mal certo e maior, com pleno conhecimento, só porque há esperança de um pequeno bem que daí resulte. Porventura dirá alguém que se podem e devem espalhar livremente venenos ativos, vendê-los publicamente e dá-los a tomar, porque pode acontecer que, quem os use, não seja arrebatado pela morte?

12. Foi sempre inteiramente distinta a disciplina da Igreja em perseguir a publicação de livros maus, desde o tempo dos Apóstolos, dos quais sabemos terem queimado publicamente muitos deles. Basta ler as leis que a respeito deu o V. Concílio de Latrão e a constituição que ao depois foi dada a público por Leão X, de feliz recordação, para que o que foi inventado para o progresso da fé e a propagação das belas artes não sirva de entrave e obstáculo aos Fiéis em Cristo (Act. Concílio Lateran. V, ses. 10; e Constituição Alexand. VI "Inter multiplices").O mesmo procuraram os Padres de Trento que, para trazer remédio a tanto mal, publicaram um salubérrimo decreto para compor um índice de todos aqueles livros que, por sua má doutrina, deviam ser proibidos (Conc. Trid. sess. 18 e 25). Há que se lutar valentemente, disse Nosso predecessor Clemente XIII, de piedosa memória; há que se lutar com todas as nossas forças, segundo o exige a gravidade do assunto, para exterminar a mortífera praga de tais livros, pois o erro sempre procurará onde se fomentar, enquanto não perecerem no fogo esses instrumentos de maldade (Encíclica "Christianae", 25 nov. 1776, sobre livros proibidos). Da constante solicitude que esta Sé Apostólica sempre revelou em condenar os livros suspeitos e daninhos, arrancando-os às suas mãos, deduzam, portanto, quão falsa, temerária e injuriosa à Santa Sé e fecunda em males gravíssimos para o povo cristão é aquela doutrina que, não contente com rechaçar tal censura de livros como demasiado grave e onerosa, chega até ao cúmulo de afirmar que se opõe aos princípios da reta justiça e que não está na alçada da Igreja decretá-la.

Condenação da rebeldia contra as legítimas autoridades

13. Mas, tendo sido divulgadas, em escritos que correm por todas as partes, certas doutrinas que lançam por terra a fidelidade e submissão que se devem aos príncipes, com o que se alenta o fogo da rebelião, deve-se vigiar atentamente para que os povos, enganados, não se afastem do caminho do bem. Saibam todos que, como disse o apóstolo, toda autoridade vem de Deus e todas as que existem foram ordenadas por Deus. Aquele, pois, que resiste à autoridade, resiste à ordem de Deus e se condena a si mesmo (Rom 13, 2). Portanto, os que com torpes maquinações de rebelião se subtraem à fidelidade que devem aos príncipes, querendo tirar-lhes a autoridade que possuem, ouçam como contra eles clamam todos os direitos divinos e humanos.

14. Não era este, certamente, o proceder dos primeiros cristãos, os quais, para obviar a tão grave falta, mesmo que em meio das terríveis perseguições suscitadas contra eles, se distinguiram por seu zelo em obedecer aos imperadores e em lutar pela integridade do império, como provaram, quer no pronto cumprimento de quanto lhes era ordenado (sempre que não se opusesse à sua fé de cristãos), quer vertendo seu sangue nas batalhas, pelejando contra os inimigos do império. Os soldados cristãos, diz Santo Agostinho, serviram fielmente aos imperadores infiéis, mas quando se tratava da causa de Cristo, outro imperador não reconheceram que o dos céus. Distinguiam o Senhor eterno do senhor temporal; e não obstante, pelo primeiro obedeciam ao segundo (In Ps. 124. n. 7.). Assim o entendia certamente o glorioso mártir S. Maurício, invicto chefe da legião Tebana, quando, segundo refere Euquério, disse ao seu imperador: Somos, ó imperador, teus soldados, mas também servos que com liberdade confessamos a Deus; vamos morrer, e não nos rebelamos; nas mãos temos nossas armas, e não resistimos porque antes de nos rebelarmos preferimos morrer (S. Eucher. apud Ruinart, Act. ss. mm. de Ss Maurit. et Soc., n. 4). E esta conduta dos primeiros cristãos brilha com esplêndidos fulgores; pois é de se notar que, além da razão, não faltava aos cristãos, nem a força do número nem o esforço da valentia, se quisessem lutar contra seus inimigos. Somos de ontem, diz Tertuliano, e já ocupamos todas as vossas casas, cidades, ilhas, municípios, os mesmos acampamentos com suas tribos e decúrias, os palácios, o senado, o fórum... De que lutas não seremos capazes, mesmo com forças inferiores, os que morremos tão alegremente, só porque em nossa disciplina é mais lícito morrer do que matar? Se, negando-vos a cooperação de nossas forças, nos retirássemos a um lugar distante da terra, a perda de tantos e tais cidadãos teria enfraquecido vosso domínio, digo melhor, quiçá o houvésseis perdido; não há duvidar que vos espantareis com vossa própria solidão... não encontrareis a quem comandar, teríeis mais inimigos que cidadãos; mas agora, ao contrário, deveis ao grande número dos cristãos o terdes menos inimigos (In apologet., cap. 37).

15. Estes exemplos preclaros de inquebrantável sujeição aos príncipes, baseados nos santíssimos preceitos da religião cristã, condenam a insolência e a gravidade dos que, instigados por torpe desejo de liberdade sem freios, outra coisa não se propõem do que calcar os direitos dos príncipes e reduzir os povos a mísera escravidão, enganando-os com aparências de liberdade. Este foi o objectivo dos valdenses, dos begardos, dos wiclefitas e de outros filhos de Belial que foram a desonra do gênero humano, tantas vezes anatematizados pela Sé Apostólica. Sem outro motivo senão o de se congratularem com Lutero por haver rompido todo vínculo de dependência, esses inovadores se esforçam audazmente por perpetrar as maiores maldades.

Males da separação da Igreja e do Estado

16. Mais grato não é também à religião e ao principado civil o que se pode esperar do desejo dos que procuram separar a Igreja e o Estado, e romper a mútua concórdia do sacerdócio e do império. Sabe-se, com efeito, que os amadores da falsa liberdade temeram ante a concórdia, que sempre produziu resultados magníficos, nas coisas sagradas e civis.

Liberdade do mal que certas associações apregoam

17. A muitas outras coisas de não pouca importância, que Nos trazem preocupado e enchem de dor, devem-se acrescer certas associações ou assembleias, as quais, confederando-se com sectários de qualquer religião, simulando sentimentos de piedade e afeto para com a religião, mas na verdade possuídas inteiramente do desejo de novidades e de promover sedições em toda parte, pregam liberdades de tal jaez, suscitam perturbações nas coisas sagradas e civis, desprezando qualquer autoridade, por mais santa que seja.

O remédio desses males está na palavra de Deus

18. Com o coração, pois, transido de tristeza, mas confiante inteiramente n'Aquele que manda aos ventos e acalma as tempestades, escrevemos estas coisas, Veneráveis Irmãos, para que, armados da couraça da fé, combatais galhardamente os combates do Senhor. É dever vosso manter dentro dos limites todo aquele que se levanta contra a ciência do Senhor. Pregai a palavra de Deus, para que tenham pasto saudável os que desejam a justiça; pois fostes eleitos para serdes cultivadores diligentes da vinha do Senhor; trabalhai, todos unidos, com empenho, para arrancar as más raízes do campo que vos foi confiado e para que, reprimido todo germe de vício, ali mesmo floresça copiosa a messe das virtudes. Abraçai, de modo especial, e com afeto paternal, aos que se dedicam à ciência sagrada e à filosofia, exortando-os e guiando-os a fim de que não aconteça que, estribando-se imprudentemente em suas forças, se afastem do caminho da verdade, para seguir as sendas dos ímpios. Entendam que Deus é Senhor da sabedoria e emendador dos sábios (Sab. 7, 15) e que é impossível compreender a Deus sem Deus (S. Irineu, lib. 14, cap. 10); Deus, que pelo Verbo ensina aos homens a conhecer Deus. É próprio de homens soberbos ou antes néscios querer sujeitar ao critério humano os mistérios da fé, que ultrapassam a capacidade humana, confiando unicamente em nossa razão, que por natureza é débil e fraca.

Os governantes devem auxiliar a Igreja

19. Finalmente, secundem os príncipes estes nossos santos desejos de feliz êxito das coisas sagradas e profanas com seu poder e autoridade, pois não a receberam somente para o governo temporal, mas também para a defesa e guarda da Igreja. Saibam que, quanto se faz em favor da Igreja, destina-se, ao mesmo tempo, ao bem-estar e à paz do império; convençam-se sempre mais que devem maior estima à causa da fé que à do reino, e que serão maiores se, segundo S. Leão, à sua coroa de reis se ajuntar a da fé. Já que tem sido constituídos como pais e tutores dos povos, proporcionar-lhes-ão verdadeira felicidade e tranqüilidade, se dirigirem seus cuidados especialmente para conservar incólume a religião daquele Senhor, cujo poder está expressado naquela passagem do salmo: Rei dos reis e Senhor dos que dominam.

Esperança em Maria

20. E ara que todos estes desejos se realizem propícia e felizmente, elevemos nossos olhares e mãos à Santíssima Virgem Maria, a única que destruiu todas as heresias e constitui a nossa maior esperança (S. Bernardo, sem. De nativitate B. M. V., 57). Peça Ela mesma, com sua intercessão poderosa, para que nossos desejos, conselhos e ações sejam coroados do êxito mais feliz, nesta grande necessidade do povo cristão. Peçamos humildemente aos Apóstolos S. Pedro e S. Paulo o dom de permanecermos firmes e constantes em não permitir e nem querer outro fundamento que aquele sobre o qual estamos cimentados. Apoiado nesta doce esperança, esperamos que o autor e consumador da fé, Cristo Jesus, nos consolará nestas grandes tribulações, e, em penhor do divino auxílio, damo-vos, Veneráveis Irmãos, e às ovelhas que vos foram confiadas, a Benção Apostólica.

Dada em Roma, em Santa Maria Maior, dia da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria, 14 de Agosto do ano do Senhor de 1832, segundo de Nosso Pontificado.

Gregório XVI, Papa.
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