sexta-feira, 25 de julho de 2014

Sartre, o falso profeta.

Sartre: o apóstolo do absurdo
Por Peter Kreeft

Jean-Paul Sartre (1905-1980) talvez seja o mais famoso ateu do século XX. Apesar disso, levou mais indecisos rumo à Fé do que muitos apologetas cristãos, porque fez do ateísmo uma experiência tão exigente – quase insuportável – que poucos puderam agüentá-la.
Nas próprias palavras de Sartre, “o existencialismo nada mais é do que o esforço por extrair todas as conseqüências da postura atéia”. Ateus acomodados que lêem Sartre tornam-se ateus incomodados, e um ateísmo incômodo é um gigantesco passo rumo a Deus. Isso é algo que devemos agradecer-lhe.

Sartre chamou a sua filosofia de “existencialismo” porque defendia que “a existência precede a essência”. Isso significa concretamente que “o homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo”. Como não existiria um Deus para projetá-lo, o homem não teria nenhum plano, nenhuma essência. A sua essência ou natureza não viria de um Deus Criador: seria fruto exclusivo das suas próprias escolhas livres.

Há algo de muito profundo nessa tese, mesmo que logo depois esse “algo” seja subvertido. Trata-se do fato de que, mediante as suas escolhas livres, o homem determina aquilo que virá a ser. Deus realmente cria tudo o que o homem é, mas o modo de ser é algo que só pode pertencer a cada um individualmente. Deus faz o nosso “quê”, mas cada um faz o seu “quem”. O Senhor concede-nos a honra de colaborar na nossa própria criação, ou “co-criação”. Compartilha conosco a tarefa de criar o nosso “eu”. Dá a matéria prima – o ambiente, a hereditariedade –, mas sou eu quem dá a forma final a mim mesmo, por meio das escolhas que livremente vou fazendo.

Infelizmente, Sartre sustenta que isso é prova da não-existência de Deus, pois se Deus existisse, o homem ficaria reduzido à condição de “mero artefato divino”, e portanto não seria livre. Sartre insiste com freqüência em que a liberdade e a dignidade humanas requereriam o ateísmo. Sua atitude perante Deus faz lembrar a famosa frase que precede os duelos de caubóis nos filmes de faroeste: “Esta cidade é pequena demais para nós dois: um de nós tem de sair”.

A legítima observação de que a liberdade humana permite às pessoas moldarem-se, e assim as torna radicalmente diferentes das meras coisas, leva Sartre ao ateísmo: 1) porque o filósofo confunde liberdade com independência; 2) porque o único Deus que ele é capaz de conceber é um deus que, em vez de criar e sustentar a liberdade humana, a eliminaria, como uma espécie de fascista cósmico; e além disso 3) porque comete o erro – típico dos adolescentes – de equiparar liberdade e rebeldia. Sartre diz que a liberdade é somente “liberdade de dizer não”.

Mas essa não é a única forma de liberdade: existe também a “liberdade de dizer sim”. Sartre pensa que a nossa liberdade fica comprometida quando dizemos sim, quando optamos por aceitar os valores que nos foram ensinados pelos nossos pais, pela nossa sociedade, ou pela Igreja. Desse modo, o que Sartre entende por liberdade é algo muito parecido com aquilo que os beatniks (1) dos anos 50 ou os hippies dos anos 60 queriam dizer com o seu lema “faça do seu jeito”, ou com aquilo que os membros da “geração do Eu” (Me generation) dos anos 70 queriam dizer com a frase “Procurando o chefe?”
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(1) Nome dado aos partidários da beat generation, movimento que surgiu nos EUA nos anos 50, formado por jovens artistas e intelectuais que se declaravam contra o modo de vida burguês e os valores da sociedade de consumo (N. do T.).
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Outro conceito que Sartre leva a sério mas distorce é a idéia de responsabilidade. Pensa que crer em Deus necessariamente diminuiria a responsabilidade humana, pois nos permitiria culpar a Deus pelo que somos em vez de nos culparmos a nós mesmos. Mas isso é evidentemente falso. O meu Pai celeste, assim como o meu pai aqui na terra, não é responsável pelas decisões que tomo nem pelo caráter que adquiro ao tomar essas decisões: a responsabilidade é minha. E essa responsabilidade não demonstra que o meu Pai celeste não exista, como tampouco demonstra que o meu pai aqui na terra não exista.

Sartre tem uma aguçada capacidade de perceber o Mal e a perversidade humana. Diz ele: “Aprendemos a levar o Mal a sério... O Mal não é só aparente... Conhecer suas causas não o elimina. O Mal não pode ser redimido”.

No entanto, Sartre também diz que, se Deus não existe e nós criamos nossas leis e valores, o Mal não existe de verdade: “Escolher ser isto ou aquilo é ao mesmo tempo afirmar o valor daquilo que se escolhe, pois nunca podemos escolher o Mal”. Sartre, portanto, atribui ao Mal uma realidade ao mesmo tempo excessiva (“O Mal não pode ser redimido”) e insuficiente (“Nunca podemos escolher o Mal”).

O ateísmo de Sartre não afirma simplesmente que Deus não existe: afirma que Deus é impossível. Ao menos presta alguma atenção à noção bíblica de Deus como “Eu Sou”, chamando-a de a idéia mais auto-contraditória que jamais foi pensada: uma “síntese impossível” entre o ser-por-si (a personalidade subjetiva, o “Eu”) e o ser-em-si (a perfeição eterna objetiva, o “Sou”).

Deus significa pessoa perfeita, o que para Sartre seria uma contradição. Segundo ele, são possíveis coisas ou idéias perfeitas, como justiça ou verdade; são também possíveis pessoas imperfeitas, como Zeus ou Apolo; mas uma pessoa perfeita é impossível. Zeus é possível mas não é real. Deus, o Único entre os deuses, não somente seria irreal como também impossível.

Se Deus é impossível, e é amor, então o amor é impossível. O que mais choca em Sartre é a sua negação de que possa haver um amor genuíno e altruísta. Muitos ateus substituem Deus pelo amor humano para acreditar neste amor. Mas Sartre alega que isso é impossível. Por quê?

Porque se não existe Deus, então cada indivíduo é Deus. Mas só pode haver um Deus, só pode haver um absoluto. Portanto, as relações interpessoais são fundamentalmente relações de rivalidade. Nisto Sartre faz eco a Maquiavel. Cada um de nós desempenha o papel de Deus diante dos outros: sendo eu o autor do enredo da minha própria vida, necessariamente reduzo os outros a meros coadjuvantes.

Há uma palavrinha que as pessoas comuns pensam que se refere a algo real, e que os namorados acham que é algo mágico, mas que Sartre considera algo impossível e ilusório: trata-se da palavra “nós”. Não pode haver o “nós”, não existiria nenhuma comunidade, nenhum amor abnegado, se o que estamos sempre tentando é ser Deus: o único sujeito individual é o “eu”.

A mais famosa peça de teatro escrita por Sartre, intitulada Huis clos (“Recinto fechado”), mostra três mortos numa sala infernizando uns aos outros, simplesmente por bancarem Deus perante os restantes. Mas não no sentido de tentarem exercer o seu poder umas sobre as outras: cada uma simplesmente ignora as outras, tratando-as como meros objetos. A chocante lição da peça é que “o inferno são os outros”.

De fato é preciso ter uma mente muito aguda para conseguir dizer uma coisa tão falsa como essa. Porque a verdade é justamente o contrário: o Inferno é a completa ausência de outras pessoas, sejam humanas ou divinas. O Inferno é a solidão absoluta. O Céu são as outras pessoas, porque o Céu é onde Deus está, e Deus é uma Trindade. Deus é Amor, Deus é “outras pessoas”, é “nós”.

A firmeza de Sartre em ir até às últimas conseqüências empresta-lhe um ar de honestidade até certo ponto atraente, apesar das suas repugnantes conclusões sobre a ausência de um sentido para a vida, sobre a arbitrariedade dos valores e sobre a impossibilidade do amor. Mas essa peculiar coerência ou honestidade, esteja ou não profundamente arraigada no seu caráter, perde qualquer significado e torna-se trivial em virtude da sua negação de Deus e, portanto, da Verdade objetiva. Se não há uma Mente divina, então não existe nenhuma verdade além daquela que cada qual fabrica para si mesmo. Por isso, que sentido tem ser coerente ou honesto, se eu não tenho nada a respeitar além de mim?

Assim, devemos fazer um juízo misto a respeito de Sartre, e de qualquer forma agradecer-lhe por ser tão repulsivo como fruto dessa sua coerência. Sartre mostra-nos a verdadeira face do ateísmo: o absurdo (o absurdo de um mundo abstrato) e a náusea (é a imagem que ele próprio utiliza, e o título de seu primeiro grande romance).

O livro La nausée (“A náusea”) conta a história de um homem que, após uma árdua busca, depara-se com a terrível verdade de que a vida não tem sentido: é um dejeto da náusea, como um vômito ou um excremento. (Sartre usa deliberadamente imagens asquerosas porque acha que a vida é mesmo asquerosa).

Não podemos senão concordar com William Barrett, quando diz que, “se alguém está pronto para usar isso (a náusea) como desculpa para jogar fora toda a filosofia de Sartre, devemos fazer-lhe ver que é melhor encontrar a própria existência com desgosto do que não encontrá-la nunca”.

Em outras palavras, a importância de Sartre é similar à do Eclesiastes: formula as mais altas perguntas, com uma coragem inabalável, e temos de admirá-lo por isso. Infelizmente ele nos oferece a pior das respostas, tal como faz o Eclesiastes: “Vaidade das vaidades: tudo é vaidade”.

Só nos resta ter pena dele e de todos os outros ateus que tenham lucidez suficiente para perceberem – como Sartre percebeu – que “sem Deus, tudo é permitido”... mas nada tem sentido.


Fonte: Site do autor
Tradução: Fernando Salles
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