segunda-feira, 14 de julho de 2014

REVOLUÇÃO FRANCESA - PARTE 5.

A Revolução Francesa e a Igreja - PARTE 5.
Por Quadrante

É comum afirmar que a Igreja Católica, imbuída de uma mentalidade obscurantista e autoritária, opôs-se aos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade pregados pela Revolução Francesa. Entretanto, um estudo mais aprofundado dos acontecimentos ocorridos na França durante esse conturbado período mostra que a realidade é bem mais complexa do que parece.
A repercussão foi espantosa. A Espanha declarou guerra à França e o oeste francês, rural e conservador, levantou-se em armas “em nome do rei e da santa religião”: era a guerra civil da Vendéia, que se prolongaria numa guerrilha atroz e interminável até a época de Napoleão. Em Paris, que já não era “mais que uma grande cidade sitiada”, adiou-se a aplicação da recém-aprovada Constituição do Ano I, a primeira autenticamente democrática; a Assembléia, em mais uma das suas transformações, autoproclamou-se Convenção; e criaram-se as instituições de exceção: o Comitê de Salvação Pública, o Comitê Geral de Segurança e os Tribunais Revolucionários.



A revolta da Vendéia e os Tribunais de Salvação Pública


Em junho, os “montanheses” conseguem maioria no Comitê de Salvação Pública e, apoiados na Comuna Insurrecional de Paris, começam a eliminar os girondinos. Abre-se o período do Terror. Durante um ano inteiro, de julho de 1793 até julho de 1794, a guilhotina estará em funcionamento permanente em duas praças centrais de Paris, e cada capital de departamento disporá também da sua. Suceder-se-ão nela os diversos desafetos políticos do ditador reinante – primeiro, os girondinos, que sucumbem aos ataques de Marat; depois, os partidários de Marat e os de Hébert, destronados por Danton e Robespierre; os do mesmo Danton e de Desmoulins, derrotados por Robespierre; e por fim o próprio Robespierre, derrubado pelo conjunto dos deputados sobreviventes. As rebeliões da Vendéia, de Lyon e de Toulon serão impiedosamente esmagadas, com abundância de sangue; e a guerra nas fronteiras, conduzida por soldados esfarrapados e famintos, mas fanáticos, ganhará novo alento e salvará a República.



O assassinato de Marat
No plano religioso, passava-se da descatolicização para a descristianização aberta – a déprêtrisation, literalmente “despadrização”. Instituiu-se o divórcio e passou-se o registro civil para as mãos das autoridades municipais. Por iniciativa do procurador-síndico da Comuna de Paris, Pierre-Gaspard Chaumette, a Igreja constitucional foi por sua vez despojada dos seus bens e os palácios episcopais vendidos. Suprimiram-se os lugares de culto, transformados – a exemplo da igreja de la Madeleine, em Paris – em “panteões” onde se veneravam estátuas de Voltaire, Rousseau, Benjamin Franklin e outros ilustres iluminados, bem como dos “mártires da liberdade”, como Marat, assassinado por uma donzela girondina um tanto desequilibrada .

Todos os padres, juramentados ou não , foram intimados a entregar as suas “lettres de prêtrise”, os documentos que os acreditavam como sacerdotes; e, num lance entre cômico e trágico, o Comitê de Salvação Pública fez-se “casamenteiro”: decretou que a todo o sacerdote casado, mesmo refratário, se perdoariam a prisão e a deportação... Se os comitês de milicianos já organizavam, por conta própria, os chamados “casamentos republicanos”, em que um sacerdote era amarrado estreitamente a uma paroquiana e ambos lançados à água para se afogarem, agora será o governo em peso que assumirá a tarefa de conduzir sacerdotes e religiosos ao porto seguro do himeneu...



Acima, o novo calendário criado pelos revolucionários e, em baixo, o a festa do Ser supremo e da “deusa razão”



Desmantelada a Igreja como instituição, passou-se a combater os “vestígios da Superstição e do Fanatismo”. Criou-se um novo calendário destinado a substituir o cristão, dividido em décadis (conjuntos de dez dias, dos quais o décimo seria feriado) a fim de fazer esquecer os domingos. As festas religiosas foram substituídas por celebrações da Natureza e da Razão ou das grandes datas patrióticas. E, para celebrar a “grande data” em que diversos sacerdotes juramentados, com o arcebispo constitucional de Paris – Gobel – à cabeça, se tinham “despadrizado” em plena sessão da Assembléia, realizou-se, na catedral de Notre-Dame, a 10 de novembro, a “festa da Razão”, em que uma dançarina de branco representava a “deusa”. Essas celebrações republicanas, pautadas pelas cerimônias romanas pagãs, chegaram a estar de moda durante algum tempo, embora “não servissem senão para cobrir de ridículo os que nelas tomavam parte”...

Em começos de novembro de 1793, o presidente do clube jacobino, Robespierre, já em alta, tinha conseguido que a Assembléia reconhecesse por um decreto a existência do Ser Supremo e a imortalidade da alma, o que lhe serviria dentro em pouco para fazer condenar os seus rivais Danton e Desmoulins por “ateísmo”. Um pouco mais tarde, arrancou à Assembléia um decreto sobre a liberdade de culto, do qual ninguém quis tomar conhecimento. Mas não havia, por trás dessas medidas, nenhuma simpatia pelo cristianismo, e sim apenas a mística revolucionária na sua expressão mais pura. O maior triunfo pessoal do ditador foi presidir como sumo-sacerdote à procissão e festa “do Ser Supremo e da Natureza”, a 8 de julho de 1794. E, por mais vinte dias, poderia ainda alimentar a ilusão de que tinha substituído o cristianismo pela sua própria religião ...

A Igreja constitucional ruiu quase inteiramente sob os golpes. 24.000 de 29.000 sacerdotes juramentados abandonaram o hábito e a vida sacerdotal, e até a prática religiosa. Além do nosso conhecido Gobel – “o povo pediu a minha presença, o povo agora manda-me embora: é o destino de um servo às ordens do seu mestre” –, vinte e quatro bispos juramentados apostataram publicamente, enquanto vinte outros renunciaram ao sacerdócio ou se secularizaram. Apenas um terço permaneceu firme, entre eles o antigo pe. Grégoire, agora bispo de Loire-et-Cher, que vimos jurar com tanto entusiasmo a Constituição civil, e que foi o único eclesiástico a permanecer na Convenção durante esse período, ousando desfraldar as suas vestes roxas pelas ruas de Paris:
“Católico por convicção e por sentimentos, sacerdote por vocação, fui designado pelo povo para ser bispo, mas não foi dele nem de vós [os seus colegas deputados] que recebi esta missão”...

Também entre os juramentados houve heróis e até autênticos mártires: mais de quinhentos sacerdotes foram enviados à guilhotina em Paris, e oito bispos tiveram o mesmo destino. E, como em todo o ser humano resta sempre a possibilidade do retorno à nobreza interior, o nosso ignóbil amigo Gobel, que foi preso pouco depois da apostasia e condenado à decapitação por “incitar o povo ao ateísmo”, ainda teve tempo de escrever ao seu vigário que oferecia a vida em expiação
“pelos crimes e escândalos que havia cometido”, pedindo-lhe que o esperasse junto do cadafalso para lhe dar a absolvição.

Quanto à Igreja que permanecera fiel, como tinha tido tempo de organizar-se na clandestinidade, sofreu menos com essa tormenta. Muitos sacerdotes viviam ocultos havia mais de três anos, e não faltavam fiéis dispostos a escondê-los e a passá-los de casa em casa, mesmo sabendo que corriam risco de vida. No interior, as dioceses haviam-se organizado em “missões” subterrâneas: a catequese era dada por leigos, em pequenos grupos, e os sacerdotes só permaneciam numa aldeia durante uma noite, o tempo suficiente para celebrar a missa, confessar e batizar os recém-nascidos, mantendo-se escondidos durante o dia. Graças a essa renovada “Igreja das catacumbas”, quando Robespierre cair , em julho de 1794, terão sobrevivido no próprio coração da tempestade, em Paris, nada menos que cento e cinqüenta lugares onde se celebrava freqüentemente a missa.

Mesmo assim, não foram poucas as baixas sofridas pelos católicos. Os que eram presos e destinados ao exílio na Guiana foram concentrados em Rochefort; mas, como os ingleses impediam o trânsito de navios franceses pelo Atlântico, foram confinados em dois barcos-prisão por meses a fio, num suplício que recebeu o apelido de “guilhotina seca” ( sem sangue ); ao cabo de um ano, de 850, apenas sobreviviam 274. Milhares de sacerdotes – os números variam entre dois e cinco mil – foram guilhotinados, afogados, arrastados por cavalos ou simplesmente mortos a pauladas.

O número de leigos que deu a vida pela fé é incontável. Houve cenas com um inconfundível sabor a primitiva cristandade, pois em muitos casos bastava a confissão da fé diante do Tribunal Revolucionário para condenar o acusado à morte. – “Você é fanático?”, perguntou um dos juízes de Lyon a um certo Auroze, comerciante: – “Serei tudo o que vocês quiserem, mas sou católico”, foi a simples resposta. Resultado: guilhotina. E foram também numerosas as religiosas que subiram ao cadafalso, como as carmelitas de Compiègne, as sacramentinas de Bollène, as ursulinas de Valenciennes e as filhas da Caridade de Arras.

Nem todos os que morreram durante o Terror foram mártires, como é evidente; ou seja, nem todos morreram unicamente pela fé. Da parte dos perseguidores, o ódio à monarquia e aos “traidores da pátria”, como consideravam os refratários, misturou-se e muitas vezes predominou sobre o ódio à religião; da parte dos perseguidos, essa incapacidade de discernir entre o político e o religioso também esteve presente com freqüência. Mas os requintes de crueldade de que se revestiram precisamente os massacres de sacerdotes e religiosos, e o encarniçamento satânico contra todos os símbolos cristãos – destruíram-se os belíssimos vitrais de quase todas as igrejas góticas, arrasaram-se mosteiros de antiqüíssima tradição como Cluny, arrancaram-se até as simples cruzes de madeira fincadas à beira das estradas – mostram com clareza que se assistia ao desencadeamento de algo mais do que meras paixões políticas: como Cristo , também os cristãos tiveram de submeter-se à hora e ao poder das trevas (Lc 22, 53).

No dia 28 de julho, Robespierre subia por sua vez à guilhotina. A França, tomada pela “náusea do cadafalso”, respirou aliviada. Em questão de dias, o clima social virou, e uma onda de fervor religioso tomou conta da Nação. Sem que a Convenção tivesse abrandado as leis em vigor, sacerdotes e bispos exilados começaram a retornar, os clandestinos saíram dos seus refúgios, as igrejas foram reabertas.



As noyades (afogamentos) em Nantes de Carrier
A 21 de fevereiro de 1795, votava-se uma lei de separação entre Igreja e Estado, que permitia a liberdade de culto. Os sacerdotes ainda prisioneiros foram libertados. Voltou-se a celebrar a Páscoa segundo o calendário católico, embora oficialmente permanecesse em vigor o revolucionário.


Fonte: A última ao Cadafalso, Gertrud von le Fort, Quadrante.
Tradução: Quadrante
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